RESENHA – LIVRO “A MÁGICA”

Capa do Livro
Capa do Livro

RESENHA OFICIAL

O mágico profissional Red se apaixona por Rosa, uma garota de personalidade muito forte. Quando ela morre, vítima de uma queda de um trem, em um dia e lugar onde não deveria estar, deixa sem resposta uma série de perguntas. A chegada de um misterioso pacote pelo correio lança Red na busca perigosa da solução do enigma da morte e do passado de Rosa.

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SOBRE O LIVRO

Confesso que tive dificuldades em sintetizar a história, pois foi um livro que me trouxe sentimentos ambíguos. De um lado uma história de suspense com uma premissa comum; de outro uma história bem conduzido, em que cada pedaço do quebra-cabeças é revelado na hora certa. De um lado um livro cheio de palavrões e cenas de sexo gratuitas; de outro lado, uma história noir, crua, real, verdadeira, como verdadeiro é o mundo que nos cerca. E, unindo tudo isso, o universo dos truques de mágica e de como o engano funciona.

É um livro pesado, forte, que demorei tempos para ler e tive que alterná-lo com outros mais “leves”. A maior dificuldade em meu ver foi o forte conteúdo sexual do livro. Não que eu seja um purista e a história, de certa forma, pedia por isso (sem spoilers), mas creio que autor teria conseguido chegar ao mesmo resultado com muito menos palavrões e referências sexuais. O conteúdo impróprio muitas vezes apareceu no livro de forma gratuita e desnecessária.

Mas isso não tira o mérito da história. No começo tive dificuldades em avançar na história. Na verdade comecei a ler o livro em setembro e li, aproximadamente 1/3 do livro em 20 dias e larguei-o por outro mais leve. Voltei ao livro em outubro, li mais 1/3 em outros 20 dias (até aqui a história pouco tinha avançado, embora – méritos do autor – ainda se mostrasse interessante) até que a minha paciência com o livro se esgotou. Fui para outros livros.

Semana passada decidi retomar o livro. Continuei exatamente de onde havia parado e, embora, tivesse algumas dificuldades com os nomes de alguns personagens, no geral, consegui retomar a leitura. E o terço final do livro foi muito bom. O li de uma só vez, praticamente. E a história é sincera, o final coerente. No geral, um bom livro.

Não posso dizer que me arrependi de haver lido o livro, embora, admito, não sei se o tornarei a ler algum dia.

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como escrevi ali em cima, a mágica e a natureza do truque – ou do engano, se preferir – permeiam o livro (juntamente com a questão sexual, é bom lembrar). E nesse ponto, ao menos para mim, o livro tem um grande valor. Cada capítulo é metaforicamente comparado a um truque de mágica e o efeito que ele causa no espectador é comparado ao efeito que o mistério sobre a morte de Rosa causa em Red.

Ainda, ele divaga filosoficamente sobre o engano, e nisso o autor acerta. Num dos capítulos ele divaga sobre a mágica ser uma manifestação do modernismo e não do pós-modernismo, por exemplo. Toda essa teoria e descrições de efeitos de palco clássicos convergem para o mistério do livro e foi isso, ao meu ver, que contra-balançou o excessivo teor sexual do livro.

Aliás, as descrições dos efeitos são outro show à parte. Inúmeros efeitos são descritos ao longo do livro, todos eles regiamente pesquisados em livros clássicos como “Our Magic” de Nevil Maskelyne & David Devant. E, como o livro também versa sobre a teoria do engano, autores como Paul Ekman (o estudioso que inspirou o personagem Cal Lightman da série “Lie to Me“) também foram pesquisados. E isso, sem duvida, acrescenta ao livro.

Em suma, se você é mágico, e não se importa com sexo barato, palavrões e cigarros (o protagonista fuma tanto no livro, que quase sentia o cheiro da nicotina), o livro traz boas lições de mágica e engano que podem ser aproveitadas. Se você for um purista, melhor aprender as lições diretamente com o Dr. Paul Ekman e com David Devant e Nevil Maskelyne.

E uma última nota sobre o livro, o título original em inglês faz mais sentido 😉

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FICHA TÉCNICA

Título: A Mágica (“The Houdini Girl“)

Autor: Martyn Bedford

Editora: Record

Ano: 2002

Páginas: 396

RESENHA – LIVRO “A MULHER DO MÁGICO”

Capa do Livro
Capa do Livro

RESENHA OFICIAL

Baseado em fatos reais, o drama contado neste livro pode ter mudado os rumos da história francesa. No mínimo, certamente transformou o destino da mulher do mágico, cuja antiga e pacata realidade acaba por se revelar pouco mais do que uma miragem.

Na França, em meados do século XIX, Henri Lambert – provavelmente o maior mágico ilusionista de toda a Europa – e sua mulher, Emmeline, são convidados para uma das famosas recepções na corte de Luís Napoleão. Na ocasião, o casal é convocado pelo próprio imperador para uma missão no mínimo inusitada: evitar a deflagração da guerra santa, convencendo os líderes religiosos das tribos árabes insurretas, na Argélia semi-ocupada, de que na França há guias espirituais capazes de milagres que estão muito além da compreensão dos argelinos.

Com esse enredo surpreendente, Brian Moore faz, desta vez, uma incursão pelo romance histórico. Seu trabalho resulta na recriação minuciosa da corte francesa à época de Napoleão III, com sua pompa e sofisticação protocolares, e do cenário perturbador do deserto saariano na Argélia, com o fascínio que exerce até hoje no imaginário ocidental.

Ao lado do triângulo formado por Lambert, sua esposa e o misterioso coronel Deniau Zuavos, os personagens principais são marabus, xeques e guerreiros cabilas. Todos são apanhados pelo emaranhado de conflitos que opõe, de um lado, tribos árabes ansiosas pela jihad iminente contra os invasores infiéis, e, de outro, as tropas francesas prestes a se reunir e dominar o país.

Participando diretamente dos sonhos de expansão colonial do império francês, cabe ao mágico profissional apresentar aquele que deverá ser seu número supremo (ou derradeiro). E à mulher do mágico cabe descortinar, véu após véu, uma realidade muito diferente daquela a que estava acostumada, tipicamente burguesa e provinciana. Henri Lambert e Emmeline são jogados num mundo novo que os transformará, sem dúvida. E que talvez seja irremediavelmente transformado por eles.

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SOBRE O LIVRO

Resumindo o livro em uma frase: É um romance para mulheres. Isso não é uma crítica, tampouco um demérito, apenas é a característica do livro. O personagem principal é a mulher do mágico e o mote do livro é a sua visão do mundo e dos acontecimentos que a cercam.

Posto isto, é bom que se diga: o livro é baseado em fatos reais. Conta a história de Henri Lambert o maior mágico do mundo à época e como ele, com seus truques, evitou uma guerra entre a França Imperial e os árabes da colônia de Argel. Esse acontecimento foi baseado na vida e história de Jean Eugène Robert-Houdin que, de fato, usou seus truques para evitar a guerra.

Jean Eugène Robert-Houdin, o mágico que inspirou o personagem Henri Lambert
Jean Eugène Robert-Houdin, o mágico que inspirou o personagem Henri Lambert

Voltando ao livro, este pode ser dividido em duas partes: na primeira, conta história de como Henri foi convocado para prestar serviço à França. Como forma de convencimento, o Imperador Napoleão III convidou Henri, sua esposa e alguns outros convivas de seu interesse para uma semana de festas no campo. Nessa parte o autor descreve em minúcias como funcionava a alta sociedade francesa da época. Também descreve Emmeline, a mulher do mágico, como uma pessoa praticamente invisível e inútil, cuja vida não serve nem para a futilidade da alta roda francesa.

Imperador Napoleão III
Imperador Napoleão III

Na segunda metade do livro Henri e sua esposa estão em Argel e se apresentam aos marabus (feiticeiros árabes) e xeques com o intuito de provar que a França possui um “marabu” mais poderoso que os marabus árabes e, por isso, declarar uma revolta popular à França, seria uma declaração de guerra ao próprio Alá. Nesse ponto do livro, Emmeline se torna mais valorosa, independente e senhora de si. A mudança é abismal.

Jean Eugene Robert-Houdin, o mágico que inspirou a personagem Henri Lambert no livro
Ilustração do truque usado por Robert-Houdin: “Caixa leve, caixa pesada”.

E foi justamente essa dicotomia que me fez desgostar do livro. Não que seja um livro ruim em si, mas a primeira parte do livro é deveras maçante, ao ponto de eu demorar uma semana para ler dez páginas. A história não anda, as personagens não se aprofundam, absolutamente nada acontece. Segundo alguns leitores de Brian Moore, esse é o seu estilo: discreto, “silencioso”. Para mim, não funcionou.

Na segunda metade, porém, a história anda. Lê-se facilmente 10, 20 páginas de uma só vez. Porém algo rompe com a verossimilhança da história: nada de digno acontece na vida de Emmeline que justifique a sua mudança de postura. Como se aquela mulher forte sempre estivesse estado lá, porém nunca se manifestado. No decorrer da história criam alguns pontos de mudança, mas ou são fracos ou tardios demais.

Ilustração de um marabu
Ilustração de um marabu

Outro ponto que, para mim, não funcionou foram os trechos mais “picantes”. Não sou purista, só acho que as cenas de sexo (ou no caso, os devaneios sexuais de Emmeline) são completamente gratuito e fora de propósito para a história toda. Se o objetivo era mostrar que Emmeline começava a pensar no Coronel Deniau de uma forma mais carnal, bom, haviam meios muito mais sutis e efetivos para isso.

Por fim, no tocante à parte histórica, aí sim o livro é perfeito: tanto na descrição das sociedades francesas e árabes, como na descrição dos seus costumes e na parte histórica do que aconteceu com Robert-Houdin. Aqui o estilo discreto de Brian Moore funciona: a descrição não é maçante e é contextualizada pela história. Ponto a favor aqui.

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como mágico foi interessante ler como a mágica pode funcionar como uma fonte de poder sobrenatural. Basta a “interpretação correta”. Também é interessante conhecer (ou ao menos ter um subsídio maior para imaginar) como foi o caso de Robert-Houdin e como ele pode evitar uma guerra. E como isso, sob certa ótica, estava longe de ser um ato louvável.

Também é uma boa ferramenta para que avaliemos a questão da interpretção do mágico. “O mágico é um ator, fazendo o papel de um mágico”, escreveu o real Henri Lambert. Essa é uma afirmação que coube muito bem no livro pois Henri, a personagem, interpreta o tempo todo: inclusive perante sua esposa.

Por fim, o livro mostra a arte mágica sob o prisma daquela que é o primeiro público (e às vezes, a primeira vítima) do mágico: a esposa do mágico. Interessante dar voz a ela e ver como ela vê o mágico e a sua arte, ainda que este não seja o mote do livro.

Recomendo a leitura deste livro, mas com algumas ressalvas.

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FICHA TÉCNICA

Título: A Mulher do Mágico (The Magician’s Wife)

Autor: Brian Moore

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2000

Páginas: 232

RESENHA – LIVRO “CARTER E O DIABO”

Capa do livro (Clique na imagem para ampliá-la)
Capa do livro
(Clique na imagem para ampliá-la)

RESENHA OFICIAL

A trama de Carter e o Diabo se desenrola na São Francisco da Era do Jazz, época em que os Estados Unidos vivenciavam uma relação apaixonada com a mágica e os ilusionistas. O romance inicia com o presidente dos Estados Unidos, Warren G. Harding, aceitando ser voluntário numa performance do mágico Charles Carter. A participação do presidente no show foi um sucesso até que, duas horas após o espetáculo, é encontrado morto num quarto de hotel. Conhecido como Carter, o Grande, um mágico muito talentoso, cujas habilidades equivalem à do lendário Houdini, o jovem era apaixonado por sua arte, inspirada pelo desespero e pela solidão. Com a morte do presidente, todo o país se pergunta o que de fato aconteceu durante o truque. Principal suspeito do assassinato, Carter precisa deixar o país e descobrir a verdade por trás da morte para limpar seu nome e salvar sua carreira, que já começava a ser ameaçada pelo cinema. Temperando a ficção com a dose certa de obscuros fatos históricos, Gold revela ao leitor o passado de Charles Carter, começando por seu interesse em mágicas e seus enormes esforços para tornar-se famoso e respeitado. A fuga do mágico e os diversos caminhos para a resolução do crime nos levam por uma viagem fascinante construída pelo autor: Carter é perseguido por agentes do FBI, apaixona-se por uma bela e cega mulher, trava um embate com um antigo rival, encontra piratas, cientistas e espiões.

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SOBRE O LIVRO

De forma bem resumida, “Carter e o Diabo” é sobre um grande mágico lutando contra um conglomerado do governo, corporações milionárias e sociedades secretas para descobrir a verdade sobre a misteriosa morte do Presidente dos EUA, em que Carter é o principal suspeito, contando com a ajuda de seu Leão de estimação. Posto desta forma o roteiro parece meio “disneyesco”, mas a verdade é que o livro uma mistura bem dosada de romance policial, biografia ficcionalizada e pitadas de humor. No entanto, fica claro ao longo do livro que o maior objetivo de Glen é recriar a era de ouro da mágica, coisa que ele o faz com extrema maestria.

Charles Carter (Clique na imagem para ampliá-la)
Charles Carter
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A história se passa na época de transição do vaudeville para a era da televisão. A mágica ainda estava no auge, mas com sinais claros que os tempos haveriam de mudar. Carter deve encarar essas mudanças ao mesmo tempo em que busca provar a sua inocência no caso da morte do Presidente Harding.

Presidente Theodore Harding (Clique na imagem para ampliá-la)
Presidente Warren Harding
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Além de Carter e do presidente Harding, outros personagens reais desfilam pelo livro. É o caso de Harry Houdini, Max Friz, fundador da BMW, Philo Farnsworth, o inventor da televisão, entre outros. E é essa mescla de personagens reais e eventos fictícios a grande sacada do livro.

Philo Farnsworth, inventor da televisão (Clique na imagem para ampliá-la)
Philo Farnsworth, inventor da televisão
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No tocante à mágica o autor consegue recriar o ambiente e a atmosfera do vaudeville com perfeição. A descrição dos números de mágica é rica e ao mesmo tempo objetiva. Mesmo para o leitor não familiarizado com a arte da ilusão, a leitura não é enfadonha. Segundo o próprio autor todas as mágicas descritas no livro foram baseadas em números reais, realmente executados por mágicos no passado, o que traz ainda mais brilhantismo ao livro. Os números são tão incríveis que beiram as raias do absurdo.

Por ser uma espécie de biografia, o enredo conta ainda com alguns saltos temporais, mostrando a infância de Carter, o seu encontro com a mágica e como a mágica tornou-se uma obsessão em sua vida e ao mesmo tempo a responsável por grandes tragédias que marcariam profundamente a personalidade de Carter.

O ponto forte do livro é também o seu ponto fraco: a mescla entre uma biografia ficcionalizada e uma novela policial acaba causando confusão no roteiro. Em alguns pontos do livro o autor parece não sabe qual das linhas seguir e acaba seguindo linha alguma. A quantidade de histórias paralelas também pode confundir o leitor. Não poucas vezes tive que voltar páginas para entender o que estava acontecendo, fato agravado pelos vários deslizes cometidos pela tradução do livro (alguns bastantes graves).

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como mágico é uma leitura que vale à pena. Poder conhecer o vaudeville (a raíz do que é hoje a indústria de entretenimento americana) e mais, poder sentir um pouco do que foi a era de ouro da mágica me fez ver a nossa própria arte com outros olhos. Além disso, a descrição do efeitos realizados por Carter são tão incríveis que beiram o absurdo. E mais absurdo ainda é saber que são mágicas reais que, de fato, eram executadas.

A impressão pós-leitura é que a arte mágica hoje perdeu a profundidade. Nós mágicos nos contentamos com números fáceis e, por falta de opção, o nosso público acabou se contentando também. Lendo o livro percebi o quão mais além a nossa arte pode ir.

Para exemplificar no Essential Magic Conference de 2011, Mike Caveney mostrou um vídeoonde ele executava o “Carter’s Million Dollar Mystery” no Magic Castle. Mike tem o equipamento original que pertenceu a Carter. O número é fantástico e causou nos presentes o mesmo efeito que causava há um século atrás. Aliás, Mike Caveney serviu de consultor para Glen David quando da escrita do livro, em especial no tocante à descrição dos efeitos.

Mike Caveney apresentando a ilusão original de Carter (Clique na imagem para ampliá-la)
Mike Caveney apresentando a ilusão original de Carter
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Recomendo fortemente a leitura.

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FICHA TÉCNICA

Título: Carter e o Diabo (Carter beats the Devil)

Autor: Glenn David Gold

Editora: Record

Ano: 2004

Páginas: 518

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Imagens e ideias para o formato do texto retirados do Blog do Viteck