A HISTÓRIA DAS CARTAS DE JOGOS NO BRASIL

“Com cartas desta Fábrica, se poderão jogar todos os jogos livremente; e não será permitido procedimento algum contra os que derem Casa de jogos com elas.”

Decreto real português de 1770

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

O Brasil foi descoberto – ao menos oficialmente – em 1500 por Pedro Álvares Cabral, um navegador à serviço da Coroa Portuguesa e, por isso, o Brasil acabou tornando-se uma colônia de Portugal. Portugal era um império essencialmente estatista e burocrata, que controlava todas as atividades econômicas de suas Colônias com extrema severidade. Dentre as atividades comerciais regulamentadas estava a atividade de impressão gráfica, incluindo-se aí, a impressão de cartas de jogos.

– Æ –

2. A PRIMEIRA GRÁFICA

A primeira impressão oficialmente sancionada de cartas para jogos no Brasil, aconteceu em em 8 de agosto de 1770. Através da emissão de um alvará de “privilégios e isenções de taxas para as pessoas que se ocupavam do ofício de fabricar cartas de jogos”, na Bahia.

alvará cartas 1770
Alvará de 1770 autorizando a impressão e o uso de cartas de jogar.

 

alvará 1770
Excerto do alvará, liberando os jogos com cartas em Portugal e nas Colônias portuguesas

 

Em 1808, com a vinda da Família Real para o Brasil, foi estabelecida a Imprensa Régia, ou seja, o órgão oficial de impressão da Coroa; e em 1811, a “Real Fábrica de Cartas de Jogar” foi anexada como parte integrante da Impressão Régia.

anexo fabrica cartas 1811
Anais dos decretos da coroa, constando a anexação da fábrica de cartas à imprensa Régia e o arrendamento da fábrica por Jayme Mendes de vasconcellos

O monopólio da impressão de cartas sofreu um forte baque quando foram descobertas gráficas clandestinas na Bahia que possuíam todo o maquinário e utensílios necessários para a impressão de cartas, inclusive equipamentos importados “alguns de muito préstimo” conforme relatos da época. Todo o aparato foi confiscado pela “Real Fábrica de Cartas de Jogar” em 1815. Porém nem isso não cessou a atividade dos contrabandistas.

Apreensão cartas bahia

Em 1818 Jayme Mendes de Vasconcelos obteve a autorização real para tocar a “Real Fábrica…” por nove anos. porém o contrato durou somente até 1823, sendo encerrado por não pagamento do arrendamento contratado.

Em 5 de março daquele ano, o Governo decidiu abolir o monopólio da impressão de cartas e o comércio de cartas passou a ser considerado livre. A exigência era de que as cartas que pagassem imposto, recebessem o carimbo de aprovado, em um das cartas. Infelizmente não se tem registros das cartas impressas nesta época. Aliás, foi provavelmente com o fim da “Real Fábrica…” que industriais belgas e alemães conseguiram introduzir no Brasil padrões “europeus” de naipes (em especial espanhol e belga/francês), em detrimento ao padrão Português/espanhol corrente até então.

decreto 34 de 1823
Decreto de 1823, acabando com o monopólio estatal da impressão de cartas, e liberando o livre comércio destas no Brasil

No ano seguinte, o decreto nº 26, de 21 de janeiro de 1824, deu autorização para a instalação de primeira fábrica particular de cartas. Três sócios: Ângelo Bissum, Manuel Luiz da Costa e Antônio José Polycarpo receberem autorização do governo para abrirem sua própria fábrica de cartas. Contudo o processo mantinha o valor do maço de cartas bastante elevado. Uma propaganda de 1826 anunciava: “Cartas de jogos portuguesas, feitas na França, pelo mesmo preço das cartas feitas no Rio de Janeiro.”

decreto 26 de 1824
Decreto concedendo o primeiro alvará de uma fábrica de cartas particular no Brasil

Uma curiosidade, é um anúncio de 1823 no Diário do Rio de Janeiro, de 25 de novembro, acerca da venda de um livro de mágica “O Pelotiqueiro Desmascarado” e, entre os números ensinados, truques com cartas de jogar.

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Anúncio de venda do livro “O Pelotiqueiro Desmascarado”. Diário do Rio de Janeiro, novembro de 1823

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3. DESENVOLVIMENTO DAS FÁBRICAS NACIONAIS

Passada a “novidade”, é possível encontrar registros de várias gráficas e fabricantes de cartas estrangeiros que tentaram se estabelecer no Brasil, ainda durante o século 19. Azevedo, da “Fábrica Caxias”, e Lafayette eram fabricantes de cigarros no Recife na virada do século. Eles possuíam uma impressora litográfica que imprimia os rótulos das embalagens dos cigarros e usaram estas mesmas máquinas durante muitos anos para imprimir cartas.

Pront. func. 5585 - Fábrica Lafayette Moreira e Cia

No fim do século 19 estava em voga cartas enfeitadas, com cenas exóticas pintadas nos 4 ases, padrão esse que seguiu século 20 adentro. A fábrica alemã C.L. Wüst por exemplo, produziu um modelo chamado “Ases Cênicos do Brasil”.

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Série “Ases cênicos”.

Em 1908 é fundada a “Companhia Paulista de Papel e Artes Gráficas” a nossa conhecida “Copag”. No começo de suas atividades a Copag atuava como importadora. Em 1918 passou a imprimir as cartas litografadas. Foi só em 1930 que a Copag adquiriu sua primeira impressora offset. Mesmo assim, em 1923, a Copag lança a linha “139”, baralho que é o carro chefe da companhia até hoje.

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Outra empresa que merece destaque é a Soimca, ou Sociedade Impressora Caxiense, de Caxias do Sul, RS. Estabelecida em 1955 por Nelson Soares, seu principal produto era o baralho “Pinguim”. Também foi a Soimca a responsável por popularizar os baralhos do tipo espanhol no RS. Nos anos 80 chegou a ser a principal concorrente da Copag, porém, em 1999, Copag e Soimca unem-se em uma só empresa.

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Site: http://www.wopc.co.uk/brazil/

Site: http://copag.com.br/en/tudo-sobre-baralhos/baralhos-usados-no-brasil/

Livro: “Imagem e letra: introdução à bibliologia brasileira: a imagem gravada” de Orlando da Costa Ferreira

Site: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/publicacoes/doimperio/colecao2.html

Arquivos do jornal Diário do Rio de Janeiro na Biblioteca Nacional

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