O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA

A ORIGEM DO MAIOR ÍCONE DA HISTÓRIA DA MÁGICA

Nenhum truque de mágica é mais icônico do que tirar o coelho da cartola. Embora seja um truque muito pouco executado atualmente, sua fama permeia nossos dias. Sua fama, no entanto, não é por nada. A ideia de tirar o coelho tem aproximadamente 200 anos. Mas o conceito de conjurar animais do nada é muito mais antigo.

Em 1726, em Guildford, Inglaterra, houve o registro de um curioso caso. Mary Toft, uma cidadã comum, chegou em casa e contou ao seu marido, Joshua Toft, que enquanto passeava pela floresta fora molestada por um coelho gigante. O marido não deu bola para a esposa e fez pouco caso, atribuindo a esta história maluca como fruto de uma alucinação. Poucas semanas depois do ocorrido, Mary Toft começou a apresentar alguns sintomas incomuns. O médico local Dr. J. Howard foi chamado para examinar Mary. No dia seguinte o próprio Dr. Howard contou a todos na cidade que Mary Toft havia dado a luz a cinco coelhos. O Dr. Howard continuou acompanhando o caso de Mary Toft e, no fim das contas, ela deu a luz a uma dúzia de lindos coelhos brancos.

Mary Toft (1720)
Mary Toft dando a luz a sua ninhada de coelhos (1720)

O rumor espalhou-se rapidamente e não tardou a chegar até a corte, em Londres. Dois enviados foram designados para acompanhar o caso e depois de algum tempo, retornaram à corte e confirmaram o ocorrido. Foi então que o médico da corte, dr. Richard Maningham decidiu investigar o caso. A primeira atitude do Dr. Maningham foi levar Mary até um hospital em Londres. “Misteriosamente” após tal fato, o nascimento dos coelhos parou. Investigando mais a fundo o Dr. Richard descobriu que alguns dias antes de dar a luz, Mary tentou subornar os funcionários do hospital de Guildford para que deixassem entrar no hospital com alguns coelhos (outras fontes complementam ainda que o Dr. Richard fingiu acreditar na história de Mary e sugeriu então que seu útero seria retirado para ser estudado pela ciência).

O fato é que Mary cedeu e acabou confessando que tudo não passava de um truque. O modo como o truque era feito, também diverge: há quem diga que a própria Mary inseria coelhos em seu útero e depois os retirava como se houvessem nascidos dela; outros porém dizem que Mary costurou por baixo de sua roupa um bolso secreto, onde os coelhos eram mantidos até a hora do nascimento. Daí de muitos considerarem Mary Toft a verdadeira “mãe” (trocadilho intencional) do truque de tirar o coelho da cartola (embora segundo o dr. Edwin Dawes em “The Magic Circular” March/April 1987 (Vol. 81 nº 874, p. 60) , essa teoria já foi refutada).

Nesse ínterim, artistas londrinos começaram a apresentar um novo número chamado “O nascimento do coelho”, aproveitando a onda “Mary Toft” que assolava Londres. Segundo Jean Hugard, que conta esta história, os artistas tomavam emprestado os chapéus dos espectadores, colocavam-no sobre uma mesa e com alguns passes mágicos, tiravam um coelho de dentro do chapéu. Enquanto realizavam o truque, contavam a história de Mary Toft.

Em 1747 há o registro de um artista de rua auto entitulado: “O famoso camponês do norte da Holanda” (Le Fameux Paysan de Nort-Holland), que, ao anunciar seu show prometia, entre outras maravilhas, “transformaria qualquer objeto dado por um espectador em um animal de dois ou quatro pés” e ainda “transformar moeda em qualquer tipo de ser vivo”.

Há também o registro de Palatiny, um mágico francês que, em 1799 anunciava um show em que restaurava a cabeça decapitada de um animal, e ainda, um membro da audiência seguraria algo em sua mão e o mágico transformaria esse objeto em um animal vivo.

Diversas fontes dão conta que em 1814, Louis Comte realizou este efeito em público pela primeira vez. Porém, todas as referências sobre o assunto são circulares, ou seja, apontam umas para as outras, sem uma fonte fidedigna de onde tal fato foi retirado. Outros sites de história da mágica apontam o mesmo problema. Fica impossível bater o martelo, portanto, como sendo Louis Comte o criador do efeito.

Comte
Louis Comte

Talvez, dada a falta de referências sólidas sobre Comte, é que alguns autores se refiram à década de 1830 como a época de criação do truque, dentre eles Christopher Milbourne. Milbourne não dá o nome da pessoa que criou o truque, mas ela dá enormes créditos à John Henry Anderson por popularizar o truque.

Anderson
John Henry Anderson

John H. Anderson, também conhecido com “o grande feiticeiro do norte” (the great wizard of the north) nasceu em 1814 na Escócia, mas começou sua carreira em 1831. Anderson chegou a apresentar-se perante a Rainha Vitória, o que certamente lhe rendeu prestígio e fama. O porém é que Anderson é reconhecido como um plagiador, especialmente dos efeitos de Robert-Houdin. Não há evidências que apontem para Robert-Houdin executando o truque do coelho na cartola (ao que consta, Robert-Houdin, não suportava a ideia de maltratar animais, chegando mesmo a discutir com Bosco, sobre isso). Porém, isto consta que talvez Anderson, de fato, não tenha criado o truque original.

prof. Anderson 1849
Cartaz do show de Anderson, em que ele anuncia o número de produção de coelhos (1849)

Obviamente que, com o passar dos anos, o truque evoluiu e novas variantes do efeito vieram à tona: desde usar um chapéu emprestado até a famosa versão dos irmãos Herrmann, Carl e Alexander, em que eles pegam emprestado um casaco do espectador e dali tiram o coelho. H.J. Burlingame em sua coluna na revista Mahatma escreve que durante uma apresentação de Alexander Herrmann no Rio de Janeiro (por volta de 1885), os jornais locais divulgaram a seguinte nota:

Já tivemos Patrizio, Mellini, Herrmann e Bosco, todos eles fazendo os mesmos truques: tirando moedas do chapéu, ou da cabeça, dos espectadores, luvas grande e pequena, lenços transformados, e as fitas e os coelhos do chapéu. Mas o melhor dentre estes foi Herrmann (…)”.

Ainda no periódico Mahatma, William Ellsworth Robinson em sua coluna no periódico Mahatma, descreve um truque típico indiano em que uma cesta vazia é coberta com um pano, e dali, um casal de coelhos é produzido. Protul Sorcar, um mágico indiano escreveu um livro chamado “Indian Magic” em que devota 38 páginas defendendoesta  tese.

Mahatma Vol. VII, II (2) C. Lang Neil (Agosto, 1903)
C. Lang Neil critica o uso de esquemas complicados – como o uso de coelhos – para fazer mágica

Com o passar dos anos e a evolução natural da arte mágica, dos grandes efeitos de palco, para a mágica de perto, os coelhos foram caindo em desuso, embora haja registros como por exemplo, do livro “Al Baker’s Pet Secrets” de 1951 no qual ensina alguns efeitos com animais, incluindo uma produção de coelho.

A partir dos anos 1970 grupos de proteção aos direitos animais conseguiram tornar o processo de fazer mágica com animais vivos ainda mais complicado. Por exemplo, nos EUA, para fazer truques com coelhos, é preciso uma autorização especial das agências governamentais.

Há quem teorize que o truque de tirar o coelho da cartola é a epítome de toda a arte mágica: criar (vida) a partir do nada. Outros, teorizam que o truque é famoso por que remete ao conceito do retorno: matam-se coelhos para fazer chapéus, e do chapéu, fazem-se coelhos. Todas essas são teorias que podem ou não ser válidas. Mas uma coisa é fato: tirar o coelho da cartola ainda é um efeito capaz de cativar e de prender o público.

coelho em chapeu
Propaganda de uma loja de chapéus que transforma coelhos em chapéus.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Periódico: Jean Hugard. “Hugard Magic Monthly“, Vol. VI, nº VII, dezembro de 1948, p. 490

Livro: Émile Campardon. “Les spectacles de la foire: théâtres, acteurs, sauteurs et danseurs de corde, monstres, géants – Vol 2”, 1877, p. 217 a 219

Livro: Barton Whaley “Enciclopedic Dictionary of Magic” 2007, p.756

Livro: Bill Severn “Big Book of Magic“, 1980, p. 212

Livro: Christopher Milbourne “The Illustrated History of Magic“, 1962, p. 91

Livro: Christian Fechner – “The Magic of Robert-Houdin“, Vol. 1, p. 130

Periódico: Mahatma, Vol. IV, II – Coluna de H.J. Burlingame, Agosto de 1900

Periódico: Mahatma, Vol. I, XII – Coluna de W.E. Robinson, Junho de 1898

Livro: James Rand, “Conjuring” 1992, p. 11

 

 

Um comentário sobre “O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA

  1. Ótimo blog, com excelentes artigos sobre a arte mágica! O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA é uma leitura para amantes da arte mágica [suas histórias e curiosidades]. Da vontade de comentar trecho por trecho deste artigo, mas deixo por conta dos leitores a apreciação!

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