MULHERES SERRADAS E PROCESSOS JUDICIAIS: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAIS FAMOSA ILUSÃO JÁ CRIADA

“Serrar uma mulher ao meio é fácil. Serrar uma mulher ao meio e grudá-la novamente é um pouco menos fácil, mas pode ser feito com alguma prática.”

Douglas Adams – Agência de Investigação Holística Dirk Gentley

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Por muitos anos o truque de serrar a assistente foi um “must have” em shows de mágica. Oficialmente esta ilusão foi apresentada ao público pela primeira vez em janeiro de 1921 por PT Selbit, em Londres. Na verdade, em dezembro de 1920 houve uma prévia para alguns agente teatrais no St. George Hall. Todos adoraram a ilusão que acabou sendo melhorada até chegarmos à versões modernas, como o clássico de David Copperfield. Fim da história, certo?

Seria, se você estivesse na Wikipedia ou lendo algum artigo ruim cujas fontes não são checadas e mesmo assim são replicadas mil vezes por aí. Este é um truque cercado de histórias e que por si só seria o suficente para contar toda a história da indústria da mágica no século XX. Neste artigo, também será corrigido um erro histórico, que nenhuma outra fonte aberta se preocupou em verificar.

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O conceito de separar as partes do corpo de um ser vivo, e restaurá-lo é antigo. Talvez o mais antigo conceito de mágica conhecido. Dedi já havia ficado famoso por separar a cabeça de um ganso e depois ligá-la de novo, sem causar danos ao animal. Mas, justiça, seja feita. Dedi se recusou a fazer este truque com uma pessoa. Séculos mais tarde, alguns livros apresentaram uma ilusão em que um corpo sem cabeça ficava sobre uma mesa, e uma cabeça – supostamente do corpo ao lado – conversava e interagia com a plateia. A ideia, portanto, de cortar alguém ao meio (ou decapitá-la), e mantê-la viva, não era exatamente uma ideia nova no mundo do ilusionismo.

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Decapitação, (que alguns chamavam de “João Batista”). Este efeito citado por Albert Hopkins foi um dos predecessores do efeito de serrar a mulher ao meio.

Diversas fontes consultadas citam que o primeiro registro de uma versão moderna desse truque foi descrita Robert-Houdin em suas memórias, em que ele cita o mágico Torrini que teria executado este efeito em 1809 para o Papa Pio VII. Contudo, este é um erro bastante grotesco. Estas fontes se basearam em um artigo da “American Heritage” (Inverno de 1994, Volume 9, nº 3) de autoria de Gary Brown. Wikipedia, Magipedia, e até alguns livros, usaram essa citação, sem se dar ao trabalho de conferir diretamente na fonte, o livro de Robert-Houdin.

Sim, Torrini se apresentou para o Papa, mas não executou a ilusão de serrar alguém ao meio (menos ainda uma mulher). Aliás sequer a pessoa era serrada ao meio. Para o pontífice Torrini executou diversos outros truques de manipulação, incluindo um especialmente desenhado para aquele evento [1].

O protótipo da ilusão de serrar alguém ao meio foi, na verdade, apresentado por Torrini para o sultão Selim III em Constantinopla, capital do Império Otomano (Robert-Houdin, “Memoirs“, cap. VII, pg. 85 a 87). Torrini pediu que dois escravos trouxessem um baú retangular e dois cavaletes utilizados para serrar madeira. Os escravos colocaram Antônio, o assistente de Torrini, dentro do caixão e pregaram a tampa. Até este momento consta que sequer o pobre Antônio sabia o que se sucederia com ele.

Torrini começou a cortar o baú quando ouviu os gritos de pavor da esposa do Sultão. Tranquilamente Torrini parou o que estava fazendo e disse a todos que não se preocupassem. Longe de sentir dor, seu assistente sentiria apenas “as mais maravilhosas sensações”. Então, seguiu cortando o baú, agora, envolto em silêncio e tensão.

Findado o corte, Torrini levantou as duas metades verticalmente, cobriu ambas com um cone de vime e este, por sua vez, com um pano preto estampado com diversos simbolos cabalísticos prateados. Foi então que Torrini começou a citar seus encantamentos e logo duas vozes distintas puderam ser ouvidas de dentro dos baús. Ao revelar o que sucedia, dois “Antônios” gêmeos e vestidos iguais, saíram de dentro dos baús, cada um de uma das metades, e os dois cumprimentaram respeitosamente o Sultão e a sua família.

Exceto pelo final em que, ao invés de dividir uma pessoa, Torrini multiplicou-a, todos os elementos clássicos do truque foram regiamente descritos por Robert-Houdin. Assim, corrigindo a informação da revista American Heritage, a primeira apresentação desse efeito não foi para o Papa, tampouco foi em 1809, mas, pelo menos, um ano antes na Turquia, para o sultão Selim III. Ah, e a pessoa não foi dividida ao meio, mas sim, multiplicada.

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Voltando ao assunto, embora Jim Steinmeyer questione a existência de Torrini (segundo ele, Torrini não passaria de um alter-ego do Robert-Houdin, no qual ele expunha seus planos e ideias), esta história prova que o conceito-base do truque já existia muito antes de Selbit. Steinmeyer cita também o livro de Albert Hopkins “Magic” em que é citado uma ilusão cômica performada por uma trupe de acrobatas/clowns chamada “Hanlon Lee Brothers”. Escreve Hopkins:

Um palhaço se joga em um sofá e é cortado ao meio por um arlequim. Uma parte do sofá, com o corpo, permanece em uma parte do palco enquanto a outra parte com as pernas e pés (os quais estão chutando vigorosamente) é levado embora pelo outro lado do palco. A  ação toda é muito rápida e o efeito surpreendente.

Albert Hopkins em “Magic: Stage Illusions and Scientific Diversions“, 1897, p. 50

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Hanlon Lee Brothers

Tanto o livro de Robert-Houdin, quanto o de Hopkins, eram conhecidos pelos principais mágicos da época. Logo, não é arriscado dizer que a ideia de Selbit não veio “do nada”; ele bebeu de fontes que o inspiraram.

O fato é que a mágica de palco naquela época, era recheada de efeitos de desaparições, transformações, levitações ou um mix desses três. Mesmo a versão de Robert-Houdin não “mutilava” o assistente, mas sim, multiplicava. A maneira como Selbit mutilava a mulher  (em certo sentido, muito mais forte do que uma decapitação) acabou criando toda uma nova categoria de mágica alçando o nome de Selbit como um dos mais importantes do século XX. [2]

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Selbit criou o número em seu estúdio, que servia também de apartamento para si. Ali o conceito e o protótipo foram criados. A primeira testemunha ocular desta ilusão foi Fred Culpitt, amigo de Selbit, em um show em seu próprio apartamento. Selbit executou o truque na mesa da cozinha de Fred, serrando a sua assistente Jan Glenrose.

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Selbit (à esq.) e sua assistente Jan Glenrose, a primeira mulher a ser serrada ao meio.

A versão apresentada por Selbit era, aos olhos modernos, bastante simplória: a mulher entrava em um “caixão” de madeira que ficava na vertical, amarrada. A tampa era fechada e ela ficava completamente escondida do público. Selbit inseria algumas lâminas de metal em duas reentrâncias na caixa: uma na altura do peito da mulher, a outra, nos seus quadris. Então, dois assistentes serravam a caixa. Selbit abria uma pequena fresta no caixão e fazia uma cara preocupada. Após alguns segundos de tensão, ele abria as tampas e a assistente saia ilesa, saudando o público. O processo todo não levava mais do quinze minutos.

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PT Selbit em sua versão original de “Serrando a mulher ao meio”

O número de Selbit despertou a atenção de Maskelyne que também apresentou sua versão do efeito (embora sem o mesmo sucesso que Selbit – vide nota [2]). Selbit licenciou alguns grupos de mágicos – nove no total para que eles excursionassem pela Europa apresentando o seu número.

O estrondoso sucesso do efeito chamou a atenção de outro mágico: Horace Goldin. Como Goldin não podia simplesmente copiar o número, acabou criando um método próprio – e melhorado – para executar este truque. Menos de 6 meses depois da apresentação de Selbit na Inglaterra, Goldin apresentou a sua versão de “Serrar a mulher ao meio” para a “Society of American Magicians” em seu banquete anual no Hotel McAlpin Hotel, Nova York em 03 de junho de 1921.

A versão de Goldin, contudo, não teve uma boa aceitação. O assistente que foi serrado era o mensageiro do hotel, o qual estava visivelmente nervoso e atrapalhado. A caixa, em que o garoto foi serrado era nitidamente grande demais, não sendo assim muito eficaz em causar a ilusão de dano ao assistente. Porém, Howard Thurston, que estava na plateia, viu potencial no truque e propôs uma parceria a Horace Goldin.

Thurston então designou Harry Jansen, um mágico e construtor de aparatos, para aprimorar ainda mais o aparato de Goldin. Jansen diminuiu o tamanho da caixa e permitindo que os pés e a cabeça da assistente ficassem à mostra para o público (a versão “clássica” que se fixou no imaginário popular).

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Howard Thurston apresentando uma versão melhorada da ilusão.

Essa nova versão foi patenteada por Goldin que autorizou – novamente assim como Selbit – autorizou que seis grupos de mágicos excursionassem pelos EUA, sob sua bandeira, apresentando o número em cidades pequenas e feiras itinerantes (um desses mágicos era o belga Servais Le Roy); Goldin, por sua vez, ficara com as cidades grandes, em especial os teatros do circuitos Keith-Orpheum, a maior rede de teatro da época. A patente requerdia por Goldin impediu que qualquer outra versão do truque, que não a de Goldin, fosse apresentada nos EUA, incluindo aí, a versão de Selbit.

Cada um dos mágicos licenciados por Goldin deu o seu toque pessoal ao número, mas o toque de Goldin foi o mais impactante: ele trazia ao palco marceneiros para que atestassem que a caixa realmente estava sendo cortada, e enfermeiras para que socorressem a assistente em caso de acidente. Goldin criou até uma cena em que um grupo de coveiros levava o “caixão” pelas ruas, até o teatro, despertando a curiosidade do público. Em outra cena, Goldin colou em uma ambulância um cartaz escrito “À disposição do teatro, em caso de acidente com serras”.

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PT Selbit obviamente acusou o golpe e processou Horace Goldin por plágio. A briga judicial foi grande e tanto Goldin como Selbit colocaram muito dinheiro na disputa (alguns dizem que praticamente todo o dinheiro ganho por eles com este novo truque foi gasto em litígios judiciais).

Goldin, alegava que havia tido uma visão sobre esse efeito ainda em 1906. O grande Leon haveria perguntado a Goldin sobre um efeito de cortar uma mulher ao meio e depois juntar as partes. Goldin mentira a Leon dizendo que ele já possuía direitos sobre um número similar. Após se despedir do amigo, foi para casa e começou imediatamente a trabalhar naquela ideia. Leon logo descobriu a mentira de Goldin e também passou a trabalhar em sua versão do efeito.

Goldin não apresentou a sua versão do efeito, até 1921, meses após a primeira apresentação oficial de Selbit. Steinmeyer menciona o óbvio: “A ideia de Horace Goldin somente surgiu após ele ouvir do sucesso de Selbit”; ainda segundo Steinmeyer: “Goldin alegou que de 1906 a 1921 não foi capaz de encontrar um produtor interessado em investir na ideia do efeito de serrar a mulher. Após uma longa espera (15 anos) decidiu ele mesmo construir e apresentar o efeito.”

Em agosto de 1921, Selbit acusa Goldin de pirataria. Em sua Defesa, Goldin reconta a história: diz que inventou o efeito em 1906, vendeu ele em 1917, passou adiante os esquemas do aparelho em 1919, que acabou fazendo seu próprio aparelho em 1920 e que apenas dois anos antes requereu a patente sobre o aparelho. A resposta de Selbit foi que ele até admitia que duas mentes separadas pudessem ter a mesma ideia, sem que uma soubesse da outra; o que lhe causava estranheza, contudo, era o fato da patente ser inteiramente igual ao modelo criado por Selbit, apresentado ao público apenas 5 meses antes”. O Grande Leon também viria a público declarar que a ideia de Goldin havia sido roubada dele.

Selbit acabou ganhando o primeiro round da disputa em um tribunal federal do Arkansas. Goldin contratacou requerendo uma ordem de restrição, impedindo que que a ilusão de Selbit fosse apresentada na mesma cidade que Horace. Em seguida Horace anexou um cartaz de 1887 em que um mágico inglês chamado “Professor Hengler” apresentara uma ilusão chamada: “Serrando uma mulher em duas”. Este cartaz foi trazido à tona por ninguém menos que Harry Houdini (que, provavelmente, a esta altura, só queria mesmo ver o circo pegar fogo).

O processo ficou parado e nesse interim Harry Jansen já havia melhorado o número o suficiente para se afastar da versão de Selbit. Quando Selbit voltou para a América, em setembro de 1921, descobriu que a versão de Goldin já havia sido patenteada e que ele não poderia impedir a apresentação do rival, pois esta já era diferente da versão inglesa do truque.

Selbit teve ainda que encarar a traição de um de seus assistentes, que vendera o segredo do truque para a Goldwyn Ltda. de Hollywood. Selbit escreveu para o estúdio, ameaçando processá-los caso o apresentassem Como não houve resposta do estúdio, Selbit acabou deixando o caso pra lá. Contudo, em 1923, a Goldwyn e anunciou o lançamento do filme sobre esta ilusão em ambos os lados do Atlântico. Novamente Selbit entrou com um processo pedindo a censura do filme, porém o juiz negou-lhe a causa, alegando que Selbit esperou muito tempo pelo processo, abrindo, assim, mão de seu direito de processar a companhia.

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Versão de Horace Goldin, considerada legítima, por haver “se afastado o suficiente” da versão de Selbit.

Em novembro de 1921 a planta da ilusão foi publicada em um livro vendido a cinco dólares. O kit completo para realizar o truqe, saia por 175 dólares.

No final das contas, Selbit acabou derrotado no processo, pois o juiz entendeu que a versão de Goldin havia “se afastado o suficiente” da versão original de Selbit, a ponto de poder ser considerado um truque próprio. Além disso, Goldin havia registrado também o nome da ilusão “Serrando a mulher ao meio”, mas também outros nomes igualmente atrativos. Selbit havia sido encurralado pelas manobras legais de Horace Goldin.

Horace apresentou seu número nos EUA com o nome “A mulher dividida ao meio”, mas ele já não era uma novidade em solo americano, além de ser menos “vistoso” que o truque de Goldin. Selbit acabou voltando para a Inglaterra triste e abatido, e com a fama  – ao menos nos EUA – de haver copiado Goldin, mito que perdura ainda hoje.

Contudo, Horace Goldin, não saiu ileso da revelação dos segredos e enfrentou nova batalha jurídica. Em 1930 ele processou a R. J. Reynolds Tobacco Company por usar a ilustração da mulher serrada em um comercial de cigarros. Goldin alegou que a propaganda entregava o segredo do efeito. O juiz negou a causa a Goldin alegando a base do truque já era conhecido de longa data (citando inclusive os livros de Hopkins e de Robert-Houdin). No fim, toda a publicidade criada em cima do efeito, o tornou menos mágico aos olhos do público.

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Propaganda que gerou o processo de Horace Goldin contra a R. J. Reynolds Tobacco Company

Com o passar dos anos, o número se aperfeiçoou ainda mais: caixas cada vez menores, transparentes e até versões sem a caixa foram criadas. Henry Blackstone Jr. criou uma versão que emulava a serra circular em uma esteira, tal qual uma serraria de madeira. Aliás, a popularização das serras rotativas trouxe um componente a mais de “terror” para o número, tornando-o um verdadeiro clássico moderno, sempre capaz de cativar e surpreender qualquer audiência.

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Francis White, presidente do “The Magic Circle” de Londres, apresentando a sua versão “improptu” da mulher serrada. A serra era emprestada.

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NOTAS

[1]

O truque que Torrini fez para o papa foi o seguinte: com a ajuda do relojeiro da cidade, Torrini conseguiu uma réplica exata de um belo e caro relógio de um importante Cardeal. Durante a apresentação para o Papa, Torrini disse precisar de um relógio para seu próximo truque e substituiu o original pela réplica. Primeiro ele deixa o relógio cair no chão, causando temores no cardeal – que não queria de jeito nenhum emprestar seu relógio. Em seguida, Torrini faz o relógio desparecer e ele reaparece no bolso das vestes do Papa.

[2]

Jim Steinmeyer escreve que Selbit teve dois grandes méritos quando do lançamento do seu truque: a época em que ele foi lançado, e o uso de uma mulher.

Segundo Steinmeyer, a década de 1910 foi marcada pela luta das mulheres por direitos, em especial pelo sufrágio feminino. Com o rompimento da Primeira Guerra, em 1914, as mulheres tiveram que deixar de protestar e passaram a ocupar o chão das fábricas, mostrando na prática, que valiam tanto quanto os homens. Com o fim da guerra, em 1919, a imagem de “inocência” da mulher já não mais cabia, e seus direitos foram automaticamentes adquiridos.

O mérito de Selbit foi conseguir capturar essa nova mentalidade ao criar seu novo efeito, mostrando o lado menos frágil das mulheres. Seus outros efeitos seguiam a mesma linha. Além de “Serrando a  mulher ao meio”, Selbit criou ainda outras ilusões donominadas: “Esmagando a mulher“,  “Destruindo a mulher“, “Esticando a mulher“, “A mulher indestrutível“. O que, a princípio pode soar como um ódio reprimido ao sexo oposto foi, na verdade, uma demonstração da força da mulher, que, desde, pelo menos, uma década antes, vinham sendo as protagonistas das mudanças na sociedade.

Longe de ser um machista ou sexista, Selbit mostrou de forma clara e didática que a mulher era forte e resistente por natureza. Clive Maskelyne, por exemplo, apresentou este mesmo efeito para o público londrino. Contudo, trocou o nome do efeito de “Serrando a mulher ao meio”, para “Matéria através da matéria“, buscando assim, manter latente as velhas (e inocentes) ideias do “conjurador e seu poder místico sobre a natureza”. Obviamente, a apresentação de Maskelyne acabou sendo um fiasco!

 

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BIBLIOGRAFIA

Magicpedia:Sawing woman in half

Wikipedia: Sawing woman in half

Site: Illusion Repository

Artigo: American Heritage Magazine 1994, Vol. 9, nº 03 – “Sawing woman in half“, de Gary Brown *

Artigo: Popular Mechanics, dez. 1958 “I call these the greatest magic illusions os all time” de Christopher Milbourne

Livro:Panorama of Magic” – Christopher Milbourne

Livro:The Last Greatest Magician in the World” – Jim Steinmeyer

Livro:Hidding the Elephant” – Jim Steinmeyer

Livro:Art & Artiffice” – Jim Steinmeyer

Livro:Secrets of the Sideshows” – Joe Nickell

Livro:Sensationalism and the Genealogy of Modernity” – Editado por Alberto Gabriele

* Lembrando, conforme já dito no texto, esse artigo possui um erro grave ao se referir erroneamente à apresentação de Torrini.

BALABREGA, O MÁGICO QUE MORREU NO BRASIL (E SUA ESPOSA QUE ABALOU O IMPERADOR)

“(…) fez explosão a caldeira geradora de gas acetylene matando instantaneamente o director e ferindo : mortalmente o prestidigitador Balabrega e um seu companheiro”

Jornal “A Província” de 13 de junho de 1900 (a grafia original foi mantida).

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Johan Moller nasceu em Helsingbrod, Suécia, em 20 de agosto de 1857 e aos 11 anos de idade, migrou para os EUA onde seu nome foi anglicizado para John Miller. Comeceu na mágica ainda cedo já sob a alcunha de Balabrega, “O garoto mágico” e “A maravilha sueca”. Segundo consta, o nome foi inspirado pelo seu pai, que também era artista, embora não fique claro nem o ramo artístico do pai, tampouco o porquê deste nome tão exótico.

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Balabrega excursionou principalmente pela América Latina onde fez relativo sucesso. Uma curiosidade, em Pernambuco, “balabrega” é uma gíria que significa “engano”, “charlatão”. Provavelmente a expressão nasceu por causa do mágico.

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O historiador Nadur traz algumas informações importantes sobre Balabrega: seu show abarcava mentalismo, manipulações e magia de palco. Era acompanhado de sua mulher, Emma Lynden que apresentava um número de canários amestrados e tocava diversos instrumentos, entre eles, xilofone e garrafas com água.

Segundo Mike Caveney, o casal foi a primeira dupla a apresentar o número de “Segunda Visão” em espanhol e ainda, os primeiros a apresentá-lo na América do Sul. Isso explica, em parte, o grande sucesso e apelo público dos Balabrega aqui na América Latina.balabrega

O show de Balabrega era grande, em todos os aspectos.  Uma de suas ilusões se chamava “Tahuma” e consistia em uma mulher apenas da cintura pra cima. A diferença para a versão clássica do truque da meia pessoa, é que na versão de Balabrega a mulher estava suspensa em um trapézio, e não sobre uma mesa, estática.

O periódico argentino “La Capital” de 17 de janeiro de 1889, teceu o seguinte comentário sobre o show de Balabrega:

“Balabrega – Até o nome remete a um prestidigitador, isto de “bala” e “brega” significa movimento, escamoteio, confusão, (…) logo vem a música de Miss Lidden que, sem ser celestial, cativa e admira e entusiasma graças à habilidade artística que a caracteriza, e a variedade notas e melodias que extrai de vários objetos: vasos de cristal, garrafas vazias e outros objetos.

Balabrega vem precedido de grande renome, e coberto de elogios e lauras conquistados nos principais teatros da Europa e América.

(…) Ademais, tem ainda os canários amestrados dirigidos pela sra. Linden, cuja simples presença no palco (…) produzem uma grata impressão e deixam uma enorme satisfação.

Sra. Linden, Balabrega, dois personagens que bastam por si sós para formar uma companhia, e para serem aplaudidos, até mesmo por aqueles menos inclinados a aplaudir.”

Nadur acrescenta ainda que Balabrega tinha um ato todo dedicado à exposição de fraudes mediúnicas. Não é arriscado dizer que Balabrega tinha todo o necessário para ser um dos maiores nomes da mágica de todos os tempos. Até que o acidente mudou tudo.

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No fim dos anos 1800, Balabrega e sua esposa estavam em um navio, cruzando o Estreito de Magalhães à bordo do navio a vapor “Cotopaxi”. As águas perigosas fizeram com que o navio naufragasse e Balabrega perdeu todo o seu equipamento. Ao invés de se abalar e reclamar no twitter, Balabrega se recompôs e montou um segundo show, que, dizem era muito melhor do que o primeiro.

Fosse pelo acidente ou não, o fato é que John Miller e Emma Linden se divorciaram e ela se mudou para Tauton, no Estado de Massachussets. Talvez ela tivesse pressentido que o acidente fora um aviso de um mal maior que viria se abater sobre John Miller. Por sua vez, Balabrega seguiu excursionando pela América Latina. Além do reconhecimento do público, ele havia adquirido algumas fazendas de fruta pela América Latina, o que explica também sua fixação pelo lado sul da linha do equador.

Ao montar o seu novo show, ele adquiriu uma nova ilusão chamada “The moth and the flames” (A mariposa e a chama).

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O número consistia em vestir seis assistentes de mariposas e por uma chama no meio de palco. As assistentes se aproximavam da chama e eram “consumidas” por ela, ou seja, desapareciam. O problema é que a chama era alimentada por um tanque de acetileno. Não é difícil imaginar o que aconteceu.

As causas do acidentes não são um consenso. Alguns jornais dizem que, era impossível conseguir acetileno no Brasil de 1900. Balabrega então trouxe algumas bolsas de gás do estrangeiro e, ao tranportá- las para o palco, para o ensaio, uma das bolsas explodiu, vitimando Balabrega e um assistente, Lui Bartelle. Outro assistente ficou ferido.

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Notícia da morte de Balabrega

Outras fontes dão conta que não fora a bolsa que explodiu, mas o próprio “Bal” (apelido que ganhou por aqui) que não soube manipular corretamente o mecanismo de iluminação, superalimentando a chama. Fosse o que fosse, Balabrega faleceu em 20 de junho de 1900, no Theatro Santa Rosa, em Pernambuco. Por pouco, o teatro não incendiou por inteiro.

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Emma Lynden
De volta a Emma Linden (ou Lynden ou ainda Leyden; a grafia varia bastante), sua história não é menos curiosa. Após o divórcio foi para Tauton, Massachussets, de volta para a fazenda de sua família. Segundo consta, sua saúde estava debilitada, embora não tenha encontrado maiores detalhes sobre isso.

Em Tauton, ela casou-se novamente e em 1909, de novo, divorciou-se. Ela também abriu uma cafeteria em Nova York, mas o negócio não deu certo e ela mais uma vez voltou para Tauton. Até aí, nada de mais.

Em  07  de janeiro de 1916 ela faleceu e a nota de falecimento de jornal trouxe à tona uma curiosidade: Emma era amiga pessoal do Imperador Dom Pedro II e chegou até a acompanhá-lo em idas ao teatro.

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Los Angeles Herald, nº 59, 8 de janeiro de 1916

Segundo o NY Times da época, Emma estava no Rio de Janeiro e caiu em frente à carruagem do Imperador. Um guarda ajudou Emma a levantar-se e Dom Pedro ficou encantado com a beleza da mulher. Como forma de desculpa, ele convidou Emma para acompanhá-lo ao teatro e ela ficou no camarote real.

Mas a história melhora. Emma seria uma paixão secreta de Dom Pedro, e mais, ela teria sido uma das razões para o golpe de Marechal Deodoro que derrubou o Império. O jornal St. Louis Post-Dispatch, traz maiores detalhes, dizendo que o Imperador dava seguidos presentes a Emma e isso foi um dos motivos que os revolucionários apontaram para tomar o poder.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Nadur, “Historias y curiosidades del ilusionismo

Livro: Mike Caveney, “Classic Correspondence from Egyptian Hall Museum

 

QUANDO UM TRAPACEIRO VENEZUELANO PERDEU (E FICOU ETERNIZADO POR ISSO)

Artigo original escrito por Ernesto J. Navarro

Enviado a mim, por Juan Araújo

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

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Félix Vargas Chacón era um excelente jogador de cartas. Mais do que isso, era um exímio trapaceiro.  Nascido em 3 de abril de 1916, na Venezuela, Félix fez sua fama pelos cassinos do Caribe e no submundo dos jogos e trapaças. O homem era uma lenda.

Quando ainda era criança, seu pai abandou o lar por questões de segurança. Revolucionário, participou de um movimento que tentou tomar o controle da cidade das mãos do Governo Federal. O grupo falhou e, por isso, teve que passar anos escondido na clandestinidade.

Ao voltar para a legalidade, o pai pede que todos os filhos ajudem no sutento da casa. A Félix foi sobrou o encargo de capitanear uma goleta, uma pequena embarcação à vela, que levava os turistas em um passeio até a Ilha de Margarita, no norte da Venezuela.

Félix Vargas Chacón

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“MÃE, VOU CONQUISTAR O MUNDO!”

Aos 14 anos, Félix, havia adquirido gosto pelos jogos de azar e em uma certa noite, possivelmente após beber muito e farrear ainda mais, decidiu abandonar a embarcação para um “passeio”. Quando voltou percebeu que a adega do barco havia sido roubada. Seu pai o afastou das funções no barco, foi quando decidiu sair pelo mundo atrás de aventuras.

Mãe, vou conquistar o mundo!” Essa foi a despedida de Félix para a sua mãe. Ele deixou a sua cidade e viajou até a capital, Caracas. 400 km ao longo do mar do Caribe. Foi em Caracas que Félix comeceu a tecer, o que ele mesmo chamou de: “sua desordenada vida”.

Félix era gentil e encantador. Possuía um carisma natural. “Ele era capaz de lhe vender algo que você sequer tinha a intenção de comprar” conta o escritor venezuelano José Roberto Duque. Isso, somado à sua exímia habilidade de prestidigitação com cartas, transformaram Félix rapidamente no mais famoso e requisitado jogador de cartas, ou na língua nativa, tahúr, em todo o Caribe.

Ele era do tipo que lograva os ricaços e os cassinos. Basicamente aqueles que realmente não precisavam do dinheiro que perdiam. Dessa forma, acabou levando uma vida de ‘playboy’. Com suas habilidades para o ‘baccarat’ logrou viver de roubar os milhonários do Caribe“, conta Duque.

Uma pequena amostra de seu estilo de vida foi divulgado pela imprensa venezuelana em 1950. Após ser detido em Caracas, acusado de cometer um golpe, o jornal “El Nacional” publicou uma nota com o seguinte frase: “Ele era o estrangeiro mais bem vestido no México, nos últimos três anos.” Nos anos mais ativos de sua “profissão” como tahúr entrou e saiu da Venezuela tantas vezes quanto entrou e saiu da prisão.

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LA MEDICINA

Félix era um mestre nos truques com cartas e nas trapaças dos jogos de azar. Seu objetivo era simpless: lucrar o máximo possível. Em sua biografia, Félix relata que seu mais famoso golpe foi batizado de “la medicina” (“a droga”, em tradução livre).

A primeira coisa que Félix fazia era identificar empresários com empresas legalmente constituídas, mas que trabalhavam com contrabando. Se aproximava dessas pessoas, ganhava sua confiança e as estudava a fundo.

Félix dizia que as pessoas com mais estudo fazem mais perguntas, mas também creem mais facilmente a tudo que lhe respondem. Eles também não refaziam perguntas, com medo de passarem por ignorantes. Certamente uma vantagem para os golpes de Félix e uma valiosa lição até hoje.

Depois de um tempo, Félix realizava a trampa. Juntamente com três comparsas alugava alguns quartos em hoteis distintos. Juntamente com a vítima, chegava ao primeiro hotel, e um dos sócios dizia possuir dois quilos de cocaína. Félix pedia para 20 gramas já que não tinha dinheiro para comprar maior quantidade. O comparsa aceitava “vender” essa quantidade irrisória, apenas porque conhecia Félix. Féliz entregava o dinheiro e recebia um pequeno papelote de papel alumínio lacrado. Eles então saíam do hotel.

Dirigiam-se então ao segundo quarto. Nesse interim o primeiro vendedor comunicava um segundo comparsa que encontrava-se casaualmente com Félix, fingindo ser um consumidor desesperado por uma dose. Félix dizia que não podia vender a droga para ele, até porque só tinha um papelote pequeno. O comparsa oferecia então à Félix o dobro do que este havia pago pelo papelote de cocaína (que na realidade era bicarbonato de sódio).

Ato seguinte, o comprador-comparsa, alegando dificuldades de conseguir a droga, prometia pagar generosamente por uma quantidade maior. Félix e a vítima voltavam ao primeiro quarto de hotel e o tahúr tratava de pedir os dois quilos de cocaína fiado. Como Felix era menor de 90 anos e não estava acompanhado dos pais, a oferta era, obviamente negada.

Vendo a possibilidade de ganhar dinheiro fácil e rápido, a vítima, movida pela ganância, aceitava por seu próprio dinheiro no negócio. Quando se dirigiam ao econcontro do usuário para vender-lhe a droga, eram interceptados por um policial de verdade, porém comparsa de Félix. Ele dava voz de prisão aos homens, mas para evitar problemas burocráticos, topava deixá-los ir embora, se lhe entregassem a droga e prometessem nunca mais se envolver com aquilo. A oferta era prontamente aceita. Assim, se perdia a droga, o papelote e o dinheiro já estava pago. Essa receita rendeu a Félix, milhares de dólares.

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UMA BOA VIDA

Seus golpes sempre lhe renderam grandes cifras de dinheiro, o que facilitou a sua entrada na alta sociedade, em especial nos círculos políticos e de entretenimento na Venezuela, México, Cuba, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, entre outros países. Em suas memórias, garantiu ter conhecido Fidel Castro quando este estava na iminência de tomar a ilha. Conheceu também Che, Raúl e outros guerrilheiros.

Suas memórias aliás, viraram um livro, publicado ainda na década de 1970. Está recheado de histórias fantásticas como da fuga de uma prisão mexicana em meados de 1953 a bordo de um Cadillac zero quilômetro junto com uma aeromoça. Um roteiro de filme, sem dúvidas. Outra história curiosa foi quando conheceu a sua esposa durante uma luta de boxe entre dois campões olímpicos.

Félix viveu uma vida de extremos: cercou-se de homens bons e homens maus, heróis e delinquentes, gregos e troianos, segundo suas próprias palavras. Esses contatos lhe abriram portas. Instalou no México alguns cabarés que serviam à nata da sociedade. Todos queriam beber com Félix.

– Æ –

UM NOVO TRAPACEIRO ARREPENDIDO

Félix conta em seu livro suas aventuras, mas também fala de sua “conversão”. Após o casamento se arrepende de seus crimes e se dedica a emendar a sua vida, e a instruir os demais sobre os perigos dos jogos de azar e das drogas. A história se repete

Seu livro no fim das contas, serve tanto como relato biográfico, como uma grande e completa reportagem sobre a delinquencia e o mundo interno dos cassinos e jogos de azar.

No fim das contas foram quarenta anos de delitos. Félix sempre reconhecera que grande parte de sua sorte estava embasada nos contatos políticos que havia colecionado ao longo dos anos. também sabia que suas histórias poderiam servir de lição para outros. Não a toa, todas as três edições do livro sempre constaram como esgotada. mesmo hoje, é difícil de achar uma cópia. A que está disponível na Biblioteca Nacional da Venezuela, está guardada no acervo “raros”.

Na Venezuela, um livro com boas vendas vende algo entre 2.000 e 3.000 cópias. O livro de Félix vendeu 65.000. Seus livros vendiam como pão quente, pois não contavam apenas a história do mais universal tahúr da Venezuela, mas a história de Cuba de Batista e a decomposição da própria Venezuela.

Não houve tahúr como ele no Caribe, com uma habilidade inata para a psicologia. Conhecia a fundo suas vítimas. Mas também era humano e bondoso. Era dificil desgostar de quem roubava homens de colarinho branco e outros delinquantes“, contou seu amigo, o poeta Juan Calzadilla.

– Æ –

A MORTE E A ETERNIZAÇÃO DO TAHÚR

No fim de sua vida, Félix Vargas Charcon, vivia uma vida pacata e expressava com uma ponta de tristeza: “Vivi ladrão em um mundo de honrados; agora sou um honrado em um mundo de ladrões.

Félix faleceu em janeiro de 2014. Tinha 98 anos.

Um dia, um “argentino manco” resolveu contar para o mundo a história de Félix, usando para tanto apenas sua elegância e sua mão esquerda. O resultado, podemos contemplar abaixo:

 

Quando Félix decidiu sair de sua cidade natal, Cumaná, e conquistar o mundo, ele acabou fazendo uma profecia acerca de si mesmo, ao despedir-se de sua mãe. Como todo nascido em Cumaná, Félix era um cumanês. E foi com esse apelido gentílico que criou para si a figura de um exímio tahúr que viria a conquistar o mundo. Félix Vargas Chacón era “O” Cumanês.

Memórias de "el cumanês"
Livro autobiográfico de Félix Vargas Chacón

UMA BREVE HISTÓRIA DO EMBARALHAMENTO FARO

Texto base de Leonardo Macedo.

Adaptado e ampliado por Leonardo Glass

“Millions of dollars are wagered annually at Faro in this country. It is the most fascinating of layout games.”

S. W. Erdnase

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INTRODUÇÃO

Mágicos experientes e trapaceiros de poker, blackjack e demais jogos de cartas certamente conhecem o embaralhamento faro (ou faro shuffle), conhecido por muitos como o embaralhamento perfeito por intercalar perfeitamente todas as 52 cartas do baralho, uma a uma. No entanto, mesmo aqueles que conhecem o Faro, provavelmente desconhecem a história por trás deste embaralhamento.

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Jogadores de Faro, nos EUA. Final dos anos 1800.

– Æ –

O JOGO DO FARAÓ

A origem do jogo se deu com um jogo de cartas chamado basset. Por volta de 1690 o basset foi proibido. Algum tempo depois surge o Pharaon, um jogo derivado do basset, e com base na mesma premissa: um jogo de apostas, passível de ser jogado por diversos jogadores ao mesmo tempo. Isso ajudou na popularização do Pharaoh. Registros datados da época do Rei Luís XIV (Século XVIII) dizem que o jogo ficou conhecido por esse nome entre os jogadores da corte devido à embalagem do baralho francês vir com a imagem de um Faraó (algumas fontes dizem que o faraó estava estampado na face de uma das cartas da corte, a saber, J, Q, K).

Com o passar do tempo, o jogo começou a se espalhar pela Europa (principalmente pela Inglaterra e Itália) e ganhou variações em seu nome, devido a mudança de idioma de cada país, até chegar aos EUA e ter o nome adaptado para Faro.

O “Pharaoh” angariou vários entusiastas famosos, entre eles escritor italiano Giácomo Casanova. Casanova foi um amante do jogo de faro, tendo o registrado em algumas passagens de sua autobiografia. Há relatos em livros sobre história dos jogos de aposta sobre fortunas ganhas por Casanova e presentes extravagantes que ele deu para mulheres, mostrando que ele era, possivelmente, um grande trapaceiro no jogo. Outra celebridade histórica que jogava faro foi a rainha Maria Antonieta. Há, inclusive o registro que ela chegou a jogar 36 horas seguidas de Faro com alguns banqueiros

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Maria Antonieta e Giácomo Casanova, dois jogadores de faro!

Nos EUA o jogo chegou em meados de 1700. Alguns historiadores, porém, datam a chegada do Faro à América em 1803, pelas mãos de John Law, um escocês exilado que aportou em Nova Orleans. O Faro logo tornou-se muito popular na América. Ali ganhou um novo apelido “bucking the tiger” ou “prender o tigre”, sendo inclusive este apelido citado por S.W. Erdnase em sua obra “The Expert at the Card Table“. Este apelido era devido a ilustração de um tigre de bengala que enfeitava as cartas à época. Outra gíria para o jogo de faro era “twisting the tiger’s tail” ou “torcer a cauda do tigre”.

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Placa de uma casa de jogo de faro

A imagem do tigre era tão fortemente associada ao jogo do faro, que algumas casas de apostas colocavam uma imagem de um tigre nas fachada, anunciado que naquela casa de jogos, se jogava o Faro. O Faro teve seu auge nos EUA entre os séculos XIX e XX, favorecendo e fomentado o crescimento do número de casas de jogos e cassinos. Com o passar do tempo o jogo foi perdendo sua popularidade, sendo substituído, aos poucos, pelo Poker.

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Cartas com o tigre que deu o apelido ao jogo faro

– Æ –

COMO FUNCIONA O JOGO?

A premissa básica do Jogo de Faro é bem simples: O dealer distribui as cartas em dois montes, uma para ele, o outro para os jogadores. Para ganhar, o jogador tem que torcer para que a carta apostada seja revelada no monte referente aos apostadores. Caso contrário, quem ganha é a banca.

O jogo era feito em uma mesa específica para ele, coberta com uma toalha com o desenho de todas as cartas de um naipe (os naipes aqui eram meramente ilustrativos, somente os valores das cartas eram considerados). Sobre esses desenhos os jogadores apostavam nas cartas que iriam sair. O dealer então misturava as cartas e a primeira do topo era “queimada”. As cartas seguintes eram tiradas alternadamente formando duas novas pilhas: a primeira pilha para o dealer, e a segunda aos jogadores. Se alguma das cartas que foram apostadas aparecesse no monte dos jogadores, o apostador ganhava o pote (lembrando que a aposta do dealer não oscilava de valor); caso contrário, o dealer ganhava a aposta dos jogadores. Cada par de cartas reveladas formava um turno e, após cada turno, os jogadores poderiam mudar suas apostas para outras cartas (para saber mais sobre o assunto, recomendo o livro “Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne).

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“Case ” para apostas no jogo de faro.

Assim como em todos os jogos que envolvem apostas, foram desenvolvidas muitas técnicas para trapacear no jogo de faro. E aqui entra a necessidade de usar o “embaralhamento perfeito”. O faro chega para o jogo como uma ferramenta a favor do dealer com 2 possíveis funções: 1) atrapalhar eventuais trapaças dos jogadores; e 2) facilitar o lucro da “banca”.

Visto que as cartas eram reveladas aos pares, e tendo em mente que o embaralhamento faro intercala perfeitamente dois montes de 26 cartas (considerando um baralho padrão de 52 cartas), fica fácil entender como essa técnica beneficiava o dealer na mesa de jogo: Basta separar as cartas que o dealer queria que ganhassem em um dos montes e intercalar de forma que elas fiquem nas posições ímpares ou pares, dependendo de quem seria o beneficiado (lembrando que a primeira carta distribuída pertence ao dealer, a segunda aos jogadores).

A execução da técnica de faro era feita na mesa (simulando um riffle shuffle), mas para a mágica isso foi adaptado de forma a poder se fazer sem mesa também, o que aumentou a versatilidade da técnica.

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Embaralhamento faro feito na mesa (esq.); embaralhamento feito na mão (dir.).

– Æ –

OS MÁGICOS DESCOBREM O EMBARALHAMENTO FARO

O primeiro mágico a perceber o potencial do faro para a mágica, foi Jean Hugard em seu livro “Card Manipulation nº 3” de 1934. Porém, o potencial vislumbrado por Hugard foi mais estético do que como uma ferramenta em si. Foi só em 1940 que Hugard, juntamente com Frederick Braue publicaram um estudo bastante extenso sobre o Faro, bem como efeitos usando o faro (vide “Expert Card Technique“, “The Perfect Faro” p. 143 em diante).

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Jean Hugard, o primeiro mágico a ver o faro como uma ferramenta para os mágicos – e não apenas para os trapaceiros em mesas de jogos.

Outros mágicos também passaram a explorar o embaralhamento Faro, pois proporciona diversos princípios matemáticos interessantes para a criação de efeitos. Cabe aqui os seguintes destaques: Ed Marlo e seu famoso efeito “The Miracle Aces”; e Alex Elmsley, com a descoberta do incrível Princípio de Penélope.

– Æ –

CONCLUSÃO

Apesar de ser uma técnica considerada de nível avançado, não é algo tão difícil de aprender, ao contrário do que muitos pensam. O aprendizado da técnica de Faro pode ser muito útil, pois além de proporcionar diversos princípios matemáticos, ainda auxilia para o setups de alguns efeitos. Recomendo o estudo.

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BIBLIOGRAFIA

Livro:Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne (versão digital);

Livro:Marie Antoinette’s Confidante: The Rise and Fall of the Princesse de Lamballe” de Geri Walton;

Livro:Frontier Gambling” de G. R. Williamson;

Livro:Magic Tricks, Card Shuffling and Dynamic Computer Memories” de S. Brent Morris;

Livro:Scarne on Cards” de John Scarne.

O MÁGICO, O COELHO E A CARTOLA

A ORIGEM DO MAIOR ÍCONE DA HISTÓRIA DA MÁGICA

Nenhum truque de mágica é mais icônico do que tirar o coelho da cartola. Embora seja um truque muito pouco executado atualmente, sua fama permeia nossos dias. Sua fama, no entanto, não é por nada. A ideia de tirar o coelho tem aproximadamente 200 anos. Mas o conceito de conjurar animais do nada é muito mais antigo.

Em 1726, em Guildford, Inglaterra, houve o registro de um curioso caso. Mary Toft, uma cidadã comum, chegou em casa e contou ao seu marido, Joshua Toft, que enquanto passeava pela floresta fora molestada por um coelho gigante. O marido não deu bola para a esposa e fez pouco caso, atribuindo a esta história maluca como fruto de uma alucinação. Poucas semanas depois do ocorrido, Mary Toft começou a apresentar alguns sintomas incomuns. O médico local Dr. J. Howard foi chamado para examinar Mary. No dia seguinte o próprio Dr. Howard contou a todos na cidade que Mary Toft havia dado a luz a cinco coelhos. O Dr. Howard continuou acompanhando o caso de Mary Toft e, no fim das contas, ela deu a luz a uma dúzia de lindos coelhos brancos.

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Mary Toft dando a luz a sua ninhada de coelhos (1720)

O rumor espalhou-se rapidamente e não tardou a chegar até a corte, em Londres. Dois enviados foram designados para acompanhar o caso e depois de algum tempo, retornaram à corte e confirmaram o ocorrido. Foi então que o médico da corte, dr. Richard Maningham decidiu investigar o caso. A primeira atitude do Dr. Maningham foi levar Mary até um hospital em Londres. “Misteriosamente” após tal fato, o nascimento dos coelhos parou. Investigando mais a fundo o Dr. Richard descobriu que alguns dias antes de dar a luz, Mary tentou subornar os funcionários do hospital de Guildford para que deixassem entrar no hospital com alguns coelhos (outras fontes complementam ainda que o Dr. Richard fingiu acreditar na história de Mary e sugeriu então que seu útero seria retirado para ser estudado pela ciência).

O fato é que Mary cedeu e acabou confessando que tudo não passava de um truque. O modo como o truque era feito, também diverge: há quem diga que a própria Mary inseria coelhos em seu útero e depois os retirava como se houvessem nascidos dela; outros porém dizem que Mary costurou por baixo de sua roupa um bolso secreto, onde os coelhos eram mantidos até a hora do nascimento. Daí de muitos considerarem Mary Toft a verdadeira “mãe” (trocadilho intencional) do truque de tirar o coelho da cartola (embora segundo o dr. Edwin Dawes em “The Magic Circular” March/April 1987 (Vol. 81 nº 874, p. 60) , essa teoria já foi refutada).

Nesse ínterim, artistas londrinos começaram a apresentar um novo número chamado “O nascimento do coelho”, aproveitando a onda “Mary Toft” que assolava Londres. Segundo Jean Hugard, que conta esta história, os artistas tomavam emprestado os chapéus dos espectadores, colocavam-no sobre uma mesa e com alguns passes mágicos, tiravam um coelho de dentro do chapéu. Enquanto realizavam o truque, contavam a história de Mary Toft.

Em 1747 há o registro de um artista de rua auto entitulado: “O famoso camponês do norte da Holanda” (Le Fameux Paysan de Nort-Holland), que, ao anunciar seu show prometia, entre outras maravilhas, “transformaria qualquer objeto dado por um espectador em um animal de dois ou quatro pés” e ainda “transformar moeda em qualquer tipo de ser vivo”.

Há também o registro de Palatiny, um mágico francês que, em 1799 anunciava um show em que restaurava a cabeça decapitada de um animal, e ainda, um membro da audiência seguraria algo em sua mão e o mágico transformaria esse objeto em um animal vivo.

Diversas fontes dão conta que em 1814, Louis Comte realizou este efeito em público pela primeira vez. Porém, todas as referências sobre o assunto são circulares, ou seja, apontam umas para as outras, sem uma fonte fidedigna de onde tal fato foi retirado. Outros sites de história da mágica apontam o mesmo problema. Fica impossível bater o martelo, portanto, como sendo Louis Comte o criador do efeito.

Comte
Louis Comte

Talvez, dada a falta de referências sólidas sobre Comte, é que alguns autores se refiram à década de 1830 como a época de criação do truque, dentre eles Christopher Milbourne. Milbourne não dá o nome da pessoa que criou o truque, mas ela dá enormes créditos à John Henry Anderson por popularizar o truque.

Anderson
John Henry Anderson

John H. Anderson, também conhecido com “o grande feiticeiro do norte” (the great wizard of the north) nasceu em 1814 na Escócia, mas começou sua carreira em 1831. Anderson chegou a apresentar-se perante a Rainha Vitória, o que certamente lhe rendeu prestígio e fama. O porém é que Anderson é reconhecido como um plagiador, especialmente dos efeitos de Robert-Houdin. Não há evidências que apontem para Robert-Houdin executando o truque do coelho na cartola (ao que consta, Robert-Houdin, não suportava a ideia de maltratar animais, chegando mesmo a discutir com Bosco, sobre isso). Porém, isto consta que talvez Anderson, de fato, não tenha criado o truque original.

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Cartaz do show de Anderson, em que ele anuncia o número de produção de coelhos (1849)

Obviamente que, com o passar dos anos, o truque evoluiu e novas variantes do efeito vieram à tona: desde usar um chapéu emprestado até a famosa versão dos irmãos Herrmann, Carl e Alexander, em que eles pegam emprestado um casaco do espectador e dali tiram o coelho. H.J. Burlingame em sua coluna na revista Mahatma escreve que durante uma apresentação de Alexander Herrmann no Rio de Janeiro (por volta de 1885), os jornais locais divulgaram a seguinte nota:

Já tivemos Patrizio, Mellini, Herrmann e Bosco, todos eles fazendo os mesmos truques: tirando moedas do chapéu, ou da cabeça, dos espectadores, luvas grande e pequena, lenços transformados, e as fitas e os coelhos do chapéu. Mas o melhor dentre estes foi Herrmann (…)”.

Ainda no periódico Mahatma, William Ellsworth Robinson em sua coluna no periódico Mahatma, descreve um truque típico indiano em que uma cesta vazia é coberta com um pano, e dali, um casal de coelhos é produzido. Protul Sorcar, um mágico indiano escreveu um livro chamado “Indian Magic” em que devota 38 páginas defendendoesta  tese.

Mahatma Vol. VII, II (2) C. Lang Neil (Agosto, 1903)
C. Lang Neil critica o uso de esquemas complicados – como o uso de coelhos – para fazer mágica

Com o passar dos anos e a evolução natural da arte mágica, dos grandes efeitos de palco, para a mágica de perto, os coelhos foram caindo em desuso, embora haja registros como por exemplo, do livro “Al Baker’s Pet Secrets” de 1951 no qual ensina alguns efeitos com animais, incluindo uma produção de coelho.

A partir dos anos 1970 grupos de proteção aos direitos animais conseguiram tornar o processo de fazer mágica com animais vivos ainda mais complicado. Por exemplo, nos EUA, para fazer truques com coelhos, é preciso uma autorização especial das agências governamentais.

Há quem teorize que o truque de tirar o coelho da cartola é a epítome de toda a arte mágica: criar (vida) a partir do nada. Outros, teorizam que o truque é famoso por que remete ao conceito do retorno: matam-se coelhos para fazer chapéus, e do chapéu, fazem-se coelhos. Todas essas são teorias que podem ou não ser válidas. Mas uma coisa é fato: tirar o coelho da cartola ainda é um efeito capaz de cativar e de prender o público.

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Propaganda de uma loja de chapéus que transforma coelhos em chapéus.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Periódico: Jean Hugard. “Hugard Magic Monthly“, Vol. VI, nº VII, dezembro de 1948, p. 490

Livro: Émile Campardon. “Les spectacles de la foire: théâtres, acteurs, sauteurs et danseurs de corde, monstres, géants – Vol 2”, 1877, p. 217 a 219

Livro: Barton Whaley “Enciclopedic Dictionary of Magic” 2007, p.756

Livro: Bill Severn “Big Book of Magic“, 1980, p. 212

Livro: Christopher Milbourne “The Illustrated History of Magic“, 1962, p. 91

Livro: Christian Fechner – “The Magic of Robert-Houdin“, Vol. 1, p. 130

Periódico: Mahatma, Vol. IV, II – Coluna de H.J. Burlingame, Agosto de 1900

Periódico: Mahatma, Vol. I, XII – Coluna de W.E. Robinson, Junho de 1898

Livro: James Rand, “Conjuring” 1992, p. 11

 

 

ROBERT-HOUDIN, UMA FRAUDE!*

Minhas investigações deram origem apenas ao mais amargo e mais triste desapontamento. Desprovido de seu véu romanceado, Robert-Houdin se mostrou, sob a luz intransigente dos fatos puramente históricos: um mero fingidor, um homem que enriqueceu sob o trabalho de outros pessoas, um mecânico que, petulantemente, roubou as invenções dos mestres artesãos que lhe precederam.” – Harry Houdini (1906)

– Æ –

Harry Houdini amava sua mãe. Mas havia uma coisa que provavelmente ele amasse mais do que a velha Cecília Weiss: publicidade. Harry amava a publicidade, amava ser reconhecido, invejado e até mesmo odiado. Ele encarnou a expressão “não existe publicidade ruim” inventando inúmeras formas de ser lembrado pelo público; algumas falharam, é verdade, mas a maioria de suas estratégias provou-se um verdadeiro sucesso.

Uma das formas preferidas de publicidade de Houdini era o apelo à emoção. Toda vez que Houdini apresentava-se em uma cidade que abrigava o túmulo de um mágico, ele fazia questão de visitá-lo. Acompanhado de um enorme séquito de repórteres e fotógrafos, Houdini prostrava-se junto à lápide do mágico, descobria a cabeça, baixava sua fronte e deixava-se fotografar em silêncio, contemplando o túmulo. No dia seguinte os jornais locais estampavam a notícia de que “o grande escapista prestara uma homenagem ao já falecido mágico”. O público se emocionava e simpatizava com Harry e com o respeito que ele demonstrara. A gratidão do público se fazia visível ao lotarem os teatros onde Houdini se apresentava.

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Harry Houdini visitando o túmulo de Robert Heller, 1910

Certa vez, Houdini iria apresentar-se em Paris. Decidiu então usar a velha tática de ir ao cemitério para propagandear seu espetáculo. Houdini dirigiu-se até Blois, a 180 km de Paris para visitar o túmulo do mestre Robert-Houdin. Afinal, o que poderia ser melhor do que “homenagear” o homem que lhe “emprestara” o nome e o amor pela magia? Querendo dar um “plus” em sua busca por publicidade, inquiriu os repórteres sobre algum parente vivo de Robert-Houdin que porventura ainda estivesse vivo. Para sua surpresa foi informado que sim haviam parentes vivos – possivelmente os filhos de Robert-Houdin – e que não, eles não queriam vê-lo. Aliás, não só não queriam vê-lo, como não queriam ter qualquer parte com Houdini.

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Lápide de Robert-Houdin em Blois, França

Essa rejeição doeu em Houdini. Como alguém poderia se atrever a não recebê-lo? Houdini nunca buscou saber o porquê da recusa. Talvez eles não gostassem de publicidade (afinal já vinham de uma atribulada vida com Robert-Houdin) e aceitariam um encontro mais discreto. Mas Houdini, vingativo e sanguíneo como era, se recusou a saber os motivos e declarou guerra à memória de Robert-Houdin.

Will Goldston em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” conta que teve o seguinte diálogo com Houdini:

Que diabos, Will!” ele disse, “O que tem de errado comigo? Qualquer um vai achar que sou um leproso! Mas eles vão se arrepender por isso, nem que me custe a vida toda.

O que você quer dizer?” eu perguntei.

Eu estou escrevendo um livro sobre Houdin que fará toda a sua família baixar a bola. Ele vai ter a pior biografia que ele já teve. Ele era um impostor.

Que vergonha, Harry,” eu respondi asperamente. “Você sabe que isso não é verdade. Por que ser tão vingativo? Houdin era um grande mágico e você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

Ele era um impostor, eu digo. Eu juntei todos os fatos para provar isso. E de qualquer forma” concluiu ele baixando o tom da voz “o público vai acreditar em qualquer coisa que eu disser a eles. O ‘Desmascarando Robert-Houdin’ fará com todos percebam isso.

Você está cometendo um grande erro, Harry. Ninguém vai achar que você é uma pessoa melhor depois de um atitude tão bestial. Houdin está morto e não poderá se defender. Um dia desses alguém vai escrever um livro sobre você e o chamará ‘Desmascarando Harry Houdini’.

Ele olhou firmemente para minhas palavras e respondeu: “Se alguém fizer isso, será você,” ele disse lentamente.

Eu ri. “Talvez você tenha razão”, repliquei. “Mas se eu escrever sobre Houdini, nunca vai ser motivado por vingança.

O livro foi publicado em 1907 (embora a edição britânica da obra traga a data de 1906) e foi uma falha de vendas monumental. Embora Houdini tivesse, de fato, juntado muitos fatos sobre Robert-Houdin, ele deixou que sua imaginação escolhesse as palavras do livro. Seu trabalho foi refutado pelos mágicos em geral como “carente de acurácia histórica”. O respeito e a gratidão que todos os mágicos nutriam por Robert-Houdin falou mais alto que o desejo de vingança (e de publicidade) de Houdini.

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Capa da primeira edição do livro de Houdini, 1907.

The Unmasking of Robert-Houdin” (Desmascarando Robert-Houdin) é considerado como o primeiro livro específico de história da mágica publicado (ou ao menos, Houdini assim o propagandeou). Segundo ele foram mais de 15 anos de pesquisa e contém diversas imagens, notas de jornais, e folhetos dos shows de Robert-Houdin. Houdini em sua revista “Harry Houdini’s Conjurers’ Monthly Magazine” de maio de 1908 escreveu que, antes do livro ser colocado à venda, estava sendo anunciado com o preço de US$ 2,00. Quando efetivamente lançado, o preço de capa foi reduzido para US$ 1,00 sob ordem de Houdini que pagou do próprio bolso a diferença, a fim de que seu livro atingisse um público ainda maior.

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Propaganda do livro de Houdini, com o desconto anunciado.

A despeito de todo o esforço empreendido na publicação do livro, ele foi um fracasso. Poucos foram os que efetivamente leram o livro, e os que o fizeram trataram a obra como um ato de despeito. Muitas das cópias do livro – possivelmente as que Houdini deu de presente –  possuem uma anotação escrita a punho pelo próprio Houdini: “Por favor, leia pelo menos a introdução”.

Houdini sofreu fortes críticas pela publicação do livro, em especial de mágicos franceses. Há quem dissesse, na época, que o verdadeiro motivo para ele ter escrito o livro não foi a recusa da família em vê-lo, senão porque simplesmente desiludiu-se com Robert-Houdin e, tendo copiado seu nome a partir do mágico francês, desejava elaborar uma justificativa para poder trocar de nome.

A verdadeira motivação para Houdini ter escrito o livro talvez nunca saibamos. É dito, porém que, anos após a publicação do livro, ao ser questionado sobre a obra, Houdini teria dito que “O único erro que eu cometi foi nomear meu livro como ‘Desamascarando Robert-Houdin’. Deveria ter sido ‘História da Mágica’.

No entanto, justiça seja feita, o livro contém mais do que mera difamação acerca de Robert-Houdin. Além de um relato sobre a história do homem que modernizou a mágica,  serviu também como ponto de partida para a carreira de “debunker” de Houdini. Não obstante, quando encontrou-se com Sir Arthur Conan Doyle, um já conhecido espiritualista, presenteou-o com um exemplar da sua obra “Desmascarando Robert-Houdin”, talvez como um aviso ao novo amigo que não esperasse que ele fechasse os olhos para as fraudes que, porventura, viesse a encontrar.

– Æ –

* OBS: O título do texto, obviamente um chamariz, é baseado em uma famosa frase de Houdini, que, ao desmascarar falsos médiuns, costumava gritar: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”.

– Æ –

FONTES

Livro: Will Goldston “Sensational Tales of Mystery Men”, 1929.

Site: Magicpedia: “The Unmasking of Robert-Houdin

Blog: The Paris Review

O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

… E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Confie em todo mundo, mas sempre corte as cartas

Finley Peter Dunne

1. O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

Jonathan Harrington Green, foi um norte-americano nascido em 1813 e um jogador de cartas profissional. Ele nasceu em Ohio, mas cresceu navegando e jogando/apostando ao longo do Rio Mississipi. Green era um jogador – e um trapaceiro – excepcional. Conta-se que em uma única noite chegou a ganhar US$ 23.000 (aproximadamente US$ 600.000,00 em valores atuais) jogando e, obviamente, trapaceando.

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Jonathan Harrington Green

Para um jovem na casa dos 20 anos Jonathan levava uma vida perfeita: passava os dias viajando e ganhava muito dinheiro. Ele até podia dar-se ao luxo de gastá-lo como bem entendesse. Por isso, ninguém entendeu quando em uma noite de agosto de 1842, aos 29 anos, Jonathan simplesmente largou a sua vida, arrependeu-se de seus “crimes” e passou a liderar uma cruzada contra os jogos de azar.

Esta súbita epifania deu-se quando certa noite, em um barco a vapor navegando pelo Mississipi. Um reverendo metodista estava no barco e distribuía sobre uma mesa alguns folhetos e materiais religiosos. Os companheiros de Green, ignorando o ministro, “varreram” de cima da mesa todo o material religioso, a fim de jogarem cartas. Isso deixou Green extremamente irritado. Ele imediatamente foi até a mesa, pegou todo o material de jogo e atirou no rio. Em seguida trancou-se em sua cabine pelo resto da noite.

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Apostadores do Mississipi (1890’s).

O que parecia ser um fato isolado, um mero colapso nervoso, mostrou-se um novo estilo de vida para Green. Ele passou a estornar tudo o que havia adquirido ilegalmente às suas vítimas. Ele vendeu propriedades e devolveu dinheiro a qualquer um de seus vizinhos que ele houvesse enganado.

A metanoia de Green, porém, traria junto de si a dura realidade. Sem mais jogar, sem propriedades e sem um emprego, Green viu-se obrigado a achar algum meio para fazer dinheiro. Mas o que restaria a um ex-trapaceiro de trinta e poucos anos, sem experiência em outros empregos e com uma fama que não era das melhores? A resposta era óbvia: Jonathan transformou-se em um pregador itinerante que ensinava a população sobre os riscos e os males dos jogos-de-azar.

A produção literária de Jonathan Green também foi bastante profícua: onze livros em 25 anos. Todos eles sobre os métodos de trapaça nas mesas de jogos, sobre a sua vida antiga, suas experiências, sobre como ele tinha agora uma nova vida (ou, em suas palavras, uma vida “reformada”, e até mesmo sobre como os trapaceiros agiam em conluio para tirar dinheiro dos incautos).

Secret Band of Brothers - JH Green
Ilustração de capa do livro Secret Band of Brothers” de JH Green (1848)

Consta que este foi o primeiro show debunker que se tem registro. Sem saber, Jonathan Green acabava de inaugurar uma nova modalidade de shows. Neles, Jonathan mostrava os meios pelo qual trapaceava e alertava sobre como isso era ruim. Seus espectadores eram quase sempre ouvidos religiosos e conservadores que acenavam condescendentes e triunfantes, afinal agora não era mais um reverendo que pregava sobre as mazelas dos jogos de azar, mas um jogador em pessoa, que conhecia de vivência os meandros desse mundo. A causa deixava de ser uma “cruzada moral” e o debate passava a ser um assunto de ordem pública.

Porém, se os seus ouvidos estavam abertos, suas carteiras nem tanto. Pouca era a ajuda financeira que Jonathan Green recebia por suas palestras. Não raro Jonathan perdia dinheiro ao visitar cidades, usualmente saindo mais pobre do que quando havia chegado. Outro problema eram os inimigos que Green estava criando. Os donos das casas de jogos sempre tiveram grande influência sobre a política local. Alguns Prefeitos, inclusive, eram donos de casas de apostas. Assim, por mais que a comunidade religiosas pressionasse, isso surtia pouco ou nenhum efeito. Algumas cidades até conseguiram aprovar leis anti-jogo, mas elas não duravam mais do que um ou dois anos.

Mas mesmo sua cruzada não sendo frutífera, os inimigos de Green não deixaram barato. Muitos jornais começaram a receber dinheiro dos donos de casas de jogos e de outros negócios correlatos, como os fabricantes de bebida e bordeis, para desmoralizar a causa de Jonathan. Para cada jornal que noticiava a causa de Jonathan, outro imediatamente lhe destratava: questionavam sua real motivação e traziam à tona até mesmo suas dívidas correntes.

Sendo massacrado pelos “ex-companheiros” e recebendo pouco retorno financeiro de sua nova “família”, Jonathan viu-se em uma situação difícil. Uma situação acontecida com ele em 1848 ilustra bem isso: Jonatham foi preso por estar em posse de duas notas falsas de US$ 500,00. Os jornais se apressaram em destruir a sua reputação, e até a data do julgamento já havia sido marcada e amplamente anunciada. O que ninguém sabia é que o Governo Americano estava ciente das notas e mais do que isso – foi o próprio Governo que as forneceu a Jonathan, que agia como um agente federal disfarçado. As notas eram “modelos” que Jonathan deveria procurar por onde passasse, a fim de que o Governo pudesse desbaratinar ações ilegais de lavagem de dinheiro. Obviamente as acusações sobre ele foram retiradas, mas não sem antes ele passar um bom tempo preso e ter sua imagem, mais uma vez, arranhada.

Sem dinheiro, sem um apoio efetivo e maciço da população e sem poder bater de frente com os barões do jogo, a causa de Jonathan tornava-se estéril e infrutífera. Jonathan precisava urgentemente de uma saída. Como bom trapaceiro, ele ainda tinha uma carta na manga: em Jonathan foi a público denunciar que todos (sim, TODOS) os baralhos em uso nos Estados Unidos estavam marcados e que era possível saber a identidade de qualquer carta apenas pelo seu dorso. E Jonathan Green provou a sua tese.

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2. E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Os puritanos ficaram extasiados com a declaração de Green. Suas suspeitas finalmente se confirmaram e eles estavam certos o tempo todo: o jogo era não só um mal moral, mas uma ilegalidade e devia ser extirpado. Uma conspiração entre os trapaceiros e as fábricas de cartas era saborosa demais para ser ignorada.

1800's Marked Cards Patterns
Padrões de cartas marcadas, segundo JH Green (1848)

A bomba lançada por Green causou muitos estragos. Especialmente porque Green conseguiu, vez após vez, provar o que ele dizia. A cada apresentação ele trazia alguns baralhos dos mais diversos fabricantes e mostrava ser capaz de ler cada carta pelo seu dorso. As marcas que ele mostrava eram engenhosas e Green explicou detalhadamente cada uma delas. Algumas eram tão evidentes que Jonathan as lia a uma distância de 3 ou 4 metros.

Mas a situação ficou ainda melhor. Pessoas leigas começaram a trazer seus próprios baralhos para que Green os lesse. E a cada novo desafio, Green comprovava a sua teoria. O jornal “Boston Mail” de 15 de setembro de 1844 escreveu que após uma apresentação em Marlborough Chapel um grupo de cavalheiros aproximou-se de Jonatham e lhe desafiou a ler o dorso de algumas cartas. O grupo embaralhou as cartas e separou algumas. Jonathan não só leu as 18 cartas selecionadas pelo grupo, como leu as 34 cartas restantes. A cada nova apresentação, a cada novo desafio aceito, a acusação de uma conspiração nacional se mostrava mais e mais verdadeira.

Os jornais – que outrora perseguiam Green, começaram a dar o braço a torcer. Muitos editoriais começaram a admitir que diante de tais evidências, apenas um tolo arriscaria seu dinheiro nas mesas de jogos.

Purity Crusade
“Purity Crusade” (Cruzada Puritana), organização cívico-religiosa contra os vícios da bebidas, jogos e prostituição (1874). Elas oravam e cantavam hinos em frente aos bares e casas de má-fama, ao ponto de muitas vezes serem presas pelas autoridades policiais.

Agora façamos uma pequena pausa aqui, caro leitor, e pensemos de modo racional e prático: o que é o mais provável? Uma gigantesca conspiração nacional dos fabricantes de baralho, das centenas de casas de jogos, e dos milhares de carteadores para roubar um país inteiro, ou um ex-trapaceiro voltando a trapacear? Não é preciso raciocinar muito para descobrir a resposta. Embora a intenção de Jonathan fosse a melhor possível, o meio utilizado por ele para tornar verdadeira a sua acusação é bastante questionável.

A proposição de Green tinha ainda uma falha grave. Se todos os baralhos fabricados fossem, de fato marcados, porque os trapaceiros gastariam pequenas fortunas comprando baralhos declaradamente marcados nas lojas de material para jogos?

Mas então como Jonathan Green fez para ler a face das diversas cartas? O fato é que jamais saberemos com certeza, mas o mágico e pesquisador David Britland em seu livro “Phantoms of the Card Table” tem uma teoria bastante interessante à respeito. As lojas e catálogos de material para jogos vendiam um aparato chamado “shiner” ou brilhante. Ele era basicamente um espelho convexo disfarçado que ficava em cima da mesa e, ao se apontar a carta para o brilhante, era possivel ler o seu valor através do seu reflexo. O “brilhante” podia ser uma bacia para comida, um cachimbo, enfim, qualquer coisa insuspeita que pudesse ficar em cima da mesa de jogo, anexada na borda da mesa ou em alguns casos, atrás do jogador alvo.

O curioso é que, apesar de ser um objeto bastante comum, Jonathan Green jamais o mencionou em suas apresentações. Green poderia facilmente, em suas apresentações, ter secretamente anexado um brilhante na borda da mesa e, enquanto entregava as cartas, lia o seu valor. O resto era mise-en-scene.

James McMannus em seu livro “Cowboys Full: The History of Poker” constata que, ironicamente, a cruzada de Jonathan Green contra os jogos de azar, acabou por aguçar a curiosidade das pessoas comuns e ajudou à popularização do pôquer.

Jonathan passou o resto de sua vida caçando trapaceiros e casas de jogos. Segundo suas pesquisas, apenas em Nova York, nos anos 1850, haviam 6.000 casas de jogos sendo 200 delas estabelecimentos de alta classe. Ele ainda lutaria na Guerra Civil Americana como capitão pelo lado da União (Norte). Ali, ao lado de políticos conservadores, Green chegou a criar um estudo para banir os jogos de azar do território americano. Porém quanto mais lutava contra, mais claro ficava que não se deveria jogar o bebê fora com a água do banho. O jogo deveria sim ser regulado, mas não proibido, afinal que mal haveria uma mesa de pôquer entre amigos? Além disso a população americana, aprendeu a gostar de jogar pôquer. E talvez, essa tenha sido, no fim das contas, a maior contribuição de Jonathan Green para o mundo.

NY Supression of Vice
Símbolo da sociedade Nova Iorquina da Supressão do Vício (1873)

Jonathan ainda trabalharia para o Serviço Secreto, além de ter trabalhado como inventor, chegando a registrar em torno de 25 patentes em seu nome, mas estas não lhe renderam muito dinheiro. No fim de sua vida, teve que pedir ajuda aos amigos para poder pagar pelo funeral da esposa.