O DIA EM QUE OS NAZISTAS ROUBARAM UM PÔSTER DE MÁGICA

“[Esta é] a mais variada e abrangente coleção, não importa o ângulo em que se olhe, seja do artístico, sociológico, cultural, psicológico, histórico ou geográfico.

Hans Sachs, sobre a sua coleção.

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Houve um tempo em que não havia internet e nem televisão, e o rádio era item de luxo. Nessa época, os anúncios de eventos eram feitos com pôsteres e cartazes fixados nos muros a fim de informar aos que passassem por ali sobre o acontecimento de eventos, anúncio de espetáculos ou a divulgação de produtos.

Até 1870, mais ou menos, esses pôsters eram basicamente textuais e monocromáticos em preto e branco. A revolução industrial popularizou as máquinas de litografia, permitindo a produção em massa de cartazes coloridos, melhorando a qualidade e barateando custos. Com isso, era comum, especialmente nas grandes cidades, muros serem inundados por cartazes de propagandas e posteres de artistas. Mágicos, em especial, se valeram muito desse novo recurso visual. Alguns chegavam ao extremo de fazer uma arte nova para os cartazes para cada cidade visitada, ou ainda, duas ou mais artes para cada performance. Cenas, como a abaixo, eram bastante comuns.

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Uma parede coberta com cartazes de Chung Ling Soo. São pelo menos 13 ilustrações diferentes.

Como qualquer objeto, eles despertaram a curiosidade e o interesse de várias pessoas e logo surgiram colecionadores desses cartazes. Um desses colecionadores foi o Dr. Hans Sachs, um dentista judeu alemão (o quê, como já dá pra antever, não era uma boa combinação).

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Dr. Hans Sachs.

– Æ –

O Dr. Sachs nasceu em agosto de 1881 em Breslau, Alemanha (hoje, Polônia) e começou a sua coleção de cartazes ainda em 1895 ao se apaixonar por aquilo que ele considerou uma forma de arte. Seu primeiro cartaz foi um de Sarah Bernhardt, uma atriz francesa.

O que começou como o hobby de um adolescente logo se tornou uma paixão. Sachs era meticuloso e passava suas horas livres enumerando, catalogando e identificando cada uma de suas peças. Sua dedicação ao colecionismo era tamanha que 15 anos após seu primeiro cartaz, Dr. Sachs fundou a sociedade internacional dos colecionadores de pôsteres (“Verein der Plakat Freunde“) e ainda, começou a produzir uma revista dedicada a este hobby, a “Das Plakat” (O Pôster).

Sua paixão por cartazes não o impediu de levar adiante seus estudos. Ele se formou em química e recebeu doutorado em ciências exatas (que englobava as disciplinas de química, física e matemática) e ainda um segundo doutorado em periodontia que acabou se tornando a sua profissão. Até mesmo na área de periodontia, o Dr. Sachs era uma sumidade, chegando a escrever diversos artigos científicos sobre o tema. Um dos clientes regulares do Dr. Sachs era o físico e amigo Albert Einstein.

Obviamente que o Dr. Sachs não colecionava apenas pôsteres de mágicos. Qualquer pôster litografado era seu objeto de desejo. Assim, estima-se que por volta de 1938, na iminência da 2ª Guerra, a coleção do Dr. Sachs já atingia a cifra de 12.500 cartazes. Ele fazia exibições públicas de sua coleção por volta das décadas de 1920 e 1930. A coleção incluía propagandas de carros, bicicletas, sabões, shows de mágica, óperas, enfim…

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Parte da coleção do Dr. Hans.

Como já dito, a Alemanha de 1930 não era a melhor opção de moradia para um judeu. Hitler, já no poder, iniciara diversas campanhas em prol do orgulho ariano. Uma dessas campanhas, foi capitaneada por Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, e que envolvia a promoção do que eles chamavam de “deutsche Kunst” ou “Arte Alemã” o que seria uma forma superior de arte, em oposição à “entartete Kunst” ou “arte degenerada” [1].

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Exemplo de arte “superior” alemã.

A “deutsche Kunst” era um ideal artístico que era fomentado pelo regime do führer, com traços mais naturalistas, arcadianos, em oposição a “arte degenerada” que, para o conceito nazista, englobava peças dos movimentos bauhaus, cubismo, expressionismo, surrealismo e, claro, arte moderna, incluindo aí também, os cartazes de propaganda.

Qualquer arte que se opunha à visão nacional-socialista de beleza era considerada infame e, portanto, deveria ser confiscada e destruída. A coleção do Dr. Sachs encontrava-se nesta categoria. E, dada a grandiosidade de sua coleção, ela inevitavelmente chamou a atenção de Goebbels.

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Cerimônia de queima de livros e de objetos considerados “degenerados”.

Certa noite, o Dr. Sachs recebeu um telefonema de três oficiais da Gestapo – a polícia secreta do nazismo – informando-lhe que, à pedido de Goebbels, o Museu de Arte Decorativa em Berlim estaria adicionando uma nova ala dedicada à “arte dos mercadores” e a coleção de Sachs seria “cedida” à esta nova ala.

Quando os oficiais chegaram à casa do Dr. Sachs, pediram para ver os cartazes de propaganda político partidária. o Dr. Sachs então mostrou-lhes esta parte do acervo, e os oficiais encontraram – além dos cartazes de produtos, diversos pôsteres anti-Hitler (obviamente havia também cartazes pró-Hitler, ams esse detalhe foi ignorado pelo pessoal da Gestapo). Era o argumento que faltava para a Gestapo confiscar o acervo do Dr. Sachs.

Obviamente que o acervo todo foi alvo de apreensão – e não apenas os cartazes políticos. A justifica: arte-degenerada e propaganda anti-nazista. Contudo, alguns historiadores dizem que, assim como o Dr. Sachs, Goebbels também era aficcionado por artes visuais, e que, no fundo, queria a coleção para si.

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Goebbels visitando a exposição de arte degenerada.

O confisco foi inevitável. Ao todo três caminhões carregados de material gráfico deixaram a casa do Dr. Sachs. O próprio Dr. Sachs fez questão de carregar as armações de alumínio onde ficavam guardados os pôsteres. Ao todo ele levou 250 dessas armações, cada uma contendo 50 cartazes, fora as diversas caixas, recortes e demais materiais. O Dr. Sachs nunca mais veria sua estimada coleção novamente.

Como falamos da Alemanha nazista, obviamente que a repressão ao Dr. Sachs não parou por aí. Em 9 novembro de 1938, na famigerada “Noite dos Cristais”, o Dr. Sachs foi preso e levado ao campo de concentração de Sachsenhausen, próximo de Berlim. Ele ficou detido por cerca de 17 dias, até ter a sorte de ser liberado junto com sua esposa e seu filho Peter. O Dr. Sachs entendendo que sua vida na Alemanha havia acabado, abandonou tudo e migrou para a América.

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Campo de concentração de Sachsenhausen.

Na América, com a alma enlutada pela perda de sua estimada coleção, Sachs decide não retomar o seu amado hobby de colecionador, e focar-se na sua área de formação. Ele contou com a ajuda de ninguém menos do que Albert Einstein, que tentou ajudar oex colecionador a conseguir um emprego na área da odontologia, mas seus cursos não foram reconhecidos em solo americano. Assim, para poder exercer a sua antiga profissão, o Dr. Sachs acabou tendo que fazer um novo doutorado na área, se formando dessa vez, em Harvard.

Por volta de 1950, com o fim da guerra e do regime nazista, o Dr. Sachs  vai em busca de informações acerca de sua coleção. Ele é informado pelo governo Alemão Oriental que ela havia sido destruída após a invasão russa a Berlim. E por isso ele foi indenizado em 225.000 marcos (mais ou menos R$ 1,8 milhão em valores atuais) e dá o assunto por encerrado em sua vida. Isso, até a chegada um “plot twist“…

– Æ –

Em meados de 1960, alguns cartazes antigos começaram a circular em Berlim, vendidas em leilões e também no mercado “paralelo”. O filho do Dr. Sachs, Peter, ficou sabendo dessas vendas e, conhecendo a história do pai, decidiu ir a Berlim e investigar a origem desses cartazes.

A suspeita se confirmou. Segundo consta, apenas uma parte da coleção do Dr. Sachs fora destruída (em torno de 1/3). As 8.000 peças restantes ficaram guardadas no Museu de História de Berlim, e não no Museu de Arte Decorativa – como fora divulgado, e lá permaneceram, mesmo após a Guerra e à divisão de Berlim. Os pôsteres foram reconhecidos por causa do carimbo do Dr. Sachs. Sua dedicação na catalogação meticulosa das peças foi fundamental para a redescoberta de sua coleção.

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Carimbo usado pelo Dr. Sachs para catalogar sua coleção.

No começo de 1974 o Dr. Sachs vai a Berlim, a fim de resgatar a sua coleção. Contudo é proibido de entrar na parte oriental da cidade (àquela altura a cidade já era dividido pelo Muro de Berlim, que impedia a livre passagem pelos lados oriental e ocidental da cidade). O Dr. Sachs faleceu em março daquele ano, sem poder rever sua estimada coleção.

Por quase 40 anos a coleção de Sachs ficou isolada no lado oriental de Berlim. Em 2005, após sua aposentadoria, Peter Sachs decide retomar a luta para reaver a coleção do pai. Logo ele descobre que o museu de Berlim orgulhosamente expunha a coleção. Foi então que ele encampou uma batalha jurídica contra o Museu de História Alemão. Em 2009 a família de Sachs sagra-se vitoriosa, mas somente em 2013 é que mais de 4.000 pôsteres (aproximadamente 30% da coleção original) voltaram à família. Alguns desses cartazes foram doados a museus, outros leiloados à quem pudesse tomar melhor conta deles. Apenas uma parte ficou com a família Sachs. Peter faleceu em setembro daquele ano.

A coleção do Dr. Sachs, de certa forma, sobreviveu ao tempo, à loucura nazista, à ganância comunista. Mais do que anunciar shows e produtos, essa coleção nos lembra da capacidade humana de fazer o mal ao seu próximo, mas também da resiliência e da esperança que trazemos em nós.

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Dr. Hans Sachs.

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PS: Sei que o título não está bem colocado. Os nazistas roubaram muito mais do que um cartaz, e não foi apenas de mágicos. Mas como este é um blog de mágica, e esta história é incrível – mas não necessariamente tem a ver com mágica ou mágicos – achei que um pequeno “click bait” não cairia mal.

– Æ –

NOTAS

[1] Certa feita, o Governo nazista fez uma exposição de arte degenerada chamada ironicamente de “Kunst” (“Arte”), com as aspas. A ideia era mostrar o feio, o grotesco, e como a arte alemã era superior (ironicamente, hoje ela é considerada um arte “kitsch“, brega). Ao contrário do que esperavam os oficiais alemães, a exposição foi um sucesso e deu ensejo ao que chamamos de Arte Moderna, no sentido de protesto a uma imposição do que é belo,  nada a ver com acepção hodierna de arte moderna.

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Enorme fila para ver a exposição de “arte degenerada”.

Aqui e aqui, exemplos dos catálogos de exposição “Entartete Kunst“; e aqui, o catálogo da “Große Deutsche Kunstausstellung” ou “arte superior alemã”.

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BIBLIOGRAFIA

Site: The Ephemeral Collector

Site: Wikipedia

Site: Guernsey’s Audiction

Periódico: Zoe Wonfor em “Concordia Undegraduated Journal of Art History“, Vol. XI, p. 56 – 71, março de 2015.

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