O NÍVEL DA MÁGICA ̶N̶O̶ ̶B̶R̶A̶S̶I̶L̶

O NÍVEL DA MÁGICA NO BRASIL

por Daniel Prado

Pare o que está fazendo e comece a andar. Pode ser sentido norte, sul, tanto faz. Não veja as placas, olhe apenas ao seu redor. Siga até que chegue ao primeiro ponto entre sua cidade e a seguinte e olhe em volta. Não há uma linha a se cruzar, não existe distinção física clara entre um lugar e o outro. O mesmo vale para grande parte do mundo. No entanto, ao olhar um mapa, somos levados a crer que esse mundo é repleto de fronteiras e divisões para deixar claro, a quem quer que seja, onde é o MEU e onde é o SEU lugar.

Fronteiras são apenas um recurso político para separar a humanidade. Alguém pode levantar da cadeira e gritar que elas também servem para unir, afinal, o povo é unido pelas suas relações culturais e sociais que, sem fronteiras não existiriam. Mas o povo é realmente unido?

O ‘povo’ só é unido até o próximo conflito com outro ‘povo’. O brasileiro pode ser unido quando é ‘contra’ um país. Até ser contra um estado, então, o brasileiro não é mais brasileiro, é carioca, paulista ou mineiro. Até ser contra uma cidade, daí é paulistano, mogiano ou recifense. Até ser contra um bairro, contra uma rua, vizinho ou o irmão do quarto ao lado.

A verdade é que não existem fronteiras. As quase infinitas interações entre os elementos naturais fazem com que o mundo seja um só. O único responsável por tentar dividi-lo é este ser prepotente e egoísta que o domina.

Entra ano, sai ano, mágicos atribuem importância à um assunto cuja relevância é tão certa quanto a força invisível que levita as incansáveis mesas flutuantes: O nível da mágica brasileira.

Com dedos certeiros e implacáveis, mágicos de todos os cantos do país digitam, sentados em seus sofás, em seus teclados de computador, argumentos precisos e confiantes sobre o ‘nível da mágica em nosso país’ certos de que suas palavras serão capazes de curvar o rumo da história.

Como alguém olhando o fogo consumir o jardim e se aproximar da casa teclando desesperadamente com seus ‘amigos’ de internet sobre a natureza do fogo, sobre seu calor, velocidade, motivos e consequências sem perceber que sua casa será consumida pelas chamas se ele não se levantar e fizer algo.

Em primeiro lugar, não existe Brasil. Essa é uma definição geopolítica que fizeram por você 517 anos atrás. Você caiu aqui sem querer. O ‘brasileiro’ que estaciona ocupando duas vagas, que lhe assalta, que lhe tira o sono de madrugada com uma música alta, está pouco ligando para a sua ‘nacionalidade’. Além disso, em um mundo onde qualquer motivo é suficiente para criar ‘fronteiras’ a única coisa que nos une é nossa humanidade. E neste aspecto, meu camarada, infelizmente é cada um por si.

A ideia de que um grupo de pessoas unidas apenas por sua localização geográfica serve de alguma forma para colocá-las em um mesmo pote de capacidade de desenvolvimento criativo e artístico é tão absurdo como supor que árvores têm a mesma espécie e produzem os mesmos tipos de frutos só por estarem na mesma floresta.

No entanto, porque compartilhamos as mesmas dificuldades estruturais e usufruímos do mesmo caldeirão cultural, as pessoas continuam a acreditar que isso é o suficiente para criar uma coletividade em que cada indivíduo é responsável pelo sucesso do outro. Não é.

Não quero dizer com isso que devemos ser solitários em nossas empreitadas. A capacidade de se juntar para atingir um objetivo é uma das coisas que nos torna humanos e devemos nos valer dela, sem dúvidas. Mas com isso, quero dizer que isso deve ser facultativo e não compulsório. Um grupo de pessoas deve escolher se ajudar e não ser obrigado a isso. E é aí que o problema aparece.

Insistir em uma discussão, onde se coletiviza indivíduos distintos sem nenhum vínculo prático, imaginando que a produção artística e cultural dessa ‘coletividade’ deve ter alguma relação é o mesmo que discutir a capacidade alimentar dos diferentes tipos de peixes de um lago esperando que, só por estarem no mesmo lago, devem comer a mesma coisa.

O que ocorre é que poucas pessoas estão realmente dispostas a enfrentar os desafios necessários para que sua própria qualidade seja aprimorada e prefere pôr a culpa nessa tal ‘coletividade’ inexistente como se isso a eximisse de ser melhor individualmente.

Para que o nível de o que quer que seja melhore, é profundamente necessário que tenhamos pessoas realmente dispostas a serem melhor e não pessoas desqualificadas apontando o dedo dizendo o que é bom e o que é ruim.

Quer contribuir? Não produza material audiovisual tosco, pague para quem sabe fazer. Não crie efeitos idiotas, só para dizer que criou algo. Ignore os elogios e escute as críticas construtivas. Aprenda inglês, aprenda PORTUGUÊS, estude filosofia, leia, viaje, veja documentários sobre a natureza, sobre comida, sobre arte e pratique, pratique, pratique deliberadamente seu ofício até que você possa ser uma vírgula na história que você tanto quer que mude!

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