CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

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2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

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3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

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4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

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5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.

BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

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1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

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2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

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(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

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3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

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(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

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4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

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(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

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5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

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(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

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David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

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(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

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4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.

MÁGICA EM TEMPOS DE GUERRA – A MÁGICA COMO ARMA POLÍTICA

1. Introdução

No post anterior escrevi sobre o livro, baseado na história real de Robert-Houdin. Hoje, veremos como sucedeu, de fato, este belo episódio da história da mágica, em que Robert-Houdin evitou uma guerra usando seus truques.

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2. O contexto histórico

O ano era 1856 e a França, enquanto império expansionista, buscava firmar seu domínio sobre suas colônias africanas, em especial sobre a Argélia, cuja capital, Argel, tinha uma importância estratégica. A colonização que havia começado em 1830, chegava agora ao seu ponto de tensão máximo. A França controlava quase todo o país, exceto as regiões Saarianas. Especialmente a região de Cabila era a mais problemática.

Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843
Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843

Com uma população de maioria árabe, Argel vivia sob jugo islâmico, religião que era tolerada pelo Império Francês. Levadas à cabo por líderes espirituais islâmicos locais, os chamados marabus, muitas insurreições populares eclodiam no país. Eram revoltas pequenas, sempre controladas pelo Império Francês. Porém, pairava no ar o temor de que uma dessas insurreições finalmente conseguisse unir as diferentes tribos e uma revolta nacional eclodisse.

Em 1854 o Coronel De Neveu, chefe do Bureau Político de Assuntos Árabes, e um quase conterrâneo de Robert-Houdin, fez o primeiro convite para que o mágico apresentasse a sua arte na Argélia. Não se sabe ao certo se a decisão de De Neveu contava com o apoio de seus superiores, embora suspeite-se que o Imperador Napoleão estivesse à par do assunto. O que se sabe é que De Neveu era casado com uma Argelina e era de seu desejo que as duas comunidades – França e Argélia – coexistissem pacificamente, sem o derramamento de sangue.

Robert-Houdin declinou o convite, segundo ele porque acabara de chegar de uma turnê e estava feliz em estar de volta em sua casa. Em 1855, novo contato do Coronel e nova recusa de Robert-Houdin. A desculpa agora era que ele estava se preparando para uma cerimônia onde seria premiado. O Coronel manteve essa desculpa na mente e pouco tempo após a premiação um terceiro convite veio do coronel. Robert-Houdin agora não tinha mais desculpas para recusar o convite.

Capa de revista "Tourbillon" de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.
Capa de revista “Tourbillon” de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.

O convite estendeu-se única e exclusivamente a Robert-Houdin. Até onde se sabe, nenhum outro mágico francês foi convocado para esta tarefa. A estratégia era, conforme apontada no post anterior, usar as armas dos marabus contra eles mesmos. Se eram seus sinais miraculosos que lhe davam o poder de falar em nome de Alá, então um profeta mais poderoso teria ainda mais autoridade para falar em nome do Profeta. Foi aí que o nome de Jean Eugène Robert-Houdin veio à tona.

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3. A preparação

Segundo o relato de oficiais franceses, um homem chamado Mahamed Abdallah que trazia grande semelhança com Bou Maza, um antigo líder insurgente.  Esse marabu dizia que aqueles que os seguissem se tornariam imunes às armas dos franceses e usava de truques para convencer o povo de que era o escolhido de Alá. O próprio Robert-Houdin em seu livro: “Memórias”:

Um deles solicitou uma arma, que foi carregada e disparada contra ele de uma distância muito curta, mas foi em vão que o gatilho foi apertado. O marabu pronunciou algumas palavras cabalísticas e a arma não disparou. O mistério era simples: a arma não disparou porque o marabu habilmente cobriu a entrada de ar. Coronel De Neveu me explicou a importância de desacreditar este milagre com uma manipulação que fosse superior a esta. E eu sabia como.

Robert-Houdin passou a maior parte do verão de 1856 preparando-se para a sua viagem. Em 10 de setembro partiu para Marselha e de lá, para Argel. Sua viagem foi anunciada pelos jornais marselheses e sua chegada na Argélia, idem. Ao chegar na Argélia, Houdin descobriu que o governador local não estava na capital. Havia se deslocado para Cabila a fim de conter uma insurreição. Isso adiou os planos em um mês. Nesse tempo, lhe foi permitido que usasse o teatro da cidade para suas apresentações. Sem custos para o mágico.

Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899
Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899

Nesses quase 30 dias de apresentações, Robert-Houdin apresentou o melhor de seu repertório, exceto, é claro, os truques especialmente designados para conter os marabus. Esses truques seriam apresentados em uma gala especial dedicada ao líderes (marabus) árabes nos dias 28 e 29 de outubro.

Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890
Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890

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4. A mágica de Robert-Houdin

Robert-Houdin relatou essas performances como memoráveis, tanto pela apresentação, como pela adaptação de seus números para o contexto pretendido. um dos números apresentados foi o “Caixa Leve e Pesada”. Por exemplo, ao invés do tradicional texto sobre ser impossível roubar os segredos de Robert-Houdin, ele transformou o número em um desafio aos árabes mais fortes. Robert-Houdin dizia ser capaz de, temporariamente, retirar a força de qualquer homem. Nenhum homem era capaz de levantar sua caixa secreta, embora uma criança pudesse.

Outro truque apresentado por Houdin foi o de pegar a bala, que era claramente superior ao executado pelos marabus. Por fim, o truque de fazer desaparecer uma “membro aleatório” da plateia, sob um cone gigante. Segundo relatos, este truque foi o que mais pânico causou entre os árabes. O pânico foi tanto que os árabes só se recobraram ao final do show, quando viram o árabe do lado de fora do teatro esperando seus conterrâneos.

Os jornais locais louvaram muito o show de Robert-Houdin. Segundo os jornais seus feitos seriam falados por um longo tempo e poupariam a vida de milhares de cristãos e árabes. O Jornal estava duplamente correto.

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5. Conclusão

Três dias após essas performances, Robert-Houdin foi chamado ao Palácio do Governador para uma cerimônia na qual seria o convidado de honra. Lá chegando encontrou os 30 maiores líderes tribais árabes. Cumprimentou a todos com um aperto de mão e uma reverência, embora a maioria deles tivesse medo de apertar a mão do grande mágico branco.

O mais velho dos chefes aproximou-se de Robert-Houdin e abriu um rolo de pergaminho. Nele, um belo poema reconhecendo o poder de Jean Eugene Robert-Houdin, muito belamente caligrafado, entremeado com maravilhosos arabescos. O ancião leu o poema com grande solenidade. Ao fim da leitura, tomou o selo de sua tribo e estampou-o no pergaminho. O gesto foi seguido pelos outros 29 líderes. Ao final, enrolaram o pergaminho e o presentearam a Houdin. com o seguinte elogio:

Para um mercador, é dado ouro; para um guerreiro, armas são oferecidas. A ti, Robert-Houdin, presenteamos com o testemunho de nossa admiração, a qual poderás repassar a teus filhos. Perdoe-nos presentear-te com esta ninharia, mas cabe-nos oferecer a pérola-mãe ao homem que já possui a verdadeira joia?

Profundamente emocionado, Robert-Houdin aceitou o pergaminho. E pelo resto de seus dias considerou este, o mais precioso souvenir de sua vida como artista.

Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856
Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856

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6. Bibliografia

Livro: Christian Fechener “The Magic of Robert-Houdin” Vol. 2

Livro: Jean Eugene Robert-Houdin “The Life and Adventures of Houdin, the Conjuror

HOUDINI, O MESTRE DOS DISFARCES

” “Eu sou Houdini, e você é uma fraude!”

Harry Houdini

1. INTRODUÇÃO

Muitos conhecem a cruzada que Harry Houdini empregou contra os falsos espíritas que assolavam o início do século XX com suas demonstrações sobrenaturais. O que poucos sabem é que Houdini costumava se disfarçar para poder entrar infiltrado nas séances (sessões espíritas), a fim de desmascarar os charlatões. Senhoras e senhores, Houdini, o mestre dos disfarces.

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2. AS FACES DE HOUDINI

Houdini começou a disfarçar-se para espiar seus rivais escapistas. Em um dos mais famosos casos, Houdini estava em Cardiff no Cardiff Empire Theater assistindo ao show de Frank Hilbert, chamado “The Bubble Burst”. Hilbert estava mostrando como um escapista experiente podia esconder diversos instrumentos em sua roupa quando um senhor de cabelos grisalhos, barba, óculos e bengala levantou-se e começou a gritar à plenos pulmões: “você é uma fraude, você é uma maldita fraude”.

Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert
Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert

Neste momento, duas mulheres sentadas logo atrás do velho senhor se puseram de pé ao lado do velho quando uma delas levantou um par de algemas aos olhos do público e dirigindo-se ao homem no palco gritou: “Esse homem não usa algemas oficiais da Polícia. Ele tem as suas próprias algemas. Mas eu tenho aqui uma algema oficial da polícia e o desafio a abrí-las.”

Enquanto isso o velho senhor continuava gritando até que foi cercado pelo gerente do teatro e dois lanterninhas que o tentavam fazer parar. O velho começou a girar a bengala no ar até que teve que ser contido por um terceiro lanterninha. Quando o grupo levava o o velho para fora do teatro, a barba do senhor caiu e todos reconheceram o velho: era Harry Houdini. As mulheres eram Bess Houdini, esposa de Harry, e sua irmã Gladys.

“Senhoras e senhores, vejam como estão me tratando”, gritou Houdini. “Isto não está certo!”. “Vergonha!” o público gritava em responso. “Deem-lhe uma chance” alguém da plateia sugeriu. Uma chance era algo que o gerente do teatro sequer pensaria. Ele havia sido alertado pelo dono do teatro, sr. Oswald Stoll que Houdini tentaria entrar disfarçado para expor Hilbert.

O disfarce de Houdini era feito por um maquiador profissional e incluia um nariz postiço feito de cera e enganou completamente a gerência do teatro. Quando perceberam que se tratava de Houdini, o ímpeto em retirá-lo do teatro aumentou: esta era a ordem de Stoll.

Houve uma briga fora do teatro e Houdini quase teve a perna quebrada pelo gerente. Mais tarde naquela noite, Houdini apareceu no King’s Theater para sua apresentação, sujo, cabelo desarrumado e mancando. Quando contou o que havia acontecido, recebeu efusivos aplausos e retirou-se do palco. Mais tarde naquele dia, Houdini escreveu no seu diário: “Me disfarcei. Fui expulso do teatro e apanhei na rua. Isso foi bom para os meus negócios.

Houdini disfarçado com "Mr. WHite"
Houdini disfarçado com “Mr. WHite”

Este era um dos disfarces favoritos de Houdini: um velho senhor de óculos e bengala, o qual Houdini batizou como “Mr. White” (curiosamente, a forma anglicizada de seu nome de batismo “Weiss”). Houdini também possuia outros “aliases”, um deles, um senhor de barbas chamado “F. Fraud”. Este nome também era utilizado pela agente de Houdini, Rose Mackenberg, que se difarçava, entre outros, como Reverenda Francis Raud. Também há registros de Houdini se disfarçar como o Sr. Smith.

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3. HOUDINI, O DESMASCARADOR

Mas como Houdini transformou-se em um desmascarador de falsos médiuns? Arthur Moses em seu livro “Houdini speaks out: I’m Houdini and you are a fraud” conta que após a morte de Rabi Weiss, pai de Houdini, em 1892, este fez com que o filho prometesse tomar conta de sua mãe, Cecília. Assim, cumprindo uma promessa que fizera ao pai, Houdini passou a se dedicar a mãe, tornando-se quase um devoto dela, a ponto de chegar a declarar: “Minha mãe significa minha vida. Sua felicidade era sinônimo de minha paz de espírito”.

Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)
Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)

Quando ela faleceu em 1913, Houdini ficou arrasado. Pela primiera vez em sua vida pública, Houdini cancelou shows e contratos públicos e dedicou-se ao seu luto. Por várias semanas Houdini era visto no cemitério, ditado sobre o túmulo de sua mãe, apenas para ficar mais perto dela. Cheio de luto e desesperado, Houdini passou a buscar conforto em sessões mediúnicas, com o intuito de tentar contatar a sua mãe. Por muitos anos ele buscou conforto no espiritismo. Ele mantinha a mente aberta, mas parte dele continuava cética.

A mudança em Houdini se deu quando seu amigo, Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e um ferrenho defensor do espiritualismo, veio aos EUA em 1922 para uma série de palestras e demonstrações sobre o espiritismo. Houdini e Doyle já se trocavam cartas havia dois anos, e portanto um sabia das convicções do outro.

Os Doyle recebem um convite de Houdini para assistirem ao filme “The Man from Beyond” um filme estrelado pelo próprio Houdini. Como cortesia, os Doyle convidam Houdini e sua esposa para assistirem à sua palestra sobre espiritismo que aconteceria em Atlantic City. Durante a palestra, Lady Jean Doyle, esposa de Sir Arthur, recebeu o espírito de Cecília, mãe de Houdini, e psicografou-lhe uma carta de 15 páginas.

Houdini (ao centro) junto à família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita).
Encontro de Houdini (ao centro) e da família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita). A foto foi tirada em Atlantic City, quando a carta “psicografada” foi escrita.

Houdini não poderia ter ficado mais desapontado. As supostas palavras de sua mãe, psicografadas por Lady Doyle não poderiam ser mais imprecisas. Primeiro, a carta fora escrita inteiramente em inglês, uma língua que a sra. Cecília mal sabia falar, quanto menos escrever. Pior, a carta fora marcada com uma cruz no topo da primeira página. Cecília era uma judia devota e jamais desenharia uma cruz. Por fim a carta foi escrita em 17 de junho, data do aniversário de Cecília. Novamente, nenhuma menção a data, por parte do “espírito”. Assim, alquebrado, mas tentando não insultar o amigo, Harry educamente recusou a aceitar a carta como legítima. Sobre o episódio, Houdini disse que não achava que os Doyle o houvessem enganado propositadamente, mas que eram meras vítimas de sua própria ingenuidade.

Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.
Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.

Foi então que, em sua busca por um clarividente de verdade, Harry passou a frequentar as séances, e a cada nova sessão ficava ainda mais desapontado: por que todos mentiam? Não tardou para que seu desapontamento virasse mágoa e alimentasse um desejo de vingança. Assim Harry começou a sua cruzada desmascarando charlatões. Houdini continuava acreditando ser possível contatar espíritos, apenas cria que pagar uma entrada não era o método correto para tal.

Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa)
Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa).

Como tinha uma agenda lotada, Houdini frequentemente enviava sua sócia Rose Mockenberg para a cidade na qual se apresentaria dali alguns dias. Rose, se disfarçava como uma viúva desconsolada, uma mãe que perdera o filho ou mesmo uma esposa abandonada e frequentava as sessões. Após a avaliação de Rose, Houdini se disfarçava e ia para a sessão com o intuito de desmascarar os falsos médiuns. O disfarce se fazia necessário, pois Houdini já era um rosto famoso em seu tempo.

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Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.
Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.

Quando o momento da trampa chegava, Houdini de forma triunfante tirava o seu disfarce e gritava: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”, expondo assim o médium. Além disso, não raro Harry convidava policiais ou outras autoridades para que se fizessem presentes à sessão. O resultado é que muitos médiuns e simpatizantes do espiritismo detestavam Houdini.

Houdini praticando uma falsa sessão espírita
Houdini praticando uma falsa sessão espírita.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.

É importante notar que Houdini não era contra o espiritismo ou a religião em si, mas contra os charlatões que se valiam da boa fé das pessoas e lucravam às custas da fé alheia. Fosse hoje talvez Houdini desmascarasse outros charlatões por aí.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Site: Wild About Houdini

Site: The Magic Detective

Site: The Great Harry Houdini

Livro: “Houdini Speaks Out: ‘I Am Houdini! And You are a Fraud!’ ” de Arthur Moses

Livro: “The Secret Life of Houdini: The Making of America’s First Superhero” de William Kalush e Larry Sloman

Livro:The Secrets of Houdini” de J.C. Canell

MANDRAKE, O MÁGICO

1. INTRODUÇÃO

O mágico não é a figura mais popular da cultura pop. Embora cause espanto e admiração, a figura do mágico não “colou” no imaginário popular. Muitos ainda associam a figura do mágico um trapaceiro. E quando pensam em mágico a imagem é quase sempre a mesma: fraque preto, cartola e muitas vezes um bigode estilo francês ou cavanhaque.

Essa imagem do mágico de fraque e cartola é fruto em parte da figura de Mandrake, um personagem da editora King Features Syndicate, e que ajudou a incutir no imaginário popular o estereótipo do mágico.

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2. O PERSONAGEM

Mandrake foi criado em 1934 por Lee Falk, que inseguro de sua habilidade como desenhista, Lee escolheu o Phil Davis para dar os traços ao herói. Assim com roteiro de Lee Falk e desenhos de Phil Davis nascia, em 11 de junho de 1934, a primeira história de Mandrake, entitulada: “The Cobra”. A história durou 24 capítulos e encerrou-se em 24 de novembro de 1934.

Lee Falk, criador de Mandrake
Lee Falk, criador de Mandrake

Em 10 de agosto de 1935 Mandrake chegou ao Brasil pelas mãos de Max Yantok (pseudônimo de Nicolau Cesarino) editor da revista “Suplemento Juvenil”. A primeira história publicada aqui recebeu o título de “Sourcin, o sábio louco” (“The monster of Tanov Pass”), onde, durante uma viagem aos Montes Cárpatos, Mandrake e Lothar, supreendidos por uma tempestade, abrigam-se no castelo do professor Sorcin, o qual escondia um terrível montro macaco com cérebro humano. Na edição original essa é a terceira história escrita.

Exemplar da Revista Suplemento Juvenil, a precursora das histórias de Mandrake de 1937
Exemplar da Revista Suplemento Juvenil, a precursora das histórias de Mandrake de 1937

Mandrake mora em Xanadu, uma propriedade fantástica no alto de uma colina. É noivo da princesa Narda de Cockaigne, herdeira do trono de Cockaigne, filha do rei Karl e da rainha Isabela herdeira de um trono. Mandrake conta ainda com a ajuda de seu companheiro inseparável, Lothar, um príncipe africano que abandonou sua tribo para acompanhar o mágico.

Lothar, Mandrake e Narda na edição 01 da revista Mandrake, editora RGE
Lothar, Mandrake e Narda na edição 01 da revista Mandrake, editora RGE

Os poderes de Mandrake são a hipnose e a comunicação telepática. Ele é capaz de hipnotizar instantaneamente qualquer pessoa (incluindo inimigos). Ao executar o seu gesto hipnótico, mandrake “transforma” a arma do vilão em um buquê de rosas ou uma pomba. Mandrake também pode comunicar-se telepaticamente com qualquer pessoa. Mandrake ganhou os seus poderes através de anos de estudo em um Colégio de Mágica que fica em um ponto desconhecido no Himalaia.

O arqui-inimigo de Mandrake é o Cobra, um mágico negro poderoso que deseja se apossar dos Cubos de Cristal, artefatos esses que ampliariam infinitamente o poder mental do seu possuidor, para assim poder dominar o mundo. Os dois cubos estão um em posse de Mandrake e o outro de Theron, pai de Mandrake. Cobra usa uma máscara que esconde o seu rosto. Tempos mais tarde, Mandrake viria a descobrir a identidade secreta do Cobra: trata-se de seu antigo professor no Colégio de Mágica Luciphor, filho mais velho de Theron e, meio-irmão de Mandrake. Aliás, Theron também merece uma citação: ele é o grão-mestre do Colégio de Mágica e de acordo com a mitologia da série ele teria centenas de anos, já foi casado doze vezes e tem entre 30 e 40 filhos, dos quais só quatro estão vivos: Luciphor, Derek, Mandrake e Lenore.

Luciphor, meio-irmão de Mandrake, sem a máscara
Luciphor, meio-irmão de Mandrake, sem a máscara

Outros inimigos de Mandrake são o seu irmão gêmeo malvado Derek (que viria a se unir com Luciphor contra Mandrake), Ekardnam um “clone invertido” de Mandrake que vive no mundo do espelho, Saki, um mestre dos disfarces de alcunha “Clay Camel” e a filha de Camel, “The Brass Monkey”, chamada assim por sempre deixar um macaco de bronze nos locais de seus crimes.

Luciphor e Derek unindo poderes contra Mandrake
Luciphor e Derek unindo poderes contra Mandrake

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3. A REPERCUSSÃO DAS HISTÓRIAS

Mandrake tornou-se extremamente poular nos anos 30 e 40 e deu origem a uma série de outros heróis mágicos, como Zambini, Drago e Kardak, pela editora Archie; Zatara pela DC Comics; Visão e Dr. Estranho, ambos pela Marvel. Na Itália, Mandrake ganhou uma versão local criado pela editora Nerbini e desenhada por Galep, o artista de Tex. Outro autor de Tex, o criador Gianluigi Bonelli, criou “Ipnos, o Rei da Magia”, em 1946, também com base em Mandrake.

Super heróis mágicos, baseados em Mandrake
Super heróis mágicos, baseados em Mandrake

No Brasil os quadrinhos de Mandrake foi publicado por diversas edioras, mas teve o seu apogeu nas décadas de 60 e 70 pelas mãos da editora RGE. Ela publicou os quadrinhos até os anos 80, quando por diversos fatores, dentre eles o desinteresse da King Features e a decadência da RGE, quando o gibi foi cancelado.

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4. Leon Mandrake

Lee Falk inspirou-se em um mágico real para a criação de seu herói: Leon Mandrake. Nascido Leon Giglio em 11 de abril de 1911, Leon foi um mágico ítalo-americano, mentalista, ilusionista, escapista, ventríloquo e dublê-performático. Leon estudou os grandes nomes do vaudeville e aos 11 anos começou sua própria carreira vaudevilliana em sua cidade natal no Edison Theater. Aos 14 passou-se a apresentar no “Moyer’s Carnival” em uma feira nacional. Nessa época aprendeu novas habilidade como comer fogo, leitura da mente e ventriloquismo. Ao 16 excursionou com o “Ralph Richard’s Touring Magic Show” por 6 meses ao longo de toda a América do Norte. A partir de 1930, com 19 anos, Leon passou a excursionar com o seu próprio show.

Leon Mandrake, 1939
Leon Mandrake, 1939

O visual de Mandrake foi copiado inteiramente de Leon: cartola negra, capa preta de fundo escarlate, bigode fino. Na vida amorosa a arte também imitou a vida: Leon fio casado duas vezes, sua primeira esposa era sua assistente de palco, chamada Princesa Narda. Em 1946, Leon separou-se de Narda e perdeu sua assistente de palco. Meses depois, Leon conheceu Louise Salerno, uma atriz e dançarina vinda de uma família de artistas. Após duas semanas excursionando juntos, Leon e Louise se casaram em uma cerimônia simples. Duas horas após o casamento o casal já estava no palco se apresentando.

Leon e sua Esposa Velvet (Louise) em uma apresentação de mágica
Leon e sua Esposa Velvet (Louise) em uma apresentação de mágica

Mandrake continou excursionando até os anos 50, quando a TV começou a tirar o público dos teatros. Pensando em migrar para a TV, Leon comprou os direitos de imagem de Alexander, bem como o seu material e criou um show para a TV chamado “Alexander, o Grande”. O seu programa durou de 1955 a 1956. Em 1963 fez um novo programa diante de uma plateia ao vivo, chamado “Mandrake Special”, além de participações em séries diversas.

Leon Mandrake
Leon Mandrake

A sua última apresnetação foi em 1985 para um festival de chocolates em Victória, no Canadá. Em 27 de janeiro de 1993, Leon Mandrake faleceu. Um memorial foi criado no Paramount Theater (antigo Edison Theater) em homenagem à Leon Mandrake lembrando que ali fora o local de sua primeira apresentação.

Programa do show de Mandrake - 1947
Programa do show de Mandrake – 1947

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5. Curiosidades

Alguns consideram Mandrake como o primeiro super-herói dos quadrinhos. Isso porque ele tee algumas aparições nos quadrinhos “The Advetures of Patsy”. Nessa história o Mandrake era chamado de “O Mágico Fantasma”. E quem era o escritor de “As Aventuras de Patsy”? Lee Falk. Aliás, Lee Falk também criou outro personagem famoso dos quadrinhos: O Fantasma.

A editora King Features Syndicte criou uma biografia ficcionalizada para Lee Falk segundo a qual ele teria nascido Leon Harris Gross, e acabou adotando o sobrenome Falk de seu padastro como forma de homenagem. Albert Falk Epstein, padrasto de Leon era um viajante mundial famoso e que se especializou no estudo das religiões orientais. Daí a inspiração de Lee para as obras de Mandrake e O Fantasma.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Wikipedia em Pt-Br

Site: Wikipedia em Inglês

Site: Guia dos quadrinhos

Site: Webcomic Overlook

Site: Mandrakewiki

Site: Enciclopedia HQ

Site: Clay Camel

Site: Magicpedia – Leon Mandrake

Site: Wikipedia

Documentário: Mandrake, a magic life

A CURIOSA VIDA DE FAURE NICOLAY

Se João Peixoto é considerado o pai da mágica brasileira, créditos também devem ser dados a um mágico que, embora não brasileiro, adotou o Brasil e muito sucesso fez nas terras tupiniquins: o francês Faure Nicolay.

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1. O COMEÇO

Faure Nicolay nasceu em Chalabre uma pequeníssima cidade no sul da França, no ano de 1830. Seu pai era um arquiteto e empreiteiro, estava a serviço do Conde de Chalabre, empenhado na reforma de seu castelo quando padeceu doente. Mandou então que chamassem sua esposa de Montpellier a qual, mesmo grávida, deslocou-se até Chalabre e pôs-se ao lado do esposo. E foi ali mesmo, no castelo em reformas do Conde de Chalabre, que Nicolau Faure nasceu. Ele acabou sendo apadrinhado pelo próprio Conde, dono do castelo.

A primeira paixão de Nicolay foi o bilhar. Não há informações de quem lhe ensinou o bilhar, mas é fato notório que Faure Nicolay tornou-se um mestre no jogo. Ainda na adolescência ele trocaria lições de bilhar por lições de “physica recreativa” com o prestidigitador alemão Frickel (Wiljalba Frickel). Esse foi o primeiro contato de Faure com a mágica.

Wiljalba Frickel
FIGURA 1 – Wiljalba Frickel (clique na imagem para ampliá-la)

 

Ainda jovem, Faure passou a dar lições de ilusionismo. Um cartaz datado de 1855 propagandeia sobre a “Nova Escola de Prestidigitação sem Aparelhos” de Faure Nicolay. Faure dava aulas particulares sobre manipulação, cartas, hipnotismo e demais artes mágicas da época.

FIGURA 2 - Cartaz da escola de prestidigitação de Faure Nicolay (1855)
FIGURA 2 – Cartaz da escola de prestidigitação de Faure Nicolay, 1855 (Clique na imagem para ampliá-la)

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2. O GRANDE JOGADOR DE BILHAR

O correspondente de Paris do jornal “Land and Water” em março de 1870 escreve uma nota a respeito da grande habilidade de Faure Nicolay no bilhar. Segundo a nota, Faure tinha força na tacada, mas também suavidade e destreza ímpares. Reis e Imperadores eram frequentemente espectadores de suas apresentações. A nota cita ainda um feito fantástico de Faure. Ele desenhava um círculo do tamanho de um chapéu em um local qualquer da mesa de bilhar; colocava dentro dentre círculo 3 bolas vermelhas. A seguir, jogava uma partida completa de bilhar, sem tirar nenhuma das bolas vermelhas de dentro do círculo.

FIGURA 3 - Notícia do "The West Coast Times" da Austrália - 03/10/1870, p.2
FIGURA 3 – Notícia do “The West Coast Times” da Austrália – 03/10/1870, p.2 (Clique na imagem para ampliá-la)

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3. O GRANDE PRESTIDIGITADOR

Como mágico, Faure apresentou-se às maiores autoridades da época, inclusive à Napoleão III e, encantou de forma especial o príncipe imperial. A gravura abaixo mostra Faure dando uma sessão de mágica no acampamento em Chalons, em 1869, para Napoleão III.

FIGURA 4 - Nicolay se apresenta à Napoleão III - Monde Illustre de 10.07.1869 (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 4 – Nicolay se apresenta à Napoleão III – Revista “Monde Illustre” de 10.07.1869 (Clique na imagem para ampliá-la)

O primeiro registro de um show seu no Brasil data de março de 1871, em um espetáculo realizado no Rio de Janeiro. Faure também passou por Recife, Belém, Porto Alegre, além do eixo Rio-São Paulo.

FIGURA 5 - Primeiro registro de um show de Faure no Brasil - "O Diário do Rio de Janeiro", 31/03/1871 (clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 5 – Primeiro registro de um show de Faure no Brasil – “O Diário do Rio de Janeiro”, 31/03/1871 (clique na imagem para ampliá-la)

 

O jornal “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro, de junho de 1876 consta que já há alguns anos, quando Faure estivera no Rio, sua fama como habilíssimo prestidigitador começou a crescer. O jornal conta ainda um curioso causo envolvendo Faure Nicolay e o Sultão de Constantinopla. Disse o jornal:

FIGURA 6 - Jornal "Gazeta de Notícias" 10.06.1876, p.1. (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 6 – Jornal “Gazeta de Notícias” 10.06.1876, p.1. (Clique na imagem para ampliá-la)

O blog “Historia y Curiosidades del Ilusionismo” registra um show de Faure na cidade de Rosário, Argentina, em 11 de julho de 1872. No anucnio do show, no jornal local, Faure é citado como um artista elogiado pela imprensa europeia e brasileira. O blog conta ainda um causo curioso, relatado pelo periódico “La Capital” de 12 de julho daquele ano:

A fim de se preparar para uma nova experiência elétrica que se propunha a executar, e para situar um alambre acima dos bastidores, tarefa que não podia encarregar a ninguém mais, a fim de ter a segurança total do êxito ou, melhor, para que ninguém descobrisse o seu segredo, subiu por uma escada de mão até uma altura considerável que, com má sorte, quebrou o último degrau o qual sustentava Faure, devido ao qual, caiu do alto da escada, sobre as tábuas do proscênio.

Mas o acidente não abalou Faure, que manteve a agenda de shows programada, apesar da dor e do desconforto que sentia.

O jornal “A Província de São Paulo” cita ainda uma curiosa história, envolvendo Faure e um número novo que vinha desenvolvendo ainda em Paris:

FIGURA 7 - Jornal "A Província de São Paulo", 18.03.1876 (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 7 – Jornal “A Província de São Paulo”, 18.03.1876 (Clique na imagem para ampliá-la)

4. O SHOW

A estrutura do espetáculo de Faure, manteve-se constante ao longo dos anos: Abria o espetáculo com manipulação, passava para a apresentação de suas habilidades no bilhar, e terminava com um número de grandes ilusões, em geral números espíritas. Um anúncio de um show de 1886 anuncia o seguinte programa:

  • 1ª parte “Ouvertura pela Orchestra”: Manipulações e close-up sem aparelhos. Também havia esquetes humorísticas;

  • 2ª parte “Sessão Mágica de Bilhar”: Sessão explicando/revelando alguns mistérios espíritas, como a mesa voadora e a rotação dos chapéus. Proemtia tão boa explicação que após o show, qualquer um poderia repetir os números em sua própria casa;

  • 3ª parte “Ventriloquia e Polyphonismo”: Imitação e projeção de vozes. Essa parte do show era apresentada pelo professro Ávila;

  • 4ª parte: Grandes ilusões, com O Gabinete Maravilhoso (possivelmente seja o número da Cabine Espírita, apresentado pelos irmãos Davenport) e a Mulher Cortada.

Já outro anúncio, este de 1888, anuncia uma programação de shows diversa:

  • 1ª parte “Uma Hora de Magia Elegante”: manipulações, aparições, desaparições e novamente, cenas humorísticas;

  • 2ª parte: “Ensaios Práticos de Hypnotismo”: Números variando da hipnose ao mentalismo, transmissão de pensamento, exaltação da força de vontade, etc. Este ato encerrava com um número chamado “A Cadeira Encantada”.

  • 3ª parte “O Grande Sylphorama Universal”: viagem pelo mundo sem sair do teatro. Vistas da França, Rússia, Espanha, Bélgica e outros países, além de figuras de celebridades da época, como o escritor francês Victor Hugo.

O intervalo entre cada ato era intercalado por uma orquestra.

É interessante observar que a partir de um certo ponto, Faure abandona o bilhar e passa a se dedicar à sua mais nova paixão: A projeção de imagens e a partir daí, o cinema.

FIGURA 8 - Jornal "O Programma Avisador", 1886.05.22, p.1. (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 8 – Jornal “O Programma Avisador”, de 22/05/1886, p.1. (Clique na imagem para ampliá-la)

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5. O PRECURSOR DO CINEMA NO BRASIL

Faure Nicolay foi figura notória em sua época, não só pelos seus truques, mas também como um dos pioneiros do Cinema no Brasil. Embora notícias deem conta que ele não foi o primeiro, foi, com certeza um dos artistas mais influentes neste quesito.

Primeiro começou exibindo o seu diaporama universal. Diaporama era um projetor de slides rudimentar que projetava imagens graadas em diapositivos e possuia som sincronizado. As fotos eram desenhadas em placas de vidro

Em janeiro de 1897, Faure adquire na Argentina um Cinematógrafo de Edison (também chamado de Vitascópio). Ele comprou o aparelho de um homem chamado Luis e acabou por incorporá-lo em sua trupe sob o codinome Luís Nicolay, pois Luís era o único que sabia operar o aparelho. Nicolay usava ambos os aparelhos em conjunto, o que permitia uma dupla funcionalidade, projetando vistas fixas e também animadas.

FIGURA 9 - Vitascópio ou Cinematógrafo de Edison (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 9 – Vitascópio ou Cinematógrafo de Edison (Clique na imagem para ampliá-la)

Se antes, o show era de ilusionismo, hipnotismo, humor e bilhar, agora passara a vir acompanhado de uma trupe inteira de artistas, a “Companhia Francesa de Variedades” que era constituída por suas três filhas, Rosina, Paula e Luísa e por Luís Nicolay que operava o aparelho híbrido.

Além do eixo Rio-São Paulo, há registros de que Faure e seu vitascópio passaram por Pernambuco, Curitiba, Porto Alegre e provavelmente outras cidades importantes. O jornal porto-alegrense “A Federação” de 26/07/1897 de Porto Alegre que em nota sobre o show escreveu que o cinematógrafo não era de boa qualidade e o espetáculo com o diaforama não agradou o público. Na semana dos dias 25 a 30 de agosto, Faure apresentou o seu show em Curitiba e por lá, o show foi muito elogiado.

Ainda sobre este fato, Alice Dubina Trusz, em seu artigo, diz que a insatisfação se dava pela demora entre a troca de filmes, já que era raro o mágico possuir assistentes ou uma equipe técnica, ou seja, o mágico atuava sozinho, apresentando e operando o aparelho. Para preencher o show, foram inseridos outas atrações nos intervalos de exibições, especialmente música. Faure Nicolay, por exemplo, sempre excursionava com a senhorita Blanche Paganini, exímia violinista.

Alice escreve ainda que, ao fim do show de variedades, era comum Faure apresentar imagens fixas de personalidades políticas nacionais, como a do Marechal Floriano Peixoto, proclamador da República. A imagem do Marechal, quando projetada em Porto Alegre, em 1897, provocou “uma verdadeira tempestade de apalusos, vivas e aclamações”; já em 1898, quando projetada em São Carlos, SP, dividiu a plateia entre fervorosos aplausos e enormes vaias de oposição.

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6. SEUS ÚLTIMOS ANOS DE VIDA

Faure seguiu na mágica e no cinema, através de sua Companhia Francesa de Variedades” até seus últimos dias de vida. Ele também realizou alguns shows beneficientes como sua temporada de1888 onde atuava em prol da “sympathica Miss. Rosina”.

Em 1901 Faure publica sua biografia “Memórias e Confidências de Faure Nicolay” onde, além de sua história de vida, dá lições de prestidigitação e de bilhar. O livro de 182 páginas foi elogiado pela imprensa da época por ser um livro repleto de ilustrações e causos curiosos de sua vida (e o único exemplar que encontrei está na biblioteca da Universidade de Minnesota, nos EUA).

Faure faleceu no dia 04 de agosto de 1904, na cidade do Rio de Janeiro. Sua morte, foi pouco noticiada nos jornais, resumindo-se a uma insignificante nota perdida em meio a tantas outras linhas.

Faure foi um gênio, excelente em tudo o que se propôs a fazer: do bilhar ao cinema, passando pela mágica e pelos espetáculos beneficientes.

Cabe ainda notar que, em uma linha sucessória, Faure vem imediatamente após Robert-Houdin, antes de Maskellyne, contemporâneo de Herrmann, foi considerado por este o seu único rival. Faure foi um dos pioneiros da mágica de palco mundial. Pode-se dizer então, sem medo de errar, que a semente plantada por Robert-Houdin foi abundantemente regada por Faure Nicolay. E o fato de ter adotado o Brasil como morada deve ser visto com orgulho e ufanismo por nós, mágicos brasileiros.

FIGURA 10 - M. Faure Nicolay, gravura de 1870 (Clique na imagem para ampliá-la)
FIGURA 10 – M. Faure Nicolay, gravura de 1870 (Clique na imagem para ampliá-la)

Por fim, uma última história curiosa, envolvendo Monsieur Faure Nicolay, extraído do Jornal “O Diáro de S. Paulo” de 03/03/1872:

O Diário de S. Paulo - 03.03.1872 (Clique na imagem para ampliá-la)
O Diário de S. Paulo – 03.03.1872 (Clique na imagem para ampliá-la)

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BIBLIOGRAFIA

TRÊS MULHERES QUE MUDARAM A MÁGICA PARA SEMPRE

O texto abaixo foi retirado do site “itricks.com” , traduzido e adaptado por mim. O link para o post original encontra-se ao final do texto. Qualquer dúvida ou problema, por favor, deixe nos comentários.

1. INTRODUÇÃO

Apesar do estereótipo da mulher na mágica ser o da bela assistente, muitas mulheres ficaram no centro do holofote. Mais importante ainda, foi o fato de várias mulheres haverem contribuído enormemente para a transição da mágica dos palcos de vaudeville para a era da televisão.

Os anos pós-vaudeville – dos anos 30 até o começo dos anos 50 – são considerados os “anos de prata” para a mágica (em oposição à era de ouro, anos antes). Além do nascimento da televisão, e de um novo e incrível meio para transmitir mágica, houve um grande aumento no número de publicações mágicas. Muito dos grandes nomes da mágica nesse período, como Harry Blackstone e Channing Pollock, são ainda conhecidos hoje em dia. Frequentemente, porém, é subestimado que, algumas das maiores contribuições da mágica nesse período – em especial na área de materiais impressos – foram feitos por mulheres.

2. DELL O’DELL

Dell O'Dell
Dell O’Dell

Para muitos fãs de mágica de meados do século 20, falar em uma mulher mágica, significa falar de Dell O’Dell. Nascida Nell Newton, ela veio de uma família circense e passava os verões dormindo em tendas durante as turnês, e o ano letivo em uma escola de garotas. Vivendo entre artistas, Dell aprendeu contorcionismo, como domar animais e truques de força que a levariam ao “vaudeville”. Enquanto lecionava sobre forma física, ela pontuava suas lições com demonstrações de força e de equilíbrio. Ela também se interessava por mágica desde a sua infância, quando seu pai empregava um mágico a cada temporada de shows, vindo ele mesmo a apresentar-se como mágico quando mais jovem. Aos poucos Dell foi mudando da “cultura física” para a mágica de palco. Foi pela mágica que ela atingiu o sucesso, excursionando por todo o Estados Unidos chegando a ter seu próprio show de televisão.

Dell O'Dell
Dell O’Dell

Dell O’Dell não só foi uma excelente “performer” – conhecida principalmente por seu texto repleto de belas rimas – mas também mostrou-se uma ótima mulher de negócios. Ela logo percebeu que “para ganhar dinheiro é preciso ter dinheiro” e investiu, não só em aparelhos e roupas, mas também em promoções e mesmo em um escritor profissional para o seus textos. Em meados dos anos 50 ela abriu sua própria loja de mágicas em Sunset Boulevard (a saber aquela rua cercada de palmeiras que vemos nos filmes e uma das mais glamorosas ruas de Hollywood). O fato de ser mulher trouxe a Dell alguns problemas com os gimmicks que eram especialmente desenhados para serem usados por homens em seus fraques. Seu marido, Charles Carrer, famoso malabarista, acabou por conseguir adaptar os aparatos para as roupas da esposa. Sobre isso O’Dell declarou: “Poucos mágicos têm maridos. E eles sã de grande ajuda.”

Dell teve um coluna na revista “The Linking Ring” por muitos anos (“Dell-lighfully Speaking”). Ela também publicou dois livros sobre mágica, e estrelou um programa na TV, “The Dell O’Dell Show”. Seu programa estreou em setembro de 1951 e tinha cerca de 30 minutos de duração – o dobro da maioria dos programas da época. Cabe salientar que este não foi o primeiro show de mágica na televisão; tampouco Dell foi a primeira mulher a apresentar mágicas na televisão, mas ela foi a primeira mulher com um programa de TV sobre mágica que não era direcionado ao público infantil. Ela também já se apresentara durante os dias “experimentais” da televisão, chegando por vezes a alegar ter sido a primeira mulher a fazer mágica na televisão.

3. GERALDINE LARSEN

Geraldine Larsen também dizia ter sido a primeira mulher mágica da televisão, graças a uma apresentação de demonstração feita em 1939 na Exposição Golden Gate. Assim que a TV começou a aparecer nos lares americanos, “Geri” estrelaria em “The Magic Lady” (A Dama Mágica). Esse programa infantil era televisionado originalmente para Los Angeles, porém logo ele foi vendido para outras estações de TV e Geraldine tornou-se reconhecida como uma espécie de fada-madrinha, tal qual sua personagem. Na vida real, a Dama Mágica foi uma espécie de fada-madrinha para a mágica pois dirigiu a revista Genii Magazine em suas primeiras décadas.

Quando ainda estava no colegial Geri foi escolhida como ajudante de um mágico em sua rotina de Aros Chineses. Encantado com a moça, o mágico William Larsen convidou-a para sair e acabou casando-se com ela. William tornou-se um advogado, mas cultivava um profundo amor à mágica e decidiu começar a sua própria revista de mágica em 1936. Foi um enorme desafio publicar uma revista e, ao mesmo tempo, manter uma carreira jurídica, mas Geraldine esteve ao lado do marido desde o início, apoiando-o. Ela foi a garota da capa da edição de Agosto de 1938 e também o rosto da primeira capa colorida da revista em Janeiro de 1955. William reconheceu o trabalho da esposa ao escrever que a revista não existiria sem o trabalho da esposa como mulher de negócios e assistente de edição. De fato, William revelou que ela havia publicado sozinha uma série de artigos no ano anterior quando ele estava atolado pelo seu trabalho como advogado. Ela também escrevia uma coluna mensal para mulheres mágicas chamada “Paging the Ladies”. Essa coluna não só mantinha os leitores atualizados no tocante às mulheres mágicas, assistentes e esposas de mágico, mas também apresentava para elas algumas receitas (talvez a única coluna regular sobre comida na história das publicações mágicas).

Genii Magazine de agosto de 1938

Após a morte do marido em 1953, Geri Larsen assumiu como editora-chefe da Genii (ela também viria a se casar ainda duas vezes mais: primeiro com o apresentador de televisão Art Baker, e em seguida com Rubin Jaffe). Antes disso, quando William largou a advocacia para se tornar um artista em tempo integral, ela já havia tomado conta de toda a revista – exceto da parte mágica – para ajudar o marido a evitar as políticas da indústria. Ela ainda encontrou tempo para escrever dois livros: “The Diary of a Magician’s Wife” (O Diário da Esposa de um Mágico) de 1941 e “Nothing Up His Sleeve, a Merry Melange of Mystery and Magic.” (Nada na Manga, Uma Feliz Mistura de Mistério e Mágica) de 1943. Como se não bastasse todas essas atividades, ela ainda foi presidente do “Magigals”, o único clube de mágica exclusivo para mulheres da época.

Genii Magazine, janeiro de 1955. Primeira capa colorida.
Genii Magazine, janeiro de 1955. Primeira capa colorida.

4. FRANCES IRELAND

Frances Ireland e seu marido Jay
Frances Marshall e seu marido Jay Marshall

Frances Ireland, também conhecida como Frances Marshall é frequentemente creditada como uma das fundadoras do Magigals. Assim como Gerri Larsen, ela foi levada ao mundo da mágica por seu marido, Laurie Ireland, em uma curiosa história. Quando ela acidentalmente trancou-se do lado de fora do escritório de entregas onde ela trabalhava, Frances Vandervier (nome de solteira de Frances Ireland) dirigiu-se a um alto cavalheiro da porta ao lado, e pediu-lhe que escalasse por uma janela aberta e destrancasse a porta pelo lado de dentro. Este heroico “resgate” de Laurie Ireland levou-o a contratar Frances para ajudá-lo com seus manuscritos de mágica e, eventualmente, levou ambos a se casarem. Ela gerenciou a “LL Ireland Magic Co.” por muitos anos, renomeando a empresa como “Magic Inc.” após a morte do marido. Frances Ireland se casou outra vez com Jay Marshall, de quem também adotaria o sobrenome.

Loja Magic Inc.
Loja Magic Inc.

Após sua incursão no mundo da mágica, pelo seu marido Laurie, Frances tornou-se uma das principais atrações da cena mágica de Chicago. Seu trabalho com a companhia do marido levou-a à sua própria carreira como mágica infantil, mas mais importante, deu-lhe a oportunidade de tornar-se uma das mais profícuas autoras. Ela foi colunista da “The New Tops”, da “Magic Manuscript”, chegando inclusive a ser editora da “The New Phoenix”. Mas ela provavelmente é mais lembrada pela sua coluna na “The Linking Rings” chamada “Around Chicago”. Ela também fez um grande trabalho lembrando para a indústria de produtos mágicos dos Estados Unidos, que a mágica não florescia apenas em Los Angeles e Nova York. Quando não escrevia suas colunas, Frances Ireland (Marshall) escrevia inúmeros livros, manuais, instruções, e panfletos para a “LL Ireland / Magic Inc.”. Desde cuidados com coelhos, até a rara arte da chapeugrafia, tudo o que envolvesse mágica, sobre isso Frances Ireland escreveu. Ela também escreveu as suas memórias na sua carreira como mágica, “My First Fifty Years: Being a Loosely Knit Remembrance of my Life in Magic from 1931 to 1981.” (Meus Primeiros Cinquenta Anos: Lembranças Remotas da Minha Vida na Mágica de 1931 a 1981).

Da esquerda para a direita: Frances Ireland Marshall, Jay Marshall, William Zavis, Wim, e Phil.
Da esquerda para a direita: Frances Ireland Marshall, Jay Marshall, William Zavis, Wim, e Phil.

5. CONCLUSÃO

Claro, essas são só algumas das muitas importantes e influentes mulheres dos anos de parta da mágica. Há muitas outras histórias para contar, como a de Celeste Evans, Nani Darnell e Carolyn Trask. É importante lembrar que enorme influência dessas damas quando lembrarmos da história da mágica e olharmos para o futuro.

6. BIBLIOGRAFIA

* Texto Original: iTricks.com

Imagens:

* All About Magicians

* Magicpedia [1] e [2]

* Blog da Coleção Especial Biblioteca Pública de Providence

* The Circus Blog

* Blog Chicago History

* Perfect Magic