O QUE HOUDINI ESTARIA FAZENDO HOJE…

ESTARIA ELE SE PROMOVENDO NA INTERNET?

Escrito e ilustrado por Henri Sardou

– Æ –

Se perguntarmos, entre leigos e mágicos, quem é o mágico mais famoso do mundo – vivo ou morto – chegaremos rapidamente a alguns nomes, contudo a grande maioria vai responder um só. Ele mesmo, Houdini, o homem, não só o artista ou o mágico, a personalidade mais famosa do mundo no século XX. Mas se você indagar na rua quem foi Ehrich Weisz ninguém vai saber te responder.

Essa foi a primeira grande sacada de Harry Houdini, ter tomado para si um nome semelhante ao do francês Robert Houdin – considerado o pai da mágica moderna e um dos mágicos mais famosos até então – com sonoridade já associada ao ilusionismo entre artistas e leigos. Mais que um bom mágico, Houdini era um gênio do marketing e se preocupou com a construção da sua marca, desde o naming (criação do nome) até o posicionamento, se colocando no top of mind até hoje quando o assunto é mágica.

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Jean Eugène Robert-Houdin foi o pioneiro em levar a mágica para os palcos elegantes dos teatros.

Nesse momento você deve estar estranhando um artigo falando sobre marketing digital começar falando de Houdini, um mágico que já está morto há quase cem anos sem sequer ter visto uma calculadora eletrônica na frente.

“Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele”.

Simples, porque Houdini foi o primeiro mágico, o primeiro artista, que se deu conta do poder que as histórias que são contadas têm. Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele.  Houdini chegava em uma cidade e fazia questão de ser desafiado pelo homem mais forte do local, que lhe dava um soco na barriga, sem que ele sentisse absolutamente nada. Isso não só era um feito memorável, como também uma isca para atrair atenção da imprensa para a turnê que começaria na cidade. Sabe como é o nome disso? Marketing.

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Houdini só não esperava levar um soco enquanto estava despreparado, o que acabou levando-o à morte.

Esse mesmo marketing que levou o título de ”King of Cards” a se perpetuar até hoje, mesmo Houdini não tendo sido tão hábil com as cartas, perpetuando esse mito. Inclusive, para sermos honestos, Houdini era um mágico bem mediano, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos.

Deixando de lado a iconoclastia sobre a mágica de Houdini, o fato é que ele era capaz de fazer eventos ao ar livre, para milhares de pessoas assistirem, antes sequer da televisão. Esses espectadores que testemunhavam os feitos espetaculares dele, no dia seguinte comentavam e mostravam a quem não tinha visto através dos jornais. Isso amplificava a popularidade de Houdini de uma forma tão grande e eficaz, que logo sua fama atravessou o atlântico, consagrando Houdini como a primeira celebridade global de que se tem notícia, num mundo onde mal existia telegrama, quem diria telefone ou WhatsApp, vale lembrar.

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Multidão de 12 mil espectadores vendo Houdini se libertar de uma camisa de força.

 

“Houdini era um mágico bem normalzão, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos”.

É exatamente esse conceito que eu venho lembrar aqui. Os mágicos devem construir sua audiência, exatamente como Houdini fez. Não importa se você não se sente o melhor mágico do mundo (difícil, hein?), você tem que fazer parecer isso, de forma profissional e consistente, usando os meios de comunicação modernos e fazendo marketing digital.

– Æ –

HOUDINI TERIA SEU PRÓPRIO “JORNAL” HOJE

A grande facilidade da internet é a possibilidade de cada um ter seu próprio jornal de grande circulação, sua mídia particular. Não apenas um jornal, mas um canal de televisão inteiro, com revistas, correio e uma empresa de telefonia junto. As redes sociais possibilitam muito mais interação e têm uma penetração maior ainda.

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Harry Houdini teria uma fanpage, mas não convidaria mágicos para curtir.

Antigamente o jornal estava presente na mesa do café da manhã, no escritório e no máximo no banheiro. Hoje nós levamos o celular para todos esses lugares, além do carro, da cama, cozinha e até da banheira.

Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias, tenha certeza, e seria um guru do marketing digital. Estaria transmitindo seus feitos para milhares de pessoas numa live, estaria postando vídeos de performances e vídeos promocionais de sua turnê, estaria fazendo bom proveito de todos os recursos que as mídias sociais oferecem, para amplificar e potencializar seus feitos espetaculares.

Sim, porque mágicos fazem coisas espetaculares, você deve saber disso se chegou até aqui, né? Agora imagine que mágicos são contratados frequentemente por outros artistas para chamarem atenção para um lançamento ou uma participação no show, espetáculo ou no clipe. São contratados para promoverem lançamentos de produtos com mágica, porque a mágica chama atenção e fixa a mensagem na cabeça do consumidor. Fazem shows em eventos sociais porque as pessoas querem ter um momento mágico, único e inesquecível em suas festas. Estão em festas, eventos produções teatrais e audiovisuais, shows e até em desfiles de escola de samba. Então por que diabos os próprios mágicos não usam a si mesmos para causar os mesmos resultados que as pessoas que os contratam objetivam, em sua própria audiência?

“Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias”

Ao contrário, o que se vê frequentemente são mágicos postando um festival de imagens terríveis, com textos sofríveis, ou artes apoteoticamente horríveis na internet. Vemos diariamente mágicos divulgando seus serviços para outros mágicos (?!) em grupos, além de bom dia, chorume e discussão bolsonaro 2018, ou o que é pior, vemos um milhão de notificações tipo ”Fulano convidou você para curtir a página Mágico Fulano dele”.

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1) O mágico posta, curte, compartilha e comenta a própria postagem em um grupo de mágica;    2) O slogan que fala exatamente o oposto do que o cliente precisa ouvir (no cartão está escrito “O mágico que falta em sua festa!“); 3) Convidar outros mágicos para curtir a sua página é um tremendo tiro no pé!

Tudo isso a gente testemunha diariamente, mas o que é bom para construir audiência e impactar clientes, futuros contratantes e construir reputação não, isso quase ninguém vê. Harry estaria mais uma vez nadando de braçada na frente dessa concorrência hoje em dia, usando estrategicamente os novos meios de comunicação que são as redes sociais.

Quem não usa, por exemplo, o Facebook – para negócios – e não tá disposto a usar comercialmente, pode fechar esse texto, ir tomar um café, um shot de cicuta ou se matar com um tiro na cabeça, porque já está morto, assim como Ehrich Weisz. O mundo muda dia a dia e se há dez anos atrás o Facebook nem existia no Brasil, hoje se você não estiver na maior rede social do mundo quem não existe é você.

Portanto, se você não está agindo engenhosamente no digital, encomende sua lápide, porque é só isso que falta.

“O MÁGICO É UM ATOR…”

Uma das mais famosas citações mágicas é a frase de Eugene Robert-Houdin: “O mágico é um ator que interpreta o papel de um mágico.” A grande maioria das vezes em que é citada, o contexto é de que o mágico é, antes de mais nada, um ator, daí a importância de um conhecimento cênico tão grande (quiçá até maior) do que o conhecimento arcano.

Porém, o que poucos sabem é que Robert-Houdin em momento algum defendeu a ideia de um “ator-mágico”. Aliás, essa frase encontra-se em um contexto totalmente diverso, no qual Robert-Houdin defende qual o melhor termo para o artista da ilusão. Ou seja, a discussão não é cênica, mas sim, semântica.

A frase encontra-se no livro “Les secrets de la prestidigitación et de la magiè“, em que Robert-Houdin disserta sobre o ilusionismo, desde a parte mecânica/técnica, a qual ele chama de prestidigitação, bem como sobre a parte cênica e de apresentação, que recebe o nome de “magia”. Para robert-Houdin, há uma dicotomia e é sobre esta dicotomia que ele disserta.

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Trecho do livro de Robert-Houdin, contendo sua célebre frase.

 

Talvez, parte da culpa pela confusão causada quando falamos em ser natural, seja do prof. Hoffman que ao traduzir a obra de Robert-Houdin, traduziu erroneamente uma sentença que viria a entrar para história.

O mágico é um ator que interpreta o papel de mágico”; na tradução do Professor Hoffmann, “a conjuror is an actor playing the part  of a magician”; e, por sua vez, a frase original de Robert-Houdin, “un prestidigitateur n’est point un jongleur; c’est un acteur jouant un rôle de magicien”.

Repare nas palavras sublinhadas e em como elas foram sendo erroneamente traduzidas de uma língua para a outra. Por isso, tomando a frase isolada de seu contexto, o seu sentido muda completamente. A discussão não era sobre o mágico ser ou não um ator (Robert-Houdin deixa bem claro que sim, ele é), mas sobre semântica: qual a palavra mais adequada para designar esse tipo de artista?

Tanto a discussão era sobre o nome mais adequado que, antes de discutir o termo “prestidigitador”, Robert-Houdin se debruça sobre o uso do termo “escamoteador” e sobre o porquê ele também ser imperfeito (segundo ele, escamoteador deveria ser usado apenas por aqueles que se dedicam aos covilhetes. Na língua portuguesa a palavra recebeu inicialmente essa acepção, embora mais tarde tenha sido estendida para qualquer um que praticasse pequenos golpes).

Hoffman entendeu que essa era a discussão em questão, tanto que escreveu a seguinte nota: “O presente capítulo, sendo uma discussão sobre o significado preciso de alguns termos em francês, tem pouco interesse para o leitor inglês comum. Seria, no entanto, uma mutilação injustificável omiti-lo“. Se Hoffmann soubesse a confusão que viria causar anos mais tarde, talvez reconsiderasse.

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Prof. Louis Hoffmann, o autor da “confusão”.

Assim, Robert-Houdin não está discutindo sobre o que o mágico É (malabarista, ator, etc.), mas sim, sobre o que o mágico NÃO É. Ele defende a teoria que o ilusionista não é um malabarista, que deve executar suas técnicas de forma “mais rápida que o olho” e assim ser chamado de prestidigitador (presto = rápido, dígito = dedos). Antes o ilusionista deve ser um ator e encantar pela sua franca exposição do truque, como se fosse um verdadeiro mágico. A genialidade está na apresentação, no método e no ensaio, e não na velocidade.

Essa ideia pode ser extraída da continuação de sua famosa frase:

“O prestidigitador não é um malabarista, ele é um ator interpretando o papel de um mágico. Ele é um artista cujos dedos devem mover-se mais com suavidade do que com velocidade. Eu ouso adicionar: onde a manipulação estiver envolvida, quanto mais sutil o movimento, mais facilmente os espectadores serão enganados.

Se o prestidigitador clama possuir poderes supernaturais (…) por que então, quanto executa as suas maravilhas, ele deve gesticular exageradamente rápido? Agir dessa forma é ilógico e inconsistente. Ao ver tais gestos rápidos, os espectadores em geral ficarão maravilhados, intrigados, mas não convencidos, enquanto – por outro lado – um movimento discreto, sutil sempre induzirá à confiança, promovendo assim a ilusão.

A palavra prestidigitação, portanto, apenas descreve imperfeitamente o que a nossa arte se propõe.”

GOLPES, ESQUEMAS E SUAS VARIAÇÕES

1. INTRODUÇÃO

O ser humano sempre buscou formas de ludibriar seus semelhantes. É da natureza humana levar vantagem sobre seus semelhantes. O ser humano é, por natureza, um ser ganancioso. E levados por essa ganância foi que os golpistas ao longo de anos criaram, aperfeiçoaram e adaptaram métodos para enganar seus pares.  E assim surgiram os golpes.

Desde que surgiram, os golpes pouco mudaram. Adaptaram-se ao tempo, à época, ao local, mas a sua essência continua a mesma: explorar a ganância humana e usá-la contra a vítima.  Joseph “Yellow Kid” Weil (1º de Julho, 1875 – 26 de fevereiro de 1976), um dos mais famosos golpistas de todos os tempos, disse:

O desejo de ganhar algo sem dar nada em troca tem custado caro para a maioria das pessoas que negociaram comigo e com outros golpistas. (…) Mas eu descobri que é assim que a coisa funciona. Uma pessoa média é, em minha opinião, 99% animal e 1% humana. Esses 99% que são a porção animal causam muitos poucos problemas. Mas o 1% que é humano é a causa de todas as nossas mazelas. Quando as pessoas aprenderem – e eu duvido que algum dia irão – que elas não podem ganhar algo do nada, o crime irá diminuir e nós viveremos em grande harmonia.”

Joseph Weil em “Hoaxers & Hustlers”, Streissguth, Thomas. Minneapolis 1994; The Oliver Press, Inc.

Jospeh Weil

(Clique na imagem para ampliar)

2. “THE CON MAN”

Os golpistas, nos EUA, são chamados de “con man” ou “con artist”. A expressão “con man” é a abreviação de “confidence man” que traduzido ao português significa algo como “homem de confiança” ou então “artistas da confiança”. O trabalho destas pessoas é ganhar a confiança da vítima (também chamada de “mark” ou “pato”) e assim atingir seus objetivos.

Todo o trabalho do golpista concentra-se neste único ponto: conquistar a confiança da vítima. Os golpes todos se baseiam nessa premissa básica: a vítima precisa, além de ser gananciosa, confiar no golpista. Alguns golpes chegam ao ponto de pressupor que a vítima irá passar a perna no golpista.

3. GOLPISTAS X MÁGICOS

É fato notório que os mágicos aprenderam algumas de suas técnicas com os “con artists”. Os dois exemplos mais notórios são o “three card monte”, jogo de cartas em que a vítima deve entre três cartas, achar a carta vermelha, e o livro “The Expert at the Card Table”, um livro que ensina as principais técnicas para trapacear em uma mesa de jogo, mas que os mágicos adotaram para as suas rotinas.

Esta relação sempre foi muito conturbada, e por vezes mágicos e golpistas confundem-se. Não raro muitas pessoas referem-se aos jogos dos mágicos como meros truques ou enganação. “Sempre o mágico me engana”, dizem algumas pessoas.

Seja como for, não se pode negar a relação próxima entre mágicos e golpistas. Por isso, este artigo tem como objetivo mostrar os principais golpes existentes na praça e o que nós como mágicos podemos fazer para ajudar (ou trapacear) os leigos no assunto.

4. OS GOLPES

Os golpes se dividem em algumas categorias.

4.1. Sistemas “Fique Rico”

O foco deste tipo de golpe é explorar a ganância da vítima. Normalmente ela pensa que ficará rica de modo fácil, chegando algumas vezes a pensar que está enganando o golpista quando na verdade ela é a vítima. Eis alguns golpes deste tipo:

Salpicando a Mina

Como funciona: o golpe consiste em vender à vítima uma suposta mina com ouro ou pedras preciosas. Para isso o golpista salpica a mina com algumas pepitas de ouro ou pedras preciosas. Ele leva a vítima para a mina, no local salpicado, e mostra que a mina ainda possui minérios para serem explorados. Este golpe foi muito comum durante as corridas do ouro.

Variante moderna: pode-se dizer que o ato de regressar o odômetro de um carro, ou então maquiá-lo antes da venda, seja uma variante moderna desse golpe. A vítima acaba comprando “gato por lebre” pensando que está fazendo um excelente negócio, ou ainda que está enganando o vendedor.

A Máquina de Fazer Dinheiro

Como funciona: o golpista se apresenta como o vendedor de uma fantástica novidade: uma máquina que fabrica dinheiro. Trata-se de uma máquina especial que de tempos em tempos emite uma cédula perfeita de 100 dólares, porém ela só funciona com uma nota a cada duas horas. O golpista alega que precisa de dinheiro urgente e que por isso não pode esperar a máquina fabricar todo o dinheiro que precisa.

Ao comprar a máquina a vítima vê maravilhada que ela, de fato, fabrica dinheiro ainda por duas ou três vezes, antes de cessar completamente e se mostrar um aparelho ordinário (e obviamente o golpista já estar a léguas de distância).

Variante moderna: por incrível que pareça este golpe ainda é aplicado da forma como foi concebida. Mas pode-se dizer que os falsificadores de dinheiro trabalham apoiados nesse esquema. Misturam notas falsas com verdadeiras e assim “diluem” as suspeitas para si.

O Prisioneiro Espanhol

Como funciona: a vítima deve coletar um dinheiro guardado e entrega-lo ao golpista. Como garantia de que a vítima não fuja com o dinheiro é exigido uma garantia financeira da vítima.

Variante moderna: esse é um dos golpes mais aplicados até hoje, devido às suas enormes variações. Na mais famosa delas, o Esquema Nigeriano, a vítima é impelida a usar o dinheiro que deveria ser recolhido na forma de impostos. Nessa variante a promessa é de que a vítima recolha algum dinheiro vindo do exterior (em geral da Nigéria).

Por usar o seu dinheiro que deveria ir para impostos, e por estar envolvido com a evasão de divisas a vítima acaba não podendo ir à polícia, pois estaria confessando crimes de sonegação fiscal.

O Telégrafo

Como funciona: um golpista recebe o resultado de um evento esportivo alguns minutos antes do que a vítima e passa para a vítima o resultado deste evento esportivo (em geral, corrida de cavalos). A vítima munida dessa informação privilegiada aposta na dica recebida ganha o dinheiro facilmente. Após mais algumas apostas a vítima é convencida a colocar todo o seu dinheiro em um determinado resultado que, obviamente, não se concretiza.

Esse golpe possui algumas variantes, mas todas lidam, basicamente em o golpista saber primeiro do que a vítima o resultado de um jogo e assim manipular as informações como melhor convier.

Variante moderna: hoje, com a tecnologia da informação avançada é praticamente impossível aplicar o golpe em sua versão clássica. Porém, muitos eventos esportivos tem resultados combinados, em especial eventos de luta onde empresários combinam com seus atletas quais devem ganhar e quais devem perder. No Brasil e na Itália houveram casos recentes de fraude envolvendo o futebol.

4.2. Sistema Persuasivo

Este tipo de golpe funciona com o golpista, de alguma forma, convencendo a vítima a entregar, espontaneamente o seu dinheiro.

Conspiração Missionária

Como funciona: ministros religiosos que induzem seus fieis a entregar o seu dinheiro, posses e bens para que estes sejam aplicados na propagação daquela religião ou seita.

Variantes modernas: algumas igrejas neopentecostais como a Universal do Reino de Deus e seitas menores como a seita de Jim Jones ficaram famosas por se valer do dinheiro de seus fiéis para atingir outros fins.

O Esquema do Romance

Como funciona: através de um site de relacionamento duas pessoas se conhecem e começam a se relacionar de forma séria. A relação avança até o ponto em que, cansados da distância, o casal decide se encontrar. A vítima então manda dinheiro para que o outro possa comprar passagens, passaporte, o que for. Mas esse encontro nunca acontece.

Guias Espirituais

Como funciona: é uma variante da “Conspiração do missionário”, porém feito com cartomantes, leitores de mão e similares. Através do uso de técnicas de leitura fria o golpista ganha a confiança da vítima e convence-o a semanalmente consultar-se com ele, arrancando vultosas somas de dinheiro da vítima.

4.3. Esquemas “Barras de Ouro”

Estes golpes consistem na venda de um item extremamente valioso para a vítima, mas que ao fim das contas, revela-se um produto comum.

O Violino

Como funciona: o golpista vende um objeto de grande valor à vítima (originalmente um violino Stradivarius). Na hora da entrega o golpista troca as sacolas/maletas e entrega um objeto ordinário.

Variantes modernas: várias, desde joias, carros, casas… É a famosa “propaganda enganosa”. Mas talvez a variante mais conhecida e utilizada no Brasil seja a venda do “Bilhete premiado”.

Gemas Tailandesas

Como funciona: nesse golpe vários golpistas convencem a vítima a comprar pedras preciosas e leva-las para casa. As pedras são legítimas, porém estão superavaliadas (+ de 200%). Na verdade os golpistas combinam entre si valores e indicam-se uns aos outros. A vítima ao comparar diferentes pedras em diferentes lojas convence-se de que aquele é o valor real das pedras.

Este golpe era muito comum em Bancoc, onde, além de tudo, os golpistas eram protegidos pela polícia e por políticos corruptos.

O Jogo de Murphy ou A Van dos Alto Falantes

Como funciona: uma van branca vendendo produtos com valor bem abaixo da média de mercado. A explicação: ponta de estoque, remanufaturados, ou ainda um pedido mal elaborado e que deixou a loja abarrotada de produtos que não podem ser estocados. Na verdade trata-se de mercadoria roubada.

4.4. Extorsão e Falso Testemunho

Chantagem

Como funciona: este tipo de golpe consiste basicamente em colocar a vítima em uma posição comprometedora para si e o golpista utiliza isso contra ela.

“Clip Joint” (não achei uma tradução apropriada)

Como funciona: a vítima é lavada a um bordel, ou mesmo um bar e nenhum de seus pedidos é atendido de acordo, porém a vítima já pagou previamente pelo serviço. Por estar em um local de péssima reputação a vítima acaba não avisando as autoridades.

Variantes: outra variação consiste em fazer com que a vítima consuma grandes quantidades de produtos ou serviços, com a promessa de que aquilo já está pago e depois apresentar-lhe a conta.

Mosca na Sopa

Como funciona: o golpe consiste em sabotar um objeto (originalmente uma comida) ou bem e assim consumi-lo/utilizá-lo de graça.

A Queda do Melão

Como funciona: o golpista leva uma caixa com, por exemplo, vidro já quebrado e esbarra na vítima, derruba o pacote, e acusa a vítima de haver quebrado a sua mercadoria. Por fim, o golpista exige uma reparação de danos materiais para não precisar chamar a polícia.

O nome desse golpe vem do Japão, onde os golpistas utilizam melões para realiza-lo (melões são muitos caros no Japão).

Fraude de Seguro

Como funciona: o vigarista, de alguma forma, faz com a vítima o atinja ou atinja algum patrimônio seu, exigindo assim reparação por danos. Na versão mais comum dois golpistas, um a pé e outro de carro, fazem o golpe: O golpista no carro anda devagar por uma rua até que um carro encoste-se a sua traseira. Então o segundo golpista é “atropelado” pelo primeiro que freia bruscamente fazendo com que o carro da vítima bata na traseira do seu (obviamente a traseira do carro é preparada para maximizar o dano).

O golpista então, com a desculpa de levar a vítima para o hospital, pede que o causador do acidente (vítima do golpe) pague algum valor, pois não quer esperar a polícia para registrar o BO.

4.5. Outros Golpes

Existem ainda muitos outros golpes como os golpes de jogos, uso de falsos distintivos, “o falso ganhador” (a vítima supostamente ganha um prêmio e para retirá-lo precisa pagara um quantia, ou então assinar determinados papéis. Muito utilizado por presos no Brasil via celular) entre outros.

5. “O CONTO DO VIGÁRIO”

Por fim, uma curiosidade. O termo “vigarista” possivelmente vem da palavra “vigário” e está relacionado ao famoso “conto do vigário”.

Segundo a pesquisadora Denise Lotufo, a expressão teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII.

Tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora.

Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem.

O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que, o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.

Já os escritores Fernando Pessoa e Antônio Bagão Félix, contam que alguns bandidos tentavam tomar dinheiro de incautos usando a história de uma herança que teriam ganhado, de um vigário ou por intermédio de uma história escutada por um vigário, mas que para isso teriam que pagar várias taxas e outras quantias. (Pessoa, Fernando; Félix, António Bagão. O Conto do Vigário. [S.l.]: Centro Atlântico, Portugal, 2011. 40 p.).

6. CONCLUSÃO

Quase todas as vítimas deste tipo de esquema, são vítimas de sua própria ganância. O fato de alguém querer levar vantagem sobre o outro é o primeiro passo para ser enganado.

Que nós, como estudiosos da “arte de enganar” possamos utilizá-la apenas para o entretenimento. E mais, que possamos ajudar os incautos a se prevenirem de pessoas gananciosas. Como disse o ator argentino Ricardo Darín sobre seu filme “Nueve Reínas”: “Não faltam otários no mundo, faltam bons empresários”, ou seja, pessoas que serão enganadas não faltam. Apenas que nem todos ainda querem enganar o seu próximo.

Amplexos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Além dos livros já citados;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto_do_vigário

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_confidence_tricks

FANTASMAGORIA

No post anteiror (abaixo) falei sobre as “Lanternas Mágicas”. Aparatos capazes de reproduzir imagens, e criar histórias, muito utilizadas no século XVIII e XIX.

Alguns me perguntaram: “mas o que aquelas lanterna tem a ver com a mágica, exceto pelo nome?“. Na verdade aquele post foi uma introdução para o post de hoje. Hoje escreverei sobre um estilo de apresentação utilizando as tais lanternas mágicas, chamado de fantasmagoria; ou seja, um show de terror.

Esses espetáculos, serviram como base para mutas das mágicas de palco com temáticas espíritas e sobrenaturais nos séculos XVIII e início do século XIX. Foram nesses espetáculos que os mágicos descobriram o poder e a utilidade dos espelhos e da fumaça, cunhando a expressão “smoke and mirrors”, que é, até hoje, sinônimo de “uma grande ilusão”.

Quem pensa que os espetáculos de horrores são uma invenção moderna, devería rever seu conceito. No fim do século XVIII, algumas modificações na concepção das Lanternas Mágicas permitiram não mais a simples exibição de imagens estáticas, mas agora produziam imagens horrorizantes: fantasmas projetados sobre a plateia, imagens minúsculas que prontamente se convertiam em gigantes e além disso que podiam podiam se mover pelas paredes dos teatros.

 

Espetáculo de fantasmagoria no Séc. XVIII

(clique na imagem para ampliar)

A lanterna mágica, antes um show de projeções e histórias, acaba mudando completamente, dando origem a um show de horrores, e que ficaram conhecidos como fantasmagoria.

Por se tratar de uma ilusão, era comum a presença de mágicos, que acompanhavam o espetáculo e o funcionamento das lanternas e alguns até que se apresnetavam junto com a lanterna, ainda que o espetáculo funcionasse na maior parte das vezes tendo nada a ver com a mágica.

O NASCIMENTOS DOS FANTASMAS

A Revolução Francesa, com suas muitas mortes, guilhoitinas e demais atrocidades, foram o cenário perfeito para a geração dessas sensações macabras. E o interesse do público pelo macabro inerente à Revolução, incentivou grandemente a execução desses shows de fantasmas.

Tudo começa no auge da Revolução Francesa, quando chega em Paris o físico belga Étienne-Gaspard Robert (1763-1837), mais conhecido como Robertson, e que teve uma engenhosa ideia: a produção de fantasmas ópticos.

 

Desenho de perfil de Étienne-Gaspard Robert

(clique na imagem para ampliar)

O porém é que já haviam alguns fabricantes de fantasma em Paris como Cagliostro e Mesmer. Porém o diferencial de Robertson, além de ser um estrangeiro desconhecido, era que ele, de fato, era um entendido na ciência e na óptica, além de se proclamar um possuídor de poderes ocultos.

Alguns historiadores afirmam que Robertson era, na verdade, um plagiador. Ele haveria se apossado da ideia de um alemão chamado Paul Philidor ou Philipsthal, que havia apresnetado um espetáculo de fantasmagoria em Paris poucos dias antes da morte do Rei Luís XV. Além disso, Philip era dono de um museu de curiosidades sobre ótica, mecânica e automatos. verdade ou não, o fato é que o show de Robertson era uma vedadeira experiência sobrenatural.

 

Cartazes anunciando shows de fantasmagoria: à esquerda, o cartaz de Robertson de um show em Londres; à direita um cartaz de Philipsthal

(clique na imagem para ampliar)

Étienne, que ao menos sabia se promover, inundou Paris com cartazes propagandeando a si próprio. Tamanho foi o sucesso de sua divulgação que o lugar marcado para a sua apresentação, um pequeno teatro de 70 lugares, ficou sem espaço para o tanto de pessoas que compareceram.

O SHOW

Poultier, um repórter local, escreveu acerca daquele espetáculo. Nesta nota Poultier conta que o belga colocava em um braseiro em chamas dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas do periódico “Jornal dos Homens Livres” (um jornal republicano da época) fazendo aparecer por entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha, representando a liberdade segundo consta, e armado com um punhal, para logo desaparecer, tão misteriosamente quanto apareceu.

 

 

Fantasmas aparecendo por cima do público. Repare nos braseiros gerando a fumaça por onde aparecem os fantasmas.

(clique na imagem para ampliar)

A seguir um jovem da plateia se levanta e solicita ver o fantasma de sua amada já falecida; o jovem então mostra um retrato dela para Robertson. O físico repete outra vez a operação no brazeiro e eis que surge o busta da jovem, com seus cabelos fluuando no ar e sorrindo para o seu amado.

A notícia toda é bastante extensa. Mas o exposto aqui já é o bastante para imaginarmos o tamanho do impacto que esta notícia deve ter causado nos leitores da época.

Como já foi dito, o lugar marcado para as apresentações era deveras pequeno para o sucesso de Robertson que logo conseguiu mudar-se junto com seus fantasmas e seus aparatos para um lugar mais amplo e, por acaso do destino, um lugar com “espírito” para tais apresentações: um velho e abandonado convento capuchinho, próximo à Praça de la Vendome, em Paris. Esta nova locação foi a grande alavanca no marketing de suas apresentações.

Os espectadores que chegavam eram conduzidos através de corredores escuros rodeados de antigas tumbas e lápides mortuárias. O cenário não podería ser mais perfeito. Era um grande show de imagens e sensações.

Se as projeções por si só, já aterrorizavam a audiência, o ambiente tétrico as pontecializavam ainda mais. A isso, ainda foram acrescentados sons ambinetes de trovões, sinos, correntes e outros sons dessa linha.

E o terror não parava por aí. Alguns ajudantes caminhavam entre as trevas da cripta, com lanternas presas em seus corpos, o que produzia outros efeitos sobrenaturais, como o de espíritos, ou fantasmas caminhando e cercando ao público.  Alguns dos espectadores nem se atreviam a olhar as projeções. Outros tantos acabavam por sair do teatro correndo, tamanho era o medo incutido pela fantasmagoria de Robertson.

Se levarmos em conta que, ainda hoje, viramos a cara em certas cenas de terror, e consideranod ainda que para aquelas pessoas, a fantasmagoria era o equivalente ao nosso cinema, podemos vislumbrar, ainda que em parte, o tamanho do espanto e do medo, causado por tais espetáculos.

COMO FUNCIONAVA A FANTASMAGORIA?

Como dito antes, a base da fantasmagoria estava nas “Lanternas Mágicas”. Os fantasmas e demônios eram pintados sobre placas de vidro e depois projetadas. Porém, enquanto nos espetáculos convencionais os espectadores ficavam entre a lanterna e a tela de projeção, na fantasmagoria, era a tela que ficava entre os espectadores e a lanterna, ou seja, esta ficava oculta aos espectadores, o que conferia mais mistério ao show.

 

 

Posição das partes durante a apresentação. Observe como o fantascópio permanece oculto do público.

(clique na imagem para ampliar)

Robertson usava uma Lanterna especial montada sobre rodas, o qual denominou “Phantascope” ou, em tradução livre, Fantascópio.

 

 

Fantascópio em funcionamento. Observe a presença de rodas no aparelho.

(clique na imagem para ampliar)

Movendo a lanterna para mais perto ou mais próximo da tela, as imagens se deformavam, aumentando ou ampliando conforme a distância da tela, em questão de segundos.  O efeito final era bastante similar ao que hoje chamamos de “zoom”. Os espectadores, embasbacados, observavem como a figura crescia rapidamente, dando a impressão de avançar para cima do público, para, em segundos, transformar-se em pequenos “anões”.

 

 

Fantascópio original.

(clique na imagem para ampliar)

O mecanismo foi tão engenhosamente desenhado, que permitia que as lentes mantivessem as imagens em foco a intensidade da luz, qualquer que fosse a distância entre a lanterna e a tela.

 

 

Dispositivo inserido no fantascópio a ser projetado.

(clique na imagem para ampliar)

E por vezes, era a fumaça que se fazia passar por tela. Ao fabricar fumaça e direcionar o Fantascópio para esta densa neblina, o resultado era a clara impressão de uma imagem flutuando no ar.

 

 

Exemplo do efeito de movimento.

(clique na imagem para ampliar)

Em 1847 alguns cientistas escreveram um livro onde apresentavam cerca de 400 experimentos científicos com fins de entretenimento. Entre os números apresnetados, estava a Lanterna Mágica e a Fantasmagoria, explicando inclusive como fazer pincéis finos para a pintura das placas de vidro e como montar todo o equipamento.

Na figura abaixo tomada do livro, pode-se observar como criar uma imagem fantasmagórica sobre um suporte, queimando incenso para gerar a fumaça, no melhor estilo das projeções a laser atuais.

 

 

Projeção do fantascópio sobre a fumaça.

(clique na imagem para ampliar)

 

FONTES

 

Texto base:

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/fantasmagoria.html

 

Mais imagens e textos complementares:

http://users.telenet.be/thomasweynants/assaulted.html

http://www.jstor.org/pss/3815390

http://www.magiclantern.org.uk/history/history7.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Phantasmagoria

http://www.acmi.net.au/AIC/PHANTASMAGORIE.html

http://www.magiclantern.org.uk/history/history6.html

É isso. Espero de coração que tenham gostado. Particularmente aprendi muito com esse post. Principalmente essa questão de não gerar apenas entretenimento, ou algo bonito para o espectador ver, mas sim buscar gerar uma experiência, uma vivência em todos os sentidos.

Amplexos!

A LANTERNA MÁGICA

Há cerca de 600 anos, antes mesmo do homem sonhar com cinemas ou televisões, um cientista veneziano, à frente de seu tempo, deixou anotado em seu tratado “Liber Instrumentorum” as anotações da construção de um dispositivo que ficaria conhecido como “A Lanterna Mágica”, o mecanismo foi precursor dos projetores de diapositivos e avô dos modernos projetores de multimídia.

As imagens eram imagens pintadas sobre placas de vidro, colocadas dentro da Lanterna Mágica e ampliadas ao serem projetadas sobre uma tela. A lanterna mágica logo converteu-se em um popular instrumento de entretenimento e comunicação por antonomásia de toda uma época.

Projeção doméstica de uma Lanterna Mágica

O INÍCIO DE TUDO

Aquele era um tempo de grandes descobrimentos; época em que as pessoas mais detidamente certos fenômenos e, por isso mesmo, ampliava, mais até do que agora, o horizonte de suas mentes. E este senso de descobrimento foi um dos catalisadores do sucesso da lantarna mágica. Umas das primeiras descrições sobre o aparelho, ainda que tenha sido meramente um esboço rudimentar, foi feita por Giovanni Fontana em 1420. Ainda que não explicasse em detalhes o fenômeno, foi ele quem descreveu os conceitos-base do funcionamento da lanterna.

Tempos mais tarde outros desenvolveram a idéia-base de Fontana: Giovanni Baptista della Porta (1590), Athanasius Kircher (1650), Christian Huygens (1659) e outros que desenvolveram e aprimoraram a câmera. Justo ou não, o fato é que até hoje o nome que aprece creditado à invenção é o do alemão Athanasius Kricher, um padre jesuíta e que usava a Lanterna Mágica para ilustrar histórias bíblicas. A lanterna de Athanasius era, basicamente, uma câmera escura ao contrário.

POR QUE “LANTERNA MÁGICA”?

Como na época, ainda não existiam cinemas, e ppor isso raros eram os que conheciam o conceito de projeção, ninguém tinha a mais remota idéia de onde vinham aquelas imagens que apareciam por cima do público em uma parede ou uma tela.

Que outra explicação poderia ter tão estranho fenômeno, salvo que fosse algo sobrenatural ou então simplesmente mágico? Daí, para a associação destes espetáculos a forças ocultas era apenas um detalhe. Possivelmente neste ponto é que tenha sido cunhado o termo “Lanterna Mágica”.

DESCRIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS

Os dispositivos mais simples eram formados por uma caixa com uma lamparina de azeite, uma chaminé que expelia a fumaça e evitava que a chama se apagasse e uma lente. A fonte de luz, a princípio eram velas e lamparinas de azeite. Mas alguns “iluminados” tiveram a idéia de usar outros tipos de luz mais intensas, frutos de reações químicas como a luz hidrogenizada e luz acetilênica. Porém, foi com o advento da lâmpada elétrica que estes aparelhos tiveram seu ápice.

Desenho esquemático de uma Lanterna Mágica

Desenvolvimentos posteriores fariam com que as imagens ganhassem movimento, através de uma placa fixa e outra móvel colocadas de forma sobreposta. A ilusão de movimento estava criada, ainda que esta fosse muito rudimentar.

Diferentes modelos de Lanternas Mágicas. Observe os modelos "orientais" abaixo, sendo o da esquerda com temática indiana e o da direita, similar a um pagode japonês.

OS EFEITOS ESPECIAIS

A grande sensação das apresnetações da Lanterna Mágica era o que hoje chamaríamos de efeitos especiais, as: “Visões Dissolventes” Por meio de um par de diapositivos, um jogo de lentes e mais alguns mecanismos, podiam ser simulados uma troca de estado, por exemplo, uma paisagem vista de dia e em seguida vista de noite; vista no inverno e no verão; um barco navegando em um mar calmo e em seguida sob uma poderosa tempestade.

Os sistemas destes dispositivos, assim como sua forma de iluminação iriam sendo modificados dando origem a novos efeitos especiais, tais como: Panoramas, Polioramas, Diafanoramas, Cosmoramas, Silforamas, etc.

O Panorama permitia observar em uma parede de formato cilíndrico uma paisagem vista em 360 graus, mostrando assim um panoramaa de toda a paisagem. O espectador permanecia de pé, ao centro do cilindro e de repente se via em meio a uma cidade ou outra locação qualquer. Variando a iluminação, as pinturas e outros detalhes técnicos, se vizualizavam as mesmas paisagens em situações distintas, chegando a projetar ficções e visões fantásticas em uma sucessão de quadros, tais como se fora um filme moderno. Se tratava de um poderoso ilusionismo visual, uma verdadeira mágica.

O ESPETÁCULO

A lanterna alcança seu apogeu no final do século XIX, quando estes equipamentos eram fabricados em todos os tipos e tamanhos, desde pequenas lanternas de jogos para crianças, até aquelas dedicadas às grandes apresentações nos maiores teatros da época.

A algum “showman” do final do século XVII ocorreu uma brilhante idéia: “E se, ao invés de estabelecer-se de forma permanente em alguma cidade, por que não viajar, conhecer o mundo, divertir-se e de quebra, levar a magia da lanterna aos lugares mais remotos?”

É desta maneira que os primeiros lanternistas começam a viajar continuamente apresentando seu espetáculo e, dado seu caráter itinerante, exibiam-se em hotéis, pousadas e castelos. Levavam todo o seu equipamento nas suas costas, anunciando seus espetáculos com pandeiros, órgãos ou qualquer outro instrumento, buscando chamar a atenção de seu “respeitável público”.

Caricatura de um Lanternista itinerante anunciando o seu show.

Quando o espetáculo da Lanterna Mágica ia para as salas de teatro, se convertia em um verdadeiro show, já que contava com um apresentador ao vivo que ia explicando as imagens e era acompanhado por alguns músicos, que faziam a trilha sonora, segundo a imagem que aparecia, levando a plateia a um verdadeiro êxtase.

Apresentação de um show de Lanterna Mágica em um teatro

Porém no final do século XIX, surge um novo invento, o Cinematógrafo, que vem a se tornar o mais ferrenho competidor da Lanterna Mágica, e que acabou arrebatando a atenção do público. O Cinema com suas imagens em movimento contínuo acabam por decretar o fim da Lanterna Mágica, que acabaria se tornando apenas mais uma peça de colecionadores.

Hoje ainda em alguns lugares da América do Norte e da Europa se realizam exibições da Lanterna Mágica, onde colecionadores e historiadores apresentam o aprelho e contam um pouco da sua história. Eles ainda usam os mesmos instrumentos e vestuário daquela época.

Abaixo segue um vídeo mostrando o funcionamentode uma Lanterna Mágica

No próximo post falarei sobre um tipo de apresentação usando a Lanterna Mágica e que foi um dos mais populares no auge da Lanterna Mágica e serviu de base para muitas mágicas de palco. Mas como um bom mágico não revela o que vai fazer, vocês só saberão sobre essa apresnetação no próximo post.

Até lá!

Amplexos!

FONTES

http://www.luikerwaal.com/indexx_uk.htm

http://blog.makezine.com/archive/2010/03/lost_knowledge_magic_lanterns.html

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/la-linterna-magica.html

http://www.acmi.net.au/AIC/PEEP_SHOW.html

http://pardalitos.blogs.sapo.pt/2007/03/

MÁGICA EM TEMPOS DE GUERRA (PARTE I)

Extraído do portal UOL

Autor: Thiago Chaves-Scarelli

CIA ENSINOU TRUQUES DE MÁGICA AOS SEUS AGENTES DURANTE A GUERRA FRIA

Precisa colocar uma pílula secreta na bebida de um chefe de Estado sem ser percebido? O truque é agir com movimentos calmos, distraindo seu alvo com outra ação espontânea, em um cenário preparado com antecedência. Ou seja, da mesma maneira que um mágico enganaria sua plateia.

Precisa envenenar alguém? Mão esquerda abaixada para a ação, imediatamente após o fósforo ser riscado e distrair alvo.

Esse é o espírito das lições que foram passadas aos agentes secretos norte-americanos pelo ilusionista profissional John Mulholland, em um “manual” ultrassecreto escrito a pedido do governo dos EUA no auge da Guerra Fria – e que agora, seis décadas depois, foi divulgado por pesquisadores norte-americanos.

“CIA – Manual Oficial de Truques e Espionagem” (Lua de Papel, R$ 34,90), publicado no Brasil este mês, é o resultado da pesquisa dos especialistas H. Keith Melton e Robert Wallace, responsáveis por encontrar a única cópia de que se tem notícia destes textos.

Capa do livro "CIA - Manual Oficial de Truques e Espionagem" (Ed. Lua de Papel).

Fim do “jogo limpo”

O livro conta que durante a década de 1950, o acirramento da tensão entre os americanos e a União Soviética levou os EUA a revisarem os procedimentos de sua recém-criada agência de inteligência.

“Se os Estados Unidos quiserem sobreviver, os sagrados conceitos norte-americanos de ‘jogo limpo’ devem ser reconsiderados. Devemos aprender a subverter, sabotar e destruir nossos inimigos mediante métodos mais engenhosos, mais sofisticados e mais eficazes do que aqueles utilizados contra nós”, defendia um relatório militar entregue ao presidente Dwight D. Eisenhower em 1954.

Os EUA se sentiam ameaçados por uma potência soviética que não hesitava em matar lideranças políticas e perseguir civis quando era conveniente. Em resposta, aplicou uma postura ofensiva. “As ações clandestinas da CIA se expandiram da Europa para Oriente Médio, África, América Latina e Extremo Oriente”, contam os autores.

Essa expansão coincide com o desenvolvimento do MKULTRA, um dos programas mais delicados da Guerra Fria, que acabou englobando 149 subprojetos e se manteve como um dos segredos mais bem guardados da CIA por mais de 20 anos.

Pílulas, pós e ilusionismo

O objetivo dessas agências era pesquisar e desenvolver produtos químicos, biológicos e radioativos com efeitos no comportamento – inclusive almejando algum tipo de “controle da mente”. Manipulação e experiência psicofarmacêutica com humanos (nem sempre cientes de sua participação na “pesquisa”) era parte do trabalho, como a CIA reconheceria mais tarde.

Parte dessa pesquisa não levou a conclusões aplicáveis – caso da aplicação monitorada de LSD, por exemplo – e houve inclusive mortes relacionadas a tais experimentos. Mas ao mesmo tempo a CIA começava a ter pós, líquidos e pílulas tóxicas a seu alcance.

Independente de seu propósito final, escrevem os autores, as substâncias químicas da CIA “seriam operacionalmente inúteis se os oficiais de campo não conseguissem aplicá-las de modo velado”.

É nesse momento que o mágico John Mulholland faz sua estreia no mundo da espionagem: sua tarefa era ensinar truques de ilusionismo para os agentes secretos. “Mulholland aceitou US$ 3 mil para escrever o manual e a CIA aprovou a despesa como Subprojeto MKULTRA número quatro, em 4 de maio de 1953”.
“Aplicações operacionais da arte da fraude”

“O objetivo deste trabalho é ensinar o leitor a executar diversas ações de modo secreto e indetectável. Em resumo, aqui estão instruções a respeito de fraudes”, escreve Mulholland no início de seu primeiro manual.

“Qualquer tipo de movimento atrai atenção (…) e a trapaça depende de não chamar a atenção para o método da performance. Os mágicos não utilizam a velocidade em suas ações”, ensina o ilusionista.

Ainda no primeiro capítulo, o mágico busca convencer o leitor a descartar as ideias “falsas” sobre o ilusionismo. “O grande mito a respeito de todas as trapaças é que existe um único segredo que explicará como cada truque é executado”, escreve Mulholland. “O fato é que existem diversas maneiras de se executar essa mágica.”

O livro prossegue com capítulos como “manuseio de pílulas”, “manuseio de pós”, “retirada furtiva de objetos” e “como trabalhar em equipe”. Ao final do volume, os autores compilam também um segundo “manual secreto” do mágico, mais curto, no qual Mulholland se dedica a descrever sinais para reconhecimento entre agentes que trabalham juntos.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição de civis e agentes secretos, as técnicas de Mulholland ainda têm importância? “A tecnologia muda e evolui, pode diferir de cultura para cultura, ainda assim os princípios da trapaça e da fraude são eternos”, afirmou Wallace ao UOL Notícias. “Mulholland teria se deliciado com os ‘truques’ sofisticados que agora são possíveis com o avanço nos materiais, miniaturas e eletrônicos.”

No site da UOL ainda tem uma micro-entrevista com Robert Wallace, co-autor do livro.

De minha parte, vou pesquisar a história do Mullholland e asism que tiver algo, posto aqui.

Amplexos!

O DIA EM QUE HOUDINI DESAFIOU CTHULHU

Muito já foi escrito sobre a vida de Harry Houdini, fora as muitas horas de filmes e documentários. Sua vida inteira é um imenso livro aberto. Porém, há um pedaço da história de Houdini que poucos conhecem. Mas, para falar deste pedaço da biografia do grande escapista, é preciso primeiro falar de seu contemporâneo Howard Philips Lovecraft, carinhosamente chamado de H.P. Lovecraft, o famoso escritor de contos de horror.

Lovecraft foi um escritor de contos de horror, criador do estilo chamado “horror fantástico”. Seu estilo literário, sombrio e envolvente logo lançou-lhe como um dos expoentes do gênero. Além disso, criou uma rica ambientação mesclando lugares reais e imaginários (fazendo com que o leitor por muitas vezes acredite que aquilo é mesmo real), seres fantásticos e muitos mistérios inexplicados.

Foi ele o criador do Necronomicon, um livro todo escrito em sangue sobre pele humana e que supostamente continha os segredos ocultos sobre a morte e sobre os seres antediluvianos, poderosas criaturas alienígenas que reinaram antes dos deuses modernos. Dentre os antediluvianos o mais famoso é sem duvida Cthulhu, um monstro capaz de se comunicar por sonhos e causar terríveis pesadelos.

[não lembro da fonte, :$]
Cthulhu

Mas antes de se tornar um famoso escritor e criar seu rico panteão, Lovecraft fazia a vida trabalhando para a revista “Weird Tales”, uma revista trimestral de contos macabros idealizada por J.C. Henneberger.  Devido a seu estilo de mesclar o real com o fictício, Lovecraft buscava casos reaiscomo inspiração para suas histórias. E naquele ano haveria de escolher um fato bastante curioso: Uma viagem de Houdini ao Egito.

Em uma carta a seu amigo Frank Belknap, datada de fevereiro de 1924, Lovecraft discorre sobre o texto que viria a escrever:

Quando Houdini esteve no Cairo com sua esposa, em uma viagem de lazer e não de negócios, seu guia, um árabe, se envolveu em uma briga de rua com outro árabe. E, de acordo com a tradição local, a luta derradeira iria acontecer naquela noite, no topo da Grande Pirâmide; e o guia de Houdini, sabendo do interesse do mágico por esquisitice, convidou-o para prestigiar o evento noturno. Houdini foi, e viu briga enfadonha seguida por uma mecânica reconciliação.

Havia algo de estranho, e ensaiado, naquilo tudo, e o mágico foi duramente surpreendido quando repentinamente o roteiro todo foi revelado, e Houdini se viu amarrado e amordaçado pelos dois árabes que fingiram brigar. Havia sido tudo armado – os nativos ficaram sabendo que ele era o ”grande mago do ocidente” e estavam determinados a testar os seus poderes em uma terra onde os magos já haviam reinado supremos.

Sem nenhuma cerimônia, os árabes jogaram Houdini por uma abertura no telhado do “Templo dos Faraós (A Tumba de Campbell). Um abismo de quase 9 metros de altura que descia através da cripta banhada pela noite, e que possuía sim uma entrada normal – uma janela para ventilação bem longe do local que Houdini se encontrava – como abertura.

Com uma corda, os árabes desceram Houdini pela morada da escuridão e da morte e ali o deixaram, sem que houvesse qualquer maneira de subir de volta, amarrado e amordaçado entre reis mortos e sem qualquer idéia de como ele acharia a saída. Horas mais tarde, Houdini alcançaria a saída verdadeira, livre de amarras e tremendo até a alma com a terrível experiência pela qual passou, a qual, até hoje ele hesita em falar sobre. Será o meu trabalho inventar o incidente e dar a ele os meus macabros toques.

Mesmo assim, não sei o quão longe eu possa ir, uma vez que, com a amostra da história de Houdini que Henneberger me enviou, eu seja levado a crer que tudo não passa de uma tentativa do mágico de vender essas “munchhausens[mentiras] como sendo uma história real. Ele é extremamente egoísta, isso pode ser notado só de se olhar para ele. Mas, em todo o caso, eu creio que terei que criar alguns fatos chocantes… cavernas subterrâneas inesperadas, uma luz trepidante em meio a corpos embalsamados ou um terrível destino para o guia árabe que buscou assustar o nosso herói.

Em maio daquele ano, a “Weird Tales” publicava o conto “Imprisoned with the Pharaohs”, sob a assinatura de Houdini. No conto Houdini busca descobrir a verdade sobre algum demônio que habitava aquelas ruínas. Como todos os contos de Lovecraft o texto acaba não sendo conclusivo sobre o que realmente havia naquelas ruínas.

Capa da revista "Weird Tales", maio de 1924

Interessante observar a visão que Lovecraft fazia de Houdini: “Ele é extremamente egoísta, isso pode ser notado só de se olhar para ele”. Mesmo assim, precisando de dinheiro e ainda sem uma fama que lhe pudesse por a escolher seus trabalhos, Lovecraft faz o melhor que pode.

Tanto que, à época, este texto foi considerado uma das melhores obras escritas por Lovecraft até então.  Lin Carter, outro famoso escritor de histórias de horror, escreveu a seguinte crítica sobre o texto de H.P.: “O mistério e o romance da antiguidade mexeram profundamente com Lovecraft, e a glamorosa ambientação egípcia desta narrativa ficcional trouxe consigo uma torrente criativa, fazendo dessa, uma de suas mais poderosas e evocativas obras”.

Quanto á reação de Houdini, Lin Carter afirma que o próprio Houdini ficou admirado com a qualidade da obra. Outras fontes afirmam que Houdini ficou tão impressionado com o texto, que chegou a cogitar um número de escapismo nas pirâmides (essa a intenção original de Houdini de “inventar” tal viagem). O certo é que o mágico acabou usando elementos egípcios em alguns de seus shows.

Cartaz de um dos shows de Houdini. Repare nos elementos egípcios vistos no cartaz.

Para ler o texto “Imprisoned with the Pharaohs” (em inglês), clique aqui

FONTES

http://www.geniimagazine.com/forums/ubbthreads.php/topics/223535/H_P_Lovecraft_ghostwriting_as_#Post223535

http://en.wikipedia.org/wiki/Under_the_Pyramids

http://www.yankeeclassic.com/miskatonic/library/stacks/periodicals/weirdta/wt1923/wt1924.htm#050607

http://www.yankeeclassic.com/miskatonic/library/stacks/literature/lovecraft/stories/imprison.htm

http://download.cnet.com/The-Transition-of-H-P-Lovecraft-by-H-P-Lovecraft/3000-2125_4-75144149.html

http://strait-acting.blogspot.com/2007/07/imprisoned-with-pharaohs.html

http://archaeopop.blogspot.com/2009/06/archaeology-in-fiction-hp-lovecraft.html

PS: Existem outros textos atribuidos a Houdini na revista “Weird Tales“. Possivelmente outros escritores fantasmas tenham utilizado o nome de Houdini para alavancar a revista. Assim que tiver mais informações sobre isso, postarei aqui!