ENGANANDO O PÚBLICO

Faça-os acreditar que estão sendo enganados por um cavalheiro.

Howard Thurston 

O público do Cine Theatro Pró Trento, de Nova Trento, interior do Rio Grande do Sul aguardava ansiosamente a apresentação do mágico. O ingresso, caro para os padrões da época, não impediu que a casa estivesse cheia no momento da apresentação.

Na hora marcada a cortina sobe e o palco se ilumina. O mágico adentra pela direita e o silêncio logo irrompe pela plateia. A tensão se mescla com a excitação de ver um show tão diferente por aquelas bandas. Com uma reverência um pouco mais cumprida que o habitual o mágico saúda a plateia. E o show começa.

Para a abertura, nada de mais: uma simples produção de lenços coloridos. Ele recebe alguns aplausos tímidos, mas sinceros. Ninguém queria ver lenços, afinal de contas, tampouco cartas, moedas… o que eles queriam ver mesmo era a peça principal do show: o truque de decapitar a cabeça de um galo, e depois restaurá-la. A promessa do mágico, contudo, ia além: Ele não iria apenas restauraria a cabeça do pobre galo, mas fá-lo-ia cantar novamente, para que ninguém duvidasse de seu feito.

Mais um efeito de manipulação de bolas de bilhar. Incrível, mas isso ainda não era o que o público queria. O mágico, então, sentindo a pressão dos olhares da plateia, resolve ceder e adianta a apresentação do número principal.

Um número dessa envergadura não pode ser, simplesmente feito sem os devidos cuidados. O mágico chama dois voluntários da plateia: o Prefeito e o Delegado. Duas autoridades locais; pessoas austeras e respeitadas. Enquanto o Prefeito segura o corpo de galo, o delegado, segura a cabeça. O mágico então toma um machado e após algumas palavra mágica, decepa a cabeça do galináceo com um golpe certeiro.

Após mostrar claramente o galo morto, ele pede que o Prefeito e o delegado segurem junto as duas partes do animal e recita algumas palavras mágicas. O ritual demora não mais do que um minuto. Nada acontece! Visilmente constrangido o mágico repete o ritual. Os olhares da plateia começam a se transformar, de curiosos para zombeteiros.

Já sei!” – exclama o mágico – “Esqueci-me do líquido mágico que fará colar as duas partes. Aguardem um momento, sim?!” E sai para a coxia, pelo mesmo lado que entrara. Passados 15 minutos o Prefeito, o Delegado e toda plateia já havia percebido que o verdadeiro truque do mágico fora desaparecer juntamente com o dinheiro da bilheteria.

Essa é uma lenda muito divulgada na cidade de Flores da Cunha, antiga Nova Trento. Supostamente teria se passado por meados da década de 1930. O galo que chegou a ser motivo de chacota das cidades vizinhas, acabou sendo adotado como símbolo oficial da cidade e a história – provavelmente uma lenda urbana – acabou ganhando contornos de folclore local.

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ENGANADORES EM LONDRES

Se o desconhecido mágico de Flores da Cunha é apenas um personagem, outros “mágicos” são bem mais reais e também passaram a perna no público ou em incautos crédulos.

Por volta de 1781, um mágico alemão chamado Philip Breslaw, excursionou pela Grã-Bretanha, fazendo relativo sucesso. Um dia, anunciou um show beneficiente, em que todo o dinheiro, arrecadado, seria doado ao pobres. Findado o show, Breslaw tomou o dinheiro da bilheteria e pagou regiamente seus funcionários. Obviamente tal fato chegou aos ouvidos das autoridades locais que inteprelaram Breslaw sobre sua mentira. A resposta de Breslaw foi icônica: “Mas eu não menti. Prometi dar dinheiro aos mais pobres, e não conheço niguém mais pobre que meus ajudantes“.

Contudo a mais icônica história de um mágico enganado seu público aconteceu em Janeiro de 1749, em Londres. Os jornais locais anunciaram durante dias o show de um certo Benimbe Zammampoango, doutor em ocultismo, e capaz de feitos fantásticos. O anúncio era extraordinário: o mágico prometera ser capaz de tocar o som de qualquer instrumento conhecido a partir e uma bengala emprestada da plateia. Ainda, conjuraria fantasmas que revelariam os mais profundos segredos das pessoas ali presentes.

Mas o que realmente chamou a atenção e despertou a curiosidade do público foi a promessa que o doutor entraria dentro de uma garrafa comum de vinho, a qual poderia ser manipulada por qualquer pessoa. A população dirigiu-se em massa ao Teatro em Haymarket para ver o maravilhoso feito. Inclusive o próprio Duque de Cumberland, irmão do Rei Goerge III estava presente. Seria verdade? Seria um boato? Fosse o que fosse, todos queriam ver o que iria acontecer.

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Doutor Benimbe Zammampoango entrando na garrafa de vinho.

Às 18:30, o Teatro lotado. Cadeiras extras foram providenciadas e muita gente se dispôs a ficar de pé. As luzes baixaram e o teatro ficou em completo silêncio esperando o começo do show. No entanto, não havia ninguém no palco e as cortinas permaneciam fechadas. Silêncio e tensão na plateia. Às 19:00 o palco seguia vazio e aas cortinas fechadas. Foi quando começaram os primeiros assovios e vaias. No afã de acalmar a plateia, o gerente do teatro, subiu ao palco e disse que, caso o mágico não aparecesse, o dinheiro dos ingressos seria regiamente reembolsado.

Longe de acalmar a população, a declaração do diretor acirrou ainda mais os ânimos. As mulheres e as crianças prontamente se retiraram já temendo o pior, que de fato acabou acontecendo. Não se sabe direito como, mas na confusão um princípio de incêndio irrompeu pelo teatro, enquanto que, em outra frente, confusão e quebradeira generalizada. A polícia foi chamada, mas quando chegou ao local, todos já haviam se retirado, deixando apenas o rastro da idignação no pobre teatro.

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No dia seguinte o clima jocoso tomava conta de Londres. A piada recorrente era que se o homem tivesse prometido entrar em uma garrafa maior, as pessoas teriam pagado ainda mais para assistí-lo. O mais curioso, contudo, é que ninguém soube ao certo explicar como o boato começou, uma vez que, a príncipio, nem o próprio teatro sabia do show.

Alguns autores modernos dizem que o boato começou com um Duque, chamado John Montagu, um conhecido apreciador de “pegadinhas”. Segundo eles, o Montagu haveria apostado com alguns amigos que, ainda que prometesse os feitos mais impossíveis, mesmo assim, ele seria capaz de encontrar idiotas o suficiente, capaz de encher um teatro inteiro, que acreditariam em tais promessas.

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Moderna reprodução da notícia que circulou pelos jornais londrinos em janeiro de 1749, anunciando o homem que entrava na garrafa.

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A TV brasileira também possui alguns casos curiosos de pessoas que prometeram feitos extratordinários, mas no fim, só enganaram o público.

No final dos anos 1980, o programa “Show de Calouros” no SBT, durante semanas anunciou de forma bombástica o “o homem que vira peixe”. O homem chegou a subir duas ou três vezes ao palco do programa, mas quando ia começar a demonstração o tempo do programa acabava e ficava para a próxima semana. Até que um dia finalmente o calouro veio ao palco e “virou peixe”: munido de uma frigideira, colocou um peixe nela e atirava-o para cima, virando-o.

Outro caso parecido foi o homem que bebia café com leite, engolia só o leite e cuspia o café de volta. A pegadinha: a mistura era composta de leite e café em grãos. Esses quadros foram reprisados e revisitados diversas vezes, por diversos humoristas e emissoras.

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DE VOLTA AO GALO

Mas e o mágico de Flores da Cunha? Será que foi mesmo apenas uma lenda?

Todos sabemos que a ilusão de decepar a cabeça de uma ave e depois restaurá-la é o truque mais velho da históra, literalmente. Também é fato registrado que diversas companhias artísticas passaram pela região de Caxias do Sul na década de 1930, inclusive alguns mágicos.

Um artigo no jornal “O Momento” de Caxias do Sul (cidade vizinha de Flores da Cunha) datado de 10 de fevereiro de 1945, em uma coluna assinada por Iaçanan, conta que o mágico que andava pela região usava uma tesoura, e brinca que, o galo não foi degolado, mas sim “tesourado”. Segundo o colunista existem documentos que “provam de forma provada” que o caso realmente aconteceu. Se a coluna foi séria, ou se trata de algo de humor, é difícil saber.

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Claudino Antônio Boscatto é um historiador local de Flores da Cunha e escreveu o livro “Memórias de um neto de imigrantes” em que conta o causo do mágico pilantra. Segundo ele, a história é uma lenda que nasceu como uma piada e acabou ganhando corpo. Uma das teses de Boscatto é que nenhuma autoridade à época se prestaria ao papel de subir ao palco para um papel tão “humilhante”, ainda mais perante um mágico desconhecido. Claudino cita ainda os nomes das autoridades, o Capitão Joaquim Mascarello, intendente municipal, e o delegado Osário Belíssimo.

Verdade seja dita, é unânime a informação que essa história nasceu da boca dos próprios caxienses; talvez como uma forma de rixa pela emancipação do distrito de Nova Trento (a história supostamente teria se passado no mesmo ano da emancipação).

Uma última fonte cita o mágico nominalmente: “Dipiero” seria seu nome. Pesquisando os jornais da época, não encontrei registros de ilusionistas que tenham usado tal nome.

Seja verdade, seja mentira, o fato é que a história que era deboche, acabou virando a marca registrada da cidade de Flores da Cunha. Todo o ganho publicitário e de turismo foram bem maiores do que o valor furtado pelo mágico enganador. No fim das contas, para o município de Flores da Cunha, foi um belo truque!

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REFERÊNCIAS

LIVRO: Christopher Milbourne, “Magic, a Picture History“.

LIVRO: Ryan, Richard Ryan e François Joseph Talma. “Dramatic Table Talk or, Scenes, Situations, & Adventures, Serious & Comic in Theatrical History and Biography” – Vol. III

SITE: www.geriwalton.com

SITE: Obscure History. Artigo completo sobre o caso (Inglês | PDF)

O DIA EM QUE OS NAZISTAS ROUBARAM UM PÔSTER DE MÁGICA

“[Esta é] a mais variada e abrangente coleção, não importa o ângulo em que se olhe, seja do artístico, sociológico, cultural, psicológico, histórico ou geográfico.

Hans Sachs, sobre a sua coleção.

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Houve um tempo em que não havia internet e nem televisão, e o rádio era item de luxo. Nessa época, os anúncios de eventos eram feitos com pôsteres e cartazes fixados nos muros a fim de informar aos que passassem por ali sobre o acontecimento de eventos, anúncio de espetáculos ou a divulgação de produtos.

Até 1870, mais ou menos, esses pôsters eram basicamente textuais e monocromáticos em preto e branco. A revolução industrial popularizou as máquinas de litografia, permitindo a produção em massa de cartazes coloridos, melhorando a qualidade e barateando custos. Com isso, era comum, especialmente nas grandes cidades, muros serem inundados por cartazes de propagandas e posteres de artistas. Mágicos, em especial, se valeram muito desse novo recurso visual. Alguns chegavam ao extremo de fazer uma arte nova para os cartazes para cada cidade visitada, ou ainda, duas ou mais artes para cada performance. Cenas, como a abaixo, eram bastante comuns.

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Uma parede coberta com cartazes de Chung Ling Soo. São pelo menos 13 ilustrações diferentes.

Como qualquer objeto, eles despertaram a curiosidade e o interesse de várias pessoas e logo surgiram colecionadores desses cartazes. Um desses colecionadores foi o Dr. Hans Sachs, um dentista judeu alemão (o quê, como já dá pra antever, não era uma boa combinação).

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Dr. Hans Sachs.

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O Dr. Sachs nasceu em agosto de 1881 em Breslau, Alemanha (hoje, Polônia) e começou a sua coleção de cartazes ainda em 1895 ao se apaixonar por aquilo que ele considerou uma forma de arte. Seu primeiro cartaz foi um de Sarah Bernhardt, uma atriz francesa.

O que começou como o hobby de um adolescente logo se tornou uma paixão. Sachs era meticuloso e passava suas horas livres enumerando, catalogando e identificando cada uma de suas peças. Sua dedicação ao colecionismo era tamanha que 15 anos após seu primeiro cartaz, Dr. Sachs fundou a sociedade internacional dos colecionadores de pôsteres (“Verein der Plakat Freunde“) e ainda, começou a produzir uma revista dedicada a este hobby, a “Das Plakat” (O Pôster).

Sua paixão por cartazes não o impediu de levar adiante seus estudos. Ele se formou em química e recebeu doutorado em ciências exatas (que englobava as disciplinas de química, física e matemática) e ainda um segundo doutorado em periodontia que acabou se tornando a sua profissão. Até mesmo na área de periodontia, o Dr. Sachs era uma sumidade, chegando a escrever diversos artigos científicos sobre o tema. Um dos clientes regulares do Dr. Sachs era o físico e amigo Albert Einstein.

Obviamente que o Dr. Sachs não colecionava apenas pôsteres de mágicos. Qualquer pôster litografado era seu objeto de desejo. Assim, estima-se que por volta de 1938, na iminência da 2ª Guerra, a coleção do Dr. Sachs já atingia a cifra de 12.500 cartazes. Ele fazia exibições públicas de sua coleção por volta das décadas de 1920 e 1930. A coleção incluía propagandas de carros, bicicletas, sabões, shows de mágica, óperas, enfim…

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Parte da coleção do Dr. Hans.

Como já dito, a Alemanha de 1930 não era a melhor opção de moradia para um judeu. Hitler, já no poder, iniciara diversas campanhas em prol do orgulho ariano. Uma dessas campanhas, foi capitaneada por Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, e que envolvia a promoção do que eles chamavam de “deutsche Kunst” ou “Arte Alemã” o que seria uma forma superior de arte, em oposição à “entartete Kunst” ou “arte degenerada” [1].

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Exemplo de arte “superior” alemã.

A “deutsche Kunst” era um ideal artístico que era fomentado pelo regime do führer, com traços mais naturalistas, arcadianos, em oposição a “arte degenerada” que, para o conceito nazista, englobava peças dos movimentos bauhaus, cubismo, expressionismo, surrealismo e, claro, arte moderna, incluindo aí também, os cartazes de propaganda.

Qualquer arte que se opunha à visão nacional-socialista de beleza era considerada infame e, portanto, deveria ser confiscada e destruída. A coleção do Dr. Sachs encontrava-se nesta categoria. E, dada a grandiosidade de sua coleção, ela inevitavelmente chamou a atenção de Goebbels.

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Cerimônia de queima de livros e de objetos considerados “degenerados”.

Certa noite, o Dr. Sachs recebeu um telefonema de três oficiais da Gestapo – a polícia secreta do nazismo – informando-lhe que, à pedido de Goebbels, o Museu de Arte Decorativa em Berlim estaria adicionando uma nova ala dedicada à “arte dos mercadores” e a coleção de Sachs seria “cedida” à esta nova ala.

Quando os oficiais chegaram à casa do Dr. Sachs, pediram para ver os cartazes de propaganda político partidária. o Dr. Sachs então mostrou-lhes esta parte do acervo, e os oficiais encontraram – além dos cartazes de produtos, diversos pôsteres anti-Hitler (obviamente havia também cartazes pró-Hitler, ams esse detalhe foi ignorado pelo pessoal da Gestapo). Era o argumento que faltava para a Gestapo confiscar o acervo do Dr. Sachs.

Obviamente que o acervo todo foi alvo de apreensão – e não apenas os cartazes políticos. A justifica: arte-degenerada e propaganda anti-nazista. Contudo, alguns historiadores dizem que, assim como o Dr. Sachs, Goebbels também era aficcionado por artes visuais, e que, no fundo, queria a coleção para si.

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Goebbels visitando a exposição de arte degenerada.

O confisco foi inevitável. Ao todo três caminhões carregados de material gráfico deixaram a casa do Dr. Sachs. O próprio Dr. Sachs fez questão de carregar as armações de alumínio onde ficavam guardados os pôsteres. Ao todo ele levou 250 dessas armações, cada uma contendo 50 cartazes, fora as diversas caixas, recortes e demais materiais. O Dr. Sachs nunca mais veria sua estimada coleção novamente.

Como falamos da Alemanha nazista, obviamente que a repressão ao Dr. Sachs não parou por aí. Em 9 novembro de 1938, na famigerada “Noite dos Cristais”, o Dr. Sachs foi preso e levado ao campo de concentração de Sachsenhausen, próximo de Berlim. Ele ficou detido por cerca de 17 dias, até ter a sorte de ser liberado junto com sua esposa e seu filho Peter. O Dr. Sachs entendendo que sua vida na Alemanha havia acabado, abandonou tudo e migrou para a América.

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Campo de concentração de Sachsenhausen.

Na América, com a alma enlutada pela perda de sua estimada coleção, Sachs decide não retomar o seu amado hobby de colecionador, e focar-se na sua área de formação. Ele contou com a ajuda de ninguém menos do que Albert Einstein, que tentou ajudar oex colecionador a conseguir um emprego na área da odontologia, mas seus cursos não foram reconhecidos em solo americano. Assim, para poder exercer a sua antiga profissão, o Dr. Sachs acabou tendo que fazer um novo doutorado na área, se formando dessa vez, em Harvard.

Por volta de 1950, com o fim da guerra e do regime nazista, o Dr. Sachs  vai em busca de informações acerca de sua coleção. Ele é informado pelo governo Alemão Oriental que ela havia sido destruída após a invasão russa a Berlim. E por isso ele foi indenizado em 225.000 marcos (mais ou menos R$ 1,8 milhão em valores atuais) e dá o assunto por encerrado em sua vida. Isso, até a chegada um “plot twist“…

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Em meados de 1960, alguns cartazes antigos começaram a circular em Berlim, vendidas em leilões e também no mercado “paralelo”. O filho do Dr. Sachs, Peter, ficou sabendo dessas vendas e, conhecendo a história do pai, decidiu ir a Berlim e investigar a origem desses cartazes.

A suspeita se confirmou. Segundo consta, apenas uma parte da coleção do Dr. Sachs fora destruída (em torno de 1/3). As 8.000 peças restantes ficaram guardadas no Museu de História de Berlim, e não no Museu de Arte Decorativa – como fora divulgado, e lá permaneceram, mesmo após a Guerra e à divisão de Berlim. Os pôsteres foram reconhecidos por causa do carimbo do Dr. Sachs. Sua dedicação na catalogação meticulosa das peças foi fundamental para a redescoberta de sua coleção.

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Carimbo usado pelo Dr. Sachs para catalogar sua coleção.

No começo de 1974 o Dr. Sachs vai a Berlim, a fim de resgatar a sua coleção. Contudo é proibido de entrar na parte oriental da cidade (àquela altura a cidade já era dividido pelo Muro de Berlim, que impedia a livre passagem pelos lados oriental e ocidental da cidade). O Dr. Sachs faleceu em março daquele ano, sem poder rever sua estimada coleção.

Por quase 40 anos a coleção de Sachs ficou isolada no lado oriental de Berlim. Em 2005, após sua aposentadoria, Peter Sachs decide retomar a luta para reaver a coleção do pai. Logo ele descobre que o museu de Berlim orgulhosamente expunha a coleção. Foi então que ele encampou uma batalha jurídica contra o Museu de História Alemão. Em 2009 a família de Sachs sagra-se vitoriosa, mas somente em 2013 é que mais de 4.000 pôsteres (aproximadamente 30% da coleção original) voltaram à família. Alguns desses cartazes foram doados a museus, outros leiloados à quem pudesse tomar melhor conta deles. Apenas uma parte ficou com a família Sachs. Peter faleceu em setembro daquele ano.

A coleção do Dr. Sachs, de certa forma, sobreviveu ao tempo, à loucura nazista, à ganância comunista. Mais do que anunciar shows e produtos, essa coleção nos lembra da capacidade humana de fazer o mal ao seu próximo, mas também da resiliência e da esperança que trazemos em nós.

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Dr. Hans Sachs.

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PS: Sei que o título não está bem colocado. Os nazistas roubaram muito mais do que um cartaz, e não foi apenas de mágicos. Mas como este é um blog de mágica, e esta história é incrível – mas não necessariamente tem a ver com mágica ou mágicos – achei que um pequeno “click bait” não cairia mal.

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NOTAS

[1] Certa feita, o Governo nazista fez uma exposição de arte degenerada chamada ironicamente de “Kunst” (“Arte”), com as aspas. A ideia era mostrar o feio, o grotesco, e como a arte alemã era superior (ironicamente, hoje ela é considerada um arte “kitsch“, brega). Ao contrário do que esperavam os oficiais alemães, a exposição foi um sucesso e deu ensejo ao que chamamos de Arte Moderna, no sentido de protesto a uma imposição do que é belo,  nada a ver com acepção hodierna de arte moderna.

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Enorme fila para ver a exposição de “arte degenerada”.

Aqui e aqui, exemplos dos catálogos de exposição “Entartete Kunst“; e aqui, o catálogo da “Große Deutsche Kunstausstellung” ou “arte superior alemã”.

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BIBLIOGRAFIA

Site: The Ephemeral Collector

Site: Wikipedia

Site: Guernsey’s Audiction

Periódico: Zoe Wonfor em “Concordia Undegraduated Journal of Art History“, Vol. XI, p. 56 – 71, março de 2015.

O QUE HOUDINI ESTARIA FAZENDO HOJE…

ESTARIA ELE SE PROMOVENDO NA INTERNET?

Escrito e ilustrado por Henri Sardou

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Se perguntarmos, entre leigos e mágicos, quem é o mágico mais famoso do mundo – vivo ou morto – chegaremos rapidamente a alguns nomes, contudo a grande maioria vai responder um só. Ele mesmo, Houdini, o homem, não só o artista ou o mágico, a personalidade mais famosa do mundo no século XX. Mas se você indagar na rua quem foi Ehrich Weisz ninguém vai saber te responder.

Essa foi a primeira grande sacada de Harry Houdini, ter tomado para si um nome semelhante ao do francês Robert Houdin – considerado o pai da mágica moderna e um dos mágicos mais famosos até então – com sonoridade já associada ao ilusionismo entre artistas e leigos. Mais que um bom mágico, Houdini era um gênio do marketing e se preocupou com a construção da sua marca, desde o naming (criação do nome) até o posicionamento, se colocando no top of mind até hoje quando o assunto é mágica.

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Jean Eugène Robert-Houdin foi o pioneiro em levar a mágica para os palcos elegantes dos teatros.

Nesse momento você deve estar estranhando um artigo falando sobre marketing digital começar falando de Houdini, um mágico que já está morto há quase cem anos sem sequer ter visto uma calculadora eletrônica na frente.

“Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele”.

Simples, porque Houdini foi o primeiro mágico, o primeiro artista, que se deu conta do poder que as histórias que são contadas têm. Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele.  Houdini chegava em uma cidade e fazia questão de ser desafiado pelo homem mais forte do local, que lhe dava um soco na barriga, sem que ele sentisse absolutamente nada. Isso não só era um feito memorável, como também uma isca para atrair atenção da imprensa para a turnê que começaria na cidade. Sabe como é o nome disso? Marketing.

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Houdini só não esperava levar um soco enquanto estava despreparado, o que acabou levando-o à morte.

Esse mesmo marketing que levou o título de ”King of Cards” a se perpetuar até hoje, mesmo Houdini não tendo sido tão hábil com as cartas, perpetuando esse mito. Inclusive, para sermos honestos, Houdini era um mágico bem mediano, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos.

Deixando de lado a iconoclastia sobre a mágica de Houdini, o fato é que ele era capaz de fazer eventos ao ar livre, para milhares de pessoas assistirem, antes sequer da televisão. Esses espectadores que testemunhavam os feitos espetaculares dele, no dia seguinte comentavam e mostravam a quem não tinha visto através dos jornais. Isso amplificava a popularidade de Houdini de uma forma tão grande e eficaz, que logo sua fama atravessou o atlântico, consagrando Houdini como a primeira celebridade global de que se tem notícia, num mundo onde mal existia telegrama, quem diria telefone ou WhatsApp, vale lembrar.

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Multidão de 12 mil espectadores vendo Houdini se libertar de uma camisa de força.

 

“Houdini era um mágico bem normalzão, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos”.

É exatamente esse conceito que eu venho lembrar aqui. Os mágicos devem construir sua audiência, exatamente como Houdini fez. Não importa se você não se sente o melhor mágico do mundo (difícil, hein?), você tem que fazer parecer isso, de forma profissional e consistente, usando os meios de comunicação modernos e fazendo marketing digital.

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HOUDINI TERIA SEU PRÓPRIO “JORNAL” HOJE

A grande facilidade da internet é a possibilidade de cada um ter seu próprio jornal de grande circulação, sua mídia particular. Não apenas um jornal, mas um canal de televisão inteiro, com revistas, correio e uma empresa de telefonia junto. As redes sociais possibilitam muito mais interação e têm uma penetração maior ainda.

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Harry Houdini teria uma fanpage, mas não convidaria mágicos para curtir.

Antigamente o jornal estava presente na mesa do café da manhã, no escritório e no máximo no banheiro. Hoje nós levamos o celular para todos esses lugares, além do carro, da cama, cozinha e até da banheira.

Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias, tenha certeza, e seria um guru do marketing digital. Estaria transmitindo seus feitos para milhares de pessoas numa live, estaria postando vídeos de performances e vídeos promocionais de sua turnê, estaria fazendo bom proveito de todos os recursos que as mídias sociais oferecem, para amplificar e potencializar seus feitos espetaculares.

Sim, porque mágicos fazem coisas espetaculares, você deve saber disso se chegou até aqui, né? Agora imagine que mágicos são contratados frequentemente por outros artistas para chamarem atenção para um lançamento ou uma participação no show, espetáculo ou no clipe. São contratados para promoverem lançamentos de produtos com mágica, porque a mágica chama atenção e fixa a mensagem na cabeça do consumidor. Fazem shows em eventos sociais porque as pessoas querem ter um momento mágico, único e inesquecível em suas festas. Estão em festas, eventos produções teatrais e audiovisuais, shows e até em desfiles de escola de samba. Então por que diabos os próprios mágicos não usam a si mesmos para causar os mesmos resultados que as pessoas que os contratam objetivam, em sua própria audiência?

“Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias”

Ao contrário, o que se vê frequentemente são mágicos postando um festival de imagens terríveis, com textos sofríveis, ou artes apoteoticamente horríveis na internet. Vemos diariamente mágicos divulgando seus serviços para outros mágicos (?!) em grupos, além de bom dia, chorume e discussão bolsonaro 2018, ou o que é pior, vemos um milhão de notificações tipo ”Fulano convidou você para curtir a página Mágico Fulano dele”.

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1) O mágico posta, curte, compartilha e comenta a própria postagem em um grupo de mágica;    2) O slogan que fala exatamente o oposto do que o cliente precisa ouvir (no cartão está escrito “O mágico que falta em sua festa!“); 3) Convidar outros mágicos para curtir a sua página é um tremendo tiro no pé!

Tudo isso a gente testemunha diariamente, mas o que é bom para construir audiência e impactar clientes, futuros contratantes e construir reputação não, isso quase ninguém vê. Harry estaria mais uma vez nadando de braçada na frente dessa concorrência hoje em dia, usando estrategicamente os novos meios de comunicação que são as redes sociais.

Quem não usa, por exemplo, o Facebook – para negócios – e não tá disposto a usar comercialmente, pode fechar esse texto, ir tomar um café, um shot de cicuta ou se matar com um tiro na cabeça, porque já está morto, assim como Ehrich Weisz. O mundo muda dia a dia e se há dez anos atrás o Facebook nem existia no Brasil, hoje se você não estiver na maior rede social do mundo quem não existe é você.

Portanto, se você não está agindo engenhosamente no digital, encomende sua lápide, porque é só isso que falta.

“O MÁGICO É UM ATOR…”

Uma das mais famosas citações mágicas é a frase de Eugene Robert-Houdin: “O mágico é um ator que interpreta o papel de um mágico.” A grande maioria das vezes em que é citada, o contexto é de que o mágico é, antes de mais nada, um ator, daí a importância de um conhecimento cênico tão grande (quiçá até maior) do que o conhecimento arcano.

Porém, o que poucos sabem é que Robert-Houdin em momento algum defendeu a ideia de um “ator-mágico”. Aliás, essa frase encontra-se em um contexto totalmente diverso, no qual Robert-Houdin defende qual o melhor termo para o artista da ilusão. Ou seja, a discussão não é cênica, mas sim, semântica.

A frase encontra-se no livro “Les secrets de la prestidigitación et de la magiè“, em que Robert-Houdin disserta sobre o ilusionismo, desde a parte mecânica/técnica, a qual ele chama de prestidigitação, bem como sobre a parte cênica e de apresentação, que recebe o nome de “magia”. Para robert-Houdin, há uma dicotomia e é sobre esta dicotomia que ele disserta.

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Trecho do livro de Robert-Houdin, contendo sua célebre frase.

 

Talvez, parte da culpa pela confusão causada quando falamos em ser natural, seja do prof. Hoffman que ao traduzir a obra de Robert-Houdin, traduziu erroneamente uma sentença que viria a entrar para história.

O mágico é um ator que interpreta o papel de mágico”; na tradução do Professor Hoffmann, “a conjuror is an actor playing the part  of a magician”; e, por sua vez, a frase original de Robert-Houdin, “un prestidigitateur n’est point un jongleur; c’est un acteur jouant un rôle de magicien”.

Repare nas palavras sublinhadas e em como elas foram sendo erroneamente traduzidas de uma língua para a outra. Por isso, tomando a frase isolada de seu contexto, o seu sentido muda completamente. A discussão não era sobre o mágico ser ou não um ator (Robert-Houdin deixa bem claro que sim, ele é), mas sobre semântica: qual a palavra mais adequada para designar esse tipo de artista?

Tanto a discussão era sobre o nome mais adequado que, antes de discutir o termo “prestidigitador”, Robert-Houdin se debruça sobre o uso do termo “escamoteador” e sobre o porquê ele também ser imperfeito (segundo ele, escamoteador deveria ser usado apenas por aqueles que se dedicam aos covilhetes. Na língua portuguesa a palavra recebeu inicialmente essa acepção, embora mais tarde tenha sido estendida para qualquer um que praticasse pequenos golpes).

Hoffman entendeu que essa era a discussão em questão, tanto que escreveu a seguinte nota: “O presente capítulo, sendo uma discussão sobre o significado preciso de alguns termos em francês, tem pouco interesse para o leitor inglês comum. Seria, no entanto, uma mutilação injustificável omiti-lo“. Se Hoffmann soubesse a confusão que viria causar anos mais tarde, talvez reconsiderasse.

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Prof. Louis Hoffmann, o autor da “confusão”.

Assim, Robert-Houdin não está discutindo sobre o que o mágico É (malabarista, ator, etc.), mas sim, sobre o que o mágico NÃO É. Ele defende a teoria que o ilusionista não é um malabarista, que deve executar suas técnicas de forma “mais rápida que o olho” e assim ser chamado de prestidigitador (presto = rápido, dígito = dedos). Antes o ilusionista deve ser um ator e encantar pela sua franca exposição do truque, como se fosse um verdadeiro mágico. A genialidade está na apresentação, no método e no ensaio, e não na velocidade.

Essa ideia pode ser extraída da continuação de sua famosa frase:

“O prestidigitador não é um malabarista, ele é um ator interpretando o papel de um mágico. Ele é um artista cujos dedos devem mover-se mais com suavidade do que com velocidade. Eu ouso adicionar: onde a manipulação estiver envolvida, quanto mais sutil o movimento, mais facilmente os espectadores serão enganados.

Se o prestidigitador clama possuir poderes supernaturais (…) por que então, quanto executa as suas maravilhas, ele deve gesticular exageradamente rápido? Agir dessa forma é ilógico e inconsistente. Ao ver tais gestos rápidos, os espectadores em geral ficarão maravilhados, intrigados, mas não convencidos, enquanto – por outro lado – um movimento discreto, sutil sempre induzirá à confiança, promovendo assim a ilusão.

A palavra prestidigitação, portanto, apenas descreve imperfeitamente o que a nossa arte se propõe.”

GOLPES, ESQUEMAS E SUAS VARIAÇÕES

1. INTRODUÇÃO

O ser humano sempre buscou formas de ludibriar seus semelhantes. É da natureza humana levar vantagem sobre seus semelhantes. O ser humano é, por natureza, um ser ganancioso. E levados por essa ganância foi que os golpistas ao longo de anos criaram, aperfeiçoaram e adaptaram métodos para enganar seus pares.  E assim surgiram os golpes.

Desde que surgiram, os golpes pouco mudaram. Adaptaram-se ao tempo, à época, ao local, mas a sua essência continua a mesma: explorar a ganância humana e usá-la contra a vítima.  Joseph “Yellow Kid” Weil (1º de Julho, 1875 – 26 de fevereiro de 1976), um dos mais famosos golpistas de todos os tempos, disse:

O desejo de ganhar algo sem dar nada em troca tem custado caro para a maioria das pessoas que negociaram comigo e com outros golpistas. (…) Mas eu descobri que é assim que a coisa funciona. Uma pessoa média é, em minha opinião, 99% animal e 1% humana. Esses 99% que são a porção animal causam muitos poucos problemas. Mas o 1% que é humano é a causa de todas as nossas mazelas. Quando as pessoas aprenderem – e eu duvido que algum dia irão – que elas não podem ganhar algo do nada, o crime irá diminuir e nós viveremos em grande harmonia.”

Joseph Weil em “Hoaxers & Hustlers”, Streissguth, Thomas. Minneapolis 1994; The Oliver Press, Inc.

Jospeh Weil

(Clique na imagem para ampliar)

2. “THE CON MAN”

Os golpistas, nos EUA, são chamados de “con man” ou “con artist”. A expressão “con man” é a abreviação de “confidence man” que traduzido ao português significa algo como “homem de confiança” ou então “artistas da confiança”. O trabalho destas pessoas é ganhar a confiança da vítima (também chamada de “mark” ou “pato”) e assim atingir seus objetivos.

Todo o trabalho do golpista concentra-se neste único ponto: conquistar a confiança da vítima. Os golpes todos se baseiam nessa premissa básica: a vítima precisa, além de ser gananciosa, confiar no golpista. Alguns golpes chegam ao ponto de pressupor que a vítima irá passar a perna no golpista.

3. GOLPISTAS X MÁGICOS

É fato notório que os mágicos aprenderam algumas de suas técnicas com os “con artists”. Os dois exemplos mais notórios são o “three card monte”, jogo de cartas em que a vítima deve entre três cartas, achar a carta vermelha, e o livro “The Expert at the Card Table”, um livro que ensina as principais técnicas para trapacear em uma mesa de jogo, mas que os mágicos adotaram para as suas rotinas.

Esta relação sempre foi muito conturbada, e por vezes mágicos e golpistas confundem-se. Não raro muitas pessoas referem-se aos jogos dos mágicos como meros truques ou enganação. “Sempre o mágico me engana”, dizem algumas pessoas.

Seja como for, não se pode negar a relação próxima entre mágicos e golpistas. Por isso, este artigo tem como objetivo mostrar os principais golpes existentes na praça e o que nós como mágicos podemos fazer para ajudar (ou trapacear) os leigos no assunto.

4. OS GOLPES

Os golpes se dividem em algumas categorias.

4.1. Sistemas “Fique Rico”

O foco deste tipo de golpe é explorar a ganância da vítima. Normalmente ela pensa que ficará rica de modo fácil, chegando algumas vezes a pensar que está enganando o golpista quando na verdade ela é a vítima. Eis alguns golpes deste tipo:

Salpicando a Mina

Como funciona: o golpe consiste em vender à vítima uma suposta mina com ouro ou pedras preciosas. Para isso o golpista salpica a mina com algumas pepitas de ouro ou pedras preciosas. Ele leva a vítima para a mina, no local salpicado, e mostra que a mina ainda possui minérios para serem explorados. Este golpe foi muito comum durante as corridas do ouro.

Variante moderna: pode-se dizer que o ato de regressar o odômetro de um carro, ou então maquiá-lo antes da venda, seja uma variante moderna desse golpe. A vítima acaba comprando “gato por lebre” pensando que está fazendo um excelente negócio, ou ainda que está enganando o vendedor.

A Máquina de Fazer Dinheiro

Como funciona: o golpista se apresenta como o vendedor de uma fantástica novidade: uma máquina que fabrica dinheiro. Trata-se de uma máquina especial que de tempos em tempos emite uma cédula perfeita de 100 dólares, porém ela só funciona com uma nota a cada duas horas. O golpista alega que precisa de dinheiro urgente e que por isso não pode esperar a máquina fabricar todo o dinheiro que precisa.

Ao comprar a máquina a vítima vê maravilhada que ela, de fato, fabrica dinheiro ainda por duas ou três vezes, antes de cessar completamente e se mostrar um aparelho ordinário (e obviamente o golpista já estar a léguas de distância).

Variante moderna: por incrível que pareça este golpe ainda é aplicado da forma como foi concebida. Mas pode-se dizer que os falsificadores de dinheiro trabalham apoiados nesse esquema. Misturam notas falsas com verdadeiras e assim “diluem” as suspeitas para si.

O Prisioneiro Espanhol

Como funciona: a vítima deve coletar um dinheiro guardado e entrega-lo ao golpista. Como garantia de que a vítima não fuja com o dinheiro é exigido uma garantia financeira da vítima.

Variante moderna: esse é um dos golpes mais aplicados até hoje, devido às suas enormes variações. Na mais famosa delas, o Esquema Nigeriano, a vítima é impelida a usar o dinheiro que deveria ser recolhido na forma de impostos. Nessa variante a promessa é de que a vítima recolha algum dinheiro vindo do exterior (em geral da Nigéria).

Por usar o seu dinheiro que deveria ir para impostos, e por estar envolvido com a evasão de divisas a vítima acaba não podendo ir à polícia, pois estaria confessando crimes de sonegação fiscal.

O Telégrafo

Como funciona: um golpista recebe o resultado de um evento esportivo alguns minutos antes do que a vítima e passa para a vítima o resultado deste evento esportivo (em geral, corrida de cavalos). A vítima munida dessa informação privilegiada aposta na dica recebida ganha o dinheiro facilmente. Após mais algumas apostas a vítima é convencida a colocar todo o seu dinheiro em um determinado resultado que, obviamente, não se concretiza.

Esse golpe possui algumas variantes, mas todas lidam, basicamente em o golpista saber primeiro do que a vítima o resultado de um jogo e assim manipular as informações como melhor convier.

Variante moderna: hoje, com a tecnologia da informação avançada é praticamente impossível aplicar o golpe em sua versão clássica. Porém, muitos eventos esportivos tem resultados combinados, em especial eventos de luta onde empresários combinam com seus atletas quais devem ganhar e quais devem perder. No Brasil e na Itália houveram casos recentes de fraude envolvendo o futebol.

4.2. Sistema Persuasivo

Este tipo de golpe funciona com o golpista, de alguma forma, convencendo a vítima a entregar, espontaneamente o seu dinheiro.

Conspiração Missionária

Como funciona: ministros religiosos que induzem seus fieis a entregar o seu dinheiro, posses e bens para que estes sejam aplicados na propagação daquela religião ou seita.

Variantes modernas: algumas igrejas neopentecostais como a Universal do Reino de Deus e seitas menores como a seita de Jim Jones ficaram famosas por se valer do dinheiro de seus fiéis para atingir outros fins.

O Esquema do Romance

Como funciona: através de um site de relacionamento duas pessoas se conhecem e começam a se relacionar de forma séria. A relação avança até o ponto em que, cansados da distância, o casal decide se encontrar. A vítima então manda dinheiro para que o outro possa comprar passagens, passaporte, o que for. Mas esse encontro nunca acontece.

Guias Espirituais

Como funciona: é uma variante da “Conspiração do missionário”, porém feito com cartomantes, leitores de mão e similares. Através do uso de técnicas de leitura fria o golpista ganha a confiança da vítima e convence-o a semanalmente consultar-se com ele, arrancando vultosas somas de dinheiro da vítima.

4.3. Esquemas “Barras de Ouro”

Estes golpes consistem na venda de um item extremamente valioso para a vítima, mas que ao fim das contas, revela-se um produto comum.

O Violino

Como funciona: o golpista vende um objeto de grande valor à vítima (originalmente um violino Stradivarius). Na hora da entrega o golpista troca as sacolas/maletas e entrega um objeto ordinário.

Variantes modernas: várias, desde joias, carros, casas… É a famosa “propaganda enganosa”. Mas talvez a variante mais conhecida e utilizada no Brasil seja a venda do “Bilhete premiado”.

Gemas Tailandesas

Como funciona: nesse golpe vários golpistas convencem a vítima a comprar pedras preciosas e leva-las para casa. As pedras são legítimas, porém estão superavaliadas (+ de 200%). Na verdade os golpistas combinam entre si valores e indicam-se uns aos outros. A vítima ao comparar diferentes pedras em diferentes lojas convence-se de que aquele é o valor real das pedras.

Este golpe era muito comum em Bancoc, onde, além de tudo, os golpistas eram protegidos pela polícia e por políticos corruptos.

O Jogo de Murphy ou A Van dos Alto Falantes

Como funciona: uma van branca vendendo produtos com valor bem abaixo da média de mercado. A explicação: ponta de estoque, remanufaturados, ou ainda um pedido mal elaborado e que deixou a loja abarrotada de produtos que não podem ser estocados. Na verdade trata-se de mercadoria roubada.

4.4. Extorsão e Falso Testemunho

Chantagem

Como funciona: este tipo de golpe consiste basicamente em colocar a vítima em uma posição comprometedora para si e o golpista utiliza isso contra ela.

“Clip Joint” (não achei uma tradução apropriada)

Como funciona: a vítima é lavada a um bordel, ou mesmo um bar e nenhum de seus pedidos é atendido de acordo, porém a vítima já pagou previamente pelo serviço. Por estar em um local de péssima reputação a vítima acaba não avisando as autoridades.

Variantes: outra variação consiste em fazer com que a vítima consuma grandes quantidades de produtos ou serviços, com a promessa de que aquilo já está pago e depois apresentar-lhe a conta.

Mosca na Sopa

Como funciona: o golpe consiste em sabotar um objeto (originalmente uma comida) ou bem e assim consumi-lo/utilizá-lo de graça.

A Queda do Melão

Como funciona: o golpista leva uma caixa com, por exemplo, vidro já quebrado e esbarra na vítima, derruba o pacote, e acusa a vítima de haver quebrado a sua mercadoria. Por fim, o golpista exige uma reparação de danos materiais para não precisar chamar a polícia.

O nome desse golpe vem do Japão, onde os golpistas utilizam melões para realiza-lo (melões são muitos caros no Japão).

Fraude de Seguro

Como funciona: o vigarista, de alguma forma, faz com a vítima o atinja ou atinja algum patrimônio seu, exigindo assim reparação por danos. Na versão mais comum dois golpistas, um a pé e outro de carro, fazem o golpe: O golpista no carro anda devagar por uma rua até que um carro encoste-se a sua traseira. Então o segundo golpista é “atropelado” pelo primeiro que freia bruscamente fazendo com que o carro da vítima bata na traseira do seu (obviamente a traseira do carro é preparada para maximizar o dano).

O golpista então, com a desculpa de levar a vítima para o hospital, pede que o causador do acidente (vítima do golpe) pague algum valor, pois não quer esperar a polícia para registrar o BO.

4.5. Outros Golpes

Existem ainda muitos outros golpes como os golpes de jogos, uso de falsos distintivos, “o falso ganhador” (a vítima supostamente ganha um prêmio e para retirá-lo precisa pagara um quantia, ou então assinar determinados papéis. Muito utilizado por presos no Brasil via celular) entre outros.

5. “O CONTO DO VIGÁRIO”

Por fim, uma curiosidade. O termo “vigarista” possivelmente vem da palavra “vigário” e está relacionado ao famoso “conto do vigário”.

Segundo a pesquisadora Denise Lotufo, a expressão teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII.

Tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora.

Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem.

O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que, o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.

Já os escritores Fernando Pessoa e Antônio Bagão Félix, contam que alguns bandidos tentavam tomar dinheiro de incautos usando a história de uma herança que teriam ganhado, de um vigário ou por intermédio de uma história escutada por um vigário, mas que para isso teriam que pagar várias taxas e outras quantias. (Pessoa, Fernando; Félix, António Bagão. O Conto do Vigário. [S.l.]: Centro Atlântico, Portugal, 2011. 40 p.).

6. CONCLUSÃO

Quase todas as vítimas deste tipo de esquema, são vítimas de sua própria ganância. O fato de alguém querer levar vantagem sobre o outro é o primeiro passo para ser enganado.

Que nós, como estudiosos da “arte de enganar” possamos utilizá-la apenas para o entretenimento. E mais, que possamos ajudar os incautos a se prevenirem de pessoas gananciosas. Como disse o ator argentino Ricardo Darín sobre seu filme “Nueve Reínas”: “Não faltam otários no mundo, faltam bons empresários”, ou seja, pessoas que serão enganadas não faltam. Apenas que nem todos ainda querem enganar o seu próximo.

Amplexos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Além dos livros já citados;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto_do_vigário

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_confidence_tricks

FANTASMAGORIA

No post anteiror (abaixo) falei sobre as “Lanternas Mágicas”. Aparatos capazes de reproduzir imagens, e criar histórias, muito utilizadas no século XVIII e XIX.

Alguns me perguntaram: “mas o que aquelas lanterna tem a ver com a mágica, exceto pelo nome?“. Na verdade aquele post foi uma introdução para o post de hoje. Hoje escreverei sobre um estilo de apresentação utilizando as tais lanternas mágicas, chamado de fantasmagoria; ou seja, um show de terror.

Esses espetáculos, serviram como base para mutas das mágicas de palco com temáticas espíritas e sobrenaturais nos séculos XVIII e início do século XIX. Foram nesses espetáculos que os mágicos descobriram o poder e a utilidade dos espelhos e da fumaça, cunhando a expressão “smoke and mirrors”, que é, até hoje, sinônimo de “uma grande ilusão”.

Quem pensa que os espetáculos de horrores são uma invenção moderna, devería rever seu conceito. No fim do século XVIII, algumas modificações na concepção das Lanternas Mágicas permitiram não mais a simples exibição de imagens estáticas, mas agora produziam imagens horrorizantes: fantasmas projetados sobre a plateia, imagens minúsculas que prontamente se convertiam em gigantes e além disso que podiam podiam se mover pelas paredes dos teatros.

 

Espetáculo de fantasmagoria no Séc. XVIII

(clique na imagem para ampliar)

A lanterna mágica, antes um show de projeções e histórias, acaba mudando completamente, dando origem a um show de horrores, e que ficaram conhecidos como fantasmagoria.

Por se tratar de uma ilusão, era comum a presença de mágicos, que acompanhavam o espetáculo e o funcionamento das lanternas e alguns até que se apresnetavam junto com a lanterna, ainda que o espetáculo funcionasse na maior parte das vezes tendo nada a ver com a mágica.

O NASCIMENTOS DOS FANTASMAS

A Revolução Francesa, com suas muitas mortes, guilhoitinas e demais atrocidades, foram o cenário perfeito para a geração dessas sensações macabras. E o interesse do público pelo macabro inerente à Revolução, incentivou grandemente a execução desses shows de fantasmas.

Tudo começa no auge da Revolução Francesa, quando chega em Paris o físico belga Étienne-Gaspard Robert (1763-1837), mais conhecido como Robertson, e que teve uma engenhosa ideia: a produção de fantasmas ópticos.

 

Desenho de perfil de Étienne-Gaspard Robert

(clique na imagem para ampliar)

O porém é que já haviam alguns fabricantes de fantasma em Paris como Cagliostro e Mesmer. Porém o diferencial de Robertson, além de ser um estrangeiro desconhecido, era que ele, de fato, era um entendido na ciência e na óptica, além de se proclamar um possuídor de poderes ocultos.

Alguns historiadores afirmam que Robertson era, na verdade, um plagiador. Ele haveria se apossado da ideia de um alemão chamado Paul Philidor ou Philipsthal, que havia apresnetado um espetáculo de fantasmagoria em Paris poucos dias antes da morte do Rei Luís XV. Além disso, Philip era dono de um museu de curiosidades sobre ótica, mecânica e automatos. verdade ou não, o fato é que o show de Robertson era uma vedadeira experiência sobrenatural.

 

Cartazes anunciando shows de fantasmagoria: à esquerda, o cartaz de Robertson de um show em Londres; à direita um cartaz de Philipsthal

(clique na imagem para ampliar)

Étienne, que ao menos sabia se promover, inundou Paris com cartazes propagandeando a si próprio. Tamanho foi o sucesso de sua divulgação que o lugar marcado para a sua apresentação, um pequeno teatro de 70 lugares, ficou sem espaço para o tanto de pessoas que compareceram.

O SHOW

Poultier, um repórter local, escreveu acerca daquele espetáculo. Nesta nota Poultier conta que o belga colocava em um braseiro em chamas dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas do periódico “Jornal dos Homens Livres” (um jornal republicano da época) fazendo aparecer por entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha, representando a liberdade segundo consta, e armado com um punhal, para logo desaparecer, tão misteriosamente quanto apareceu.

 

 

Fantasmas aparecendo por cima do público. Repare nos braseiros gerando a fumaça por onde aparecem os fantasmas.

(clique na imagem para ampliar)

A seguir um jovem da plateia se levanta e solicita ver o fantasma de sua amada já falecida; o jovem então mostra um retrato dela para Robertson. O físico repete outra vez a operação no brazeiro e eis que surge o busta da jovem, com seus cabelos fluuando no ar e sorrindo para o seu amado.

A notícia toda é bastante extensa. Mas o exposto aqui já é o bastante para imaginarmos o tamanho do impacto que esta notícia deve ter causado nos leitores da época.

Como já foi dito, o lugar marcado para as apresentações era deveras pequeno para o sucesso de Robertson que logo conseguiu mudar-se junto com seus fantasmas e seus aparatos para um lugar mais amplo e, por acaso do destino, um lugar com “espírito” para tais apresentações: um velho e abandonado convento capuchinho, próximo à Praça de la Vendome, em Paris. Esta nova locação foi a grande alavanca no marketing de suas apresentações.

Os espectadores que chegavam eram conduzidos através de corredores escuros rodeados de antigas tumbas e lápides mortuárias. O cenário não podería ser mais perfeito. Era um grande show de imagens e sensações.

Se as projeções por si só, já aterrorizavam a audiência, o ambiente tétrico as pontecializavam ainda mais. A isso, ainda foram acrescentados sons ambinetes de trovões, sinos, correntes e outros sons dessa linha.

E o terror não parava por aí. Alguns ajudantes caminhavam entre as trevas da cripta, com lanternas presas em seus corpos, o que produzia outros efeitos sobrenaturais, como o de espíritos, ou fantasmas caminhando e cercando ao público.  Alguns dos espectadores nem se atreviam a olhar as projeções. Outros tantos acabavam por sair do teatro correndo, tamanho era o medo incutido pela fantasmagoria de Robertson.

Se levarmos em conta que, ainda hoje, viramos a cara em certas cenas de terror, e consideranod ainda que para aquelas pessoas, a fantasmagoria era o equivalente ao nosso cinema, podemos vislumbrar, ainda que em parte, o tamanho do espanto e do medo, causado por tais espetáculos.

COMO FUNCIONAVA A FANTASMAGORIA?

Como dito antes, a base da fantasmagoria estava nas “Lanternas Mágicas”. Os fantasmas e demônios eram pintados sobre placas de vidro e depois projetadas. Porém, enquanto nos espetáculos convencionais os espectadores ficavam entre a lanterna e a tela de projeção, na fantasmagoria, era a tela que ficava entre os espectadores e a lanterna, ou seja, esta ficava oculta aos espectadores, o que conferia mais mistério ao show.

 

 

Posição das partes durante a apresentação. Observe como o fantascópio permanece oculto do público.

(clique na imagem para ampliar)

Robertson usava uma Lanterna especial montada sobre rodas, o qual denominou “Phantascope” ou, em tradução livre, Fantascópio.

 

 

Fantascópio em funcionamento. Observe a presença de rodas no aparelho.

(clique na imagem para ampliar)

Movendo a lanterna para mais perto ou mais próximo da tela, as imagens se deformavam, aumentando ou ampliando conforme a distância da tela, em questão de segundos.  O efeito final era bastante similar ao que hoje chamamos de “zoom”. Os espectadores, embasbacados, observavem como a figura crescia rapidamente, dando a impressão de avançar para cima do público, para, em segundos, transformar-se em pequenos “anões”.

 

 

Fantascópio original.

(clique na imagem para ampliar)

O mecanismo foi tão engenhosamente desenhado, que permitia que as lentes mantivessem as imagens em foco a intensidade da luz, qualquer que fosse a distância entre a lanterna e a tela.

 

 

Dispositivo inserido no fantascópio a ser projetado.

(clique na imagem para ampliar)

E por vezes, era a fumaça que se fazia passar por tela. Ao fabricar fumaça e direcionar o Fantascópio para esta densa neblina, o resultado era a clara impressão de uma imagem flutuando no ar.

 

 

Exemplo do efeito de movimento.

(clique na imagem para ampliar)

Em 1847 alguns cientistas escreveram um livro onde apresentavam cerca de 400 experimentos científicos com fins de entretenimento. Entre os números apresnetados, estava a Lanterna Mágica e a Fantasmagoria, explicando inclusive como fazer pincéis finos para a pintura das placas de vidro e como montar todo o equipamento.

Na figura abaixo tomada do livro, pode-se observar como criar uma imagem fantasmagórica sobre um suporte, queimando incenso para gerar a fumaça, no melhor estilo das projeções a laser atuais.

 

 

Projeção do fantascópio sobre a fumaça.

(clique na imagem para ampliar)

 

FONTES

 

Texto base:

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/fantasmagoria.html

 

Mais imagens e textos complementares:

http://users.telenet.be/thomasweynants/assaulted.html

http://www.jstor.org/pss/3815390

http://www.magiclantern.org.uk/history/history7.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Phantasmagoria

http://www.acmi.net.au/AIC/PHANTASMAGORIE.html

http://www.magiclantern.org.uk/history/history6.html

É isso. Espero de coração que tenham gostado. Particularmente aprendi muito com esse post. Principalmente essa questão de não gerar apenas entretenimento, ou algo bonito para o espectador ver, mas sim buscar gerar uma experiência, uma vivência em todos os sentidos.

Amplexos!

A LANTERNA MÁGICA

Há cerca de 600 anos, antes mesmo do homem sonhar com cinemas ou televisões, um cientista veneziano, à frente de seu tempo, deixou anotado em seu tratado “Liber Instrumentorum” as anotações da construção de um dispositivo que ficaria conhecido como “A Lanterna Mágica”, o mecanismo foi precursor dos projetores de diapositivos e avô dos modernos projetores de multimídia.

As imagens eram imagens pintadas sobre placas de vidro, colocadas dentro da Lanterna Mágica e ampliadas ao serem projetadas sobre uma tela. A lanterna mágica logo converteu-se em um popular instrumento de entretenimento e comunicação por antonomásia de toda uma época.

Projeção doméstica de uma Lanterna Mágica

O INÍCIO DE TUDO

Aquele era um tempo de grandes descobrimentos; época em que as pessoas mais detidamente certos fenômenos e, por isso mesmo, ampliava, mais até do que agora, o horizonte de suas mentes. E este senso de descobrimento foi um dos catalisadores do sucesso da lantarna mágica. Umas das primeiras descrições sobre o aparelho, ainda que tenha sido meramente um esboço rudimentar, foi feita por Giovanni Fontana em 1420. Ainda que não explicasse em detalhes o fenômeno, foi ele quem descreveu os conceitos-base do funcionamento da lanterna.

Tempos mais tarde outros desenvolveram a idéia-base de Fontana: Giovanni Baptista della Porta (1590), Athanasius Kircher (1650), Christian Huygens (1659) e outros que desenvolveram e aprimoraram a câmera. Justo ou não, o fato é que até hoje o nome que aprece creditado à invenção é o do alemão Athanasius Kricher, um padre jesuíta e que usava a Lanterna Mágica para ilustrar histórias bíblicas. A lanterna de Athanasius era, basicamente, uma câmera escura ao contrário.

POR QUE “LANTERNA MÁGICA”?

Como na época, ainda não existiam cinemas, e ppor isso raros eram os que conheciam o conceito de projeção, ninguém tinha a mais remota idéia de onde vinham aquelas imagens que apareciam por cima do público em uma parede ou uma tela.

Que outra explicação poderia ter tão estranho fenômeno, salvo que fosse algo sobrenatural ou então simplesmente mágico? Daí, para a associação destes espetáculos a forças ocultas era apenas um detalhe. Possivelmente neste ponto é que tenha sido cunhado o termo “Lanterna Mágica”.

DESCRIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS

Os dispositivos mais simples eram formados por uma caixa com uma lamparina de azeite, uma chaminé que expelia a fumaça e evitava que a chama se apagasse e uma lente. A fonte de luz, a princípio eram velas e lamparinas de azeite. Mas alguns “iluminados” tiveram a idéia de usar outros tipos de luz mais intensas, frutos de reações químicas como a luz hidrogenizada e luz acetilênica. Porém, foi com o advento da lâmpada elétrica que estes aparelhos tiveram seu ápice.

Desenho esquemático de uma Lanterna Mágica

Desenvolvimentos posteriores fariam com que as imagens ganhassem movimento, através de uma placa fixa e outra móvel colocadas de forma sobreposta. A ilusão de movimento estava criada, ainda que esta fosse muito rudimentar.

Diferentes modelos de Lanternas Mágicas. Observe os modelos "orientais" abaixo, sendo o da esquerda com temática indiana e o da direita, similar a um pagode japonês.

OS EFEITOS ESPECIAIS

A grande sensação das apresnetações da Lanterna Mágica era o que hoje chamaríamos de efeitos especiais, as: “Visões Dissolventes” Por meio de um par de diapositivos, um jogo de lentes e mais alguns mecanismos, podiam ser simulados uma troca de estado, por exemplo, uma paisagem vista de dia e em seguida vista de noite; vista no inverno e no verão; um barco navegando em um mar calmo e em seguida sob uma poderosa tempestade.

Os sistemas destes dispositivos, assim como sua forma de iluminação iriam sendo modificados dando origem a novos efeitos especiais, tais como: Panoramas, Polioramas, Diafanoramas, Cosmoramas, Silforamas, etc.

O Panorama permitia observar em uma parede de formato cilíndrico uma paisagem vista em 360 graus, mostrando assim um panoramaa de toda a paisagem. O espectador permanecia de pé, ao centro do cilindro e de repente se via em meio a uma cidade ou outra locação qualquer. Variando a iluminação, as pinturas e outros detalhes técnicos, se vizualizavam as mesmas paisagens em situações distintas, chegando a projetar ficções e visões fantásticas em uma sucessão de quadros, tais como se fora um filme moderno. Se tratava de um poderoso ilusionismo visual, uma verdadeira mágica.

O ESPETÁCULO

A lanterna alcança seu apogeu no final do século XIX, quando estes equipamentos eram fabricados em todos os tipos e tamanhos, desde pequenas lanternas de jogos para crianças, até aquelas dedicadas às grandes apresentações nos maiores teatros da época.

A algum “showman” do final do século XVII ocorreu uma brilhante idéia: “E se, ao invés de estabelecer-se de forma permanente em alguma cidade, por que não viajar, conhecer o mundo, divertir-se e de quebra, levar a magia da lanterna aos lugares mais remotos?”

É desta maneira que os primeiros lanternistas começam a viajar continuamente apresentando seu espetáculo e, dado seu caráter itinerante, exibiam-se em hotéis, pousadas e castelos. Levavam todo o seu equipamento nas suas costas, anunciando seus espetáculos com pandeiros, órgãos ou qualquer outro instrumento, buscando chamar a atenção de seu “respeitável público”.

Caricatura de um Lanternista itinerante anunciando o seu show.

Quando o espetáculo da Lanterna Mágica ia para as salas de teatro, se convertia em um verdadeiro show, já que contava com um apresentador ao vivo que ia explicando as imagens e era acompanhado por alguns músicos, que faziam a trilha sonora, segundo a imagem que aparecia, levando a plateia a um verdadeiro êxtase.

Apresentação de um show de Lanterna Mágica em um teatro

Porém no final do século XIX, surge um novo invento, o Cinematógrafo, que vem a se tornar o mais ferrenho competidor da Lanterna Mágica, e que acabou arrebatando a atenção do público. O Cinema com suas imagens em movimento contínuo acabam por decretar o fim da Lanterna Mágica, que acabaria se tornando apenas mais uma peça de colecionadores.

Hoje ainda em alguns lugares da América do Norte e da Europa se realizam exibições da Lanterna Mágica, onde colecionadores e historiadores apresentam o aprelho e contam um pouco da sua história. Eles ainda usam os mesmos instrumentos e vestuário daquela época.

Abaixo segue um vídeo mostrando o funcionamentode uma Lanterna Mágica

No próximo post falarei sobre um tipo de apresentação usando a Lanterna Mágica e que foi um dos mais populares no auge da Lanterna Mágica e serviu de base para muitas mágicas de palco. Mas como um bom mágico não revela o que vai fazer, vocês só saberão sobre essa apresnetação no próximo post.

Até lá!

Amplexos!

FONTES

http://www.luikerwaal.com/indexx_uk.htm

http://blog.makezine.com/archive/2010/03/lost_knowledge_magic_lanterns.html

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/la-linterna-magica.html

http://www.acmi.net.au/AIC/PEEP_SHOW.html

http://pardalitos.blogs.sapo.pt/2007/03/