ENGANANDO O PÚBLICO

Faça-os acreditar que estão sendo enganados por um cavalheiro.

Howard Thurston 

O público do Cine Theatro Pró Trento, de Nova Trento, interior do Rio Grande do Sul aguardava ansiosamente a apresentação do mágico. O ingresso, caro para os padrões da época, não impediu que a casa estivesse cheia no momento da apresentação.

Na hora marcada a cortina sobe e o palco se ilumina. O mágico adentra pela direita e o silêncio logo irrompe pela plateia. A tensão se mescla com a excitação de ver um show tão diferente por aquelas bandas. Com uma reverência um pouco mais cumprida que o habitual o mágico saúda a plateia. E o show começa.

Para a abertura, nada de mais: uma simples produção de lenços coloridos. Ele recebe alguns aplausos tímidos, mas sinceros. Ninguém queria ver lenços, afinal de contas, tampouco cartas, moedas… o que eles queriam ver mesmo era a peça principal do show: o truque de decapitar a cabeça de um galo, e depois restaurá-la. A promessa do mágico, contudo, ia além: Ele não iria apenas restauraria a cabeça do pobre galo, mas fá-lo-ia cantar novamente, para que ninguém duvidasse de seu feito.

Mais um efeito de manipulação de bolas de bilhar. Incrível, mas isso ainda não era o que o público queria. O mágico, então, sentindo a pressão dos olhares da plateia, resolve ceder e adianta a apresentação do número principal.

Um número dessa envergadura não pode ser, simplesmente feito sem os devidos cuidados. O mágico chama dois voluntários da plateia: o Prefeito e o Delegado. Duas autoridades locais; pessoas austeras e respeitadas. Enquanto o Prefeito segura o corpo de galo, o delegado, segura a cabeça. O mágico então toma um machado e após algumas palavra mágica, decepa a cabeça do galináceo com um golpe certeiro.

Após mostrar claramente o galo morto, ele pede que o Prefeito e o delegado segurem junto as duas partes do animal e recita algumas palavras mágicas. O ritual demora não mais do que um minuto. Nada acontece! Visilmente constrangido o mágico repete o ritual. Os olhares da plateia começam a se transformar, de curiosos para zombeteiros.

Já sei!” – exclama o mágico – “Esqueci-me do líquido mágico que fará colar as duas partes. Aguardem um momento, sim?!” E sai para a coxia, pelo mesmo lado que entrara. Passados 15 minutos o Prefeito, o Delegado e toda plateia já havia percebido que o verdadeiro truque do mágico fora desaparecer juntamente com o dinheiro da bilheteria.

Essa é uma lenda muito divulgada na cidade de Flores da Cunha, antiga Nova Trento. Supostamente teria se passado por meados da década de 1930. O galo que chegou a ser motivo de chacota das cidades vizinhas, acabou sendo adotado como símbolo oficial da cidade e a história – provavelmente uma lenda urbana – acabou ganhando contornos de folclore local.

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ENGANADORES EM LONDRES

Se o desconhecido mágico de Flores da Cunha é apenas um personagem, outros “mágicos” são bem mais reais e também passaram a perna no público ou em incautos crédulos.

Por volta de 1781, um mágico alemão chamado Philip Breslaw, excursionou pela Grã-Bretanha, fazendo relativo sucesso. Um dia, anunciou um show beneficiente, em que todo o dinheiro, arrecadado, seria doado ao pobres. Findado o show, Breslaw tomou o dinheiro da bilheteria e pagou regiamente seus funcionários. Obviamente tal fato chegou aos ouvidos das autoridades locais que inteprelaram Breslaw sobre sua mentira. A resposta de Breslaw foi icônica: “Mas eu não menti. Prometi dar dinheiro aos mais pobres, e não conheço niguém mais pobre que meus ajudantes“.

Contudo a mais icônica história de um mágico enganado seu público aconteceu em Janeiro de 1749, em Londres. Os jornais locais anunciaram durante dias o show de um certo Benimbe Zammampoango, doutor em ocultismo, e capaz de feitos fantásticos. O anúncio era extraordinário: o mágico prometera ser capaz de tocar o som de qualquer instrumento conhecido a partir e uma bengala emprestada da plateia. Ainda, conjuraria fantasmas que revelariam os mais profundos segredos das pessoas ali presentes.

Mas o que realmente chamou a atenção e despertou a curiosidade do público foi a promessa que o doutor entraria dentro de uma garrafa comum de vinho, a qual poderia ser manipulada por qualquer pessoa. A população dirigiu-se em massa ao Teatro em Haymarket para ver o maravilhoso feito. Inclusive o próprio Duque de Cumberland, irmão do Rei Goerge III estava presente. Seria verdade? Seria um boato? Fosse o que fosse, todos queriam ver o que iria acontecer.

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Doutor Benimbe Zammampoango entrando na garrafa de vinho.

Às 18:30, o Teatro lotado. Cadeiras extras foram providenciadas e muita gente se dispôs a ficar de pé. As luzes baixaram e o teatro ficou em completo silêncio esperando o começo do show. No entanto, não havia ninguém no palco e as cortinas permaneciam fechadas. Silêncio e tensão na plateia. Às 19:00 o palco seguia vazio e aas cortinas fechadas. Foi quando começaram os primeiros assovios e vaias. No afã de acalmar a plateia, o gerente do teatro, subiu ao palco e disse que, caso o mágico não aparecesse, o dinheiro dos ingressos seria regiamente reembolsado.

Longe de acalmar a população, a declaração do diretor acirrou ainda mais os ânimos. As mulheres e as crianças prontamente se retiraram já temendo o pior, que de fato acabou acontecendo. Não se sabe direito como, mas na confusão um princípio de incêndio irrompeu pelo teatro, enquanto que, em outra frente, confusão e quebradeira generalizada. A polícia foi chamada, mas quando chegou ao local, todos já haviam se retirado, deixando apenas o rastro da idignação no pobre teatro.

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No dia seguinte o clima jocoso tomava conta de Londres. A piada recorrente era que se o homem tivesse prometido entrar em uma garrafa maior, as pessoas teriam pagado ainda mais para assistí-lo. O mais curioso, contudo, é que ninguém soube ao certo explicar como o boato começou, uma vez que, a príncipio, nem o próprio teatro sabia do show.

Alguns autores modernos dizem que o boato começou com um Duque, chamado John Montagu, um conhecido apreciador de “pegadinhas”. Segundo eles, o Montagu haveria apostado com alguns amigos que, ainda que prometesse os feitos mais impossíveis, mesmo assim, ele seria capaz de encontrar idiotas o suficiente, capaz de encher um teatro inteiro, que acreditariam em tais promessas.

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Moderna reprodução da notícia que circulou pelos jornais londrinos em janeiro de 1749, anunciando o homem que entrava na garrafa.

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A TV brasileira também possui alguns casos curiosos de pessoas que prometeram feitos extratordinários, mas no fim, só enganaram o público.

No final dos anos 1980, o programa “Show de Calouros” no SBT, durante semanas anunciou de forma bombástica o “o homem que vira peixe”. O homem chegou a subir duas ou três vezes ao palco do programa, mas quando ia começar a demonstração o tempo do programa acabava e ficava para a próxima semana. Até que um dia finalmente o calouro veio ao palco e “virou peixe”: munido de uma frigideira, colocou um peixe nela e atirava-o para cima, virando-o.

Outro caso parecido foi o homem que bebia café com leite, engolia só o leite e cuspia o café de volta. A pegadinha: a mistura era composta de leite e café em grãos. Esses quadros foram reprisados e revisitados diversas vezes, por diversos humoristas e emissoras.

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DE VOLTA AO GALO

Mas e o mágico de Flores da Cunha? Será que foi mesmo apenas uma lenda?

Todos sabemos que a ilusão de decepar a cabeça de uma ave e depois restaurá-la é o truque mais velho da históra, literalmente. Também é fato registrado que diversas companhias artísticas passaram pela região de Caxias do Sul na década de 1930, inclusive alguns mágicos.

Um artigo no jornal “O Momento” de Caxias do Sul (cidade vizinha de Flores da Cunha) datado de 10 de fevereiro de 1945, em uma coluna assinada por Iaçanan, conta que o mágico que andava pela região usava uma tesoura, e brinca que, o galo não foi degolado, mas sim “tesourado”. Segundo o colunista existem documentos que “provam de forma provada” que o caso realmente aconteceu. Se a coluna foi séria, ou se trata de algo de humor, é difícil saber.

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Claudino Antônio Boscatto é um historiador local de Flores da Cunha e escreveu o livro “Memórias de um neto de imigrantes” em que conta o causo do mágico pilantra. Segundo ele, a história é uma lenda que nasceu como uma piada e acabou ganhando corpo. Uma das teses de Boscatto é que nenhuma autoridade à época se prestaria ao papel de subir ao palco para um papel tão “humilhante”, ainda mais perante um mágico desconhecido. Claudino cita ainda os nomes das autoridades, o Capitão Joaquim Mascarello, intendente municipal, e o delegado Osário Belíssimo.

Verdade seja dita, é unânime a informação que essa história nasceu da boca dos próprios caxienses; talvez como uma forma de rixa pela emancipação do distrito de Nova Trento (a história supostamente teria se passado no mesmo ano da emancipação).

Uma última fonte cita o mágico nominalmente: “Dipiero” seria seu nome. Pesquisando os jornais da época, não encontrei registros de ilusionistas que tenham usado tal nome.

Seja verdade, seja mentira, o fato é que a história que era deboche, acabou virando a marca registrada da cidade de Flores da Cunha. Todo o ganho publicitário e de turismo foram bem maiores do que o valor furtado pelo mágico enganador. No fim das contas, para o município de Flores da Cunha, foi um belo truque!

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REFERÊNCIAS

LIVRO: Christopher Milbourne, “Magic, a Picture History“.

LIVRO: Ryan, Richard Ryan e François Joseph Talma. “Dramatic Table Talk or, Scenes, Situations, & Adventures, Serious & Comic in Theatrical History and Biography” – Vol. III

SITE: www.geriwalton.com

SITE: Obscure History. Artigo completo sobre o caso (Inglês | PDF)

O DIA EM QUE OS NAZISTAS ROUBARAM UM PÔSTER DE MÁGICA

“[Esta é] a mais variada e abrangente coleção, não importa o ângulo em que se olhe, seja do artístico, sociológico, cultural, psicológico, histórico ou geográfico.

Hans Sachs, sobre a sua coleção.

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Houve um tempo em que não havia internet e nem televisão, e o rádio era item de luxo. Nessa época, os anúncios de eventos eram feitos com pôsteres e cartazes fixados nos muros a fim de informar aos que passassem por ali sobre o acontecimento de eventos, anúncio de espetáculos ou a divulgação de produtos.

Até 1870, mais ou menos, esses pôsters eram basicamente textuais e monocromáticos em preto e branco. A revolução industrial popularizou as máquinas de litografia, permitindo a produção em massa de cartazes coloridos, melhorando a qualidade e barateando custos. Com isso, era comum, especialmente nas grandes cidades, muros serem inundados por cartazes de propagandas e posteres de artistas. Mágicos, em especial, se valeram muito desse novo recurso visual. Alguns chegavam ao extremo de fazer uma arte nova para os cartazes para cada cidade visitada, ou ainda, duas ou mais artes para cada performance. Cenas, como a abaixo, eram bastante comuns.

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Uma parede coberta com cartazes de Chung Ling Soo. São pelo menos 13 ilustrações diferentes.

Como qualquer objeto, eles despertaram a curiosidade e o interesse de várias pessoas e logo surgiram colecionadores desses cartazes. Um desses colecionadores foi o Dr. Hans Sachs, um dentista judeu alemão (o quê, como já dá pra antever, não era uma boa combinação).

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Dr. Hans Sachs.

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O Dr. Sachs nasceu em agosto de 1881 em Breslau, Alemanha (hoje, Polônia) e começou a sua coleção de cartazes ainda em 1895 ao se apaixonar por aquilo que ele considerou uma forma de arte. Seu primeiro cartaz foi um de Sarah Bernhardt, uma atriz francesa.

O que começou como o hobby de um adolescente logo se tornou uma paixão. Sachs era meticuloso e passava suas horas livres enumerando, catalogando e identificando cada uma de suas peças. Sua dedicação ao colecionismo era tamanha que 15 anos após seu primeiro cartaz, Dr. Sachs fundou a sociedade internacional dos colecionadores de pôsteres (“Verein der Plakat Freunde“) e ainda, começou a produzir uma revista dedicada a este hobby, a “Das Plakat” (O Pôster).

Sua paixão por cartazes não o impediu de levar adiante seus estudos. Ele se formou em química e recebeu doutorado em ciências exatas (que englobava as disciplinas de química, física e matemática) e ainda um segundo doutorado em periodontia que acabou se tornando a sua profissão. Até mesmo na área de periodontia, o Dr. Sachs era uma sumidade, chegando a escrever diversos artigos científicos sobre o tema. Um dos clientes regulares do Dr. Sachs era o físico e amigo Albert Einstein.

Obviamente que o Dr. Sachs não colecionava apenas pôsteres de mágicos. Qualquer pôster litografado era seu objeto de desejo. Assim, estima-se que por volta de 1938, na iminência da 2ª Guerra, a coleção do Dr. Sachs já atingia a cifra de 12.500 cartazes. Ele fazia exibições públicas de sua coleção por volta das décadas de 1920 e 1930. A coleção incluía propagandas de carros, bicicletas, sabões, shows de mágica, óperas, enfim…

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Parte da coleção do Dr. Hans.

Como já dito, a Alemanha de 1930 não era a melhor opção de moradia para um judeu. Hitler, já no poder, iniciara diversas campanhas em prol do orgulho ariano. Uma dessas campanhas, foi capitaneada por Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, e que envolvia a promoção do que eles chamavam de “deutsche Kunst” ou “Arte Alemã” o que seria uma forma superior de arte, em oposição à “entartete Kunst” ou “arte degenerada” [1].

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Exemplo de arte “superior” alemã.

A “deutsche Kunst” era um ideal artístico que era fomentado pelo regime do führer, com traços mais naturalistas, arcadianos, em oposição a “arte degenerada” que, para o conceito nazista, englobava peças dos movimentos bauhaus, cubismo, expressionismo, surrealismo e, claro, arte moderna, incluindo aí também, os cartazes de propaganda.

Qualquer arte que se opunha à visão nacional-socialista de beleza era considerada infame e, portanto, deveria ser confiscada e destruída. A coleção do Dr. Sachs encontrava-se nesta categoria. E, dada a grandiosidade de sua coleção, ela inevitavelmente chamou a atenção de Goebbels.

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Cerimônia de queima de livros e de objetos considerados “degenerados”.

Certa noite, o Dr. Sachs recebeu um telefonema de três oficiais da Gestapo – a polícia secreta do nazismo – informando-lhe que, à pedido de Goebbels, o Museu de Arte Decorativa em Berlim estaria adicionando uma nova ala dedicada à “arte dos mercadores” e a coleção de Sachs seria “cedida” à esta nova ala.

Quando os oficiais chegaram à casa do Dr. Sachs, pediram para ver os cartazes de propaganda político partidária. o Dr. Sachs então mostrou-lhes esta parte do acervo, e os oficiais encontraram – além dos cartazes de produtos, diversos pôsteres anti-Hitler (obviamente havia também cartazes pró-Hitler, ams esse detalhe foi ignorado pelo pessoal da Gestapo). Era o argumento que faltava para a Gestapo confiscar o acervo do Dr. Sachs.

Obviamente que o acervo todo foi alvo de apreensão – e não apenas os cartazes políticos. A justifica: arte-degenerada e propaganda anti-nazista. Contudo, alguns historiadores dizem que, assim como o Dr. Sachs, Goebbels também era aficcionado por artes visuais, e que, no fundo, queria a coleção para si.

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Goebbels visitando a exposição de arte degenerada.

O confisco foi inevitável. Ao todo três caminhões carregados de material gráfico deixaram a casa do Dr. Sachs. O próprio Dr. Sachs fez questão de carregar as armações de alumínio onde ficavam guardados os pôsteres. Ao todo ele levou 250 dessas armações, cada uma contendo 50 cartazes, fora as diversas caixas, recortes e demais materiais. O Dr. Sachs nunca mais veria sua estimada coleção novamente.

Como falamos da Alemanha nazista, obviamente que a repressão ao Dr. Sachs não parou por aí. Em 9 novembro de 1938, na famigerada “Noite dos Cristais”, o Dr. Sachs foi preso e levado ao campo de concentração de Sachsenhausen, próximo de Berlim. Ele ficou detido por cerca de 17 dias, até ter a sorte de ser liberado junto com sua esposa e seu filho Peter. O Dr. Sachs entendendo que sua vida na Alemanha havia acabado, abandonou tudo e migrou para a América.

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Campo de concentração de Sachsenhausen.

Na América, com a alma enlutada pela perda de sua estimada coleção, Sachs decide não retomar o seu amado hobby de colecionador, e focar-se na sua área de formação. Ele contou com a ajuda de ninguém menos do que Albert Einstein, que tentou ajudar oex colecionador a conseguir um emprego na área da odontologia, mas seus cursos não foram reconhecidos em solo americano. Assim, para poder exercer a sua antiga profissão, o Dr. Sachs acabou tendo que fazer um novo doutorado na área, se formando dessa vez, em Harvard.

Por volta de 1950, com o fim da guerra e do regime nazista, o Dr. Sachs  vai em busca de informações acerca de sua coleção. Ele é informado pelo governo Alemão Oriental que ela havia sido destruída após a invasão russa a Berlim. E por isso ele foi indenizado em 225.000 marcos (mais ou menos R$ 1,8 milhão em valores atuais) e dá o assunto por encerrado em sua vida. Isso, até a chegada um “plot twist“…

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Em meados de 1960, alguns cartazes antigos começaram a circular em Berlim, vendidas em leilões e também no mercado “paralelo”. O filho do Dr. Sachs, Peter, ficou sabendo dessas vendas e, conhecendo a história do pai, decidiu ir a Berlim e investigar a origem desses cartazes.

A suspeita se confirmou. Segundo consta, apenas uma parte da coleção do Dr. Sachs fora destruída (em torno de 1/3). As 8.000 peças restantes ficaram guardadas no Museu de História de Berlim, e não no Museu de Arte Decorativa – como fora divulgado, e lá permaneceram, mesmo após a Guerra e à divisão de Berlim. Os pôsteres foram reconhecidos por causa do carimbo do Dr. Sachs. Sua dedicação na catalogação meticulosa das peças foi fundamental para a redescoberta de sua coleção.

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Carimbo usado pelo Dr. Sachs para catalogar sua coleção.

No começo de 1974 o Dr. Sachs vai a Berlim, a fim de resgatar a sua coleção. Contudo é proibido de entrar na parte oriental da cidade (àquela altura a cidade já era dividido pelo Muro de Berlim, que impedia a livre passagem pelos lados oriental e ocidental da cidade). O Dr. Sachs faleceu em março daquele ano, sem poder rever sua estimada coleção.

Por quase 40 anos a coleção de Sachs ficou isolada no lado oriental de Berlim. Em 2005, após sua aposentadoria, Peter Sachs decide retomar a luta para reaver a coleção do pai. Logo ele descobre que o museu de Berlim orgulhosamente expunha a coleção. Foi então que ele encampou uma batalha jurídica contra o Museu de História Alemão. Em 2009 a família de Sachs sagra-se vitoriosa, mas somente em 2013 é que mais de 4.000 pôsteres (aproximadamente 30% da coleção original) voltaram à família. Alguns desses cartazes foram doados a museus, outros leiloados à quem pudesse tomar melhor conta deles. Apenas uma parte ficou com a família Sachs. Peter faleceu em setembro daquele ano.

A coleção do Dr. Sachs, de certa forma, sobreviveu ao tempo, à loucura nazista, à ganância comunista. Mais do que anunciar shows e produtos, essa coleção nos lembra da capacidade humana de fazer o mal ao seu próximo, mas também da resiliência e da esperança que trazemos em nós.

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Dr. Hans Sachs.

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PS: Sei que o título não está bem colocado. Os nazistas roubaram muito mais do que um cartaz, e não foi apenas de mágicos. Mas como este é um blog de mágica, e esta história é incrível – mas não necessariamente tem a ver com mágica ou mágicos – achei que um pequeno “click bait” não cairia mal.

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NOTAS

[1] Certa feita, o Governo nazista fez uma exposição de arte degenerada chamada ironicamente de “Kunst” (“Arte”), com as aspas. A ideia era mostrar o feio, o grotesco, e como a arte alemã era superior (ironicamente, hoje ela é considerada um arte “kitsch“, brega). Ao contrário do que esperavam os oficiais alemães, a exposição foi um sucesso e deu ensejo ao que chamamos de Arte Moderna, no sentido de protesto a uma imposição do que é belo,  nada a ver com acepção hodierna de arte moderna.

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Enorme fila para ver a exposição de “arte degenerada”.

Aqui e aqui, exemplos dos catálogos de exposição “Entartete Kunst“; e aqui, o catálogo da “Große Deutsche Kunstausstellung” ou “arte superior alemã”.

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BIBLIOGRAFIA

Site: The Ephemeral Collector

Site: Wikipedia

Site: Guernsey’s Audiction

Periódico: Zoe Wonfor em “Concordia Undegraduated Journal of Art History“, Vol. XI, p. 56 – 71, março de 2015.

BALABREGA, O MÁGICO QUE MORREU NO BRASIL (E SUA ESPOSA QUE ABALOU O IMPERADOR)

“(…) fez explosão a caldeira geradora de gas acetylene matando instantaneamente o director e ferindo : mortalmente o prestidigitador Balabrega e um seu companheiro”

Jornal “A Província” de 13 de junho de 1900 (a grafia original foi mantida).

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Johan Moller nasceu em Helsingbrod, Suécia, em 20 de agosto de 1857 e aos 11 anos de idade, migrou para os EUA onde seu nome foi anglicizado para John Miller. Comeceu na mágica ainda cedo já sob a alcunha de Balabrega, “O garoto mágico” e “A maravilha sueca”. Segundo consta, o nome foi inspirado pelo seu pai, que também era artista, embora não fique claro nem o ramo artístico do pai, tampouco o porquê deste nome tão exótico.

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Balabrega excursionou principalmente pela América Latina onde fez relativo sucesso. Uma curiosidade, em Pernambuco, “balabrega” é uma gíria que significa “engano”, “charlatão”. Provavelmente a expressão nasceu por causa do mágico.

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O historiador Nadur traz algumas informações importantes sobre Balabrega: seu show abarcava mentalismo, manipulações e magia de palco. Era acompanhado de sua mulher, Emma Lynden que apresentava um número de canários amestrados e tocava diversos instrumentos, entre eles, xilofone e garrafas com água.

Segundo Mike Caveney, o casal foi a primeira dupla a apresentar o número de “Segunda Visão” em espanhol e ainda, os primeiros a apresentá-lo na América do Sul. Isso explica, em parte, o grande sucesso e apelo público dos Balabrega aqui na América Latina.balabrega

O show de Balabrega era grande, em todos os aspectos.  Uma de suas ilusões se chamava “Tahuma” e consistia em uma mulher apenas da cintura pra cima. A diferença para a versão clássica do truque da meia pessoa, é que na versão de Balabrega a mulher estava suspensa em um trapézio, e não sobre uma mesa, estática.

O periódico argentino “La Capital” de 17 de janeiro de 1889, teceu o seguinte comentário sobre o show de Balabrega:

“Balabrega – Até o nome remete a um prestidigitador, isto de “bala” e “brega” significa movimento, escamoteio, confusão, (…) logo vem a música de Miss Lidden que, sem ser celestial, cativa e admira e entusiasma graças à habilidade artística que a caracteriza, e a variedade notas e melodias que extrai de vários objetos: vasos de cristal, garrafas vazias e outros objetos.

Balabrega vem precedido de grande renome, e coberto de elogios e lauras conquistados nos principais teatros da Europa e América.

(…) Ademais, tem ainda os canários amestrados dirigidos pela sra. Linden, cuja simples presença no palco (…) produzem uma grata impressão e deixam uma enorme satisfação.

Sra. Linden, Balabrega, dois personagens que bastam por si sós para formar uma companhia, e para serem aplaudidos, até mesmo por aqueles menos inclinados a aplaudir.”

Nadur acrescenta ainda que Balabrega tinha um ato todo dedicado à exposição de fraudes mediúnicas. Não é arriscado dizer que Balabrega tinha todo o necessário para ser um dos maiores nomes da mágica de todos os tempos. Até que o acidente mudou tudo.

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No fim dos anos 1800, Balabrega e sua esposa estavam em um navio, cruzando o Estreito de Magalhães à bordo do navio a vapor “Cotopaxi”. As águas perigosas fizeram com que o navio naufragasse e Balabrega perdeu todo o seu equipamento. Ao invés de se abalar e reclamar no twitter, Balabrega se recompôs e montou um segundo show, que, dizem era muito melhor do que o primeiro.

Fosse pelo acidente ou não, o fato é que John Miller e Emma Linden se divorciaram e ela se mudou para Tauton, no Estado de Massachussets. Talvez ela tivesse pressentido que o acidente fora um aviso de um mal maior que viria se abater sobre John Miller. Por sua vez, Balabrega seguiu excursionando pela América Latina. Além do reconhecimento do público, ele havia adquirido algumas fazendas de fruta pela América Latina, o que explica também sua fixação pelo lado sul da linha do equador.

Ao montar o seu novo show, ele adquiriu uma nova ilusão chamada “The moth and the flames” (A mariposa e a chama).

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O número consistia em vestir seis assistentes de mariposas e por uma chama no meio de palco. As assistentes se aproximavam da chama e eram “consumidas” por ela, ou seja, desapareciam. O problema é que a chama era alimentada por um tanque de acetileno. Não é difícil imaginar o que aconteceu.

As causas do acidentes não são um consenso. Alguns jornais dizem que, era impossível conseguir acetileno no Brasil de 1900. Balabrega então trouxe algumas bolsas de gás do estrangeiro e, ao tranportá- las para o palco, para o ensaio, uma das bolsas explodiu, vitimando Balabrega e um assistente, Lui Bartelle. Outro assistente ficou ferido.

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Notícia da morte de Balabrega

Outras fontes dão conta que não fora a bolsa que explodiu, mas o próprio “Bal” (apelido que ganhou por aqui) que não soube manipular corretamente o mecanismo de iluminação, superalimentando a chama. Fosse o que fosse, Balabrega faleceu em 20 de junho de 1900, no Theatro Santa Rosa, em Pernambuco. Por pouco, o teatro não incendiou por inteiro.

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Emma Lynden
De volta a Emma Linden (ou Lynden ou ainda Leyden; a grafia varia bastante), sua história não é menos curiosa. Após o divórcio foi para Tauton, Massachussets, de volta para a fazenda de sua família. Segundo consta, sua saúde estava debilitada, embora não tenha encontrado maiores detalhes sobre isso.

Em Tauton, ela casou-se novamente e em 1909, de novo, divorciou-se. Ela também abriu uma cafeteria em Nova York, mas o negócio não deu certo e ela mais uma vez voltou para Tauton. Até aí, nada de mais.

Em  07  de janeiro de 1916 ela faleceu e a nota de falecimento de jornal trouxe à tona uma curiosidade: Emma era amiga pessoal do Imperador Dom Pedro II e chegou até a acompanhá-lo em idas ao teatro.

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Los Angeles Herald, nº 59, 8 de janeiro de 1916

Segundo o NY Times da época, Emma estava no Rio de Janeiro e caiu em frente à carruagem do Imperador. Um guarda ajudou Emma a levantar-se e Dom Pedro ficou encantado com a beleza da mulher. Como forma de desculpa, ele convidou Emma para acompanhá-lo ao teatro e ela ficou no camarote real.

Mas a história melhora. Emma seria uma paixão secreta de Dom Pedro, e mais, ela teria sido uma das razões para o golpe de Marechal Deodoro que derrubou o Império. O jornal St. Louis Post-Dispatch, traz maiores detalhes, dizendo que o Imperador dava seguidos presentes a Emma e isso foi um dos motivos que os revolucionários apontaram para tomar o poder.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Nadur, “Historias y curiosidades del ilusionismo

Livro: Mike Caveney, “Classic Correspondence from Egyptian Hall Museum

 

QUANDO UM TRAPACEIRO VENEZUELANO PERDEU (E FICOU ETERNIZADO POR ISSO)

Artigo original escrito por Ernesto J. Navarro

Enviado a mim, por Juan Araújo

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

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Félix Vargas Chacón era um excelente jogador de cartas. Mais do que isso, era um exímio trapaceiro.  Nascido em 3 de abril de 1916, na Venezuela, Félix fez sua fama pelos cassinos do Caribe e no submundo dos jogos e trapaças. O homem era uma lenda.

Quando ainda era criança, seu pai abandou o lar por questões de segurança. Revolucionário, participou de um movimento que tentou tomar o controle da cidade das mãos do Governo Federal. O grupo falhou e, por isso, teve que passar anos escondido na clandestinidade.

Ao voltar para a legalidade, o pai pede que todos os filhos ajudem no sutento da casa. A Félix foi sobrou o encargo de capitanear uma goleta, uma pequena embarcação à vela, que levava os turistas em um passeio até a Ilha de Margarita, no norte da Venezuela.

Félix Vargas Chacón

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“MÃE, VOU CONQUISTAR O MUNDO!”

Aos 14 anos, Félix, havia adquirido gosto pelos jogos de azar e em uma certa noite, possivelmente após beber muito e farrear ainda mais, decidiu abandonar a embarcação para um “passeio”. Quando voltou percebeu que a adega do barco havia sido roubada. Seu pai o afastou das funções no barco, foi quando decidiu sair pelo mundo atrás de aventuras.

Mãe, vou conquistar o mundo!” Essa foi a despedida de Félix para a sua mãe. Ele deixou a sua cidade e viajou até a capital, Caracas. 400 km ao longo do mar do Caribe. Foi em Caracas que Félix comeceu a tecer, o que ele mesmo chamou de: “sua desordenada vida”.

Félix era gentil e encantador. Possuía um carisma natural. “Ele era capaz de lhe vender algo que você sequer tinha a intenção de comprar” conta o escritor venezuelano José Roberto Duque. Isso, somado à sua exímia habilidade de prestidigitação com cartas, transformaram Félix rapidamente no mais famoso e requisitado jogador de cartas, ou na língua nativa, tahúr, em todo o Caribe.

Ele era do tipo que lograva os ricaços e os cassinos. Basicamente aqueles que realmente não precisavam do dinheiro que perdiam. Dessa forma, acabou levando uma vida de ‘playboy’. Com suas habilidades para o ‘baccarat’ logrou viver de roubar os milhonários do Caribe“, conta Duque.

Uma pequena amostra de seu estilo de vida foi divulgado pela imprensa venezuelana em 1950. Após ser detido em Caracas, acusado de cometer um golpe, o jornal “El Nacional” publicou uma nota com o seguinte frase: “Ele era o estrangeiro mais bem vestido no México, nos últimos três anos.” Nos anos mais ativos de sua “profissão” como tahúr entrou e saiu da Venezuela tantas vezes quanto entrou e saiu da prisão.

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LA MEDICINA

Félix era um mestre nos truques com cartas e nas trapaças dos jogos de azar. Seu objetivo era simpless: lucrar o máximo possível. Em sua biografia, Félix relata que seu mais famoso golpe foi batizado de “la medicina” (“a droga”, em tradução livre).

A primeira coisa que Félix fazia era identificar empresários com empresas legalmente constituídas, mas que trabalhavam com contrabando. Se aproximava dessas pessoas, ganhava sua confiança e as estudava a fundo.

Félix dizia que as pessoas com mais estudo fazem mais perguntas, mas também creem mais facilmente a tudo que lhe respondem. Eles também não refaziam perguntas, com medo de passarem por ignorantes. Certamente uma vantagem para os golpes de Félix e uma valiosa lição até hoje.

Depois de um tempo, Félix realizava a trampa. Juntamente com três comparsas alugava alguns quartos em hoteis distintos. Juntamente com a vítima, chegava ao primeiro hotel, e um dos sócios dizia possuir dois quilos de cocaína. Félix pedia para 20 gramas já que não tinha dinheiro para comprar maior quantidade. O comparsa aceitava “vender” essa quantidade irrisória, apenas porque conhecia Félix. Féliz entregava o dinheiro e recebia um pequeno papelote de papel alumínio lacrado. Eles então saíam do hotel.

Dirigiam-se então ao segundo quarto. Nesse interim o primeiro vendedor comunicava um segundo comparsa que encontrava-se casaualmente com Félix, fingindo ser um consumidor desesperado por uma dose. Félix dizia que não podia vender a droga para ele, até porque só tinha um papelote pequeno. O comparsa oferecia então à Félix o dobro do que este havia pago pelo papelote de cocaína (que na realidade era bicarbonato de sódio).

Ato seguinte, o comprador-comparsa, alegando dificuldades de conseguir a droga, prometia pagar generosamente por uma quantidade maior. Félix e a vítima voltavam ao primeiro quarto de hotel e o tahúr tratava de pedir os dois quilos de cocaína fiado. Como Felix era menor de 90 anos e não estava acompanhado dos pais, a oferta era, obviamente negada.

Vendo a possibilidade de ganhar dinheiro fácil e rápido, a vítima, movida pela ganância, aceitava por seu próprio dinheiro no negócio. Quando se dirigiam ao econcontro do usuário para vender-lhe a droga, eram interceptados por um policial de verdade, porém comparsa de Félix. Ele dava voz de prisão aos homens, mas para evitar problemas burocráticos, topava deixá-los ir embora, se lhe entregassem a droga e prometessem nunca mais se envolver com aquilo. A oferta era prontamente aceita. Assim, se perdia a droga, o papelote e o dinheiro já estava pago. Essa receita rendeu a Félix, milhares de dólares.

– Æ –

UMA BOA VIDA

Seus golpes sempre lhe renderam grandes cifras de dinheiro, o que facilitou a sua entrada na alta sociedade, em especial nos círculos políticos e de entretenimento na Venezuela, México, Cuba, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, entre outros países. Em suas memórias, garantiu ter conhecido Fidel Castro quando este estava na iminência de tomar a ilha. Conheceu também Che, Raúl e outros guerrilheiros.

Suas memórias aliás, viraram um livro, publicado ainda na década de 1970. Está recheado de histórias fantásticas como da fuga de uma prisão mexicana em meados de 1953 a bordo de um Cadillac zero quilômetro junto com uma aeromoça. Um roteiro de filme, sem dúvidas. Outra história curiosa foi quando conheceu a sua esposa durante uma luta de boxe entre dois campões olímpicos.

Félix viveu uma vida de extremos: cercou-se de homens bons e homens maus, heróis e delinquentes, gregos e troianos, segundo suas próprias palavras. Esses contatos lhe abriram portas. Instalou no México alguns cabarés que serviam à nata da sociedade. Todos queriam beber com Félix.

– Æ –

UM NOVO TRAPACEIRO ARREPENDIDO

Félix conta em seu livro suas aventuras, mas também fala de sua “conversão”. Após o casamento se arrepende de seus crimes e se dedica a emendar a sua vida, e a instruir os demais sobre os perigos dos jogos de azar e das drogas. A história se repete

Seu livro no fim das contas, serve tanto como relato biográfico, como uma grande e completa reportagem sobre a delinquencia e o mundo interno dos cassinos e jogos de azar.

No fim das contas foram quarenta anos de delitos. Félix sempre reconhecera que grande parte de sua sorte estava embasada nos contatos políticos que havia colecionado ao longo dos anos. também sabia que suas histórias poderiam servir de lição para outros. Não a toa, todas as três edições do livro sempre constaram como esgotada. mesmo hoje, é difícil de achar uma cópia. A que está disponível na Biblioteca Nacional da Venezuela, está guardada no acervo “raros”.

Na Venezuela, um livro com boas vendas vende algo entre 2.000 e 3.000 cópias. O livro de Félix vendeu 65.000. Seus livros vendiam como pão quente, pois não contavam apenas a história do mais universal tahúr da Venezuela, mas a história de Cuba de Batista e a decomposição da própria Venezuela.

Não houve tahúr como ele no Caribe, com uma habilidade inata para a psicologia. Conhecia a fundo suas vítimas. Mas também era humano e bondoso. Era dificil desgostar de quem roubava homens de colarinho branco e outros delinquantes“, contou seu amigo, o poeta Juan Calzadilla.

– Æ –

A MORTE E A ETERNIZAÇÃO DO TAHÚR

No fim de sua vida, Félix Vargas Charcon, vivia uma vida pacata e expressava com uma ponta de tristeza: “Vivi ladrão em um mundo de honrados; agora sou um honrado em um mundo de ladrões.

Félix faleceu em janeiro de 2014. Tinha 98 anos.

Um dia, um “argentino manco” resolveu contar para o mundo a história de Félix, usando para tanto apenas sua elegância e sua mão esquerda. O resultado, podemos contemplar abaixo:

 

Quando Félix decidiu sair de sua cidade natal, Cumaná, e conquistar o mundo, ele acabou fazendo uma profecia acerca de si mesmo, ao despedir-se de sua mãe. Como todo nascido em Cumaná, Félix era um cumanês. E foi com esse apelido gentílico que criou para si a figura de um exímio tahúr que viria a conquistar o mundo. Félix Vargas Chacón era “O” Cumanês.

Memórias de "el cumanês"
Livro autobiográfico de Félix Vargas Chacón

UMA BREVE HISTÓRIA DO EMBARALHAMENTO FARO

Texto base de Leonardo Macedo.

Adaptado e ampliado por Leonardo Glass

“Millions of dollars are wagered annually at Faro in this country. It is the most fascinating of layout games.”

S. W. Erdnase

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INTRODUÇÃO

Mágicos experientes e trapaceiros de poker, blackjack e demais jogos de cartas certamente conhecem o embaralhamento faro (ou faro shuffle), conhecido por muitos como o embaralhamento perfeito por intercalar perfeitamente todas as 52 cartas do baralho, uma a uma. No entanto, mesmo aqueles que conhecem o Faro, provavelmente desconhecem a história por trás deste embaralhamento.

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Jogadores de Faro, nos EUA. Final dos anos 1800.

– Æ –

O JOGO DO FARAÓ

A origem do jogo se deu com um jogo de cartas chamado basset. Por volta de 1690 o basset foi proibido. Algum tempo depois surge o Pharaon, um jogo derivado do basset, e com base na mesma premissa: um jogo de apostas, passível de ser jogado por diversos jogadores ao mesmo tempo. Isso ajudou na popularização do Pharaoh. Registros datados da época do Rei Luís XIV (Século XVIII) dizem que o jogo ficou conhecido por esse nome entre os jogadores da corte devido à embalagem do baralho francês vir com a imagem de um Faraó (algumas fontes dizem que o faraó estava estampado na face de uma das cartas da corte, a saber, J, Q, K).

Com o passar do tempo, o jogo começou a se espalhar pela Europa (principalmente pela Inglaterra e Itália) e ganhou variações em seu nome, devido a mudança de idioma de cada país, até chegar aos EUA e ter o nome adaptado para Faro.

O “Pharaoh” angariou vários entusiastas famosos, entre eles escritor italiano Giácomo Casanova. Casanova foi um amante do jogo de faro, tendo o registrado em algumas passagens de sua autobiografia. Há relatos em livros sobre história dos jogos de aposta sobre fortunas ganhas por Casanova e presentes extravagantes que ele deu para mulheres, mostrando que ele era, possivelmente, um grande trapaceiro no jogo. Outra celebridade histórica que jogava faro foi a rainha Maria Antonieta. Há, inclusive o registro que ela chegou a jogar 36 horas seguidas de Faro com alguns banqueiros

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Maria Antonieta e Giácomo Casanova, dois jogadores de faro!

Nos EUA o jogo chegou em meados de 1700. Alguns historiadores, porém, datam a chegada do Faro à América em 1803, pelas mãos de John Law, um escocês exilado que aportou em Nova Orleans. O Faro logo tornou-se muito popular na América. Ali ganhou um novo apelido “bucking the tiger” ou “prender o tigre”, sendo inclusive este apelido citado por S.W. Erdnase em sua obra “The Expert at the Card Table“. Este apelido era devido a ilustração de um tigre de bengala que enfeitava as cartas à época. Outra gíria para o jogo de faro era “twisting the tiger’s tail” ou “torcer a cauda do tigre”.

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Placa de uma casa de jogo de faro

A imagem do tigre era tão fortemente associada ao jogo do faro, que algumas casas de apostas colocavam uma imagem de um tigre nas fachada, anunciado que naquela casa de jogos, se jogava o Faro. O Faro teve seu auge nos EUA entre os séculos XIX e XX, favorecendo e fomentado o crescimento do número de casas de jogos e cassinos. Com o passar do tempo o jogo foi perdendo sua popularidade, sendo substituído, aos poucos, pelo Poker.

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Cartas com o tigre que deu o apelido ao jogo faro

– Æ –

COMO FUNCIONA O JOGO?

A premissa básica do Jogo de Faro é bem simples: O dealer distribui as cartas em dois montes, uma para ele, o outro para os jogadores. Para ganhar, o jogador tem que torcer para que a carta apostada seja revelada no monte referente aos apostadores. Caso contrário, quem ganha é a banca.

O jogo era feito em uma mesa específica para ele, coberta com uma toalha com o desenho de todas as cartas de um naipe (os naipes aqui eram meramente ilustrativos, somente os valores das cartas eram considerados). Sobre esses desenhos os jogadores apostavam nas cartas que iriam sair. O dealer então misturava as cartas e a primeira do topo era “queimada”. As cartas seguintes eram tiradas alternadamente formando duas novas pilhas: a primeira pilha para o dealer, e a segunda aos jogadores. Se alguma das cartas que foram apostadas aparecesse no monte dos jogadores, o apostador ganhava o pote (lembrando que a aposta do dealer não oscilava de valor); caso contrário, o dealer ganhava a aposta dos jogadores. Cada par de cartas reveladas formava um turno e, após cada turno, os jogadores poderiam mudar suas apostas para outras cartas (para saber mais sobre o assunto, recomendo o livro “Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne).

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“Case ” para apostas no jogo de faro.

Assim como em todos os jogos que envolvem apostas, foram desenvolvidas muitas técnicas para trapacear no jogo de faro. E aqui entra a necessidade de usar o “embaralhamento perfeito”. O faro chega para o jogo como uma ferramenta a favor do dealer com 2 possíveis funções: 1) atrapalhar eventuais trapaças dos jogadores; e 2) facilitar o lucro da “banca”.

Visto que as cartas eram reveladas aos pares, e tendo em mente que o embaralhamento faro intercala perfeitamente dois montes de 26 cartas (considerando um baralho padrão de 52 cartas), fica fácil entender como essa técnica beneficiava o dealer na mesa de jogo: Basta separar as cartas que o dealer queria que ganhassem em um dos montes e intercalar de forma que elas fiquem nas posições ímpares ou pares, dependendo de quem seria o beneficiado (lembrando que a primeira carta distribuída pertence ao dealer, a segunda aos jogadores).

A execução da técnica de faro era feita na mesa (simulando um riffle shuffle), mas para a mágica isso foi adaptado de forma a poder se fazer sem mesa também, o que aumentou a versatilidade da técnica.

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Embaralhamento faro feito na mesa (esq.); embaralhamento feito na mão (dir.).

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OS MÁGICOS DESCOBREM O EMBARALHAMENTO FARO

O primeiro mágico a perceber o potencial do faro para a mágica, foi Jean Hugard em seu livro “Card Manipulation nº 3” de 1934. Porém, o potencial vislumbrado por Hugard foi mais estético do que como uma ferramenta em si. Foi só em 1940 que Hugard, juntamente com Frederick Braue publicaram um estudo bastante extenso sobre o Faro, bem como efeitos usando o faro (vide “Expert Card Technique“, “The Perfect Faro” p. 143 em diante).

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Jean Hugard, o primeiro mágico a ver o faro como uma ferramenta para os mágicos – e não apenas para os trapaceiros em mesas de jogos.

Outros mágicos também passaram a explorar o embaralhamento Faro, pois proporciona diversos princípios matemáticos interessantes para a criação de efeitos. Cabe aqui os seguintes destaques: Ed Marlo e seu famoso efeito “The Miracle Aces”; e Alex Elmsley, com a descoberta do incrível Princípio de Penélope.

– Æ –

CONCLUSÃO

Apesar de ser uma técnica considerada de nível avançado, não é algo tão difícil de aprender, ao contrário do que muitos pensam. O aprendizado da técnica de Faro pode ser muito útil, pois além de proporcionar diversos princípios matemáticos, ainda auxilia para o setups de alguns efeitos. Recomendo o estudo.

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BIBLIOGRAFIA

Livro:Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne (versão digital);

Livro:Marie Antoinette’s Confidante: The Rise and Fall of the Princesse de Lamballe” de Geri Walton;

Livro:Frontier Gambling” de G. R. Williamson;

Livro:Magic Tricks, Card Shuffling and Dynamic Computer Memories” de S. Brent Morris;

Livro:Scarne on Cards” de John Scarne.

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

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Capa do periódico Mahatma

– Æ –

2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

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Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

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Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

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Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

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Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

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5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

MATHIAS BUCHINGER, UM ANÃO GIGANTE!

“É fácil entender porque Ricky Jay se encantou tanto por Mathias Buchinger. O pequeno homem era um dínamo, um mistério, um super herói no mundo real – embora, provavelmente jamais o vejamos em um filme de Hollywood. Super heróis dos quadrinhos, têm muito ‘sex appeal’, mas muito pouco sexo. Em comparação, o rechonchudo Buchinger era um garanhão”

Teller sobre a biografia de Mathias Buchinger, escrita por Ricky Jay.

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O público em frente ao “Corner House” em Charing Cross, Londres, não podia acreditar no que estava vendo. Prontos para ver uma “tragédia”, acabaram sendo calados, silenciados por algo incrível. Diante deles um homem inválido, cujas pernas iam até pouco antes de onde deveriam haver seus joelhos, e com braços que terminavam antes dos cotovelos (e que, convenhamos, pareciam dois galhos serrados) havia lhes prometido um show de ilusionismo, caligrafia, arte e música. Por certo seria um espetáculo dantesco, de um humor macabro alimentado por uma curiosidade mórbida. O que todos viram, porém, naquele dia, calou-lhes a boca e encheu-lhes os olhos.

V0007015ER Matthias Buchinger, a phocomelic. Stipple engraving.

Mathias Buchinger nasceu em 2 de junho de 1674 em Ansbach, na Alemanha. Sua família não era rica, mas também não havia necessidades. Dentre os oito filhos e uma filha, Mathias era o mais novo e o único com defeito. Provavelmente nasceu com focomelia, uma doença que causa o encurtamento dos membros superiores e inferiores. O braço direito de Buchinger terminava pouco antes do cotovelo; do lado esquerdo, o braço era um pouco maior do que o cotovelo, o que lhe dava uma leve flexão. Ambos braços terminavam em uma protuberância que lembrava mais um balão murcho do que uma mão. O mesmo às suas pernas. Isso, obviamente, impedia Mathias de caminhar, por isso ele se arrastava pelo chão para se locomover.

Isolado do mundo externo, desde a infância, pelos pais, Mathias acabou encontrando companhia em atividades solitárias como música, caligrafia, artes. E, além de tempo para praticá-las, Mathias possuía talento. Já aos vinte anos, começou a se apresentar como uma atração “sideshow” (show de horrores), mas encantava também pelo seu talento. Bem mais tarde, aos 40 anos, Mathias decidiu ver se conseguiria impressionar – e quiçá até influenciar – alguém importante na Inglaterra E foi ali que ele viveu até o fim de seus dias.

É noticiado em um cartaz de propaganda de Mathias, datado de 1717 que, entre outras feitos incríveis, Mathias fabricava suas próprias canetas, escrevia tão rapidamente e tão perfeitamente quanto qualquer mestre da caligrafia, costurava com agulha e linha muito rapidamente, e possuía habilidades surpreendentes e convincentes em “legierdemain” (manipulação). Em outro cartaz, Buchinger vende-se dizendo que nunca, na história da humanidade houve alguém como Mathias, e provavelmente nunca mais haverá. Essa descrição certamente despertou a curiosidade de muitas pessoas importantes, possivelmente até o Rei George I que o recebeu para um show.

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Cartaz anunciando o show, e as habilidades de Mathias Buchinger. (Clique na imagem para ampliar)

O Rei Geroge I, impressionado com Mathias, pessoalmente buscou entre a nata da sociedade algum mecenas que pudesse subsidiar os gastos de Mathias. Em 1716, Mathias presenteou o Rei com um instrumento musical fabricado pelo próprio Mathias, e uma carta solicitando que o Rei fosse o seu mecenas. O Rei George recusou a oferta, mas fez questão de pagar generosamente pelo instrumento.

Desanimado pela tentativa falha de uma pensão vitalícia, Mathias decidiu adotar suas performances como meio de vida. à época a Inglaterra estava com uma demanda por “side shows” de “horror” e Mathias se encaixava perfeitamente neste conceito. Mathias passou então a apresentar as suas habilidades, a um shilling por espectador. Em suas apresentações, as pessoas poderiam ver Mathias atirando com armas de fogo, tocando um instrumento, jogando cartas, além das já citadas habilidades. Se valendo de próteses que lhe permitiam tais feitos, Buchinger surpreendia ao público, não só pela habilidade, mas pela sua inteligência e perspicácia que superava, em muito, suas limitações. O seu sucesso foi tamanho, que não tardou para que Mathias fosse requisitado para performances particulares.

Se a sua carreira ia bem, o mesmo não podia ser dito de sua vida particular. Mathias que, a esta altura, estava casado com a sua segunda esposa, supostamente foi vítima de agressão, verbal e física, por parte da esposa. Mathias, que sempre fora um homem calmo e até bastante extrovertido viu-se em meio a um turbilhão emocional que culminou com Mathias expulsando a esposa da casa onde eles viviam e, agredindo ela em público, até que ela jurasse nunca mais agredi-lo novamente. O caso ganhou notoriedade, tanto quanto sua fama artística de Mathias, a tal ponto que em um poema, em sua homenagem, contem os seguintes versos: “Ele nunca cometeu, nenhum deslize em sua vida / Exceto casar-se com  sua segunda esposa“. Seja por isso ou não, o fato é que logo depois desse triste episódio, o divórcio entre eles se consumou.

Mathias casou-se ainda mais duas vezes e teve ao todo, 14 filhos: Um da primeira esposa, três da segunda, 6 da terceira e 4 da última esposa (embora algumas fontes digam que ele teve apenas 11 filhos, e outras dão conta que ele teve ao todo 8 mulheres diferentes, além de diversas concubinas). Um dos desenhos mais conhecidos de Buchinger é uma árvore genealógica em que ele aparece como o tronco, suas esposas como galhos e seus filhos como os frutos.

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Árvore genealógica de Mathias Buchinger

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Mathias vivia circulando entre Inglaterra, Escócia e Irlanda, apresentando-se. Aprendeu novas habilidades como tocar gaita de foles e dança escocesa (segundo ele, ele dançava tão bem quanto qualquer “highlander” sem as pernas). Ele também melhorou sua habilidade de escrita, aprendendo a escrever em qualquer direção e até mesmo espelhado.

Aliás, a mais impressionante habilidade de Mathias era sua capacidade de escrever em miniaturas. Tamanha era a sua habilidade que ele colocava mensagens “ocultas” em seus desenhos, como por exemplo, transformando mensagens da bíblia em cabelo. Por exemplo, em um de seus autorretratos, Mathias, ao invés de desenhar os fios do cabelos, transcreveu os salmos 121, 127, 128, 130, 141, 149 e 150, e ainda a oração do Pai Nosso.

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Auto retrato de Mathias Buchinger. Repare que os cabelos, ao invés de desenhados, são salmos transcritos.  (Clique na imagem para ampliar)

O tempo passou e logo o ato de Mathias deixou de ser novidade, vindo a decair em termos de espectadores. A idade também já começava a pesar sobre os ombros de Mathias que não tardou a diminuir sua carga de shows, de 7 apresentações diárias, para apenas duas. Assim, novamente Mathias tentou conseguir alguma pensão governamental e desta vez escreveu a um Palatino – uma espécie de nobre, representante direto da Coroa Britânica – dessa vez se valendo de sua terceira esposa, Anna Elisabete, que era filho de um já falecido Palatino, como chantagem emocional. Novamente seu pedido foi negado.

Em 14 de abril de 1733 ele escreve a Robert Harley, Conde de Oxford, oferecendo a ele a oportunidade de comprar um de seus desenhos, e que lhe custara 15 meses de trabalho. Mathias não estipula preço pela obra, deixando o conde livre para pagar o que achasse justo, porém, Mathias faz referência a uma suposta doença que lhe causaria tremores e febres e que o impediam de trabalhar novamente com tanto afinco. Seja, verdade, seja um mero truque emocional de vendas, o fato é que o Conde acabou adquirindo a obra.

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(Clique na imagem para ampliar).

Seis anos mais tarde, em 1739, Mathias veio a falecer com 65 anos em Cork, na Irlanda. Mas isso não interrompeu as excentricidades de Mathias. Seu último desejo foi que seu esqueleto fosse doado para uma Universidade local para ser estudado. O que Mathias achava que os cientistas iriam descobrir é incerto. O que é certo, porém, é que, quando de sua morte, Mathias teve todas as honras de um homem respeitável.

– Æ –

Uma das mais impressionantes habilidades de Mathias era o truque dos covilhetes. Ele produzia os copos e enquanto o público se perguntava para onde havia ido a bolinha, Buchinger, os surpreendia, revelando um pássaro vivo debaixo do copo. A fama de Buchinger à época foi tanta, que seu sobrenome “Buchinger” acabou tornando-se um gíria para “pequeno”.

O fato é que sua fama veio por causa de suas habilidades, mais do que pelo seu tamanho – embora seja inegável que sua deformidade potencializou os seus feitos – característica esta recorrente em todos aqueles capazes de superarem a si mesmos e as limitações que lhe foram impostas.

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Detalhe do cartaz do Mathias Buchinger, em que ele está executando os covilhetes.

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BIBLIOGRAFIA

“The Dublin Penny Journal” Vol. I, nº 44 – 27 de abril de 1833

“The Scots Magazine and Edinburgh Litarary Miscellany”  – abril de 1807

Edward Wood em: “Giants and Dwarfs” – 1868 p. 287 – 300

Ken Johnson em: “Astouding feats in Pen, Ink and Magnifying Glass” –  The New York Times, 14 de janeiro 2016

Wikipedia: “Mathias Buchinger

Exposição: “Desenhos de Mathias Buchinger por Rick Jay” no MET Museum