MATHIAS BUCHINGER, UM ANÃO GIGANTE!

“É fácil entender porque Ricky Jay se encantou tanto por Mathias Buchinger. O pequeno homem era um dínamo, um mistério, um super herói no mundo real – embora, provavelmente jamais o vejamos em um filme de Hollywood. Super heróis dos quadrinhos, têm muito ‘sex appeal’, mas muito pouco sexo. Em comparação, o rechonchudo Buchinger era um garanhão”

Teller sobre a biografia de Mathias Buchinger, escrita por Ricky Jay.

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O público em frente ao “Corner House” em Charing Cross, Londres, não podia acreditar no que estava vendo. Prontos para ver uma “tragédia”, acabaram sendo calados, silenciados por algo incrível. Diante deles um homem inválido, cujas pernas iam até pouco antes de onde deveriam haver seus joelhos, e com braços que terminavam antes dos cotovelos (e que, convenhamos, pareciam dois galhos serrados) havia lhes prometido um show de ilusionismo, caligrafia, arte e música. Por certo seria um espetáculo dantesco, de um humor macabro alimentado por uma curiosidade mórbida.O que todos viram, porém, naquele dia, calou-lhes a boca e encheu-lhes os olhos.

V0007015ER Matthias Buchinger, a phocomelic. Stipple engraving.

Mathias Buchinger nasceu em 2 de junho de 1674 em Ansbach, na Alemanha. Sua família não era rica, mas também não havia necessidades. Dentre os oito filhos e uma filha, Mathias era o mais novo e o único com defeito. Provavelmente nasceu com focomelia, uma doença que causa o encurtamento dos membros superiores e inferiores. O braço direito de Buchinger terminava pouco antes do cotovelo; do lado esquerdo, o braço era um pouco maior do que o cotovelo, o que lhe dava uma leve flexão. Ambos braços terminavam em uma protuberância que lembrava mais um balão murcho do que uma mão. O mesmo às suas pernas. Isso, obviamente, impedia Mathias de caminhar, por isso ele se arrastava pelo chão para se locomover.

Isolado do mundo externo, desde a infância, pelos pais, Mathias acabou encontrando companhia em atividades solitárias como música, caligrafia, artes. E, além de tempo para praticá-las, Mathias possuía talento. Já aos vinte anos, começou a se apresentar como uma atração “sideshow” (show de horrores), mas encantava também pelo seu talento. Bem mais tarde, aos 40 anos, Mathias decidiu ver se conseguiria impressionar – e quiçá até influenciar – alguém importante na Inglaterra E foi ali que ele viveu até o fim de seus dias.

É noticiado em um cartaz de propaganda de Mathias, datado de 1717 que, entre outras feitos incríveis, Mathias fabricava suas próprias canetas, escrevia tão rapidamente e tão perfeitamente quanto qualquer mestre da caligrafia, costurava com agulha e linha muito rapidamente, e possuía habilidades surpreendentes e convincentes em “legierdemain” (manipulação). Em outro cartaz, Buchinger vende-se dizendo que nunca, na história da humanidade houve alguém como Mathias, e provavelmente nunca mais haverá. Essa descrição certamente despertou a curiosidade de muitas pessoas importantes, possivelmente até o Rei George I que o recebeu para um show.

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Cartaz anunciando o show, e as habilidades de Mathias Buchinger. (Clique na imagem para ampliar)

O Rei Geroge I, impressionado com Mathias, pessoalmente buscou entre a nata da sociedade algum mecenas que pudesse subsidiar os gastos de Mathias. Em 1716, Mathias presenteou o Rei com um instrumento musical fabricado pelo próprio Mathias, e uma carta solicitando que o Rei fosse o seu mecenas. O Rei George recusou a oferta, mas fez questão de pagar generosamente pelo instrumento.

Desanimado pela tentativa falha de uma pensão vitalícia, Mathias decidiu adotar suas performances como meio de vida. à época a Inglaterra estava com uma demanda por “side shows” de “horror” e Mathias se encaixava perfeitamente neste conceito. Mathias passou então a apresentar as suas habilidades, a um shilling por espectador. Em suas apresentações, as pessoas poderiam ver Mathias atirando com armas de fogo, tocando um instrumento, jogando cartas, além das já citadas habilidades. Se valendo de próteses que lhe permitiam tais feitos, Buchinger surpreendia ao público, não só pela habilidade, mas pela sua inteligência e perspicácia que superava, em muito, suas limitações. O seu sucesso foi tamanho, que não tardou para que Mathias fosse requisitado para performances particulares.

Se a sua carreira ia bem, o mesmo não podia ser dito de sua vida particular. Mathias que, a esta altura, estava casado com a sua segunda esposa, supostamente foi vítima de agressão, verbal e física, por parte da esposa. Mathias, que sempre fora um homem calmo e até bastante extrovertido viu-se em meio a um turbilhão emocional que culminou com Mathias expulsando a esposa da casa onde eles viviam e, agredindo ela em público, até que ela jurasse nunca mais agredi-lo novamente. O caso ganhou notoriedade, tanto quanto sua fama artística de Mathias, a tal ponto que em um poema, em sua homenagem, contem os seguintes versos: “Ele nunca cometeu, nenhum deslize em sua vida / Exceto casar-se com  sua segunda esposa“. Seja por isso ou não, o fato é que logo depois desse triste episódio, o divórcio entre eles se consumou.

Mathias casou-se ainda mais duas vezes e teve ao todo, 14 filhos: Um da primeira esposa, três da segunda, 6 da terceira e 4 da última esposa (embora algumas fontes digam que ele teve apenas 11 filhos, e outras dão conta que ele teve ao todo 8 mulheres diferentes, além de diversas concubinas). Um dos desenhos mais conhecidos de Buchinger é uma árvore genealógica em que ele aparece como o tronco, suas esposas como galhos e seus filhos como os frutos.

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Árvore genealógica de Mathias Buchinger

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Mathias vivia circulando entre Inglaterra, Escócia e Irlanda, apresentando-se. Aprendeu novas habilidades como tocar gaita de foles e dança escocesa (segundo ele, ele dançava tão bem quanto qualquer “highlander” sem as pernas). Ele também melhorou sua habilidade de escrita, aprendendo a escrever em qualquer direção e até mesmo espelhado.

Aliás, a mais impressionante habilidade de Mathias era sua capacidade de escrever em miniaturas. Tamanha era a sua habilidade que ele colocava mensagens “ocultas” em seus desenhos, como por exemplo, transformando mensagens da bíblia em cabelo. Por exemplo, em um de seus autorretratos, Mathias, ao invés de desenhar os fios do cabelos, transcreveu os salmos 121, 127, 128, 130, 141, 149 e 150, e ainda a oração do Pai Nosso.

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Auto retrato de Mathias Buchinger. Repare que os cabelos, ao invés de desenhados, são salmos transcritos.  (Clique na imagem para ampliar)

O tempo passou e logo o ato de Mathias deixou de ser novidade, vindo a decair em termos de espectadores. A idade também já começava a pesar sobre os ombros de Mathias que não tardou a diminuir sua carga de shows, de 7 apresentações diárias, para apenas duas. Assim, novamente Mathias tentou conseguir alguma pensão governamental e desta vez escreveu a um Palatino – uma espécie de nobre, representante direto da Coroa Britânica – dessa vez se valendo de sua terceira esposa, Anna Elisabete, que era filho de um já falecido Palatino, como chantagem emocional. Novamente seu pedido foi negado.

Em 14 de abril de 1733 ele escreve a Robert Harley, Conde de Oxford, oferecendo a ele a oportunidade de comprar um de seus desenhos, e que lhe custara 15 meses de trabalho. Mathias não estipula preço pela obra, deixando o conde livre para pagar o que achasse justo, porém, Mathias faz referência a uma suposta doença que lhe causaria tremores e febres e que o impediam de trabalhar novamente com tanto afinco. Seja, verdade, seja um mero truque emocional de vendas, o fato é que o Conde acabou adquirindo a obra.

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(Clique na imagem para ampliar).

Seis anos mais tarde, em 1739, Mathias veio a falecer com 65 anos em Cork, na Irlanda. Mas isso não interrompeu as excentricidades de Mathias. Seu último desejo foi que seu esqueleto fosse doado para uma Universidade local para ser estudado. O que Mathias achava que os cientistas iriam descobrir é incerto. O que é certo, porém, é que, quando de sua morte, Mathias teve todas as honras de um homem respeitável.

– Æ –

Uma das mais impressionantes habilidades de Mathias era o truque dos covilhetes. Ele produzia os copos e enquanto o público se perguntava para onde havia ido a bolinha, Buchinger, os surpreendia, revelando um pássaro vivo debaixo do copo. A fama de Buchinger à época foi tanta, que seu sobrenome “Buchinger” acabou tornando-se um gíria para “pequeno”.

O fato é que sua fama veio por causa de suas habilidades, mais do que pelo seu tamanho – embora seja inegável que sua deformidade potencializou os seus feitos – característica esta recorrente em todos aqueles capazes de superarem a si mesmos e as limitações que lhe foram impostas.

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Detalhe do cartaz do Mathias Buchinger, em que ele está executando os covilhetes.

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BIBLIOGRAFIA

“The Dublin Penny Journal” Vol. I, nº 44 – 27 de abril de 1833

“The Scots Magazine and Edinburgh Litarary Miscellany”  – abril de 1807

Edward Wood em: “Giants and Dwarfs” – 1868 p. 287 – 300

Ken Johnson em: “Astouding feats in Pen, Ink and Magnifying Glass” –  The New York Times, 14 de janeiro 2016

Wikipedia: “Mathias Buchinger

Exposição: “Desenhos de Mathias Buchinger por Rick Jay” no MET Museum

O DIA EM QUE UMA ILUSÃO FOI CORTADA PELA METADE

Na noite de 9 de abril de 1956, os espectadores da BBC em Londres viram algo que os assustou. Um truque de mágica que fora cortado pela metade; o truque em questão era – ironicamente – “cortando a mulher ao meio”. Na hora em que a serra atingiu o corpo da assistente do mágico indiano PC Sorcar, o apresentador subitamente interrompeu o truque e, sem muitas explicações, anunciou o fim do show – que à época era gravado ao vivo.

Será que algo acontecera? A assistente estava bem? O que havia acontecido afinal de tão terrível que o truque foi interrompido? Esta é uma história de como um truque realizado pela metade, conseguiu causar mais frisson do que se tivesse sido feito em sua totalidade.

– Æ –

Protul Chandra Sorcar, nome de batismo do mágico indicano PC Sorcar, nasceu em 23 de fevereiro de 1931 em Bengali, na Índia. Nascido em uma família de mágicos, Sorcar era a oitava geração da família a se aventurar pelo mundo do ilusionismo.

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Protul Chandra Soccar

O começo da carreira de Sorcar foi estrondoso e, de certa forma, traumático. Hábil na promoção pessoal Sorcar não tardou para lograr fama em sua terra natal. Era visto por seus conterrâneos mais do que meramente um ilusionista, ele era admirado como um verdadeiro curandeiro, a tal ponto de certa vez, uma família lhe trazer uma criança que havia sido mordido por uma serpente venenosa. Enquanto convencia a família de que não era um curandeiro, senão um simples artista, a criança não resistiu e veio a falecer.

A fama de Sorcar lhe precedeu e logo a BBC ouviu falar dele e o convidou para participar de um de seus programas, o show noturno Panorama. A sorte havia sorrido duplamente para Sorcar, pois sua participação no programa havia sido marcado para a noite de 9 de abril de 1956, um dia antes de sua estreia pelo circuito londrino no Duke of York Theater. O night-show seria uma excelente forma de divulgar gratuitamente seu espetáculo.

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Abertura do programa “Panorama”

Na noite de 9 de abril de 1956, Sorcar estava nos estúdios da BBC pronto para se apresentar. E ele seguiu o roteiro proposto, deixando para o final seu grande truque de cortar a mulher ao meio. A versão de Sorcar era ligeiramente diferente da tradicional, por Sorcar usava um serra circular e deixava o corpo de sua assistente completamente à vista, e não escondido em uma caixa.

Sorcar iniciou sua apresentação com alguns números clássicos, como o “Água da Índia” em que uma tigela com água permanece constantemente cheia, não importa quantas vezes ela seja esvaziada. Aliás, a apresentação de Sorcar merece destaque. Embora interpretasse um personagem indiano, Sorcar estava longe de se rum personagem caricato. Segundo registros, ele conseguia dosar muito bem a ideia e o fascínio oriental, com os costumes e gostos ocidentais. Seu show era colorido, com roupas típicas e palavras indianas mescladas com inglês, mas também era de  fácil entendimento e assimilação. As técnicas ocidentais eram potencializadas com o background oriental. E o resultado era maravilhoso. E embora fosse um show com temática indiana, praticamente todos os truques, eram ocidentais. E seu gran finale era o truque de serrar a mulher ao meio. O mais ocidental – e clichê – dos truques de mágica.

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De volta ao programa da BBC, após alguns números de seu repertório, Sorcar deu início ao último número da noite. Tudo corria da maneira usual: ele hipnotizara Dipty Dey, sua jovem assistente de 17 anos e a deitou em uma maca hospitalar.  A câmera capturava todos os detalhes e o público pode ver claramente a jovem deitando-se na maca e, acima da jovem, uma serra circular. Todo o corpo deitado da jovem Dey podia ser visto. Sorcar ligou a serra e lentamente baixou-a, até que ela encostou no corpo da jovem. Mais alguns segundos e a serra chegou a altura de onde seria a coluna da assistente.

Neste momento o apresentador do programa Richard Dimbleby se postou rapidamente entre a câmera que capturava a cena e a mulher serrada ao meio e sem qualquer explicação disse que o show daquela noite havia chegado ao fim.

Richard Dimbleby
Richard Dimbleby

Foi aí que os telefones da BBC começaram a tocar sem parar. Todos queriam saber o que havia acontecido com a jovem Dipty Dey. Ela estava bem? Estava viva? O que levou o apresentador a encerrar o show dessa forma.

Se hoje, tal reação nos soa um tanto exagerada, é bom lembrar que na época, o oriente ainda causava uma atração mística nos ocidentais. Mais ou menos nessa época, a televisão descobriu a mágica e truques que antes eram restritos apenas a teatros começaram a ser transmitidos ao vivo pelas televisões. Em 1936, por exemplo, a própria BBC televisionou ao vivo o mágico indiano Ahmed Hussain caminhando sobre brasas acessas. Números de mágica ao vivo, portanto, ainda eram uma novidade. Além disso, o  toda a ação de Sorcar fora executada de forma magistral, sem a caixa que oculta o corpo da assistente, o que permitiu um excelente close da cena. Por isso, para a audiência da época, a impressão é que algo havia saído terrivelmente errado.

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PC Socar serrando sua assistente

Os telefones da BBC enlouqueceram. Muitos ligavam sem parar querendo saber o que havia acontecido. A BBC teve que designar alguns atendentes apenas para garantir aos que telefonavam que tudo estava bem. Mais tarde naquela mesma noite, uma decisão sem precedentes: o jornal noturno preparou um editorial afirmando que a assistente estava viva e bem. Esta foi provavelmente a primeira (e única) vez que um jornal noturno anunciou em nível nacional que um truque de mágica saiu exatamente como planejado. Mas nem isso foi o suficiente para acalmar os ânimos.

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Cortando a mulher ao meio – BBC, Londres (1956)

No dia seguinte, os jornais mais sensacionalistas exibiam a manchete de capa: “Será que o mágico matou a garota?”  e naquela noite o Duke of York Theater estava lotado. Todos queriam ver com seus próprios olhos se a assistente estava bem e inteira. Ela estava. A tal ponto que durante toda a temporada ela era diariamente cortada ao meio e depois restaurada…

 Mas então porque a transmissão parou abruptamente? Por menos misterioso que seja, a razão é bastante simples: Sorcar estourou o tempo disponível para se apresentar e o apresentador teve de interromper o show porque a BBC se recusou a atrasar ainda mais a grade de programação. A emissora decidiu não mais dar publicidade gratuita ao mágico e cortou seu truque ao meio.

Muitos anos mais tarde, o filho de Sorcar, foi à BBC onde lhe lembraram da história de seu pai. Sorcar Jr. riu e disse que havia um equívoco. Seu pai, disse ele, controlava nos mínimos detalhes tudo o que acontecia no palco, incluindo o tempo de apresentação. Se o tempo havia estourado, disse Sorcar Jr., foi porque meu pai assim o quis. “Timing” é tudo para um mágico, e Sorcar soube deixar seu público querendo ainda mais.

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Sorcar Jr. repetindo o número do pai

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FONTES

Blog: Mentalfloss

Wikipedia: PC Sorcar

Jornal “The Stage” 12 de abril de 1956.

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

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1. PEGANDO A BALA

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Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

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Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

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Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

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Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

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3. MAS HOUVERAM MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

NOTAS SUL-AMERICANAS

Este é um ensaio escrito por Leslie Briant para a revista “The Sphinx” de 1961, há mais de 65 anos, portanto. Tristemente ele continua muito atual.

As imagens não se encontram no artigo original, e foram adicionadas meramente como ilustração.

– Æ –

NOTAS SUL AMERICANAS

por E. Leslie Briant

Briant era um cidadão britânico que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e era correspondente da “The Sphynx” naquele país.

Para a ocasião da edição do 50 º aniversário da “Sphynx” ele escreveu este texto, oferecendo a oportunidade de uma retrospectiva mágica sobre o progresso da arte nos países sul-americanos.

No que diz respeito à América do Sul, os últimos cinquenta anos (dos quais o escritor tem esteve pessoalmente familiarizado com a magia por estas bandas por quarenta anos) não mostraram qualquer melhoria substancial. Com isso não deduzo que os truques de hoje sejam os mesmos da virada do século XXI. O que eu afirmo – e o faço enfaticamente – é que a América do Sul em geral, e a República Argentina em particular, não fizeram nenhuma contribuição excepcional para o progresso da magia. Que há um número de executantes individuais que são mágicos eficientes e capazes, eu serei o primeiro a admitir; mas eu desafio qualquer um a nomear um mágico argentino famoso – ou mesmo conhecido – além dos limites do Rio da Prata. E quantos dos efeitos foram lançado pelos “dealers” nos últimos cinquenta anos emanaram da inventividade dos bruxos sul-americanos? Que livros sobre magia foram escritos por autores sul-americanos? Existem revistas mágicas?

A resposta a essas perguntas pode muito bem presumir um pessimismo em relação à magia, algo que está longe da minha intenção. É bom, porém, encarar os fatos e admitir que a magia nestes países segue submissamente a tendência dos países de língua inglesa, isto é, dos Estados Unidos e da Inglaterra. O número de assinantes da imprensa mágica de língua inglesa, nessas terras onde não se fala inglês, é surpreendentemente grande. Catálogos de todos os “dealers” podem ser encontrados nas coleções de mil-e-um entusiastas mágicos. Deduz-se, portanto, que a magia realizada na América do Sul emula necessariamente à dos países de onde vêm essas revistas e catálogos. A América do Sul sempre será um passageiro no vagão da mágica, e nunca o condutor na locomotiva.

Uma razão para isso poderia ser encontrada na atitude do público para com a magia e os mágicos – e aqui eu gostaria de acrescentar que me refiro ao artista local, e não ao ilusionista profissional em turnê pelo mundo, do qual tratarei mais tarde. O público sul-americano de teatro considera o ofício do mágico como um entretenimento de natureza de classe baixa. Isto é, sem dúvida, em função da falta de algum artista que ele possa classificar como pertencente ao primeiro escalão da mágica; e até que tal artista emerja a magia irá manter o seu baixo nível de atração pública. Outra razão, e possivelmente mais pungente, é a falta de originalidade. Todos fazem os mesmos truques, usam o mesmo “patter“, imitam os mesmos maneirismos, roubam as mesmas “gags“, os mesmos cartazes e até as propagandas. Até que uma mudança radical ocorra na mente do mágico nativo, a magia permanecerá este mesmo tempo no marasmo.

Tanto para o expoente local da arte mágica

Olhando para a magia em um sentido mais internacional, é surpreendente observar o número grande e crescente de artistas profissionais que fizeram uma turnê pela América do Sul durante o último meio século. Todos em busca do “ouro dos incas” que supostamente pavimentaria as ruas deste romântico continente. Poucos, entretanto, viram, de fato, o brilho dele e a maioria deixou estas terras de volta para casa, como mágicos mais sábios – e mais abatidos – do que quando, esperançosamente, chegaram. Aqueles poucos que obtiveram sucesso com suas apresentações atualizadas, roteiro bem apresentado e propaganda adequada, atravessaram o redemoinho, mas seu número pode ser contados nos dedos de uma mão.

Um breve, mas necessariamente incompleto, levantamento de ilusionistas estrangeiros que fizeram uma turnê pela América do Sul durante os últimos 50 anos pode ser de interesse. Minha primeira lembrança é a aparição de Le Roy, Talma e Bosco no ano de 1913 na cidade de Rosário em Santa Fé. Foi-me dito que por volta de 1908 Dean Powell esteve por aqui, mas isso foi antes do meu tempo aqui. Eu já tinha visto Servais Le Roy na Inglaterra na minha juventude, mas desta vez ele se uniu com Talma (a Rainha das Moedas) e Bosco (o Mágico Comediante). Eu não me lembro, após um lapso de tempo tão grande, de todo o seu programa; mas eu me lembro de Le Roy desaparecendo do palco e reaparecendo como o regente da orquestra. E eu acredito que foi Bosco quem usou o que naqueles dias chamou de uma piada corrente, na forma de um canil mecânico do qual um cachorro saltava latindo cada vez que Bosco assobiava. Alguns anos mais tarde, e na mesma cidade, conheci Maurice (o Grande) Raymond que apresentou-se no Teatro Colón em 1916. Este famoso artista apareceu completamente renovado em sua segunda visita à Argentina em 1927. Esta última turnê, no entanto, foi um desastre financeiro. Raymond era um homem encantador, com o porte de um diplomata, e eu estava em meu caráter de correspondente especial de um jornal de Buenos Aires quando entrevistei Raymond. Descobri que, na verdade, Raymond me entrevistou e me deu uma dissertação sobre os efeitos do excesso de comer e como isso era propício para pegar resfriados, um tema que não fez nenhum bem à minha reputação para com o meu editor.

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Teatro Colón, em Rosário, província de Santa Fé.


Em 1919, tive o prazer de conhecer Carter, o Grande, em Montevidéu (Uruguai), onde eu estava, então à época, envolvido em negócios. Ele estava se apresentando Teatro Solis com “A Noiva do Leão”. Lembro-me, de uma discussão mágica regada à café. Ele esforçou-se por enfatizar que essa ilusão era inteiramente criação própria sua e era apresentada unicamente por ele. Carter, porém, ficou consideravelmente desconcertado ao descobrir que, no Uruguai, um mágico amador pouco conhecido pôde lhe dizer que o Grande Lafayette era o verdadeiro inventor desta ilusão e que havia apresentado “A Noiva do Leão” na Inglaterra antes de 1910.

No meu retorno à República Argentina, em 1924, senti-me muito honrado ao encontrar-me com Okito, a quem eu já tinha visto anteriormente num show de 30 minutos. Ele estava se apresentando no Teatro Casino, sendo sua assistente principal Marie Dean, a quem Okito veio a desposar em 1949 e que, infelizmente, faleceu no ano passado. Okito, naquela época, apresentava “O Tapete Mágico” como um estupendo fechamento de seu ato (um número que, aliás, ainda está sendo usado por seu famoso filho Fu Manchú). E esta parte da minha retrospectiva me leva ao advento de David T. Bamberg para o firmamento teatral sul-americano. David chegou pela primeira vez em 1926 como um artista convidado de Raymond com quem tinha feito uma excursão por Portugal e Brasil. As dificuldades financeiras determinaram o abandono da viagem e a dispersão do pessoal. O jovem mago, o filho de Okito, tinha apenas 23 anos à época, encontrou-se em Buenos Aires com uma jovem esposa, um filho bebê chamado Bobbie, sem perspectivas e sem dinheiro. Apresentando-se como Syko (um nome dado por Houdini), ele conseguiu sustentar-se com pequenas performances de mágica e um show de sombras, até que um investidor, que conseguiu ver além da superfície, financiou-o com a proposta da construção do primeiro show de Fu Manchú. A partir de então, a sorte sorriu para David e, durante 25 anos, o nome de Fu Manchú foi um chamariz na América do Sul – um dos poucos que fizeram fortuna. Considero um dos maiores privilégios da minha vida mágica conhecer David intimamente durante um quarto de século, em seus bons e nos maus momentos, e ter seguido a sua carreira profissional desde a obscuridade comparativa até à eminência mundial – um merecido tributo a sua determinação, sua habilidade e seu gênio.

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Cartaz do show de Fu Manchu (1940)

Por volta de 1930, o falecido Lingha Singh apareceu na cena com seu “Truque da Corda do Leste da Índia” (à propósito, foi-me relatado que tanto o segredo quanto o “gimmick“foram enterrados com ele). Ele era uma personalidade colorida com uma grande quantidade de belos equipamentos. Um par de anos mais tarde, Dante com seu espetacular show “Sim Sala Bim” fez história com o registro de uma temporada de 90 dias no Teatro Casino. Embora Raymond tivesse apresentado previamente a ilusão de “Serrar a Mulher ao Meio” usando a versão de Horace Goldin, foi Dante quem elevou isso a outro patamar de popularidade com o seu aparelho amplamente aprimorado. Aliás, foi sobre essa ilusão – e com a ajuda de uma ceia de lagosta às 3 da manhã no Hotel Baviera, em Rosário de Santa Fé – que discuti o “modus operandi” com Dante. Mais tarde, mostrei-lhe o meu esboço de impressão de como o efeito foi alcançado, o que ele negou, mas que anos depois provou ser correto.

Outro artista popular que apresenta o seu show à moda chinesa é Chang, anteriormente Li-Ho-Chang, que nos últimos 40 anos excursionou por todo o mundo. O continente favorito de Chang, no entanto, é a América do Sul, onde o seu delicioso uso indevido da língua espanhola fez com que atraísse um vasto público ao teatro. O show de Chang é um espetáculo de grandes ilusões, belos roupões chineses, cenários sempre mudando e belas dançarinas. Chang conta com inúmeros amigos em Buenos Aires e em outras cidades do continente meridional, e estou orgulhoso de ser contado entre eles com uma amizade que já dura muitos anos.

Richiardi Jr. filho do Grande Richiardi, assumiu o show de ilusão após a morte de seu ilustre pai. Ele é um peruano de nascimento, mas inteiramente cosmopolita dada suas viagens, perspectivas e línguas: muitas vezes, ele foi tomado por um norte-americano. Richiardi Jr., que se considera o “mágico mais jovem do mundo”, se afastou do caminho já trilhado ao apresentar “Musical Magic“, combinando a sua agradável voz de cantor com sua indiscutível habilidade de “showmanship” e presença no palco. Ele é um dos preferidos do público em geral em toda a América do Sul e, recentemente, passou por uma temporada em Nova York.

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Cartaz do show de Richiardi Jr. (1950)

Um número de estrelas menores na constelação mágica têm se apresentado na República Argentina durante excursões sul-americanas uma vez que, os cine-teatros têm incorporado números de variedade após os filmes. Entre outros, eu me recordo ao longo dos anos de: Lewis Davenport (com o colete que muda de cor, rotina de dedal e caixa de ampliação); Rudi (um artista italiano que apresentou um show de manipulação, além de magia de proximidade); Maieroni (outro ilusionista italiano com um show mais pretensioso); Steens (um escapologista holandês que executava a fuga da guilhotina); Cantarelli (um brasileiro-alemão com o uma serra elétrica); Baron von Rheinhardt (agora Barnum, com uma pequena réplica do show de Dante); Chefalo (o mago italiano com um show noturno completo exibindo seus gigantes e anões); e Richardini (agora fora do “show business”).

Percebe-se que o que prediz um mago bem sucedido na América do Sul é aquele que possui um show noturno completo, dinheiro, bom equipamento, com mais do que uma parte justa de habilidade e um senso teatral. Não é o artista manipulador e de “sleight-of-hand“. De fato, em toda a minha experiência, só encontrei um do último tipo que conseguiu pesar o outro lado da balança após uma turnê sul-americana, e foi Max Malini. Malini, admito, estava sozinho em sua turnê e trabalhou nos clubes e sociedades da mais alta classe. Tal era a sua natureza que eu duvido que Malini tenha levado muito do “ouro inca”. Ele estava nesses países com seu filho na mesma época em que Fu Manchú estava entrando em seu grande momento, como estava ao redor de uma garrafa de uísque que Malini deu a David e ao escritor de uma sessão privada de magia de close-up em uma grande cidade da República Argentina em algum dia por volta de 1930. Malini exibiu uma técnica maravilhosa com um incrível domínio de “misdirections” e a sua reputação, assim como a de Houdini, foi feita fora do teatro, mais do que ele fez em seus shows públicos.

Portanto, enquanto a América do Sul não fez nenhuma contribuição específica para o avanço da arte mágica nos últimos 50 anos, mesmo assim ela progrediu no sentido de que há um interesse crescente, engendrado pelas visitas de ilusionistas mundialmente famosos, e de manipuladores expoentes, e é a esperança sincera deste escritor de que, quando ele relatar novamente acerca do assunto para a edição centenária de “The Sphynx“, ainda mais progresso ele irá manifestar.

ROBERT-HOUDIN, UMA FRAUDE!*

Minhas investigações deram origem apenas ao mais amargo e mais triste desapontamento. Desprovido de seu véu romanceado, Robert-Houdin se mostrou, sob a luz intransigente dos fatos puramente históricos: um mero fingidor, um homem que enriqueceu sob o trabalho de outros pessoas, um mecânico que, petulantemente, roubou as invenções dos mestres artesãos que lhe precederam.” – Harry Houdini (1906)

– Æ –

Harry Houdini amava sua mãe. Mas havia uma coisa que provavelmente ele amasse mais do que a velha Cecília Weiss: publicidade. Harry amava a publicidade, amava ser reconhecido, invejado e até mesmo odiado. Ele encarnou a expressão “não existe publicidade ruim” inventando inúmeras formas de ser lembrado pelo público; algumas falharam, é verdade, mas a maioria de suas estratégias provou-se um verdadeiro sucesso.

Uma das formas preferidas de publicidade de Houdini era o apelo à emoção. Toda vez que Houdini apresentava-se em uma cidade que abrigava o túmulo de um mágico, ele fazia questão de visitá-lo. Acompanhado de um enorme séquito de repórteres e fotógrafos, Houdini prostrava-se junto à lápide do mágico, descobria a cabeça, baixava sua fronte e deixava-se fotografar em silêncio, contemplando o túmulo. No dia seguinte os jornais locais estampavam a notícia de que “o grande escapista prestara uma homenagem ao já falecido mágico”. O público se emocionava e simpatizava com Harry e com o respeito que ele demonstrara. A gratidão do público se fazia visível ao lotarem os teatros onde Houdini se apresentava.

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Harry Houdini visitando o túmulo de Robert Heller, 1910

Certa vez, Houdini iria apresentar-se em Paris. Decidiu então usar a velha tática de ir ao cemitério para propagandear seu espetáculo. Houdini dirigiu-se até Blois, a 180 km de Paris para visitar o túmulo do mestre Robert-Houdin. Afinal, o que poderia ser melhor do que “homenagear” o homem que lhe “emprestara” o nome e o amor pela magia? Querendo dar um “plus” em sua busca por publicidade, inquiriu os repórteres sobre algum parente vivo de Robert-Houdin que porventura ainda estivesse vivo. Para sua surpresa foi informado que sim haviam parentes vivos – possivelmente os filhos de Robert-Houdin – e que não, eles não queriam vê-lo. Aliás, não só não queriam vê-lo, como não queriam ter qualquer parte com Houdini.

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Lápide de Robert-Houdin em Blois, França

Essa rejeição doeu em Houdini. Como alguém poderia se atrever a não recebê-lo? Houdini nunca buscou saber o porquê da recusa. Talvez eles não gostassem de publicidade (afinal já vinham de uma atribulada vida com Robert-Houdin) e aceitariam um encontro mais discreto. Mas Houdini, vingativo e sanguíneo como era, se recusou a saber os motivos e declarou guerra à memória de Robert-Houdin.

Will Goldston em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” conta que teve o seguinte diálogo com Houdini:

Que diabos, Will!” ele disse, “O que tem de errado comigo? Qualquer um vai achar que sou um leproso! Mas eles vão se arrepender por isso, nem que me custe a vida toda.

O que você quer dizer?” eu perguntei.

Eu estou escrevendo um livro sobre Houdin que fará toda a sua família baixar a bola. Ele vai ter a pior biografia que ele já teve. Ele era um impostor.

Que vergonha, Harry,” eu respondi asperamente. “Você sabe que isso não é verdade. Por que ser tão vingativo? Houdin era um grande mágico e você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

Ele era um impostor, eu digo. Eu juntei todos os fatos para provar isso. E de qualquer forma” concluiu ele baixando o tom da voz “o público vai acreditar em qualquer coisa que eu disser a eles. O ‘Desmascarando Robert-Houdin’ fará com todos percebam isso.

Você está cometendo um grande erro, Harry. Ninguém vai achar que você é uma pessoa melhor depois de um atitude tão bestial. Houdin está morto e não poderá se defender. Um dia desses alguém vai escrever um livro sobre você e o chamará ‘Desmascarando Harry Houdini’.

Ele olhou firmemente para minhas palavras e respondeu: “Se alguém fizer isso, será você,” ele disse lentamente.

Eu ri. “Talvez você tenha razão”, repliquei. “Mas se eu escrever sobre Houdini, nunca vai ser motivado por vingança.

O livro foi publicado em 1907 (embora a edição britânica da obra traga a data de 1906) e foi uma falha de vendas monumental. Embora Houdini tivesse, de fato, juntado muitos fatos sobre Robert-Houdin, ele deixou que sua imaginação escolhesse as palavras do livro. Seu trabalho foi refutado pelos mágicos em geral como “carente de acurácia histórica”. O respeito e a gratidão que todos os mágicos nutriam por Robert-Houdin falou mais alto que o desejo de vingança (e de publicidade) de Houdini.

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Capa da primeira edição do livro de Houdini, 1907.

The Unmasking of Robert-Houdin” (Desmascarando Robert-Houdin) é considerado como o primeiro livro específico de história da mágica publicado (ou ao menos, Houdini assim o propagandeou). Segundo ele foram mais de 15 anos de pesquisa e contém diversas imagens, notas de jornais, e folhetos dos shows de Robert-Houdin. Houdini em sua revista “Harry Houdini’s Conjurers’ Monthly Magazine” de maio de 1908 escreveu que, antes do livro ser colocado à venda, estava sendo anunciado com o preço de US$ 2,00. Quando efetivamente lançado, o preço de capa foi reduzido para US$ 1,00 sob ordem de Houdini que pagou do próprio bolso a diferença, a fim de que seu livro atingisse um público ainda maior.

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Propaganda do livro de Houdini, com o desconto anunciado.

A despeito de todo o esforço empreendido na publicação do livro, ele foi um fracasso. Poucos foram os que efetivamente leram o livro, e os que o fizeram trataram a obra como um ato de despeito. Muitas das cópias do livro – possivelmente as que Houdini deu de presente –  possuem uma anotação escrita a punho pelo próprio Houdini: “Por favor, leia pelo menos a introdução”.

Houdini sofreu fortes críticas pela publicação do livro, em especial de mágicos franceses. Há quem dissesse, na época, que o verdadeiro motivo para ele ter escrito o livro não foi a recusa da família em vê-lo, senão porque simplesmente desiludiu-se com Robert-Houdin e, tendo copiado seu nome a partir do mágico francês, desejava elaborar uma justificativa para poder trocar de nome.

A verdadeira motivação para Houdini ter escrito o livro talvez nunca saibamos. É dito, porém que, anos após a publicação do livro, ao ser questionado sobre a obra, Houdini teria dito que “O único erro que eu cometi foi nomear meu livro como ‘Desamascarando Robert-Houdin’. Deveria ter sido ‘História da Mágica’.

No entanto, justiça seja feita, o livro contém mais do que mera difamação acerca de Robert-Houdin. Além de um relato sobre a história do homem que modernizou a mágica,  serviu também como ponto de partida para a carreira de “debunker” de Houdini. Não obstante, quando encontrou-se com Sir Arthur Conan Doyle, um já conhecido espiritualista, presenteou-o com um exemplar da sua obra “Desmascarando Robert-Houdin”, talvez como um aviso ao novo amigo que não esperasse que ele fechasse os olhos para as fraudes que, porventura, viesse a encontrar.

– Æ –

* OBS: O título do texto, obviamente um chamariz, é baseado em uma famosa frase de Houdini, que, ao desmascarar falsos médiuns, costumava gritar: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”.

– Æ –

FONTES

Livro: Will Goldston “Sensational Tales of Mystery Men”, 1929.

Site: Magicpedia: “The Unmasking of Robert-Houdin

Blog: The Paris Review

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

– Æ –

2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

– Æ –

3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

– Æ –

4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

– Æ –

5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

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5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

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Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

Robert-Houdin Theatre
Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

Niehls Bohr
Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

Gold(III)_chloride_solution
Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

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