ENTREVISTAS COM RENÉ LAVAND

Poderia viver em uma casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito” – William Shakespeare

Em minha humilde, parcial e nada embasada opinião o maior mágico que já viveu entre nós é René Lavand. Dono de um estilo único e inconfundível, suas apresentações conseguiam cativar e maravilhar até aqueles que não gostam de mágica. Feito raro entre nossos pares. O maior arrependimento de minha vida foi nunca ter podido conhecê-lo (e o pior, saber que eu tive a oportunidade…).

O Blog Água & Azeite dedica este post à vida e à obra de René Lavand. Trata-se de um compilado com diversas entrevistas, todas extraídas da internet e traduzidas por mim.

René Lavand

– Æ –

Antes de mais nada, temos que chegar a cidade de Tandil, atravessá-la, sair dela, percorrer estradas de terra, uma curva, outra curva, uma terceira curva e então, à direita, vê-se uma cabana com uma placa que diz “Milagro verde“, um pequeno telhado debaixo do qual se encontra um Audi novo, impecável, e muitas árvores. à frente da cabana está um homem sentado à mesa, em frente à cabana e debaixo do sol quente da manhã, um homem que bebe vinho tinto, veste uma camisa clara, gravata borboleta, calças beges, sapatos brancos, e enormes olhos aquosos – um deles com a pálpebra caída – sobrancelhas grossas e um bigote. A mão direita está no bolso.

A cabana é assim: uma cabana de troncos, com uma porta estreita a qual se acessa por quatro degraus. Dentro, depois da entrada, há uma mesa grande, um candelabro de uma só vela, em seguida a sala – cadeiras, poltronas, um enorme painel de vidro fixo – um pequeno espaço e em seguida mais móveis: um porta bengalas com diversas bengalas, e na parede, diversos chapéus: boinas, chapéus texanos, gorros de couro; no chão, diversos compactos: Beethoven, Mozart, Vivaldi, Bach – e uma mesa redonda coberta por uma toalha verde e sobre a toalha, diversos maços de cartas. E por todas as paredes desenhos e fotos de uma mão esquerda e do homem que, sentando de frente a uma mesa, em frente de uma cabana, sob o sol do meio dia, bebe vinho tinto. Às suas costas, sobre a porta de entrada da cabana, o seguinte dizer: “Poderia viver em um casca de noz e, ainda assim,  sentir-me o rei do Universo infinito”.

– Shakespeare – diz o homem

Mas a frase de Shakespeare é assim: “Poderia viver em um casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito, se não fossem os meus sonhos ruins”. Claro que o homem conhece as vantagens: uma pequena mutilação pode transformar algo em outra coisa. Pode transformar, por exemplo, um garoto comum em um homem extraordinário; a Héctor René Lavandera, nascido em setembro de 1928, em Buenos Aires, em René Lavand, habitante de Tandil e especialista em “close-up” (mágica de perto, feita com cartas e objetos pequenos), e um dos melhores do mundo na especialidade de ilusões com cartas; se não o melhor, ao menos único. Isso porque René Lavand tem apenas uma única mão, a mão esquerda.

– Venha, vamos conversar no meu Laboratório.

Filho único de Antonio Lavandera e de Sara Fernández, caixeiro viajante ele, professora, ela, o filho Héctor René Lavandera viveu com sua família em diversos locais da capital Argentina. Em uma dessas mudanças, seu pai montou uma sapataria. Em 1935, quando o menino tinha sete anos, chegou em Buenos Aires um mágico chamado Chang e lá foi ele, mãos dadas com sua tia Juana. Quando Chang subiu ao palco, o menino ficou mudo e desejou que seu pai fosse Chang, que Chang fosse seu pai, para aprender dele todos os truques. Durante semanas, durante meses, não se falou de outra coisa naquela casa: no café da manhã: Chang; no almoço: Chang; no lanche da tarde e na janta: Chang. Um amigo da família, comovido, ensinou um truque de cartas que o obeso garoto começou a praticar com dedicação. Pouco depois, a sapataria do pai se fundiu a outro negócio, e eles se mudaram para Coronel Suarez, um povoado da província de Buenos Aires, onde um novo emprego esperava por seu pai. Em fevereiro de 1937 o menino tinha nove anos. Era carnaval e fazia muito calor. Ele estava jogando bola a meia quadra de sua casa quando seus amigos disseram: “Vamos atravessar a rua”. Era um desafio menor: não era um rio, não era um abismo, não era subir uma montanha; eram cinco metros de asfalto, mas o menino havia sido proibido de atravessá-los sozinho. Seus amigos cruzaram a rua e ele pensou: “Também vou atravessar”. E atravessou. E entre o menino e o resto de sua vida se interpôs um menino de 17 anos a bordo do automóvel de seu pai. Houve uma manobra brusca, uma criança caída, pneus derrapando, derrapando… lesão gravíssima: o antebraço direito contra o meio-fio da calçada. Sara, sua mãe, escutou o barulho e pensou: “Héctor atravessou a rua”. Chegou correndo e quando viu o menino caído, os vizinhos lhe ajudaram para que não gritasse e levaram o garoto até a clínica médica que estava justo em frente ao local do acidente. O médico plantonista quis logo amputar o braço do menino – “lesão gravíssima” – à altura do ombro. Uma vizinha foi quem protestou: “Espere que chegue o Dr. Patané”. Assim, esperaram. Dr. Patané chegou e salvou o braço do menino, mas cortou a mão. Deixou um coto de cerca de 11 centímetros abaixo do cotovelo direito. O menino era destro.

Chang (nome artístico de Juan José Pablo Jesorum), litografia de 1939.

– Este é o meu laboratório. Passo hora aqui olhando o parque, escutando música.

O coto esquerdo sobre a mesa, a mão esquerda erguida, anel no dedo mínimo. Um golpista que quer se parecer com um golpista.

– Às vezes repasso minhas composições, vejo como posso melhorá-las. Eu já consegui – e me desculpe pelo “eu” – aquilo que, se já se escutou a Sétima Sinfonia de Beethoven mil vezes, cada vez que a escuta, é a mesma apoteose.

A reabilitação do garoto durou um ano. Não existem relatos precisos à respeito, mas se sabe que o baralho lhe entreteve. Primeiro, as cartas caiam torpes daquela mão torpe, esquerda demais. Insistiu com tesão, impôs-se uma disciplina árdua: jogar ping-pong, futebol de mesa. Mas as cartas lhe custaram sangue. Embaralhar, distribuir, cortar, levantar, ocultar, esconder, empalmar: sangue. Cresceu. Tinha 14 anos quando sua mãe conseguiu um emprego de professora longe de Coronel Suarez e se mudaram novamente, desta vez para Tandil. Não há memórias tristes daquela adolescência. Colégio, amigos, um pai que lhe aconselhou: “Ao primeiro que lhe chamar de maneta de merda, quebre-lhe a cara, que eu te livro da diretoria”. Um homem chamado Leonardi, aficionado por mágica, lhe ensinou alguns truques e lhe presenteou com um livro de cartomagia de Joan Bernat y Fábregas. O presente confirmou o que o jovem já sabia: as técnicas, todas, eram para mágicos com duas mãos. Ninguém nunca havia pensado que algum dia houvesse um mágico com uma só mão. Mas insistiu e quando terminou o colégio sua mão respondia mais ou menos, obediente. Em 1955 seu pai faleceu em função de um câncer e o peso da dívidas, da casa e da mãe, caíram sobre o jovem. Saiu à procura de um emprego e encontrou um no Banco Nación. Passou ali os dez seguintes anos de sua vida. Em algum momento conheceu uma mulher chamada Sara Dellacqua e se casaram. Tiveram duas filhas: Graciela e Julia. Em 1960 ganhou um diploma em ilusionismo e lhe ofereceram que debutasse em Buenos Aires. Dois teatros: Tabarís e El Nacional lhe incluíram em seus espetáculos de variedades. Rebatizou-se René Lavand, com uma sofisticação já um tanto “demodé“, mas que fazia sentido: dentre os elegantes, os franceses, eram os melhores. Já em 1965 era imparável: fez uma temporada na Cidade do México e suas turnês pela América Latina eram frequentes. O público se rendia ante a mão que fazia milagres, à voz que magnética que transmitiam coragem e à emoção das histórias de um velho golpista do Sul dos Estados Unidos, de um mágico oriental preso em uma masmorra, de um “tahúr” obrigado por sua mulher a ganhar uma fortuna antes da meia noite…

O que é a magia, René?

É a  comunicação artística e humana alcançado junto ao público. Seja Marta Argerich no piano, seja Julio Bocca dançando ou, numa dessas, René Lavand – perdão se falo de mim em terceira pessoa – com o baralho nas mãos. Para mim, isso é magia, eu sou ilusionista. É uma questão de termos, nada mais.

O que seria de René Lavand sem o ilusionismo, então?

O que seria? Hector René Lavandera, que é meu verdadeiro nome. Mas o certo é que não o conheço, e é difícil para mim imaginar um René Lavand sem o ilusionismo. Porque me acompanha desde os sete anos com as duas mãos e, depois do acidente, aos 9, com uma.

Você sempre diz que foi um autodidata nisto de aprender a arte…

À força, por isso que acabei de falar: o acidente. Não existem livros que expliquem técnicas para uma só mão.

Dizem que em Tandil, as pessoas contam que era um verdadeiro espetáculo vê-lo contar as cédulas no banco…

São anedotas que contam por aí, são fantasias do povo. Não, isso… eu com o baralho me defendo, algo que fiz por toda a minha vida, assim que aprendi, certo? E fui obrigado a criar, como dizíamos a pouco.

Você é um artista muito conhecido, não só por ter apenas uma mão, mas também por sua humildade, cavalheirismo, pela gentileza em cima do palco e as histórias que conta…

Não sei se sou humilde, não creio. Tampouco sou um falso modesto, claro, isso é pior. Creio que se alcancei alguma fama, foi por meu estilo, não pela mão. Por que pra mim dá no mesmo, já que citei Marta Argerich, que ela toque com uma mão ou com sete; o que me interessa é que me toque a alma, que me comova. Assim, não é a forma de fazer, mas sim, a forma de fazer no que respeita a expressão. O segredo não está no que se faz, senão em como se faz, evidentemente. Mas não por ter uma só mão, isso não conta. Isto é uma adição que o público faz, mas é a última adição: “Tchê, e com uma só mão! Que filho da…“, essa é a última. Mas nunca fiz nada para que me aplaudissem por fazer com uma mão. Dá no mesmo com uma ou com duas.

Esta a par das figuras do mundo da arte?

Se estou a par de quê?

Se há alguma artista que goste, que se destaca nesse momento?

Bom, sim, acabei de falar com um amigo a quem admiro artísticamente, Morrison. Falei com ele faz três minutos, da Espanha, me telefona sempre. Somos muito amigos me disse para ver quando vou ir vê-lo. Mas mora em Sevilha, não posso viajar tanto, tenho quase 79 anos. Mas bem, por outro lado, a Espanha está me chamando. Para mim Europa é dos Pirineus para cá, já a esta altura. Gosto de voltar a Espanha pelo reencontro amigos, pelo carinho, com anfitriões e com um dinheiro importante. Em Tandil vivo para descansar, porque, por sorte, não me chamam a nenhuma parte, então, aproveito para descansar. O mercado está, sobretudo, na Espanha. Também tenho feito, por agora, Texas, Colômbia, tenho que ir a Belo Horizonte, outra vez a Colômbia., também tenho que fazer essas coisas. Mas, sim, me interessa.

Em Tandil vem muita gente visitá-lo? Disseste que tens discípulos…

Vivo um pouco escondido aqui, ao pé de um monte. Mas sempre aparece gente para tirar fotos, e coisas que, bem, me fazem sentir afagado. Ainda que, às vezes, seja um pouco pesado, mas, bem, esse é o preço.

Conte-nos como foi a atuação em “Un oso rojo” (“Um urso vermelho”) e se pensas em voltar a atuar.

Não, não. Essa foi uma coisa circunstancial, em que tive a oportunidade de interpretar um vilão, e talvez por isso, disseram que o fiz muito bem (risos). Foi um bom filme e uma grande experiência para mim trabalhar com Caetano, com Julio Chávez, excelente ator e, bem… nada mais. Uma experiência para a vida, muito linda.

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Cena do filme “Un Oso Rojo”

René, recém me falaste de Morrison a nível mundial, a nível nacional. Crês que estão saindo bons ilusionistas, bons artistas?

Não os vejo, não os vejo. Não vejo pela televisão a especialidade, não se vê representada.

Por que crês que a magia deve ser difundida pelo país?

A magia deve ser difundida, ou não deve ser difundida. Se vão fazê-la bem, que a difundam. Porque então melhorará o bom gosto e o conhecimento de parte do público. Agora, se vão fazê-la mal, são a vão executar mágicos e “magiquinhos” de meia tigela, então que não se difunda. Estou implorando que não se difunda. Agora, se vão fazer bem, então, sim, claro que sim. Porque então vai haver um público predisposto, como há na Espanha. Eu recebo ofertas de diversas locais, nas mais diferentes cidades principais da Espanha. Por quê? Por que a magia que você chama e eu chamo de ilusionismo, está imposta. E por que está imposta? Porque tem bons artistas. Então sim, que a difundam.

Então, o que tem que ter um bom artista, um bom ilusionista?

Um bom artista tem que ser artista, comecemos por isso. Por que não há um prestidigitador sem ser ator primeiro. E depois ter estilo. Estilo, por que não há artista sem estilo. Sem sombra de dúvida.

O que você responde, se lhe perguntam ‘quem é René Lavand’?

Um ser humano de carne e osso como todos os outros, que pode superar-se em algum momento da vida; e se faço um balanço de maus quase 86 anos, conquistei o que jamais sonhei que poderia conquistar: viajar pelos cinco continentes com talismãs de cartão pintados (em uma referência a como Jorge Luis Borges chamava as cartas).

Como gosta que lhe chamem?

Gosto da palavra magia, mas ela não é muito clara. Prefiro ilusionista, porque sou um criador de ilusões. ME encanta a palavra ilusionismo e a palavra magia prefiro empregá-la em outras questões. Enquanto a palavra mágico como qualificativo, e a palavra truque, ambas me soam insuportáveis. Truque é o que faz um cigano para vender seus produtos, por outro lado, eu faço jogo. Jogos que, para se converterem em composições – e me orgulho de haver conseguido – devem ter o equilíbrio harmônico entre o que eu digo e o que eu faço, com as justas pausas, precisas e necessárias, que são o silêncio.

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Se considera um mestre do ilusionismo?

Maestro é quem dita os rumos, não sei se me essa palavra corresponde a mim, mas sim, ditei alguns rumos na vida, aceito com gosto que me chamem assim.

Teve dúvidas ao longo de sua carreira?

Sempre. Quem não as tem? Quando há responsabilidades, sobretudo, há dúvidas. Até me pergunto: “Como sairá isso hoje à noite?”

Quanto há de talento e quanto há de esforço, na sua arte?

Como diz uma sábia frase: “O gênio se deve à transpiração”. Estou longe de ser um gênio, mas creio que sou talentoso porque transpirei. Sempre tem que ter algo, por isso, alguns  escolhem na vida e, aos poucos, se transformam nisso que escolheram.

Como faz para que algo, que parece tão difícil, pareça tão simples?

Chegar à simplicidade é muito difícil, não ao simplório, isso é outra coisa. Há uma distância abismal entre a simplicidade e o simplório. O ser humano sempre tende a complicar as coisas. Como disse Juan Carlos Lopes: “O difícil do tango, é fazê-lo fácil”. Isso é um mestre. Ditou rumos!

Como faz para seguir atuando por todo o mundo?

Por amor à arte, e sem poupar esforços…

Pensou alguma vez em abrir uma escola, e ter alunos?

Tenho discípulos, mas não sou um fabricante de artistas. Acabamos nos tornando íntimos, amigos e no fim, eu acabo aprendendo com eles.

Bom, então você marcou alguns caminhos e, por isso, é um mestre…

Por questões de sobriedade deveria perguntar a eles, não a mim, mas se for assim, me bajula o título de mestre.

O que acontece se sai uma carta equivocada em pleno show?

Bom, Martha Argerich, suponho eu, alguma vez já desafinou alguma nota, e nem por isso deixou de ser Martha Argerich…

E o que o fez decidir que era a hora de se aposentar?

A idade. Deve se respeitar e aceitar a etapa da vida que estás a viver. Tenho visto a decadência de muitos artista e fiquei com pena. Não quero passar por isso. Sou um homem humilde, mas tenho orgulho. Prefiro me retirar com um sete e meio, antes que o público me retire com um quatro ou cinco.

Como você vê os jovens hoje em dia, e que conselho daria a eles?
A juventude que me rodeia é de primeira linha. Tenho muitos amigos jovens que vivem em minha casa e somos bons amigos, mas certamente há de tudo. O que lhes diria é que tudo são motivações, sejam boas ou más, sejam brandas ou duras, e devem aproveitá-las. A juventude é uma enfermidade que se cura apenas com o passar dos anos.

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Pode-se fazer mais lento no dia a dia?

Creio que não. Creio que consegui o máximo nesse sentido. Por isso digo o “talvez se possa fazer mais lento”.

Encarna a sua filosofia de trabalho?

Sim, evidentemente. Uma sábia frase disse que quanto mais suave é a carícia, mais ela penetra. Eu digo que quanto mais lento o movimento, mais impacta no assombro.

Há muitos anos atrás, René Lavand modificou um clássico truque de mágica chamado “Água e Azeite”: três cartas vermelhas e três cartas negras que, dispostas alternadamente uma a uma, terminam sempre juntas, enfileiradas: vermelhas para um lado, negras para o outro. Se o lugar comum da mágica diz que é possível que coisas assim aconteçam porque a mão é mais rápida que o olho, René meteu o dedo nessa ferida e fez o contrário: exacerbou a lentidão desta composição de aparência simples e chamou essa técnica de “lentidigitação” e conquistou algo que os ilusionistas consideram uma obra de arte: a sua versão de “Água e Azeite” aqui chamada de “Não só pode fazer mais lento”, a qual, feita com uma só mão e com uma lentidão de igreja e de incensário, faz com que as três cartas negras e as três cartas vermelhas terminem magneticamente unidas entre si, uma e outra vez, e cada vez, mais devagar. Por dentro, enquanto executa o truque, René é uma máquina precisa, uma engrenagem, um centurião suando por sua vida. Por fora, o que se vê é isto: sua mão líquida, fluída, rastejante. E sua infinita graça!

– Æ –

Abaixo, uma entrevista com René Lavand, dividida em três partes, em que ele conta um pouco mais da sua curiosa história:

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LINKS DAS ENTREVISTAS

http://www.lanacion.com.ar/1766593-quien-era-rene-lavand

http://www.infomagos.com.ar/entrevistas/entrevista-lavand.htm

http://www.perfil.com/espectaculos/rene-lavand-en-la-vida-todas-son-motivaciones.phtml

MAIS ENTREVISTAS

Abaixo, mais algumas entrevistas com “El Maestro”

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/02/13/actualidad/1423783014_937910.html

http://editorialorsai.com/revista/post/n4_lavand

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-dos-anos-magia-rene-lavand-20170207073438.html

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-trucos-mas-sorprendentes-rene-lavand-20170207073937.html

 

ERDNASE TRADUZIDO – PARTE 1

ATUALIZADO EM 08/04

LEIA O DISCLAIMER DO PROJETO AQUI

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É com muito orgulho que inicio este novo (e ambicioso) projeto aqui no Blog Água & Azeite, a tradução do livro “The Expert at the Card Table” de S.W. Erdnase, para o português. O objetivo, longe de revelar segredos, é divulgar esta obra fantástica e que serviu de pedra angular para a cartomagia moderna.

A tradução foi toda feita por mim, e será publicada em partes conforme o tempo e as atribuições do dia-a-dia me permitirem. Algumas frases foram adaptadas para melhor compreensão do texto, porém o sentido foi mantido inalterado.

Lembrando, por fim, que este é um livro de 1902, portanto existem muitas frases, conceitos que nos são estranhos – tanto pela época, como pela cultura e até pelo zeitgeist. Por isso, se algum trecho for difícil de entender, deixe saber através dos comentários. Isso ajudará a melhorar cada vez mais o trabalho. O mesmo para eventuais erros de tradução.

Sem mais delongas, segue abaixo a primeira parte de milhares que virão por aí.

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FICHA TÉCNICA

Título: “O especialista na mesa de carteado” (The Expert at the Card Table)

Autor: S.W. Erdnase (???? – ????)

Ano de publicação: 1902 (1ª Edição)

Editora: Edição própria (1ª Edição)

Páginas: 205 (1ª edição)

Ilustrado por: M.D. Smith

País: Estados Unidos

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PREFÁCIO

Ao oferecer este livro ao público, o escritor não usa sofismas como desculpa para sua existência, a hipocrisia de jogadores reformados (?), ou copiosas e rebuscadas pretensões de piedade não são impostas como uma justificativa para transmitir o conhecimento que ele contém. Para todos os amantes dos jogos de cartas, este livro deve se mostrar interessante, e como base para o entretenimento com cartas é praticamente inesgotável. Pode servir como um aviso de cautela aos incautos e que são ingênuos aos engano, como pode inspirar o astuto pela iluminação no artifício. Pode demonstrar ao novato que ele não pode vencer um homem em seu próprio jogo, e pode permitir que os habilidosos em trapaça façam um curso de pós-graduação dos mais elevados e mais artísticos em sua área de vocação. Mas este livro não tornará os inocentes em viciados, nem transformará o passatempo em uma atividade profissional; tampouco fará o tolo sábio, ou restringirá a colheita anual de otários. Mas seja qualquer que seja o resultado, se este livro vender, vai realizar o motivo principal do autor ao escrevê-lo, pois ele precisa do dinheiro.

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INTRODUÇÃO

A paixão pelo jogo é provavelmente tão antiga e tão duradoura quanto a raça humana. Alguns de nós são muito tímidos para arriscar um dólar, mas a porcentagem de pessoas nesta nação febril que não gostariam de ganhar um dólar é muito pequeno. A paixão culmina no profissional que prefere jogar do que comer. Ganhar não é seu único deleite. Alguém observou que há um prazer na vida maior do que ganhar, ou seja, saber que está em risco.

Ser bem sucedido no jogo é tão difícil quanto ter sucesso em qualquer outra área. As leis do acaso são tão imutáveis quanto as leis da natureza. Se todos os jogadores dependessem somente da sorte, eles estariam falidos no final do dia. O jogador de cartas profissional pode desfrutar da sorte média, mas é difícil encontrar alguém que pensa desfrutá-la permanentemente, e é certamente maravilhoso como a simples sorte, por vezes, derrota a mais forte combinação de inteligência e habilidade. É quase um axioma: um novato vai ganhar na sua primeira aposta. Uma criada negra de uma casa de jogos, ouvindo uma discussão sobre conseguir duas mãos boas no pôquer, arriscou a seguinte interpolação: “Não se preocupe por não ter duas mãos seguidas, Chefe. Os otários certamente terão uma mão melhor, certo?” E muitos jogadores antigos acreditam na mesma coisa. No entanto, os caprichos da sorte, ou do acaso, ainda impressionam o jogador profissional que possui um certo conhecimento, o qual seu irmão mais respeitado na bolsa de valores já possui, a saber – manipulação é mais rentável do que especulação; assim, para poder juntar as duas coisas, e ganhar um bom dinheiro, ele também desempenha o seu papel com as tesouras quando os cordeiros chegam ao mercado de ações.

O risco do jogo traz sensações que, uma vez apreciadas, raramente são esquecidas. Os ganhos são conhecidos como “bom dinheiro”, e geralmente são gastos tão livremente como a água. O profissional médio que é bem sucedido em seu próprio jogo, com a mais sublime despreocupação, aposta o dinheiro dele contra o de outro, embora esteja plenamente consciente de que as probabilidades estão contra ele. Ele desconhece o valor real do dinheiro e, em regra, é generoso, descuidado e imprudente. Ele ama o perigo ao invés das apostas. Na verdade, a principal diferença entre o apostador profissional e o jogador casual, é que o primeiro é conhecido pelo seu amor ao jogo, e o segundo por sua cupidez (inocência). Um profissional raramente “entra em desespero” quando acontece o pior; já o homem que tem outros meios de vida é um perdedor mais difícil.

Qualquer vantagem que, em última análise, possa dar uma percentagem a favor do profissional são absolutamente essenciais à sua existência, e os meios empregados na mesa de cartas para obter essa vantagem serão completamente elucidados neste trabalho. Nós não fomos impelidos em nossa tarefa pelos escrúpulos de uma consciência culpada, nem pela esperança de reformar o mundo. Um homem não pode mudar seu temperamento, e poucos se preocupam em controlá-lo. Enquanto a paixão pelo risco existir, ele encontrará gratificação. Não temos queixa contra a fraternidade, nem simpatia pelas chamadas “vítimas”. Uma vasta experiência nas mesas nos deu a impressão de que todos os homens que jogam por apostas consideráveis estão sempre procurando pelo melhor. Nós daremos os fatos e as condições acerca deste assunto conforme avançamos, embora admitamos com certo pesar que o nosso próprio conhecimento inicial foi adquirido com o costumeiro custo excessivo para os não iniciados.

Quando falamos de jogadores profissionais, não nos referimos aos proprietários ou gerentes de casas de jogos. A porcentagem a seu favor é de uma razão bastante conhecida, ou pode ser rapidamente calculada, e seus lucros são os mesmos que qualquer empresa. Nos locais onde as autoridades civis admitem essas instituições, elas são conduzidas por homens de posição bem conhecida na comunidade. As mesas de carteados pagam uma porcentagem ou “por fora”, e a gerência oferece um “cuidado” para a proteção de seus clientes. Nos locais onde as salas de jogos devem ser conduzidas em segredo, a probabilidade de que as chances aparentes do jogador sejam diminuídas são muito maiores. No entanto, nosso objetivo é dar conta da porcentagem desconhecida que devem estar a favor do jogador profissional, a fim de lhe permitir viver.

Há uma grande diferença entre os métodos empregados pelos cartomágicos em mistificar ou divertir o seu público, e aqueles praticados nas mesas de cartas pelos profissionais, pois, neste caso, toda a conduta deve estar em perfeita harmonia com o procedimento habitual do jogo. A menor ação que pareça irregular, o menor esforço para distrair a atenção, ou o primeiro movimento antinatural criará suspeitas; e a mera suspeita vai acabar com a empreitada, pois ninguém mais, além de um completo imbecil, vai, conscientemente, querer jogar contra chances maiores do que o habitual. Há sim uma única maneira de garantir a proteção absoluta contra vantagens desconhecidas, qual seja, nunca jogando por dinheiro. Porém, uma perfeita compreensão dos riscos que são assumidos, pode ajudar muito na diminuição das baixas. Uma relação íntima com o modus operandi dos artifícios usados nas mesas de carteados não detecta, por si só, a manipulação, mas certamente tornam iguais as chances de se proteger contra elas e, com esta cognição, a mera suspeita do uso de habilidades deve imediatamente produzir instintos de fuga. Este conhecimento ou compreensão total das habilidades de um jogador de cartas profissional somente poderá ser transmitido através de ilustrações práticas dos processos empregados e, desejando o leitor uma compreensão completa deve ter um maço de cartas na mão e praticar para si mesma a ação, tal como ela é descrita.

Para discriminar e mostrar claramente as duas fases da manipulação de cartas, a primeira parte deste trabalho é dedicada a exaustiva revisão das muitas vantagens que podem ser, têm sido, e são constantemente usadas nas mesas de carteado, e para os métodos específicos de obtenção destas vantagens que são menos prováveis de levantarem suspeitas. A maneira exata em que cada artifício é executado é totalmente descrita em minúcia. A segunda parte descreve as manipulações empregadas em conjurações e vários truques de cartas bastante interessantes.

O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

… E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Confie em todo mundo, mas sempre corte as cartas

Finley Peter Dunne

1. O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

Jonathan Harrington Green, foi um norte-americano nascido em 1813 e um jogador de cartas profissional. Ele nasceu em Ohio, mas cresceu navegando e jogando/apostando ao longo do Rio Mississipi. Green era um jogador – e um trapaceiro – excepcional. Conta-se que em uma única noite chegou a ganhar US$ 23.000 (aproximadamente US$ 600.000,00 em valores atuais) jogando e, obviamente, trapaceando.

Jonathan Harrington Green
Jonathan Harrington Green

Para um jovem na casa dos 20 anos Jonathan levava uma vida perfeita: passava os dias viajando e ganhava muito dinheiro. Ele até podia dar-se ao luxo de gastá-lo como bem entendesse. Por isso, ninguém entendeu quando em uma noite de agosto de 1842, aos 29 anos, Jonathan simplesmente largou a sua vida, arrependeu-se de seus “crimes” e passou a liderar uma cruzada contra os jogos de azar.

Esta súbita epifania deu-se quando certa noite, em um barco a vapor navegando pelo Mississipi. Um reverendo metodista estava no barco e distribuía sobre uma mesa alguns folhetos e materiais religiosos. Os companheiros de Green, ignorando o ministro, “varreram” de cima da mesa todo o material religioso, a fim de jogarem cartas. Isso deixou Green extremamente irritado. Ele imediatamente foi até a mesa, pegou todo o material de jogo e atirou no rio. Em seguida trancou-se em sua cabine pelo resto da noite.

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Apostadores do Mississipi (1890’s).

O que parecia ser um fato isolado, um mero colapso nervoso, mostrou-se um novo estilo de vida para Green. Ele passou a estornar tudo o que havia adquirido ilegalmente às suas vítimas. Ele vendeu propriedades e devolveu dinheiro a qualquer um de seus vizinhos que ele houvesse enganado.

A metanoia de Green, porém, traria junto de si a dura realidade. Sem mais jogar, sem propriedades e sem um emprego, Green viu-se obrigado a achar algum meio para fazer dinheiro. Mas o que restaria a um ex-trapaceiro de trinta e poucos anos, sem experiência em outros empregos e com uma fama que não era das melhores? A resposta era óbvia: Jonathan transformou-se em um pregador itinerante que ensinava a população sobre os riscos e os males dos jogos-de-azar.

A produção literária de Jonathan Green também foi bastante profícua: onze livros em 25 anos. Todos eles sobre os métodos de trapaça nas mesas de jogos, sobre a sua vida antiga, suas experiências, sobre como ele tinha agora uma nova vida (ou, em suas palavras, uma vida “reformada”, e até mesmo sobre como os trapaceiros agiam em conluio para tirar dinheiro dos incautos).

Secret Band of Brothers - JH Green
Ilustração de capa do livro Secret Band of Brothers” de JH Green (1848)

Consta que este foi o primeiro show debunker que se tem registro. Sem saber, Jonathan Green acabava de inaugurar uma nova modalidade de shows. Neles, Jonathan mostrava os meios pelo qual trapaceava e alertava sobre como isso era ruim. Seus espectadores eram quase sempre ouvidos religiosos e conservadores que acenavam condescendentes e triunfantes, afinal agora não era mais um reverendo que pregava sobre as mazelas dos jogos de azar, mas um jogador em pessoa, que conhecia de vivência os meandros desse mundo. A causa deixava de ser uma “cruzada moral” e o debate passava a ser um assunto de ordem pública.

Porém, se os seus ouvidos estavam abertos, suas carteiras nem tanto. Pouca era a ajuda financeira que Jonathan Green recebia por suas palestras. Não raro Jonathan perdia dinheiro ao visitar cidades, usualmente saindo mais pobre do que quando havia chegado. Outro problema eram os inimigos que Green estava criando. Os donos das casas de jogos sempre tiveram grande influência sobre a política local. Alguns Prefeitos, inclusive, eram donos de casas de apostas. Assim, por mais que a comunidade religiosas pressionasse, isso surtia pouco ou nenhum efeito. Algumas cidades até conseguiram aprovar leis anti-jogo, mas elas não duravam mais do que um ou dois anos.

Mas mesmo sua cruzada não sendo frutífera, os inimigos de Green não deixaram barato. Muitos jornais começaram a receber dinheiro dos donos de casas de jogos e de outros negócios correlatos, como os fabricantes de bebida e bordeis, para desmoralizar a causa de Jonathan. Para cada jornal que noticiava a causa de Jonathan, outro imediatamente lhe destratava: questionavam sua real motivação e traziam à tona até mesmo suas dívidas correntes.

Sendo massacrado pelos “ex-companheiros” e recebendo pouco retorno financeiro de sua nova “família”, Jonathan viu-se em uma situação difícil. Uma situação acontecida com ele em 1848 ilustra bem isso: Jonatham foi preso por estar em posse de duas notas falsas de US$ 500,00. Os jornais se apressaram em destruir a sua reputação, e até a data do julgamento já havia sido marcada e amplamente anunciada. O que ninguém sabia é que o Governo Americano estava ciente das notas e mais do que isso – foi o próprio Governo que as forneceu a Jonathan, que agia como um agente federal disfarçado. As notas eram “modelos” que Jonathan deveria procurar por onde passasse, a fim de que o Governo pudesse desbaratinar ações ilegais de lavagem de dinheiro. Obviamente as acusações sobre ele foram retiradas, mas não sem antes ele passar um bom tempo preso e ter sua imagem, mais uma vez, arranhada.

Sem dinheiro, sem um apoio efetivo e maciço da população e sem poder bater de frente com os barões do jogo, a causa de Jonathan tornava-se estéril e infrutífera. Jonathan precisava urgentemente de uma saída. Como bom trapaceiro, ele ainda tinha uma carta na manga: em Jonathan foi a público denunciar que todos (sim, TODOS) os baralhos em uso nos Estados Unidos estavam marcados e que era possível saber a identidade de qualquer carta apenas pelo seu dorso. E Jonathan Green provou a sua tese.

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2. E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Os puritanos ficaram extasiados com a declaração de Green. Suas suspeitas finalmente se confirmaram e eles estavam certos o tempo todo: o jogo era não só um mal moral, mas uma ilegalidade e devia ser extirpado. Uma conspiração entre os trapaceiros e as fábricas de cartas era saborosa demais para ser ignorada.

1800's Marked Cards Patterns
Padrões de cartas marcadas, segundo JH Green (1848)

A bomba lançada por Green causou muitos estragos. Especialmente porque Green conseguiu, vez após vez, provar o que ele dizia. A cada apresentação ele trazia alguns baralhos dos mais diversos fabricantes e mostrava ser capaz de ler cada carta pelo seu dorso. As marcas que ele mostrava eram engenhosas e Green explicou detalhadamente cada uma delas. Algumas eram tão evidentes que Jonathan as lia a uma distância de 3 ou 4 metros.

Mas a situação ficou ainda melhor. Pessoas leigas começaram a trazer seus próprios baralhos para que Green os lesse. E a cada novo desafio, Green comprovava a sua teoria. O jornal “Boston Mail” de 15 de setembro de 1844 escreveu que após uma apresentação em Marlborough Chapel um grupo de cavalheiros aproximou-se de Jonatham e lhe desafiou a ler o dorso de algumas cartas. O grupo embaralhou as cartas e separou algumas. Jonathan não só leu as 18 cartas selecionadas pelo grupo, como leu as 34 cartas restantes. A cada nova apresentação, a cada novo desafio aceito, a acusação de uma conspiração nacional se mostrava mais e mais verdadeira.

Os jornais – que outrora perseguiam Green, começaram a dar o braço a torcer. Muitos editoriais começaram a admitir que diante de tais evidências, apenas um tolo arriscaria seu dinheiro nas mesas de jogos.

Purity Crusade
“Purity Crusade” (Cruzada Puritana), organização cívico-religiosa contra os vícios da bebidas, jogos e prostituição (1874). Elas oravam e cantavam hinos em frente aos bares e casas de má-fama, ao ponto de muitas vezes serem presas pelas autoridades policiais.

Agora façamos uma pequena pausa aqui, caro leitor, e pensemos de modo racional e prático: o que é o mais provável? Uma gigantesca conspiração nacional dos fabricantes de baralho, das centenas de casas de jogos, e dos milhares de carteadores para roubar um país inteiro, ou um ex-trapaceiro voltando a trapacear? Não é preciso raciocinar muito para descobrir a resposta. Embora a intenção de Jonathan fosse a melhor possível, o meio utilizado por ele para tornar verdadeira a sua acusação é bastante questionável.

A proposição de Green tinha ainda uma falha grave. Se todos os baralhos fabricados fossem, de fato marcados, porque os trapaceiros gastariam pequenas fortunas comprando baralhos declaradamente marcados nas lojas de material para jogos?

Mas então como Jonathan Green fez para ler a face das diversas cartas? O fato é que jamais saberemos com certeza, mas o mágico e pesquisador David Britland em seu livro “Phantoms of the Card Table” tem uma teoria bastante interessante à respeito. As lojas e catálogos de material para jogos vendiam um aparato chamado “shiner” ou brilhante. Ele era basicamente um espelho convexo disfarçado que ficava em cima da mesa e, ao se apontar a carta para o brilhante, era possivel ler o seu valor através do seu reflexo. O “brilhante” podia ser uma bacia para comida, um cachimbo, enfim, qualquer coisa insuspeita que pudesse ficar em cima da mesa de jogo, anexada na borda da mesa ou em alguns casos, atrás do jogador alvo.

O curioso é que, apesar de ser um objeto bastante comum, Jonathan Green jamais o mencionou em suas apresentações. Green poderia facilmente, em suas apresentações, ter secretamente anexado um brilhante na borda da mesa e, enquanto entregava as cartas, lia o seu valor. O resto era mise-en-scene.

James McMannus em seu livro “Cowboys Full: The History of Poker” constata que, ironicamente, a cruzada de Jonathan Green contra os jogos de azar, acabou por aguçar a curiosidade das pessoas comuns e ajudou à popularização do pôquer.

Jonathan passou o resto de sua vida caçando trapaceiros e casas de jogos. Segundo suas pesquisas, apenas em Nova York, nos anos 1850, haviam 6.000 casas de jogos sendo 200 delas estabelecimentos de alta classe. Ele ainda lutaria na Guerra Civil Americana como capitão pelo lado da União (Norte). Ali, ao lado de políticos conservadores, Green chegou a criar um estudo para banir os jogos de azar do território americano. Porém quanto mais lutava contra, mais claro ficava que não se deveria jogar o bebê fora com a água do banho. O jogo deveria sim ser regulado, mas não proibido, afinal que mal haveria uma mesa de pôquer entre amigos? Além disso a população americana, aprendeu a gostar de jogar pôquer. E talvez, essa tenha sido, no fim das contas, a maior contribuição de Jonathan Green para o mundo.

NY Supression of Vice
Símbolo da sociedade Nova Iorquina da Supressão do Vício (1873)

Jonathan ainda trabalharia para o Serviço Secreto, além de ter trabalhado como inventor, chegando a registrar em torno de 25 patentes em seu nome, mas estas não lhe renderam muito dinheiro. No fim de sua vida, teve que pedir ajuda aos amigos para poder pagar pelo funeral da esposa.

O MÁGICO E O “EXPERT” NA MESA DE CARTEADO

Uma das mais famosas histórias da mágica foi o embate entre o mundialmente famoso Harry Houdini e o, até então desconhecido, Dai Vernon. A seguir, detalhes e fatos curiosos sobre essa história.

1. O CONTEXTO

O ano era 1922. Houdini era, talvez, o mágico mais famoso de sua época, e sua grande fama só era equiparada a sua arrogância. Do alto de seus 48 anos de idade, sendo 31 deles dedicados à carreira, Houdini anunciava: “Mostre-me qualquer truque de cartas três vezes seguidas, e eu lhe direi como você fez.”

Harry Houdini já era o famoso escapista. Mas antes de conseguir sua fama como mestre das fugas, Houdini promovia-se como “O Rei das Cartas”. Jim Steinmeyer em seu livro: “Hiding the Elephant” diz que Houdini não era o melhor mágico de sua época – posto ocupado por Howard Thurston. Porém, enquanto Thurston promovia seus shows, Houdini promovia a sua própria lenda, daí o porquê o nome de Houdini ser, até hoje, sinônimo de mágica.

1895 - Harry Houdini, king of cards
Cartaz de Houdini de 1895

Foi nesse contexto que um jovem canadense encontrou Houdini no Great Northern Hotel em Chicago. Esse jovem aceitou o desfaio de Houdini e executou um número que estava em alta na época: a carta ambiciosa.

2. A CARTA AMBICIOSA

A rotina original da carta ambiciosa é atribuída ao mágico francês Gustav Abelrti e teria sido criada em meados do século 19. No livro “Nouvelle Magie Blanche Devoilée” de Ponsin há um efeito similar.

Ambiciosa Ponsin
Suposto truque “pai” de “A Carta Ambiciosa”, 1854

Vernon apresentou a sua própria versão de A Carta Ambiciosa.  Houdini escolheu uma carta e assinou nela as suas iniciais “HH” e devolveu a carta no meio do deque. Com um estalo de dedos a carta assinada magicamente apareceu no topo do deque. Houdini ficou assombrado e Dai Vernon repetiu o truque. E depois, mais uma vez, pela terceira vez, desafiando assim Harry Houdini. “Você tem uma carta duplicada” chutou Houdini. Vernon calmamente replicou: “Com as suas iniciais, Harry?” Houdini então sugeriu que Vernon pudesse estar usando um swammi, mas Vernon replicou que as iniciais estavam escritas com tinta. “Já se fabrica com tinta, agora” tentou Houdini, mas nenhum mágico no recinto sequer havia ouvido falar em swammi com tinta.  “Harry, você foi enganado” gritou Sam Margules, um produtor do shows de mágica e antigo assistente de palco de Horace Goldin.

Ultrajado e indignado, Houdini exigiu que Vernon fizesse o truque mais uma vez, muito embora Vernon já o tivesse repetido três vezes, o limite do desafio do próprio Houdini. Dai Vernon, diante de alguns dos melhores mágicos de Chicago repetiu o truque mais quatro vezes. Ao todo, sete vezes em sequência. E a carta assinada por Harry Houdini, teimou em aparecer no topo do deque todas as vezes. Houdini até tentou empurrar devagar e deliberadamente a sua carta no meio do deque, mas isso não fez diferença nenhuma. Houdini não admitiu ter sido enganado, e saiu. No entanto sua esposa Bess Houdini (que acabou se tornando madrinha do filho de Vernon, Ted) mais tarde admitiu para Dai vernon que Houdini passou metade daquela noite acordado tentando descobrir como o truque foi feito, porém sem sucesso.

O número de Dai Vernon tornou-se imediatamente um clássico e ficou conhecido como “o truque que enganou Houdni”. Harry Houdini era invejoso e orgulhoso, e jamais admitiu ter sido enganado. Alguns anos mais tarde, Houdini – então presidente da Sociedade Americana de Mágicos – e outros mágicos estavam em uma reunião anual no Restaurante Riggs, em Nova York. Dentre os presentes, Sam Margules, Al Baker, Sam Horowitz e… Dai Vernon. Houdini então sobe ao palco e apresenta alguns números com cartas e executa um empalme bastante medíocre. Margules, inocentemente, sugere que Houdini pedisse que Vernon o ensinasse a empalmar. Houdini enlouqueceu. A mera sugestão que outro mágico pudesse ensinar algo ao grande Houdini o enfureceu. Mas não se sabe que o que o enfureceu de verdade foi a sugestão de aprender com outro mágico, ou se o fato desse outro mágico ser Dai Vernon. Coincidência ou não, uma das frases mais famosas de Dai Vernon refere-se justamente à técnica do empalme: “A maioria dos mágicos… consideram o empalme um movimento fácil de fazer e estão inclinados a acreditar que ‘eles conseguem se safar com ele’, quando na verdade eles apenas tem a sorte de ter uma plateia educada.

Charles Miller e Dai Vernon enganando Houdini. Desenho de Akemi Yoshida
Charles Miller e Dai Vernon enganando Houdini. Desenho de Akemi Yoshida

3. “THE EXPERT AT THE CARD TABLE

Quando perguntado sobre a sua técnica, Dai Vernon revelou o seu segredo: aprimorara-a estudando o livro: “The Expert at the Card Table” de S. W. Erdnase, um livro considerado difícil demais pelos mágicos da época, que o consideravam ser impossível aprender com ele por ser “técnico demais”. Por outro lado, Dai Vernon, estudou e reestudou o livro minunciosamente. Considerava-o “extremamente detalhado”.

Vernon recebeu uma cópia de “The Expert…” quando tinha 12 anos. O livro, apesar de focar na trapaça com cartas transformou a vida do jovem David. O livro, aliás, é considerado por muitos como o marco inicial da cartomagia moderna.

Provável exemplar que Dai Vernon ganhou de presente. Edição Drake de 1905.
Provável exemplar que Dai Vernon ganhou de presente. Edição Drake de 1905.


4. DESFECHO

Houdini jamais admitiu ter sido enganado, e muito embora outros mágicos tenham enganado Houdini, foi Dai vernon que ganhou a alcunha de “O Homem que Enganou Houdini”. Alguns autores dizem que Dai Vernon usou sim uma carta de dupla face para enganar Houdini. Outros dizem que Vernon enganou Houdini apenas com um excelente “double lift“. Ironicamente, o “double-lift” não é ensinado em parte alguma do livro “The Expert at the Card Table“.

5. BIBLIOGRAFIA

* www.magicagora.com

* blog.ellusionist.com

* www.mental-magic.com

* Google Books – Nouvelle Magie Blanche Devoulle

* Livro: Hiding the Elephant, de Jim Steinmeyer

Para saber mais: “The Magician and the Card Sharp”, de Karl Johnson

Amplexos!

CONTAGEM ELMSLEY OU “EDWARD VICTOR”?

Alguma vez na vida, todo o mágico já executou uma contagem Elmsley. O nome desse famoso passe recebeu esse nome em homenagem a Alex Elmsley, criador da técnica.

Mas, o que pouquíssima gente sabe é que na realidade a contagem “quatro como quatro”, é uma variação de um outro passe, fruto da originalidade de um mágico chamado Edward Victor, criador do passe.

Experimente perguntar aos seus amigos cartomagos e muitos dirão que jamais ouviram falar de tal nome. Não que tenham a obrigação de conhecê-lo. Porém, a história deu poucos créditos àquele que desenvolveu a contagem Elmsley. Pois neste post, vamos não só apresentar este mágico, como também dar os devidos créditos a Victor.

Porém é preciso destacar que a contribuição de Alex Elmsley foi importante e não quero aqui acusá-lo de plágio ou coisa que o valha. O certo é que o crédito a Edward Victor tem sido nulo e passa quase que despercebido na maioria das publicações, escritas ou em vídeo, sobre este passe.

Como escrevi, não almejo atacar a pessoa ou a ética de Alex Elmsley. Apenas resgatar a figura do mágico Edward Victro, sem o qual, possivelmente talvez não conheceríamos a contagem “quatro como quatro”.

A CONTAGEM  ELMSLEY

Em 1959, foi publicada pela primeira vez, por Alex Elmsley um efeito conhecido como “A Mágica das Quatro Cartas”.

A contagem “quatro como quatro” é descrita na página 173 do livro “Ultimate Secrets of Card Magic“, na mágica “Uma Variante de Vernon”, onde O Professor se frefere a esse passe como uma engenhosa adaptação de Elmsley de um movimento originado por Edward Victor em seu efeito conhecido com “E-Y-E”.

A contagem é explicada em detalhes na página 5 do livro “More Inner Secrets os Card Magic“, na mágica “Vernon Girando os Ases (Twisting the Aces).

MAS E QUEM FOI EDWARD VICTOR?

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Edward Victor

Edward Victor nasceu em 1887 na Inglaterra com o nome Edward Victor Neuschwander. Excelente manipulador, autor de vários livros sobre o tema, e um manipulador de sombras chinesas único em seu tempo.

Inventou a mágica “Os Lenços Simpáticos” e era famoso por algumas de suas rotinas como: “As Cartas Diminuintes”, “As Onze Cartas”, mágicas com cordas, etc. Também é dele uma rotina muito famosa chamada “20 Efeitos em uma Caixa de Fósforos”.

Ele escreveu os seguintes livros:

  • Magic of the Hand” (1937)
  • More Magic of the Hands” (1938)
  • Further Magic of the Hands” (1946)

Livros de Edward Victor

Em 2004 a “Dove Publications” publicou o livro “Classic Card Tricks”, onde algumas mágicas de Edward foram publicadas.

Edward Victor se apresentou nos mais importantes teatros da Europa, e fez uma grande turnê pela África do Sul, tendo trabalhado durante quatro anos para Maskelyne no St. George’s Hall em Londres. Foi membro do Círculo Mágico, tendo alcançado o status de “Inner Magic Circle” (M.I.M.C.) e por mais de trinta anos atuou como presidente da Merlin Magical Society. Também foi o primeiro presidente honorário vitalício do Blackpool Magicians’ Club.

Victor faleceu em 17 de abril de 1964.

O EFEITO “E-Y-E”

Este efeito criado por Edward, consistia em 3 cartas com as letras “E”, “Y” e “E”, daí o seu nome, com as quais o mágico criava uma série de efeitos surpreendentes. Dizia a propaganda da Revista Genii de 1955:

O Efeito “”E-Y-E”

São usadas apenas 3 cartas sen truques e que podem ser dadas a exame quando os espectadores desejarem.

Podem ser realizados grandes efeitos de “close-up” e deslumbrar durante quinze minutos com as carta sem suas mãos. As 3 cartas são dispostas formando a palavra “EYE” [olho em inglês].

Abrindo um leque e com os dorsos voltados para cima, se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas o público nunca acertará, retirando sempre a letra “E”.

Explicando que a mão é mais rápida que o “olho”, o mágico mostra claramente que agora tem em suas mãos 3 cartas com a letra “E”.

Mostra novamente as cartas, e se observa que agora as 3 possuem estampada a letra “Y”.

Duas delas se transformam visivelmente em letras “E”, formando como no princípio, a palavra “EYE”. Uma das cartas “E” se separa e se deixa sobre a mesa.

Das duas restantes (“E” e “Y”) se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas falha novamente por que as duas cartas tem estampada a letra “E”, já que carta separada anteriormente era o “Y”!

Mudando a impressão das letras mencionadas (“E”, “Y”, “E”) por outras ou então usando cartas personalizadas, você poderá criar rotinas diferentes com o mesmo princípio.

O preço deste efeito? US$ 1,00!”

Na Inglaterra, Ken Brooke comercializou a mágica “E-Y-E” e alguns anos mais tarde apenas foi que a conatgem Elmsley começou a ser conhecida.

Karl Fulves no volume 2 de seu livro “Methods with Cards” também menciona a mágica “E-Y-E” como fonte da contagem.

E esta é a origem da famosa e sempre útil contagem Elmsley ou “quatro como quatro”.

Amplexos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Victor

http://geniimagazine.com/wiki/index.php?title=Edward_Victor

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/11/cuenta-elmsley-y-el-credito-para-edward.html

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormoremagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victorfurthermagichands.htm