IMRO FOX – O HUMORISTA QUE ERA CHEF E VIROU MÁGICO

Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões

Imro Fox

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Imro Fox
Imro Fox

O ano era 1880 e a cidade era Nova York. O hotel Lawrence era um famoso ponto de parada dos artistas de vaudeville. Certa noite, um grupo de artistas itinerantes hospedou-se no Lawrence. A estrela do grupo era um mágico que, após a primeira performance da noite, desapareceu. Provavelmente ele reapareceria, algumas horas depois, nalgum bar da cidade. Porém, havia uma segunda sessão e o gerente da trupe não podia esperar.

Vendo o desespero no rosto do gerente da trupe, o dono do hotel, querendo ser solícito, perguntou o que estava acontecendo. Ao ficar sabendo do problema do hóspede, o dono prontamente lhe deu a solução: disse-lhe que o cozinheiro do hotel era um mágico.

O gerente então desceu até as “regiões inferiores” do hotel e, entrando na cozinha, deparou-se com uma cena pitoresca. O gerente da trupe viu Imro Fox, debruçado sobre um enorme tomo com aparência antiga. Próximo dele um gato negro o observava, impávido. Sobre as chamas, um caldeirão borbulhante. A “mise-en-scene” do lugar certamente era a do estúdio de algum poderoso conjurador. Mas na vida real as coisas sempre são um pouco menos surreais.

Fox estava lendo um dicionário francês – e não um grimório ou coisa que o valha; o chef estava preparando um menu novo para o hotel (em outras palavras, dando nomes franceses para velhos pratos novaiorquinos); o gato, era um animal comum, mascote da cozinha, companhia habitual de Imro, e não um imp ou demônio familiar. Por fim, no caldeirão, apenas sopa.

Você é o chef, creio” disse o gerente da trupe.
Sim, eu sou“, respondeu Fox.
E você é um conjurador amador?
Eu me distraio com alguns truques, eventualmente…
É você mesmo que eu procuro. Eu gerencio uma trupe de vaudeville. E o cavalheiro que faz mágica para mim, acabou saindo para uma farra, e…
Entendo!” interrompeu o chef, “O velho truque da garrafa que nunca acaba“.
Quero que você assuma o lugar do mágico“, seguiu impassível o gerente, “pelo resto da semana. E não s epreocupe que eu arranjo tudo com o dono do hotel.
Caralh*!“, exclamou Fox em alemão, “nunca sequer pisei em um palco em toda a minha vida. Eu iria morrer de medo. Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões.
Bobagem!” retrucou o homem do teatro, “Me ajude, como uma pessoa boa que você é. E no mais, você será recompensado por isso.

Após mais algum tempo, Fox topou o convite e mais tarde naquela noite, Imro subia ao palco vestindo um terno que claramente não fora confeccionado para ele. Tremendo de medo ele fez uma reverência para a plateia e,  com a voz trêmula,  quebrou o gelo com uma piada: “Senhoras e senhores. Por que a minha cabeça é como o céu? Por que aqui em cima também não tem nada para fazer…[1] A plateia riu, Imro sentiu a tensão incial diminuir e, no embalo do bom momento, fez um truque de cartas.

Enquanto isso, na coxia, o gerente sorria e pensava consigo mesmo: “Muito bom, muito bom!

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Imro Fox nasceu em 21 de maio de 1862 [2] em Bromberg, Alemanha (embora hoje, graças ao Tratado de Versales, a cidade se chame Bydgoszcz e fique na Polônia). Seu nome de batismo era Isidore Fuchs. Aos 17 anos sua família migrou para os Estados Unidos. Seu primeiro emprego foi como chefe de cozinha no Lawrence e em pouco tempo, acabou recebendo o convite para tornar-se um mágico. Em 1888 ele adquire a cidadania americana.

Imro Fox Manipulação legierdemain
Imro Fox manipulando com “os pés”, o nome que ele dava para suas mãos.

Sua carreira começou em 1880 e ele se vendia como o “conjurador cômico”. Seu número fazia bastante sucesso a ponto de ele ser disputado por outras companhias de vaudeville. Entre 1888 e 1896, Imro excursionou por todos os EUA com pelo menos 4 companhias diferentes, incluindo a “The Rain Makers” de Frank Dumont. Imro também excursionou por Paris, Munique, Antuérpia, Roterdam, Moscou… tendo como ponto alto da carreira sua apresentação no Trocadero Palace, em Londres.

Em 1896 Imro fundou sua própria companhia de vaudeville. E neste mesmo ano ele gravou três filmes mudos para a “American Mutoscope and Biograph Company“, a primeira produtora de filmes norte-americana: “Imro Fox, Conjuror“; “Imro Fox Rabbit Trick“; e “The Human Hen[3]. Imro foi o primeiro mágico da história a gravar um filme.

Imro Fox cartaz vaudeville
Cartaz anunciando o show da companhia de Imro Fox

Em 1898 Imro funda a “The Great Triple Alliance“, uma companhia só de mágicos formada por Imro Fox, Servais LeRoy e Frederick Powell, e agenciada por M.B. Leavitt, um dos grandes nomes do entretenimento da época. O show foi incensado pela imprensa como: “os três principes do mundo das artes místicas”. A companhia excursionou até 1900.

Programa
Excertos de guia do teatro, anunciando o show da “The Great Triple Alliance

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As apresentações de Fox também eram muito elogiadas. A revista Billboard de dezembro de 1908 escreveu:

Imro Fox, conjurador cômico e “enganador”, pertence a uma classe própria. Ele transforma os problemas da manipulação em um alegre passatempo e uma interessante meia-hora. Sua personalidade é, talvez, a parte mais impactante de sua performance, embora seu humor natural e seus trejeitos inimitáveis que, ele mesmo chama de “maravilhoso” sejam irresistivelmente engraçados. O sr. Fox é um favorito na Europa, embora seja um americano…

Imro era muito querido entre os mágicos. Contam que quando alguém se aproximava dele e pedia por uma piada, ele apresentava um truque de mágica; se pediam um truque, ele contava uma piada. E quando alguém pedia os dois? Imro fazia! Ele acreditava que sua mágica era a piada e ele buscava envolvê-la em mistério.

Outra grande qualidade de Imro era que ele sabia rir de si mesmo. Ele fazia constantes piadas acerca de sua careca. Também chamava suas mãos de “pés”, em referência à sua habilidade de manipulação; seu inglês “macarrônico” certamente auxiliava na tarefa de fazer os outros rirem. Todas as piadas de seu show tinham o própio Imro como alvo. Um de seus truques era piscar para seu público, contando assim com uma espécie de cumplicidade com a plateia.

Dizem também que ele não pegava emprestado nenhum objeto com os espectadores. Dizia ele que assim poderia fazer mais truques em um mesmo intervalo de tempo, uma vez que se evitavam deslocamentos desnecessários e explicações delongadas. Isso também afastava as suspeitas de algum tipo de combinado entre o mágico e alguém da plateia. Mas talvez a razão para essa aversão a objetos emprestados fosse porque em certo show em Montgomery, Alabama, seu assistente (não o oficial, pois este estava doente) desapareceu com um relógio de ouro de um voluntário da plateia. Dizem que a plateia até hoje espera o relógio aparecer e que Imro ficara 46 dólares mais pobre aquele dia. Sobre o sucedido, Imro se limitiva a dizer: “Bons assistentes custam caro!”

Ainda sobre o show de Imro, Henry Ridgley Evans escreveu:

Seu show é bastante original. A cortina sobe, mostrando uma caverna sombria. No meio está um caldeirão borbulhante, alimentado por bruxas à la Macbeth. Um velho necromante, vestindo um robe largo e um chapéu pontudo, entra em cena. Ele começa os seus encantamentos, quando hostes de demônios aparecem e dançam ao redor do caldeirão. De repente, entre o clangor de um trovão e o brilho de um raio, a caverna se transforma em um escritório do século XX, arrumando para uma sessão de conjuração. O decrépito feiticieiro se transforma em um cavalheiro em roupas noturnas – Sr. Fox – que começa seu entretenimento atualizado de magia moderna. Isso não é algo brilhante?

Imro Fox necromante
Imro Fox vestido de Necromante / Alquimista

Imro faleceu em 1910 em Nova York, por um capricho do destino, no saguão de um hotel. Após a primeira apresentação daquela noite, Imro foi desça Sar em seu quarto, quando sentiu um mal súbito. Ele desceu correndo até o saguão à  procura de ajuda, mas está não chegou a tempo. Imro faleceu naquele mesmo dia 04 de março. Curiosamente sua carreira começou – e terminou – em um hotel. Apesar da carreira relativamente curta, Imro foi querido por todos. Certamente, se questionado, diria em seu inglês carregado, que estava indo descobrir, afinal, se o céu era mesmo como a sua careca.

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NOTAS

[1] A piada foi adaptada para ter algum sentido em português. No original: “Why is my head like Heaven? Because there is no parting there!

[2] A data de nascimento, bem como o ano de migração de Imro não é unânime. A maioria das fontes aponta para a data mencionada no artigo. O periódico “The Crest Magician” de fevereiro de 1908, aponta 5 de maio de 1862 como a data de nascimento de Imro, bem como sua migração para a América ao 11 anos de idade, e não aos 17. Já o periódico “Magic” de Ellis Stanion, de maio de 1902, traz a data de 21 de maio de 1852 como a data de nascimento de Imro, e diz que ele migrou para a América em 1874.

[3] Infelizmente não encontrei os filmes na internet.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: “Magic” de Ellis Stanyon – Vol. II, n. 08, maio de 1902;

Periódico: “Mahatma” – Vol. I, n. 03, maio de 1895;

Periódico: “The Crest Magician” – Vol. I, n. 04, fevereiro de 1908.

Periódico: The Open Court, a Monthly Magazine – Vol 19, n. 08, julho de 1905;

QUANDO UM TRAPACEIRO VENEZUELANO PERDEU (E FICOU ETERNIZADO POR ISSO)

Artigo original escrito por Ernesto J. Navarro

Enviado a mim, por Juan Araújo

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

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Félix Vargas Chacón era um excelente jogador de cartas. Mais do que isso, era um exímio trapaceiro.  Nascido em 3 de abril de 1916, na Venezuela, Félix fez sua fama pelos cassinos do Caribe e no submundo dos jogos e trapaças. O homem era uma lenda.

Quando ainda era criança, seu pai abandou o lar por questões de segurança. Revolucionário, participou de um movimento que tentou tomar o controle da cidade das mãos do Governo Federal. O grupo falhou e, por isso, teve que passar anos escondido na clandestinidade.

Ao voltar para a legalidade, o pai pede que todos os filhos ajudem no sutento da casa. A Félix foi sobrou o encargo de capitanear uma goleta, uma pequena embarcação à vela, que levava os turistas em um passeio até a Ilha de Margarita, no norte da Venezuela.

Félix Vargas Chacón

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“MÃE, VOU CONQUISTAR O MUNDO!”

Aos 14 anos, Félix, havia adquirido gosto pelos jogos de azar e em uma certa noite, possivelmente após beber muito e farrear ainda mais, decidiu abandonar a embarcação para um “passeio”. Quando voltou percebeu que a adega do barco havia sido roubada. Seu pai o afastou das funções no barco, foi quando decidiu sair pelo mundo atrás de aventuras.

Mãe, vou conquistar o mundo!” Essa foi a despedida de Félix para a sua mãe. Ele deixou a sua cidade e viajou até a capital, Caracas. 400 km ao longo do mar do Caribe. Foi em Caracas que Félix comeceu a tecer, o que ele mesmo chamou de: “sua desordenada vida”.

Félix era gentil e encantador. Possuía um carisma natural. “Ele era capaz de lhe vender algo que você sequer tinha a intenção de comprar” conta o escritor venezuelano José Roberto Duque. Isso, somado à sua exímia habilidade de prestidigitação com cartas, transformaram Félix rapidamente no mais famoso e requisitado jogador de cartas, ou na língua nativa, tahúr, em todo o Caribe.

Ele era do tipo que lograva os ricaços e os cassinos. Basicamente aqueles que realmente não precisavam do dinheiro que perdiam. Dessa forma, acabou levando uma vida de ‘playboy’. Com suas habilidades para o ‘baccarat’ logrou viver de roubar os milhonários do Caribe“, conta Duque.

Uma pequena amostra de seu estilo de vida foi divulgado pela imprensa venezuelana em 1950. Após ser detido em Caracas, acusado de cometer um golpe, o jornal “El Nacional” publicou uma nota com o seguinte frase: “Ele era o estrangeiro mais bem vestido no México, nos últimos três anos.” Nos anos mais ativos de sua “profissão” como tahúr entrou e saiu da Venezuela tantas vezes quanto entrou e saiu da prisão.

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LA MEDICINA

Félix era um mestre nos truques com cartas e nas trapaças dos jogos de azar. Seu objetivo era simpless: lucrar o máximo possível. Em sua biografia, Félix relata que seu mais famoso golpe foi batizado de “la medicina” (“a droga”, em tradução livre).

A primeira coisa que Félix fazia era identificar empresários com empresas legalmente constituídas, mas que trabalhavam com contrabando. Se aproximava dessas pessoas, ganhava sua confiança e as estudava a fundo.

Félix dizia que as pessoas com mais estudo fazem mais perguntas, mas também creem mais facilmente a tudo que lhe respondem. Eles também não refaziam perguntas, com medo de passarem por ignorantes. Certamente uma vantagem para os golpes de Félix e uma valiosa lição até hoje.

Depois de um tempo, Félix realizava a trampa. Juntamente com três comparsas alugava alguns quartos em hoteis distintos. Juntamente com a vítima, chegava ao primeiro hotel, e um dos sócios dizia possuir dois quilos de cocaína. Félix pedia para 20 gramas já que não tinha dinheiro para comprar maior quantidade. O comparsa aceitava “vender” essa quantidade irrisória, apenas porque conhecia Félix. Féliz entregava o dinheiro e recebia um pequeno papelote de papel alumínio lacrado. Eles então saíam do hotel.

Dirigiam-se então ao segundo quarto. Nesse interim o primeiro vendedor comunicava um segundo comparsa que encontrava-se casaualmente com Félix, fingindo ser um consumidor desesperado por uma dose. Félix dizia que não podia vender a droga para ele, até porque só tinha um papelote pequeno. O comparsa oferecia então à Félix o dobro do que este havia pago pelo papelote de cocaína (que na realidade era bicarbonato de sódio).

Ato seguinte, o comprador-comparsa, alegando dificuldades de conseguir a droga, prometia pagar generosamente por uma quantidade maior. Félix e a vítima voltavam ao primeiro quarto de hotel e o tahúr tratava de pedir os dois quilos de cocaína fiado. Como Felix era menor de 90 anos e não estava acompanhado dos pais, a oferta era, obviamente negada.

Vendo a possibilidade de ganhar dinheiro fácil e rápido, a vítima, movida pela ganância, aceitava por seu próprio dinheiro no negócio. Quando se dirigiam ao econcontro do usuário para vender-lhe a droga, eram interceptados por um policial de verdade, porém comparsa de Félix. Ele dava voz de prisão aos homens, mas para evitar problemas burocráticos, topava deixá-los ir embora, se lhe entregassem a droga e prometessem nunca mais se envolver com aquilo. A oferta era prontamente aceita. Assim, se perdia a droga, o papelote e o dinheiro já estava pago. Essa receita rendeu a Félix, milhares de dólares.

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UMA BOA VIDA

Seus golpes sempre lhe renderam grandes cifras de dinheiro, o que facilitou a sua entrada na alta sociedade, em especial nos círculos políticos e de entretenimento na Venezuela, México, Cuba, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, entre outros países. Em suas memórias, garantiu ter conhecido Fidel Castro quando este estava na iminência de tomar a ilha. Conheceu também Che, Raúl e outros guerrilheiros.

Suas memórias aliás, viraram um livro, publicado ainda na década de 1970. Está recheado de histórias fantásticas como da fuga de uma prisão mexicana em meados de 1953 a bordo de um Cadillac zero quilômetro junto com uma aeromoça. Um roteiro de filme, sem dúvidas. Outra história curiosa foi quando conheceu a sua esposa durante uma luta de boxe entre dois campões olímpicos.

Félix viveu uma vida de extremos: cercou-se de homens bons e homens maus, heróis e delinquentes, gregos e troianos, segundo suas próprias palavras. Esses contatos lhe abriram portas. Instalou no México alguns cabarés que serviam à nata da sociedade. Todos queriam beber com Félix.

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UM NOVO TRAPACEIRO ARREPENDIDO

Félix conta em seu livro suas aventuras, mas também fala de sua “conversão”. Após o casamento se arrepende de seus crimes e se dedica a emendar a sua vida, e a instruir os demais sobre os perigos dos jogos de azar e das drogas. A história se repete

Seu livro no fim das contas, serve tanto como relato biográfico, como uma grande e completa reportagem sobre a delinquencia e o mundo interno dos cassinos e jogos de azar.

No fim das contas foram quarenta anos de delitos. Félix sempre reconhecera que grande parte de sua sorte estava embasada nos contatos políticos que havia colecionado ao longo dos anos. também sabia que suas histórias poderiam servir de lição para outros. Não a toa, todas as três edições do livro sempre constaram como esgotada. mesmo hoje, é difícil de achar uma cópia. A que está disponível na Biblioteca Nacional da Venezuela, está guardada no acervo “raros”.

Na Venezuela, um livro com boas vendas vende algo entre 2.000 e 3.000 cópias. O livro de Félix vendeu 65.000. Seus livros vendiam como pão quente, pois não contavam apenas a história do mais universal tahúr da Venezuela, mas a história de Cuba de Batista e a decomposição da própria Venezuela.

Não houve tahúr como ele no Caribe, com uma habilidade inata para a psicologia. Conhecia a fundo suas vítimas. Mas também era humano e bondoso. Era dificil desgostar de quem roubava homens de colarinho branco e outros delinquantes“, contou seu amigo, o poeta Juan Calzadilla.

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A MORTE E A ETERNIZAÇÃO DO TAHÚR

No fim de sua vida, Félix Vargas Charcon, vivia uma vida pacata e expressava com uma ponta de tristeza: “Vivi ladrão em um mundo de honrados; agora sou um honrado em um mundo de ladrões.

Félix faleceu em janeiro de 2014. Tinha 98 anos.

Um dia, um “argentino manco” resolveu contar para o mundo a história de Félix, usando para tanto apenas sua elegância e sua mão esquerda. O resultado, podemos contemplar abaixo:

 

Quando Félix decidiu sair de sua cidade natal, Cumaná, e conquistar o mundo, ele acabou fazendo uma profecia acerca de si mesmo, ao despedir-se de sua mãe. Como todo nascido em Cumaná, Félix era um cumanês. E foi com esse apelido gentílico que criou para si a figura de um exímio tahúr que viria a conquistar o mundo. Félix Vargas Chacón era “O” Cumanês.

Memórias de "el cumanês"
Livro autobiográfico de Félix Vargas Chacón

MATHIAS BUCHINGER, UM ANÃO GIGANTE!

“É fácil entender porque Ricky Jay se encantou tanto por Mathias Buchinger. O pequeno homem era um dínamo, um mistério, um super herói no mundo real – embora, provavelmente jamais o vejamos em um filme de Hollywood. Super heróis dos quadrinhos, têm muito ‘sex appeal’, mas muito pouco sexo. Em comparação, o rechonchudo Buchinger era um garanhão”

Teller sobre a biografia de Mathias Buchinger, escrita por Ricky Jay.

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O público em frente ao “Corner House” em Charing Cross, Londres, não podia acreditar no que estava vendo. Prontos para ver uma “tragédia”, acabaram sendo calados, silenciados por algo incrível. Diante deles um homem inválido, cujas pernas iam até pouco antes de onde deveriam haver seus joelhos, e com braços que terminavam antes dos cotovelos (e que, convenhamos, pareciam dois galhos serrados) havia lhes prometido um show de ilusionismo, caligrafia, arte e música. Por certo seria um espetáculo dantesco, de um humor macabro alimentado por uma curiosidade mórbida. O que todos viram, porém, naquele dia, calou-lhes a boca e encheu-lhes os olhos.

V0007015ER Matthias Buchinger, a phocomelic. Stipple engraving.

Mathias Buchinger nasceu em 2 de junho de 1674 em Ansbach, na Alemanha. Sua família não era rica, mas também não havia necessidades. Dentre os oito filhos e uma filha, Mathias era o mais novo e o único com defeito. Provavelmente nasceu com focomelia, uma doença que causa o encurtamento dos membros superiores e inferiores. O braço direito de Buchinger terminava pouco antes do cotovelo; do lado esquerdo, o braço era um pouco maior do que o cotovelo, o que lhe dava uma leve flexão. Ambos braços terminavam em uma protuberância que lembrava mais um balão murcho do que uma mão. O mesmo às suas pernas. Isso, obviamente, impedia Mathias de caminhar, por isso ele se arrastava pelo chão para se locomover.

Isolado do mundo externo, desde a infância, pelos pais, Mathias acabou encontrando companhia em atividades solitárias como música, caligrafia, artes. E, além de tempo para praticá-las, Mathias possuía talento. Já aos vinte anos, começou a se apresentar como uma atração “sideshow” (show de horrores), mas encantava também pelo seu talento. Bem mais tarde, aos 40 anos, Mathias decidiu ver se conseguiria impressionar – e quiçá até influenciar – alguém importante na Inglaterra E foi ali que ele viveu até o fim de seus dias.

É noticiado em um cartaz de propaganda de Mathias, datado de 1717 que, entre outras feitos incríveis, Mathias fabricava suas próprias canetas, escrevia tão rapidamente e tão perfeitamente quanto qualquer mestre da caligrafia, costurava com agulha e linha muito rapidamente, e possuía habilidades surpreendentes e convincentes em “legierdemain” (manipulação). Em outro cartaz, Buchinger vende-se dizendo que nunca, na história da humanidade houve alguém como Mathias, e provavelmente nunca mais haverá. Essa descrição certamente despertou a curiosidade de muitas pessoas importantes, possivelmente até o Rei George I que o recebeu para um show.

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Cartaz anunciando o show, e as habilidades de Mathias Buchinger. (Clique na imagem para ampliar)

O Rei Geroge I, impressionado com Mathias, pessoalmente buscou entre a nata da sociedade algum mecenas que pudesse subsidiar os gastos de Mathias. Em 1716, Mathias presenteou o Rei com um instrumento musical fabricado pelo próprio Mathias, e uma carta solicitando que o Rei fosse o seu mecenas. O Rei George recusou a oferta, mas fez questão de pagar generosamente pelo instrumento.

Desanimado pela tentativa falha de uma pensão vitalícia, Mathias decidiu adotar suas performances como meio de vida. à época a Inglaterra estava com uma demanda por “side shows” de “horror” e Mathias se encaixava perfeitamente neste conceito. Mathias passou então a apresentar as suas habilidades, a um shilling por espectador. Em suas apresentações, as pessoas poderiam ver Mathias atirando com armas de fogo, tocando um instrumento, jogando cartas, além das já citadas habilidades. Se valendo de próteses que lhe permitiam tais feitos, Buchinger surpreendia ao público, não só pela habilidade, mas pela sua inteligência e perspicácia que superava, em muito, suas limitações. O seu sucesso foi tamanho, que não tardou para que Mathias fosse requisitado para performances particulares.

Se a sua carreira ia bem, o mesmo não podia ser dito de sua vida particular. Mathias que, a esta altura, estava casado com a sua segunda esposa, supostamente foi vítima de agressão, verbal e física, por parte da esposa. Mathias, que sempre fora um homem calmo e até bastante extrovertido viu-se em meio a um turbilhão emocional que culminou com Mathias expulsando a esposa da casa onde eles viviam e, agredindo ela em público, até que ela jurasse nunca mais agredi-lo novamente. O caso ganhou notoriedade, tanto quanto sua fama artística de Mathias, a tal ponto que em um poema, em sua homenagem, contem os seguintes versos: “Ele nunca cometeu, nenhum deslize em sua vida / Exceto casar-se com  sua segunda esposa“. Seja por isso ou não, o fato é que logo depois desse triste episódio, o divórcio entre eles se consumou.

Mathias casou-se ainda mais duas vezes e teve ao todo, 14 filhos: Um da primeira esposa, três da segunda, 6 da terceira e 4 da última esposa (embora algumas fontes digam que ele teve apenas 11 filhos, e outras dão conta que ele teve ao todo 8 mulheres diferentes, além de diversas concubinas). Um dos desenhos mais conhecidos de Buchinger é uma árvore genealógica em que ele aparece como o tronco, suas esposas como galhos e seus filhos como os frutos.

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Árvore genealógica de Mathias Buchinger

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Mathias vivia circulando entre Inglaterra, Escócia e Irlanda, apresentando-se. Aprendeu novas habilidades como tocar gaita de foles e dança escocesa (segundo ele, ele dançava tão bem quanto qualquer “highlander” sem as pernas). Ele também melhorou sua habilidade de escrita, aprendendo a escrever em qualquer direção e até mesmo espelhado.

Aliás, a mais impressionante habilidade de Mathias era sua capacidade de escrever em miniaturas. Tamanha era a sua habilidade que ele colocava mensagens “ocultas” em seus desenhos, como por exemplo, transformando mensagens da bíblia em cabelo. Por exemplo, em um de seus autorretratos, Mathias, ao invés de desenhar os fios do cabelos, transcreveu os salmos 121, 127, 128, 130, 141, 149 e 150, e ainda a oração do Pai Nosso.

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Auto retrato de Mathias Buchinger. Repare que os cabelos, ao invés de desenhados, são salmos transcritos.  (Clique na imagem para ampliar)

O tempo passou e logo o ato de Mathias deixou de ser novidade, vindo a decair em termos de espectadores. A idade também já começava a pesar sobre os ombros de Mathias que não tardou a diminuir sua carga de shows, de 7 apresentações diárias, para apenas duas. Assim, novamente Mathias tentou conseguir alguma pensão governamental e desta vez escreveu a um Palatino – uma espécie de nobre, representante direto da Coroa Britânica – dessa vez se valendo de sua terceira esposa, Anna Elisabete, que era filho de um já falecido Palatino, como chantagem emocional. Novamente seu pedido foi negado.

Em 14 de abril de 1733 ele escreve a Robert Harley, Conde de Oxford, oferecendo a ele a oportunidade de comprar um de seus desenhos, e que lhe custara 15 meses de trabalho. Mathias não estipula preço pela obra, deixando o conde livre para pagar o que achasse justo, porém, Mathias faz referência a uma suposta doença que lhe causaria tremores e febres e que o impediam de trabalhar novamente com tanto afinco. Seja, verdade, seja um mero truque emocional de vendas, o fato é que o Conde acabou adquirindo a obra.

Sem título

(Clique na imagem para ampliar).

Seis anos mais tarde, em 1739, Mathias veio a falecer com 65 anos em Cork, na Irlanda. Mas isso não interrompeu as excentricidades de Mathias. Seu último desejo foi que seu esqueleto fosse doado para uma Universidade local para ser estudado. O que Mathias achava que os cientistas iriam descobrir é incerto. O que é certo, porém, é que, quando de sua morte, Mathias teve todas as honras de um homem respeitável.

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Uma das mais impressionantes habilidades de Mathias era o truque dos covilhetes. Ele produzia os copos e enquanto o público se perguntava para onde havia ido a bolinha, Buchinger, os surpreendia, revelando um pássaro vivo debaixo do copo. A fama de Buchinger à época foi tanta, que seu sobrenome “Buchinger” acabou tornando-se um gíria para “pequeno”.

O fato é que sua fama veio por causa de suas habilidades, mais do que pelo seu tamanho – embora seja inegável que sua deformidade potencializou os seus feitos – característica esta recorrente em todos aqueles capazes de superarem a si mesmos e as limitações que lhe foram impostas.

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Detalhe do cartaz do Mathias Buchinger, em que ele está executando os covilhetes.

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BIBLIOGRAFIA

“The Dublin Penny Journal” Vol. I, nº 44 – 27 de abril de 1833

“The Scots Magazine and Edinburgh Litarary Miscellany”  – abril de 1807

Edward Wood em: “Giants and Dwarfs” – 1868 p. 287 – 300

Ken Johnson em: “Astouding feats in Pen, Ink and Magnifying Glass” –  The New York Times, 14 de janeiro 2016

Wikipedia: “Mathias Buchinger

Exposição: “Desenhos de Mathias Buchinger por Rick Jay” no MET Museum

ENTREVISTAS COM RENÉ LAVAND

Poderia viver em uma casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito” – William Shakespeare

Em minha humilde, parcial e nada embasada opinião o maior mágico que já viveu entre nós é René Lavand. Dono de um estilo único e inconfundível, suas apresentações conseguiam cativar e maravilhar até aqueles que não gostam de mágica. Feito raro entre nossos pares. O maior arrependimento de minha vida foi nunca ter podido conhecê-lo (e o pior, saber que eu tive a oportunidade…).

O Blog Água & Azeite dedica este post à vida e à obra de René Lavand. Trata-se de um compilado com diversas entrevistas, todas extraídas da internet e traduzidas por mim.

René Lavand

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Antes de mais nada, temos que chegar a cidade de Tandil, atravessá-la, sair dela, percorrer estradas de terra, uma curva, outra curva, uma terceira curva e então, à direita, vê-se uma cabana com uma placa que diz “Milagro verde“, um pequeno telhado debaixo do qual se encontra um Audi novo, impecável, e muitas árvores. à frente da cabana está um homem sentado à mesa, em frente à cabana e debaixo do sol quente da manhã, um homem que bebe vinho tinto, veste uma camisa clara, gravata borboleta, calças beges, sapatos brancos, e enormes olhos aquosos – um deles com a pálpebra caída – sobrancelhas grossas e um bigote. A mão direita está no bolso.

A cabana é assim: uma cabana de troncos, com uma porta estreita a qual se acessa por quatro degraus. Dentro, depois da entrada, há uma mesa grande, um candelabro de uma só vela, em seguida a sala – cadeiras, poltronas, um enorme painel de vidro fixo – um pequeno espaço e em seguida mais móveis: um porta bengalas com diversas bengalas, e na parede, diversos chapéus: boinas, chapéus texanos, gorros de couro; no chão, diversos compactos: Beethoven, Mozart, Vivaldi, Bach – e uma mesa redonda coberta por uma toalha verde e sobre a toalha, diversos maços de cartas. E por todas as paredes desenhos e fotos de uma mão esquerda e do homem que, sentando de frente a uma mesa, em frente de uma cabana, sob o sol do meio dia, bebe vinho tinto. Às suas costas, sobre a porta de entrada da cabana, o seguinte dizer: “Poderia viver em um casca de noz e, ainda assim,  sentir-me o rei do Universo infinito”.

– Shakespeare – diz o homem

Mas a frase de Shakespeare é assim: “Poderia viver em um casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito, se não fossem os meus sonhos ruins”. Claro que o homem conhece as vantagens: uma pequena mutilação pode transformar algo em outra coisa. Pode transformar, por exemplo, um garoto comum em um homem extraordinário; a Héctor René Lavandera, nascido em setembro de 1928, em Buenos Aires, em René Lavand, habitante de Tandil e especialista em “close-up” (mágica de perto, feita com cartas e objetos pequenos), e um dos melhores do mundo na especialidade de ilusões com cartas; se não o melhor, ao menos único. Isso porque René Lavand tem apenas uma única mão, a mão esquerda.

– Venha, vamos conversar no meu Laboratório.

Filho único de Antonio Lavandera e de Sara Fernández, caixeiro viajante ele, professora, ela, o filho Héctor René Lavandera viveu com sua família em diversos locais da capital Argentina. Em uma dessas mudanças, seu pai montou uma sapataria. Em 1935, quando o menino tinha sete anos, chegou em Buenos Aires um mágico chamado Chang e lá foi ele, mãos dadas com sua tia Juana. Quando Chang subiu ao palco, o menino ficou mudo e desejou que seu pai fosse Chang, que Chang fosse seu pai, para aprender dele todos os truques. Durante semanas, durante meses, não se falou de outra coisa naquela casa: no café da manhã: Chang; no almoço: Chang; no lanche da tarde e na janta: Chang. Um amigo da família, comovido, ensinou um truque de cartas que o obeso garoto começou a praticar com dedicação. Pouco depois, a sapataria do pai se fundiu a outro negócio, e eles se mudaram para Coronel Suarez, um povoado da província de Buenos Aires, onde um novo emprego esperava por seu pai. Em fevereiro de 1937 o menino tinha nove anos. Era carnaval e fazia muito calor. Ele estava jogando bola a meia quadra de sua casa quando seus amigos disseram: “Vamos atravessar a rua”. Era um desafio menor: não era um rio, não era um abismo, não era subir uma montanha; eram cinco metros de asfalto, mas o menino havia sido proibido de atravessá-los sozinho. Seus amigos cruzaram a rua e ele pensou: “Também vou atravessar”. E atravessou. E entre o menino e o resto de sua vida se interpôs um menino de 17 anos a bordo do automóvel de seu pai. Houve uma manobra brusca, uma criança caída, pneus derrapando, derrapando… lesão gravíssima: o antebraço direito contra o meio-fio da calçada. Sara, sua mãe, escutou o barulho e pensou: “Héctor atravessou a rua”. Chegou correndo e quando viu o menino caído, os vizinhos lhe ajudaram para que não gritasse e levaram o garoto até a clínica médica que estava justo em frente ao local do acidente. O médico plantonista quis logo amputar o braço do menino – “lesão gravíssima” – à altura do ombro. Uma vizinha foi quem protestou: “Espere que chegue o Dr. Patané”. Assim, esperaram. Dr. Patané chegou e salvou o braço do menino, mas cortou a mão. Deixou um coto de cerca de 11 centímetros abaixo do cotovelo direito. O menino era destro.

Chang (nome artístico de Juan José Pablo Jesorum), litografia de 1939.

– Este é o meu laboratório. Passo hora aqui olhando o parque, escutando música.

O coto esquerdo sobre a mesa, a mão esquerda erguida, anel no dedo mínimo. Um golpista que quer se parecer com um golpista.

– Às vezes repasso minhas composições, vejo como posso melhorá-las. Eu já consegui – e me desculpe pelo “eu” – aquilo que, se já se escutou a Sétima Sinfonia de Beethoven mil vezes, cada vez que a escuta, é a mesma apoteose.

A reabilitação do garoto durou um ano. Não existem relatos precisos à respeito, mas se sabe que o baralho lhe entreteve. Primeiro, as cartas caiam torpes daquela mão torpe, esquerda demais. Insistiu com tesão, impôs-se uma disciplina árdua: jogar ping-pong, futebol de mesa. Mas as cartas lhe custaram sangue. Embaralhar, distribuir, cortar, levantar, ocultar, esconder, empalmar: sangue. Cresceu. Tinha 14 anos quando sua mãe conseguiu um emprego de professora longe de Coronel Suarez e se mudaram novamente, desta vez para Tandil. Não há memórias tristes daquela adolescência. Colégio, amigos, um pai que lhe aconselhou: “Ao primeiro que lhe chamar de maneta de merda, quebre-lhe a cara, que eu te livro da diretoria”. Um homem chamado Leonardi, aficionado por mágica, lhe ensinou alguns truques e lhe presenteou com um livro de cartomagia de Joan Bernat y Fábregas. O presente confirmou o que o jovem já sabia: as técnicas, todas, eram para mágicos com duas mãos. Ninguém nunca havia pensado que algum dia houvesse um mágico com uma só mão. Mas insistiu e quando terminou o colégio sua mão respondia mais ou menos, obediente. Em 1955 seu pai faleceu em função de um câncer e o peso da dívidas, da casa e da mãe, caíram sobre o jovem. Saiu à procura de um emprego e encontrou um no Banco Nación. Passou ali os dez seguintes anos de sua vida. Em algum momento conheceu uma mulher chamada Sara Dellacqua e se casaram. Tiveram duas filhas: Graciela e Julia. Em 1960 ganhou um diploma em ilusionismo e lhe ofereceram que debutasse em Buenos Aires. Dois teatros: Tabarís e El Nacional lhe incluíram em seus espetáculos de variedades. Rebatizou-se René Lavand, com uma sofisticação já um tanto “demodé“, mas que fazia sentido: dentre os elegantes, os franceses, eram os melhores. Já em 1965 era imparável: fez uma temporada na Cidade do México e suas turnês pela América Latina eram frequentes. O público se rendia ante a mão que fazia milagres, à voz que magnética que transmitiam coragem e à emoção das histórias de um velho golpista do Sul dos Estados Unidos, de um mágico oriental preso em uma masmorra, de um “tahúr” obrigado por sua mulher a ganhar uma fortuna antes da meia noite…

O que é a magia, René?

É a  comunicação artística e humana alcançado junto ao público. Seja Marta Argerich no piano, seja Julio Bocca dançando ou, numa dessas, René Lavand – perdão se falo de mim em terceira pessoa – com o baralho nas mãos. Para mim, isso é magia, eu sou ilusionista. É uma questão de termos, nada mais.

O que seria de René Lavand sem o ilusionismo, então?

O que seria? Hector René Lavandera, que é meu verdadeiro nome. Mas o certo é que não o conheço, e é difícil para mim imaginar um René Lavand sem o ilusionismo. Porque me acompanha desde os sete anos com as duas mãos e, depois do acidente, aos 9, com uma.

Você sempre diz que foi um autodidata nisto de aprender a arte…

À força, por isso que acabei de falar: o acidente. Não existem livros que expliquem técnicas para uma só mão.

Dizem que em Tandil, as pessoas contam que era um verdadeiro espetáculo vê-lo contar as cédulas no banco…

São anedotas que contam por aí, são fantasias do povo. Não, isso… eu com o baralho me defendo, algo que fiz por toda a minha vida, assim que aprendi, certo? E fui obrigado a criar, como dizíamos a pouco.

Você é um artista muito conhecido, não só por ter apenas uma mão, mas também por sua humildade, cavalheirismo, pela gentileza em cima do palco e as histórias que conta…

Não sei se sou humilde, não creio. Tampouco sou um falso modesto, claro, isso é pior. Creio que se alcancei alguma fama, foi por meu estilo, não pela mão. Por que pra mim dá no mesmo, já que citei Marta Argerich, que ela toque com uma mão ou com sete; o que me interessa é que me toque a alma, que me comova. Assim, não é a forma de fazer, mas sim, a forma de fazer no que respeita a expressão. O segredo não está no que se faz, senão em como se faz, evidentemente. Mas não por ter uma só mão, isso não conta. Isto é uma adição que o público faz, mas é a última adição: “Tchê, e com uma só mão! Que filho da…“, essa é a última. Mas nunca fiz nada para que me aplaudissem por fazer com uma mão. Dá no mesmo com uma ou com duas.

Esta a par das figuras do mundo da arte?

Se estou a par de quê?

Se há alguma artista que goste, que se destaca nesse momento?

Bom, sim, acabei de falar com um amigo a quem admiro artísticamente, Morrison. Falei com ele faz três minutos, da Espanha, me telefona sempre. Somos muito amigos me disse para ver quando vou ir vê-lo. Mas mora em Sevilha, não posso viajar tanto, tenho quase 79 anos. Mas bem, por outro lado, a Espanha está me chamando. Para mim Europa é dos Pirineus para cá, já a esta altura. Gosto de voltar a Espanha pelo reencontro amigos, pelo carinho, com anfitriões e com um dinheiro importante. Em Tandil vivo para descansar, porque, por sorte, não me chamam a nenhuma parte, então, aproveito para descansar. O mercado está, sobretudo, na Espanha. Também tenho feito, por agora, Texas, Colômbia, tenho que ir a Belo Horizonte, outra vez a Colômbia., também tenho que fazer essas coisas. Mas, sim, me interessa.

Em Tandil vem muita gente visitá-lo? Disseste que tens discípulos…

Vivo um pouco escondido aqui, ao pé de um monte. Mas sempre aparece gente para tirar fotos, e coisas que, bem, me fazem sentir afagado. Ainda que, às vezes, seja um pouco pesado, mas, bem, esse é o preço.

Conte-nos como foi a atuação em “Un oso rojo” (“Um urso vermelho”) e se pensas em voltar a atuar.

Não, não. Essa foi uma coisa circunstancial, em que tive a oportunidade de interpretar um vilão, e talvez por isso, disseram que o fiz muito bem (risos). Foi um bom filme e uma grande experiência para mim trabalhar com Caetano, com Julio Chávez, excelente ator e, bem… nada mais. Uma experiência para a vida, muito linda.

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Cena do filme “Un Oso Rojo”

René, recém me falaste de Morrison a nível mundial, a nível nacional. Crês que estão saindo bons ilusionistas, bons artistas?

Não os vejo, não os vejo. Não vejo pela televisão a especialidade, não se vê representada.

Por que crês que a magia deve ser difundida pelo país?

A magia deve ser difundida, ou não deve ser difundida. Se vão fazê-la bem, que a difundam. Porque então melhorará o bom gosto e o conhecimento de parte do público. Agora, se vão fazê-la mal, são a vão executar mágicos e “magiquinhos” de meia tigela, então que não se difunda. Estou implorando que não se difunda. Agora, se vão fazer bem, então, sim, claro que sim. Porque então vai haver um público predisposto, como há na Espanha. Eu recebo ofertas de diversas locais, nas mais diferentes cidades principais da Espanha. Por quê? Por que a magia que você chama e eu chamo de ilusionismo, está imposta. E por que está imposta? Porque tem bons artistas. Então sim, que a difundam.

Então, o que tem que ter um bom artista, um bom ilusionista?

Um bom artista tem que ser artista, comecemos por isso. Por que não há um prestidigitador sem ser ator primeiro. E depois ter estilo. Estilo, por que não há artista sem estilo. Sem sombra de dúvida.

O que você responde, se lhe perguntam ‘quem é René Lavand’?

Um ser humano de carne e osso como todos os outros, que pode superar-se em algum momento da vida; e se faço um balanço de maus quase 86 anos, conquistei o que jamais sonhei que poderia conquistar: viajar pelos cinco continentes com talismãs de cartão pintados (em uma referência a como Jorge Luis Borges chamava as cartas).

Como gosta que lhe chamem?

Gosto da palavra magia, mas ela não é muito clara. Prefiro ilusionista, porque sou um criador de ilusões. ME encanta a palavra ilusionismo e a palavra magia prefiro empregá-la em outras questões. Enquanto a palavra mágico como qualificativo, e a palavra truque, ambas me soam insuportáveis. Truque é o que faz um cigano para vender seus produtos, por outro lado, eu faço jogo. Jogos que, para se converterem em composições – e me orgulho de haver conseguido – devem ter o equilíbrio harmônico entre o que eu digo e o que eu faço, com as justas pausas, precisas e necessárias, que são o silêncio.

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Se considera um mestre do ilusionismo?

Maestro é quem dita os rumos, não sei se me essa palavra corresponde a mim, mas sim, ditei alguns rumos na vida, aceito com gosto que me chamem assim.

Teve dúvidas ao longo de sua carreira?

Sempre. Quem não as tem? Quando há responsabilidades, sobretudo, há dúvidas. Até me pergunto: “Como sairá isso hoje à noite?”

Quanto há de talento e quanto há de esforço, na sua arte?

Como diz uma sábia frase: “O gênio se deve à transpiração”. Estou longe de ser um gênio, mas creio que sou talentoso porque transpirei. Sempre tem que ter algo, por isso, alguns  escolhem na vida e, aos poucos, se transformam nisso que escolheram.

Como faz para que algo, que parece tão difícil, pareça tão simples?

Chegar à simplicidade é muito difícil, não ao simplório, isso é outra coisa. Há uma distância abismal entre a simplicidade e o simplório. O ser humano sempre tende a complicar as coisas. Como disse Juan Carlos Lopes: “O difícil do tango, é fazê-lo fácil”. Isso é um mestre. Ditou rumos!

Como faz para seguir atuando por todo o mundo?

Por amor à arte, e sem poupar esforços…

Pensou alguma vez em abrir uma escola, e ter alunos?

Tenho discípulos, mas não sou um fabricante de artistas. Acabamos nos tornando íntimos, amigos e no fim, eu acabo aprendendo com eles.

Bom, então você marcou alguns caminhos e, por isso, é um mestre…

Por questões de sobriedade deveria perguntar a eles, não a mim, mas se for assim, me bajula o título de mestre.

O que acontece se sai uma carta equivocada em pleno show?

Bom, Martha Argerich, suponho eu, alguma vez já desafinou alguma nota, e nem por isso deixou de ser Martha Argerich…

E o que o fez decidir que era a hora de se aposentar?

A idade. Deve se respeitar e aceitar a etapa da vida que estás a viver. Tenho visto a decadência de muitos artista e fiquei com pena. Não quero passar por isso. Sou um homem humilde, mas tenho orgulho. Prefiro me retirar com um sete e meio, antes que o público me retire com um quatro ou cinco.

Como você vê os jovens hoje em dia, e que conselho daria a eles?
A juventude que me rodeia é de primeira linha. Tenho muitos amigos jovens que vivem em minha casa e somos bons amigos, mas certamente há de tudo. O que lhes diria é que tudo são motivações, sejam boas ou más, sejam brandas ou duras, e devem aproveitá-las. A juventude é uma enfermidade que se cura apenas com o passar dos anos.

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Pode-se fazer mais lento no dia a dia?

Creio que não. Creio que consegui o máximo nesse sentido. Por isso digo o “talvez se possa fazer mais lento”.

Encarna a sua filosofia de trabalho?

Sim, evidentemente. Uma sábia frase disse que quanto mais suave é a carícia, mais ela penetra. Eu digo que quanto mais lento o movimento, mais impacta no assombro.

Há muitos anos atrás, René Lavand modificou um clássico truque de mágica chamado “Água e Azeite”: três cartas vermelhas e três cartas negras que, dispostas alternadamente uma a uma, terminam sempre juntas, enfileiradas: vermelhas para um lado, negras para o outro. Se o lugar comum da mágica diz que é possível que coisas assim aconteçam porque a mão é mais rápida que o olho, René meteu o dedo nessa ferida e fez o contrário: exacerbou a lentidão desta composição de aparência simples e chamou essa técnica de “lentidigitação” e conquistou algo que os ilusionistas consideram uma obra de arte: a sua versão de “Água e Azeite” aqui chamada de “Não só pode fazer mais lento”, a qual, feita com uma só mão e com uma lentidão de igreja e de incensário, faz com que as três cartas negras e as três cartas vermelhas terminem magneticamente unidas entre si, uma e outra vez, e cada vez, mais devagar. Por dentro, enquanto executa o truque, René é uma máquina precisa, uma engrenagem, um centurião suando por sua vida. Por fora, o que se vê é isto: sua mão líquida, fluída, rastejante. E sua infinita graça!

– Æ –

Abaixo, uma entrevista com René Lavand, dividida em três partes, em que ele conta um pouco mais da sua curiosa história:

– Æ –

LINKS DAS ENTREVISTAS

http://www.lanacion.com.ar/1766593-quien-era-rene-lavand

http://www.infomagos.com.ar/entrevistas/entrevista-lavand.htm

http://www.perfil.com/espectaculos/rene-lavand-en-la-vida-todas-son-motivaciones.phtml

MAIS ENTREVISTAS

Abaixo, mais algumas entrevistas com “El Maestro”

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/02/13/actualidad/1423783014_937910.html

http://editorialorsai.com/revista/post/n4_lavand

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-dos-anos-magia-rene-lavand-20170207073438.html

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-trucos-mas-sorprendentes-rene-lavand-20170207073937.html

 

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

– Æ –

1. PEGANDO A BALA

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Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

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Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

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Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

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Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

– Æ –

3. MAS HOUVE MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

… E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Confie em todo mundo, mas sempre corte as cartas

Finley Peter Dunne

1. O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

Jonathan Harrington Green, foi um norte-americano nascido em 1813 e um jogador de cartas profissional. Ele nasceu em Ohio, mas cresceu navegando e jogando/apostando ao longo do Rio Mississipi. Green era um jogador – e um trapaceiro – excepcional. Conta-se que em uma única noite chegou a ganhar US$ 23.000 (aproximadamente US$ 600.000,00 em valores atuais) jogando e, obviamente, trapaceando.

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Jonathan Harrington Green

Para um jovem na casa dos 20 anos Jonathan levava uma vida perfeita: passava os dias viajando e ganhava muito dinheiro. Ele até podia dar-se ao luxo de gastá-lo como bem entendesse. Por isso, ninguém entendeu quando em uma noite de agosto de 1842, aos 29 anos, Jonathan simplesmente largou a sua vida, arrependeu-se de seus “crimes” e passou a liderar uma cruzada contra os jogos de azar.

Esta súbita epifania deu-se quando certa noite, em um barco a vapor navegando pelo Mississipi. Um reverendo metodista estava no barco e distribuía sobre uma mesa alguns folhetos e materiais religiosos. Os companheiros de Green, ignorando o ministro, “varreram” de cima da mesa todo o material religioso, a fim de jogarem cartas. Isso deixou Green extremamente irritado. Ele imediatamente foi até a mesa, pegou todo o material de jogo e atirou no rio. Em seguida trancou-se em sua cabine pelo resto da noite.

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Apostadores do Mississipi (1890’s).

O que parecia ser um fato isolado, um mero colapso nervoso, mostrou-se um novo estilo de vida para Green. Ele passou a estornar tudo o que havia adquirido ilegalmente às suas vítimas. Ele vendeu propriedades e devolveu dinheiro a qualquer um de seus vizinhos que ele houvesse enganado.

A metanoia de Green, porém, traria junto de si a dura realidade. Sem mais jogar, sem propriedades e sem um emprego, Green viu-se obrigado a achar algum meio para fazer dinheiro. Mas o que restaria a um ex-trapaceiro de trinta e poucos anos, sem experiência em outros empregos e com uma fama que não era das melhores? A resposta era óbvia: Jonathan transformou-se em um pregador itinerante que ensinava a população sobre os riscos e os males dos jogos-de-azar.

A produção literária de Jonathan Green também foi bastante profícua: onze livros em 25 anos. Todos eles sobre os métodos de trapaça nas mesas de jogos, sobre a sua vida antiga, suas experiências, sobre como ele tinha agora uma nova vida (ou, em suas palavras, uma vida “reformada”, e até mesmo sobre como os trapaceiros agiam em conluio para tirar dinheiro dos incautos).

Secret Band of Brothers - JH Green
Ilustração de capa do livro Secret Band of Brothers” de JH Green (1848)

Consta que este foi o primeiro show debunker que se tem registro. Sem saber, Jonathan Green acabava de inaugurar uma nova modalidade de shows. Neles, Jonathan mostrava os meios pelo qual trapaceava e alertava sobre como isso era ruim. Seus espectadores eram quase sempre ouvidos religiosos e conservadores que acenavam condescendentes e triunfantes, afinal agora não era mais um reverendo que pregava sobre as mazelas dos jogos de azar, mas um jogador em pessoa, que conhecia de vivência os meandros desse mundo. A causa deixava de ser uma “cruzada moral” e o debate passava a ser um assunto de ordem pública.

Porém, se os seus ouvidos estavam abertos, suas carteiras nem tanto. Pouca era a ajuda financeira que Jonathan Green recebia por suas palestras. Não raro Jonathan perdia dinheiro ao visitar cidades, usualmente saindo mais pobre do que quando havia chegado. Outro problema eram os inimigos que Green estava criando. Os donos das casas de jogos sempre tiveram grande influência sobre a política local. Alguns Prefeitos, inclusive, eram donos de casas de apostas. Assim, por mais que a comunidade religiosas pressionasse, isso surtia pouco ou nenhum efeito. Algumas cidades até conseguiram aprovar leis anti-jogo, mas elas não duravam mais do que um ou dois anos.

Mas mesmo sua cruzada não sendo frutífera, os inimigos de Green não deixaram barato. Muitos jornais começaram a receber dinheiro dos donos de casas de jogos e de outros negócios correlatos, como os fabricantes de bebida e bordeis, para desmoralizar a causa de Jonathan. Para cada jornal que noticiava a causa de Jonathan, outro imediatamente lhe destratava: questionavam sua real motivação e traziam à tona até mesmo suas dívidas correntes.

Sendo massacrado pelos “ex-companheiros” e recebendo pouco retorno financeiro de sua nova “família”, Jonathan viu-se em uma situação difícil. Uma situação acontecida com ele em 1848 ilustra bem isso: Jonatham foi preso por estar em posse de duas notas falsas de US$ 500,00. Os jornais se apressaram em destruir a sua reputação, e até a data do julgamento já havia sido marcada e amplamente anunciada. O que ninguém sabia é que o Governo Americano estava ciente das notas e mais do que isso – foi o próprio Governo que as forneceu a Jonathan, que agia como um agente federal disfarçado. As notas eram “modelos” que Jonathan deveria procurar por onde passasse, a fim de que o Governo pudesse desbaratinar ações ilegais de lavagem de dinheiro. Obviamente as acusações sobre ele foram retiradas, mas não sem antes ele passar um bom tempo preso e ter sua imagem, mais uma vez, arranhada.

Sem dinheiro, sem um apoio efetivo e maciço da população e sem poder bater de frente com os barões do jogo, a causa de Jonathan tornava-se estéril e infrutífera. Jonathan precisava urgentemente de uma saída. Como bom trapaceiro, ele ainda tinha uma carta na manga: em Jonathan foi a público denunciar que todos (sim, TODOS) os baralhos em uso nos Estados Unidos estavam marcados e que era possível saber a identidade de qualquer carta apenas pelo seu dorso. E Jonathan Green provou a sua tese.

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2. E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Os puritanos ficaram extasiados com a declaração de Green. Suas suspeitas finalmente se confirmaram e eles estavam certos o tempo todo: o jogo era não só um mal moral, mas uma ilegalidade e devia ser extirpado. Uma conspiração entre os trapaceiros e as fábricas de cartas era saborosa demais para ser ignorada.

1800's Marked Cards Patterns
Padrões de cartas marcadas, segundo JH Green (1848)

A bomba lançada por Green causou muitos estragos. Especialmente porque Green conseguiu, vez após vez, provar o que ele dizia. A cada apresentação ele trazia alguns baralhos dos mais diversos fabricantes e mostrava ser capaz de ler cada carta pelo seu dorso. As marcas que ele mostrava eram engenhosas e Green explicou detalhadamente cada uma delas. Algumas eram tão evidentes que Jonathan as lia a uma distância de 3 ou 4 metros.

Mas a situação ficou ainda melhor. Pessoas leigas começaram a trazer seus próprios baralhos para que Green os lesse. E a cada novo desafio, Green comprovava a sua teoria. O jornal “Boston Mail” de 15 de setembro de 1844 escreveu que após uma apresentação em Marlborough Chapel um grupo de cavalheiros aproximou-se de Jonatham e lhe desafiou a ler o dorso de algumas cartas. O grupo embaralhou as cartas e separou algumas. Jonathan não só leu as 18 cartas selecionadas pelo grupo, como leu as 34 cartas restantes. A cada nova apresentação, a cada novo desafio aceito, a acusação de uma conspiração nacional se mostrava mais e mais verdadeira.

Os jornais – que outrora perseguiam Green, começaram a dar o braço a torcer. Muitos editoriais começaram a admitir que diante de tais evidências, apenas um tolo arriscaria seu dinheiro nas mesas de jogos.

Purity Crusade
“Purity Crusade” (Cruzada Puritana), organização cívico-religiosa contra os vícios da bebidas, jogos e prostituição (1874). Elas oravam e cantavam hinos em frente aos bares e casas de má-fama, ao ponto de muitas vezes serem presas pelas autoridades policiais.

Agora façamos uma pequena pausa aqui, caro leitor, e pensemos de modo racional e prático: o que é o mais provável? Uma gigantesca conspiração nacional dos fabricantes de baralho, das centenas de casas de jogos, e dos milhares de carteadores para roubar um país inteiro, ou um ex-trapaceiro voltando a trapacear? Não é preciso raciocinar muito para descobrir a resposta. Embora a intenção de Jonathan fosse a melhor possível, o meio utilizado por ele para tornar verdadeira a sua acusação é bastante questionável.

A proposição de Green tinha ainda uma falha grave. Se todos os baralhos fabricados fossem, de fato marcados, porque os trapaceiros gastariam pequenas fortunas comprando baralhos declaradamente marcados nas lojas de material para jogos?

Mas então como Jonathan Green fez para ler a face das diversas cartas? O fato é que jamais saberemos com certeza, mas o mágico e pesquisador David Britland em seu livro “Phantoms of the Card Table” tem uma teoria bastante interessante à respeito. As lojas e catálogos de material para jogos vendiam um aparato chamado “shiner” ou brilhante. Ele era basicamente um espelho convexo disfarçado que ficava em cima da mesa e, ao se apontar a carta para o brilhante, era possivel ler o seu valor através do seu reflexo. O “brilhante” podia ser uma bacia para comida, um cachimbo, enfim, qualquer coisa insuspeita que pudesse ficar em cima da mesa de jogo, anexada na borda da mesa ou em alguns casos, atrás do jogador alvo.

O curioso é que, apesar de ser um objeto bastante comum, Jonathan Green jamais o mencionou em suas apresentações. Green poderia facilmente, em suas apresentações, ter secretamente anexado um brilhante na borda da mesa e, enquanto entregava as cartas, lia o seu valor. O resto era mise-en-scene.

James McMannus em seu livro “Cowboys Full: The History of Poker” constata que, ironicamente, a cruzada de Jonathan Green contra os jogos de azar, acabou por aguçar a curiosidade das pessoas comuns e ajudou à popularização do pôquer.

Jonathan passou o resto de sua vida caçando trapaceiros e casas de jogos. Segundo suas pesquisas, apenas em Nova York, nos anos 1850, haviam 6.000 casas de jogos sendo 200 delas estabelecimentos de alta classe. Ele ainda lutaria na Guerra Civil Americana como capitão pelo lado da União (Norte). Ali, ao lado de políticos conservadores, Green chegou a criar um estudo para banir os jogos de azar do território americano. Porém quanto mais lutava contra, mais claro ficava que não se deveria jogar o bebê fora com a água do banho. O jogo deveria sim ser regulado, mas não proibido, afinal que mal haveria uma mesa de pôquer entre amigos? Além disso a população americana, aprendeu a gostar de jogar pôquer. E talvez, essa tenha sido, no fim das contas, a maior contribuição de Jonathan Green para o mundo.

NY Supression of Vice
Símbolo da sociedade Nova Iorquina da Supressão do Vício (1873)

Jonathan ainda trabalharia para o Serviço Secreto, além de ter trabalhado como inventor, chegando a registrar em torno de 25 patentes em seu nome, mas estas não lhe renderam muito dinheiro. No fim de sua vida, teve que pedir ajuda aos amigos para poder pagar pelo funeral da esposa.

CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

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2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

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3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

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4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

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5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.