MULHERES SERRADAS E PROCESSOS JUDICIAIS: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAIS FAMOSA ILUSÃO JÁ CRIADA

“Serrar uma mulher ao meio é fácil. Serrar uma mulher ao meio e grudá-la novamente é um pouco menos fácil, mas pode ser feito com alguma prática.”

Douglas Adams – Agência de Investigação Holística Dirk Gentley

– Æ –

Por muitos anos o truque de serrar a assistente foi um “must have” em shows de mágica. Oficialmente esta ilusão foi apresentada ao público pela primeira vez em janeiro de 1921 por PT Selbit, em Londres. Na verdade, em dezembro de 1920 houve uma prévia para alguns agente teatrais no St. George Hall. Todos adoraram a ilusão que acabou sendo melhorada até chegarmos à versões modernas, como o clássico de David Copperfield. Fim da história, certo?

Seria, se você estivesse na Wikipedia ou lendo algum artigo ruim cujas fontes não são checadas e mesmo assim são replicadas mil vezes por aí. Este é um truque cercado de histórias e que por si só seria o suficente para contar toda a história da indústria da mágica no século XX. Neste artigo, também será corrigido um erro histórico, que nenhuma outra fonte aberta se preocupou em verificar.

– Æ –

O conceito de separar as partes do corpo de um ser vivo, e restaurá-lo é antigo. Talvez o mais antigo conceito de mágica conhecido. Dedi já havia ficado famoso por separar a cabeça de um ganso e depois ligá-la de novo, sem causar danos ao animal. Mas, justiça, seja feita. Dedi se recusou a fazer este truque com uma pessoa. Séculos mais tarde, alguns livros apresentaram uma ilusão em que um corpo sem cabeça ficava sobre uma mesa, e uma cabeça – supostamente do corpo ao lado – conversava e interagia com a plateia. A ideia, portanto, de cortar alguém ao meio (ou decapitá-la), e mantê-la viva, não era exatamente uma ideia nova no mundo do ilusionismo.

hopknis decapited
Decapitação, (que alguns chamavam de “João Batista”). Este efeito citado por Albert Hopkins foi um dos predecessores do efeito de serrar a mulher ao meio.

Diversas fontes consultadas citam que o primeiro registro de uma versão moderna desse truque foi descrita Robert-Houdin em suas memórias, em que ele cita o mágico Torrini que teria executado este efeito em 1809 para o Papa Pio VII. Contudo, este é um erro bastante grotesco. Estas fontes se basearam em um artigo da “American Heritage” (Inverno de 1994, Volume 9, nº 3) de autoria de Gary Brown. Wikipedia, Magipedia, e até alguns livros, usaram essa citação, sem se dar ao trabalho de conferir diretamente na fonte, o livro de Robert-Houdin.

Sim, Torrini se apresentou para o Papa, mas não executou a ilusão de serrar alguém ao meio (menos ainda uma mulher). Aliás sequer a pessoa era serrada ao meio. Para o pontífice Torrini executou diversos outros truques de manipulação, incluindo um especialmente desenhado para aquele evento [1].

O protótipo da ilusão de serrar alguém ao meio foi, na verdade, apresentado por Torrini para o sultão Selim III em Constantinopla, capital do Império Otomano (Robert-Houdin, “Memoirs“, cap. VII, pg. 85 a 87). Torrini pediu que dois escravos trouxessem um baú retangular e dois cavaletes utilizados para serrar madeira. Os escravos colocaram Antônio, o assistente de Torrini, dentro do caixão e pregaram a tampa. Até este momento consta que sequer o pobre Antônio sabia o que se sucederia com ele.

Torrini começou a cortar o baú quando ouviu os gritos de pavor da esposa do Sultão. Tranquilamente Torrini parou o que estava fazendo e disse a todos que não se preocupassem. Longe de sentir dor, seu assistente sentiria apenas “as mais maravilhosas sensações”. Então, seguiu cortando o baú, agora, envolto em silêncio e tensão.

Findado o corte, Torrini levantou as duas metades verticalmente, cobriu ambas com um cone de vime e este, por sua vez, com um pano preto estampado com diversos simbolos cabalísticos prateados. Foi então que Torrini começou a citar seus encantamentos e logo duas vozes distintas puderam ser ouvidas de dentro dos baús. Ao revelar o que sucedia, dois “Antônios” gêmeos e vestidos iguais, saíram de dentro dos baús, cada um de uma das metades, e os dois cumprimentaram respeitosamente o Sultão e a sua família.

Exceto pelo final em que, ao invés de dividir uma pessoa, Torrini multiplicou-a, todos os elementos clássicos do truque foram regiamente descritos por Robert-Houdin. Assim, corrigindo a informação da revista American Heritage, a primeira apresentação desse efeito não foi para o Papa, tampouco foi em 1809, mas, pelo menos, um ano antes na Turquia, para o sultão Selim III. Ah, e a pessoa não foi dividida ao meio, mas sim, multiplicada.

– Æ –

Voltando ao assunto, embora Jim Steinmeyer questione a existência de Torrini (segundo ele, Torrini não passaria de um alter-ego do Robert-Houdin, no qual ele expunha seus planos e ideias), esta história prova que o conceito-base do truque já existia muito antes de Selbit. Steinmeyer cita também o livro de Albert Hopkins “Magic” em que é citado uma ilusão cômica performada por uma trupe de acrobatas/clowns chamada “Hanlon Lee Brothers”. Escreve Hopkins:

Um palhaço se joga em um sofá e é cortado ao meio por um arlequim. Uma parte do sofá, com o corpo, permanece em uma parte do palco enquanto a outra parte com as pernas e pés (os quais estão chutando vigorosamente) é levado embora pelo outro lado do palco. A  ação toda é muito rápida e o efeito surpreendente.

Albert Hopkins em “Magic: Stage Illusions and Scientific Diversions“, 1897, p. 50

Hanlon-lees
Hanlon Lee Brothers

Tanto o livro de Robert-Houdin, quanto o de Hopkins, eram conhecidos pelos principais mágicos da época. Logo, não é arriscado dizer que a ideia de Selbit não veio “do nada”; ele bebeu de fontes que o inspiraram.

O fato é que a mágica de palco naquela época, era recheada de efeitos de desaparições, transformações, levitações ou um mix desses três. Mesmo a versão de Robert-Houdin não “mutilava” o assistente, mas sim, multiplicava. A maneira como Selbit mutilava a mulher  (em certo sentido, muito mais forte do que uma decapitação) acabou criando toda uma nova categoria de mágica alçando o nome de Selbit como um dos mais importantes do século XX. [2]

– Æ –

Selbit criou o número em seu estúdio, que servia também de apartamento para si. Ali o conceito e o protótipo foram criados. A primeira testemunha ocular desta ilusão foi Fred Culpitt, amigo de Selbit, em um show em seu próprio apartamento. Selbit executou o truque na mesa da cozinha de Fred, serrando a sua assistente Jan Glenrose.

selbitSawing-500x353
Selbit (à esq.) e sua assistente Jan Glenrose, a primeira mulher a ser serrada ao meio.

A versão apresentada por Selbit era, aos olhos modernos, bastante simplória: a mulher entrava em um “caixão” de madeira que ficava na vertical, amarrada. A tampa era fechada e ela ficava completamente escondida do público. Selbit inseria algumas lâminas de metal em duas reentrâncias na caixa: uma na altura do peito da mulher, a outra, nos seus quadris. Então, dois assistentes serravam a caixa. Selbit abria uma pequena fresta no caixão e fazia uma cara preocupada. Após alguns segundos de tensão, ele abria as tampas e a assistente saia ilesa, saudando o público. O processo todo não levava mais do quinze minutos.

P._T._Selbit_sawing_a_woman_in_half_trick
PT Selbit em sua versão original de “Serrando a mulher ao meio”

O número de Selbit despertou a atenção de Maskelyne que também apresentou sua versão do efeito (embora sem o mesmo sucesso que Selbit – vide nota [2]). Selbit licenciou alguns grupos de mágicos – nove no total para que eles excursionassem pela Europa apresentando o seu número.

O estrondoso sucesso do efeito chamou a atenção de outro mágico: Horace Goldin. Como Goldin não podia simplesmente copiar o número, acabou criando um método próprio – e melhorado – para executar este truque. Menos de 6 meses depois da apresentação de Selbit na Inglaterra, Goldin apresentou a sua versão de “Serrar a mulher ao meio” para a “Society of American Magicians” em seu banquete anual no Hotel McAlpin Hotel, Nova York em 03 de junho de 1921.

A versão de Goldin, contudo, não teve uma boa aceitação. O assistente que foi serrado era o mensageiro do hotel, o qual estava visivelmente nervoso e atrapalhado. A caixa, em que o garoto foi serrado era nitidamente grande demais, não sendo assim muito eficaz em causar a ilusão de dano ao assistente. Porém, Howard Thurston, que estava na plateia, viu potencial no truque e propôs uma parceria a Horace Goldin.

Thurston então designou Harry Jansen, um mágico e construtor de aparatos, para aprimorar ainda mais o aparato de Goldin. Jansen diminuiu o tamanho da caixa e permitindo que os pés e a cabeça da assistente ficassem à mostra para o público (a versão “clássica” que se fixou no imaginário popular).

Howard-Thurston-sawing
Howard Thurston apresentando uma versão melhorada da ilusão.

Essa nova versão foi patenteada por Goldin que autorizou – novamente assim como Selbit – autorizou que seis grupos de mágicos excursionassem pelos EUA, sob sua bandeira, apresentando o número em cidades pequenas e feiras itinerantes (um desses mágicos era o belga Servais Le Roy); Goldin, por sua vez, ficara com as cidades grandes, em especial os teatros do circuitos Keith-Orpheum, a maior rede de teatro da época. A patente requerdia por Goldin impediu que qualquer outra versão do truque, que não a de Goldin, fosse apresentada nos EUA, incluindo aí, a versão de Selbit.

Cada um dos mágicos licenciados por Goldin deu o seu toque pessoal ao número, mas o toque de Goldin foi o mais impactante: ele trazia ao palco marceneiros para que atestassem que a caixa realmente estava sendo cortada, e enfermeiras para que socorressem a assistente em caso de acidente. Goldin criou até uma cena em que um grupo de coveiros levava o “caixão” pelas ruas, até o teatro, despertando a curiosidade do público. Em outra cena, Goldin colou em uma ambulância um cartaz escrito “À disposição do teatro, em caso de acidente com serras”.

– Æ –

PT Selbit obviamente acusou o golpe e processou Horace Goldin por plágio. A briga judicial foi grande e tanto Goldin como Selbit colocaram muito dinheiro na disputa (alguns dizem que praticamente todo o dinheiro ganho por eles com este novo truque foi gasto em litígios judiciais).

Goldin, alegava que havia tido uma visão sobre esse efeito ainda em 1906. O grande Leon haveria perguntado a Goldin sobre um efeito de cortar uma mulher ao meio e depois juntar as partes. Goldin mentira a Leon dizendo que ele já possuía direitos sobre um número similar. Após se despedir do amigo, foi para casa e começou imediatamente a trabalhar naquela ideia. Leon logo descobriu a mentira de Goldin e também passou a trabalhar em sua versão do efeito.

Goldin não apresentou a sua versão do efeito, até 1921, meses após a primeira apresentação oficial de Selbit. Steinmeyer menciona o óbvio: “A ideia de Horace Goldin somente surgiu após ele ouvir do sucesso de Selbit”; ainda segundo Steinmeyer: “Goldin alegou que de 1906 a 1921 não foi capaz de encontrar um produtor interessado em investir na ideia do efeito de serrar a mulher. Após uma longa espera (15 anos) decidiu ele mesmo construir e apresentar o efeito.”

Em agosto de 1921, Selbit acusa Goldin de pirataria. Em sua Defesa, Goldin reconta a história: diz que inventou o efeito em 1906, vendeu ele em 1917, passou adiante os esquemas do aparelho em 1919, que acabou fazendo seu próprio aparelho em 1920 e que apenas dois anos antes requereu a patente sobre o aparelho. A resposta de Selbit foi que ele até admitia que duas mentes separadas pudessem ter a mesma ideia, sem que uma soubesse da outra; o que lhe causava estranheza, contudo, era o fato da patente ser inteiramente igual ao modelo criado por Selbit, apresentado ao público apenas 5 meses antes”. O Grande Leon também viria a público declarar que a ideia de Goldin havia sido roubada dele.

Selbit acabou ganhando o primeiro round da disputa em um tribunal federal do Arkansas. Goldin contratacou requerendo uma ordem de restrição, impedindo que que a ilusão de Selbit fosse apresentada na mesma cidade que Horace. Em seguida Horace anexou um cartaz de 1887 em que um mágico inglês chamado “Professor Hengler” apresentara uma ilusão chamada: “Serrando uma mulher em duas”. Este cartaz foi trazido à tona por ninguém menos que Harry Houdini (que, provavelmente, a esta altura, só queria mesmo ver o circo pegar fogo).

O processo ficou parado e nesse interim Harry Jansen já havia melhorado o número o suficiente para se afastar da versão de Selbit. Quando Selbit voltou para a América, em setembro de 1921, descobriu que a versão de Goldin já havia sido patenteada e que ele não poderia impedir a apresentação do rival, pois esta já era diferente da versão inglesa do truque.

Selbit teve ainda que encarar a traição de um de seus assistentes, que vendera o segredo do truque para a Goldwyn Ltda. de Hollywood. Selbit escreveu para o estúdio, ameaçando processá-los caso o apresentassem Como não houve resposta do estúdio, Selbit acabou deixando o caso pra lá. Contudo, em 1923, a Goldwyn e anunciou o lançamento do filme sobre esta ilusão em ambos os lados do Atlântico. Novamente Selbit entrou com um processo pedindo a censura do filme, porém o juiz negou-lhe a causa, alegando que Selbit esperou muito tempo pelo processo, abrindo, assim, mão de seu direito de processar a companhia.

horace goldin sawing woman
Versão de Horace Goldin, considerada legítima, por haver “se afastado o suficiente” da versão de Selbit.

Em novembro de 1921 a planta da ilusão foi publicada em um livro vendido a cinco dólares. O kit completo para realizar o truqe, saia por 175 dólares.

No final das contas, Selbit acabou derrotado no processo, pois o juiz entendeu que a versão de Goldin havia “se afastado o suficiente” da versão original de Selbit, a ponto de poder ser considerado um truque próprio. Além disso, Goldin havia registrado também o nome da ilusão “Serrando a mulher ao meio”, mas também outros nomes igualmente atrativos. Selbit havia sido encurralado pelas manobras legais de Horace Goldin.

Horace apresentou seu número nos EUA com o nome “A mulher dividida ao meio”, mas ele já não era uma novidade em solo americano, além de ser menos “vistoso” que o truque de Goldin. Selbit acabou voltando para a Inglaterra triste e abatido, e com a fama  – ao menos nos EUA – de haver copiado Goldin, mito que perdura ainda hoje.

Contudo, Horace Goldin, não saiu ileso da revelação dos segredos e enfrentou nova batalha jurídica. Em 1930 ele processou a R. J. Reynolds Tobacco Company por usar a ilustração da mulher serrada em um comercial de cigarros. Goldin alegou que a propaganda entregava o segredo do efeito. O juiz negou a causa a Goldin alegando a base do truque já era conhecido de longa data (citando inclusive os livros de Hopkins e de Robert-Houdin). No fim, toda a publicidade criada em cima do efeito, o tornou menos mágico aos olhos do público.

main-qimg-550bc4d99514523e78c996ec1c86c080-c
Propaganda que gerou o processo de Horace Goldin contra a R. J. Reynolds Tobacco Company

Com o passar dos anos, o número se aperfeiçoou ainda mais: caixas cada vez menores, transparentes e até versões sem a caixa foram criadas. Henry Blackstone Jr. criou uma versão que emulava a serra circular em uma esteira, tal qual uma serraria de madeira. Aliás, a popularização das serras rotativas trouxe um componente a mais de “terror” para o número, tornando-o um verdadeiro clássico moderno, sempre capaz de cativar e surpreender qualquer audiência.

Francis-White-Sawing
Francis White, presidente do “The Magic Circle” de Londres, apresentando a sua versão “improptu” da mulher serrada. A serra era emprestada.

– Æ –

NOTAS

[1]

O truque que Torrini fez para o papa foi o seguinte: com a ajuda do relojeiro da cidade, Torrini conseguiu uma réplica exata de um belo e caro relógio de um importante Cardeal. Durante a apresentação para o Papa, Torrini disse precisar de um relógio para seu próximo truque e substituiu o original pela réplica. Primeiro ele deixa o relógio cair no chão, causando temores no cardeal – que não queria de jeito nenhum emprestar seu relógio. Em seguida, Torrini faz o relógio desparecer e ele reaparece no bolso das vestes do Papa.

[2]

Jim Steinmeyer escreve que Selbit teve dois grandes méritos quando do lançamento do seu truque: a época em que ele foi lançado, e o uso de uma mulher.

Segundo Steinmeyer, a década de 1910 foi marcada pela luta das mulheres por direitos, em especial pelo sufrágio feminino. Com o rompimento da Primeira Guerra, em 1914, as mulheres tiveram que deixar de protestar e passaram a ocupar o chão das fábricas, mostrando na prática, que valiam tanto quanto os homens. Com o fim da guerra, em 1919, a imagem de “inocência” da mulher já não mais cabia, e seus direitos foram automaticamentes adquiridos.

O mérito de Selbit foi conseguir capturar essa nova mentalidade ao criar seu novo efeito, mostrando o lado menos frágil das mulheres. Seus outros efeitos seguiam a mesma linha. Além de “Serrando a  mulher ao meio”, Selbit criou ainda outras ilusões donominadas: “Esmagando a mulher“,  “Destruindo a mulher“, “Esticando a mulher“, “A mulher indestrutível“. O que, a princípio pode soar como um ódio reprimido ao sexo oposto foi, na verdade, uma demonstração da força da mulher, que, desde, pelo menos, uma década antes, vinham sendo as protagonistas das mudanças na sociedade.

Longe de ser um machista ou sexista, Selbit mostrou de forma clara e didática que a mulher era forte e resistente por natureza. Clive Maskelyne, por exemplo, apresentou este mesmo efeito para o público londrino. Contudo, trocou o nome do efeito de “Serrando a mulher ao meio”, para “Matéria através da matéria“, buscando assim, manter latente as velhas (e inocentes) ideias do “conjurador e seu poder místico sobre a natureza”. Obviamente, a apresentação de Maskelyne acabou sendo um fiasco!

 

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Magicpedia:Sawing woman in half

Wikipedia: Sawing woman in half

Site: Illusion Repository

Artigo: American Heritage Magazine 1994, Vol. 9, nº 03 – “Sawing woman in half“, de Gary Brown *

Artigo: Popular Mechanics, dez. 1958 “I call these the greatest magic illusions os all time” de Christopher Milbourne

Livro:Panorama of Magic” – Christopher Milbourne

Livro:The Last Greatest Magician in the World” – Jim Steinmeyer

Livro:Hidding the Elephant” – Jim Steinmeyer

Livro:Art & Artiffice” – Jim Steinmeyer

Livro:Secrets of the Sideshows” – Joe Nickell

Livro:Sensationalism and the Genealogy of Modernity” – Editado por Alberto Gabriele

* Lembrando, conforme já dito no texto, esse artigo possui um erro grave ao se referir erroneamente à apresentação de Torrini.

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

mahatmaviii08190502
Capa do periódico Mahatma

– Æ –

2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

Foo
Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

16334631_1_x
Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

2007-8-29_1905PanhardWeb-Large
Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

500px-ching_ling_foo
Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

– Æ –

5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA

A ORIGEM DO MAIOR ÍCONE DA HISTÓRIA DA MÁGICA

Nenhum truque de mágica é mais icônico do que tirar o coelho da cartola. Embora seja um truque muito pouco executado atualmente, sua fama permeia nossos dias. Sua fama, no entanto, não é por nada. A ideia de tirar o coelho tem aproximadamente 200 anos. Mas o conceito de conjurar animais do nada é muito mais antigo.

Em 1726, em Guildford, Inglaterra, houve o registro de um curioso caso. Mary Toft, uma cidadã comum, chegou em casa e contou ao seu marido, Joshua Toft, que enquanto passeava pela floresta fora molestada por um coelho gigante. O marido não deu bola para a esposa e fez pouco caso, atribuindo a esta história maluca como fruto de uma alucinação. Poucas semanas depois do ocorrido, Mary Toft começou a apresentar alguns sintomas incomuns. O médico local Dr. J. Howard foi chamado para examinar Mary. No dia seguinte o próprio Dr. Howard contou a todos na cidade que Mary Toft havia dado a luz a cinco coelhos. O Dr. Howard continuou acompanhando o caso de Mary Toft e, no fim das contas, ela deu a luz a uma dúzia de lindos coelhos brancos.

Mary Toft (1720)
Mary Toft dando a luz a sua ninhada de coelhos (1720)

O rumor espalhou-se rapidamente e não tardou a chegar até a corte, em Londres. Dois enviados foram designados para acompanhar o caso e depois de algum tempo, retornaram à corte e confirmaram o ocorrido. Foi então que o médico da corte, dr. Richard Maningham decidiu investigar o caso. A primeira atitude do Dr. Maningham foi levar Mary até um hospital em Londres. “Misteriosamente” após tal fato, o nascimento dos coelhos parou. Investigando mais a fundo o Dr. Richard descobriu que alguns dias antes de dar a luz, Mary tentou subornar os funcionários do hospital de Guildford para que deixassem entrar no hospital com alguns coelhos (outras fontes complementam ainda que o Dr. Richard fingiu acreditar na história de Mary e sugeriu então que seu útero seria retirado para ser estudado pela ciência).

O fato é que Mary cedeu e acabou confessando que tudo não passava de um truque. O modo como o truque era feito, também diverge: há quem diga que a própria Mary inseria coelhos em seu útero e depois os retirava como se houvessem nascidos dela; outros porém dizem que Mary costurou por baixo de sua roupa um bolso secreto, onde os coelhos eram mantidos até a hora do nascimento. Daí de muitos considerarem Mary Toft a verdadeira “mãe” (trocadilho intencional) do truque de tirar o coelho da cartola (embora segundo o dr. Edwin Dawes em “The Magic Circular” March/April 1987 (Vol. 81 nº 874, p. 60) , essa teoria já foi refutada).

Nesse ínterim, artistas londrinos começaram a apresentar um novo número chamado “O nascimento do coelho”, aproveitando a onda “Mary Toft” que assolava Londres. Segundo Jean Hugard, que conta esta história, os artistas tomavam emprestado os chapéus dos espectadores, colocavam-no sobre uma mesa e com alguns passes mágicos, tiravam um coelho de dentro do chapéu. Enquanto realizavam o truque, contavam a história de Mary Toft.

Em 1747 há o registro de um artista de rua auto entitulado: “O famoso camponês do norte da Holanda” (Le Fameux Paysan de Nort-Holland), que, ao anunciar seu show prometia, entre outras maravilhas, “transformaria qualquer objeto dado por um espectador em um animal de dois ou quatro pés” e ainda “transformar moeda em qualquer tipo de ser vivo”.

Há também o registro de Palatiny, um mágico francês que, em 1799 anunciava um show em que restaurava a cabeça decapitada de um animal, e ainda, um membro da audiência seguraria algo em sua mão e o mágico transformaria esse objeto em um animal vivo.

Diversas fontes dão conta que em 1814, Louis Comte realizou este efeito em público pela primeira vez. Porém, todas as referências sobre o assunto são circulares, ou seja, apontam umas para as outras, sem uma fonte fidedigna de onde tal fato foi retirado. Outros sites de história da mágica apontam o mesmo problema. Fica impossível bater o martelo, portanto, como sendo Louis Comte o criador do efeito.

Comte
Louis Comte

Talvez, dada a falta de referências sólidas sobre Comte, é que alguns autores se refiram à década de 1830 como a época de criação do truque, dentre eles Christopher Milbourne. Milbourne não dá o nome da pessoa que criou o truque, mas ela dá enormes créditos à John Henry Anderson por popularizar o truque.

Anderson
John Henry Anderson

John H. Anderson, também conhecido com “o grande feiticeiro do norte” (the great wizard of the north) nasceu em 1814 na Escócia, mas começou sua carreira em 1831. Anderson chegou a apresentar-se perante a Rainha Vitória, o que certamente lhe rendeu prestígio e fama. O porém é que Anderson é reconhecido como um plagiador, especialmente dos efeitos de Robert-Houdin. Não há evidências que apontem para Robert-Houdin executando o truque do coelho na cartola (ao que consta, Robert-Houdin, não suportava a ideia de maltratar animais, chegando mesmo a discutir com Bosco, sobre isso). Porém, isto consta que talvez Anderson, de fato, não tenha criado o truque original.

prof. Anderson 1849
Cartaz do show de Anderson, em que ele anuncia o número de produção de coelhos (1849)

Obviamente que, com o passar dos anos, o truque evoluiu e novas variantes do efeito vieram à tona: desde usar um chapéu emprestado até a famosa versão dos irmãos Herrmann, Carl e Alexander, em que eles pegam emprestado um casaco do espectador e dali tiram o coelho. H.J. Burlingame em sua coluna na revista Mahatma escreve que durante uma apresentação de Alexander Herrmann no Rio de Janeiro (por volta de 1885), os jornais locais divulgaram a seguinte nota:

Já tivemos Patrizio, Mellini, Herrmann e Bosco, todos eles fazendo os mesmos truques: tirando moedas do chapéu, ou da cabeça, dos espectadores, luvas grande e pequena, lenços transformados, e as fitas e os coelhos do chapéu. Mas o melhor dentre estes foi Herrmann (…)”.

Ainda no periódico Mahatma, William Ellsworth Robinson em sua coluna no periódico Mahatma, descreve um truque típico indiano em que uma cesta vazia é coberta com um pano, e dali, um casal de coelhos é produzido. Protul Sorcar, um mágico indiano escreveu um livro chamado “Indian Magic” em que devota 38 páginas defendendoesta  tese.

Mahatma Vol. VII, II (2) C. Lang Neil (Agosto, 1903)
C. Lang Neil critica o uso de esquemas complicados – como o uso de coelhos – para fazer mágica

Com o passar dos anos e a evolução natural da arte mágica, dos grandes efeitos de palco, para a mágica de perto, os coelhos foram caindo em desuso, embora haja registros como por exemplo, do livro “Al Baker’s Pet Secrets” de 1951 no qual ensina alguns efeitos com animais, incluindo uma produção de coelho.

A partir dos anos 1970 grupos de proteção aos direitos animais conseguiram tornar o processo de fazer mágica com animais vivos ainda mais complicado. Por exemplo, nos EUA, para fazer truques com coelhos, é preciso uma autorização especial das agências governamentais.

Há quem teorize que o truque de tirar o coelho da cartola é a epítome de toda a arte mágica: criar (vida) a partir do nada. Outros, teorizam que o truque é famoso por que remete ao conceito do retorno: matam-se coelhos para fazer chapéus, e do chapéu, fazem-se coelhos. Todas essas são teorias que podem ou não ser válidas. Mas uma coisa é fato: tirar o coelho da cartola ainda é um efeito capaz de cativar e de prender o público.

coelho em chapeu
Propaganda de uma loja de chapéus que transforma coelhos em chapéus.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Periódico: Jean Hugard. “Hugard Magic Monthly“, Vol. VI, nº VII, dezembro de 1948, p. 490

Livro: Émile Campardon. “Les spectacles de la foire: théâtres, acteurs, sauteurs et danseurs de corde, monstres, géants – Vol 2”, 1877, p. 217 a 219

Livro: Barton Whaley “Enciclopedic Dictionary of Magic” 2007, p.756

Livro: Bill Severn “Big Book of Magic“, 1980, p. 212

Livro: Christopher Milbourne “The Illustrated History of Magic“, 1962, p. 91

Livro: Christian Fechner – “The Magic of Robert-Houdin“, Vol. 1, p. 130

Periódico: Mahatma, Vol. IV, II – Coluna de H.J. Burlingame, Agosto de 1900

Periódico: Mahatma, Vol. I, XII – Coluna de W.E. Robinson, Junho de 1898

Livro: James Rand, “Conjuring” 1992, p. 11

 

 

O DIA EM QUE UMA ILUSÃO FOI CORTADA PELA METADE

Na noite de 9 de abril de 1956, os espectadores da BBC em Londres viram algo que os assustou. Um truque de mágica que fora cortado pela metade; o truque em questão era – ironicamente – “cortando a mulher ao meio”. Na hora em que a serra atingiu o corpo da assistente do mágico indiano PC Sorcar, o apresentador subitamente interrompeu o truque e, sem muitas explicações, anunciou o fim do show – que à época era gravado ao vivo.

Será que algo acontecera? A assistente estava bem? O que havia acontecido afinal de tão terrível que o truque foi interrompido? Esta é uma história de como um truque realizado pela metade, conseguiu causar mais frisson do que se tivesse sido feito em sua totalidade.

– Æ –

Protul Chandra Sorcar, nome de batismo do mágico indicano PC Sorcar, nasceu em 23 de fevereiro de 1931 em Bengali, na Índia. Nascido em uma família de mágicos, Sorcar era a oitava geração da família a se aventurar pelo mundo do ilusionismo.

Protul Chanadra Soccar
Protul Chandra Soccar

O começo da carreira de Sorcar foi estrondoso e, de certa forma, traumático. Hábil na promoção pessoal Sorcar não tardou para lograr fama em sua terra natal. Era visto por seus conterrâneos mais do que meramente um ilusionista, ele era admirado como um verdadeiro curandeiro, a tal ponto de certa vez, uma família lhe trazer uma criança que havia sido mordido por uma serpente venenosa. Enquanto convencia a família de que não era um curandeiro, senão um simples artista, a criança não resistiu e veio a falecer.

A fama de Sorcar lhe precedeu e logo a BBC ouviu falar dele e o convidou para participar de um de seus programas, o show noturno Panorama. A sorte havia sorrido duplamente para Sorcar, pois sua participação no programa havia sido marcado para a noite de 9 de abril de 1956, um dia antes de sua estreia pelo circuito londrino no Duke of York Theater. O night-show seria uma excelente forma de divulgar gratuitamente seu espetáculo.

panorama
Abertura do programa “Panorama”

Na noite de 9 de abril de 1956, Sorcar estava nos estúdios da BBC pronto para se apresentar. E ele seguiu o roteiro proposto, deixando para o final seu grande truque de cortar a mulher ao meio. A versão de Sorcar era ligeiramente diferente da tradicional, por Sorcar usava um serra circular e deixava o corpo de sua assistente completamente à vista, e não escondido em uma caixa.

Sorcar iniciou sua apresentação com alguns números clássicos, como o “Água da Índia” em que uma tigela com água permanece constantemente cheia, não importa quantas vezes ela seja esvaziada. Aliás, a apresentação de Sorcar merece destaque. Embora interpretasse um personagem indiano, Sorcar estava longe de se rum personagem caricato. Segundo registros, ele conseguia dosar muito bem a ideia e o fascínio oriental, com os costumes e gostos ocidentais. Seu show era colorido, com roupas típicas e palavras indianas mescladas com inglês, mas também era de  fácil entendimento e assimilação. As técnicas ocidentais eram potencializadas com o background oriental. E o resultado era maravilhoso. E embora fosse um show com temática indiana, praticamente todos os truques, eram ocidentais. E seu gran finale era o truque de serrar a mulher ao meio. O mais ocidental – e clichê – dos truques de mágica.

8618512974_14b7a9707e_k

De volta ao programa da BBC, após alguns números de seu repertório, Sorcar deu início ao último número da noite. Tudo corria da maneira usual: ele hipnotizara Dipty Dey, sua jovem assistente de 17 anos e a deitou em uma maca hospitalar.  A câmera capturava todos os detalhes e o público pode ver claramente a jovem deitando-se na maca e, acima da jovem, uma serra circular. Todo o corpo deitado da jovem Dey podia ser visto. Sorcar ligou a serra e lentamente baixou-a, até que ela encostou no corpo da jovem. Mais alguns segundos e a serra chegou a altura de onde seria a coluna da assistente.

Neste momento o apresentador do programa Richard Dimbleby se postou rapidamente entre a câmera que capturava a cena e a mulher serrada ao meio e sem qualquer explicação disse que o show daquela noite havia chegado ao fim.

Richard Dimbleby
Richard Dimbleby

Foi aí que os telefones da BBC começaram a tocar sem parar. Todos queriam saber o que havia acontecido com a jovem Dipty Dey. Ela estava bem? Estava viva? O que levou o apresentador a encerrar o show dessa forma.

Se hoje, tal reação nos soa um tanto exagerada, é bom lembrar que na época, o oriente ainda causava uma atração mística nos ocidentais. Mais ou menos nessa época, a televisão descobriu a mágica e truques que antes eram restritos apenas a teatros começaram a ser transmitidos ao vivo pelas televisões. Em 1936, por exemplo, a própria BBC televisionou ao vivo o mágico indiano Ahmed Hussain caminhando sobre brasas acessas. Números de mágica ao vivo, portanto, ainda eram uma novidade. Além disso, o  toda a ação de Sorcar fora executada de forma magistral, sem a caixa que oculta o corpo da assistente, o que permitiu um excelente close da cena. Por isso, para a audiência da época, a impressão é que algo havia saído terrivelmente errado.

PC Socar
PC Socar serrando sua assistente

Os telefones da BBC enlouqueceram. Muitos ligavam sem parar querendo saber o que havia acontecido. A BBC teve que designar alguns atendentes apenas para garantir aos que telefonavam que tudo estava bem. Mais tarde naquela mesma noite, uma decisão sem precedentes: o jornal noturno preparou um editorial afirmando que a assistente estava viva e bem. Esta foi provavelmente a primeira (e única) vez que um jornal noturno anunciou em nível nacional que um truque de mágica saiu exatamente como planejado. Mas nem isso foi o suficiente para acalmar os ânimos.

Sawing a lady in half on BBC-TV , London, in 1956
Cortando a mulher ao meio – BBC, Londres (1956)

No dia seguinte, os jornais mais sensacionalistas exibiam a manchete de capa: “Será que o mágico matou a garota?”  e naquela noite o Duke of York Theater estava lotado. Todos queriam ver com seus próprios olhos se a assistente estava bem e inteira. Ela estava. A tal ponto que durante toda a temporada ela era diariamente cortada ao meio e depois restaurada…

 Mas então porque a transmissão parou abruptamente? Por menos misterioso que seja, a razão é bastante simples: Sorcar estourou o tempo disponível para se apresentar e o apresentador teve de interromper o show porque a BBC se recusou a atrasar ainda mais a grade de programação. A emissora decidiu não mais dar publicidade gratuita ao mágico e cortou seu truque ao meio.

Muitos anos mais tarde, o filho de Sorcar, foi à BBC onde lhe lembraram da história de seu pai. Sorcar Jr. riu e disse que havia um equívoco. Seu pai, disse ele, controlava nos mínimos detalhes tudo o que acontecia no palco, incluindo o tempo de apresentação. Se o tempo havia estourado, disse Sorcar Jr., foi porque meu pai assim o quis. “Timing” é tudo para um mágico, e Sorcar soube deixar seu público querendo ainda mais.

Sorcar Jr.
Sorcar Jr. repetindo o número do pai

– Æ –

FONTES

Blog: Mentalfloss

Wikipedia: PC Sorcar

Jornal “The Stage” 12 de abril de 1956.

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

– Æ –

1. PEGANDO A BALA

Chung Ling Soo
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

enfield1
Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

will-goldston-1912
Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

11093
Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

– Æ –

3. MAS HOUVE MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

– Æ –

2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

Ars_moriendi_(Meister_E.S.),_L.181
Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

– Æ –

3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

DP818255
Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

DP818242
Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

– Æ –

4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

Teufelspakt_Simm
Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

– Æ –

5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

Robert-Houdin diabretes
Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

Hellers-Wonders
Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

1435943695256
Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

cartazes devils imps
Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

42385990_1_x
Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

– Æ –

5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

-x-

2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

V0004749 Giovanni Battista della Porta. Line engraving, 1688.
Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

livro

-x-

3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

robertson
Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

32
Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

Robert-Houdin Theatre
Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

-x-

4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

-x-

5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

Niehls Bohr
Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

Gold(III)_chloride_solution
Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

%d blogueiros gostam disto: