BALABREGA, O MÁGICO QUE MORREU NO BRASIL (E SUA ESPOSA QUE ABALOU O IMPERADOR)

“(…) fez explosão a caldeira geradora de gas acetylene matando instantaneamente o director e ferindo : mortalmente o prestidigitador Balabrega e um seu companheiro”

Jornal “A Província” de 13 de junho de 1900 (a grafia original foi mantida).

– Æ –

cc-balabrega

Johan Moller nasceu em Helsingbrod, Suécia, em 20 de agosto de 1857 e aos 11 anos de idade, migrou para os EUA onde seu nome foi anglicizado para John Miller. Comeceu na mágica ainda cedo já sob a alcunha de Balabrega, “O garoto mágico” e “A maravilha sueca”. Segundo consta, o nome foi inspirado pelo seu pai, que também era artista, embora não fique claro nem o ramo artístico do pai, tampouco o porquê deste nome tão exótico.

balabrega - wonder boy

Balabrega excursionou principalmente pela América Latina onde fez relativo sucesso. Uma curiosidade, em Pernambuco, “balabrega” é uma gíria que significa “engano”, “charlatão”. Provavelmente a expressão nasceu por causa do mágico.

– Æ –

O historiador Nadur traz algumas informações importantes sobre Balabrega: seu show abarcava mentalismo, manipulações e magia de palco. Era acompanhado de sua mulher, Emma Lynden que apresentava um número de canários amestrados e tocava diversos instrumentos, entre eles, xilofone e garrafas com água.

Segundo Mike Caveney, o casal foi a primeira dupla a apresentar o número de “Segunda Visão” em espanhol e ainda, os primeiros a apresentá-lo na América do Sul. Isso explica, em parte, o grande sucesso e apelo público dos Balabrega aqui na América Latina.balabrega

O show de Balabrega era grande, em todos os aspectos.  Uma de suas ilusões se chamava “Tahuma” e consistia em uma mulher apenas da cintura pra cima. A diferença para a versão clássica do truque da meia pessoa, é que na versão de Balabrega a mulher estava suspensa em um trapézio, e não sobre uma mesa, estática.

O periódico argentino “La Capital” de 17 de janeiro de 1889, teceu o seguinte comentário sobre o show de Balabrega:

“Balabrega – Até o nome remete a um prestidigitador, isto de “bala” e “brega” significa movimento, escamoteio, confusão, (…) logo vem a música de Miss Lidden que, sem ser celestial, cativa e admira e entusiasma graças à habilidade artística que a caracteriza, e a variedade notas e melodias que extrai de vários objetos: vasos de cristal, garrafas vazias e outros objetos.

Balabrega vem precedido de grande renome, e coberto de elogios e lauras conquistados nos principais teatros da Europa e América.

(…) Ademais, tem ainda os canários amestrados dirigidos pela sra. Linden, cuja simples presença no palco (…) produzem uma grata impressão e deixam uma enorme satisfação.

Sra. Linden, Balabrega, dois personagens que bastam por si sós para formar uma companhia, e para serem aplaudidos, até mesmo por aqueles menos inclinados a aplaudir.”

Nadur acrescenta ainda que Balabrega tinha um ato todo dedicado à exposição de fraudes mediúnicas. Não é arriscado dizer que Balabrega tinha todo o necessário para ser um dos maiores nomes da mágica de todos os tempos. Até que o acidente mudou tudo.

– Æ –

No fim dos anos 1800, Balabrega e sua esposa estavam em um navio, cruzando o Estreito de Magalhães à bordo do navio a vapor “Cotopaxi”. As águas perigosas fizeram com que o navio naufragasse e Balabrega perdeu todo o seu equipamento. Ao invés de se abalar e reclamar no twitter, Balabrega se recompôs e montou um segundo show, que, dizem era muito melhor do que o primeiro.

Fosse pelo acidente ou não, o fato é que John Miller e Emma Linden se divorciaram e ela se mudou para Tauton, no Estado de Massachussets. Talvez ela tivesse pressentido que o acidente fora um aviso de um mal maior que viria se abater sobre John Miller. Por sua vez, Balabrega seguiu excursionando pela América Latina. Além do reconhecimento do público, ele havia adquirido algumas fazendas de fruta pela América Latina, o que explica também sua fixação pelo lado sul da linha do equador.

Ao montar o seu novo show, ele adquiriu uma nova ilusão chamada “The moth and the flames” (A mariposa e a chama).

Balabrega foto

O número consistia em vestir seis assistentes de mariposas e por uma chama no meio de palco. As assistentes se aproximavam da chama e eram “consumidas” por ela, ou seja, desapareciam. O problema é que a chama era alimentada por um tanque de acetileno. Não é difícil imaginar o que aconteceu.

As causas do acidentes não são um consenso. Alguns jornais dizem que, era impossível conseguir acetileno no Brasil de 1900. Balabrega então trouxe algumas bolsas de gás do estrangeiro e, ao tranportá- las para o palco, para o ensaio, uma das bolsas explodiu, vitimando Balabrega e um assistente, Lui Bartelle. Outro assistente ficou ferido.

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Notícia da morte de Balabrega

Outras fontes dão conta que não fora a bolsa que explodiu, mas o próprio “Bal” (apelido que ganhou por aqui) que não soube manipular corretamente o mecanismo de iluminação, superalimentando a chama. Fosse o que fosse, Balabrega faleceu em 20 de junho de 1900, no Theatro Santa Rosa, em Pernambuco. Por pouco, o teatro não incendiou por inteiro.

– Æ –

Emma Lynden
De volta a Emma Linden (ou Lynden ou ainda Leyden; a grafia varia bastante), sua história não é menos curiosa. Após o divórcio foi para Tauton, Massachussets, de volta para a fazenda de sua família. Segundo consta, sua saúde estava debilitada, embora não tenha encontrado maiores detalhes sobre isso.

Em Tauton, ela casou-se novamente e em 1909, de novo, divorciou-se. Ela também abriu uma cafeteria em Nova York, mas o negócio não deu certo e ela mais uma vez voltou para Tauton. Até aí, nada de mais.

Em  07  de janeiro de 1916 ela faleceu e a nota de falecimento de jornal trouxe à tona uma curiosidade: Emma era amiga pessoal do Imperador Dom Pedro II e chegou até a acompanhá-lo em idas ao teatro.

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Los Angeles Herald, nº 59, 8 de janeiro de 1916

Segundo o NY Times da época, Emma estava no Rio de Janeiro e caiu em frente à carruagem do Imperador. Um guarda ajudou Emma a levantar-se e Dom Pedro ficou encantado com a beleza da mulher. Como forma de desculpa, ele convidou Emma para acompanhá-lo ao teatro e ela ficou no camarote real.

Mas a história melhora. Emma seria uma paixão secreta de Dom Pedro, e mais, ela teria sido uma das razões para o golpe de Marechal Deodoro que derrubou o Império. O jornal St. Louis Post-Dispatch, traz maiores detalhes, dizendo que o Imperador dava seguidos presentes a Emma e isso foi um dos motivos que os revolucionários apontaram para tomar o poder.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Site: Nadur, “Historias y curiosidades del ilusionismo

Livro: Mike Caveney, “Classic Correspondence from Egyptian Hall Museum

 

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