O QUE HOUDINI ESTARIA FAZENDO HOJE…

ESTARIA ELE SE PROMOVENDO NA INTERNET?

Escrito e ilustrado por Henri Sardou

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Se perguntarmos, entre leigos e mágicos, quem é o mágico mais famoso do mundo – vivo ou morto – chegaremos rapidamente a alguns nomes, contudo a grande maioria vai responder um só. Ele mesmo, Houdini, o homem, não só o artista ou o mágico, a personalidade mais famosa do mundo no século XX. Mas se você indagar na rua quem foi Ehrich Weisz ninguém vai saber te responder.

Essa foi a primeira grande sacada de Harry Houdini, ter tomado para si um nome semelhante ao do francês Robert Houdin – considerado o pai da mágica moderna e um dos mágicos mais famosos até então – com sonoridade já associada ao ilusionismo entre artistas e leigos. Mais que um bom mágico, Houdini era um gênio do marketing e se preocupou com a construção da sua marca, desde o naming (criação do nome) até o posicionamento, se colocando no top of mind até hoje quando o assunto é mágica.

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Jean Eugène Robert-Houdin foi o pioneiro em levar a mágica para os palcos elegantes dos teatros.

Nesse momento você deve estar estranhando um artigo falando sobre marketing digital começar falando de Houdini, um mágico que já está morto há quase cem anos sem sequer ter visto uma calculadora eletrônica na frente.

“Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele”.

Simples, porque Houdini foi o primeiro mágico, o primeiro artista, que se deu conta do poder que as histórias que são contadas têm. Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele.  Houdini chegava em uma cidade e fazia questão de ser desafiado pelo homem mais forte do local, que lhe dava um soco na barriga, sem que ele sentisse absolutamente nada. Isso não só era um feito memorável, como também uma isca para atrair atenção da imprensa para a turnê que começaria na cidade. Sabe como é o nome disso? Marketing.

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Houdini só não esperava levar um soco enquanto estava despreparado, o que acabou levando-o à morte.

Esse mesmo marketing que levou o título de ”King of Cards” a se perpetuar até hoje, mesmo Houdini não tendo sido tão hábil com as cartas, perpetuando esse mito. Inclusive, para sermos honestos, Houdini era um mágico bem mediano, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos.

Deixando de lado a iconoclastia sobre a mágica de Houdini, o fato é que ele era capaz de fazer eventos ao ar livre, para milhares de pessoas assistirem, antes sequer da televisão. Esses espectadores que testemunhavam os feitos espetaculares dele, no dia seguinte comentavam e mostravam a quem não tinha visto através dos jornais. Isso amplificava a popularidade de Houdini de uma forma tão grande e eficaz, que logo sua fama atravessou o atlântico, consagrando Houdini como a primeira celebridade global de que se tem notícia, num mundo onde mal existia telegrama, quem diria telefone ou WhatsApp, vale lembrar.

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Multidão de 12 mil espectadores vendo Houdini se libertar de uma camisa de força.

 

“Houdini era um mágico bem normalzão, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos”.

É exatamente esse conceito que eu venho lembrar aqui. Os mágicos devem construir sua audiência, exatamente como Houdini fez. Não importa se você não se sente o melhor mágico do mundo (difícil, hein?), você tem que fazer parecer isso, de forma profissional e consistente, usando os meios de comunicação modernos e fazendo marketing digital.

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HOUDINI TERIA SEU PRÓPRIO “JORNAL” HOJE

A grande facilidade da internet é a possibilidade de cada um ter seu próprio jornal de grande circulação, sua mídia particular. Não apenas um jornal, mas um canal de televisão inteiro, com revistas, correio e uma empresa de telefonia junto. As redes sociais possibilitam muito mais interação e têm uma penetração maior ainda.

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Harry Houdini teria uma fanpage, mas não convidaria mágicos para curtir.

Antigamente o jornal estava presente na mesa do café da manhã, no escritório e no máximo no banheiro. Hoje nós levamos o celular para todos esses lugares, além do carro, da cama, cozinha e até da banheira.

Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias, tenha certeza, e seria um guru do marketing digital. Estaria transmitindo seus feitos para milhares de pessoas numa live, estaria postando vídeos de performances e vídeos promocionais de sua turnê, estaria fazendo bom proveito de todos os recursos que as mídias sociais oferecem, para amplificar e potencializar seus feitos espetaculares.

Sim, porque mágicos fazem coisas espetaculares, você deve saber disso se chegou até aqui, né? Agora imagine que mágicos são contratados frequentemente por outros artistas para chamarem atenção para um lançamento ou uma participação no show, espetáculo ou no clipe. São contratados para promoverem lançamentos de produtos com mágica, porque a mágica chama atenção e fixa a mensagem na cabeça do consumidor. Fazem shows em eventos sociais porque as pessoas querem ter um momento mágico, único e inesquecível em suas festas. Estão em festas, eventos produções teatrais e audiovisuais, shows e até em desfiles de escola de samba. Então por que diabos os próprios mágicos não usam a si mesmos para causar os mesmos resultados que as pessoas que os contratam objetivam, em sua própria audiência?

“Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias”

Ao contrário, o que se vê frequentemente são mágicos postando um festival de imagens terríveis, com textos sofríveis, ou artes apoteoticamente horríveis na internet. Vemos diariamente mágicos divulgando seus serviços para outros mágicos (?!) em grupos, além de bom dia, chorume e discussão bolsonaro 2018, ou o que é pior, vemos um milhão de notificações tipo ”Fulano convidou você para curtir a página Mágico Fulano dele”.

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1) O mágico posta, curte, compartilha e comenta a própria postagem em um grupo de mágica;    2) O slogan que fala exatamente o oposto do que o cliente precisa ouvir (no cartão está escrito “O mágico que falta em sua festa!“); 3) Convidar outros mágicos para curtir a sua página é um tremendo tiro no pé!

Tudo isso a gente testemunha diariamente, mas o que é bom para construir audiência e impactar clientes, futuros contratantes e construir reputação não, isso quase ninguém vê. Harry estaria mais uma vez nadando de braçada na frente dessa concorrência hoje em dia, usando estrategicamente os novos meios de comunicação que são as redes sociais.

Quem não usa, por exemplo, o Facebook – para negócios – e não tá disposto a usar comercialmente, pode fechar esse texto, ir tomar um café, um shot de cicuta ou se matar com um tiro na cabeça, porque já está morto, assim como Ehrich Weisz. O mundo muda dia a dia e se há dez anos atrás o Facebook nem existia no Brasil, hoje se você não estiver na maior rede social do mundo quem não existe é você.

Portanto, se você não está agindo engenhosamente no digital, encomende sua lápide, porque é só isso que falta.

BALABREGA, O MÁGICO QUE MORREU NO BRASIL (E SUA ESPOSA QUE ABALOU O IMPERADOR)

“(…) fez explosão a caldeira geradora de gas acetylene matando instantaneamente o director e ferindo : mortalmente o prestidigitador Balabrega e um seu companheiro”

Jornal “A Província” de 13 de junho de 1900 (a grafia original foi mantida).

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Johan Moller nasceu em Helsingbrod, Suécia, em 20 de agosto de 1857 e aos 11 anos de idade, migrou para os EUA onde seu nome foi anglicizado para John Miller. Comeceu na mágica ainda cedo já sob a alcunha de Balabrega, “O garoto mágico” e “A maravilha sueca”. Segundo consta, o nome foi inspirado pelo seu pai, que também era artista, embora não fique claro nem o ramo artístico do pai, tampouco o porquê deste nome tão exótico.

balabrega - wonder boy

Balabrega excursionou principalmente pela América Latina onde fez relativo sucesso. Uma curiosidade, em Pernambuco, “balabrega” é uma gíria que significa “engano”, “charlatão”. Provavelmente a expressão nasceu por causa do mágico.

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O historiador Nadur traz algumas informações importantes sobre Balabrega: seu show abarcava mentalismo, manipulações e magia de palco. Era acompanhado de sua mulher, Emma Lynden que apresentava um número de canários amestrados e tocava diversos instrumentos, entre eles, xilofone e garrafas com água.

Segundo Mike Caveney, o casal foi a primeira dupla a apresentar o número de “Segunda Visão” em espanhol e ainda, os primeiros a apresentá-lo na América do Sul. Isso explica, em parte, o grande sucesso e apelo público dos Balabrega aqui na América Latina.balabrega

O show de Balabrega era grande, em todos os aspectos.  Uma de suas ilusões se chamava “Tahuma” e consistia em uma mulher apenas da cintura pra cima. A diferença para a versão clássica do truque da meia pessoa, é que na versão de Balabrega a mulher estava suspensa em um trapézio, e não sobre uma mesa, estática.

O periódico argentino “La Capital” de 17 de janeiro de 1889, teceu o seguinte comentário sobre o show de Balabrega:

“Balabrega – Até o nome remete a um prestidigitador, isto de “bala” e “brega” significa movimento, escamoteio, confusão, (…) logo vem a música de Miss Lidden que, sem ser celestial, cativa e admira e entusiasma graças à habilidade artística que a caracteriza, e a variedade notas e melodias que extrai de vários objetos: vasos de cristal, garrafas vazias e outros objetos.

Balabrega vem precedido de grande renome, e coberto de elogios e lauras conquistados nos principais teatros da Europa e América.

(…) Ademais, tem ainda os canários amestrados dirigidos pela sra. Linden, cuja simples presença no palco (…) produzem uma grata impressão e deixam uma enorme satisfação.

Sra. Linden, Balabrega, dois personagens que bastam por si sós para formar uma companhia, e para serem aplaudidos, até mesmo por aqueles menos inclinados a aplaudir.”

Nadur acrescenta ainda que Balabrega tinha um ato todo dedicado à exposição de fraudes mediúnicas. Não é arriscado dizer que Balabrega tinha todo o necessário para ser um dos maiores nomes da mágica de todos os tempos. Até que o acidente mudou tudo.

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No fim dos anos 1800, Balabrega e sua esposa estavam em um navio, cruzando o Estreito de Magalhães à bordo do navio a vapor “Cotopaxi”. As águas perigosas fizeram com que o navio naufragasse e Balabrega perdeu todo o seu equipamento. Ao invés de se abalar e reclamar no twitter, Balabrega se recompôs e montou um segundo show, que, dizem era muito melhor do que o primeiro.

Fosse pelo acidente ou não, o fato é que John Miller e Emma Linden se divorciaram e ela se mudou para Tauton, no Estado de Massachussets. Talvez ela tivesse pressentido que o acidente fora um aviso de um mal maior que viria se abater sobre John Miller. Por sua vez, Balabrega seguiu excursionando pela América Latina. Além do reconhecimento do público, ele havia adquirido algumas fazendas de fruta pela América Latina, o que explica também sua fixação pelo lado sul da linha do equador.

Ao montar o seu novo show, ele adquiriu uma nova ilusão chamada “The moth and the flames” (A mariposa e a chama).

Balabrega foto

O número consistia em vestir seis assistentes de mariposas e por uma chama no meio de palco. As assistentes se aproximavam da chama e eram “consumidas” por ela, ou seja, desapareciam. O problema é que a chama era alimentada por um tanque de acetileno. Não é difícil imaginar o que aconteceu.

As causas do acidentes não são um consenso. Alguns jornais dizem que, era impossível conseguir acetileno no Brasil de 1900. Balabrega então trouxe algumas bolsas de gás do estrangeiro e, ao tranportá- las para o palco, para o ensaio, uma das bolsas explodiu, vitimando Balabrega e um assistente, Lui Bartelle. Outro assistente ficou ferido.

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Notícia da morte de Balabrega

Outras fontes dão conta que não fora a bolsa que explodiu, mas o próprio “Bal” (apelido que ganhou por aqui) que não soube manipular corretamente o mecanismo de iluminação, superalimentando a chama. Fosse o que fosse, Balabrega faleceu em 20 de junho de 1900, no Theatro Santa Rosa, em Pernambuco. Por pouco, o teatro não incendiou por inteiro.

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Emma Lynden
De volta a Emma Linden (ou Lynden ou ainda Leyden; a grafia varia bastante), sua história não é menos curiosa. Após o divórcio foi para Tauton, Massachussets, de volta para a fazenda de sua família. Segundo consta, sua saúde estava debilitada, embora não tenha encontrado maiores detalhes sobre isso.

Em Tauton, ela casou-se novamente e em 1909, de novo, divorciou-se. Ela também abriu uma cafeteria em Nova York, mas o negócio não deu certo e ela mais uma vez voltou para Tauton. Até aí, nada de mais.

Em  07  de janeiro de 1916 ela faleceu e a nota de falecimento de jornal trouxe à tona uma curiosidade: Emma era amiga pessoal do Imperador Dom Pedro II e chegou até a acompanhá-lo em idas ao teatro.

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Los Angeles Herald, nº 59, 8 de janeiro de 1916

Segundo o NY Times da época, Emma estava no Rio de Janeiro e caiu em frente à carruagem do Imperador. Um guarda ajudou Emma a levantar-se e Dom Pedro ficou encantado com a beleza da mulher. Como forma de desculpa, ele convidou Emma para acompanhá-lo ao teatro e ela ficou no camarote real.

Mas a história melhora. Emma seria uma paixão secreta de Dom Pedro, e mais, ela teria sido uma das razões para o golpe de Marechal Deodoro que derrubou o Império. O jornal St. Louis Post-Dispatch, traz maiores detalhes, dizendo que o Imperador dava seguidos presentes a Emma e isso foi um dos motivos que os revolucionários apontaram para tomar o poder.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Nadur, “Historias y curiosidades del ilusionismo

Livro: Mike Caveney, “Classic Correspondence from Egyptian Hall Museum

 

IMRO FOX – O HUMORISTA QUE ERA CHEF E VIROU MÁGICO

Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões

Imro Fox

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Imro Fox
Imro Fox

O ano era 1880 e a cidade era Nova York. O hotel Lawrence era um famoso ponto de parada dos artistas de vaudeville. Certa noite, um grupo de artistas itinerantes hospedou-se no Lawrence. A estrela do grupo era um mágico que, após a primeira performance da noite, desapareceu. Provavelmente ele reapareceria, algumas horas depois, nalgum bar da cidade. Porém, havia uma segunda sessão e o gerente da trupe não podia esperar.

Vendo o desespero no rosto do gerente da trupe, o dono do hotel, querendo ser solícito, perguntou o que estava acontecendo. Ao ficar sabendo do problema do hóspede, o dono prontamente lhe deu a solução: disse-lhe que o cozinheiro do hotel era um mágico.

O gerente então desceu até as “regiões inferiores” do hotel e, entrando na cozinha, deparou-se com uma cena pitoresca. O gerente da trupe viu Imro Fox, debruçado sobre um enorme tomo com aparência antiga. Próximo dele um gato negro o observava, impávido. Sobre as chamas, um caldeirão borbulhante. A “mise-en-scene” do lugar certamente era a do estúdio de algum poderoso conjurador. Mas na vida real as coisas sempre são um pouco menos surreais.

Fox estava lendo um dicionário francês – e não um grimório ou coisa que o valha; o chef estava preparando um menu novo para o hotel (em outras palavras, dando nomes franceses para velhos pratos novaiorquinos); o gato, era um animal comum, mascote da cozinha, companhia habitual de Imro, e não um imp ou demônio familiar. Por fim, no caldeirão, apenas sopa.

Você é o chef, creio” disse o gerente da trupe.
Sim, eu sou“, respondeu Fox.
E você é um conjurador amador?
Eu me distraio com alguns truques, eventualmente…
É você mesmo que eu procuro. Eu gerencio uma trupe de vaudeville. E o cavalheiro que faz mágica para mim, acabou saindo para uma farra, e…
Entendo!” interrompeu o chef, “O velho truque da garrafa que nunca acaba“.
Quero que você assuma o lugar do mágico“, seguiu impassível o gerente, “pelo resto da semana. E não s epreocupe que eu arranjo tudo com o dono do hotel.
Caralh*!“, exclamou Fox em alemão, “nunca sequer pisei em um palco em toda a minha vida. Eu iria morrer de medo. Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões.
Bobagem!” retrucou o homem do teatro, “Me ajude, como uma pessoa boa que você é. E no mais, você será recompensado por isso.

Após mais algum tempo, Fox topou o convite e mais tarde naquela noite, Imro subia ao palco vestindo um terno que claramente não fora confeccionado para ele. Tremendo de medo ele fez uma reverência para a plateia e,  com a voz trêmula,  quebrou o gelo com uma piada: “Senhoras e senhores. Por que a minha cabeça é como o céu? Por que aqui em cima também não tem nada para fazer…[1] A plateia riu, Imro sentiu a tensão incial diminuir e, no embalo do bom momento, fez um truque de cartas.

Enquanto isso, na coxia, o gerente sorria e pensava consigo mesmo: “Muito bom, muito bom!

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Imro Fox nasceu em 21 de maio de 1862 [2] em Bromberg, Alemanha (embora hoje, graças ao Tratado de Versales, a cidade se chame Bydgoszcz e fique na Polônia). Seu nome de batismo era Isidore Fuchs. Aos 17 anos sua família migrou para os Estados Unidos. Seu primeiro emprego foi como chefe de cozinha no Lawrence e em pouco tempo, acabou recebendo o convite para tornar-se um mágico. Em 1888 ele adquire a cidadania americana.

Imro Fox Manipulação legierdemain
Imro Fox manipulando com “os pés”, o nome que ele dava para suas mãos.

Sua carreira começou em 1880 e ele se vendia como o “conjurador cômico”. Seu número fazia bastante sucesso a ponto de ele ser disputado por outras companhias de vaudeville. Entre 1888 e 1896, Imro excursionou por todos os EUA com pelo menos 4 companhias diferentes, incluindo a “The Rain Makers” de Frank Dumont. Imro também excursionou por Paris, Munique, Antuérpia, Roterdam, Moscou… tendo como ponto alto da carreira sua apresentação no Trocadero Palace, em Londres.

Em 1896 Imro fundou sua própria companhia de vaudeville. E neste mesmo ano ele gravou três filmes mudos para a “American Mutoscope and Biograph Company“, a primeira produtora de filmes norte-americana: “Imro Fox, Conjuror“; “Imro Fox Rabbit Trick“; e “The Human Hen[3]. Imro foi o primeiro mágico da história a gravar um filme.

Imro Fox cartaz vaudeville
Cartaz anunciando o show da companhia de Imro Fox

Em 1898 Imro funda a “The Great Triple Alliance“, uma companhia só de mágicos formada por Imro Fox, Servais LeRoy e Frederick Powell, e agenciada por M.B. Leavitt, um dos grandes nomes do entretenimento da época. O show foi incensado pela imprensa como: “os três principes do mundo das artes místicas”. A companhia excursionou até 1900.

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Excertos de guia do teatro, anunciando o show da “The Great Triple Alliance

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As apresentações de Fox também eram muito elogiadas. A revista Billboard de dezembro de 1908 escreveu:

Imro Fox, conjurador cômico e “enganador”, pertence a uma classe própria. Ele transforma os problemas da manipulação em um alegre passatempo e uma interessante meia-hora. Sua personalidade é, talvez, a parte mais impactante de sua performance, embora seu humor natural e seus trejeitos inimitáveis que, ele mesmo chama de “maravilhoso” sejam irresistivelmente engraçados. O sr. Fox é um favorito na Europa, embora seja um americano…

Imro era muito querido entre os mágicos. Contam que quando alguém se aproximava dele e pedia por uma piada, ele apresentava um truque de mágica; se pediam um truque, ele contava uma piada. E quando alguém pedia os dois? Imro fazia! Ele acreditava que sua mágica era a piada e ele buscava envolvê-la em mistério.

Outra grande qualidade de Imro era que ele sabia rir de si mesmo. Ele fazia constantes piadas acerca de sua careca. Também chamava suas mãos de “pés”, em referência à sua habilidade de manipulação; seu inglês “macarrônico” certamente auxiliava na tarefa de fazer os outros rirem. Todas as piadas de seu show tinham o própio Imro como alvo. Um de seus truques era piscar para seu público, contando assim com uma espécie de cumplicidade com a plateia.

Dizem também que ele não pegava emprestado nenhum objeto com os espectadores. Dizia ele que assim poderia fazer mais truques em um mesmo intervalo de tempo, uma vez que se evitavam deslocamentos desnecessários e explicações delongadas. Isso também afastava as suspeitas de algum tipo de combinado entre o mágico e alguém da plateia. Mas talvez a razão para essa aversão a objetos emprestados fosse porque em certo show em Montgomery, Alabama, seu assistente (não o oficial, pois este estava doente) desapareceu com um relógio de ouro de um voluntário da plateia. Dizem que a plateia até hoje espera o relógio aparecer e que Imro ficara 46 dólares mais pobre aquele dia. Sobre o sucedido, Imro se limitiva a dizer: “Bons assistentes custam caro!”

Ainda sobre o show de Imro, Henry Ridgley Evans escreveu:

Seu show é bastante original. A cortina sobe, mostrando uma caverna sombria. No meio está um caldeirão borbulhante, alimentado por bruxas à la Macbeth. Um velho necromante, vestindo um robe largo e um chapéu pontudo, entra em cena. Ele começa os seus encantamentos, quando hostes de demônios aparecem e dançam ao redor do caldeirão. De repente, entre o clangor de um trovão e o brilho de um raio, a caverna se transforma em um escritório do século XX, arrumando para uma sessão de conjuração. O decrépito feiticieiro se transforma em um cavalheiro em roupas noturnas – Sr. Fox – que começa seu entretenimento atualizado de magia moderna. Isso não é algo brilhante?

Imro Fox necromante
Imro Fox vestido de Necromante / Alquimista

Imro faleceu em 1910 em Nova York, por um capricho do destino, no saguão de um hotel. Após a primeira apresentação daquela noite, Imro foi desça Sar em seu quarto, quando sentiu um mal súbito. Ele desceu correndo até o saguão à  procura de ajuda, mas está não chegou a tempo. Imro faleceu naquele mesmo dia 04 de março. Curiosamente sua carreira começou – e terminou – em um hotel. Apesar da carreira relativamente curta, Imro foi querido por todos. Certamente, se questionado, diria em seu inglês carregado, que estava indo descobrir, afinal, se o céu era mesmo como a sua careca.

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NOTAS

[1] A piada foi adaptada para ter algum sentido em português. No original: “Why is my head like Heaven? Because there is no parting there!

[2] A data de nascimento, bem como o ano de migração de Imro não é unânime. A maioria das fontes aponta para a data mencionada no artigo. O periódico “The Crest Magician” de fevereiro de 1908, aponta 5 de maio de 1862 como a data de nascimento de Imro, bem como sua migração para a América ao 11 anos de idade, e não aos 17. Já o periódico “Magic” de Ellis Stanion, de maio de 1902, traz a data de 21 de maio de 1852 como a data de nascimento de Imro, e diz que ele migrou para a América em 1874.

[3] Infelizmente não encontrei os filmes na internet.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: “Magic” de Ellis Stanyon – Vol. II, n. 08, maio de 1902;

Periódico: “Mahatma” – Vol. I, n. 03, maio de 1895;

Periódico: “The Crest Magician” – Vol. I, n. 04, fevereiro de 1908.

Periódico: The Open Court, a Monthly Magazine – Vol 19, n. 08, julho de 1905;

QUANDO UM TRAPACEIRO VENEZUELANO PERDEU (E FICOU ETERNIZADO POR ISSO)

Artigo original escrito por Ernesto J. Navarro

Enviado a mim, por Juan Araújo

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

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Félix Vargas Chacón era um excelente jogador de cartas. Mais do que isso, era um exímio trapaceiro.  Nascido em 3 de abril de 1916, na Venezuela, Félix fez sua fama pelos cassinos do Caribe e no submundo dos jogos e trapaças. O homem era uma lenda.

Quando ainda era criança, seu pai abandou o lar por questões de segurança. Revolucionário, participou de um movimento que tentou tomar o controle da cidade das mãos do Governo Federal. O grupo falhou e, por isso, teve que passar anos escondido na clandestinidade.

Ao voltar para a legalidade, o pai pede que todos os filhos ajudem no sutento da casa. A Félix foi sobrou o encargo de capitanear uma goleta, uma pequena embarcação à vela, que levava os turistas em um passeio até a Ilha de Margarita, no norte da Venezuela.

Félix Vargas Chacón

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“MÃE, VOU CONQUISTAR O MUNDO!”

Aos 14 anos, Félix, havia adquirido gosto pelos jogos de azar e em uma certa noite, possivelmente após beber muito e farrear ainda mais, decidiu abandonar a embarcação para um “passeio”. Quando voltou percebeu que a adega do barco havia sido roubada. Seu pai o afastou das funções no barco, foi quando decidiu sair pelo mundo atrás de aventuras.

Mãe, vou conquistar o mundo!” Essa foi a despedida de Félix para a sua mãe. Ele deixou a sua cidade e viajou até a capital, Caracas. 400 km ao longo do mar do Caribe. Foi em Caracas que Félix comeceu a tecer, o que ele mesmo chamou de: “sua desordenada vida”.

Félix era gentil e encantador. Possuía um carisma natural. “Ele era capaz de lhe vender algo que você sequer tinha a intenção de comprar” conta o escritor venezuelano José Roberto Duque. Isso, somado à sua exímia habilidade de prestidigitação com cartas, transformaram Félix rapidamente no mais famoso e requisitado jogador de cartas, ou na língua nativa, tahúr, em todo o Caribe.

Ele era do tipo que lograva os ricaços e os cassinos. Basicamente aqueles que realmente não precisavam do dinheiro que perdiam. Dessa forma, acabou levando uma vida de ‘playboy’. Com suas habilidades para o ‘baccarat’ logrou viver de roubar os milhonários do Caribe“, conta Duque.

Uma pequena amostra de seu estilo de vida foi divulgado pela imprensa venezuelana em 1950. Após ser detido em Caracas, acusado de cometer um golpe, o jornal “El Nacional” publicou uma nota com o seguinte frase: “Ele era o estrangeiro mais bem vestido no México, nos últimos três anos.” Nos anos mais ativos de sua “profissão” como tahúr entrou e saiu da Venezuela tantas vezes quanto entrou e saiu da prisão.

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LA MEDICINA

Félix era um mestre nos truques com cartas e nas trapaças dos jogos de azar. Seu objetivo era simpless: lucrar o máximo possível. Em sua biografia, Félix relata que seu mais famoso golpe foi batizado de “la medicina” (“a droga”, em tradução livre).

A primeira coisa que Félix fazia era identificar empresários com empresas legalmente constituídas, mas que trabalhavam com contrabando. Se aproximava dessas pessoas, ganhava sua confiança e as estudava a fundo.

Félix dizia que as pessoas com mais estudo fazem mais perguntas, mas também creem mais facilmente a tudo que lhe respondem. Eles também não refaziam perguntas, com medo de passarem por ignorantes. Certamente uma vantagem para os golpes de Félix e uma valiosa lição até hoje.

Depois de um tempo, Félix realizava a trampa. Juntamente com três comparsas alugava alguns quartos em hoteis distintos. Juntamente com a vítima, chegava ao primeiro hotel, e um dos sócios dizia possuir dois quilos de cocaína. Félix pedia para 20 gramas já que não tinha dinheiro para comprar maior quantidade. O comparsa aceitava “vender” essa quantidade irrisória, apenas porque conhecia Félix. Féliz entregava o dinheiro e recebia um pequeno papelote de papel alumínio lacrado. Eles então saíam do hotel.

Dirigiam-se então ao segundo quarto. Nesse interim o primeiro vendedor comunicava um segundo comparsa que encontrava-se casaualmente com Félix, fingindo ser um consumidor desesperado por uma dose. Félix dizia que não podia vender a droga para ele, até porque só tinha um papelote pequeno. O comparsa oferecia então à Félix o dobro do que este havia pago pelo papelote de cocaína (que na realidade era bicarbonato de sódio).

Ato seguinte, o comprador-comparsa, alegando dificuldades de conseguir a droga, prometia pagar generosamente por uma quantidade maior. Félix e a vítima voltavam ao primeiro quarto de hotel e o tahúr tratava de pedir os dois quilos de cocaína fiado. Como Felix era menor de 90 anos e não estava acompanhado dos pais, a oferta era, obviamente negada.

Vendo a possibilidade de ganhar dinheiro fácil e rápido, a vítima, movida pela ganância, aceitava por seu próprio dinheiro no negócio. Quando se dirigiam ao econcontro do usuário para vender-lhe a droga, eram interceptados por um policial de verdade, porém comparsa de Félix. Ele dava voz de prisão aos homens, mas para evitar problemas burocráticos, topava deixá-los ir embora, se lhe entregassem a droga e prometessem nunca mais se envolver com aquilo. A oferta era prontamente aceita. Assim, se perdia a droga, o papelote e o dinheiro já estava pago. Essa receita rendeu a Félix, milhares de dólares.

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UMA BOA VIDA

Seus golpes sempre lhe renderam grandes cifras de dinheiro, o que facilitou a sua entrada na alta sociedade, em especial nos círculos políticos e de entretenimento na Venezuela, México, Cuba, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, entre outros países. Em suas memórias, garantiu ter conhecido Fidel Castro quando este estava na iminência de tomar a ilha. Conheceu também Che, Raúl e outros guerrilheiros.

Suas memórias aliás, viraram um livro, publicado ainda na década de 1970. Está recheado de histórias fantásticas como da fuga de uma prisão mexicana em meados de 1953 a bordo de um Cadillac zero quilômetro junto com uma aeromoça. Um roteiro de filme, sem dúvidas. Outra história curiosa foi quando conheceu a sua esposa durante uma luta de boxe entre dois campões olímpicos.

Félix viveu uma vida de extremos: cercou-se de homens bons e homens maus, heróis e delinquentes, gregos e troianos, segundo suas próprias palavras. Esses contatos lhe abriram portas. Instalou no México alguns cabarés que serviam à nata da sociedade. Todos queriam beber com Félix.

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UM NOVO TRAPACEIRO ARREPENDIDO

Félix conta em seu livro suas aventuras, mas também fala de sua “conversão”. Após o casamento se arrepende de seus crimes e se dedica a emendar a sua vida, e a instruir os demais sobre os perigos dos jogos de azar e das drogas. A história se repete

Seu livro no fim das contas, serve tanto como relato biográfico, como uma grande e completa reportagem sobre a delinquencia e o mundo interno dos cassinos e jogos de azar.

No fim das contas foram quarenta anos de delitos. Félix sempre reconhecera que grande parte de sua sorte estava embasada nos contatos políticos que havia colecionado ao longo dos anos. também sabia que suas histórias poderiam servir de lição para outros. Não a toa, todas as três edições do livro sempre constaram como esgotada. mesmo hoje, é difícil de achar uma cópia. A que está disponível na Biblioteca Nacional da Venezuela, está guardada no acervo “raros”.

Na Venezuela, um livro com boas vendas vende algo entre 2.000 e 3.000 cópias. O livro de Félix vendeu 65.000. Seus livros vendiam como pão quente, pois não contavam apenas a história do mais universal tahúr da Venezuela, mas a história de Cuba de Batista e a decomposição da própria Venezuela.

Não houve tahúr como ele no Caribe, com uma habilidade inata para a psicologia. Conhecia a fundo suas vítimas. Mas também era humano e bondoso. Era dificil desgostar de quem roubava homens de colarinho branco e outros delinquantes“, contou seu amigo, o poeta Juan Calzadilla.

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A MORTE E A ETERNIZAÇÃO DO TAHÚR

No fim de sua vida, Félix Vargas Charcon, vivia uma vida pacata e expressava com uma ponta de tristeza: “Vivi ladrão em um mundo de honrados; agora sou um honrado em um mundo de ladrões.

Félix faleceu em janeiro de 2014. Tinha 98 anos.

Um dia, um “argentino manco” resolveu contar para o mundo a história de Félix, usando para tanto apenas sua elegância e sua mão esquerda. O resultado, podemos contemplar abaixo:

 

Quando Félix decidiu sair de sua cidade natal, Cumaná, e conquistar o mundo, ele acabou fazendo uma profecia acerca de si mesmo, ao despedir-se de sua mãe. Como todo nascido em Cumaná, Félix era um cumanês. E foi com esse apelido gentílico que criou para si a figura de um exímio tahúr que viria a conquistar o mundo. Félix Vargas Chacón era “O” Cumanês.

Memórias de "el cumanês"
Livro autobiográfico de Félix Vargas Chacón

A HISTÓRIA DAS CARTAS DE JOGOS NO BRASIL

“Com cartas desta Fábrica, se poderão jogar todos os jogos livremente; e não será permitido procedimento algum contra os que derem Casa de jogos com elas.”

Decreto real português de 1770

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1. INTRODUÇÃO

O Brasil foi descoberto – ao menos oficialmente – em 1500 por Pedro Álvares Cabral, um navegador à serviço da Coroa Portuguesa e, por isso, o Brasil acabou tornando-se uma colônia de Portugal. Portugal era um império essencialmente estatista e burocrata, que controlava todas as atividades econômicas de suas Colônias com extrema severidade. Dentre as atividades comerciais regulamentadas estava a atividade de impressão gráfica, incluindo-se aí, a impressão de cartas de jogos.

– Æ –

2. A PRIMEIRA GRÁFICA

A primeira impressão oficialmente sancionada de cartas para jogos no Brasil, aconteceu em em 8 de agosto de 1770. Através da emissão de um alvará de “privilégios e isenções de taxas para as pessoas que se ocupavam do ofício de fabricar cartas de jogos”, na Bahia.

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Alvará de 1770 autorizando a impressão e o uso de cartas de jogar.

 

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Excerto do alvará, liberando os jogos com cartas em Portugal e nas Colônias portuguesas

 

Em 1808, com a vinda da Família Real para o Brasil, foi estabelecida a Imprensa Régia, ou seja, o órgão oficial de impressão da Coroa; e em 1811, a “Real Fábrica de Cartas de Jogar” foi anexada como parte integrante da Impressão Régia.

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Anais dos decretos da coroa, constando a anexação da fábrica de cartas à imprensa Régia e o arrendamento da fábrica por Jayme Mendes de vasconcellos

O monopólio da impressão de cartas sofreu um forte baque quando foram descobertas gráficas clandestinas na Bahia que possuíam todo o maquinário e utensílios necessários para a impressão de cartas, inclusive equipamentos importados “alguns de muito préstimo” conforme relatos da época. Todo o aparato foi confiscado pela “Real Fábrica de Cartas de Jogar” em 1815. Porém nem isso não cessou a atividade dos contrabandistas.

Apreensão cartas bahia

Em 1818 Jayme Mendes de Vasconcelos obteve a autorização real para tocar a “Real Fábrica…” por nove anos. porém o contrato durou somente até 1823, sendo encerrado por não pagamento do arrendamento contratado.

Em 5 de março daquele ano, o Governo decidiu abolir o monopólio da impressão de cartas e o comércio de cartas passou a ser considerado livre. A exigência era de que as cartas que pagassem imposto, recebessem o carimbo de aprovado, em um das cartas. Infelizmente não se tem registros das cartas impressas nesta época. Aliás, foi provavelmente com o fim da “Real Fábrica…” que industriais belgas e alemães conseguiram introduzir no Brasil padrões “europeus” de naipes (em especial espanhol e belga/francês), em detrimento ao padrão Português/espanhol corrente até então.

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Decreto de 1823, acabando com o monopólio estatal da impressão de cartas, e liberando o livre comércio destas no Brasil

No ano seguinte, o decreto nº 26, de 21 de janeiro de 1824, deu autorização para a instalação de primeira fábrica particular de cartas. Três sócios: Ângelo Bissum, Manuel Luiz da Costa e Antônio José Polycarpo receberem autorização do governo para abrirem sua própria fábrica de cartas. Contudo o processo mantinha o valor do maço de cartas bastante elevado. Uma propaganda de 1826 anunciava: “Cartas de jogos portuguesas, feitas na França, pelo mesmo preço das cartas feitas no Rio de Janeiro.”

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Decreto concedendo o primeiro alvará de uma fábrica de cartas particular no Brasil

Uma curiosidade, é um anúncio de 1823 no Diário do Rio de Janeiro, de 25 de novembro, acerca da venda de um livro de mágica “O Pelotiqueiro Desmascarado” e, entre os números ensinados, truques com cartas de jogar.

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Anúncio de venda do livro “O Pelotiqueiro Desmascarado”. Diário do Rio de Janeiro, novembro de 1823

– Æ –

3. DESENVOLVIMENTO DAS FÁBRICAS NACIONAIS

Passada a “novidade”, é possível encontrar registros de várias gráficas e fabricantes de cartas estrangeiros que tentaram se estabelecer no Brasil, ainda durante o século 19. Azevedo, da “Fábrica Caxias”, e Lafayette eram fabricantes de cigarros no Recife na virada do século. Eles possuíam uma impressora litográfica que imprimia os rótulos das embalagens dos cigarros e usaram estas mesmas máquinas durante muitos anos para imprimir cartas.

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No fim do século 19 estava em voga cartas enfeitadas, com cenas exóticas pintadas nos 4 ases, padrão esse que seguiu século 20 adentro. A fábrica alemã C.L. Wüst por exemplo, produziu um modelo chamado “Ases Cênicos do Brasil”.

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Série “Ases cênicos”.

Em 1908 é fundada a “Companhia Paulista de Papel e Artes Gráficas” a nossa conhecida “Copag”. No começo de suas atividades a Copag atuava como importadora. Em 1918 passou a imprimir as cartas litografadas. Foi só em 1930 que a Copag adquiriu sua primeira impressora offset. Mesmo assim, em 1923, a Copag lança a linha “139”, baralho que é o carro chefe da companhia até hoje.

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Outra empresa que merece destaque é a Soimca, ou Sociedade Impressora Caxiense, de Caxias do Sul, RS. Estabelecida em 1955 por Nelson Soares, seu principal produto era o baralho “Pinguim”. Também foi a Soimca a responsável por popularizar os baralhos do tipo espanhol no RS. Nos anos 80 chegou a ser a principal concorrente da Copag, porém, em 1999, Copag e Soimca unem-se em uma só empresa.

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Site: http://www.wopc.co.uk/brazil/

Site: http://copag.com.br/en/tudo-sobre-baralhos/baralhos-usados-no-brasil/

Livro: “Imagem e letra: introdução à bibliologia brasileira: a imagem gravada” de Orlando da Costa Ferreira

Site: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/publicacoes/doimperio/colecao2.html

Arquivos do jornal Diário do Rio de Janeiro na Biblioteca Nacional

UMA BREVE HISTÓRIA DO EMBARALHAMENTO FARO

Texto base de Leonardo Macedo.

Adaptado e ampliado por Leonardo Glass

“Millions of dollars are wagered annually at Faro in this country. It is the most fascinating of layout games.”

S. W. Erdnase

– Æ –

INTRODUÇÃO

Mágicos experientes e trapaceiros de poker, blackjack e demais jogos de cartas certamente conhecem o embaralhamento faro (ou faro shuffle), conhecido por muitos como o embaralhamento perfeito por intercalar perfeitamente todas as 52 cartas do baralho, uma a uma. No entanto, mesmo aqueles que conhecem o Faro, provavelmente desconhecem a história por trás deste embaralhamento.

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Jogadores de Faro, nos EUA. Final dos anos 1800.

– Æ –

O JOGO DO FARAÓ

A origem do jogo se deu com um jogo de cartas chamado basset. Por volta de 1690 o basset foi proibido. Algum tempo depois surge o Pharaon, um jogo derivado do basset, e com base na mesma premissa: um jogo de apostas, passível de ser jogado por diversos jogadores ao mesmo tempo. Isso ajudou na popularização do Pharaoh. Registros datados da época do Rei Luís XIV (Século XVIII) dizem que o jogo ficou conhecido por esse nome entre os jogadores da corte devido à embalagem do baralho francês vir com a imagem de um Faraó (algumas fontes dizem que o faraó estava estampado na face de uma das cartas da corte, a saber, J, Q, K).

Com o passar do tempo, o jogo começou a se espalhar pela Europa (principalmente pela Inglaterra e Itália) e ganhou variações em seu nome, devido a mudança de idioma de cada país, até chegar aos EUA e ter o nome adaptado para Faro.

O “Pharaoh” angariou vários entusiastas famosos, entre eles escritor italiano Giácomo Casanova. Casanova foi um amante do jogo de faro, tendo o registrado em algumas passagens de sua autobiografia. Há relatos em livros sobre história dos jogos de aposta sobre fortunas ganhas por Casanova e presentes extravagantes que ele deu para mulheres, mostrando que ele era, possivelmente, um grande trapaceiro no jogo. Outra celebridade histórica que jogava faro foi a rainha Maria Antonieta. Há, inclusive o registro que ela chegou a jogar 36 horas seguidas de Faro com alguns banqueiros

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Maria Antonieta e Giácomo Casanova, dois jogadores de faro!

Nos EUA o jogo chegou em meados de 1700. Alguns historiadores, porém, datam a chegada do Faro à América em 1803, pelas mãos de John Law, um escocês exilado que aportou em Nova Orleans. O Faro logo tornou-se muito popular na América. Ali ganhou um novo apelido “bucking the tiger” ou “prender o tigre”, sendo inclusive este apelido citado por S.W. Erdnase em sua obra “The Expert at the Card Table“. Este apelido era devido a ilustração de um tigre de bengala que enfeitava as cartas à época. Outra gíria para o jogo de faro era “twisting the tiger’s tail” ou “torcer a cauda do tigre”.

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Placa de uma casa de jogo de faro

A imagem do tigre era tão fortemente associada ao jogo do faro, que algumas casas de apostas colocavam uma imagem de um tigre nas fachada, anunciado que naquela casa de jogos, se jogava o Faro. O Faro teve seu auge nos EUA entre os séculos XIX e XX, favorecendo e fomentado o crescimento do número de casas de jogos e cassinos. Com o passar do tempo o jogo foi perdendo sua popularidade, sendo substituído, aos poucos, pelo Poker.

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Cartas com o tigre que deu o apelido ao jogo faro

– Æ –

COMO FUNCIONA O JOGO?

A premissa básica do Jogo de Faro é bem simples: O dealer distribui as cartas em dois montes, uma para ele, o outro para os jogadores. Para ganhar, o jogador tem que torcer para que a carta apostada seja revelada no monte referente aos apostadores. Caso contrário, quem ganha é a banca.

O jogo era feito em uma mesa específica para ele, coberta com uma toalha com o desenho de todas as cartas de um naipe (os naipes aqui eram meramente ilustrativos, somente os valores das cartas eram considerados). Sobre esses desenhos os jogadores apostavam nas cartas que iriam sair. O dealer então misturava as cartas e a primeira do topo era “queimada”. As cartas seguintes eram tiradas alternadamente formando duas novas pilhas: a primeira pilha para o dealer, e a segunda aos jogadores. Se alguma das cartas que foram apostadas aparecesse no monte dos jogadores, o apostador ganhava o pote (lembrando que a aposta do dealer não oscilava de valor); caso contrário, o dealer ganhava a aposta dos jogadores. Cada par de cartas reveladas formava um turno e, após cada turno, os jogadores poderiam mudar suas apostas para outras cartas (para saber mais sobre o assunto, recomendo o livro “Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne).

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“Case ” para apostas no jogo de faro.

Assim como em todos os jogos que envolvem apostas, foram desenvolvidas muitas técnicas para trapacear no jogo de faro. E aqui entra a necessidade de usar o “embaralhamento perfeito”. O faro chega para o jogo como uma ferramenta a favor do dealer com 2 possíveis funções: 1) atrapalhar eventuais trapaças dos jogadores; e 2) facilitar o lucro da “banca”.

Visto que as cartas eram reveladas aos pares, e tendo em mente que o embaralhamento faro intercala perfeitamente dois montes de 26 cartas (considerando um baralho padrão de 52 cartas), fica fácil entender como essa técnica beneficiava o dealer na mesa de jogo: Basta separar as cartas que o dealer queria que ganhassem em um dos montes e intercalar de forma que elas fiquem nas posições ímpares ou pares, dependendo de quem seria o beneficiado (lembrando que a primeira carta distribuída pertence ao dealer, a segunda aos jogadores).

A execução da técnica de faro era feita na mesa (simulando um riffle shuffle), mas para a mágica isso foi adaptado de forma a poder se fazer sem mesa também, o que aumentou a versatilidade da técnica.

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Embaralhamento faro feito na mesa (esq.); embaralhamento feito na mão (dir.).

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OS MÁGICOS DESCOBREM O EMBARALHAMENTO FARO

O primeiro mágico a perceber o potencial do faro para a mágica, foi Jean Hugard em seu livro “Card Manipulation nº 3” de 1934. Porém, o potencial vislumbrado por Hugard foi mais estético do que como uma ferramenta em si. Foi só em 1940 que Hugard, juntamente com Frederick Braue publicaram um estudo bastante extenso sobre o Faro, bem como efeitos usando o faro (vide “Expert Card Technique“, “The Perfect Faro” p. 143 em diante).

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Jean Hugard, o primeiro mágico a ver o faro como uma ferramenta para os mágicos – e não apenas para os trapaceiros em mesas de jogos.

Outros mágicos também passaram a explorar o embaralhamento Faro, pois proporciona diversos princípios matemáticos interessantes para a criação de efeitos. Cabe aqui os seguintes destaques: Ed Marlo e seu famoso efeito “The Miracle Aces”; e Alex Elmsley, com a descoberta do incrível Princípio de Penélope.

– Æ –

CONCLUSÃO

Apesar de ser uma técnica considerada de nível avançado, não é algo tão difícil de aprender, ao contrário do que muitos pensam. O aprendizado da técnica de Faro pode ser muito útil, pois além de proporcionar diversos princípios matemáticos, ainda auxilia para o setups de alguns efeitos. Recomendo o estudo.

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BIBLIOGRAFIA

Livro:Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne (versão digital);

Livro:Marie Antoinette’s Confidante: The Rise and Fall of the Princesse de Lamballe” de Geri Walton;

Livro:Frontier Gambling” de G. R. Williamson;

Livro:Magic Tricks, Card Shuffling and Dynamic Computer Memories” de S. Brent Morris;

Livro:Scarne on Cards” de John Scarne.

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

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Capa do periódico Mahatma

– Æ –

2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

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Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

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Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

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Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

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Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

– Æ –

5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.