MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

V0004749 Giovanni Battista della Porta. Line engraving, 1688.
Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

livro

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

Robert-Houdin Theatre
Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

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Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

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Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

MÁGICA EM TEMPOS DE GUERRA – A MÁGICA COMO ARMA POLÍTICA

1. Introdução

No post anterior escrevi sobre o livro, baseado na história real de Robert-Houdin. Hoje, veremos como sucedeu, de fato, este belo episódio da história da mágica, em que Robert-Houdin evitou uma guerra usando seus truques.

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2. O contexto histórico

O ano era 1856 e a França, enquanto império expansionista, buscava firmar seu domínio sobre suas colônias africanas, em especial sobre a Argélia, cuja capital, Argel, tinha uma importância estratégica. A colonização que havia começado em 1830, chegava agora ao seu ponto de tensão máximo. A França controlava quase todo o país, exceto as regiões Saarianas. Especialmente a região de Cabila era a mais problemática.

Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843
Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843

Com uma população de maioria árabe, Argel vivia sob jugo islâmico, religião que era tolerada pelo Império Francês. Levadas à cabo por líderes espirituais islâmicos locais, os chamados marabus, muitas insurreições populares eclodiam no país. Eram revoltas pequenas, sempre controladas pelo Império Francês. Porém, pairava no ar o temor de que uma dessas insurreições finalmente conseguisse unir as diferentes tribos e uma revolta nacional eclodisse.

Em 1854 o Coronel De Neveu, chefe do Bureau Político de Assuntos Árabes, e um quase conterrâneo de Robert-Houdin, fez o primeiro convite para que o mágico apresentasse a sua arte na Argélia. Não se sabe ao certo se a decisão de De Neveu contava com o apoio de seus superiores, embora suspeite-se que o Imperador Napoleão estivesse à par do assunto. O que se sabe é que De Neveu era casado com uma Argelina e era de seu desejo que as duas comunidades – França e Argélia – coexistissem pacificamente, sem o derramamento de sangue.

Robert-Houdin declinou o convite, segundo ele porque acabara de chegar de uma turnê e estava feliz em estar de volta em sua casa. Em 1855, novo contato do Coronel e nova recusa de Robert-Houdin. A desculpa agora era que ele estava se preparando para uma cerimônia onde seria premiado. O Coronel manteve essa desculpa na mente e pouco tempo após a premiação um terceiro convite veio do coronel. Robert-Houdin agora não tinha mais desculpas para recusar o convite.

Capa de revista "Tourbillon" de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.
Capa de revista “Tourbillon” de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.

O convite estendeu-se única e exclusivamente a Robert-Houdin. Até onde se sabe, nenhum outro mágico francês foi convocado para esta tarefa. A estratégia era, conforme apontada no post anterior, usar as armas dos marabus contra eles mesmos. Se eram seus sinais miraculosos que lhe davam o poder de falar em nome de Alá, então um profeta mais poderoso teria ainda mais autoridade para falar em nome do Profeta. Foi aí que o nome de Jean Eugène Robert-Houdin veio à tona.

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3. A preparação

Segundo o relato de oficiais franceses, um homem chamado Mahamed Abdallah que trazia grande semelhança com Bou Maza, um antigo líder insurgente.  Esse marabu dizia que aqueles que os seguissem se tornariam imunes às armas dos franceses e usava de truques para convencer o povo de que era o escolhido de Alá. O próprio Robert-Houdin em seu livro: “Memórias”:

Um deles solicitou uma arma, que foi carregada e disparada contra ele de uma distância muito curta, mas foi em vão que o gatilho foi apertado. O marabu pronunciou algumas palavras cabalísticas e a arma não disparou. O mistério era simples: a arma não disparou porque o marabu habilmente cobriu a entrada de ar. Coronel De Neveu me explicou a importância de desacreditar este milagre com uma manipulação que fosse superior a esta. E eu sabia como.

Robert-Houdin passou a maior parte do verão de 1856 preparando-se para a sua viagem. Em 10 de setembro partiu para Marselha e de lá, para Argel. Sua viagem foi anunciada pelos jornais marselheses e sua chegada na Argélia, idem. Ao chegar na Argélia, Houdin descobriu que o governador local não estava na capital. Havia se deslocado para Cabila a fim de conter uma insurreição. Isso adiou os planos em um mês. Nesse tempo, lhe foi permitido que usasse o teatro da cidade para suas apresentações. Sem custos para o mágico.

Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899
Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899

Nesses quase 30 dias de apresentações, Robert-Houdin apresentou o melhor de seu repertório, exceto, é claro, os truques especialmente designados para conter os marabus. Esses truques seriam apresentados em uma gala especial dedicada ao líderes (marabus) árabes nos dias 28 e 29 de outubro.

Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890
Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890

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4. A mágica de Robert-Houdin

Robert-Houdin relatou essas performances como memoráveis, tanto pela apresentação, como pela adaptação de seus números para o contexto pretendido. um dos números apresentados foi o “Caixa Leve e Pesada”. Por exemplo, ao invés do tradicional texto sobre ser impossível roubar os segredos de Robert-Houdin, ele transformou o número em um desafio aos árabes mais fortes. Robert-Houdin dizia ser capaz de, temporariamente, retirar a força de qualquer homem. Nenhum homem era capaz de levantar sua caixa secreta, embora uma criança pudesse.

Outro truque apresentado por Houdin foi o de pegar a bala, que era claramente superior ao executado pelos marabus. Por fim, o truque de fazer desaparecer uma “membro aleatório” da plateia, sob um cone gigante. Segundo relatos, este truque foi o que mais pânico causou entre os árabes. O pânico foi tanto que os árabes só se recobraram ao final do show, quando viram o árabe do lado de fora do teatro esperando seus conterrâneos.

Os jornais locais louvaram muito o show de Robert-Houdin. Segundo os jornais seus feitos seriam falados por um longo tempo e poupariam a vida de milhares de cristãos e árabes. O Jornal estava duplamente correto.

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5. Conclusão

Três dias após essas performances, Robert-Houdin foi chamado ao Palácio do Governador para uma cerimônia na qual seria o convidado de honra. Lá chegando encontrou os 30 maiores líderes tribais árabes. Cumprimentou a todos com um aperto de mão e uma reverência, embora a maioria deles tivesse medo de apertar a mão do grande mágico branco.

O mais velho dos chefes aproximou-se de Robert-Houdin e abriu um rolo de pergaminho. Nele, um belo poema reconhecendo o poder de Jean Eugene Robert-Houdin, muito belamente caligrafado, entremeado com maravilhosos arabescos. O ancião leu o poema com grande solenidade. Ao fim da leitura, tomou o selo de sua tribo e estampou-o no pergaminho. O gesto foi seguido pelos outros 29 líderes. Ao final, enrolaram o pergaminho e o presentearam a Houdin. com o seguinte elogio:

Para um mercador, é dado ouro; para um guerreiro, armas são oferecidas. A ti, Robert-Houdin, presenteamos com o testemunho de nossa admiração, a qual poderás repassar a teus filhos. Perdoe-nos presentear-te com esta ninharia, mas cabe-nos oferecer a pérola-mãe ao homem que já possui a verdadeira joia?

Profundamente emocionado, Robert-Houdin aceitou o pergaminho. E pelo resto de seus dias considerou este, o mais precioso souvenir de sua vida como artista.

Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856
Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856

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6. Bibliografia

Livro: Christian Fechener “The Magic of Robert-Houdin” Vol. 2

Livro: Jean Eugene Robert-Houdin “The Life and Adventures of Houdin, the Conjuror

VAUDEVILLE – A INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO

“Há algo aqui para todo mundo.”

B. F. Keith

1. INTRODUÇÃO

O Vaudeville foi o gênero de espetáculo que praticamente definiu a indústria do entretenimento a partir do século XX. De Holywood à Broadway, e até o Superbowl, todos, de uma forma ou de outra, beberam dessa fonte. Sua importância é tão profunda que não é exagero dizer que o vaudeville está na gênese do “american way of life”. Muitos artistas do cinema, televisão, cantores, mágicos, humoristas e malabaristas começaram a sua carreira no vaudeville. Especificamente, no ramo do ilusionismo, o vaudeville foi símbolo do ápice da era de ouro na mágica.

Senhoras e senhores, com vocês, o maior espetáculo da terra: o vaudeville.

"Como entrar no Vaudeville" (Clique na imagem para ampliá-la)
“Como entrar no Vaudeville” de Frederic La Delle
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2. ANTES DO VAUDEVILLE

Na América pós-guerra civil, existiam diferentes formas de entretenimento. Uma das formas mais comuns era o teatro de variedades, que consistia em uma ariedade de shows em um mesmo local; na mesma noite um espectador assistia uma peça de Shakespeare, uma cantor cômico e acrobatas. Alguns circos excursionavam pela América apelando ainda à outros expedientes como o circo de curiosidades, bizarrices ou horrores, como queira.

Cartaz de show de ministrel (Clique na imagem para ampliá-la)
Cartaz de show de ministrel
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Outra exibição artística era o show dos menestréis que foi considerado por alguns como “a primeira emanação de um pervasivo e puramente da cultura de massa americana”, ao poto de ser chamada de “o coração do show-business do século dezenove”. Além disso, havia ainda os “Shows Médicos” que viajavam pelo país com atrações artísiticas e, de quebra, vendiam tônicos milagrosos e elixires restauradores, e os “Shows do Oeste Selvagem” que trazia uma visão romantizada da conquista do Oeste Selvagem. Mas o nome mais famoso dessa era foi o de Phineas Taylor Barnum.

Cartaz anunciando um show de Oeste Selvagem (Clique na imagem para ampliá-la)
Cartaz anunciando um show de Oeste Selvagem
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P. T. Barnum foi um empresário do ramo de entretenimento que viajava pelos EUA com a sua trupe de variedades “Barnum’s Grand Scientific and Musical Theater”. Em 1841 Phineas comprou o “Scudder’s Museum of America” em Nova York e o transformou no “Barnum’s America Museum” onde expunha várias atrações fajutas – como a sereia de Fiji – e bizarrices, como os irmãos siameses Chang e Eng. Em 1865 o museu é destruído por um incêndio de origem desconhecida. Ele então inaugura um novo museu em outro endereço de Nova York. Este segundo museu também é destruído por um incêndio em 1868. As perdas financeiras foram grandes demais e Barnum se retira do ramo de museus, mas não do ramo artístico.

Phineas Taylor Barnum (Clique na imagem para ampliá-la)
Phineas Taylor Barnum
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Em 1871 Barnum inaugura o seu circo itinerante, o “P. T. Barnum’s Grand Traveling Museum, Menagerie, Caravan & Hippodrome”. Seguindo o conceito de circo itinerante e show de bizarrices, Barnum passa a viajar por todo o país. Estava lançado a base sobre o qual o vaudeville seria construído.

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3. A ORIGEM DO “VAUDEVILLE”

Originalmente, o termo vaudeville referia-se especificamente a uma companhia de entrentenimento de variedades e começou a ser usada em 1871 com a formação do “Sargent’s Great Vaudeville Company” de Louisville, no Kentucky. “Vaudeville” teve muito pouco, se não nada, a ver com o “vaudeville” do teatro francês.

Aliás, a origem do termo traz divergências, mesmo entre os estudiosos do ramo. O empresário M. B. Leavitt sustentava que o termo vaudeville vem do francês “vaux de ville”, que significa “digno da cidade” ou “digno da população da cidade”; por outro lado, Albert McLean defende a tese que o termo foi escolhido apenas “pela sua sonoridade exótica, imprecisão e por trazer consigo um certo cavalheirismo”.

MB Leavitt (Clique na imagem para ampliá-la)
Michael B. Leavitt
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O show de Leavitt e o de Sargent em si variavam muito pouco do que já vinha sendo apresentado pela América (inclusive por PT Barnum), no entanto por usarem a expressão vaudeville, isso lhes trouxe uma áurea de maior respeitabilidade junto ao público. E essa foi a grande sacada do vaudeville.

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4. UM SHOW PARA TODOS

No começo da década de 1880, Tony Pastor, um cantor que trabalhava para Barnum no “Scudders…”, começou a atuar por conta própria no “Robert Butler’s American Music Hall”, um teatro localizado no nº 444 da Broadway. Seus shows fizeram grande sucesso, especialmente com o público masculino, em função de seus números cômicos e de música popular. Foi aí que Tony percebeu que poderia ganhar muito mais se ao invés de focar apenas no público masculino, focasse os espetáculos também para o público feminino e até infantil.

Tony Pastor (Clique na imagem para ampliá-la)
Tony Pastor
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Assim, Tony criou diversos shows de variedades, que iam de operetas, espetáculos humorísticos e curiosidades direcionado a todos os públicos e idades. Em 1874, mudou-se para um teatro maior, ainda na Broadway e finalmente em 1881, mudou-se para o antigo Teatro Germania onde estabeleceu seu show variedades orientado à família. Foi o início formal do vaudeville. O plano de Pastor foi um enorme sucesso, pois atingia em cheio a nova classe média urbana norte-americana.

Embora Tony Pastor seja o fundador “oficial” do vaudeville, o “hours concurs” dessa era foi Benjamin Franklin Keith, considerado por muitos como o verdadeiro “pai” do vaudeville. B. F. Keith começou no ramo do circo itinirante como um golpista na década de 1870 e também trabalhou para PT Barnum. Em 1883 ele mudou-se para Boston onde estabeleceu seu próprio museu. Seu sucesso foi imediato e permitiu que ele construísse o seu próprio teatro. Assim, em 1885 inauguraram o Teatro Bijou. O teatro encantava pela sua magnificiência: instalações modernas e luxuosas e à prova de fogo, O primeiro espetáculo oferecido por BF Keith eram cinco apresentações diárias de Mikado de Gilbert e Sullivan, onde o ingresso era vendido à dez centavos o assento.

BF Keith (Clique na imagem para ampliá-la)
Benjamin Franklin Keith
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Com o Bijou, Keith estabeleceu um novo padrão que moldaria os teatros dali em diante, com a fixação de uma política de limpeza e ordem. Keith gerenciava o seu teatro com mãos-de-ferro, julgando e censurando cada artista e cada apresentação que passava em seu teatro, sempre primando pela decência. Ele proibia veementemente a vulgaridade em seus atos e quaisquer palavras, atos ou gestos que atentessam contra os bons costumes. Sua obsessão pela “pureza de seus shows” foi tanta que Keith chegou ao ponto de pedir que um dignitário da Escola Bíblica Dominical assistisse os ensaios e emitisse a sua opinião sobre os números.

Gravura do Bijou Theater de 1883 (Clique na imagem para ampliá-la)
Gravura do Bijou Theater de 1883
(Clique na imagem para ampliá-la)

Mas o grande trunfo de Keith foi sua habilidade em ligar os shows considerados de “alto” e “baixo” entretenimento. Ele reforçou a imagem de que seus teatros ofereciam shows modernos e “legítimos” o que trouxe um novo público ao teatro, mas ainda oferecia amostras dos antigos shows de variedades do pós-guerra Civil o que manteve o público cativo. Essas duas amostras coexistiam pacificamente e cobriam as mais diversas áreas e gostos do público. Sobre essa habilidade, o sócio de Keith, Edward Albee escreveu que nos teatros de Keith, que “há algo aqui para todo mundo”.

Outro grande acerto de Keith foi a sua política de performance contínua que dominou o vaudeville durante quase duas décadas. Durante 12 horas ininterruptas, os atos eram apresentados por duas ou três vezes de forma alternada. Essa continuidade eliminou o que Keith via como “hesitação” por parte do público de entrar no teatro até que ele estivesse “mais cheio”. Essa ideia encaixou-se como uma luva com as condições de vida das novas metrópoles urbanas pois havia espetáculo durante a troca de turno das fábricas, hora no qual havia enorme abundância de pessoas andando pelas ruas.

Muitos, porém, consideravam o vaudeville uma forma menor de entretenimento, destinado às classes mais baixas da população e não-digna de valor, somado a um exagero no luxo dos teatros (também chamados de palácios, dada a sua opulência). Em 1894, na noite de inauguração do Novo Teatro de Keith, em Boston, um jornalista escreveu:

“A era da luxúria parece ter atingido o seu estado-da-arte. Essa verdade nunca ficou tão evidente quanto na visita ao palácio de Keith. É quase incrível que toda essa elegância esteja à disposição do público, tanto de ricos, como de pobres.” 

De fato, a política de controle de conteúdo imposta por Keith, bem como suas regras de “limpeza e ordem”, se aplicavam também ao público, e permitiram que a população menos abastada pudesse ir ao teatro e garantia o seu comportamento. Como garantia, porém, Keith colocava vigias armados nos teatros que, ao verem suas regras serem descumbridas, discretamente entregavam aos infratores pequenos cartões com as regras da casa, como por exemplos:

  • Cavalheiros gentilmente evitarão levar cigarros, charutos acessos dentro do teatro. A Gerência.
  • Damas devem retirar o seus chapéus dentro do teatro. A Gerência.
  • Cavalheiros evitarão fazer barulhos com seus sapatos ou sua bengala enquanto caminham. A Gerência.
  • O aplauso é melhor demonstrado apenas batendo as mãos. A Gerência.
  • Por favor, não converse durante os atos. Isso incomoda os que estão próximos de você e impede uma audição perfeita do espetáculo. A Gerência.

Caso a solicitação do vigia não fosse atendida, o infrator era chamado à atenção pelo vigia-chefe assistente, em seguida pelo vigia-chefe e por fim pelo gerente do teatro que pedia ao infrator que se retirasse. Essa metodologia educou a nova classe média frequentadora dos teatros e mudou os padrões comportamentais da época. Sobre isso, Keith escreveu: “O público precisava ser educado dessa forma”.

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5. OS MAIS FAMOSOS ARTISTAS DO VAUDEVILLE

Eis alguns artistas que participaram, iniciaram ou fizeram fama no Vaudeville:

  • Charles Chaplin;
  • Bob Hope (ator e apresentador);
  • A dupla Abbott & Costello (dupla de humoristas);
  • Os irmãos Marx (Groucho, Harpo e Chico), sendo Groucho Marx o mais conhecido;
  • Will Rogers (ator e apresentador);
  • Mae West (atriz que deu origem ao conceito de garota pin-up);
  • Sammy Davis Sr. (trompetista de jazz);
  • Duke Ellington (considerado o fundador do jazz moderno);
  • Ella Fitzgerald (cantora de jazz);
  • Judy Garland (atriz mirim);
  • Gene Kelly (dançarino, estrelou entre outros filmes: “Cantando na Chuva”);
  • Babe Ruth (o mais famosos jogador de beiseball de todos os tempos);

Já no segmento “mágicos” temos ninguém menos do que:

  • Howard Thurston;
  • Charles Carter;
  • Alexander (the man who knows);
  • Harry Blackstone Sr.;
  • Cardini;
  • Chung Ling Soo;
  • Thomas Nelson Downs;
  • Horace Goldin;
  • Theodore Hardeen (irmão de Houdini);
  • Alexander Herrmann;
  • Harry Houdini;
  • Harry Kellar;
  • Dai Vernon;
Alguns mágicos que fizeram parte do vaudeville (Clique na imagem para ampliá-la)
Alguns mágicos que fizeram parte do vaudeville
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6. O FIM DE UMA ERA

O vaudeville durou até o início da década de 1930. Estudiosos apontam como motivos para o fim do vaudeville o início da era do cinema aliada à invenção da televisão. Com a popularização dessas mídias muitos artistas migraram dos teatros para as telas: Charlie Chaplin, Gene Kelly, Mae West e Bob Hope talvez sejam os nomes mais famosos.

Outro fator que contribuiu para o fim do vaudeville foi a grande quebra de 1929, o que atingiu em cheio a classe média americana, o principal público-alvo do vaudeville. Em 1925 haviam aproximadamente 1500 teatros no circuito vaudeville; em 1930, apenas 300 continuavam abertos. O circuito de teatros RKO que chegou a contar com 700 teatros, restou com apenas 5 oferecendo “apenas vaudeville”. O restante das casa fecharam ou passaram a exibir filmes.

Mesmo o vaudeville chegando ao fim, seu legado permanece: tranformar uma simples apresentação em um show digno de ser assistido é mérito do vaudeville e de todos que de uma forma ou outra contribuíram para o espetáculo. O “primo pobre da Broadway” marcou profundamente a cultura popular ocidental. Seus ecos são ouvidos ainda hoje.

Senhoras e senhores, uma salva de palmas ao vaudeville.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Vaudeville, a dazzling display of heterogeneous splendor

Site: Boston Opera House

Site: Broadway 101

Livro: “Vaudeville Old & New. An encyclopedia of Variety Performers in America” – Vol. 1 de Frank Cullen.

Livro: “American Vaudeville as Ritual” – Albert McLean

Livro: “American Vaudeville as Seen by its Contemporaries” – Charles Stein

Este último livro não cheguei a ler, mas recebi fortes recomendações.

Livro:No Applause – Just Throw Money: The Book That Made Vaudeville Famous” de Trav S.D.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

Baseado em um post feito pelo confrade Ruy Texas no Fórum Mágico Amador

INTRODUÇÃO
Ao longo da história, muitos mágicos apresentaram diversas formas de levitação. Desde pequenos objetos até os maiores, passando inclusive pela levitação de pessoas, a levitação sempre encanta e maravilha. Os mágicos tem empregado estratagemas engenhosos, que ficaram na História, a grande maioria somente como um simples truque de ilusionismo.

Segundo Ruy Texas, a primeira dessas levitações foi apresentada no ano de 1832, em Madras, Portugal, pelo ilusionista Drahmin Scheschal. que levitava sua mulher sentada num tamborete, até à altura de dois metros.

Mas houve um mágico que conseguiu superar a barreira da ilusão e trouxe verdadeiro assombro à sua época.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

No dia 27 de abril de 1908, o público presente no Hipódromo de Nova York, constatou, com assombro, que um homem, sentado em seu piano elevou-se ao ar. Não só o pianista, mas o piano também. Quando piano e pianista estavam a pouco mais de um metro e meio do solo piano e pianista começaram a flutuar pelo palco, de um lado para outro, também passaram a balançar até que finalmente piano e pianista ficaram de cabeça para baixo e ainda mais, começaram a flutuar em círculos, chegando a 40 rotações por minuto. E o mais belo de tudo: a música não parou, sequer por um segundo.

Durante o prodigioso número, tanto na subida, como na descida, o piano e o pianista eram passados de um lado para o outro, com um gigantesco arco de madeira, para que a assistência se certificasse da ausência de fios ou outros meios mecânicos de suspensão aérea.

Testemunhas dizem que foi o show de mágica menos aplaudido da história, pois o público estava surpreso demais para esboçar qualquer reação.

A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958).
A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958). (Clique na imagem para ampliá-la)

Conclui Ruy Texas dizendo que foi tão grande o sucesso alcançado por Onaip com este seu truque, que o Circulo Espanhol de Artes Mágicas de Barcelona, considerando o dito truque bastante indecifrável, ofereceu aos leitores da sua revista “El Três de Bastos” um valioso prêmio para aquele que conseguisse desvendá-lo. O prêmio, porém, restou deserto.

Christopher Milbourne na revista “Popular Mechanics” de dezembro de 1958 traz mais informações: Onaip apresentou esse número por todo os EUA ao longo dos anos seguintes. Em 1911 Onaip passou a se apresentar com indumentária indiana. O mágico aparecia no palco com um largo robe de seda e hipnotizava uma de suas assistentes a qual passava a tocar o piano até que fosse levitada.

QUEM ERA ONAIP?

Nascido sob o nome de William F. Moore, em Westerly, Rhode Island, consta a história que Onaip fugiu de casa e do negócio de sucesso de sue pai, para se tornar um bem sucedido mágico de vaudeville. Anos mais tarde, após ter já se retirado dos palcos, ele e a sua esposa foram agraciados com uma pequena pensão advinda de sua família, sob a condição de que nunca jamais se falasse no seu passado artístico, o qual o pai nunca aprovou. Para garantir o acordo, a esposa de Onaip queimou todos os seus materiais e rascunhos sobre mágica. Isso talvez explique a enorme dificuldade de se encontrar fotos e descrições sobre Onaip e seu glorioso número de levitação. Onaip, faleceu em 1959.

Em 1918, M.S. “Doc” Mahendra descobriu que o aparato de levitação do piano de Onaip estava guardado em um depósito de mercadorias de Chicago, e estava para ser vendido por falta de reclamação do dono. Mahendra comprou a ilusão por U$ 20,00 (U$ 340,00 em valores atuais).  Apesar de considerar essa uma brilhante ilusão, Mahendra nunca veio a apresentá-la.

Mahendra
Mahendra (Clique na imagem para ampliá-la)

BIBLIOGRAFIA

– Fórum Mágico Amador – Tópico: “Lendas Mágicas & Mágicos Lendários” criado em 12/11/2009;
– Magicpédia: Onaip;
– Revista “Popular Mechanics” dezembro de 1958;

A TRISTE HISTÓRIA DE PAUL VALADON

A história da mágica mostra que, às vezes, querer demais só faz mal, e a biografia de Paul Valadon prova isso. Paul Valadon é o mágico que poderia ter sido, mas não foi.

Estes são os personagens dessa incrível história.

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PAUL VALADON

Paul Valadon

Paul Valadon é o nome artístico de Adolph Weber, um mágico nascido em 1867 em Colônia, na Alemanha. Poucas informações sobre o começo de sua carreira teatral são encontradas, sabe-se que ela começou fora dos palcos, como cabeleireiro em Londres e, em suas horas de folga, estudava mágica. Não tardou muito para que Paul conseguisse alguns “bicos” como artista e isto lhe encorajou a seguir a carreira de mágico. Seu primeiro emprego como artista foi como assistente de palco de Ernst Basch e sua primeira apresentação pública deu-se no Center Hall de Colônia, Alemanha, sua cidade natal.

Em 1900, Paul – já morando em Londres, foi contratado pelo “Egyptian Hall” para preencher os espaços deixado na agenda deixado por  David Devant quando este foi excursionar fora de Londres. Nesse ínterim acabou sendo contratado por John Nevil Maskelyne que neste mesmo ano, estreou com muito sucesso a sua mais nova criação mágica: a levitação da assistente.

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JOHN NEVIL MASKELYNE

John Nevil Maskelyne

O número de Maskelyne consistia em deitar a sua assistente em um divã; em seguida o divã elevava-se à uma altura de 1,80 metro. O mágico então retirava o divã e a assistente permanecia imóvel no ar. Por fim, o ponto alto do ato, um aro de metal previamente examinado pelo público era passado pela assistente, provando não haver cabo, nem fios segurando a assistente no ar, que era finalmente descida, terminando o ato deitada no divã.

Cartaz do Egyptian Hall, mostrando a levitação criada por MAskelyne & Cooke.
Cartaz do Egyptian Hall, mostrando a levitação criada por Maskelyne & Cooke.

Esse número foi uma criação original da dupla Maskelyne & Cooke. Até então, o único número de levitação era “La Suspension Ethéréene” (A Suspensão da Vassoura), criado por Jean Eugene Robert-Houdin. O número de Maskelyne & Cooke era ao mesmo tempo belo, misterioso e revolucionário. Baseado no mesmo princípio do número deKolta’s Cocoon, usando dezenas de fios bastante finos e um complexo sistema de contrapeso fora do palco.

Poucos mágicos americanos tiveram o privilégio de assistir o número de Maskelyne, e um desses mágicos foi Harry Kellar. Logo na premiére, em 1900, Kellar quis comprar o número de Maskelyne, mas sua oferta fora rejeitada. Após alguns anos de tentativas frustradas de comprar – e de imitar o número – Kellar decidiu por um novo plano e subornou Paul Valadon para que este lhe entregasse o segredo da levitação de Maskelyne; em troca, Kellar contrataria Valadon como seu parceiro e mais, faria de Paul Valadon o seu sucessor.

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HARRY KELLAR

Harry Kellar

Antes de continuarmos a história de Valadon, precisamos entender que o nome de Harry Kellar sempre esteve envolto em polêmicas. Ele estava em uma disputa pessoal contra Herrmman the Great que criticava a falta de habilidade manual de Kellar dizendo que Kellar preferia as máquinas à habilidade manual; Kellar se defendia gabando-e de seu excelente misdirection: “uma banda de sopro, tocando à plenos pulmões poderia passar por trás do palco, seguido de uma manada de elefantes, que mesmo assim a plateia não os perceberia.” Por isso tudo não é de se surpreender que Kellar buscasse um sucessor com extrema habilidade manual. E foi isso que Kellar viu em Valadon – além da oportunidade de roubar Maskelyne, claro.

Livro de Will Goldston: "Exclusive Magic Secrets" (1912)
Livro de Will Goldston: “Exclusive Magic Secrets” (1912)

Paul Valadon era especialista na manipulação de bolas de bilhar, em “back palming” e na mágica chinesa. Também era um expert em misdirection e possuía conhecimentos em mentalismo. Kellar viu Valadon apresentando-se, encantou-se e propôs uma parceria.

Em 1904 Harry Kellar anuncia seu novo número: “A Levitação da Princesa Karnac”. O número é um sucesso de crítica; o mistério perfeito. E em 1905 Paul Valadon – que trabalhava com Maskelyne – repentinamente aparece nos Estados Unidos trabalhando para Kellar que anuncia Paul como o seu sucessor natural. Tudo isso em troca dos planos e esquemas da levitação de Maskelyne.

Cartaz mostrando o show de Kellar: "A Levitação da Princesa Karnac"
Cartaz mostrando o show de Kellar: “A Levitação da Princesa Karnac” (1904)
Cartaz mostrando Paul Valadon como o suscessor de Kellar.
Cartaz mostrando Paul Valadon como o suscessor de Kellar.

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HOWARD THURSTON

Howard Thurston

Após três temporadas excursionando juntos o clima entre Kellar e Valadon não era dos melhores. Eva Kellar, esposa de Harry, não gostava de Paul e gostava menos ainda de sua esposa. Para completar o quadro, Eva Kellar e Paul Valadon eram dados à bebida, o que tornava as discussões ainda mais ríspidas.

Mesmo com o clima tempestuoso entre o quarteto, o fato de Kellar haver anunciado Howard Thurston e não Paul Valadon como seu sucessor foi recebido com surpresa. Entre maio e junho de 1907 Kellar demite Paul Valadon e Howard Thurston rapidamente assume o lugar de Valadon, tornando-se assim o sucessor declarado de Kellar. Por três temporadas Kellar tutoreou Valadon e após isso, simplesmente o dispensou. Já escolha de Thurston provou-se bastante natural: além de já ser amigo de longa data de Kellar, Thurston possuia à época o maior show do mundo em termos de aparatos.

Cartaz mostrando a sucessão de Kellar por Thurston
Cartaz mostrando a sucessão de Kellar por Thurston

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E O TRISTE FIM…

Os últimos anos de vida de Paul Valadon foram de miséria, pobreza e tristeza. Sua esposa o abandonou e quando faleceu deixou nada além de algumas dívidas para seu filho. O último desejo de Paul transmitido a seu filho foi que não queria que seu filho gastasse suas poucas economias em um túmulo, que guardasse o dinheiro para si e enterrasse o pai em uma vala comum. E assim foi feito. Em 1913 Paul falece deixando órfão seu filho, Paul Valadon Jr., de apenas 13 anos de idade.

Em 1948 Carl Rossini, então vice-presidente da Guilda dos Mágicos, sugere que se fizesse um esforço para localizar a sepultura de Paul Valadon. Bert Easley em viagem de negócios a Phoenix, Arizona, localiza nos registros do Cemitério “Greenwood Memorial Lawn” uma sepultura cujas datas coincidem com a morte de Paul. Em 27 de junho de 1948, a Guilda dos Mágicos inaugura um jazigo de pedra para a sepultura com o nome: “Paul Valadon” e as datas 1867 e 1913 separadas por uma cartola cruzada com uma varinha.

Cemitério onde está enterrado Paul Valadon
Cemitério onde está enterrado Paul Valadon

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BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Last Greatest Magician in the World, Thurston x Houdini” de Jim Steinmeyer;

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, Aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Site: John Nevil Maskelyne na Wikipedia

Site: Harry Kellar na Wikipedia

Site: “Ford’s Theatre & The Magic Mantle“, em The Magic Detective

Site: Magician’s Biography – Letter V, em MagicTricks.com

Site: Paul Valadon, em magicpedia.com

O TRUQUE QUE AMEDRONTOU HOUDINI

Não tente o truque de pegar a bala. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Trecho de uma carta de Kellar a Houdini

De todos os números de mágica já apresentados, o mais perigoso deles é, sem dúvida nenhuma, o número de pegar a bala. A premissa é simples: uma bala é disparada contra o mágico que apara ela, seja com a mão, seja com a boca. Em algumas versões, a bala é marcada; em outras, ela atravessa um vidros antes de atingir o mágico. Mas em todas as versões, sempre há um risco enorme envolvido.

Esse foi o único número que Houdini não ousou executar (ao menos não publicamente). Até hoje, esse número é assombroso, controverso e muito, muito perigoso. Senhoras e senhores, um artigo sobre o número que amedrontou Houdini: pegar a bala.

E não tentem isso em casa.

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1. O NÚMERO DE MÁGICA MAIS PERIGOSO DE TODOS OS TEMPOS

A primeira menção ao número de pegar a bala, data de 1631 e aparece em um livro intitulado “Threates of God’s Judgement” escrito pelo reverendo Thomas Beard. Segundo o reverendo, um mágico francês chamado Coulen de Lorraine executava esse número; a bala era disparada e Coulen a pagava com a mão. Ainda, segundo o próprio reverendo, Coulen morreu espancado pelo seu assistente – curiosamente – com a própria arma com a qual executava o número.

Trecho do livro “Threates of God’s Judgments” onde é descrito pela primeira vez o número de pegar a bala.
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Em 1785, Philip Astley clamou para si a autoria do número com a publicação de de seu livro: “Natural Magic or Physical Amusement Revealed“. Segundo Philip ele teria invetado o truque em 1762. Porém, em 1761 Thomas Denton mencionam o número de pegar a bala, tal qual descritos pelo reverendo Beard, em seu livro “The Conjuror Unmasked“. Igualmente em 1761 Henri Decremps descreve o mesmo número em seu livro: “La Magie Blanche Dévoilée“. Na verdade o material de Astley era nada além de um plágio do livro de Decremps, incluindo uma ilustração similar na capa, porém abordando os mágicos de um ponto de vista mais positivo.

À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley(Clique na imagem para ampliá-la)
À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley
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Em 1840, John Henry Anderson, um mágico escocês apresentou nos principais palcos da Grã-Bretanha, América do Norte e Austrália, onde apresentava o número de pegar a bala. Foram as apresentações Anderson que tiraram o número do anonimato e o trouxeram à tona. Após Anderson, pelo menos outros quatro rivais do mágico escocês passaram a apresentar suas próprias versões do truque.

O efeito continuou sendo largamente executado (não sem fazer algumas vítimas) até que em 1918 houve a mais bem documentada – e porque não trágica – vítima do efeito de pegar a bala, o mágico Chung Ling Soo.  Chung Ling Soo, alter ego de William Ellsworth Robinson, apresentava o efeito de pegar , ora com a mão, ora com a boca, uma bala disparada contra ele. Em março de 1918 Chung se apresentava no Wood Green Empire em Londres, quando, por um erro cometido pelo próprio Chung (ele não havia limpado a arma propriamente o que deixou uma boa quantidade de resíduo de pólvora não queimada na arma), a arma ao invés de apenas estrondar, disparou de fato a arma contra o peito de Chung. Ele ainda foi levado com vida ao hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Após a morte de Chung Ling, o efeito perdeu a sua popularidade, apesar de ainda vir a ser executado por alguns mágicos nos anos posteriores. Mesmo com o advento da televisão e a apresentação de vários mágicos, o truque de pegar a bala nunca mais teve o mesmo apelo ao público, apesar de ainda ser um número que causa um forte efeito no público.

Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: "Condemned to Death by the Boxers"
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers

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2. MORTES CAUSADAS PELO TRUQUE

A morte de Chung Ling Soo foi a mais trágica, porém não foi a única.

* Coulen (1500): Apesar de não ter sido morto diretamente pelo truque, foi espancado até a morte com a pistola do seu show, o que lhe concede a “honra” de entrar na lista.

* Kia Khan Khruse (1818): Mágico indiano que teria sido morto por um espectador. Os relatos de sua morte podem ser falsos.

* Madame DeLinsky (1820): Assistente de seu marido, o mágico polonês DeLinsky, foi morta quando, por engano, um dos atiradores carregou verdadeiramente a arma. A rotina consistia em seis atiradores que mordiam a ponta do cartucho para carregá-lo na arma. O truque consistia em morder não a ponta, mas a munição inteira, tornando-a em uma bala de festim. Seja por distração ou por dolo, um dos atiradores acabou tirando apenas a ponta do cartucho, transformando-o em uma munição real.

* Giovanni de Grisy (1826): Giovanni era filho de Torrini, o qual era, supostamente, o mentor de Robert-Houdin. Giovanni teria sido morto pelo próprio, segundo um relato de Robert-Houdin. Essa história também pode ser apenas uma invenção.

* Arnold Buck (1840): Arnold foi morto quando um voluntário da plateia, possivelmente querendo testar os poderes sobrenaturais do mágico, adicionou secretamente à arma alguns pregos. Possivelmente essa morte serviu de inspiração ao filme “O Grande Truque” (The Prestige), onde um dos mágicos é atingido por um espectador que coloca uma bala real na arma.

* Adam Epstein (1869): O truque de Adam Epstein consistia em verdadeiramente carregar a pistola depois, com o auxílio de um bastão pescava a bala, deixando somente a pólvora (outra vez, tal qual explicado em “O Grande Truque”). No dia da morte de Epstein, o bastão pescou a bala, porém ele acabou se quebrando dentro da pistola. ao disparar a arma, lascas de madeira voaram na direção de Epstein, que acabousendo atingido.

* Raoul Curran (1880): Após executar o número de pegar a bala com sucesso, um membro da plateia levantou-se de seu assento e atirou em Raoul sem nenhum aviso, dizendo apenas, em desafio ao mágico: “Pegue essa!”

* deLine Jr (1890): Morto quando seu pai, também mágico, acidentalmente atirou nele no palco.

* Michael Hatal (1899): Morto após não conseguir trocar os cartuchos de reais por cartuchos de festim.

* Otto Blumenfeld (1906): Também não conseguiu trocar as balas.

* Chung Ling Soo (1918): Conforme já mencionado, essa foi, de longe, a mais comovente das mortes causadas pelo número.

* H. T. Sartell (1922): Outro que falhou ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas de cera.

* “The Black Wizard of the West” (1922): O Mágico Negro do Oeste foi outro que morre no palco, quando sua esposa e assistente, trocou as balas falsas por balas reais. ao todo, o mágico recebeu cino tiros.

OBS: Segundo o website “Mentalfloss.com” H. T. Sartell e “The Black Wizard of the West” seriam a mesma pessoa. Não encontrei muitas referêncas sobre  nenhum deles, exceto o relato resumido de suas mortes. Se alguém tiver maiores informações, eu publico aqui.

* Ralf Bialla (1975): Bialla executava o número usando todas as proteções possíveis: óculos à prova de balas, luvas grossas com as quais cobria o rosto e um aparador de aço na boca. A bala viajava por três painéis de vidro antes de Bialla pegá-la com os dentes.  or nove vezes, Bialla machucou-se seriamente, mas sobreviveu em todas as vezes, porém, não sem graves sequelas. E foi uma dessas sequeleas que o levaram à morte. Ralph passeava em uma região montanhosa quando sentiu-se muito tonto (sequela dos inúmeros acidentes com a mágica) e acabou caindo de um penhasco. Esta também não ser uma morte causada diretamente pelo número, mas que teve influência direta deste.

* Doc Conrad (1977): Morto ao executar o número “Roleta Russa”, uma varação da mágica de pegar a bala.

* Fernando Tejada (1988): Outro mágico que acabou morrendo no palco em uma apresentação na Colômbia.

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3. E HOUDINI?

Como já foi dito, após a morte de Chung Ling Soo, poucos mágicos ousaram fazer esse número nos anos seguintes. Logo após a morte de Chung, Houdini chegou a cogitar a hipótese de executar o número, mas foi demovido da ideia por seu amigo Harry Kellar que considerava o número extremamente perigoso.  Em carta a Houdini, Kellar escreveu:

Agora, meu caro garoto este é um conselho do meu coração, NÃO TENTE A P—A de pegar a bala… não importa quão certo você esteja do sucesso do número. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Você tem um monte de coisas boas para manter a sua posição como o líder em sua profissão. E você deve isso aos seus amigos e a sua família, cortar tudo o que possa representar algum risco para a sua vida. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Houdini ouviu o conselho de Kellar e cancelou a apresentação pública do número. Isso só fez aumentar a fama da mágica (“Tão perigosa que nem mesmo Houdini teve coragem). Porém, existem fortes evidências de que Houdini já havia praticado esse número 25 anos antes.

Jack Hyman, amigo íntimo de Houdini e sócio dele no “The Brothers Houdini” afirmou em entrevista à Genii Magazine de abril de 1937 que em 1893 e 1894 Houdini havia executado o número, chegando até mesmo a mostrar um raio-x da mão esquerda de Houdini, onde uma bala estaria permanentemente alojada, supostamente fruto de um acidente com o número. É porém, possível, que Jack Hyman estivesse apenas fazendo o que ele sabia fazer de melhor: construir a lenda de Houdini.

Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.(Clique na imagem para ampliá-la)
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.
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Patrick Cullinton escreveu em seu livro “The Tao of Houdini” uma declaração dada pelo próprio Houdini em 1922:

Eu tive uma experiência única, executando o número de pegar a bala. Era costumeiro para mim apresentar o número com uma pistola permitindo que um voluntário carregasse-a com uma bala marcada, e assim eu verdadeiramente nunca tocava na arma.  Havia uma tábua fina sobre uma mesa apoiada na parede traseira do palco. Ao voluntário era dada a opção de atirar na tábua que seria partida em inúmeras lascas ou em mim. No entanto, eu pedia a promessa que, uma vez anunciada a sua decisão ele não poderia, por sua palavra de honra, mudar de ideia. Por uma fração infinitesimal de um segundo havia um silêncio sepulcral, sequer respiravam, após o som do buraco deixado na tábua pelo disparo, o que trazia à tona a seriedade da decisão do voluntário, caso tivesse decidido atirar em mim. O efeito da ilusão mostrada miraculasamente com o aparecimento da bala em meus dentes, após ter atravessado um prato que eu segurava em minhas mãos. Nunca, jamais em todas as  minhas experiências o voluntário falhou em atirar primeiro na tábua.

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4. MÁGICOS MODERNOS QUE PEGARAM A BALA

Carl Skenes e Dorothy Dietrich foram os mágicos modernos que executaram o número de pegar a bala e que merecem ser citados.

Carl Skenes em 1980 executou o número no programa de TV “That’s Incredible!” A fama de Carl permanece até hoje em função desse número. Carl também apresentou o número em outros países (Porto Rico, Venezuela, e Japão), e é constantemente lembrado e citado em programas como “I Love the 80s”, do canal VH1 e na coluna “Ripley’s Believe It or Not”.

Carl Skenes no programa "That's Incredible!"
Carl Skenes no programa “That’s Incredible!”
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Carl Skenes citado por "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por “Ripley’s – Belive it or not”
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Dorothy entrou para a história como a primeira (e até agora única) mulher a pegar a bala com a boca. Ela exigia que um voluntário comprasse as balas e as guardasse consigo até o momento do truque, como prova de que a munição era, de fato, real.

Dorothy Dietrich citada na coluna "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich citada na coluna “Ripley’s – Belive it or not”
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Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.
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5. PARA SABER MAIS

O livro de Ben Robinson “Twelve Have Died” de 1986 é o primeiro livro a tratar exclusivamente de um único número de mágica. No livro, Ben discorre sobre a história do truque, suas vítimas, os diferentes métodos… O livro atualmente está fora de impressão, mas não é difícl de encontrá-lo, embora seja relativamente caro.

robinson-twelve-have-died

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BIBLIOGRAFIA

Livro: “Threates of God’s Judgments

Livro: “Natural magic, or, Physical amusements revealed

Livro: “La magie blanche dévoilée

Site: magictricks.com

Site: wikipedia.org/Bullet Catch

Site: wikipedia.org/Chung Ling Soo

Site: themagiccafeforum.com

Site: topsmag.com

Site: mentalfloss.com

Site: wildabouthoudini.com

Site: conjuringarts.org

Site: bulletcatch.com

A ESTRANHEZA DE LAFAYETTE

Texto retirado do livro “Sensational Tales of Mystery Men” por Will Goldston publicado pelo próprio Will Goldston em 1929 e traduzido por mim.

As imagens que ilustram esse post não se encontram no texto original.

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Clientes do meu escritório frequentemente me perguntam sobre uma grande pintura a óleo que fica de frente para a minha mesa. O tempo tornou a pintura mais escura que originalmente fora concebida, mas ela ainda mantém sua imponência que chama a atenção.  Essa pintura mostra um homem magro, em torno dos 50 anos usando óculos “pince-nez”, seu queixo repousado sobre sua mão esquerda e seus olhos vidrados em algum ponto perdido do espaço. Há algo de estranho em seu rosto; uma expressão difícil de descrever. Você começa a ficar inquieto sob seu inexorável olhar, como se o homem na pintura estivesse olhando para dentro de você, perscrutando seus mais íntimos segredos. Muitos de meus visitantes se ressentem deste exame silencioso.

Quem é o homem?” eles perguntam.

Lafayette”, eu respondo

E então talvez, seus olhos irão mirar uma grande espada em uma redoma de vidro que fica acima da minha cabeça. É curioso como o subconsciente parece conectar a espada com o retrato de Lafayette, eles ficam em extremos opostos da sala, mas quase sempre percebo as pessoas olhando, inconscientemente, de um para outro.

Essa é a espada de Lafayette”, eu digo a eles. “Foi encontrada junto de seu corpo carbonizado no palco do Teatro Imperial em Edimburgo. Foi dada de presente a Harry Houdini, que pó sua vez, passou ela para mim”.

Conte a história toda”, eles me pedem.

Então eu conto.

Pintura de Lafayette, descrita por Will Goldston

 

Lafayette foi o mais odiado de todos os mágicos que já viveram. E isto soa estranho, uma vez que, foi ele quem estabeleceu um novo patamar entre os artistas da mágica: artistas de primeira classe com salários astronômicos. Ele provou aos gerentes do Holborn Empire, um grande teatro da época, que era digno das quinhentas libras semanais que cobrava como salário, ao lotar o teatro por uma quinzena inteira e obter altos lucros com seu show.

Lafayette era anti-social a ponto de ser rude, e por esta razão foi universalmente execrado. Suas constantes recusas em se encontrar com colegas mágicos, tanto na Europa como na America, fizeram dele uma figura muito impopular, agraciado por onde quer que passasse com o mais puro e sincero desprezo.

Eu sempre acreditei que, na verdade, ele tinha medo de encontrar seus colegas ilusionistas. Seu conhecimento das artes mágicas era insignificante e, ao invés de demonstrar a sua ignorância profissional a outros mágicos, já que era um eminente mágico, ele acabava preferindo a sua própria companhia.

Como ilusionista ele era maravilhoso, e suas apresentações, eu classifico serem do mesmo nível de Houdini e John Nevil Maskelyne. Somente aqueles que viram esses dois em seu apogeu podem imaginar quão grandiosos eram tais shows. Mas a habilidade de iludir no palco não significa, necessariamente, conhecimento da mágica real. E neste conhecimento, Lafayette estava em falta.

Ele era, pura e simplesmente, um ilusionista mecânico. Ele era esperto o bastante para construir diferentes programas (gimmicks) para qualquer mágica apresentada em seu tempo, e foi desse modo, que construiu a sua reputação. “Isso deve ser espetacular!” era o seu lema, e ele o seguia à risca. Seu ato era tipificado pelo cenário deslumbrante, pelas vistosas cortinas e pela música sempre muito alta e comovente.

Lafayette veio de uma trupe alemã e começou sua carreira como um artista cênico. Por certo que foi essa a razão do seu grande apreço pelas ilusões. Eu nunca soube como ele acabou por adotar a mágica como profissão, mas sem dúvida sua posição como um pintor de cenários teatrais foi quem despertou nele tal desejo.

Ele era chamado de excêntrico. Isso é um grande eufemismo. Eu o considero um louco. Ele tratava suas assistentes de palcos como soldados e ordenava que elas o saudassem nas ruas. Uma vez, ele comprou um colar de diamantes para sua cachorrinha. Ele também pagava todas as suas contas com cheques, não importando se o valor da compra fosse de apenas alguns centavos. Um homem que faz todas essas coisas, eu repito, deve ser louco.

Seu cachorrinha “Bela” era a sua grande fraqueza. Era esse o animal que aprecia desenhado em todos os seus cheques e contratos de teatro. Um banheiro especial para Bela foi construído na casa de Lafayette em Torrington Square, e todas as noites o animal era servido com uma completa refeição quente, que ia desde sopas como entrada até doces de sobremesa. Um retrato de Bela ficava do lado de fora da casa com uma estranha frase escrita debaixo da figura: “Quanto mais eu conheço os homens, mais eu amo o meu cachorro”.

 

O Mágico Lafayette e sua cachorrinha Bella

Lafayette era um grande empreendedor e recorreu à publicidade mais irritante que eu já conheci em toda a minha vida: Ele mandou imprimir fotos com seu nome escrito em papéis com grude na parte de trás, e mandava colar estas fotos nas paredes internas e externas dos banheiros públicos nas cidades em que ele iria se apresentar. Esse procedimento lhe trouxe mais problemas do que benesses.

Ele era também um pugilista, como acabou descobrindo da pior maneira o Sr. Inglish de Chicago. Quando Lafayette foi se apresentar naquela cidade, acabou se tornando muito amigo de uma moça jovem e bonita e cujo marido, nada sabia a respeito desse “affair”. É possível imaginar claramente a surpresa desse homem quando, ao entrar em um restaurante, viu sua esposa, que mais parecia um manequim de desfile, tamanha sua produção, almoçando com o grande mágico.

Então é isto que ela faz?” pensou o Sr. Inglish. “Vou ver o que está acontecendo.” Ele se aproximou de Lafayette e com um tapinha no ombro disse ao mágico:

Você sabia que essa dama é minha esposa?

E daí?”, retrucou Lafayette, não dando a mínima atenção ao homem atrás dele.

E o que você diz de levá-la para jantar sem a minha permissão?

Lafayette não respondeu, ao invés disso, mandou um incrível soco direto no queixo do Sr. Inglish. Foi a maneira mais fácil de acabar com aquela discussão. O marido caiu nocauteado no ato e, quando acordou, foi questionado por que importunara uma pessoa tão importante como Lafayette. E assim ficou a fama deste marido enganado.

Quantas pessoas sabem da verdade sobre a morte de Lafayette: Poucas, eu deduzo. Ele foi queimado até a morte no desastre que houve no Teatro Imperial de Edimburgo em 9 de maio de 1911. A lenda que se conta é que ele conseguiu fugir do incêndio, mas acabou voltando para dentro do teatro a fim de salvar seu cavalo branco que permaneceu no teatro. Há pouca verdade nesta lenda.

O que de fato aconteceu foi isto: Lafayette sempre insistiu que a “porta de passagem” – uma pequena porta de ferro que liga os estábulos às laterais do palco do teatro – deveriam permanecer trancadas durante o seu show. Esta ordem servia para que intrusos não invadissem o teatro e acabassem talvez descobrindo o segredo de suas ilusões. Uma condição estúpida, e que acabou lhe custando a vida.

 

Cartaz do show de Lafayette no Tetaro Imperial de Edimburgo

Quando o incêndio começou no palco, ele correu até a porta de passagem para facilitar sua saída do teatro.  Ele havia se esquecido de sua própria ordem de trancar essas portas. Antes que pudesse se dirigir a outra saída, o palco estava imerso em chamas e fumaça e, derrubado pela fuligem, calor e fumaça, acabou caindo, inconsciente. Quando seu corpo foi resgatado, estava irreconhecível.

 

Lápide do "Grande Lafayette", no cemitério em Glasgow

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Para saber mais sobre Lafayette:

El Gran Lafayete“, no blog de Jose María Palma (Espanhol)

Each Man Kills the Thing He Loves” no blog “Strange Flowers” (Inglês)

Weird Magicians of Brooklyn” no blog “Weird Brooklyn” (Inglês)

Was It He The Great Lafayette?” no site “Edinburgh 1 o’clok Gun” (Inglês)

OBS: Todas as imagens foram retiradas dos links acima.