MATHIAS BUCHINGER, UM ANÃO GIGANTE!

“É fácil entender porque Ricky Jay se encantou tanto por Mathias Buchinger. O pequeno homem era um dínamo, um mistério, um super herói no mundo real – embora, provavelmente jamais o vejamos em um filme de Hollywood. Super heróis dos quadrinhos, têm muito ‘sex appeal’, mas muito pouco sexo. Em comparação, o rechonchudo Buchinger era um garanhão”

Teller sobre a biografia de Mathias Buchinger, escrita por Ricky Jay.

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O público em frente ao “Corner House” em Charing Cross, Londres, não podia acreditar no que estava vendo. Prontos para ver uma “tragédia”, acabaram sendo calados, silenciados por algo incrível. Diante deles um homem inválido, cujas pernas iam até pouco antes de onde deveriam haver seus joelhos, e com braços que terminavam antes dos cotovelos (e que, convenhamos, pareciam dois galhos serrados) havia lhes prometido um show de ilusionismo, caligrafia, arte e música. Por certo seria um espetáculo dantesco, de um humor macabro alimentado por uma curiosidade mórbida.O que todos viram, porém, naquele dia, calou-lhes a boca e encheu-lhes os olhos.

V0007015ER Matthias Buchinger, a phocomelic. Stipple engraving.

Mathias Buchinger nasceu em 2 de junho de 1674 em Ansbach, na Alemanha. Sua família não era rica, mas também não havia necessidades. Dentre os oito filhos e uma filha, Mathias era o mais novo e o único com defeito. Provavelmente nasceu com focomelia, uma doença que causa o encurtamento dos membros superiores e inferiores. O braço direito de Buchinger terminava pouco antes do cotovelo; do lado esquerdo, o braço era um pouco maior do que o cotovelo, o que lhe dava uma leve flexão. Ambos braços terminavam em uma protuberância que lembrava mais um balão murcho do que uma mão. O mesmo às suas pernas. Isso, obviamente, impedia Mathias de caminhar, por isso ele se arrastava pelo chão para se locomover.

Isolado do mundo externo, desde a infância, pelos pais, Mathias acabou encontrando companhia em atividades solitárias como música, caligrafia, artes. E, além de tempo para praticá-las, Mathias possuía talento. Já aos vinte anos, começou a se apresentar como uma atração “sideshow” (show de horrores), mas encantava também pelo seu talento. Bem mais tarde, aos 40 anos, Mathias decidiu ver se conseguiria impressionar – e quiçá até influenciar – alguém importante na Inglaterra E foi ali que ele viveu até o fim de seus dias.

É noticiado em um cartaz de propaganda de Mathias, datado de 1717 que, entre outras feitos incríveis, Mathias fabricava suas próprias canetas, escrevia tão rapidamente e tão perfeitamente quanto qualquer mestre da caligrafia, costurava com agulha e linha muito rapidamente, e possuía habilidades surpreendentes e convincentes em “legierdemain” (manipulação). Em outro cartaz, Buchinger vende-se dizendo que nunca, na história da humanidade houve alguém como Mathias, e provavelmente nunca mais haverá. Essa descrição certamente despertou a curiosidade de muitas pessoas importantes, possivelmente até o Rei George I que o recebeu para um show.

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Cartaz anunciando o show, e as habilidades de Mathias Buchinger. (Clique na imagem para ampliar)

O Rei Geroge I, impressionado com Mathias, pessoalmente buscou entre a nata da sociedade algum mecenas que pudesse subsidiar os gastos de Mathias. Em 1716, Mathias presenteou o Rei com um instrumento musical fabricado pelo próprio Mathias, e uma carta solicitando que o Rei fosse o seu mecenas. O Rei George recusou a oferta, mas fez questão de pagar generosamente pelo instrumento.

Desanimado pela tentativa falha de uma pensão vitalícia, Mathias decidiu adotar suas performances como meio de vida. à época a Inglaterra estava com uma demanda por “side shows” de “horror” e Mathias se encaixava perfeitamente neste conceito. Mathias passou então a apresentar as suas habilidades, a um shilling por espectador. Em suas apresentações, as pessoas poderiam ver Mathias atirando com armas de fogo, tocando um instrumento, jogando cartas, além das já citadas habilidades. Se valendo de próteses que lhe permitiam tais feitos, Buchinger surpreendia ao público, não só pela habilidade, mas pela sua inteligência e perspicácia que superava, em muito, suas limitações. O seu sucesso foi tamanho, que não tardou para que Mathias fosse requisitado para performances particulares.

Se a sua carreira ia bem, o mesmo não podia ser dito de sua vida particular. Mathias que, a esta altura, estava casado com a sua segunda esposa, supostamente foi vítima de agressão, verbal e física, por parte da esposa. Mathias, que sempre fora um homem calmo e até bastante extrovertido viu-se em meio a um turbilhão emocional que culminou com Mathias expulsando a esposa da casa onde eles viviam e, agredindo ela em público, até que ela jurasse nunca mais agredi-lo novamente. O caso ganhou notoriedade, tanto quanto sua fama artística de Mathias, a tal ponto que em um poema, em sua homenagem, contem os seguintes versos: “Ele nunca cometeu, nenhum deslize em sua vida / Exceto casar-se com  sua segunda esposa“. Seja por isso ou não, o fato é que logo depois desse triste episódio, o divórcio entre eles se consumou.

Mathias casou-se ainda mais duas vezes e teve ao todo, 14 filhos: Um da primeira esposa, três da segunda, 6 da terceira e 4 da última esposa (embora algumas fontes digam que ele teve apenas 11 filhos, e outras dão conta que ele teve ao todo 8 mulheres diferentes, além de diversas concubinas). Um dos desenhos mais conhecidos de Buchinger é uma árvore genealógica em que ele aparece como o tronco, suas esposas como galhos e seus filhos como os frutos.

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Árvore genealógica de Mathias Buchinger

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Mathias vivia circulando entre Inglaterra, Escócia e Irlanda, apresentando-se. Aprendeu novas habilidades como tocar gaita de foles e dança escocesa (segundo ele, ele dançava tão bem quanto qualquer “highlander” sem as pernas). Ele também melhorou sua habilidade de escrita, aprendendo a escrever em qualquer direção e até mesmo espelhado.

Aliás, a mais impressionante habilidade de Mathias era sua capacidade de escrever em miniaturas. Tamanha era a sua habilidade que ele colocava mensagens “ocultas” em seus desenhos, como por exemplo, transformando mensagens da bíblia em cabelo. Por exemplo, em um de seus autorretratos, Mathias, ao invés de desenhar os fios do cabelos, transcreveu os salmos 121, 127, 128, 130, 141, 149 e 150, e ainda a oração do Pai Nosso.

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Auto retrato de Mathias Buchinger. Repare que os cabelos, ao invés de desenhados, são salmos transcritos.  (Clique na imagem para ampliar)

O tempo passou e logo o ato de Mathias deixou de ser novidade, vindo a decair em termos de espectadores. A idade também já começava a pesar sobre os ombros de Mathias que não tardou a diminuir sua carga de shows, de 7 apresentações diárias, para apenas duas. Assim, novamente Mathias tentou conseguir alguma pensão governamental e desta vez escreveu a um Palatino – uma espécie de nobre, representante direto da Coroa Britânica – dessa vez se valendo de sua terceira esposa, Anna Elisabete, que era filho de um já falecido Palatino, como chantagem emocional. Novamente seu pedido foi negado.

Em 14 de abril de 1733 ele escreve a Robert Harley, Conde de Oxford, oferecendo a ele a oportunidade de comprar um de seus desenhos, e que lhe custara 15 meses de trabalho. Mathias não estipula preço pela obra, deixando o conde livre para pagar o que achasse justo, porém, Mathias faz referência a uma suposta doença que lhe causaria tremores e febres e que o impediam de trabalhar novamente com tanto afinco. Seja, verdade, seja um mero truque emocional de vendas, o fato é que o Conde acabou adquirindo a obra.

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(Clique na imagem para ampliar).

Seis anos mais tarde, em 1739, Mathias veio a falecer com 65 anos em Cork, na Irlanda. Mas isso não interrompeu as excentricidades de Mathias. Seu último desejo foi que seu esqueleto fosse doado para uma Universidade local para ser estudado. O que Mathias achava que os cientistas iriam descobrir é incerto. O que é certo, porém, é que, quando de sua morte, Mathias teve todas as honras de um homem respeitável.

– Æ –

Uma das mais impressionantes habilidades de Mathias era o truque dos covilhetes. Ele produzia os copos e enquanto o público se perguntava para onde havia ido a bolinha, Buchinger, os surpreendia, revelando um pássaro vivo debaixo do copo. A fama de Buchinger à época foi tanta, que seu sobrenome “Buchinger” acabou tornando-se um gíria para “pequeno”.

O fato é que sua fama veio por causa de suas habilidades, mais do que pelo seu tamanho – embora seja inegável que sua deformidade potencializou os seus feitos – característica esta recorrente em todos aqueles capazes de superarem a si mesmos e as limitações que lhe foram impostas.

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Detalhe do cartaz do Mathias Buchinger, em que ele está executando os covilhetes.

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BIBLIOGRAFIA

“The Dublin Penny Journal” Vol. I, nº 44 – 27 de abril de 1833

“The Scots Magazine and Edinburgh Litarary Miscellany”  – abril de 1807

Edward Wood em: “Giants and Dwarfs” – 1868 p. 287 – 300

Ken Johnson em: “Astouding feats in Pen, Ink and Magnifying Glass” –  The New York Times, 14 de janeiro 2016

Wikipedia: “Mathias Buchinger

Exposição: “Desenhos de Mathias Buchinger por Rick Jay” no MET Museum

O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA

A ORIGEM DO MAIOR ÍCONE DA HISTÓRIA DA MÁGICA

Nenhum truque de mágica é mais icônico do que tirar o coelho da cartola. Embora seja um truque muito pouco executado atualmente, sua fama permeia nossos dias. Sua fama, no entanto, não é por nada. A ideia de tirar o coelho tem aproximadamente 200 anos. Mas o conceito de conjurar animais do nada é muito mais antigo.

Em 1726, em Guildford, Inglaterra, houve o registro de um curioso caso. Mary Toft, uma cidadã comum, chegou em casa e contou ao seu marido, Joshua Toft, que enquanto passeava pela floresta fora molestada por um coelho gigante. O marido não deu bola para a esposa e fez pouco caso, atribuindo a esta história maluca como fruto de uma alucinação. Poucas semanas depois do ocorrido, Mary Toft começou a apresentar alguns sintomas incomuns. O médico local Dr. J. Howard foi chamado para examinar Mary. No dia seguinte o próprio Dr. Howard contou a todos na cidade que Mary Toft havia dado a luz a cinco coelhos. O Dr. Howard continuou acompanhando o caso de Mary Toft e, no fim das contas, ela deu a luz a uma dúzia de lindos coelhos brancos.

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Mary Toft dando a luz a sua ninhada de coelhos (1720)

O rumor espalhou-se rapidamente e não tardou a chegar até a corte, em Londres. Dois enviados foram designados para acompanhar o caso e depois de algum tempo, retornaram à corte e confirmaram o ocorrido. Foi então que o médico da corte, dr. Richard Maningham decidiu investigar o caso. A primeira atitude do Dr. Maningham foi levar Mary até um hospital em Londres. “Misteriosamente” após tal fato, o nascimento dos coelhos parou. Investigando mais a fundo o Dr. Richard descobriu que alguns dias antes de dar a luz, Mary tentou subornar os funcionários do hospital de Guildford para que deixassem entrar no hospital com alguns coelhos (outras fontes complementam ainda que o Dr. Richard fingiu acreditar na história de Mary e sugeriu então que seu útero seria retirado para ser estudado pela ciência).

O fato é que Mary cedeu e acabou confessando que tudo não passava de um truque. O modo como o truque era feito, também diverge: há quem diga que a própria Mary inseria coelhos em seu útero e depois os retirava como se houvessem nascidos dela; outros porém dizem que Mary costurou por baixo de sua roupa um bolso secreto, onde os coelhos eram mantidos até a hora do nascimento. Daí de muitos considerarem Mary Toft a verdadeira “mãe” (trocadilho intencional) do truque de tirar o coelho da cartola (embora segundo o dr. Edwin Dawes em “The Magic Circular” March/April 1987 (Vol. 81 nº 874, p. 60) , essa teoria já foi refutada).

Nesse ínterim, artistas londrinos começaram a apresentar um novo número chamado “O nascimento do coelho”, aproveitando a onda “Mary Toft” que assolava Londres. Segundo Jean Hugard, que conta esta história, os artistas tomavam emprestado os chapéus dos espectadores, colocavam-no sobre uma mesa e com alguns passes mágicos, tiravam um coelho de dentro do chapéu. Enquanto realizavam o truque, contavam a história de Mary Toft.

Em 1747 há o registro de um artista de rua auto entitulado: “O famoso camponês do norte da Holanda” (Le Fameux Paysan de Nort-Holland), que, ao anunciar seu show prometia, entre outras maravilhas, “transformaria qualquer objeto dado por um espectador em um animal de dois ou quatro pés” e ainda “transformar moeda em qualquer tipo de ser vivo”.

Há também o registro de Palatiny, um mágico francês que, em 1799 anunciava um show em que restaurava a cabeça decapitada de um animal, e ainda, um membro da audiência seguraria algo em sua mão e o mágico transformaria esse objeto em um animal vivo.

Diversas fontes dão conta que em 1814, Louis Comte realizou este efeito em público pela primeira vez. Porém, todas as referências sobre o assunto são circulares, ou seja, apontam umas para as outras, sem uma fonte fidedigna de onde tal fato foi retirado. Outros sites de história da mágica apontam o mesmo problema. Fica impossível bater o martelo, portanto, como sendo Louis Comte o criador do efeito.

Comte
Louis Comte

Talvez, dada a falta de referências sólidas sobre Comte, é que alguns autores se refiram à década de 1830 como a época de criação do truque, dentre eles Christopher Milbourne. Milbourne não dá o nome da pessoa que criou o truque, mas ela dá enormes créditos à John Henry Anderson por popularizar o truque.

Anderson
John Henry Anderson

John H. Anderson, também conhecido com “o grande feiticeiro do norte” (the great wizard of the north) nasceu em 1814 na Escócia, mas começou sua carreira em 1831. Anderson chegou a apresentar-se perante a Rainha Vitória, o que certamente lhe rendeu prestígio e fama. O porém é que Anderson é reconhecido como um plagiador, especialmente dos efeitos de Robert-Houdin. Não há evidências que apontem para Robert-Houdin executando o truque do coelho na cartola (ao que consta, Robert-Houdin, não suportava a ideia de maltratar animais, chegando mesmo a discutir com Bosco, sobre isso). Porém, isto consta que talvez Anderson, de fato, não tenha criado o truque original.

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Cartaz do show de Anderson, em que ele anuncia o número de produção de coelhos (1849)

Obviamente que, com o passar dos anos, o truque evoluiu e novas variantes do efeito vieram à tona: desde usar um chapéu emprestado até a famosa versão dos irmãos Herrmann, Carl e Alexander, em que eles pegam emprestado um casaco do espectador e dali tiram o coelho. H.J. Burlingame em sua coluna na revista Mahatma escreve que durante uma apresentação de Alexander Herrmann no Rio de Janeiro (por volta de 1885), os jornais locais divulgaram a seguinte nota:

Já tivemos Patrizio, Mellini, Herrmann e Bosco, todos eles fazendo os mesmos truques: tirando moedas do chapéu, ou da cabeça, dos espectadores, luvas grande e pequena, lenços transformados, e as fitas e os coelhos do chapéu. Mas o melhor dentre estes foi Herrmann (…)”.

Ainda no periódico Mahatma, William Ellsworth Robinson em sua coluna no periódico Mahatma, descreve um truque típico indiano em que uma cesta vazia é coberta com um pano, e dali, um casal de coelhos é produzido. Protul Sorcar, um mágico indiano escreveu um livro chamado “Indian Magic” em que devota 38 páginas defendendoesta  tese.

Mahatma Vol. VII, II (2) C. Lang Neil (Agosto, 1903)
C. Lang Neil critica o uso de esquemas complicados – como o uso de coelhos – para fazer mágica

Com o passar dos anos e a evolução natural da arte mágica, dos grandes efeitos de palco, para a mágica de perto, os coelhos foram caindo em desuso, embora haja registros como por exemplo, do livro “Al Baker’s Pet Secrets” de 1951 no qual ensina alguns efeitos com animais, incluindo uma produção de coelho.

A partir dos anos 1970 grupos de proteção aos direitos animais conseguiram tornar o processo de fazer mágica com animais vivos ainda mais complicado. Por exemplo, nos EUA, para fazer truques com coelhos, é preciso uma autorização especial das agências governamentais.

Há quem teorize que o truque de tirar o coelho da cartola é a epítome de toda a arte mágica: criar (vida) a partir do nada. Outros, teorizam que o truque é famoso por que remete ao conceito do retorno: matam-se coelhos para fazer chapéus, e do chapéu, fazem-se coelhos. Todas essas são teorias que podem ou não ser válidas. Mas uma coisa é fato: tirar o coelho da cartola ainda é um efeito capaz de cativar e de prender o público.

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Propaganda de uma loja de chapéus que transforma coelhos em chapéus.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: Jean Hugard. “Hugard Magic Monthly“, Vol. VI, nº VII, dezembro de 1948, p. 490

Livro: Émile Campardon. “Les spectacles de la foire: théâtres, acteurs, sauteurs et danseurs de corde, monstres, géants – Vol 2”, 1877, p. 217 a 219

Livro: Barton Whaley “Enciclopedic Dictionary of Magic” 2007, p.756

Livro: Bill Severn “Big Book of Magic“, 1980, p. 212

Livro: Christopher Milbourne “The Illustrated History of Magic“, 1962, p. 91

Livro: Christian Fechner – “The Magic of Robert-Houdin“, Vol. 1, p. 130

Periódico: Mahatma, Vol. IV, II – Coluna de H.J. Burlingame, Agosto de 1900

Periódico: Mahatma, Vol. I, XII – Coluna de W.E. Robinson, Junho de 1898

Livro: James Rand, “Conjuring” 1992, p. 11

 

 

ENTREVISTAS COM RENÉ LAVAND

Poderia viver em uma casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito” – William Shakespeare

Em minha humilde, parcial e nada embasada opinião o maior mágico que já viveu entre nós é René Lavand. Dono de um estilo único e inconfundível, suas apresentações conseguiam cativar e maravilhar até aqueles que não gostam de mágica. Feito raro entre nossos pares. O maior arrependimento de minha vida foi nunca ter podido conhecê-lo (e o pior, saber que eu tive a oportunidade…).

O Blog Água & Azeite dedica este post à vida e à obra de René Lavand. Trata-se de um compilado com diversas entrevistas, todas extraídas da internet e traduzidas por mim.

René Lavand

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Antes de mais nada, temos que chegar a cidade de Tandil, atravessá-la, sair dela, percorrer estradas de terra, uma curva, outra curva, uma terceira curva e então, à direita, vê-se uma cabana com uma placa que diz “Milagro verde“, um pequeno telhado debaixo do qual se encontra um Audi novo, impecável, e muitas árvores. à frente da cabana está um homem sentado à mesa, em frente à cabana e debaixo do sol quente da manhã, um homem que bebe vinho tinto, veste uma camisa clara, gravata borboleta, calças beges, sapatos brancos, e enormes olhos aquosos – um deles com a pálpebra caída – sobrancelhas grossas e um bigote. A mão direita está no bolso.

A cabana é assim: uma cabana de troncos, com uma porta estreita a qual se acessa por quatro degraus. Dentro, depois da entrada, há uma mesa grande, um candelabro de uma só vela, em seguida a sala – cadeiras, poltronas, um enorme painel de vidro fixo – um pequeno espaço e em seguida mais móveis: um porta bengalas com diversas bengalas, e na parede, diversos chapéus: boinas, chapéus texanos, gorros de couro; no chão, diversos compactos: Beethoven, Mozart, Vivaldi, Bach – e uma mesa redonda coberta por uma toalha verde e sobre a toalha, diversos maços de cartas. E por todas as paredes desenhos e fotos de uma mão esquerda e do homem que, sentando de frente a uma mesa, em frente de uma cabana, sob o sol do meio dia, bebe vinho tinto. Às suas costas, sobre a porta de entrada da cabana, o seguinte dizer: “Poderia viver em um casca de noz e, ainda assim,  sentir-me o rei do Universo infinito”.

– Shakespeare – diz o homem

Mas a frase de Shakespeare é assim: “Poderia viver em um casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito, se não fossem os meus sonhos ruins”. Claro que o homem conhece as vantagens: uma pequena mutilação pode transformar algo em outra coisa. Pode transformar, por exemplo, um garoto comum em um homem extraordinário; a Héctor René Lavandera, nascido em setembro de 1928, em Buenos Aires, em René Lavand, habitante de Tandil e especialista em “close-up” (mágica de perto, feita com cartas e objetos pequenos), e um dos melhores do mundo na especialidade de ilusões com cartas; se não o melhor, ao menos único. Isso porque René Lavand tem apenas uma única mão, a mão esquerda.

– Venha, vamos conversar no meu Laboratório.

Filho único de Antonio Lavandera e de Sara Fernández, caixeiro viajante ele, professora, ela, o filho Héctor René Lavandera viveu com sua família em diversos locais da capital Argentina. Em uma dessas mudanças, seu pai montou uma sapataria. Em 1935, quando o menino tinha sete anos, chegou em Buenos Aires um mágico chamado Chang e lá foi ele, mãos dadas com sua tia Juana. Quando Chang subiu ao palco, o menino ficou mudo e desejou que seu pai fosse Chang, que Chang fosse seu pai, para aprender dele todos os truques. Durante semanas, durante meses, não se falou de outra coisa naquela casa: no café da manhã: Chang; no almoço: Chang; no lanche da tarde e na janta: Chang. Um amigo da família, comovido, ensinou um truque de cartas que o obeso garoto começou a praticar com dedicação. Pouco depois, a sapataria do pai se fundiu a outro negócio, e eles se mudaram para Coronel Suarez, um povoado da província de Buenos Aires, onde um novo emprego esperava por seu pai. Em fevereiro de 1937 o menino tinha nove anos. Era carnaval e fazia muito calor. Ele estava jogando bola a meia quadra de sua casa quando seus amigos disseram: “Vamos atravessar a rua”. Era um desafio menor: não era um rio, não era um abismo, não era subir uma montanha; eram cinco metros de asfalto, mas o menino havia sido proibido de atravessá-los sozinho. Seus amigos cruzaram a rua e ele pensou: “Também vou atravessar”. E atravessou. E entre o menino e o resto de sua vida se interpôs um menino de 17 anos a bordo do automóvel de seu pai. Houve uma manobra brusca, uma criança caída, pneus derrapando, derrapando… lesão gravíssima: o antebraço direito contra o meio-fio da calçada. Sara, sua mãe, escutou o barulho e pensou: “Héctor atravessou a rua”. Chegou correndo e quando viu o menino caído, os vizinhos lhe ajudaram para que não gritasse e levaram o garoto até a clínica médica que estava justo em frente ao local do acidente. O médico plantonista quis logo amputar o braço do menino – “lesão gravíssima” – à altura do ombro. Uma vizinha foi quem protestou: “Espere que chegue o Dr. Patané”. Assim, esperaram. Dr. Patané chegou e salvou o braço do menino, mas cortou a mão. Deixou um coto de cerca de 11 centímetros abaixo do cotovelo direito. O menino era destro.

Chang (nome artístico de Juan José Pablo Jesorum), litografia de 1939.

– Este é o meu laboratório. Passo hora aqui olhando o parque, escutando música.

O coto esquerdo sobre a mesa, a mão esquerda erguida, anel no dedo mínimo. Um golpista que quer se parecer com um golpista.

– Às vezes repasso minhas composições, vejo como posso melhorá-las. Eu já consegui – e me desculpe pelo “eu” – aquilo que, se já se escutou a Sétima Sinfonia de Beethoven mil vezes, cada vez que a escuta, é a mesma apoteose.

A reabilitação do garoto durou um ano. Não existem relatos precisos à respeito, mas se sabe que o baralho lhe entreteve. Primeiro, as cartas caiam torpes daquela mão torpe, esquerda demais. Insistiu com tesão, impôs-se uma disciplina árdua: jogar ping-pong, futebol de mesa. Mas as cartas lhe custaram sangue. Embaralhar, distribuir, cortar, levantar, ocultar, esconder, empalmar: sangue. Cresceu. Tinha 14 anos quando sua mãe conseguiu um emprego de professora longe de Coronel Suarez e se mudaram novamente, desta vez para Tandil. Não há memórias tristes daquela adolescência. Colégio, amigos, um pai que lhe aconselhou: “Ao primeiro que lhe chamar de maneta de merda, quebre-lhe a cara, que eu te livro da diretoria”. Um homem chamado Leonardi, aficionado por mágica, lhe ensinou alguns truques e lhe presenteou com um livro de cartomagia de Joan Bernat y Fábregas. O presente confirmou o que o jovem já sabia: as técnicas, todas, eram para mágicos com duas mãos. Ninguém nunca havia pensado que algum dia houvesse um mágico com uma só mão. Mas insistiu e quando terminou o colégio sua mão respondia mais ou menos, obediente. Em 1955 seu pai faleceu em função de um câncer e o peso da dívidas, da casa e da mãe, caíram sobre o jovem. Saiu à procura de um emprego e encontrou um no Banco Nación. Passou ali os dez seguintes anos de sua vida. Em algum momento conheceu uma mulher chamada Sara Dellacqua e se casaram. Tiveram duas filhas: Graciela e Julia. Em 1960 ganhou um diploma em ilusionismo e lhe ofereceram que debutasse em Buenos Aires. Dois teatros: Tabarís e El Nacional lhe incluíram em seus espetáculos de variedades. Rebatizou-se René Lavand, com uma sofisticação já um tanto “demodé“, mas que fazia sentido: dentre os elegantes, os franceses, eram os melhores. Já em 1965 era imparável: fez uma temporada na Cidade do México e suas turnês pela América Latina eram frequentes. O público se rendia ante a mão que fazia milagres, à voz que magnética que transmitiam coragem e à emoção das histórias de um velho golpista do Sul dos Estados Unidos, de um mágico oriental preso em uma masmorra, de um “tahúr” obrigado por sua mulher a ganhar uma fortuna antes da meia noite…

O que é a magia, René?

É a  comunicação artística e humana alcançado junto ao público. Seja Marta Argerich no piano, seja Julio Bocca dançando ou, numa dessas, René Lavand – perdão se falo de mim em terceira pessoa – com o baralho nas mãos. Para mim, isso é magia, eu sou ilusionista. É uma questão de termos, nada mais.

O que seria de René Lavand sem o ilusionismo, então?

O que seria? Hector René Lavandera, que é meu verdadeiro nome. Mas o certo é que não o conheço, e é difícil para mim imaginar um René Lavand sem o ilusionismo. Porque me acompanha desde os sete anos com as duas mãos e, depois do acidente, aos 9, com uma.

Você sempre diz que foi um autodidata nisto de aprender a arte…

À força, por isso que acabei de falar: o acidente. Não existem livros que expliquem técnicas para uma só mão.

Dizem que em Tandil, as pessoas contam que era um verdadeiro espetáculo vê-lo contar as cédulas no banco…

São anedotas que contam por aí, são fantasias do povo. Não, isso… eu com o baralho me defendo, algo que fiz por toda a minha vida, assim que aprendi, certo? E fui obrigado a criar, como dizíamos a pouco.

Você é um artista muito conhecido, não só por ter apenas uma mão, mas também por sua humildade, cavalheirismo, pela gentileza em cima do palco e as histórias que conta…

Não sei se sou humilde, não creio. Tampouco sou um falso modesto, claro, isso é pior. Creio que se alcancei alguma fama, foi por meu estilo, não pela mão. Por que pra mim dá no mesmo, já que citei Marta Argerich, que ela toque com uma mão ou com sete; o que me interessa é que me toque a alma, que me comova. Assim, não é a forma de fazer, mas sim, a forma de fazer no que respeita a expressão. O segredo não está no que se faz, senão em como se faz, evidentemente. Mas não por ter uma só mão, isso não conta. Isto é uma adição que o público faz, mas é a última adição: “Tchê, e com uma só mão! Que filho da…“, essa é a última. Mas nunca fiz nada para que me aplaudissem por fazer com uma mão. Dá no mesmo com uma ou com duas.

Esta a par das figuras do mundo da arte?

Se estou a par de quê?

Se há alguma artista que goste, que se destaca nesse momento?

Bom, sim, acabei de falar com um amigo a quem admiro artísticamente, Morrison. Falei com ele faz três minutos, da Espanha, me telefona sempre. Somos muito amigos me disse para ver quando vou ir vê-lo. Mas mora em Sevilha, não posso viajar tanto, tenho quase 79 anos. Mas bem, por outro lado, a Espanha está me chamando. Para mim Europa é dos Pirineus para cá, já a esta altura. Gosto de voltar a Espanha pelo reencontro amigos, pelo carinho, com anfitriões e com um dinheiro importante. Em Tandil vivo para descansar, porque, por sorte, não me chamam a nenhuma parte, então, aproveito para descansar. O mercado está, sobretudo, na Espanha. Também tenho feito, por agora, Texas, Colômbia, tenho que ir a Belo Horizonte, outra vez a Colômbia., também tenho que fazer essas coisas. Mas, sim, me interessa.

Em Tandil vem muita gente visitá-lo? Disseste que tens discípulos…

Vivo um pouco escondido aqui, ao pé de um monte. Mas sempre aparece gente para tirar fotos, e coisas que, bem, me fazem sentir afagado. Ainda que, às vezes, seja um pouco pesado, mas, bem, esse é o preço.

Conte-nos como foi a atuação em “Un oso rojo” (“Um urso vermelho”) e se pensas em voltar a atuar.

Não, não. Essa foi uma coisa circunstancial, em que tive a oportunidade de interpretar um vilão, e talvez por isso, disseram que o fiz muito bem (risos). Foi um bom filme e uma grande experiência para mim trabalhar com Caetano, com Julio Chávez, excelente ator e, bem… nada mais. Uma experiência para a vida, muito linda.

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Cena do filme “Un Oso Rojo”

René, recém me falaste de Morrison a nível mundial, a nível nacional. Crês que estão saindo bons ilusionistas, bons artistas?

Não os vejo, não os vejo. Não vejo pela televisão a especialidade, não se vê representada.

Por que crês que a magia deve ser difundida pelo país?

A magia deve ser difundida, ou não deve ser difundida. Se vão fazê-la bem, que a difundam. Porque então melhorará o bom gosto e o conhecimento de parte do público. Agora, se vão fazê-la mal, são a vão executar mágicos e “magiquinhos” de meia tigela, então que não se difunda. Estou implorando que não se difunda. Agora, se vão fazer bem, então, sim, claro que sim. Porque então vai haver um público predisposto, como há na Espanha. Eu recebo ofertas de diversas locais, nas mais diferentes cidades principais da Espanha. Por quê? Por que a magia que você chama e eu chamo de ilusionismo, está imposta. E por que está imposta? Porque tem bons artistas. Então sim, que a difundam.

Então, o que tem que ter um bom artista, um bom ilusionista?

Um bom artista tem que ser artista, comecemos por isso. Por que não há um prestidigitador sem ser ator primeiro. E depois ter estilo. Estilo, por que não há artista sem estilo. Sem sombra de dúvida.

O que você responde, se lhe perguntam ‘quem é René Lavand’?

Um ser humano de carne e osso como todos os outros, que pode superar-se em algum momento da vida; e se faço um balanço de maus quase 86 anos, conquistei o que jamais sonhei que poderia conquistar: viajar pelos cinco continentes com talismãs de cartão pintados (em uma referência a como Jorge Luis Borges chamava as cartas).

Como gosta que lhe chamem?

Gosto da palavra magia, mas ela não é muito clara. Prefiro ilusionista, porque sou um criador de ilusões. ME encanta a palavra ilusionismo e a palavra magia prefiro empregá-la em outras questões. Enquanto a palavra mágico como qualificativo, e a palavra truque, ambas me soam insuportáveis. Truque é o que faz um cigano para vender seus produtos, por outro lado, eu faço jogo. Jogos que, para se converterem em composições – e me orgulho de haver conseguido – devem ter o equilíbrio harmônico entre o que eu digo e o que eu faço, com as justas pausas, precisas e necessárias, que são o silêncio.

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Se considera um mestre do ilusionismo?

Maestro é quem dita os rumos, não sei se me essa palavra corresponde a mim, mas sim, ditei alguns rumos na vida, aceito com gosto que me chamem assim.

Teve dúvidas ao longo de sua carreira?

Sempre. Quem não as tem? Quando há responsabilidades, sobretudo, há dúvidas. Até me pergunto: “Como sairá isso hoje à noite?”

Quanto há de talento e quanto há de esforço, na sua arte?

Como diz uma sábia frase: “O gênio se deve à transpiração”. Estou longe de ser um gênio, mas creio que sou talentoso porque transpirei. Sempre tem que ter algo, por isso, alguns  escolhem na vida e, aos poucos, se transformam nisso que escolheram.

Como faz para que algo, que parece tão difícil, pareça tão simples?

Chegar à simplicidade é muito difícil, não ao simplório, isso é outra coisa. Há uma distância abismal entre a simplicidade e o simplório. O ser humano sempre tende a complicar as coisas. Como disse Juan Carlos Lopes: “O difícil do tango, é fazê-lo fácil”. Isso é um mestre. Ditou rumos!

Como faz para seguir atuando por todo o mundo?

Por amor à arte, e sem poupar esforços…

Pensou alguma vez em abrir uma escola, e ter alunos?

Tenho discípulos, mas não sou um fabricante de artistas. Acabamos nos tornando íntimos, amigos e no fim, eu acabo aprendendo com eles.

Bom, então você marcou alguns caminhos e, por isso, é um mestre…

Por questões de sobriedade deveria perguntar a eles, não a mim, mas se for assim, me bajula o título de mestre.

O que acontece se sai uma carta equivocada em pleno show?

Bom, Martha Argerich, suponho eu, alguma vez já desafinou alguma nota, e nem por isso deixou de ser Martha Argerich…

E o que o fez decidir que era a hora de se aposentar?

A idade. Deve se respeitar e aceitar a etapa da vida que estás a viver. Tenho visto a decadência de muitos artista e fiquei com pena. Não quero passar por isso. Sou um homem humilde, mas tenho orgulho. Prefiro me retirar com um sete e meio, antes que o público me retire com um quatro ou cinco.

Como você vê os jovens hoje em dia, e que conselho daria a eles?
A juventude que me rodeia é de primeira linha. Tenho muitos amigos jovens que vivem em minha casa e somos bons amigos, mas certamente há de tudo. O que lhes diria é que tudo são motivações, sejam boas ou más, sejam brandas ou duras, e devem aproveitá-las. A juventude é uma enfermidade que se cura apenas com o passar dos anos.

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Pode-se fazer mais lento no dia a dia?

Creio que não. Creio que consegui o máximo nesse sentido. Por isso digo o “talvez se possa fazer mais lento”.

Encarna a sua filosofia de trabalho?

Sim, evidentemente. Uma sábia frase disse que quanto mais suave é a carícia, mais ela penetra. Eu digo que quanto mais lento o movimento, mais impacta no assombro.

Há muitos anos atrás, René Lavand modificou um clássico truque de mágica chamado “Água e Azeite”: três cartas vermelhas e três cartas negras que, dispostas alternadamente uma a uma, terminam sempre juntas, enfileiradas: vermelhas para um lado, negras para o outro. Se o lugar comum da mágica diz que é possível que coisas assim aconteçam porque a mão é mais rápida que o olho, René meteu o dedo nessa ferida e fez o contrário: exacerbou a lentidão desta composição de aparência simples e chamou essa técnica de “lentidigitação” e conquistou algo que os ilusionistas consideram uma obra de arte: a sua versão de “Água e Azeite” aqui chamada de “Não só pode fazer mais lento”, a qual, feita com uma só mão e com uma lentidão de igreja e de incensário, faz com que as três cartas negras e as três cartas vermelhas terminem magneticamente unidas entre si, uma e outra vez, e cada vez, mais devagar. Por dentro, enquanto executa o truque, René é uma máquina precisa, uma engrenagem, um centurião suando por sua vida. Por fora, o que se vê é isto: sua mão líquida, fluída, rastejante. E sua infinita graça!

– Æ –

Abaixo, uma entrevista com René Lavand, dividida em três partes, em que ele conta um pouco mais da sua curiosa história:

– Æ –

LINKS DAS ENTREVISTAS

http://www.lanacion.com.ar/1766593-quien-era-rene-lavand

http://www.infomagos.com.ar/entrevistas/entrevista-lavand.htm

http://www.perfil.com/espectaculos/rene-lavand-en-la-vida-todas-son-motivaciones.phtml

MAIS ENTREVISTAS

Abaixo, mais algumas entrevistas com “El Maestro”

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/02/13/actualidad/1423783014_937910.html

http://editorialorsai.com/revista/post/n4_lavand

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-dos-anos-magia-rene-lavand-20170207073438.html

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-trucos-mas-sorprendentes-rene-lavand-20170207073937.html

 

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

– Æ –

1. PEGANDO A BALA

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Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

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Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

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Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

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Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

– Æ –

3. MAS HOUVERAM MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

ROBERT-HOUDIN, UMA FRAUDE!*

Minhas investigações deram origem apenas ao mais amargo e mais triste desapontamento. Desprovido de seu véu romanceado, Robert-Houdin se mostrou, sob a luz intransigente dos fatos puramente históricos: um mero fingidor, um homem que enriqueceu sob o trabalho de outros pessoas, um mecânico que, petulantemente, roubou as invenções dos mestres artesãos que lhe precederam.” – Harry Houdini (1906)

– Æ –

Harry Houdini amava sua mãe. Mas havia uma coisa que provavelmente ele amasse mais do que a velha Cecília Weiss: publicidade. Harry amava a publicidade, amava ser reconhecido, invejado e até mesmo odiado. Ele encarnou a expressão “não existe publicidade ruim” inventando inúmeras formas de ser lembrado pelo público; algumas falharam, é verdade, mas a maioria de suas estratégias provou-se um verdadeiro sucesso.

Uma das formas preferidas de publicidade de Houdini era o apelo à emoção. Toda vez que Houdini apresentava-se em uma cidade que abrigava o túmulo de um mágico, ele fazia questão de visitá-lo. Acompanhado de um enorme séquito de repórteres e fotógrafos, Houdini prostrava-se junto à lápide do mágico, descobria a cabeça, baixava sua fronte e deixava-se fotografar em silêncio, contemplando o túmulo. No dia seguinte os jornais locais estampavam a notícia de que “o grande escapista prestara uma homenagem ao já falecido mágico”. O público se emocionava e simpatizava com Harry e com o respeito que ele demonstrara. A gratidão do público se fazia visível ao lotarem os teatros onde Houdini se apresentava.

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Harry Houdini visitando o túmulo de Robert Heller, 1910

Certa vez, Houdini iria apresentar-se em Paris. Decidiu então usar a velha tática de ir ao cemitério para propagandear seu espetáculo. Houdini dirigiu-se até Blois, a 180 km de Paris para visitar o túmulo do mestre Robert-Houdin. Afinal, o que poderia ser melhor do que “homenagear” o homem que lhe “emprestara” o nome e o amor pela magia? Querendo dar um “plus” em sua busca por publicidade, inquiriu os repórteres sobre algum parente vivo de Robert-Houdin que porventura ainda estivesse vivo. Para sua surpresa foi informado que sim haviam parentes vivos – possivelmente os filhos de Robert-Houdin – e que não, eles não queriam vê-lo. Aliás, não só não queriam vê-lo, como não queriam ter qualquer parte com Houdini.

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Lápide de Robert-Houdin em Blois, França

Essa rejeição doeu em Houdini. Como alguém poderia se atrever a não recebê-lo? Houdini nunca buscou saber o porquê da recusa. Talvez eles não gostassem de publicidade (afinal já vinham de uma atribulada vida com Robert-Houdin) e aceitariam um encontro mais discreto. Mas Houdini, vingativo e sanguíneo como era, se recusou a saber os motivos e declarou guerra à memória de Robert-Houdin.

Will Goldston em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” conta que teve o seguinte diálogo com Houdini:

Que diabos, Will!” ele disse, “O que tem de errado comigo? Qualquer um vai achar que sou um leproso! Mas eles vão se arrepender por isso, nem que me custe a vida toda.

O que você quer dizer?” eu perguntei.

Eu estou escrevendo um livro sobre Houdin que fará toda a sua família baixar a bola. Ele vai ter a pior biografia que ele já teve. Ele era um impostor.

Que vergonha, Harry,” eu respondi asperamente. “Você sabe que isso não é verdade. Por que ser tão vingativo? Houdin era um grande mágico e você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

Ele era um impostor, eu digo. Eu juntei todos os fatos para provar isso. E de qualquer forma” concluiu ele baixando o tom da voz “o público vai acreditar em qualquer coisa que eu disser a eles. O ‘Desmascarando Robert-Houdin’ fará com todos percebam isso.

Você está cometendo um grande erro, Harry. Ninguém vai achar que você é uma pessoa melhor depois de um atitude tão bestial. Houdin está morto e não poderá se defender. Um dia desses alguém vai escrever um livro sobre você e o chamará ‘Desmascarando Harry Houdini’.

Ele olhou firmemente para minhas palavras e respondeu: “Se alguém fizer isso, será você,” ele disse lentamente.

Eu ri. “Talvez você tenha razão”, repliquei. “Mas se eu escrever sobre Houdini, nunca vai ser motivado por vingança.

O livro foi publicado em 1907 (embora a edição britânica da obra traga a data de 1906) e foi uma falha de vendas monumental. Embora Houdini tivesse, de fato, juntado muitos fatos sobre Robert-Houdin, ele deixou que sua imaginação escolhesse as palavras do livro. Seu trabalho foi refutado pelos mágicos em geral como “carente de acurácia histórica”. O respeito e a gratidão que todos os mágicos nutriam por Robert-Houdin falou mais alto que o desejo de vingança (e de publicidade) de Houdini.

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Capa da primeira edição do livro de Houdini, 1907.

The Unmasking of Robert-Houdin” (Desmascarando Robert-Houdin) é considerado como o primeiro livro específico de história da mágica publicado (ou ao menos, Houdini assim o propagandeou). Segundo ele foram mais de 15 anos de pesquisa e contém diversas imagens, notas de jornais, e folhetos dos shows de Robert-Houdin. Houdini em sua revista “Harry Houdini’s Conjurers’ Monthly Magazine” de maio de 1908 escreveu que, antes do livro ser colocado à venda, estava sendo anunciado com o preço de US$ 2,00. Quando efetivamente lançado, o preço de capa foi reduzido para US$ 1,00 sob ordem de Houdini que pagou do próprio bolso a diferença, a fim de que seu livro atingisse um público ainda maior.

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Propaganda do livro de Houdini, com o desconto anunciado.

A despeito de todo o esforço empreendido na publicação do livro, ele foi um fracasso. Poucos foram os que efetivamente leram o livro, e os que o fizeram trataram a obra como um ato de despeito. Muitas das cópias do livro – possivelmente as que Houdini deu de presente –  possuem uma anotação escrita a punho pelo próprio Houdini: “Por favor, leia pelo menos a introdução”.

Houdini sofreu fortes críticas pela publicação do livro, em especial de mágicos franceses. Há quem dissesse, na época, que o verdadeiro motivo para ele ter escrito o livro não foi a recusa da família em vê-lo, senão porque simplesmente desiludiu-se com Robert-Houdin e, tendo copiado seu nome a partir do mágico francês, desejava elaborar uma justificativa para poder trocar de nome.

A verdadeira motivação para Houdini ter escrito o livro talvez nunca saibamos. É dito, porém que, anos após a publicação do livro, ao ser questionado sobre a obra, Houdini teria dito que “O único erro que eu cometi foi nomear meu livro como ‘Desamascarando Robert-Houdin’. Deveria ter sido ‘História da Mágica’.

No entanto, justiça seja feita, o livro contém mais do que mera difamação acerca de Robert-Houdin. Além de um relato sobre a história do homem que modernizou a mágica,  serviu também como ponto de partida para a carreira de “debunker” de Houdini. Não obstante, quando encontrou-se com Sir Arthur Conan Doyle, um já conhecido espiritualista, presenteou-o com um exemplar da sua obra “Desmascarando Robert-Houdin”, talvez como um aviso ao novo amigo que não esperasse que ele fechasse os olhos para as fraudes que, porventura, viesse a encontrar.

– Æ –

* OBS: O título do texto, obviamente um chamariz, é baseado em uma famosa frase de Houdini, que, ao desmascarar falsos médiuns, costumava gritar: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”.

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FONTES

Livro: Will Goldston “Sensational Tales of Mystery Men”, 1929.

Site: Magicpedia: “The Unmasking of Robert-Houdin

Blog: The Paris Review

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

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1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

– Æ –

2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

– Æ –

3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

– Æ –

4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

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5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

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5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

… E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Confie em todo mundo, mas sempre corte as cartas

Finley Peter Dunne

1. O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

Jonathan Harrington Green, foi um norte-americano nascido em 1813 e um jogador de cartas profissional. Ele nasceu em Ohio, mas cresceu navegando e jogando/apostando ao longo do Rio Mississipi. Green era um jogador – e um trapaceiro – excepcional. Conta-se que em uma única noite chegou a ganhar US$ 23.000 (aproximadamente US$ 600.000,00 em valores atuais) jogando e, obviamente, trapaceando.

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Jonathan Harrington Green

Para um jovem na casa dos 20 anos Jonathan levava uma vida perfeita: passava os dias viajando e ganhava muito dinheiro. Ele até podia dar-se ao luxo de gastá-lo como bem entendesse. Por isso, ninguém entendeu quando em uma noite de agosto de 1842, aos 29 anos, Jonathan simplesmente largou a sua vida, arrependeu-se de seus “crimes” e passou a liderar uma cruzada contra os jogos de azar.

Esta súbita epifania deu-se quando certa noite, em um barco a vapor navegando pelo Mississipi. Um reverendo metodista estava no barco e distribuía sobre uma mesa alguns folhetos e materiais religiosos. Os companheiros de Green, ignorando o ministro, “varreram” de cima da mesa todo o material religioso, a fim de jogarem cartas. Isso deixou Green extremamente irritado. Ele imediatamente foi até a mesa, pegou todo o material de jogo e atirou no rio. Em seguida trancou-se em sua cabine pelo resto da noite.

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Apostadores do Mississipi (1890’s).

O que parecia ser um fato isolado, um mero colapso nervoso, mostrou-se um novo estilo de vida para Green. Ele passou a estornar tudo o que havia adquirido ilegalmente às suas vítimas. Ele vendeu propriedades e devolveu dinheiro a qualquer um de seus vizinhos que ele houvesse enganado.

A metanoia de Green, porém, traria junto de si a dura realidade. Sem mais jogar, sem propriedades e sem um emprego, Green viu-se obrigado a achar algum meio para fazer dinheiro. Mas o que restaria a um ex-trapaceiro de trinta e poucos anos, sem experiência em outros empregos e com uma fama que não era das melhores? A resposta era óbvia: Jonathan transformou-se em um pregador itinerante que ensinava a população sobre os riscos e os males dos jogos-de-azar.

A produção literária de Jonathan Green também foi bastante profícua: onze livros em 25 anos. Todos eles sobre os métodos de trapaça nas mesas de jogos, sobre a sua vida antiga, suas experiências, sobre como ele tinha agora uma nova vida (ou, em suas palavras, uma vida “reformada”, e até mesmo sobre como os trapaceiros agiam em conluio para tirar dinheiro dos incautos).

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Ilustração de capa do livro Secret Band of Brothers” de JH Green (1848)

Consta que este foi o primeiro show debunker que se tem registro. Sem saber, Jonathan Green acabava de inaugurar uma nova modalidade de shows. Neles, Jonathan mostrava os meios pelo qual trapaceava e alertava sobre como isso era ruim. Seus espectadores eram quase sempre ouvidos religiosos e conservadores que acenavam condescendentes e triunfantes, afinal agora não era mais um reverendo que pregava sobre as mazelas dos jogos de azar, mas um jogador em pessoa, que conhecia de vivência os meandros desse mundo. A causa deixava de ser uma “cruzada moral” e o debate passava a ser um assunto de ordem pública.

Porém, se os seus ouvidos estavam abertos, suas carteiras nem tanto. Pouca era a ajuda financeira que Jonathan Green recebia por suas palestras. Não raro Jonathan perdia dinheiro ao visitar cidades, usualmente saindo mais pobre do que quando havia chegado. Outro problema eram os inimigos que Green estava criando. Os donos das casas de jogos sempre tiveram grande influência sobre a política local. Alguns Prefeitos, inclusive, eram donos de casas de apostas. Assim, por mais que a comunidade religiosas pressionasse, isso surtia pouco ou nenhum efeito. Algumas cidades até conseguiram aprovar leis anti-jogo, mas elas não duravam mais do que um ou dois anos.

Mas mesmo sua cruzada não sendo frutífera, os inimigos de Green não deixaram barato. Muitos jornais começaram a receber dinheiro dos donos de casas de jogos e de outros negócios correlatos, como os fabricantes de bebida e bordeis, para desmoralizar a causa de Jonathan. Para cada jornal que noticiava a causa de Jonathan, outro imediatamente lhe destratava: questionavam sua real motivação e traziam à tona até mesmo suas dívidas correntes.

Sendo massacrado pelos “ex-companheiros” e recebendo pouco retorno financeiro de sua nova “família”, Jonathan viu-se em uma situação difícil. Uma situação acontecida com ele em 1848 ilustra bem isso: Jonatham foi preso por estar em posse de duas notas falsas de US$ 500,00. Os jornais se apressaram em destruir a sua reputação, e até a data do julgamento já havia sido marcada e amplamente anunciada. O que ninguém sabia é que o Governo Americano estava ciente das notas e mais do que isso – foi o próprio Governo que as forneceu a Jonathan, que agia como um agente federal disfarçado. As notas eram “modelos” que Jonathan deveria procurar por onde passasse, a fim de que o Governo pudesse desbaratinar ações ilegais de lavagem de dinheiro. Obviamente as acusações sobre ele foram retiradas, mas não sem antes ele passar um bom tempo preso e ter sua imagem, mais uma vez, arranhada.

Sem dinheiro, sem um apoio efetivo e maciço da população e sem poder bater de frente com os barões do jogo, a causa de Jonathan tornava-se estéril e infrutífera. Jonathan precisava urgentemente de uma saída. Como bom trapaceiro, ele ainda tinha uma carta na manga: em Jonathan foi a público denunciar que todos (sim, TODOS) os baralhos em uso nos Estados Unidos estavam marcados e que era possível saber a identidade de qualquer carta apenas pelo seu dorso. E Jonathan Green provou a sua tese.

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2. E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Os puritanos ficaram extasiados com a declaração de Green. Suas suspeitas finalmente se confirmaram e eles estavam certos o tempo todo: o jogo era não só um mal moral, mas uma ilegalidade e devia ser extirpado. Uma conspiração entre os trapaceiros e as fábricas de cartas era saborosa demais para ser ignorada.

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Padrões de cartas marcadas, segundo JH Green (1848)

A bomba lançada por Green causou muitos estragos. Especialmente porque Green conseguiu, vez após vez, provar o que ele dizia. A cada apresentação ele trazia alguns baralhos dos mais diversos fabricantes e mostrava ser capaz de ler cada carta pelo seu dorso. As marcas que ele mostrava eram engenhosas e Green explicou detalhadamente cada uma delas. Algumas eram tão evidentes que Jonathan as lia a uma distância de 3 ou 4 metros.

Mas a situação ficou ainda melhor. Pessoas leigas começaram a trazer seus próprios baralhos para que Green os lesse. E a cada novo desafio, Green comprovava a sua teoria. O jornal “Boston Mail” de 15 de setembro de 1844 escreveu que após uma apresentação em Marlborough Chapel um grupo de cavalheiros aproximou-se de Jonatham e lhe desafiou a ler o dorso de algumas cartas. O grupo embaralhou as cartas e separou algumas. Jonathan não só leu as 18 cartas selecionadas pelo grupo, como leu as 34 cartas restantes. A cada nova apresentação, a cada novo desafio aceito, a acusação de uma conspiração nacional se mostrava mais e mais verdadeira.

Os jornais – que outrora perseguiam Green, começaram a dar o braço a torcer. Muitos editoriais começaram a admitir que diante de tais evidências, apenas um tolo arriscaria seu dinheiro nas mesas de jogos.

Purity Crusade
“Purity Crusade” (Cruzada Puritana), organização cívico-religiosa contra os vícios da bebidas, jogos e prostituição (1874). Elas oravam e cantavam hinos em frente aos bares e casas de má-fama, ao ponto de muitas vezes serem presas pelas autoridades policiais.

Agora façamos uma pequena pausa aqui, caro leitor, e pensemos de modo racional e prático: o que é o mais provável? Uma gigantesca conspiração nacional dos fabricantes de baralho, das centenas de casas de jogos, e dos milhares de carteadores para roubar um país inteiro, ou um ex-trapaceiro voltando a trapacear? Não é preciso raciocinar muito para descobrir a resposta. Embora a intenção de Jonathan fosse a melhor possível, o meio utilizado por ele para tornar verdadeira a sua acusação é bastante questionável.

A proposição de Green tinha ainda uma falha grave. Se todos os baralhos fabricados fossem, de fato marcados, porque os trapaceiros gastariam pequenas fortunas comprando baralhos declaradamente marcados nas lojas de material para jogos?

Mas então como Jonathan Green fez para ler a face das diversas cartas? O fato é que jamais saberemos com certeza, mas o mágico e pesquisador David Britland em seu livro “Phantoms of the Card Table” tem uma teoria bastante interessante à respeito. As lojas e catálogos de material para jogos vendiam um aparato chamado “shiner” ou brilhante. Ele era basicamente um espelho convexo disfarçado que ficava em cima da mesa e, ao se apontar a carta para o brilhante, era possivel ler o seu valor através do seu reflexo. O “brilhante” podia ser uma bacia para comida, um cachimbo, enfim, qualquer coisa insuspeita que pudesse ficar em cima da mesa de jogo, anexada na borda da mesa ou em alguns casos, atrás do jogador alvo.

O curioso é que, apesar de ser um objeto bastante comum, Jonathan Green jamais o mencionou em suas apresentações. Green poderia facilmente, em suas apresentações, ter secretamente anexado um brilhante na borda da mesa e, enquanto entregava as cartas, lia o seu valor. O resto era mise-en-scene.

James McMannus em seu livro “Cowboys Full: The History of Poker” constata que, ironicamente, a cruzada de Jonathan Green contra os jogos de azar, acabou por aguçar a curiosidade das pessoas comuns e ajudou à popularização do pôquer.

Jonathan passou o resto de sua vida caçando trapaceiros e casas de jogos. Segundo suas pesquisas, apenas em Nova York, nos anos 1850, haviam 6.000 casas de jogos sendo 200 delas estabelecimentos de alta classe. Ele ainda lutaria na Guerra Civil Americana como capitão pelo lado da União (Norte). Ali, ao lado de políticos conservadores, Green chegou a criar um estudo para banir os jogos de azar do território americano. Porém quanto mais lutava contra, mais claro ficava que não se deveria jogar o bebê fora com a água do banho. O jogo deveria sim ser regulado, mas não proibido, afinal que mal haveria uma mesa de pôquer entre amigos? Além disso a população americana, aprendeu a gostar de jogar pôquer. E talvez, essa tenha sido, no fim das contas, a maior contribuição de Jonathan Green para o mundo.

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Símbolo da sociedade Nova Iorquina da Supressão do Vício (1873)

Jonathan ainda trabalharia para o Serviço Secreto, além de ter trabalhado como inventor, chegando a registrar em torno de 25 patentes em seu nome, mas estas não lhe renderam muito dinheiro. No fim de sua vida, teve que pedir ajuda aos amigos para poder pagar pelo funeral da esposa.