UMA BREVE HISTÓRIA DO EMBARALHAMENTO FARO

Texto base de Leonardo Macedo.

Adaptado e ampliado por Leonardo Glass

“Millions of dollars are wagered annually at Faro in this country. It is the most fascinating of layout games.”

S. W. Erdnase

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INTRODUÇÃO

Mágicos experientes e trapaceiros de poker, blackjack e demais jogos de cartas certamente conhecem o embaralhamento faro (ou faro shuffle), conhecido por muitos como o embaralhamento perfeito por intercalar perfeitamente todas as 52 cartas do baralho, uma a uma. No entanto, mesmo aqueles que conhecem o Faro, provavelmente desconhecem a história por trás deste embaralhamento.

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Jogadores de Faro, nos EUA. Final dos anos 1800.

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O JOGO DO FARAÓ

A origem do jogo se deu com um jogo de cartas chamado basset. Por volta de 1690 o basset foi proibido. Algum tempo depois surge o Pharaon, um jogo derivado do basset, e com base na mesma premissa: um jogo de apostas, passível de ser jogado por diversos jogadores ao mesmo tempo. Isso ajudou na popularização do Pharaoh. Registros datados da época do Rei Luís XIV (Século XVIII) dizem que o jogo ficou conhecido por esse nome entre os jogadores da corte devido à embalagem do baralho francês vir com a imagem de um Faraó (algumas fontes dizem que o faraó estava estampado na face de uma das cartas da corte, a saber, J, Q, K).

Com o passar do tempo, o jogo começou a se espalhar pela Europa (principalmente pela Inglaterra e Itália) e ganhou variações em seu nome, devido a mudança de idioma de cada país, até chegar aos EUA e ter o nome adaptado para Faro.

O “Pharaoh” angariou vários entusiastas famosos, entre eles escritor italiano Giácomo Casanova. Casanova foi um amante do jogo de faro, tendo o registrado em algumas passagens de sua autobiografia. Há relatos em livros sobre história dos jogos de aposta sobre fortunas ganhas por Casanova e presentes extravagantes que ele deu para mulheres, mostrando que ele era, possivelmente, um grande trapaceiro no jogo. Outra celebridade histórica que jogava faro foi a rainha Maria Antonieta. Há, inclusive o registro que ela chegou a jogar 36 horas seguidas de Faro com alguns banqueiros

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Maria Antonieta e Giácomo Casanova, dois jogadores de faro!

Nos EUA o jogo chegou em meados de 1700. Alguns historiadores, porém, datam a chegada do Faro à América em 1803, pelas mãos de John Law, um escocês exilado que aportou em Nova Orleans. O Faro logo tornou-se muito popular na América. Ali ganhou um novo apelido “bucking the tiger” ou “prender o tigre”, sendo inclusive este apelido citado por S.W. Erdnase em sua obra “The Expert at the Card Table“. Este apelido era devido a ilustração de um tigre de bengala que enfeitava as cartas à época. Outra gíria para o jogo de faro era “twisting the tiger’s tail” ou “torcer a cauda do tigre”.

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Placa de uma casa de jogo de faro

A imagem do tigre era tão fortemente associada ao jogo do faro, que algumas casas de apostas colocavam uma imagem de um tigre nas fachada, anunciado que naquela casa de jogos, se jogava o Faro. O Faro teve seu auge nos EUA entre os séculos XIX e XX, favorecendo e fomentado o crescimento do número de casas de jogos e cassinos. Com o passar do tempo o jogo foi perdendo sua popularidade, sendo substituído, aos poucos, pelo Poker.

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Cartas com o tigre que deu o apelido ao jogo faro

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COMO FUNCIONA O JOGO?

A premissa básica do Jogo de Faro é bem simples: O dealer distribui as cartas em dois montes, uma para ele, o outro para os jogadores. Para ganhar, o jogador tem que torcer para que a carta apostada seja revelada no monte referente aos apostadores. Caso contrário, quem ganha é a banca.

O jogo era feito em uma mesa específica para ele, coberta com uma toalha com o desenho de todas as cartas de um naipe (os naipes aqui eram meramente ilustrativos, somente os valores das cartas eram considerados). Sobre esses desenhos os jogadores apostavam nas cartas que iriam sair. O dealer então misturava as cartas e a primeira do topo era “queimada”. As cartas seguintes eram tiradas alternadamente formando duas novas pilhas: a primeira pilha para o dealer, e a segunda aos jogadores. Se alguma das cartas que foram apostadas aparecesse no monte dos jogadores, o apostador ganhava o pote (lembrando que a aposta do dealer não oscilava de valor); caso contrário, o dealer ganhava a aposta dos jogadores. Cada par de cartas reveladas formava um turno e, após cada turno, os jogadores poderiam mudar suas apostas para outras cartas (para saber mais sobre o assunto, recomendo o livro “Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne).

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“Case ” para apostas no jogo de faro.

Assim como em todos os jogos que envolvem apostas, foram desenvolvidas muitas técnicas para trapacear no jogo de faro. E aqui entra a necessidade de usar o “embaralhamento perfeito”. O faro chega para o jogo como uma ferramenta a favor do dealer com 2 possíveis funções: 1) atrapalhar eventuais trapaças dos jogadores; e 2) facilitar o lucro da “banca”.

Visto que as cartas eram reveladas aos pares, e tendo em mente que o embaralhamento faro intercala perfeitamente dois montes de 26 cartas (considerando um baralho padrão de 52 cartas), fica fácil entender como essa técnica beneficiava o dealer na mesa de jogo: Basta separar as cartas que o dealer queria que ganhassem em um dos montes e intercalar de forma que elas fiquem nas posições ímpares ou pares, dependendo de quem seria o beneficiado (lembrando que a primeira carta distribuída pertence ao dealer, a segunda aos jogadores).

A execução da técnica de faro era feita na mesa (simulando um riffle shuffle), mas para a mágica isso foi adaptado de forma a poder se fazer sem mesa também, o que aumentou a versatilidade da técnica.

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Embaralhamento faro feito na mesa (esq.); embaralhamento feito na mão (dir.).

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OS MÁGICOS DESCOBREM O EMBARALHAMENTO FARO

O primeiro mágico a perceber o potencial do faro para a mágica, foi Jean Hugard em seu livro “Card Manipulation nº 3” de 1934. Porém, o potencial vislumbrado por Hugard foi mais estético do que como uma ferramenta em si. Foi só em 1940 que Hugard, juntamente com Frederick Braue publicaram um estudo bastante extenso sobre o Faro, bem como efeitos usando o faro (vide “Expert Card Technique“, “The Perfect Faro” p. 143 em diante).

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Jean Hugard, o primeiro mágico a ver o faro como uma ferramenta para os mágicos – e não apenas para os trapaceiros em mesas de jogos.

Outros mágicos também passaram a explorar o embaralhamento Faro, pois proporciona diversos princípios matemáticos interessantes para a criação de efeitos. Cabe aqui os seguintes destaques: Ed Marlo e seu famoso efeito “The Miracle Aces”; e Alex Elmsley, com a descoberta do incrível Princípio de Penélope.

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CONCLUSÃO

Apesar de ser uma técnica considerada de nível avançado, não é algo tão difícil de aprender, ao contrário do que muitos pensam. O aprendizado da técnica de Faro pode ser muito útil, pois além de proporcionar diversos princípios matemáticos, ainda auxilia para o setups de alguns efeitos. Recomendo o estudo.

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BIBLIOGRAFIA

Livro:Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne (versão digital);

Livro:Marie Antoinette’s Confidante: The Rise and Fall of the Princesse de Lamballe” de Geri Walton;

Livro:Frontier Gambling” de G. R. Williamson;

Livro:Magic Tricks, Card Shuffling and Dynamic Computer Memories” de S. Brent Morris;

Livro:Scarne on Cards” de John Scarne.

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

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1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

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Capa do periódico Mahatma

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2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

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3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

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Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

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Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

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Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

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Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

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4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

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5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

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6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

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Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

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Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

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Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

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Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

A TRISTE HISTÓRIA DE PAUL VALADON

A história da mágica mostra que, às vezes, querer demais só faz mal, e a biografia de Paul Valadon prova isso. Paul Valadon é o mágico que poderia ter sido, mas não foi.

Estes são os personagens dessa incrível história.

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PAUL VALADON

Paul Valadon

Paul Valadon é o nome artístico de Adolph Weber, um mágico nascido em 1867 em Colônia, na Alemanha. Poucas informações sobre o começo de sua carreira teatral são encontradas, sabe-se que ela começou fora dos palcos, como cabeleireiro em Londres e, em suas horas de folga, estudava mágica. Não tardou muito para que Paul conseguisse alguns “bicos” como artista e isto lhe encorajou a seguir a carreira de mágico. Seu primeiro emprego como artista foi como assistente de palco de Ernst Basch e sua primeira apresentação pública deu-se no Center Hall de Colônia, Alemanha, sua cidade natal.

Em 1900, Paul – já morando em Londres, foi contratado pelo “Egyptian Hall” para preencher os espaços deixado na agenda deixado por  David Devant quando este foi excursionar fora de Londres. Nesse ínterim acabou sendo contratado por John Nevil Maskelyne que neste mesmo ano, estreou com muito sucesso a sua mais nova criação mágica: a levitação da assistente.

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JOHN NEVIL MASKELYNE

John Nevil Maskelyne

O número de Maskelyne consistia em deitar a sua assistente em um divã; em seguida o divã elevava-se à uma altura de 1,80 metro. O mágico então retirava o divã e a assistente permanecia imóvel no ar. Por fim, o ponto alto do ato, um aro de metal previamente examinado pelo público era passado pela assistente, provando não haver cabo, nem fios segurando a assistente no ar, que era finalmente descida, terminando o ato deitada no divã.

Cartaz do Egyptian Hall, mostrando a levitação criada por MAskelyne & Cooke.
Cartaz do Egyptian Hall, mostrando a levitação criada por Maskelyne & Cooke.

Esse número foi uma criação original da dupla Maskelyne & Cooke. Até então, o único número de levitação era “La Suspension Ethéréene” (A Suspensão da Vassoura), criado por Jean Eugene Robert-Houdin. O número de Maskelyne & Cooke era ao mesmo tempo belo, misterioso e revolucionário. Baseado no mesmo princípio do número deKolta’s Cocoon, usando dezenas de fios bastante finos e um complexo sistema de contrapeso fora do palco.

Poucos mágicos americanos tiveram o privilégio de assistir o número de Maskelyne, e um desses mágicos foi Harry Kellar. Logo na premiére, em 1900, Kellar quis comprar o número de Maskelyne, mas sua oferta fora rejeitada. Após alguns anos de tentativas frustradas de comprar – e de imitar o número – Kellar decidiu por um novo plano e subornou Paul Valadon para que este lhe entregasse o segredo da levitação de Maskelyne; em troca, Kellar contrataria Valadon como seu parceiro e mais, faria de Paul Valadon o seu sucessor.

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HARRY KELLAR

Harry Kellar

Antes de continuarmos a história de Valadon, precisamos entender que o nome de Harry Kellar sempre esteve envolto em polêmicas. Ele estava em uma disputa pessoal contra Herrmman the Great que criticava a falta de habilidade manual de Kellar dizendo que Kellar preferia as máquinas à habilidade manual; Kellar se defendia gabando-e de seu excelente misdirection: “uma banda de sopro, tocando à plenos pulmões poderia passar por trás do palco, seguido de uma manada de elefantes, que mesmo assim a plateia não os perceberia.” Por isso tudo não é de se surpreender que Kellar buscasse um sucessor com extrema habilidade manual. E foi isso que Kellar viu em Valadon – além da oportunidade de roubar Maskelyne, claro.

Livro de Will Goldston: "Exclusive Magic Secrets" (1912)
Livro de Will Goldston: “Exclusive Magic Secrets” (1912)

Paul Valadon era especialista na manipulação de bolas de bilhar, em “back palming” e na mágica chinesa. Também era um expert em misdirection e possuía conhecimentos em mentalismo. Kellar viu Valadon apresentando-se, encantou-se e propôs uma parceria.

Em 1904 Harry Kellar anuncia seu novo número: “A Levitação da Princesa Karnac”. O número é um sucesso de crítica; o mistério perfeito. E em 1905 Paul Valadon – que trabalhava com Maskelyne – repentinamente aparece nos Estados Unidos trabalhando para Kellar que anuncia Paul como o seu sucessor natural. Tudo isso em troca dos planos e esquemas da levitação de Maskelyne.

Cartaz mostrando o show de Kellar: "A Levitação da Princesa Karnac"
Cartaz mostrando o show de Kellar: “A Levitação da Princesa Karnac” (1904)
Cartaz mostrando Paul Valadon como o suscessor de Kellar.
Cartaz mostrando Paul Valadon como o suscessor de Kellar.

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HOWARD THURSTON

Howard Thurston

Após três temporadas excursionando juntos o clima entre Kellar e Valadon não era dos melhores. Eva Kellar, esposa de Harry, não gostava de Paul e gostava menos ainda de sua esposa. Para completar o quadro, Eva Kellar e Paul Valadon eram dados à bebida, o que tornava as discussões ainda mais ríspidas.

Mesmo com o clima tempestuoso entre o quarteto, o fato de Kellar haver anunciado Howard Thurston e não Paul Valadon como seu sucessor foi recebido com surpresa. Entre maio e junho de 1907 Kellar demite Paul Valadon e Howard Thurston rapidamente assume o lugar de Valadon, tornando-se assim o sucessor declarado de Kellar. Por três temporadas Kellar tutoreou Valadon e após isso, simplesmente o dispensou. Já escolha de Thurston provou-se bastante natural: além de já ser amigo de longa data de Kellar, Thurston possuia à época o maior show do mundo em termos de aparatos.

Cartaz mostrando a sucessão de Kellar por Thurston
Cartaz mostrando a sucessão de Kellar por Thurston

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E O TRISTE FIM…

Os últimos anos de vida de Paul Valadon foram de miséria, pobreza e tristeza. Sua esposa o abandonou e quando faleceu deixou nada além de algumas dívidas para seu filho. O último desejo de Paul transmitido a seu filho foi que não queria que seu filho gastasse suas poucas economias em um túmulo, que guardasse o dinheiro para si e enterrasse o pai em uma vala comum. E assim foi feito. Em 1913 Paul falece deixando órfão seu filho, Paul Valadon Jr., de apenas 13 anos de idade.

Em 1948 Carl Rossini, então vice-presidente da Guilda dos Mágicos, sugere que se fizesse um esforço para localizar a sepultura de Paul Valadon. Bert Easley em viagem de negócios a Phoenix, Arizona, localiza nos registros do Cemitério “Greenwood Memorial Lawn” uma sepultura cujas datas coincidem com a morte de Paul. Em 27 de junho de 1948, a Guilda dos Mágicos inaugura um jazigo de pedra para a sepultura com o nome: “Paul Valadon” e as datas 1867 e 1913 separadas por uma cartola cruzada com uma varinha.

Cemitério onde está enterrado Paul Valadon
Cemitério onde está enterrado Paul Valadon

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BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Last Greatest Magician in the World, Thurston x Houdini” de Jim Steinmeyer;

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, Aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Site: John Nevil Maskelyne na Wikipedia

Site: Harry Kellar na Wikipedia

Site: “Ford’s Theatre & The Magic Mantle“, em The Magic Detective

Site: Magician’s Biography – Letter V, em MagicTricks.com

Site: Paul Valadon, em magicpedia.com

J. PEIXOTO, “O PROFESSOR”

Muito antes de Dai Vernon ganhar o epíteto de “O Professor”, um mágico brasileiro alcançou essa honra. João Peixoto dos Santos o nosso J. Peixoto foi um dos grandes expoentes e divulgadores da mágica no Brasil.

O texto abaixo foi retirado do blog de Ozcar Zancopé. As imagens também são méritos do mágico Ozcar.

João Peixoto dos Santos, ou simplesmente J.Peixoto, tem a máxima importância para o desenvolvimento da Arte Mágica no Brasil, pois foi através do seu incansável trabalho e ferrenha dedicação que a mesma deu seus primeiros e decisivos passos.

João Peixoto dos Santos. Créditos: Blog Ozcar Zancopé

A história do seu interesse pela Arte Mágica não é muito diferente do da grande maioria, ou seja, ainda com pouca idade, aproximadamente por volta dos 15 anos, toma contato com alguns livros e se apaixona de forma irreversível por ela. Porém, a falta de contato com outros adeptos não lhe permite avanços significativos. Somente a partir do ano de 1900 é que começa uma nova e produtiva fase. J.Peixoto, já com 21 anos de idade , tem a oportunidade de assistir espetáculos de grandes Mágicos que passavam pelo Brasil, como Chéfalo, Dr. Richards, Faure Nicolay, Watry, Maieroni, Raymond, entre outros. A presença desses artistas estimulou o interesse de outras pessoas e, em consequência, a necessidade de novos conhecimentos. Através deles, Peixoto tem informações sobre o movimento mágico na Europa e Estados Unidos, bem como da existência de lojas que comercializavam equipamentos para mágicos e também de sociedades onde os mágicos se reuniam para estudar e aperfeiçoar seus conhecimentos. Vai para Paris e visita as lojas, conhece novos mágicos, adquire o que havia de melhor em equipamentos e volta para o Brasil desejoso de implantar algo parecido com o que tinha visto.

Sua casa virou ponto de encontro de aficionados, tornando-se, também, passagem obrigatória de todos os grandes mágicos que cumpriam temporada em São Paulo, onde residia desde 1902, sendo reverenciado como a maior autoridade em magia no Brasil.

Tornou-se conhecido em todo o mundo; correspondia-se com as maiores notabilidades mágicas internacionais, entre elas, Harry Houdini.

O contingente de amadores cresce e as necessidades de equipamentos também. Peixoto começa a fabricação e importação de equipamentos e os comercializa. Grande parte vinha dos Estados Unidos, França e Alemanha.

Em 1910 instala a primeira loja de mágicas do Brasil, ” A Casa das Mágicas”. Edita o “Boletim de novidades mágicas” (órgão oficial da loja), e catálogo totalmente ilustrado, além de suplemento de novidades para profissionais, pois muitos daqueles amadores se profissionalizaram e essa necessidade tornou-se imperiosa.

Publicou o periódico “O Propagandista – Jornal do Farsista”, cujo objetivo era a divulgação dos equipamentos que comercializava, a prestação de informações e o combate a falsos médiuns e fenômenos ditos paranormais.

Incansável, Peixoto funda em 1918, juntamente com outros Mágicos, a “Associação dos Artistas Prestidigitadores” que tinha como órgão oficial de divulgação o boletim “O Prestidigitador”, porém, por falta de apoio e interesse dos demais, ambos foram descontinuados.

Em parceria com Corrêa Pereira, edita em 1920 o livro “A Prestidigitação Revelada” que, segundo dados históricos, esgotou-se na 2ª Edição.

Em 1921 funda o “Circulo Mágico Internacional” e lança o “Boletim Mágico” como seu órgão oficial de divulgação, cujo período de atividade, sob a sua batuta, vai de 1921 a 1925.

Em 1929 edita o “Curso de Prestidigitação e Transmissão do Pensamento”, que se esgota rapidamente. Em seguida lança o “Curso de Mágicas por Correspondência”.

A “Casa das Mágicas” tem agora o seu órgão oficial: “Jornal do Mágico”, cujo lançamento ocorre em 1936.

Coroando de forma ímpar a trajetória desse importante baluarte da nossa arte, seguem-se os lançamentos de seu maior feito; Em uma época que, seguramente as coisas não deviam ser fáceis, edita três livros, referências até os dias atuais de colecionadores e estudiosos do Brasil e de outras partes do mundo: “Tratado Completo de Prestidigitação e Ilusionismo” (1937); Curso Prático de Prestidigitação e Ilusionismo” (1943); Trucs de Magia Selecionados” (1946).

Nascido em Minas Gerais, na Cidade de Formiga (17/05/1879), foi casado com Dona Maria José de Campos Peixoto e teve oito filhos (cinco mulheres e três homens), sendo que alguns fizeram parte do grupo “Os Peixotinhos”. Embora não saiba precisar quantos deles participavam , tenho na lembrança os comentários que me fazia um deles, Norman Peixoto dos Santos, integrante do grupo e continuador do trabalho do Pai, sobre o sucesso e volume significativo de suas atuações. Essa foi mais uma das “criações” vitoriosas do “Professor“, assim chamado por todos os que o conheceram.

Nosso querido Professor tinha somente 67 anos quando deixou para sempre o “palco da vida” (06/09/1946), e em sua Certidão de Óbito está escrito: “Não deixa bens“. Para o Escrevente os bens materiais, para nós Mágicos, deixou uma herança incontestável!

Apresentação de J.Peixoto. Créditos: Blog Ozcar Zancopé

 

Apresentação de J.Peixoto. Créditos: Blog Ozcar Zancopé

 

Cartaz do show “Os Peixotos” – Créditos Blog Ozcar Zancopé