O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

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Capa do periódico Mahatma

– Æ –

2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

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Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

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Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

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Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

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Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

– Æ –

5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

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