MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

V0004749 Giovanni Battista della Porta. Line engraving, 1688.
Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

Robert-Houdin Theatre
Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

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Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

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Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

A MAGIA DOS AUTÔMATOS

Escrever um post sobre autômatos é uma tarefa hercúlea, ainda mais para mim, um apaixonado pelo tema. Hercúlea porque primeiro, há muito que pode ser dito. Existem livros e mais livros, registros e mais registros sobre o assunto. A sua beleza, o seu mistério inspiraram muitos a escrever e registrar tais artefatos. Segundo, por que, eu sou um apaixonado por engrenagens e, consequentemente, por autômatos. Assim, fica difícil, quase impossível, para mim, selecionar aquilo que deixarei de fora do post. Quem sabe um dia não escreva um livro só sobre o tema?

Seja como for, este texto é uma pequena introdução ao mundo mágico dos autômatos. Espero que seja tão agradável de ler como foi para mim escrevê-lo.

1. A Origem dos Autômatos

A palavra autômato vem do grego αὐτόματος (automatos) e significa “aquele que se move por si próprio“. Segundo a mitologia grega, Hefestos teria criado os primeiros autômatos que serviam-lhe de ajudante  em suas tarefas. Segundo Homero, Hefestos teria criado os trípodes (ou tripés) que teriam rodas de ouro “o que as permitiam ir sozinhas para as assembleias dos deuses, uma maravilha de se contemplar”, diz Homero.

Apolo e um Trípode

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Em termos históricos, o primeiro autômato que se tem registro foi criado no século I por Heron de Alexandria e era movido por cordas enroladas em um eixo e presa um contrapeso sobre uma base de grãos de trigo no alto de um tubo vertical. O trigo ao escorrer para a base do autômato deslocava o contrapeso, que por sua vez desenrolava a corda que ficava presa no eixo do autômato, movendo assim as rodas.  O segredo estava na forma especial com que a corda ficava presa ao eixo: a depender da forma como esta era enrolada, o autômato se movia para frente, para os lados e até mesmo parava por alguns instantes para depois retomar seu caminho. [1]

É de Heron de Alexandria a autoria do livro: “Perí automatopoietikés”  (Sobre a fabricação de autômatos), onde além da ciência dos autômatos, Heron descreve seus antecessores como Ctesíbio, que viveu dois séculos antes de Heron, também em Alexandria, cidade que, aliás, tinha tradição na confecção de autômatos.

Já no início do século XVI, Leonardo de Vinci teria feito o projeto de um leão mecânico que caminhava e apresentava flores. O diferencial do robô de Leonardo é que ele era programável: em vez de desmontar o bicho inteiro para que ele funcionasse de maneira diferente, bastava modificar a posição de alguns elementos internos, no caso, braços que faziam rodar certas engrenagens, sistema parecido com o de uma caixinha de música.

2. Autômatos e a Mitologia

Nota-se que os gregos antigos eram um povo obcecado pela ideia de serem mecânicos semoventes. Suas lendas são repletas de estátuas móveis e robôs andantes. Além dos já citados trípodes, Hefestos teria criado ainda Talos, um gigante feito de bronze, que guardava Creta contra intrusos. Talos matava suas vítimas através do aquecimento, abraçando-os à morte. É de Hefesto ainda a credencial de haver feito estátuas de ouro puro em formato feminino.

Dracma com a efígie de Talos

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Pigmaleão, rei de Chipre, se apaixonou por uma bela estátua que tinha feito e se casou com ela depois que Afrodite a trouxe a vida; Dédalo, haveria inventado alguns robôs trabalhadores para lhe auxiliarem. Temos ainda Prometeu, que recebeu a fama de ter feito o primeiro homem e a primeira mulher na terra, com barro animado pelo fogo e roubado do céu.

3. O Apogeu dos Autômatos

Foi nos séculos XVIII e XIX que os autômatos viveram o seu apogeu. Nas mãos de cientistas, mágicos e showmans fizeram a alegria e mexeram com a curiosidade e o imaginário de muita gente. A união entre as ciências da relojoaria e anatomia humana, somado ao conhecimento teatral dos mágicos, e à sua aura de mistério, foi o principal responsável por fomentar o conhecimento necessário para este que seria o maior sucesso dos mágicos na virada do século XVIII para o XIX.

Podemos dividir esse apogeu em três fases distintas que se espalham ao longo de 150 anos: o primeiro momento encontra-se na segunda metade do século XVIII onde os relojeiros e cientistas da anatomia humana desenvolveram a base da ciência dos autômatos. Friedrich Von Knauss, barão Von Kempelen, Pierre e Louis Jaquet-Droz são alguns dos expoentes dessa época. Dominados pelo espírito científico, e, mais precisamente, pela concepção biomecânica do ser humano, estes homens construíram numerosas criaturas artificiais que tentaram copiar com exatidão a natureza.  O objetivo não era de entreter, senão fazer progredir a ciência, elaborando diferentes órgãos artificiais com a máxima precisão e funcionalidade possível. Mesmo os autômatos que imitavam animais eram quase perfeitos em seu comportamento.

O segundo momento situa-se na primeira metade do século XIX, período conhecido como “a era dos mágicos-mecânicos”. Gênios como  o relojoeiro Henri Maillardet e mágicos como Stèvenard, Jean Eugène Roubert-Houdin e John Nevil Maskelyne foram os maiores exploradores dessa ciência. Eles criaram máquinas fantásticas, capazes de escrever poemas, desenhar, fazer contas, adivinhar cartas, tocar instrumentos, atirar com arco-e-flecha (inclusive retirando a flecha da aljava e pondo-a no arco)… a imaginação era o limite.

Por fim, na segunda metade do século XIX temos a chamada “era de ouro do autômatos”. Juntamente com a revolução industrial, o autômato torna-se numa indústria. Uma dezena de artesãos, instalados principalmente no bairro do Marais em Paris, realizaram numerosas criaturas com performance mais modestas do que as primogênitas do século XVIII, mas, talvez mais empolgantes, porque foram inspiradas da vida parisiense e do mundo do espetáculo: magia, circo e music-hall. Dente-se os nomes célebres, cita-se: Théroude, Phalibois, Lambert, Renou, Roullet-Decamps, Vichy e Bontemps.

4. Autômatos Famosos e Seus Efeitos

A seguir um pequeno rol com alguns dos mais famoso e interessantes autômatos já construídos.

4.1. O Pato de Vaucanson

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Jacques de Vaucanson produziu alguns dos mais famosos autômatos históricos e é considerado por muitos como o melhor fabricante de autômatos de todos os tempos. Seu trabalho mais famoso chamado “O Pato” de 1739 e consiste em um pato artificial feito de cobre que, além de produzir o som de um pato, bebe, come e digere a comida.

Na verdade o pato era incapaz de digerir a comida. Os grãos entravam pela boca do pato e eram armazenados em um recipiente; em outro recipiente fezes de pato eram armazenadas para depois serem expelidas. Vaucanson, no entanto, buscou incessantemente criar um mecanismo capaz de realizar uma digestão de verdade. A explicação para esta obsessão reside no fato de Vaucanson sofria de sérios problemas digestivos – uma fistula anal para ser mais preciso – o que impedia Vaucanson de ter uma alimentação e digestão normais. assim, seu famoso pato seria uma espécie de terapia, refletindo suas preocupações e anseios pessoais.

Figura mostrando o suposto funcionamento de O Pato de Vaucanson.

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Vaucanson ficou conhecido como “o rival de Prometeus”; nas palavras de Voltaire: “Um rival de Prometeus parece ter roubado o fogo dos deuses em sua busca por construir a vida“. Ele criou diversos outros magníficos autômatos como os tocadores de flauta e de tambor. O tocador de flauta tinha 1,80 de altura e ficava em um pedestal. Uma corrente de ar levava através do mecanismo complexo provocando o movimento de lábios e dedos como se faz naturalmente na flauta. Ele possuía um repertório de doze músicas., incluindo um trecho de “O Rouxinol” de Blavet. [2]

Jacques de Vaucanson
Postal celebrando as obras de Vaucanson

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4.2. Euphonia de Farber

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Se autômatos que tocam instrumentos de sopro são interessantes, o que dizer de um autômato que fala? Em meados de 1830, Joseph Faber lançou o seu famoso autômato “Euphonia”, após 25 anos de estudos  trabalhos. Farber era um estudioso da voz humana e seu autômato era capaz de produzir sons semelhantes à voz humana. Além disso, ele era capaz de recitava as letras do alfabeto e ainda falava em inglês com sotaque alemão. Os mecanismos podiam ser inspecionados e todos os que inspecionavam o mecanismo ficavam convencidos de que o autômato fazia os sons e não um ventríloquo.

O autômato de Farber era uma resposta, e ao mesmo tempo uma melhoria, ao telégrafo. O objetivo de Farber era criar um aparelho de telégrafo capa de falar as mensagens. Ele funcionava com um fole e uma série de 16 teclas de pianos que acionavam placas de metal, câmaras de som e outros aparatos, incluindo uma língua artificial; a caixa preta e uma máscara escondiam as engrenagens. O escrever a mensagem em código morse de um lado, resultava em sua transcrição em voz audível do outro lado. Apesar da brilhante engenharia por trás do aparato, ele provou-se extremamente caro para o propósito ao qul fora construído e por isso acabou sendo relegado  ao ostracismo.

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4.3. A Fantástica Laranjeira de Robert-Houdin

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Jean Eugène Robert-Houdin,  relojeiro-mecânico, prestidigitador, pesquisador da eletricidade e inventor. Ele é considerado como um dos maiores ilusionistas e prestidigitadores de sempre. Quase todos os “grandes truques” da magia atual, provêm dos aperfeiçoamentos das suas descobertas. Além do título de Pai da Mágica Moderna, Robert-Houdin também era uma um grande construtor de autómatas, que apresentava no seu teatro nas “Soirées fantastiques“, no Palais Royal. Seu mais famoso autômato é “A Fantástica Laranjeira”, e consistia em uma árvore dava frutos aos olhos de seus espectadores.

O número consistia em tomar emprestado um lenço  e um anel e fazer ambos desaparecerem. Em uma mesa, havia uma árvore de laranjeira em um vaso. Robert-Houdin então, colocava fogo em uma loção perfumada que estava abaixo do autômato de árvore e enquanto s vapores subiam, a árvore florescia, dava frutos . O mágico pegava algumas laranjas e as oferecia ao público, deixando apenas uma laranja na árvore. Em seguida, com um gesto de sua varinha, a laranja que ficara na árvore se abria, e de seu interior duas borboletas saiam batendo asas, trazendo amarrados em seu corpo o lenço e o anel emprestados. [3]

Abaixo um vídeo mostrando um autômato similar ao de Robert-Houdin.

Image de prévisualisation YouTube

No filme “O Ilusionista”, este automato aparece em uma versão modificada, onde a árvore, além de dar frutos, cresce a partir de uma semente.

4.4. O Autômato de Maillardet

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Henri Maillardet foi um mecânico suíço do século XVIII que trabalhou em Londres produzindo relógios e outros mecanismos. Ele passou um tempo trabalhando nas oficinas de Pierre Jaquet-Droz, que produzia relógios e autômatos. Em 1805, Henri Maillardet construiu um autômato que desenhava figuras e escrevia versos em francês e inglês.

O curioso é que em novembro de 1928 o autômato de Maillardet foi doado pela família Brock para o Franklin Institute; a peça estava bastante danificada e com sinais de que havia passado por um incêndio. Por fim, ninguém sabia quem era o seu construtor. Uma vez reparada, o autômato foi posto para funcionar, e, após fazer alguns desenhos e escrever poemas, a máquina finalizou uma de suas sobras escrevendo: “Ecrit par L’Automate de Maillardet.”, traduzindo, “Escrito pelo autômato de Maillardet. Ou seja, a própria máquina guardava os seu segredo, algo similar ao filme “A Invenção de Hugo Cabret”. Henri fez apenas um outro autômato que poderia escrever (em chinês), e foi feito para o Imperador da China, como um presente do Rei George III da Inglaterra.

Dentre os autômatos escreventes, o Autômato de Maillardet é o com a maior memória já construída. Ele é capaz de fazer quatro desenhos e escrever três poemas (dois em francês e um em Inglês).

Detalhes do Autômato. Engrenagens de tambores de latão.

(Clique na imagem para ampliar)

Abaixo os poemas e os desenhos feitos pelo autômato. Clique nas imagens para ampliá-las.

Poema 1 – Francês:
Un jeune enfant, que le zèle dirige,
De vos faveurs sollicite le prix.
Et s’il l’obtient, n’en soyez point surpris:
Le désir de vous plaire, enfanta ce prodige.”

Tradução:

A criança, cujo zelo dirige
De seu favor pergunta o preço.
E se ele recebe-lo, não seja de todo surpreso:
O desejo de agradá-lo, deu este prodígio.

Poema 2 – Inglês
Unerring is my hand tho small
May I not add with truth
I do my best to please you all
Encourage then my Youth.

Tradução:

Infalível é minha mão muito pequena,
Poderia eu não acrescentar a verdade.
Eu faço o meu melhor para agradar a todos vocês
E incentivar, então, a minha juventude.

 

Poema 3 – Francês:
“Enfant chéri des dames,
Je suis, en tout pays,
Fort bien avec les femmes,
Même avec les maris.”
(Ecrit par LʼAutomate de Maillardet)

Tradução:

Querida senhoras,
Eu sou, em qualquer país,
Bem com as mulheres,
O mesmo com os maridos.
(Escrito por LAutomate de Maillardet)

Existem ainda outros construtores e autômatos famosos. Mas como esse post já está bastante grande, melhor terminar por aqui. Outra hora, quem sabe, faço uma continuação.

Ah, e não deixe de clicar nos links de bibliografia e nas notas multimídias.

Amplexos!

NOTAS MULTIMÍDIA

OBS: Como o WordPress tem um problema em “embendar”  conteúdo no formato flash, abaixo separei alguns links multimídias.

[1] ANIMAÇÃO: O autômato de Heron. Fonte: g1.com

[2] MP3: O Rouxinol, de Blavet. Fonte: madringtones.org

[3] TEXTO: Efeito completo de “A fantástica Laranjeira” (em inglês). Fonte: Hubpages.com

BIBLIOGRAFIA

G1.com – Robô da Grécia era movido à Trigo

Automates-anciens.com

A História dos Autômatos

Wikipedia – Vaucanson Duck

The Pooping Duck

Jessica Riskin – Defecating duck (pdf)

Jacques de Vaucanson

Euphonia Speaking Machine

Automata-anciens – Robert-Houdin

Pierre Mayer – Robert-Houdin Orange Tree

Wikipedia – Henri Maillardet

Science Blogs – O Autômato de Maillardet

The Franklin Institute

SEUS OLHOS PODEM REVELAR O NÚMERO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

Artigo publicado na revista Current Biology

Apesar da aparente simplicidade em se escolher um número aleatório, é praticamente impossível produzir uma sequência de números realmente aleatórios. Ainda que os números surjam, aparentemente de forma espontânea na mente de alguém, sua escolha sempre será influenciada por números gerados anteriormente.

Vemos aqui como os olhos e sua posição nos dão uma ideia do tipo de decisão sistemática feitas pelo “gerador de números aleatórios do cérebro”. Ao medir a posição vertical e horizontal do olho de uma pessoa, somos capazes de predizer com precisão o “tamanho” do número escolhido pelo espectador, antes mesmo que ele o diga em alta voz.

Podemos dizer seguramente que uma mudança para a esquerda e para baixo dos olhos prediz que o número seguinte será menos que o anterior. Da mesma forma, se os olhos mudam de posição para a direita e para cima, prevemos que o próximo número será maior. Este fato, além de apoiar o conceito popular de que os olhos delatam a mente, os resultados atestam os vínculos complexos entre os processos de pensamento abstrato, as ações do corpo e o mundo que nos cerca.

(A) O gráfico em barra mostra a acuidade horizontal e vertical da posição dos olhos quando um indivíduo escolhe um número maior ou menor do que o número predito.(B, C) mudanças na posição dos olhos (dados agrupados) em função da mudança da magnitude do número (número aleatório gerado em tentaivas 'n+1' menos o número gerado na tentaiva 'n'). (B) Mediana das variações de posição horizontal; (C) Mediana das variações verticais de posição.

(Clique na imagem para ampliá-la)

Os sujeitos nomearam 40 números aleatórios compreendidos entre 1 e 30. As mudanças na posição ocular destes individuos indicavam, não apenas a mudança para mais ou para menos dos números gerados, mas também quão maior, ou menor, era essa mudança.

O ponto mais interessante desta pesquisa, ao meu ver, é demonstrar como a representação dos processos mentais. Em um trecho deste trabalho, os autores escrevem:

Uma influente teoria – a ‘teoria da magnitude’ – considera a informção coordenada em um ‘número-espaço’ como sendo apenas uma das instâncias de magnitude dentro de sistema métrico único, unificando uma ampla gama de unidades que vão desde a extensão espacial até duração temporal. É postulado que este sistema de magnitude geral é mediado pela estrutura parietal inferior do cérebro e que codifica informações usada nas ações. Esta hipóstese prediz com sucesso interações entre números e movimentos direcionados da mão. Por exemplo, revelar números grandes ou pequenos alteram a força com que alguém fecha a mão (respectivamente mais forte ou mais fraco) quando essa pessoa está, por exemplo, negociando”.

COMENTO:

Essa pesquisa é deveras interessante, porém não significa que somos capazes de “ler os pensamentos alheios”. Segundo os gráficos demonstrados, a precisão de uma previsão ficaria, na melhor das hipóteses em torno dos 75% . No mais, o tempo de reação do olho é de meio segundo, ou seja, da teoria para a prática, há ainda um longo caminho. Por isso, a maneira mais fácil ainda de se prever um número é usando um “force“.

Mas o mérito é mostrar como um bom mentalista precisa saber ler os sinais enviados pelo espectador.

Amplexos!

FONTES

Artigo completo (em inglês. Requer conhecimento de termos técnicos)

Current Biology