O QUE HOUDINI ESTARIA FAZENDO HOJE…

ESTARIA ELE SE PROMOVENDO NA INTERNET?

Escrito e ilustrado por Henri Sardou

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Se perguntarmos, entre leigos e mágicos, quem é o mágico mais famoso do mundo – vivo ou morto – chegaremos rapidamente a alguns nomes, contudo a grande maioria vai responder um só. Ele mesmo, Houdini, o homem, não só o artista ou o mágico, a personalidade mais famosa do mundo no século XX. Mas se você indagar na rua quem foi Ehrich Weisz ninguém vai saber te responder.

Essa foi a primeira grande sacada de Harry Houdini, ter tomado para si um nome semelhante ao do francês Robert Houdin – considerado o pai da mágica moderna e um dos mágicos mais famosos até então – com sonoridade já associada ao ilusionismo entre artistas e leigos. Mais que um bom mágico, Houdini era um gênio do marketing e se preocupou com a construção da sua marca, desde o naming (criação do nome) até o posicionamento, se colocando no top of mind até hoje quando o assunto é mágica.

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Jean Eugène Robert-Houdin foi o pioneiro em levar a mágica para os palcos elegantes dos teatros.

Nesse momento você deve estar estranhando um artigo falando sobre marketing digital começar falando de Houdini, um mágico que já está morto há quase cem anos sem sequer ter visto uma calculadora eletrônica na frente.

“Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele”.

Simples, porque Houdini foi o primeiro mágico, o primeiro artista, que se deu conta do poder que as histórias que são contadas têm. Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele.  Houdini chegava em uma cidade e fazia questão de ser desafiado pelo homem mais forte do local, que lhe dava um soco na barriga, sem que ele sentisse absolutamente nada. Isso não só era um feito memorável, como também uma isca para atrair atenção da imprensa para a turnê que começaria na cidade. Sabe como é o nome disso? Marketing.

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Houdini só não esperava levar um soco enquanto estava despreparado, o que acabou levando-o à morte.

Esse mesmo marketing que levou o título de ”King of Cards” a se perpetuar até hoje, mesmo Houdini não tendo sido tão hábil com as cartas, perpetuando esse mito. Inclusive, para sermos honestos, Houdini era um mágico bem mediano, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos.

Deixando de lado a iconoclastia sobre a mágica de Houdini, o fato é que ele era capaz de fazer eventos ao ar livre, para milhares de pessoas assistirem, antes sequer da televisão. Esses espectadores que testemunhavam os feitos espetaculares dele, no dia seguinte comentavam e mostravam a quem não tinha visto através dos jornais. Isso amplificava a popularidade de Houdini de uma forma tão grande e eficaz, que logo sua fama atravessou o atlântico, consagrando Houdini como a primeira celebridade global de que se tem notícia, num mundo onde mal existia telegrama, quem diria telefone ou WhatsApp, vale lembrar.

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Multidão de 12 mil espectadores vendo Houdini se libertar de uma camisa de força.

 

“Houdini era um mágico bem normalzão, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos”.

É exatamente esse conceito que eu venho lembrar aqui. Os mágicos devem construir sua audiência, exatamente como Houdini fez. Não importa se você não se sente o melhor mágico do mundo (difícil, hein?), você tem que fazer parecer isso, de forma profissional e consistente, usando os meios de comunicação modernos e fazendo marketing digital.

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HOUDINI TERIA SEU PRÓPRIO “JORNAL” HOJE

A grande facilidade da internet é a possibilidade de cada um ter seu próprio jornal de grande circulação, sua mídia particular. Não apenas um jornal, mas um canal de televisão inteiro, com revistas, correio e uma empresa de telefonia junto. As redes sociais possibilitam muito mais interação e têm uma penetração maior ainda.

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Harry Houdini teria uma fanpage, mas não convidaria mágicos para curtir.

Antigamente o jornal estava presente na mesa do café da manhã, no escritório e no máximo no banheiro. Hoje nós levamos o celular para todos esses lugares, além do carro, da cama, cozinha e até da banheira.

Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias, tenha certeza, e seria um guru do marketing digital. Estaria transmitindo seus feitos para milhares de pessoas numa live, estaria postando vídeos de performances e vídeos promocionais de sua turnê, estaria fazendo bom proveito de todos os recursos que as mídias sociais oferecem, para amplificar e potencializar seus feitos espetaculares.

Sim, porque mágicos fazem coisas espetaculares, você deve saber disso se chegou até aqui, né? Agora imagine que mágicos são contratados frequentemente por outros artistas para chamarem atenção para um lançamento ou uma participação no show, espetáculo ou no clipe. São contratados para promoverem lançamentos de produtos com mágica, porque a mágica chama atenção e fixa a mensagem na cabeça do consumidor. Fazem shows em eventos sociais porque as pessoas querem ter um momento mágico, único e inesquecível em suas festas. Estão em festas, eventos produções teatrais e audiovisuais, shows e até em desfiles de escola de samba. Então por que diabos os próprios mágicos não usam a si mesmos para causar os mesmos resultados que as pessoas que os contratam objetivam, em sua própria audiência?

“Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias”

Ao contrário, o que se vê frequentemente são mágicos postando um festival de imagens terríveis, com textos sofríveis, ou artes apoteoticamente horríveis na internet. Vemos diariamente mágicos divulgando seus serviços para outros mágicos (?!) em grupos, além de bom dia, chorume e discussão bolsonaro 2018, ou o que é pior, vemos um milhão de notificações tipo ”Fulano convidou você para curtir a página Mágico Fulano dele”.

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1) O mágico posta, curte, compartilha e comenta a própria postagem em um grupo de mágica;    2) O slogan que fala exatamente o oposto do que o cliente precisa ouvir (no cartão está escrito “O mágico que falta em sua festa!“); 3) Convidar outros mágicos para curtir a sua página é um tremendo tiro no pé!

Tudo isso a gente testemunha diariamente, mas o que é bom para construir audiência e impactar clientes, futuros contratantes e construir reputação não, isso quase ninguém vê. Harry estaria mais uma vez nadando de braçada na frente dessa concorrência hoje em dia, usando estrategicamente os novos meios de comunicação que são as redes sociais.

Quem não usa, por exemplo, o Facebook – para negócios – e não tá disposto a usar comercialmente, pode fechar esse texto, ir tomar um café, um shot de cicuta ou se matar com um tiro na cabeça, porque já está morto, assim como Ehrich Weisz. O mundo muda dia a dia e se há dez anos atrás o Facebook nem existia no Brasil, hoje se você não estiver na maior rede social do mundo quem não existe é você.

Portanto, se você não está agindo engenhosamente no digital, encomende sua lápide, porque é só isso que falta.

O NÍVEL DA MÁGICA ̶N̶O̶ ̶B̶R̶A̶S̶I̶L̶

O NÍVEL DA MÁGICA NO BRASIL

por Daniel Prado

Pare o que está fazendo e comece a andar. Pode ser sentido norte, sul, tanto faz. Não veja as placas, olhe apenas ao seu redor. Siga até que chegue ao primeiro ponto entre sua cidade e a seguinte e olhe em volta. Não há uma linha a se cruzar, não existe distinção física clara entre um lugar e o outro. O mesmo vale para grande parte do mundo. No entanto, ao olhar um mapa, somos levados a crer que esse mundo é repleto de fronteiras e divisões para deixar claro, a quem quer que seja, onde é o MEU e onde é o SEU lugar.

Fronteiras são apenas um recurso político para separar a humanidade. Alguém pode levantar da cadeira e gritar que elas também servem para unir, afinal, o povo é unido pelas suas relações culturais e sociais que, sem fronteiras não existiriam. Mas o povo é realmente unido?

O ‘povo’ só é unido até o próximo conflito com outro ‘povo’. O brasileiro pode ser unido quando é ‘contra’ um país. Até ser contra um estado, então, o brasileiro não é mais brasileiro, é carioca, paulista ou mineiro. Até ser contra uma cidade, daí é paulistano, mogiano ou recifense. Até ser contra um bairro, contra uma rua, vizinho ou o irmão do quarto ao lado.

A verdade é que não existem fronteiras. As quase infinitas interações entre os elementos naturais fazem com que o mundo seja um só. O único responsável por tentar dividi-lo é este ser prepotente e egoísta que o domina.

Entra ano, sai ano, mágicos atribuem importância à um assunto cuja relevância é tão certa quanto a força invisível que levita as incansáveis mesas flutuantes: O nível da mágica brasileira.

Com dedos certeiros e implacáveis, mágicos de todos os cantos do país digitam, sentados em seus sofás, em seus teclados de computador, argumentos precisos e confiantes sobre o ‘nível da mágica em nosso país’ certos de que suas palavras serão capazes de curvar o rumo da história.

Como alguém olhando o fogo consumir o jardim e se aproximar da casa teclando desesperadamente com seus ‘amigos’ de internet sobre a natureza do fogo, sobre seu calor, velocidade, motivos e consequências sem perceber que sua casa será consumida pelas chamas se ele não se levantar e fizer algo.

Em primeiro lugar, não existe Brasil. Essa é uma definição geopolítica que fizeram por você 517 anos atrás. Você caiu aqui sem querer. O ‘brasileiro’ que estaciona ocupando duas vagas, que lhe assalta, que lhe tira o sono de madrugada com uma música alta, está pouco ligando para a sua ‘nacionalidade’. Além disso, em um mundo onde qualquer motivo é suficiente para criar ‘fronteiras’ a única coisa que nos une é nossa humanidade. E neste aspecto, meu camarada, infelizmente é cada um por si.

A ideia de que um grupo de pessoas unidas apenas por sua localização geográfica serve de alguma forma para colocá-las em um mesmo pote de capacidade de desenvolvimento criativo e artístico é tão absurdo como supor que árvores têm a mesma espécie e produzem os mesmos tipos de frutos só por estarem na mesma floresta.

No entanto, porque compartilhamos as mesmas dificuldades estruturais e usufruímos do mesmo caldeirão cultural, as pessoas continuam a acreditar que isso é o suficiente para criar uma coletividade em que cada indivíduo é responsável pelo sucesso do outro. Não é.

Não quero dizer com isso que devemos ser solitários em nossas empreitadas. A capacidade de se juntar para atingir um objetivo é uma das coisas que nos torna humanos e devemos nos valer dela, sem dúvidas. Mas com isso, quero dizer que isso deve ser facultativo e não compulsório. Um grupo de pessoas deve escolher se ajudar e não ser obrigado a isso. E é aí que o problema aparece.

Insistir em uma discussão, onde se coletiviza indivíduos distintos sem nenhum vínculo prático, imaginando que a produção artística e cultural dessa ‘coletividade’ deve ter alguma relação é o mesmo que discutir a capacidade alimentar dos diferentes tipos de peixes de um lago esperando que, só por estarem no mesmo lago, devem comer a mesma coisa.

O que ocorre é que poucas pessoas estão realmente dispostas a enfrentar os desafios necessários para que sua própria qualidade seja aprimorada e prefere pôr a culpa nessa tal ‘coletividade’ inexistente como se isso a eximisse de ser melhor individualmente.

Para que o nível de o que quer que seja melhore, é profundamente necessário que tenhamos pessoas realmente dispostas a serem melhor e não pessoas desqualificadas apontando o dedo dizendo o que é bom e o que é ruim.

Quer contribuir? Não produza material audiovisual tosco, pague para quem sabe fazer. Não crie efeitos idiotas, só para dizer que criou algo. Ignore os elogios e escute as críticas construtivas. Aprenda inglês, aprenda PORTUGUÊS, estude filosofia, leia, viaje, veja documentários sobre a natureza, sobre comida, sobre arte e pratique, pratique, pratique deliberadamente seu ofício até que você possa ser uma vírgula na história que você tanto quer que mude!

NOTAS SUL-AMERICANAS

Este é um ensaio escrito por Leslie Briant para a revista “The Sphinx” de 1961, há mais de 65 anos, portanto. Tristemente ele continua muito atual.

As imagens não se encontram no artigo original, e foram adicionadas meramente como ilustração.

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NOTAS SUL AMERICANAS

por E. Leslie Briant

Briant era um cidadão britânico que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e era correspondente da “The Sphynx” naquele país.

Para a ocasião da edição do 50 º aniversário da “Sphynx” ele escreveu este texto, oferecendo a oportunidade de uma retrospectiva mágica sobre o progresso da arte nos países sul-americanos.

No que diz respeito à América do Sul, os últimos cinquenta anos (dos quais o escritor tem esteve pessoalmente familiarizado com a magia por estas bandas por quarenta anos) não mostraram qualquer melhoria substancial. Com isso não deduzo que os truques de hoje sejam os mesmos da virada do século XXI. O que eu afirmo – e o faço enfaticamente – é que a América do Sul em geral, e a República Argentina em particular, não fizeram nenhuma contribuição excepcional para o progresso da magia. Que há um número de executantes individuais que são mágicos eficientes e capazes, eu serei o primeiro a admitir; mas eu desafio qualquer um a nomear um mágico argentino famoso – ou mesmo conhecido – além dos limites do Rio da Prata. E quantos dos efeitos foram lançado pelos “dealers” nos últimos cinquenta anos emanaram da inventividade dos bruxos sul-americanos? Que livros sobre magia foram escritos por autores sul-americanos? Existem revistas mágicas?

A resposta a essas perguntas pode muito bem presumir um pessimismo em relação à magia, algo que está longe da minha intenção. É bom, porém, encarar os fatos e admitir que a magia nestes países segue submissamente a tendência dos países de língua inglesa, isto é, dos Estados Unidos e da Inglaterra. O número de assinantes da imprensa mágica de língua inglesa, nessas terras onde não se fala inglês, é surpreendentemente grande. Catálogos de todos os “dealers” podem ser encontrados nas coleções de mil-e-um entusiastas mágicos. Deduz-se, portanto, que a magia realizada na América do Sul emula necessariamente à dos países de onde vêm essas revistas e catálogos. A América do Sul sempre será um passageiro no vagão da mágica, e nunca o condutor na locomotiva.

Uma razão para isso poderia ser encontrada na atitude do público para com a magia e os mágicos – e aqui eu gostaria de acrescentar que me refiro ao artista local, e não ao ilusionista profissional em turnê pelo mundo, do qual tratarei mais tarde. O público sul-americano de teatro considera o ofício do mágico como um entretenimento de natureza de classe baixa. Isto é, sem dúvida, em função da falta de algum artista que ele possa classificar como pertencente ao primeiro escalão da mágica; e até que tal artista emerja a magia irá manter o seu baixo nível de atração pública. Outra razão, e possivelmente mais pungente, é a falta de originalidade. Todos fazem os mesmos truques, usam o mesmo “patter“, imitam os mesmos maneirismos, roubam as mesmas “gags“, os mesmos cartazes e até as propagandas. Até que uma mudança radical ocorra na mente do mágico nativo, a magia permanecerá este mesmo tempo no marasmo.

Tanto para o expoente local da arte mágica

Olhando para a magia em um sentido mais internacional, é surpreendente observar o número grande e crescente de artistas profissionais que fizeram uma turnê pela América do Sul durante o último meio século. Todos em busca do “ouro dos incas” que supostamente pavimentaria as ruas deste romântico continente. Poucos, entretanto, viram, de fato, o brilho dele e a maioria deixou estas terras de volta para casa, como mágicos mais sábios – e mais abatidos – do que quando, esperançosamente, chegaram. Aqueles poucos que obtiveram sucesso com suas apresentações atualizadas, roteiro bem apresentado e propaganda adequada, atravessaram o redemoinho, mas seu número pode ser contados nos dedos de uma mão.

Um breve, mas necessariamente incompleto, levantamento de ilusionistas estrangeiros que fizeram uma turnê pela América do Sul durante os últimos 50 anos pode ser de interesse. Minha primeira lembrança é a aparição de Le Roy, Talma e Bosco no ano de 1913 na cidade de Rosário em Santa Fé. Foi-me dito que por volta de 1908 Dean Powell esteve por aqui, mas isso foi antes do meu tempo aqui. Eu já tinha visto Servais Le Roy na Inglaterra na minha juventude, mas desta vez ele se uniu com Talma (a Rainha das Moedas) e Bosco (o Mágico Comediante). Eu não me lembro, após um lapso de tempo tão grande, de todo o seu programa; mas eu me lembro de Le Roy desaparecendo do palco e reaparecendo como o regente da orquestra. E eu acredito que foi Bosco quem usou o que naqueles dias chamou de uma piada corrente, na forma de um canil mecânico do qual um cachorro saltava latindo cada vez que Bosco assobiava. Alguns anos mais tarde, e na mesma cidade, conheci Maurice (o Grande) Raymond que apresentou-se no Teatro Colón em 1916. Este famoso artista apareceu completamente renovado em sua segunda visita à Argentina em 1927. Esta última turnê, no entanto, foi um desastre financeiro. Raymond era um homem encantador, com o porte de um diplomata, e eu estava em meu caráter de correspondente especial de um jornal de Buenos Aires quando entrevistei Raymond. Descobri que, na verdade, Raymond me entrevistou e me deu uma dissertação sobre os efeitos do excesso de comer e como isso era propício para pegar resfriados, um tema que não fez nenhum bem à minha reputação para com o meu editor.

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Teatro Colón, em Rosário, província de Santa Fé.


Em 1919, tive o prazer de conhecer Carter, o Grande, em Montevidéu (Uruguai), onde eu estava, então à época, envolvido em negócios. Ele estava se apresentando Teatro Solis com “A Noiva do Leão”. Lembro-me, de uma discussão mágica regada à café. Ele esforçou-se por enfatizar que essa ilusão era inteiramente criação própria sua e era apresentada unicamente por ele. Carter, porém, ficou consideravelmente desconcertado ao descobrir que, no Uruguai, um mágico amador pouco conhecido pôde lhe dizer que o Grande Lafayette era o verdadeiro inventor desta ilusão e que havia apresentado “A Noiva do Leão” na Inglaterra antes de 1910.

No meu retorno à República Argentina, em 1924, senti-me muito honrado ao encontrar-me com Okito, a quem eu já tinha visto anteriormente num show de 30 minutos. Ele estava se apresentando no Teatro Casino, sendo sua assistente principal Marie Dean, a quem Okito veio a desposar em 1949 e que, infelizmente, faleceu no ano passado. Okito, naquela época, apresentava “O Tapete Mágico” como um estupendo fechamento de seu ato (um número que, aliás, ainda está sendo usado por seu famoso filho Fu Manchú). E esta parte da minha retrospectiva me leva ao advento de David T. Bamberg para o firmamento teatral sul-americano. David chegou pela primeira vez em 1926 como um artista convidado de Raymond com quem tinha feito uma excursão por Portugal e Brasil. As dificuldades financeiras determinaram o abandono da viagem e a dispersão do pessoal. O jovem mago, o filho de Okito, tinha apenas 23 anos à época, encontrou-se em Buenos Aires com uma jovem esposa, um filho bebê chamado Bobbie, sem perspectivas e sem dinheiro. Apresentando-se como Syko (um nome dado por Houdini), ele conseguiu sustentar-se com pequenas performances de mágica e um show de sombras, até que um investidor, que conseguiu ver além da superfície, financiou-o com a proposta da construção do primeiro show de Fu Manchú. A partir de então, a sorte sorriu para David e, durante 25 anos, o nome de Fu Manchú foi um chamariz na América do Sul – um dos poucos que fizeram fortuna. Considero um dos maiores privilégios da minha vida mágica conhecer David intimamente durante um quarto de século, em seus bons e nos maus momentos, e ter seguido a sua carreira profissional desde a obscuridade comparativa até à eminência mundial – um merecido tributo a sua determinação, sua habilidade e seu gênio.

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Cartaz do show de Fu Manchu (1940)

Por volta de 1930, o falecido Lingha Singh apareceu na cena com seu “Truque da Corda do Leste da Índia” (à propósito, foi-me relatado que tanto o segredo quanto o “gimmick“foram enterrados com ele). Ele era uma personalidade colorida com uma grande quantidade de belos equipamentos. Um par de anos mais tarde, Dante com seu espetacular show “Sim Sala Bim” fez história com o registro de uma temporada de 90 dias no Teatro Casino. Embora Raymond tivesse apresentado previamente a ilusão de “Serrar a Mulher ao Meio” usando a versão de Horace Goldin, foi Dante quem elevou isso a outro patamar de popularidade com o seu aparelho amplamente aprimorado. Aliás, foi sobre essa ilusão – e com a ajuda de uma ceia de lagosta às 3 da manhã no Hotel Baviera, em Rosário de Santa Fé – que discuti o “modus operandi” com Dante. Mais tarde, mostrei-lhe o meu esboço de impressão de como o efeito foi alcançado, o que ele negou, mas que anos depois provou ser correto.

Outro artista popular que apresenta o seu show à moda chinesa é Chang, anteriormente Li-Ho-Chang, que nos últimos 40 anos excursionou por todo o mundo. O continente favorito de Chang, no entanto, é a América do Sul, onde o seu delicioso uso indevido da língua espanhola fez com que atraísse um vasto público ao teatro. O show de Chang é um espetáculo de grandes ilusões, belos roupões chineses, cenários sempre mudando e belas dançarinas. Chang conta com inúmeros amigos em Buenos Aires e em outras cidades do continente meridional, e estou orgulhoso de ser contado entre eles com uma amizade que já dura muitos anos.

Richiardi Jr. filho do Grande Richiardi, assumiu o show de ilusão após a morte de seu ilustre pai. Ele é um peruano de nascimento, mas inteiramente cosmopolita dada suas viagens, perspectivas e línguas: muitas vezes, ele foi tomado por um norte-americano. Richiardi Jr., que se considera o “mágico mais jovem do mundo”, se afastou do caminho já trilhado ao apresentar “Musical Magic“, combinando a sua agradável voz de cantor com sua indiscutível habilidade de “showmanship” e presença no palco. Ele é um dos preferidos do público em geral em toda a América do Sul e, recentemente, passou por uma temporada em Nova York.

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Cartaz do show de Richiardi Jr. (1950)

Um número de estrelas menores na constelação mágica têm se apresentado na República Argentina durante excursões sul-americanas uma vez que, os cine-teatros têm incorporado números de variedade após os filmes. Entre outros, eu me recordo ao longo dos anos de: Lewis Davenport (com o colete que muda de cor, rotina de dedal e caixa de ampliação); Rudi (um artista italiano que apresentou um show de manipulação, além de magia de proximidade); Maieroni (outro ilusionista italiano com um show mais pretensioso); Steens (um escapologista holandês que executava a fuga da guilhotina); Cantarelli (um brasileiro-alemão com o uma serra elétrica); Baron von Rheinhardt (agora Barnum, com uma pequena réplica do show de Dante); Chefalo (o mago italiano com um show noturno completo exibindo seus gigantes e anões); e Richardini (agora fora do “show business”).

Percebe-se que o que prediz um mago bem sucedido na América do Sul é aquele que possui um show noturno completo, dinheiro, bom equipamento, com mais do que uma parte justa de habilidade e um senso teatral. Não é o artista manipulador e de “sleight-of-hand“. De fato, em toda a minha experiência, só encontrei um do último tipo que conseguiu pesar o outro lado da balança após uma turnê sul-americana, e foi Max Malini. Malini, admito, estava sozinho em sua turnê e trabalhou nos clubes e sociedades da mais alta classe. Tal era a sua natureza que eu duvido que Malini tenha levado muito do “ouro inca”. Ele estava nesses países com seu filho na mesma época em que Fu Manchú estava entrando em seu grande momento, como estava ao redor de uma garrafa de uísque que Malini deu a David e ao escritor de uma sessão privada de magia de close-up em uma grande cidade da República Argentina em algum dia por volta de 1930. Malini exibiu uma técnica maravilhosa com um incrível domínio de “misdirections” e a sua reputação, assim como a de Houdini, foi feita fora do teatro, mais do que ele fez em seus shows públicos.

Portanto, enquanto a América do Sul não fez nenhuma contribuição específica para o avanço da arte mágica nos últimos 50 anos, mesmo assim ela progrediu no sentido de que há um interesse crescente, engendrado pelas visitas de ilusionistas mundialmente famosos, e de manipuladores expoentes, e é a esperança sincera deste escritor de que, quando ele relatar novamente acerca do assunto para a edição centenária de “The Sphynx“, ainda mais progresso ele irá manifestar.

MAS QUE ORIGINAL!

Ensaio escrito por Daniel Fazzio

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William Seven e Juan e Alejandro. Dois “Grand Prix” brasileiros no Flasoma. Resultado inédito!

Mas que original!

Antes de mais nada quero dar os parabenizar os quatro brasileiros premiados no Flasoma 2017 em Buenos Aires: Juan Araújo, Alejandro, Luiz Fosc e William Seven.

Em segundo lugar, ainda mais importante que dar os parabéns, faço questão de agradecê-los assim, publicamente, pois eles fizeram muito, mas muito mesmo, pela Mágica Brasileira. Fizeram tanto, que talvez ainda nem tenham se dado conta da extensão e do impacto de suas premiações em todos nós, brasileiros que praticamos e amamos verdadeiramente esta Arte.

Fizeram tanto, que fica até difícil saber por onde começar a escrever.

Com suas premiações, o mais evidente, é que mostraram que sim, há artistas de ponta no país e que também há mágica de qualidade sendo produzida por aqui. Nos últimos anos, sempre houve o pensamento de que nós brasileiros, estávamos sempre um passo atrás de nossos hermanos latino americanos. Agora fica evidente que isto ou é conversa fiada ou é passado. Temos verdadeiros artistas no Brasil.

Mas o maior e melhor aspecto destas conquistas é a reflexão que elas nos trazem.

A primeira delas é que, com dedicação verdadeira, que inclui treinos, ensaios, muito estudo, leituras, conversas com outros mágicos e brainstorms sem medo, você poderá ser um mágico muito melhor. Com essa dedicação, você pode se transformar em um mágico de exemplar nível técnico e criativo. Logicamente, alguns precisam de mais dedicação nos treinos, outros precisam nos estudos, mas é possível melhorar, e muito, a qualidade da mágica que fazemos. Sim, a qualidade da mágica que NÓS fazemos. Todos nós podemos (e devemos) nos aprimorar, incluindo eu, você e todos os nossos amigos mágicos. É pensando assim que faremos florescer a Arte Mágica no Brasil. Potencial para isso existe. Principalmente em você, afinal, você é a única pessoa que você mesmo pode fazer se dedicar. Mas (sempre tem um mas), se você caiu na armadilha do seu ego e sentiu inveja ao invés de felicidade (que feio, hein, amiguinho!) pela conquista dos caras, precisa rever seus conceitos. Esses caras são exemplos de dedicação, esforço e entrega à Arte. E você, tem feito o mesmo? Qual foi o último livro que leu? Qual foi a última vez que parou para analisar suas rotinas, fazendo uma autocrítica sincera? Quando foi seu último ensaio? Certeza que você não pode fazer mais pelas suas rotinas? Aposto que sim! Assuma esse compromisso com você mesmo: serei um mágico cada vez melhor.

Mas a segunda reflexão é ainda mais profunda. Além de toda essa dedicação, o que os diferenciou dos outros mágicos do evento? Ou melhor, o que os faz diferentes da maioria dos mágicos?

Além da técnica perfeita, da intepretação muito bem trabalhada, foi aquilo que acredito ser a real força de seus atos: a originalidade. Eles foram felicíssimos na criação dos conceitos, do argumentos e rotinas. Mas foram verdadeiramente originais na criação de algo que a maioria dos mágicos sequer tem: seus personagens. Acredito, pelo que li e pelo me foi contado, pois não estava lá, que as grandes forças motrizes de seus atos foram seus personagens e a história a ser contada.

Aqui cabe um parênteses: eles não foram apenas diferentes ou apresentaram algo inéditos e nunca visto.

Eles foram originais. E quando digo originais, é no sentido real da palavra: foram buscar algo em suas origens como pessoas e também como artistas mágicos. Talvez a memória do primeiro mágico que viram na infância, talvez uma visão mais crítica sobre as pessoas e aquilo em que elas acreditam, ou então o maravilhamento diante de uma grande e transformadora epifania. É por isso que eles foram diferentes: porque falaram algo que lhes é importante e verdadeiro. Não é só o entretenimento por si próprio, ainda que muito agradável e bem executado. Eles livraram-se de amarras, de conceitos antigos, de fórmulas e formatos previamente aceitos como sendo o padrão ideal. Eles transmitiram, com muita arte e apuro técnico, um pouco deles mesmos, o seu jeito de ver a mágica, não como só como artistas, mas também como pessoas. E isso é Arte com “A” maiúsculo. Mas (outro mas), você, meu amigo, já sabe: para isso é preciso se dedicar. É preciso tentar. Haverão erros, haverão acertos. Haverá a canseira, a dúvida, a incerteza. Mas também existirá você, seu amor pela Arte Mágica e sua força de vontade.

Eles se dedicaram e, por isso, permitiram-se viver uma emoção que nós, meros mortais, provavelmente não conseguimos conceber.

Dedique-se. E permita-se, quem sabe, viver isso um dia também.

“O MÁGICO É UM ATOR…”

Uma das mais famosas citações mágicas é a frase de Eugene Robert-Houdin: “O mágico é um ator que interpreta o papel de um mágico.” A grande maioria das vezes em que é citada, o contexto é de que o mágico é, antes de mais nada, um ator, daí a importância de um conhecimento cênico tão grande (quiçá até maior) do que o conhecimento arcano.

Porém, o que poucos sabem é que Robert-Houdin em momento algum defendeu a ideia de um “ator-mágico”. Aliás, essa frase encontra-se em um contexto totalmente diverso, no qual Robert-Houdin defende qual o melhor termo para o artista da ilusão. Ou seja, a discussão não é cênica, mas sim, semântica.

A frase encontra-se no livro “Les secrets de la prestidigitación et de la magiè“, em que Robert-Houdin disserta sobre o ilusionismo, desde a parte mecânica/técnica, a qual ele chama de prestidigitação, bem como sobre a parte cênica e de apresentação, que recebe o nome de “magia”. Para robert-Houdin, há uma dicotomia e é sobre esta dicotomia que ele disserta.

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Trecho do livro de Robert-Houdin, contendo sua célebre frase.

 

Talvez, parte da culpa pela confusão causada quando falamos em ser natural, seja do prof. Hoffman que ao traduzir a obra de Robert-Houdin, traduziu erroneamente uma sentença que viria a entrar para história.

O mágico é um ator que interpreta o papel de mágico”; na tradução do Professor Hoffmann, “a conjuror is an actor playing the part  of a magician”; e, por sua vez, a frase original de Robert-Houdin, “un prestidigitateur n’est point un jongleur; c’est un acteur jouant un rôle de magicien”.

Repare nas palavras sublinhadas e em como elas foram sendo erroneamente traduzidas de uma língua para a outra. Por isso, tomando a frase isolada de seu contexto, o seu sentido muda completamente. A discussão não era sobre o mágico ser ou não um ator (Robert-Houdin deixa bem claro que sim, ele é), mas sobre semântica: qual a palavra mais adequada para designar esse tipo de artista?

Tanto a discussão era sobre o nome mais adequado que, antes de discutir o termo “prestidigitador”, Robert-Houdin se debruça sobre o uso do termo “escamoteador” e sobre o porquê ele também ser imperfeito (segundo ele, escamoteador deveria ser usado apenas por aqueles que se dedicam aos covilhetes. Na língua portuguesa a palavra recebeu inicialmente essa acepção, embora mais tarde tenha sido estendida para qualquer um que praticasse pequenos golpes).

Hoffman entendeu que essa era a discussão em questão, tanto que escreveu a seguinte nota: “O presente capítulo, sendo uma discussão sobre o significado preciso de alguns termos em francês, tem pouco interesse para o leitor inglês comum. Seria, no entanto, uma mutilação injustificável omiti-lo“. Se Hoffmann soubesse a confusão que viria causar anos mais tarde, talvez reconsiderasse.

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Prof. Louis Hoffmann, o autor da “confusão”.

Assim, Robert-Houdin não está discutindo sobre o que o mágico É (malabarista, ator, etc.), mas sim, sobre o que o mágico NÃO É. Ele defende a teoria que o ilusionista não é um malabarista, que deve executar suas técnicas de forma “mais rápida que o olho” e assim ser chamado de prestidigitador (presto = rápido, dígito = dedos). Antes o ilusionista deve ser um ator e encantar pela sua franca exposição do truque, como se fosse um verdadeiro mágico. A genialidade está na apresentação, no método e no ensaio, e não na velocidade.

Essa ideia pode ser extraída da continuação de sua famosa frase:

“O prestidigitador não é um malabarista, ele é um ator interpretando o papel de um mágico. Ele é um artista cujos dedos devem mover-se mais com suavidade do que com velocidade. Eu ouso adicionar: onde a manipulação estiver envolvida, quanto mais sutil o movimento, mais facilmente os espectadores serão enganados.

Se o prestidigitador clama possuir poderes supernaturais (…) por que então, quanto executa as suas maravilhas, ele deve gesticular exageradamente rápido? Agir dessa forma é ilógico e inconsistente. Ao ver tais gestos rápidos, os espectadores em geral ficarão maravilhados, intrigados, mas não convencidos, enquanto – por outro lado – um movimento discreto, sutil sempre induzirá à confiança, promovendo assim a ilusão.

A palavra prestidigitação, portanto, apenas descreve imperfeitamente o que a nossa arte se propõe.”

A ARTE MÁGICA COMO UMA ATIVIDADE LÚDICA

Um ensaio escrito em 25 de março de 2010

-Æ-

1. INTRODUÇÃO

No Brasil chamamos de mágica. É algo misterioso, milenar, transcendental. Eventualmente usamos as palavras truque ou prestidigitação, mas em geral as evitamos, já que tem uma conotação mais pejorativa: ludibriar alguém. Os americanos também usam as palavras “magic” e “trick” (que lá possui uma conotação menos pejorativa que aqui no Brasil). Usam o termo “sleight of hands” que frequentemente é traduzido como prestidigitação, mas cujo sentido original se assemelha mais a “habilidade com as mãos”.

No entanto, a mim me agrada como os espanhóis denominaram suas mágicas: “juegos”. Eles também usam palavras como “truco” e “magía”, mas os livros sempre encaram as rotinas como sendo jogos. E por que me agrada esse termo “jogo”?

A primeira impressão que temos é de um desafio. Um confronto entre mágico e espectador. No entanto há outro lado do jogo que nos esquecemos: O lado lúdico dos jogos. E é sobre isso que quero falar: da mágica como atividade lúdica.

 

2. O QUE É O LÚDICO?

O dicionário define lúdico como algo “divertido”, em outras palavras uma brincadeira. Se pensarmos na mágica como arte-entretenimento vemos que este conceito não é equivocado, afinal, fazemos mágica para entreter o nosso público.

Mas os educadores e pedagogos deram um passo além nessa definição. Segundo eles o lúdico também esta ligado ao aprendizado. Por exemplo, quando uma criança brinca de esconde-esconde, não apenas se diverte, mas aprende conceitos como jogar pelas regras, limites físicos, reflete sobre o mundo que a cerca e o que ela pode utilizar para lograr seu objetivo (no caso, permanecer oculta). Várias são as reflexões e aprendizados em uma atividade primariamente de diversão. E, em última análise, a brincadeira é essencial para o desenvolvimento sadio da criança, em todos os aspectos: físico, social, imaginário, etc.

Na arte não é diferente. Intrinsecamente toda arte é lúdica, ou seja, diverte, faz refletir e ensina conceitos. Ela é uma mola impulsora do desenvolvimento pessoal do ser humano. E, poeticamente falando, nenhuma outra arte é capaz de nos fazer voltar à infância, de modo tão efetivo como a mágica.

 

3. AS TRÊS FACES DA ARTE LÚDICA

 

3.1.  A arte (ou “o assombro”)

É o lado do divertido, do entretenimento. No caso da mágica é a aquela gostosa sensação de assombro. É o atrativo primeiro, o gerador de sorrisos.

Essa é uma das facetas mais importantes da arte, pois devemos sempre tentar ver sob a ótica do nosso do nosso público. Nossa arte tem realmente encantando (assombrado) o público? Tem gerado momentos agradáveis aos espectadores? E acima de tudo, nossa arte tem feito sentido ao público, ou é meramente uma torrente de passes mágicos e movimentos ocultos, onde nos divertimos mais do que os espectadores?

Além disso, o lúdico ideal deve ser espontâneo. A mágica deve ser algo espontâneo, natural. Isso permitirá ao espectador viver, sonhar, refletir, brincar, realizar desejos… E nós também através de suas reações. Esse deve ser nosso ideal primeiro quando pensamos em nosso público.  Não confunda, porém espontaneidade com falta de preparo. A questão aqui é que não se pode forçar a arte e muito menos o lúdico. Ela precisa acontecer de modo natural e espontâneo para ser efetiva.

 

3.2. A reflexão (ou “a filosofia”)

Outra face do lúdico é a reflexão. A razão do lúdico (e da arte) não é um criar dogmas ou conceitos, antes é propor caminhos, reflexões sobre aquilo que nos cerca. Nesse sentido, nossa arte deve obrigatoriamente propor a reflexão, do contrário não passa de mero artesanato, uma obra repetida “ad infinitum”. E esse é o diferencial de uma obra de arte e de um quadro qualquer. Quadros quaisquer não nos incentivam a refletir. Obras de artes sim.

Essa reflexão pode ser proposta, por exemplo, por um roteiro bem elaborado, um movimento secreto bem executado, ou mesmo uma rotina bem concatenada. E essa reflexão é a única forma possível de se gerar uma experiência, uma prática de vida.

Pode parecer um tanto utópico, mas quando refletimos, quando duvidamos e buscamos sair da zona de conforto, abrimos as portas da percepção para o novo. E é esse o papel do lúdico, nos levar a novas experiências através da diversão. Perceba como as coisas se ligam entre si: diversão gera reflexão, que gera aprendizado… é uma roda que não para de girar.

 

3.3. O aprendizado (ou “daquilo que eu levo pra vida”)

Por mais que o lúdico seja um processo, e não um fim si mesmo, o aprendizado na maior parte das vezes é inerente, ou seja, de alguma forma saímos diferentes daquela experiência de assombro.

É importante notar que o conceito de aprendizado aqui não é de forma alguma relacionado a um conceito de educação formal; antes é um conceito de desenvolvimento pessoal. O aprendizado em geral se dá na esfera do imaginário; soltam-se as amarras da imaginação do espectador que se propõe deixar se levar pela arte lúdica.

Assim, a experiência criada, refletida, e convertida em novos conceitos e paradigmas. Houve mudança.

 

4. E QUAL A IMPORTÂNCIA DISSO TUDO?

E para que serve esse conhecimento teórico todo? Qual a razão de tanto blá blá blá?  De forma resumida pode-se dizer que é para entendermos “por que fazemos as coisas como fazemos”. Em outras palavras, é saber quando e por que fazer um “double lift” será mais eficiente do que um “glide”, etc. Ou seja, teoria é, em última análise, o princípio da dúvida e da reflexão.

Note que acabamos de incorporar um novo elemento lúdico onde agora eu, o mágico, sou o objeto da arte. Agora sou eu quem reflito e busco criar aprendizado a partir das minhas dúvidas, geradas pela arte mágica.

A partir da teoria é que nos tornamos capazes de incorporar novos elementos às técnicas manuais, e com isso deixamos de fazer “artesanato” (movimentos mecânicos e repetitivos, sem vida e sem unicidade) para fazer “arte” (uma obra única e indivisível) e mais do que isso, uma arte lúdica, que diverte, propõe reflexão e gera mudanças em nossos espectadores e em nós mesmos.

 

5. CONCLUSÃO

Fazedores de truques existem às pencas por aí. Pessoas muito boas, capazes realmente de nos enganarem, e até de nos deixarem espantados, tamanha a sua habilidade prestidigitativa. Mas são incompletos, enquanto não propuserem uma reflexão, e mais do que isso, são incompletos se essa reflexão não gerar frutos nos outros e neles mesmo.

Podemos sim mudar o mundo (e as pessoas) com nossa arte. E esse deve ser o nosso nobre objetivo. Sermos lúdicos. Divertir e ensinar com nossos jogos.