A HISTÓRIA DAS CARTAS DE JOGOS NO BRASIL

“Com cartas desta Fábrica, se poderão jogar todos os jogos livremente; e não será permitido procedimento algum contra os que derem Casa de jogos com elas.”

Decreto real português de 1770

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1. INTRODUÇÃO

O Brasil foi descoberto – ao menos oficialmente – em 1500 por Pedro Álvares Cabral, um navegador à serviço da Coroa Portuguesa e, por isso, o Brasil acabou tornando-se uma colônia de Portugal. Portugal era um império essencialmente estatista e burocrata, que controlava todas as atividades econômicas de suas Colônias com extrema severidade. Dentre as atividades comerciais regulamentadas estava a atividade de impressão gráfica, incluindo-se aí, a impressão de cartas de jogos.

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2. A PRIMEIRA GRÁFICA

A primeira impressão oficialmente sancionada de cartas para jogos no Brasil, aconteceu em em 8 de agosto de 1770. Através da emissão de um alvará de “privilégios e isenções de taxas para as pessoas que se ocupavam do ofício de fabricar cartas de jogos”, na Bahia.

alvará cartas 1770
Alvará de 1770 autorizando a impressão e o uso de cartas de jogar.

 

alvará 1770
Excerto do alvará, liberando os jogos com cartas em Portugal e nas Colônias portuguesas

 

Em 1808, com a vinda da Família Real para o Brasil, foi estabelecida a Imprensa Régia, ou seja, o órgão oficial de impressão da Coroa; e em 1811, a “Real Fábrica de Cartas de Jogar” foi anexada como parte integrante da Impressão Régia.

anexo fabrica cartas 1811
Anais dos decretos da coroa, constando a anexação da fábrica de cartas à imprensa Régia e o arrendamento da fábrica por Jayme Mendes de vasconcellos

O monopólio da impressão de cartas sofreu um forte baque quando foram descobertas gráficas clandestinas na Bahia que possuíam todo o maquinário e utensílios necessários para a impressão de cartas, inclusive equipamentos importados “alguns de muito préstimo” conforme relatos da época. Todo o aparato foi confiscado pela “Real Fábrica de Cartas de Jogar” em 1815. Porém nem isso não cessou a atividade dos contrabandistas.

Apreensão cartas bahia

Em 1818 Jayme Mendes de Vasconcelos obteve a autorização real para tocar a “Real Fábrica…” por nove anos. porém o contrato durou somente até 1823, sendo encerrado por não pagamento do arrendamento contratado.

Em 5 de março daquele ano, o Governo decidiu abolir o monopólio da impressão de cartas e o comércio de cartas passou a ser considerado livre. A exigência era de que as cartas que pagassem imposto, recebessem o carimbo de aprovado, em um das cartas. Infelizmente não se tem registros das cartas impressas nesta época. Aliás, foi provavelmente com o fim da “Real Fábrica…” que industriais belgas e alemães conseguiram introduzir no Brasil padrões “europeus” de naipes (em especial espanhol e belga/francês), em detrimento ao padrão Português/espanhol corrente até então.

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Decreto de 1823, acabando com o monopólio estatal da impressão de cartas, e liberando o livre comércio destas no Brasil

No ano seguinte, o decreto nº 26, de 21 de janeiro de 1824, deu autorização para a instalação de primeira fábrica particular de cartas. Três sócios: Ângelo Bissum, Manuel Luiz da Costa e Antônio José Polycarpo receberem autorização do governo para abrirem sua própria fábrica de cartas. Contudo o processo mantinha o valor do maço de cartas bastante elevado. Uma propaganda de 1826 anunciava: “Cartas de jogos portuguesas, feitas na França, pelo mesmo preço das cartas feitas no Rio de Janeiro.”

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Decreto concedendo o primeiro alvará de uma fábrica de cartas particular no Brasil

Uma curiosidade, é um anúncio de 1823 no Diário do Rio de Janeiro, de 25 de novembro, acerca da venda de um livro de mágica “O Pelotiqueiro Desmascarado” e, entre os números ensinados, truques com cartas de jogar.

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Anúncio de venda do livro “O Pelotiqueiro Desmascarado”. Diário do Rio de Janeiro, novembro de 1823

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3. DESENVOLVIMENTO DAS FÁBRICAS NACIONAIS

Passada a “novidade”, é possível encontrar registros de várias gráficas e fabricantes de cartas estrangeiros que tentaram se estabelecer no Brasil, ainda durante o século 19. Azevedo, da “Fábrica Caxias”, e Lafayette eram fabricantes de cigarros no Recife na virada do século. Eles possuíam uma impressora litográfica que imprimia os rótulos das embalagens dos cigarros e usaram estas mesmas máquinas durante muitos anos para imprimir cartas.

Pront. func. 5585 - Fábrica Lafayette Moreira e Cia

No fim do século 19 estava em voga cartas enfeitadas, com cenas exóticas pintadas nos 4 ases, padrão esse que seguiu século 20 adentro. A fábrica alemã C.L. Wüst por exemplo, produziu um modelo chamado “Ases Cênicos do Brasil”.

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Série “Ases cênicos”.

Em 1908 é fundada a “Companhia Paulista de Papel e Artes Gráficas” a nossa conhecida “Copag”. No começo de suas atividades a Copag atuava como importadora. Em 1918 passou a imprimir as cartas litografadas. Foi só em 1930 que a Copag adquiriu sua primeira impressora offset. Mesmo assim, em 1923, a Copag lança a linha “139”, baralho que é o carro chefe da companhia até hoje.

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Outra empresa que merece destaque é a Soimca, ou Sociedade Impressora Caxiense, de Caxias do Sul, RS. Estabelecida em 1955 por Nelson Soares, seu principal produto era o baralho “Pinguim”. Também foi a Soimca a responsável por popularizar os baralhos do tipo espanhol no RS. Nos anos 80 chegou a ser a principal concorrente da Copag, porém, em 1999, Copag e Soimca unem-se em uma só empresa.

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Site: http://www.wopc.co.uk/brazil/

Site: http://copag.com.br/en/tudo-sobre-baralhos/baralhos-usados-no-brasil/

Livro: “Imagem e letra: introdução à bibliologia brasileira: a imagem gravada” de Orlando da Costa Ferreira

Site: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/publicacoes/doimperio/colecao2.html

Arquivos do jornal Diário do Rio de Janeiro na Biblioteca Nacional

ERDNASE TRADUZIDO – PARTE 1

ATUALIZADO EM 08/04

LEIA O DISCLAIMER DO PROJETO AQUI

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É com muito orgulho que inicio este novo (e ambicioso) projeto aqui no Blog Água & Azeite, a tradução do livro “The Expert at the Card Table” de S.W. Erdnase, para o português. O objetivo, longe de revelar segredos, é divulgar esta obra fantástica e que serviu de pedra angular para a cartomagia moderna.

A tradução foi toda feita por mim, e será publicada em partes conforme o tempo e as atribuições do dia-a-dia me permitirem. Algumas frases foram adaptadas para melhor compreensão do texto, porém o sentido foi mantido inalterado.

Lembrando, por fim, que este é um livro de 1902, portanto existem muitas frases, conceitos que nos são estranhos – tanto pela época, como pela cultura e até pelo zeitgeist. Por isso, se algum trecho for difícil de entender, deixe saber através dos comentários. Isso ajudará a melhorar cada vez mais o trabalho. O mesmo para eventuais erros de tradução.

Sem mais delongas, segue abaixo a primeira parte de milhares que virão por aí.

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FICHA TÉCNICA

Título: “O especialista na mesa de carteado” (The Expert at the Card Table)

Autor: S.W. Erdnase (???? – ????)

Ano de publicação: 1902 (1ª Edição)

Editora: Edição própria (1ª Edição)

Páginas: 205 (1ª edição)

Ilustrado por: M.D. Smith

País: Estados Unidos

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PREFÁCIO

Ao oferecer este livro ao público, o escritor não usa sofismas como desculpa para sua existência, a hipocrisia de jogadores reformados (?), ou copiosas e rebuscadas pretensões de piedade não são impostas como uma justificativa para transmitir o conhecimento que ele contém. Para todos os amantes dos jogos de cartas, este livro deve se mostrar interessante, e como base para o entretenimento com cartas é praticamente inesgotável. Pode servir como um aviso de cautela aos incautos e que são ingênuos aos engano, como pode inspirar o astuto pela iluminação no artifício. Pode demonstrar ao novato que ele não pode vencer um homem em seu próprio jogo, e pode permitir que os habilidosos em trapaça façam um curso de pós-graduação dos mais elevados e mais artísticos em sua área de vocação. Mas este livro não tornará os inocentes em viciados, nem transformará o passatempo em uma atividade profissional; tampouco fará o tolo sábio, ou restringirá a colheita anual de otários. Mas seja qualquer que seja o resultado, se este livro vender, vai realizar o motivo principal do autor ao escrevê-lo, pois ele precisa do dinheiro.

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INTRODUÇÃO

A paixão pelo jogo é provavelmente tão antiga e tão duradoura quanto a raça humana. Alguns de nós são muito tímidos para arriscar um dólar, mas a porcentagem de pessoas nesta nação febril que não gostariam de ganhar um dólar é muito pequeno. A paixão culmina no profissional que prefere jogar do que comer. Ganhar não é seu único deleite. Alguém observou que há um prazer na vida maior do que ganhar, ou seja, saber que está em risco.

Ser bem sucedido no jogo é tão difícil quanto ter sucesso em qualquer outra área. As leis do acaso são tão imutáveis quanto as leis da natureza. Se todos os jogadores dependessem somente da sorte, eles estariam falidos no final do dia. O jogador de cartas profissional pode desfrutar da sorte média, mas é difícil encontrar alguém que pensa desfrutá-la permanentemente, e é certamente maravilhoso como a simples sorte, por vezes, derrota a mais forte combinação de inteligência e habilidade. É quase um axioma: um novato vai ganhar na sua primeira aposta. Uma criada negra de uma casa de jogos, ouvindo uma discussão sobre conseguir duas mãos boas no pôquer, arriscou a seguinte interpolação: “Não se preocupe por não ter duas mãos seguidas, Chefe. Os otários certamente terão uma mão melhor, certo?” E muitos jogadores antigos acreditam na mesma coisa. No entanto, os caprichos da sorte, ou do acaso, ainda impressionam o jogador profissional que possui um certo conhecimento, o qual seu irmão mais respeitado na bolsa de valores já possui, a saber – manipulação é mais rentável do que especulação; assim, para poder juntar as duas coisas, e ganhar um bom dinheiro, ele também desempenha o seu papel com as tesouras quando os cordeiros chegam ao mercado de ações.

O risco do jogo traz sensações que, uma vez apreciadas, raramente são esquecidas. Os ganhos são conhecidos como “bom dinheiro”, e geralmente são gastos tão livremente como a água. O profissional médio que é bem sucedido em seu próprio jogo, com a mais sublime despreocupação, aposta o dinheiro dele contra o de outro, embora esteja plenamente consciente de que as probabilidades estão contra ele. Ele desconhece o valor real do dinheiro e, em regra, é generoso, descuidado e imprudente. Ele ama o perigo ao invés das apostas. Na verdade, a principal diferença entre o apostador profissional e o jogador casual, é que o primeiro é conhecido pelo seu amor ao jogo, e o segundo por sua cupidez (inocência). Um profissional raramente “entra em desespero” quando acontece o pior; já o homem que tem outros meios de vida é um perdedor mais difícil.

Qualquer vantagem que, em última análise, possa dar uma percentagem a favor do profissional são absolutamente essenciais à sua existência, e os meios empregados na mesa de cartas para obter essa vantagem serão completamente elucidados neste trabalho. Nós não fomos impelidos em nossa tarefa pelos escrúpulos de uma consciência culpada, nem pela esperança de reformar o mundo. Um homem não pode mudar seu temperamento, e poucos se preocupam em controlá-lo. Enquanto a paixão pelo risco existir, ele encontrará gratificação. Não temos queixa contra a fraternidade, nem simpatia pelas chamadas “vítimas”. Uma vasta experiência nas mesas nos deu a impressão de que todos os homens que jogam por apostas consideráveis estão sempre procurando pelo melhor. Nós daremos os fatos e as condições acerca deste assunto conforme avançamos, embora admitamos com certo pesar que o nosso próprio conhecimento inicial foi adquirido com o costumeiro custo excessivo para os não iniciados.

Quando falamos de jogadores profissionais, não nos referimos aos proprietários ou gerentes de casas de jogos. A porcentagem a seu favor é de uma razão bastante conhecida, ou pode ser rapidamente calculada, e seus lucros são os mesmos que qualquer empresa. Nos locais onde as autoridades civis admitem essas instituições, elas são conduzidas por homens de posição bem conhecida na comunidade. As mesas de carteados pagam uma porcentagem ou “por fora”, e a gerência oferece um “cuidado” para a proteção de seus clientes. Nos locais onde as salas de jogos devem ser conduzidas em segredo, a probabilidade de que as chances aparentes do jogador sejam diminuídas são muito maiores. No entanto, nosso objetivo é dar conta da porcentagem desconhecida que devem estar a favor do jogador profissional, a fim de lhe permitir viver.

Há uma grande diferença entre os métodos empregados pelos cartomágicos em mistificar ou divertir o seu público, e aqueles praticados nas mesas de cartas pelos profissionais, pois, neste caso, toda a conduta deve estar em perfeita harmonia com o procedimento habitual do jogo. A menor ação que pareça irregular, o menor esforço para distrair a atenção, ou o primeiro movimento antinatural criará suspeitas; e a mera suspeita vai acabar com a empreitada, pois ninguém mais, além de um completo imbecil, vai, conscientemente, querer jogar contra chances maiores do que o habitual. Há sim uma única maneira de garantir a proteção absoluta contra vantagens desconhecidas, qual seja, nunca jogando por dinheiro. Porém, uma perfeita compreensão dos riscos que são assumidos, pode ajudar muito na diminuição das baixas. Uma relação íntima com o modus operandi dos artifícios usados nas mesas de carteados não detecta, por si só, a manipulação, mas certamente tornam iguais as chances de se proteger contra elas e, com esta cognição, a mera suspeita do uso de habilidades deve imediatamente produzir instintos de fuga. Este conhecimento ou compreensão total das habilidades de um jogador de cartas profissional somente poderá ser transmitido através de ilustrações práticas dos processos empregados e, desejando o leitor uma compreensão completa deve ter um maço de cartas na mão e praticar para si mesma a ação, tal como ela é descrita.

Para discriminar e mostrar claramente as duas fases da manipulação de cartas, a primeira parte deste trabalho é dedicada a exaustiva revisão das muitas vantagens que podem ser, têm sido, e são constantemente usadas nas mesas de carteado, e para os métodos específicos de obtenção destas vantagens que são menos prováveis de levantarem suspeitas. A maneira exata em que cada artifício é executado é totalmente descrita em minúcia. A segunda parte descreve as manipulações empregadas em conjurações e vários truques de cartas bastante interessantes.

RESENHA – LIVRO “CARTER E O DIABO”

Capa do livro (Clique na imagem para ampliá-la)
Capa do livro
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RESENHA OFICIAL

A trama de Carter e o Diabo se desenrola na São Francisco da Era do Jazz, época em que os Estados Unidos vivenciavam uma relação apaixonada com a mágica e os ilusionistas. O romance inicia com o presidente dos Estados Unidos, Warren G. Harding, aceitando ser voluntário numa performance do mágico Charles Carter. A participação do presidente no show foi um sucesso até que, duas horas após o espetáculo, é encontrado morto num quarto de hotel. Conhecido como Carter, o Grande, um mágico muito talentoso, cujas habilidades equivalem à do lendário Houdini, o jovem era apaixonado por sua arte, inspirada pelo desespero e pela solidão. Com a morte do presidente, todo o país se pergunta o que de fato aconteceu durante o truque. Principal suspeito do assassinato, Carter precisa deixar o país e descobrir a verdade por trás da morte para limpar seu nome e salvar sua carreira, que já começava a ser ameaçada pelo cinema. Temperando a ficção com a dose certa de obscuros fatos históricos, Gold revela ao leitor o passado de Charles Carter, começando por seu interesse em mágicas e seus enormes esforços para tornar-se famoso e respeitado. A fuga do mágico e os diversos caminhos para a resolução do crime nos levam por uma viagem fascinante construída pelo autor: Carter é perseguido por agentes do FBI, apaixona-se por uma bela e cega mulher, trava um embate com um antigo rival, encontra piratas, cientistas e espiões.

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SOBRE O LIVRO

De forma bem resumida, “Carter e o Diabo” é sobre um grande mágico lutando contra um conglomerado do governo, corporações milionárias e sociedades secretas para descobrir a verdade sobre a misteriosa morte do Presidente dos EUA, em que Carter é o principal suspeito, contando com a ajuda de seu Leão de estimação. Posto desta forma o roteiro parece meio “disneyesco”, mas a verdade é que o livro uma mistura bem dosada de romance policial, biografia ficcionalizada e pitadas de humor. No entanto, fica claro ao longo do livro que o maior objetivo de Glen é recriar a era de ouro da mágica, coisa que ele o faz com extrema maestria.

Charles Carter (Clique na imagem para ampliá-la)
Charles Carter
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A história se passa na época de transição do vaudeville para a era da televisão. A mágica ainda estava no auge, mas com sinais claros que os tempos haveriam de mudar. Carter deve encarar essas mudanças ao mesmo tempo em que busca provar a sua inocência no caso da morte do Presidente Harding.

Presidente Theodore Harding (Clique na imagem para ampliá-la)
Presidente Warren Harding
(Clique na imagem para ampliá-la)

Além de Carter e do presidente Harding, outros personagens reais desfilam pelo livro. É o caso de Harry Houdini, Max Friz, fundador da BMW, Philo Farnsworth, o inventor da televisão, entre outros. E é essa mescla de personagens reais e eventos fictícios a grande sacada do livro.

Philo Farnsworth, inventor da televisão (Clique na imagem para ampliá-la)
Philo Farnsworth, inventor da televisão
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No tocante à mágica o autor consegue recriar o ambiente e a atmosfera do vaudeville com perfeição. A descrição dos números de mágica é rica e ao mesmo tempo objetiva. Mesmo para o leitor não familiarizado com a arte da ilusão, a leitura não é enfadonha. Segundo o próprio autor todas as mágicas descritas no livro foram baseadas em números reais, realmente executados por mágicos no passado, o que traz ainda mais brilhantismo ao livro. Os números são tão incríveis que beiram as raias do absurdo.

Por ser uma espécie de biografia, o enredo conta ainda com alguns saltos temporais, mostrando a infância de Carter, o seu encontro com a mágica e como a mágica tornou-se uma obsessão em sua vida e ao mesmo tempo a responsável por grandes tragédias que marcariam profundamente a personalidade de Carter.

O ponto forte do livro é também o seu ponto fraco: a mescla entre uma biografia ficcionalizada e uma novela policial acaba causando confusão no roteiro. Em alguns pontos do livro o autor parece não sabe qual das linhas seguir e acaba seguindo linha alguma. A quantidade de histórias paralelas também pode confundir o leitor. Não poucas vezes tive que voltar páginas para entender o que estava acontecendo, fato agravado pelos vários deslizes cometidos pela tradução do livro (alguns bastantes graves).

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como mágico é uma leitura que vale à pena. Poder conhecer o vaudeville (a raíz do que é hoje a indústria de entretenimento americana) e mais, poder sentir um pouco do que foi a era de ouro da mágica me fez ver a nossa própria arte com outros olhos. Além disso, a descrição do efeitos realizados por Carter são tão incríveis que beiram o absurdo. E mais absurdo ainda é saber que são mágicas reais que, de fato, eram executadas.

A impressão pós-leitura é que a arte mágica hoje perdeu a profundidade. Nós mágicos nos contentamos com números fáceis e, por falta de opção, o nosso público acabou se contentando também. Lendo o livro percebi o quão mais além a nossa arte pode ir.

Para exemplificar no Essential Magic Conference de 2011, Mike Caveney mostrou um vídeoonde ele executava o “Carter’s Million Dollar Mystery” no Magic Castle. Mike tem o equipamento original que pertenceu a Carter. O número é fantástico e causou nos presentes o mesmo efeito que causava há um século atrás. Aliás, Mike Caveney serviu de consultor para Glen David quando da escrita do livro, em especial no tocante à descrição dos efeitos.

Mike Caveney apresentando a ilusão original de Carter (Clique na imagem para ampliá-la)
Mike Caveney apresentando a ilusão original de Carter
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Recomendo fortemente a leitura.

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FICHA TÉCNICA

Título: Carter e o Diabo (Carter beats the Devil)

Autor: Glenn David Gold

Editora: Record

Ano: 2004

Páginas: 518

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Imagens e ideias para o formato do texto retirados do Blog do Viteck

BARALHOS: OS PADRÕES E SUAS ORIGENS – INTRODUÇÃO (Parte 1 de 10)

O baralho como conhecemos hoje é fruto de uma evolução de muitos séculos. Tanto na tecnologia da confecção, bem como na arte das cartas, o baralho tem uma história tão incrível (e por que não, mística) quanto os símbolos que ele representa.

Nesta série de dez posts falarei um pouco sobre os diferentes padrões de baralho ocidental e sua história. Veremos as variações de cada padrão e suas origens e desmembramentos. No último post vou desenhar um infigráfico com todos modelos e datas descritos. Por fim, um post bônus tratando de baralhos não convencionais, como orientais e hindus.

E isso é apenas a ponta do iceberg…

Pra Começo de Conversa

Os baralhos se dividem em quatro grandes grupos, ou padrões internacionais:

Padrão Francês

É a variante mais comum e a que a maior parte das pessoas tem em casa. São 52 cartas de Às a Rei, divididas em duas cores (preto e vermelho) e quatro naipes (coração e ouros da cor vermelha; espadas e paus da cor preta). Este baralho pode ter um ou dois coringas e normalmente é confeccionado de modo que todas as cartas sejam facilmente lidas e reconhecidas em qualquer posição que estejam. Alguns países substituem o Ás pelo 1, e usam letras em seu próprio idioma para representar as figuras (por exemplo, na Alemanha, o Valete é ‘B’, a Dama ‘D’ e o Rei ‘K’).

 

Padrão  Latino

Variante nascida na Itália e popularizada na Espanha e países de língua espanhola. Com um número de cartas que pode variar entre 40, 48 e até 52, sendo a versão com 40 cartas a mais popular (neste caso eliminam-se os oitos e noves). Também é dividido em 4 naipes, porém com desenhos que remetem à nobreza: Moedas, Taças, Bastões e Espadas. Não há divisão de cores nesta versão e as cartas de figuras são desenhadas “em pé”, ou seja, podem ficar de cabeça para baixo, além de serem númeradas e não diferenciadas por letras.  Além disso, a numeração das cartas de figuras começa no 10, e não no 11 como no padrão francês.

É um baralho muito comum no Rio Grande do Sul, onde é utilizado utilizado para jogar o “truco gaudério”.

 

Padrão Alemão

O mais antigo dos padrões de cartas e, infelizmente, muito pouco conhecido fora da Europa. Composto de 32 cartas, compreende valores que vão do 7 ao 10, mais 4 cartas de figuras: o Obermann e o Untermann, espécies de valetes, conhecidos internacionalmente como Over e Under, o Rei, e o Ás ou Deuce, dependendo do padrão. Em qualquer caso, só o 7, 8, 9 e 10 são numerados. É dividido em quatro naipes: sinos, folhas, castanhas e corações. Em nenhuma das versões as figuras possuem letras de identificação (tipo O, U e K), mas o naipe do Under é na parte de baixo da carta para diferenciá-lo do Over.

É um padrão bastante utilizado em países do leste Europeu: República Tcheca, Hungria, Áustria e, evidentemente, Alemanha. Sua grande fama está nas figuras grandes e quase sempre muito belas e bem detalhadas.

 

Padrão Suíço

Surgido no século XVI, o baralho suíço lembra o alemão em vários aspectos, mas é considerado um baralho diferente por um motivo muito simples: seus naipes são únicos, e não estão presentes em nenhum outro baralho que tenha sobrevivido. Utilizado apenas am algumas cidades da Suíça, e para jogar um único jogo, chamado Jass. São 36 cartas. As numeradas vão do 6 ao 9. As demais são o Over, o Under, o Rei, o Sau, representado por duas figuras do naipe, e o Banner, representado por uma bandeira com o naipe.

Dentro desses quatro padrões, existem as muitas variantes regionais, cada uma com suas características próprias. E, além das variantes, existem ainda os baralhos orientais, de tarot e alguns para jogos específicos como “Elfer Raus” e “Uno”. Mas tudo isso, desde as variantes, como as histórias veremos nos posts seguintes.

Um Brevíssimo Histórico das Cartas

Os primeiros baralhos que se tem relato nasceram na China no século 10 a.C., e eram bastante similares a peças de dominós. séculos mais tarde os Árabes acabram conhecendo o baralho e o espalharam pelo mundo ocidental. Essa difusão do baralho foi fruto da relação cultural e comercial entre os países do Mediterrâneo e o mundo árabe, em particular os Mamelucos, oriundos do norte da África.

A palavra latina para “baralho” era “naibi” ou “naibbi” e o equivalente hispânico “naipe”. Ambas as palavras provém do árabe “nai’ib” que significa algo como “delegado” ou “xerife”. “Delegados” eram as duas cartas de figura dos antigos baralhos árabes: o “vice-rei” e o “segundo vice-rei”. Estas cartas não representam nenhuma personalidade humana, uma vez que a tradição islã proíbia tal prática, apenas os cargos reais.

O mais antigo baralho é conhecido como Mulûk wa-Nuwwâb (“Reis e Delegados”), e se encontra no museu Topkapi em Istambul . È composto de quatro naipes, cada um deles composto por sua vez de 14 cartas, 10 cartas de números, mais 4 cartas de figuras), totalizando 56 cartas.

Os naipes do baralho árabe são: Darâhim (moedas),  Tûmân (taças), Suyûf (espadas) e Jawkân (bastões).

 

Baralho mameluco "Mulûk wa-Nuwwâb", no museu Topkapi em Istambul, Turquia.

Com a chegada dos árabes à península ibérica, e não havendo a tradição, as figuras humanas foram adicionadas às cartas. O rei se manteve. Como não havia grão-vizir, optou-se por adicionar os cavaleiros como segunda figura em valor de nobreza. Para a posição do delegado, optou-se pelo “sota” uma espécie de escudeiro que servia ao cavaleiro, que por sua vez servia ao rei, criando assim uma hierárquia nas cartas. A este baralho “na’ib” foi dado o nome de “Cartas Sarracenas”.

Na metade do século XV, as Cartas Sarracenas começaram a se espalhar pela Europa. Na Alemanha, elas acabaram inspirando um outro tipo diferente de baralho, que se tornaria conhecido muitos anos depois como Cartas de Caçada. Ricamente decoradas, as Cartas de Caçada levavam este nome por mostrar, em cada carta, cenas de caçadas empreendidas por membros da nobreza. Cada fabricante criava seus próprios naipes, mas todos sempre ligados à caça esportiva, como cães, raposas, falcões, escudos, armadilhas e outros. Por serem ricamente trabalhadas, as Cartas de Caçada não eram produzidas em larga escala, sendo feitas sob encomenda para pessoas abastadas. Por este motivo, é pouco provável que tenham sido utilizadas para jogar.

 

Cartas de um baralho medieval de caça.

Também na metade do século XV, as Cartas Sarracenas chegaram à Itália. Lá, elas acabaram dando origem a dois estilos de baralho diferente: os fabricantes do sul decidiram imitar o modelo espanhol, com moedas, taças arredondadas, clavas e espadas retas; mas os fabricantes do norte decidiram fazer seus baralhos mais parecidos com as cartas originais árabes, com moedas, taças alongadas, espadas curvas e bastões cerimoniais, o que eles imaginaram ser os bastões de pólo. Em todas as versões, as figuras eram o escudeiro, o Cavaleiro e o Rei, mas os baralhos italianos podiam ter 52, 48, ou, mais usualmente, apenas 40 cartas, indo as numéricas apenas do 1 ao 7.

Paralelamente a isso, as Cartas Sarracenas se popularizaram na Alemanha, já que as Cartas de Caçada não eram acessíveis a todos, nem usadas para jogar. Para seguir a tradição das Cartas de Caçada, os fabricantes alemães decidiram não utilizar os naipes tradicionais, mas sim inventar seus próprios, com motivos ligados à natureza e à vida no campo. Assim, as moedas viraram sinos redondos (guizos), as espadas viraram folhas, os bastões viraram castanhas, e as taças viraram corações. Os alemães mantiveram as três figuras dos baralhos espanhóis e italianos, mas, curiosamente, desmontaram os Cavaleiros: os Reis eram identificáveis por suas coroas nas cabeças e por estarem sentados em tronos, mas tanto os Cavaleiros quanto os escudeiros estavam a pé, devendo ser identificados pela posição do símbolo do naipe – nos Cavaleiros era na parte de cima da carta, nos escudeiros, na parte de baixo.

 

Dispersão e evolução do baralho Sarraceno

No início do século XVI, este curioso baralho chegou à França, e lá acabou sofrendo mais uma mutação: os fabricantes franceses queriam produzir baralhos em larga escala, e os naipes tradicionais, muito trabalhados, não eram fáceis de reproduzir nas placas de madeira ou metal que eram usadas na impressão. Assim, eles decidiram adaptar os naipes alemães, mais simples: folhas viraram pontas de lança, castanhas viraram trevos, os sinos viraram losangos, e os corações foram mantidos. Ao invés de usar muitas cores, os fabricantes optaram por apenas duas: dois naipes em preto e dois em vermelho. As figuras também sofreram uma nova mudança: para evitar a confusão causada por duas figuras masculinas aparentemente idênticas, os franceses decidiram trocar o Cavaleiro pela Rainha. Não há indicações, porém, de que eles tenham feito isso influenciados pelas Cartas de Caçada; o mais provável é que eles simplesmente tenham achado que, já que cada naipe tinha seu Rei, estavam faltando suas Rainhas.

Nos próximos 9 posts nos aprofundaremos mais nessas histórias todas.

Até lá!

Amplexos!

REFERÊNCIAS

Texto e imagens retirada dos sites:

Andy’s Playing Cards: http://a_pollett.tripod.com/cards.htm

Card Games: http://www.pagat.com/

Blog “Átomo”: http://atomo.blogspot.com/search/label/Baralho