O DIA EM QUE OS NAZISTAS ROUBARAM UM PÔSTER DE MÁGICA

“[Esta é] a mais variada e abrangente coleção, não importa o ângulo em que se olhe, seja do artístico, sociológico, cultural, psicológico, histórico ou geográfico.

Hans Sachs, sobre a sua coleção.

– Æ –

Houve um tempo em que não havia internet e nem televisão, e o rádio era item de luxo. Nessa época, os anúncios de eventos eram feitos com pôsteres e cartazes fixados nos muros a fim de informar aos que passassem por ali sobre o acontecimento de eventos, anúncio de espetáculos ou a divulgação de produtos.

Até 1870, mais ou menos, esses pôsters eram basicamente textuais e monocromáticos em preto e branco. A revolução industrial popularizou as máquinas de litografia, permitindo a produção em massa de cartazes coloridos, melhorando a qualidade e barateando custos. Com isso, era comum, especialmente nas grandes cidades, muros serem inundados por cartazes de propagandas e posteres de artistas. Mágicos, em especial, se valeram muito desse novo recurso visual. Alguns chegavam ao extremo de fazer uma arte nova para os cartazes para cada cidade visitada, ou ainda, duas ou mais artes para cada performance. Cenas, como a abaixo, eram bastante comuns.

droppedImage_2
Uma parede coberta com cartazes de Chung Ling Soo. São pelo menos 13 ilustrações diferentes.

Como qualquer objeto, eles despertaram a curiosidade e o interesse de várias pessoas e logo surgiram colecionadores desses cartazes. Um desses colecionadores foi o Dr. Hans Sachs, um dentista judeu alemão (o quê, como já dá pra antever, não era uma boa combinação).

Hans-Sachs
Dr. Hans Sachs.

– Æ –

O Dr. Sachs nasceu em agosto de 1881 em Breslau, Alemanha (hoje, Polônia) e começou a sua coleção de cartazes ainda em 1895 ao se apaixonar por aquilo que ele considerou uma forma de arte. Seu primeiro cartaz foi um de Sarah Bernhardt, uma atriz francesa.

O que começou como o hobby de um adolescente logo se tornou uma paixão. Sachs era meticuloso e passava suas horas livres enumerando, catalogando e identificando cada uma de suas peças. Sua dedicação ao colecionismo era tamanha que 15 anos após seu primeiro cartaz, Dr. Sachs fundou a sociedade internacional dos colecionadores de pôsteres (“Verein der Plakat Freunde“) e ainda, começou a produzir uma revista dedicada a este hobby, a “Das Plakat” (O Pôster).

Sua paixão por cartazes não o impediu de levar adiante seus estudos. Ele se formou em química e recebeu doutorado em ciências exatas (que englobava as disciplinas de química, física e matemática) e ainda um segundo doutorado em periodontia que acabou se tornando a sua profissão. Até mesmo na área de periodontia, o Dr. Sachs era uma sumidade, chegando a escrever diversos artigos científicos sobre o tema. Um dos clientes regulares do Dr. Sachs era o físico e amigo Albert Einstein.

Obviamente que o Dr. Sachs não colecionava apenas pôsteres de mágicos. Qualquer pôster litografado era seu objeto de desejo. Assim, estima-se que por volta de 1938, na iminência da 2ª Guerra, a coleção do Dr. Sachs já atingia a cifra de 12.500 cartazes. Ele fazia exibições públicas de sua coleção por volta das décadas de 1920 e 1930. A coleção incluía propagandas de carros, bicicletas, sabões, shows de mágica, óperas, enfim…

sachs620
Parte da coleção do Dr. Hans.

Como já dito, a Alemanha de 1930 não era a melhor opção de moradia para um judeu. Hitler, já no poder, iniciara diversas campanhas em prol do orgulho ariano. Uma dessas campanhas, foi capitaneada por Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, e que envolvia a promoção do que eles chamavam de “deutsche Kunst” ou “Arte Alemã” o que seria uma forma superior de arte, em oposição à “entartete Kunst” ou “arte degenerada” [1].

german kunst
Exemplo de arte “superior” alemã.

A “deutsche Kunst” era um ideal artístico que era fomentado pelo regime do führer, com traços mais naturalistas, arcadianos, em oposição a “arte degenerada” que, para o conceito nazista, englobava peças dos movimentos bauhaus, cubismo, expressionismo, surrealismo e, claro, arte moderna, incluindo aí também, os cartazes de propaganda.

Qualquer arte que se opunha à visão nacional-socialista de beleza era considerada infame e, portanto, deveria ser confiscada e destruída. A coleção do Dr. Sachs encontrava-se nesta categoria. E, dada a grandiosidade de sua coleção, ela inevitavelmente chamou a atenção de Goebbels.

Landscap
Cerimônia de queima de livros e de objetos considerados “degenerados”.

Certa noite, o Dr. Sachs recebeu um telefonema de três oficiais da Gestapo – a polícia secreta do nazismo – informando-lhe que, à pedido de Goebbels, o Museu de Arte Decorativa em Berlim estaria adicionando uma nova ala dedicada à “arte dos mercadores” e a coleção de Sachs seria “cedida” à esta nova ala.

Quando os oficiais chegaram à casa do Dr. Sachs, pediram para ver os cartazes de propaganda político partidária. o Dr. Sachs então mostrou-lhes esta parte do acervo, e os oficiais encontraram – além dos cartazes de produtos, diversos pôsteres anti-Hitler (obviamente havia também cartazes pró-Hitler, ams esse detalhe foi ignorado pelo pessoal da Gestapo). Era o argumento que faltava para a Gestapo confiscar o acervo do Dr. Sachs.

Obviamente que o acervo todo foi alvo de apreensão – e não apenas os cartazes políticos. A justifica: arte-degenerada e propaganda anti-nazista. Contudo, alguns historiadores dizem que, assim como o Dr. Sachs, Goebbels também era aficcionado por artes visuais, e que, no fundo, queria a coleção para si.

Ausstellung_entartete_kunst_1937
Goebbels visitando a exposição de arte degenerada.

O confisco foi inevitável. Ao todo três caminhões carregados de material gráfico deixaram a casa do Dr. Sachs. O próprio Dr. Sachs fez questão de carregar as armações de alumínio onde ficavam guardados os pôsteres. Ao todo ele levou 250 dessas armações, cada uma contendo 50 cartazes, fora as diversas caixas, recortes e demais materiais. O Dr. Sachs nunca mais veria sua estimada coleção novamente.

Como falamos da Alemanha nazista, obviamente que a repressão ao Dr. Sachs não parou por aí. Em 9 novembro de 1938, na famigerada “Noite dos Cristais”, o Dr. Sachs foi preso e levado ao campo de concentração de Sachsenhausen, próximo de Berlim. Ele ficou detido por cerca de 17 dias, até ter a sorte de ser liberado junto com sua esposa e seu filho Peter. O Dr. Sachs entendendo que sua vida na Alemanha havia acabado, abandonou tudo e migrou para a América.

Sachsenhausen prisoners return from labor
Campo de concentração de Sachsenhausen.

Na América, com a alma enlutada pela perda de sua estimada coleção, Sachs decide não retomar o seu amado hobby de colecionador, e focar-se na sua área de formação. Ele contou com a ajuda de ninguém menos do que Albert Einstein, que tentou ajudar oex colecionador a conseguir um emprego na área da odontologia, mas seus cursos não foram reconhecidos em solo americano. Assim, para poder exercer a sua antiga profissão, o Dr. Sachs acabou tendo que fazer um novo doutorado na área, se formando dessa vez, em Harvard.

Por volta de 1950, com o fim da guerra e do regime nazista, o Dr. Sachs  vai em busca de informações acerca de sua coleção. Ele é informado pelo governo Alemão Oriental que ela havia sido destruída após a invasão russa a Berlim. E por isso ele foi indenizado em 225.000 marcos (mais ou menos R$ 1,8 milhão em valores atuais) e dá o assunto por encerrado em sua vida. Isso, até a chegada um “plot twist“…

– Æ –

Em meados de 1960, alguns cartazes antigos começaram a circular em Berlim, vendidas em leilões e também no mercado “paralelo”. O filho do Dr. Sachs, Peter, ficou sabendo dessas vendas e, conhecendo a história do pai, decidiu ir a Berlim e investigar a origem desses cartazes.

A suspeita se confirmou. Segundo consta, apenas uma parte da coleção do Dr. Sachs fora destruída (em torno de 1/3). As 8.000 peças restantes ficaram guardadas no Museu de História de Berlim, e não no Museu de Arte Decorativa – como fora divulgado, e lá permaneceram, mesmo após a Guerra e à divisão de Berlim. Os pôsteres foram reconhecidos por causa do carimbo do Dr. Sachs. Sua dedicação na catalogação meticulosa das peças foi fundamental para a redescoberta de sua coleção.

Hans_Sachs_label_-7782,_affixed_to_the_Karen_Zabel_poster_verso
Carimbo usado pelo Dr. Sachs para catalogar sua coleção.

No começo de 1974 o Dr. Sachs vai a Berlim, a fim de resgatar a sua coleção. Contudo é proibido de entrar na parte oriental da cidade (àquela altura a cidade já era dividido pelo Muro de Berlim, que impedia a livre passagem pelos lados oriental e ocidental da cidade). O Dr. Sachs faleceu em março daquele ano, sem poder rever sua estimada coleção.

Por quase 40 anos a coleção de Sachs ficou isolada no lado oriental de Berlim. Em 2005, após sua aposentadoria, Peter Sachs decide retomar a luta para reaver a coleção do pai. Logo ele descobre que o museu de Berlim orgulhosamente expunha a coleção. Foi então que ele encampou uma batalha jurídica contra o Museu de História Alemão. Em 2009 a família de Sachs sagra-se vitoriosa, mas somente em 2013 é que mais de 4.000 pôsteres (aproximadamente 30% da coleção original) voltaram à família. Alguns desses cartazes foram doados a museus, outros leiloados à quem pudesse tomar melhor conta deles. Apenas uma parte ficou com a família Sachs. Peter faleceu em setembro daquele ano.

A coleção do Dr. Sachs, de certa forma, sobreviveu ao tempo, à loucura nazista, à ganância comunista. Mais do que anunciar shows e produtos, essa coleção nos lembra da capacidade humana de fazer o mal ao seu próximo, mas também da resiliência e da esperança que trazemos em nós.

8390079931_4a43b6c965
Dr. Hans Sachs.

– Æ –

PS: Sei que o título não está bem colocado. Os nazistas roubaram muito mais do que um cartaz, e não foi apenas de mágicos. Mas como este é um blog de mágica, e esta história é incrível – mas não necessariamente tem a ver com mágica ou mágicos – achei que um pequeno “click bait” não cairia mal.

– Æ –

NOTAS

[1] Certa feita, o Governo nazista fez uma exposição de arte degenerada chamada ironicamente de “Kunst” (“Arte”), com as aspas. A ideia era mostrar o feio, o grotesco, e como a arte alemã era superior (ironicamente, hoje ela é considerada um arte “kitsch“, brega). Ao contrário do que esperavam os oficiais alemães, a exposição foi um sucesso e deu ensejo ao que chamamos de Arte Moderna, no sentido de protesto a uma imposição do que é belo,  nada a ver com acepção hodierna de arte moderna.

crowds-lined-up-to-visit-entartete-kunst-degenerate-art-schulausstellungsgebaude-hamburg-november-december-1938-web
Enorme fila para ver a exposição de “arte degenerada”.

Aqui e aqui, exemplos dos catálogos de exposição “Entartete Kunst“; e aqui, o catálogo da “Große Deutsche Kunstausstellung” ou “arte superior alemã”.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Site: The Ephemeral Collector

Site: Wikipedia

Site: Guernsey’s Audiction

Periódico: Zoe Wonfor em “Concordia Undegraduated Journal of Art History“, Vol. XI, p. 56 – 71, março de 2015.

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

– Æ –

1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

mahatmaviii08190502
Capa do periódico Mahatma

– Æ –

2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

Foo
Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

16334631_1_x
Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

2007-8-29_1905PanhardWeb-Large
Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

500px-ching_ling_foo
Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

– Æ –

5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

– Æ –

1. PEGANDO A BALA

Chung Ling Soo
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

enfield1
Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

will-goldston-1912
Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

11093
Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

– Æ –

3. MAS HOUVE MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

O TRUQUE QUE AMEDRONTOU HOUDINI

Não tente o truque de pegar a bala. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Trecho de uma carta de Kellar a Houdini

De todos os números de mágica já apresentados, o mais perigoso deles é, sem dúvida nenhuma, o número de pegar a bala. A premissa é simples: uma bala é disparada contra o mágico que apara ela, seja com a mão, seja com a boca. Em algumas versões, a bala é marcada; em outras, ela atravessa um vidros antes de atingir o mágico. Mas em todas as versões, sempre há um risco enorme envolvido.

Esse foi o único número que Houdini não ousou executar (ao menos não publicamente). Até hoje, esse número é assombroso, controverso e muito, muito perigoso. Senhoras e senhores, um artigo sobre o número que amedrontou Houdini: pegar a bala.

E não tentem isso em casa.

-x-

1. O NÚMERO DE MÁGICA MAIS PERIGOSO DE TODOS OS TEMPOS

A primeira menção ao número de pegar a bala, data de 1631 e aparece em um livro intitulado “Threates of God’s Judgement” escrito pelo reverendo Thomas Beard. Segundo o reverendo, um mágico francês chamado Coulen de Lorraine executava esse número; a bala era disparada e Coulen a pagava com a mão. Ainda, segundo o próprio reverendo, Coulen morreu espancado pelo seu assistente – curiosamente – com a própria arma com a qual executava o número.

Trecho do livro “Threates of God’s Judgments” onde é descrito pela primeira vez o número de pegar a bala.
(Clique na imagem para ampliá-la)

Em 1785, Philip Astley clamou para si a autoria do número com a publicação de de seu livro: “Natural Magic or Physical Amusement Revealed“. Segundo Philip ele teria invetado o truque em 1762. Porém, em 1761 Thomas Denton mencionam o número de pegar a bala, tal qual descritos pelo reverendo Beard, em seu livro “The Conjuror Unmasked“. Igualmente em 1761 Henri Decremps descreve o mesmo número em seu livro: “La Magie Blanche Dévoilée“. Na verdade o material de Astley era nada além de um plágio do livro de Decremps, incluindo uma ilustração similar na capa, porém abordando os mágicos de um ponto de vista mais positivo.

À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley(Clique na imagem para ampliá-la)
À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley
(Clique na imagem para ampliá-la)

Em 1840, John Henry Anderson, um mágico escocês apresentou nos principais palcos da Grã-Bretanha, América do Norte e Austrália, onde apresentava o número de pegar a bala. Foram as apresentações Anderson que tiraram o número do anonimato e o trouxeram à tona. Após Anderson, pelo menos outros quatro rivais do mágico escocês passaram a apresentar suas próprias versões do truque.

O efeito continuou sendo largamente executado (não sem fazer algumas vítimas) até que em 1918 houve a mais bem documentada – e porque não trágica – vítima do efeito de pegar a bala, o mágico Chung Ling Soo.  Chung Ling Soo, alter ego de William Ellsworth Robinson, apresentava o efeito de pegar , ora com a mão, ora com a boca, uma bala disparada contra ele. Em março de 1918 Chung se apresentava no Wood Green Empire em Londres, quando, por um erro cometido pelo próprio Chung (ele não havia limpado a arma propriamente o que deixou uma boa quantidade de resíduo de pólvora não queimada na arma), a arma ao invés de apenas estrondar, disparou de fato a arma contra o peito de Chung. Ele ainda foi levado com vida ao hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Após a morte de Chung Ling, o efeito perdeu a sua popularidade, apesar de ainda vir a ser executado por alguns mágicos nos anos posteriores. Mesmo com o advento da televisão e a apresentação de vários mágicos, o truque de pegar a bala nunca mais teve o mesmo apelo ao público, apesar de ainda ser um número que causa um forte efeito no público.

Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: "Condemned to Death by the Boxers"
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers

-x-

2. MORTES CAUSADAS PELO TRUQUE

A morte de Chung Ling Soo foi a mais trágica, porém não foi a única.

* Coulen (1500): Apesar de não ter sido morto diretamente pelo truque, foi espancado até a morte com a pistola do seu show, o que lhe concede a “honra” de entrar na lista.

* Kia Khan Khruse (1818): Mágico indiano que teria sido morto por um espectador. Os relatos de sua morte podem ser falsos.

* Madame DeLinsky (1820): Assistente de seu marido, o mágico polonês DeLinsky, foi morta quando, por engano, um dos atiradores carregou verdadeiramente a arma. A rotina consistia em seis atiradores que mordiam a ponta do cartucho para carregá-lo na arma. O truque consistia em morder não a ponta, mas a munição inteira, tornando-a em uma bala de festim. Seja por distração ou por dolo, um dos atiradores acabou tirando apenas a ponta do cartucho, transformando-o em uma munição real.

* Giovanni de Grisy (1826): Giovanni era filho de Torrini, o qual era, supostamente, o mentor de Robert-Houdin. Giovanni teria sido morto pelo próprio, segundo um relato de Robert-Houdin. Essa história também pode ser apenas uma invenção.

* Arnold Buck (1840): Arnold foi morto quando um voluntário da plateia, possivelmente querendo testar os poderes sobrenaturais do mágico, adicionou secretamente à arma alguns pregos. Possivelmente essa morte serviu de inspiração ao filme “O Grande Truque” (The Prestige), onde um dos mágicos é atingido por um espectador que coloca uma bala real na arma.

* Adam Epstein (1869): O truque de Adam Epstein consistia em verdadeiramente carregar a pistola depois, com o auxílio de um bastão pescava a bala, deixando somente a pólvora (outra vez, tal qual explicado em “O Grande Truque”). No dia da morte de Epstein, o bastão pescou a bala, porém ele acabou se quebrando dentro da pistola. ao disparar a arma, lascas de madeira voaram na direção de Epstein, que acabousendo atingido.

* Raoul Curran (1880): Após executar o número de pegar a bala com sucesso, um membro da plateia levantou-se de seu assento e atirou em Raoul sem nenhum aviso, dizendo apenas, em desafio ao mágico: “Pegue essa!”

* deLine Jr (1890): Morto quando seu pai, também mágico, acidentalmente atirou nele no palco.

* Michael Hatal (1899): Morto após não conseguir trocar os cartuchos de reais por cartuchos de festim.

* Otto Blumenfeld (1906): Também não conseguiu trocar as balas.

* Chung Ling Soo (1918): Conforme já mencionado, essa foi, de longe, a mais comovente das mortes causadas pelo número.

* H. T. Sartell (1922): Outro que falhou ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas de cera.

* “The Black Wizard of the West” (1922): O Mágico Negro do Oeste foi outro que morre no palco, quando sua esposa e assistente, trocou as balas falsas por balas reais. ao todo, o mágico recebeu cino tiros.

OBS: Segundo o website “Mentalfloss.com” H. T. Sartell e “The Black Wizard of the West” seriam a mesma pessoa. Não encontrei muitas referêncas sobre  nenhum deles, exceto o relato resumido de suas mortes. Se alguém tiver maiores informações, eu publico aqui.

* Ralf Bialla (1975): Bialla executava o número usando todas as proteções possíveis: óculos à prova de balas, luvas grossas com as quais cobria o rosto e um aparador de aço na boca. A bala viajava por três painéis de vidro antes de Bialla pegá-la com os dentes.  or nove vezes, Bialla machucou-se seriamente, mas sobreviveu em todas as vezes, porém, não sem graves sequelas. E foi uma dessas sequeleas que o levaram à morte. Ralph passeava em uma região montanhosa quando sentiu-se muito tonto (sequela dos inúmeros acidentes com a mágica) e acabou caindo de um penhasco. Esta também não ser uma morte causada diretamente pelo número, mas que teve influência direta deste.

* Doc Conrad (1977): Morto ao executar o número “Roleta Russa”, uma varação da mágica de pegar a bala.

* Fernando Tejada (1988): Outro mágico que acabou morrendo no palco em uma apresentação na Colômbia.

-x-

3. E HOUDINI?

Como já foi dito, após a morte de Chung Ling Soo, poucos mágicos ousaram fazer esse número nos anos seguintes. Logo após a morte de Chung, Houdini chegou a cogitar a hipótese de executar o número, mas foi demovido da ideia por seu amigo Harry Kellar que considerava o número extremamente perigoso.  Em carta a Houdini, Kellar escreveu:

Agora, meu caro garoto este é um conselho do meu coração, NÃO TENTE A P—A de pegar a bala… não importa quão certo você esteja do sucesso do número. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Você tem um monte de coisas boas para manter a sua posição como o líder em sua profissão. E você deve isso aos seus amigos e a sua família, cortar tudo o que possa representar algum risco para a sua vida. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Houdini ouviu o conselho de Kellar e cancelou a apresentação pública do número. Isso só fez aumentar a fama da mágica (“Tão perigosa que nem mesmo Houdini teve coragem). Porém, existem fortes evidências de que Houdini já havia praticado esse número 25 anos antes.

Jack Hyman, amigo íntimo de Houdini e sócio dele no “The Brothers Houdini” afirmou em entrevista à Genii Magazine de abril de 1937 que em 1893 e 1894 Houdini havia executado o número, chegando até mesmo a mostrar um raio-x da mão esquerda de Houdini, onde uma bala estaria permanentemente alojada, supostamente fruto de um acidente com o número. É porém, possível, que Jack Hyman estivesse apenas fazendo o que ele sabia fazer de melhor: construir a lenda de Houdini.

Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.(Clique na imagem para ampliá-la)
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.
(Clique na imagem para ampliá-la)

Patrick Cullinton escreveu em seu livro “The Tao of Houdini” uma declaração dada pelo próprio Houdini em 1922:

Eu tive uma experiência única, executando o número de pegar a bala. Era costumeiro para mim apresentar o número com uma pistola permitindo que um voluntário carregasse-a com uma bala marcada, e assim eu verdadeiramente nunca tocava na arma.  Havia uma tábua fina sobre uma mesa apoiada na parede traseira do palco. Ao voluntário era dada a opção de atirar na tábua que seria partida em inúmeras lascas ou em mim. No entanto, eu pedia a promessa que, uma vez anunciada a sua decisão ele não poderia, por sua palavra de honra, mudar de ideia. Por uma fração infinitesimal de um segundo havia um silêncio sepulcral, sequer respiravam, após o som do buraco deixado na tábua pelo disparo, o que trazia à tona a seriedade da decisão do voluntário, caso tivesse decidido atirar em mim. O efeito da ilusão mostrada miraculasamente com o aparecimento da bala em meus dentes, após ter atravessado um prato que eu segurava em minhas mãos. Nunca, jamais em todas as  minhas experiências o voluntário falhou em atirar primeiro na tábua.

-x-

4. MÁGICOS MODERNOS QUE PEGARAM A BALA

Carl Skenes e Dorothy Dietrich foram os mágicos modernos que executaram o número de pegar a bala e que merecem ser citados.

Carl Skenes em 1980 executou o número no programa de TV “That’s Incredible!” A fama de Carl permanece até hoje em função desse número. Carl também apresentou o número em outros países (Porto Rico, Venezuela, e Japão), e é constantemente lembrado e citado em programas como “I Love the 80s”, do canal VH1 e na coluna “Ripley’s Believe It or Not”.

Carl Skenes no programa "That's Incredible!"
Carl Skenes no programa “That’s Incredible!”
(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por “Ripley’s – Belive it or not”
(Clique na imagem para ampliá-la)

Dorothy entrou para a história como a primeira (e até agora única) mulher a pegar a bala com a boca. Ela exigia que um voluntário comprasse as balas e as guardasse consigo até o momento do truque, como prova de que a munição era, de fato, real.

Dorothy Dietrich citada na coluna "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich citada na coluna “Ripley’s – Belive it or not”
(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.
(Clique na imagem para ampliá-la)

-x-

5. PARA SABER MAIS

O livro de Ben Robinson “Twelve Have Died” de 1986 é o primeiro livro a tratar exclusivamente de um único número de mágica. No livro, Ben discorre sobre a história do truque, suas vítimas, os diferentes métodos… O livro atualmente está fora de impressão, mas não é difícl de encontrá-lo, embora seja relativamente caro.

robinson-twelve-have-died

-x-

BIBLIOGRAFIA

Livro: “Threates of God’s Judgments

Livro: “Natural magic, or, Physical amusements revealed

Livro: “La magie blanche dévoilée

Site: magictricks.com

Site: wikipedia.org/Bullet Catch

Site: wikipedia.org/Chung Ling Soo

Site: themagiccafeforum.com

Site: topsmag.com

Site: mentalfloss.com

Site: wildabouthoudini.com

Site: conjuringarts.org

Site: bulletcatch.com