IMRO FOX – O HUMORISTA QUE ERA CHEF E VIROU MÁGICO

Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões

Imro Fox

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Imro Fox
Imro Fox

O ano era 1880 e a cidade era Nova York. O hotel Lawrence era um famoso ponto de parada dos artistas de vaudeville. Certa noite, um grupo de artistas itinerantes hospedou-se no Lawrence. A estrela do grupo era um mágico que, após a primeira performance da noite, desapareceu. Provavelmente ele reapareceria, algumas horas depois, nalgum bar da cidade. Porém, havia uma segunda sessão e o gerente da trupe não podia esperar.

Vendo o desespero no rosto do gerente da trupe, o dono do hotel, querendo ser solícito, perguntou o que estava acontecendo. Ao ficar sabendo do problema do hóspede, o dono prontamente lhe deu a solução: disse-lhe que o cozinheiro do hotel era um mágico.

O gerente então desceu até as “regiões inferiores” do hotel e, entrando na cozinha, deparou-se com uma cena pitoresca. O gerente da trupe viu Imro Fox, debruçado sobre um enorme tomo com aparência antiga. Próximo dele um gato negro o observava, impávido. Sobre as chamas, um caldeirão borbulhante. A “mise-en-scene” do lugar certamente era a do estúdio de algum poderoso conjurador. Mas na vida real as coisas sempre são um pouco menos surreais.

Fox estava lendo um dicionário francês – e não um grimório ou coisa que o valha; o chef estava preparando um menu novo para o hotel (em outras palavras, dando nomes franceses para velhos pratos novaiorquinos); o gato, era um animal comum, mascote da cozinha, companhia habitual de Imro, e não um imp ou demônio familiar. Por fim, no caldeirão, apenas sopa.

Você é o chef, creio” disse o gerente da trupe.
Sim, eu sou“, respondeu Fox.
E você é um conjurador amador?
Eu me distraio com alguns truques, eventualmente…
É você mesmo que eu procuro. Eu gerencio uma trupe de vaudeville. E o cavalheiro que faz mágica para mim, acabou saindo para uma farra, e…
Entendo!” interrompeu o chef, “O velho truque da garrafa que nunca acaba“.
Quero que você assuma o lugar do mágico“, seguiu impassível o gerente, “pelo resto da semana. E não s epreocupe que eu arranjo tudo com o dono do hotel.
Caralh*!“, exclamou Fox em alemão, “nunca sequer pisei em um palco em toda a minha vida. Eu iria morrer de medo. Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões.
Bobagem!” retrucou o homem do teatro, “Me ajude, como uma pessoa boa que você é. E no mais, você será recompensado por isso.

Após mais algum tempo, Fox topou o convite e mais tarde naquela noite, Imro subia ao palco vestindo um terno que claramente não fora confeccionado para ele. Tremendo de medo ele fez uma reverência para a plateia e,  com a voz trêmula,  quebrou o gelo com uma piada: “Senhoras e senhores. Por que a minha cabeça é como o céu? Por que aqui em cima também não tem nada para fazer…[1] A plateia riu, Imro sentiu a tensão incial diminuir e, no embalo do bom momento, fez um truque de cartas.

Enquanto isso, na coxia, o gerente sorria e pensava consigo mesmo: “Muito bom, muito bom!

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Imro Fox nasceu em 21 de maio de 1862 [2] em Bromberg, Alemanha (embora hoje, graças ao Tratado de Versales, a cidade se chame Bydgoszcz e fique na Polônia). Seu nome de batismo era Isidore Fuchs. Aos 17 anos sua família migrou para os Estados Unidos. Seu primeiro emprego foi como chefe de cozinha no Lawrence e em pouco tempo, acabou recebendo o convite para tornar-se um mágico. Em 1888 ele adquire a cidadania americana.

Imro Fox Manipulação legierdemain
Imro Fox manipulando com “os pés”, o nome que ele dava para suas mãos.

Sua carreira começou em 1880 e ele se vendia como o “conjurador cômico”. Seu número fazia bastante sucesso a ponto de ele ser disputado por outras companhias de vaudeville. Entre 1888 e 1896, Imro excursionou por todos os EUA com pelo menos 4 companhias diferentes, incluindo a “The Rain Makers” de Frank Dumont. Imro também excursionou por Paris, Munique, Antuérpia, Roterdam, Moscou… tendo como ponto alto da carreira sua apresentação no Trocadero Palace, em Londres.

Em 1896 Imro fundou sua própria companhia de vaudeville. E neste mesmo ano ele gravou três filmes mudos para a “American Mutoscope and Biograph Company“, a primeira produtora de filmes norte-americana: “Imro Fox, Conjuror“; “Imro Fox Rabbit Trick“; e “The Human Hen[3]. Imro foi o primeiro mágico da história a gravar um filme.

Imro Fox cartaz vaudeville
Cartaz anunciando o show da companhia de Imro Fox

Em 1898 Imro funda a “The Great Triple Alliance“, uma companhia só de mágicos formada por Imro Fox, Servais LeRoy e Frederick Powell, e agenciada por M.B. Leavitt, um dos grandes nomes do entretenimento da época. O show foi incensado pela imprensa como: “os três principes do mundo das artes místicas”. A companhia excursionou até 1900.

Programa
Excertos de guia do teatro, anunciando o show da “The Great Triple Alliance

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As apresentações de Fox também eram muito elogiadas. A revista Billboard de dezembro de 1908 escreveu:

Imro Fox, conjurador cômico e “enganador”, pertence a uma classe própria. Ele transforma os problemas da manipulação em um alegre passatempo e uma interessante meia-hora. Sua personalidade é, talvez, a parte mais impactante de sua performance, embora seu humor natural e seus trejeitos inimitáveis que, ele mesmo chama de “maravilhoso” sejam irresistivelmente engraçados. O sr. Fox é um favorito na Europa, embora seja um americano…

Imro era muito querido entre os mágicos. Contam que quando alguém se aproximava dele e pedia por uma piada, ele apresentava um truque de mágica; se pediam um truque, ele contava uma piada. E quando alguém pedia os dois? Imro fazia! Ele acreditava que sua mágica era a piada e ele buscava envolvê-la em mistério.

Outra grande qualidade de Imro era que ele sabia rir de si mesmo. Ele fazia constantes piadas acerca de sua careca. Também chamava suas mãos de “pés”, em referência à sua habilidade de manipulação; seu inglês “macarrônico” certamente auxiliava na tarefa de fazer os outros rirem. Todas as piadas de seu show tinham o própio Imro como alvo. Um de seus truques era piscar para seu público, contando assim com uma espécie de cumplicidade com a plateia.

Dizem também que ele não pegava emprestado nenhum objeto com os espectadores. Dizia ele que assim poderia fazer mais truques em um mesmo intervalo de tempo, uma vez que se evitavam deslocamentos desnecessários e explicações delongadas. Isso também afastava as suspeitas de algum tipo de combinado entre o mágico e alguém da plateia. Mas talvez a razão para essa aversão a objetos emprestados fosse porque em certo show em Montgomery, Alabama, seu assistente (não o oficial, pois este estava doente) desapareceu com um relógio de ouro de um voluntário da plateia. Dizem que a plateia até hoje espera o relógio aparecer e que Imro ficara 46 dólares mais pobre aquele dia. Sobre o sucedido, Imro se limitiva a dizer: “Bons assistentes custam caro!”

Ainda sobre o show de Imro, Henry Ridgley Evans escreveu:

Seu show é bastante original. A cortina sobe, mostrando uma caverna sombria. No meio está um caldeirão borbulhante, alimentado por bruxas à la Macbeth. Um velho necromante, vestindo um robe largo e um chapéu pontudo, entra em cena. Ele começa os seus encantamentos, quando hostes de demônios aparecem e dançam ao redor do caldeirão. De repente, entre o clangor de um trovão e o brilho de um raio, a caverna se transforma em um escritório do século XX, arrumando para uma sessão de conjuração. O decrépito feiticieiro se transforma em um cavalheiro em roupas noturnas – Sr. Fox – que começa seu entretenimento atualizado de magia moderna. Isso não é algo brilhante?

Imro Fox necromante
Imro Fox vestido de Necromante / Alquimista

Imro faleceu em 1910 em Nova York, por um capricho do destino, no saguão de um hotel. Após a primeira apresentação daquela noite, Imro foi desça Sar em seu quarto, quando sentiu um mal súbito. Ele desceu correndo até o saguão à  procura de ajuda, mas está não chegou a tempo. Imro faleceu naquele mesmo dia 04 de março. Curiosamente sua carreira começou – e terminou – em um hotel. Apesar da carreira relativamente curta, Imro foi querido por todos. Certamente, se questionado, diria em seu inglês carregado, que estava indo descobrir, afinal, se o céu era mesmo como a sua careca.

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NOTAS

[1] A piada foi adaptada para ter algum sentido em português. No original: “Why is my head like Heaven? Because there is no parting there!

[2] A data de nascimento, bem como o ano de migração de Imro não é unânime. A maioria das fontes aponta para a data mencionada no artigo. O periódico “The Crest Magician” de fevereiro de 1908, aponta 5 de maio de 1862 como a data de nascimento de Imro, bem como sua migração para a América ao 11 anos de idade, e não aos 17. Já o periódico “Magic” de Ellis Stanion, de maio de 1902, traz a data de 21 de maio de 1852 como a data de nascimento de Imro, e diz que ele migrou para a América em 1874.

[3] Infelizmente não encontrei os filmes na internet.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: “Magic” de Ellis Stanyon – Vol. II, n. 08, maio de 1902;

Periódico: “Mahatma” – Vol. I, n. 03, maio de 1895;

Periódico: “The Crest Magician” – Vol. I, n. 04, fevereiro de 1908.

Periódico: The Open Court, a Monthly Magazine – Vol 19, n. 08, julho de 1905;

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