O QUE HOUDINI ESTARIA FAZENDO HOJE…

ESTARIA ELE SE PROMOVENDO NA INTERNET?

Escrito e ilustrado por Henri Sardou

– Æ –

Se perguntarmos, entre leigos e mágicos, quem é o mágico mais famoso do mundo – vivo ou morto – chegaremos rapidamente a alguns nomes, contudo a grande maioria vai responder um só. Ele mesmo, Houdini, o homem, não só o artista ou o mágico, a personalidade mais famosa do mundo no século XX. Mas se você indagar na rua quem foi Ehrich Weisz ninguém vai saber te responder.

Essa foi a primeira grande sacada de Harry Houdini, ter tomado para si um nome semelhante ao do francês Robert Houdin – considerado o pai da mágica moderna e um dos mágicos mais famosos até então – com sonoridade já associada ao ilusionismo entre artistas e leigos. Mais que um bom mágico, Houdini era um gênio do marketing e se preocupou com a construção da sua marca, desde o naming (criação do nome) até o posicionamento, se colocando no top of mind até hoje quando o assunto é mágica.

RobertHoudinKibado
Jean Eugène Robert-Houdin foi o pioneiro em levar a mágica para os palcos elegantes dos teatros.

Nesse momento você deve estar estranhando um artigo falando sobre marketing digital começar falando de Houdini, um mágico que já está morto há quase cem anos sem sequer ter visto uma calculadora eletrônica na frente.

“Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele”.

Simples, porque Houdini foi o primeiro mágico, o primeiro artista, que se deu conta do poder que as histórias que são contadas têm. Mais importante que o feito é aquilo que será contado sobre ele.  Houdini chegava em uma cidade e fazia questão de ser desafiado pelo homem mais forte do local, que lhe dava um soco na barriga, sem que ele sentisse absolutamente nada. Isso não só era um feito memorável, como também uma isca para atrair atenção da imprensa para a turnê que começaria na cidade. Sabe como é o nome disso? Marketing.

HoudiniSoco
Houdini só não esperava levar um soco enquanto estava despreparado, o que acabou levando-o à morte.

Esse mesmo marketing que levou o título de ”King of Cards” a se perpetuar até hoje, mesmo Houdini não tendo sido tão hábil com as cartas, perpetuando esse mito. Inclusive, para sermos honestos, Houdini era um mágico bem mediano, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos.

Deixando de lado a iconoclastia sobre a mágica de Houdini, o fato é que ele era capaz de fazer eventos ao ar livre, para milhares de pessoas assistirem, antes sequer da televisão. Esses espectadores que testemunhavam os feitos espetaculares dele, no dia seguinte comentavam e mostravam a quem não tinha visto através dos jornais. Isso amplificava a popularidade de Houdini de uma forma tão grande e eficaz, que logo sua fama atravessou o atlântico, consagrando Houdini como a primeira celebridade global de que se tem notícia, num mundo onde mal existia telegrama, quem diria telefone ou WhatsApp, vale lembrar.

HoudiniCamisaDeForça
Multidão de 12 mil espectadores vendo Houdini se libertar de uma camisa de força.

 

“Houdini era um mágico bem normalzão, muito mais hábil em manipular audiências do que manipulando objetos”.

É exatamente esse conceito que eu venho lembrar aqui. Os mágicos devem construir sua audiência, exatamente como Houdini fez. Não importa se você não se sente o melhor mágico do mundo (difícil, hein?), você tem que fazer parecer isso, de forma profissional e consistente, usando os meios de comunicação modernos e fazendo marketing digital.

– Æ –

HOUDINI TERIA SEU PRÓPRIO “JORNAL” HOJE

A grande facilidade da internet é a possibilidade de cada um ter seu próprio jornal de grande circulação, sua mídia particular. Não apenas um jornal, mas um canal de televisão inteiro, com revistas, correio e uma empresa de telefonia junto. As redes sociais possibilitam muito mais interação e têm uma penetração maior ainda.

HoudiniFanPage
Harry Houdini teria uma fanpage, mas não convidaria mágicos para curtir.

Antigamente o jornal estava presente na mesa do café da manhã, no escritório e no máximo no banheiro. Hoje nós levamos o celular para todos esses lugares, além do carro, da cama, cozinha e até da banheira.

Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias, tenha certeza, e seria um guru do marketing digital. Estaria transmitindo seus feitos para milhares de pessoas numa live, estaria postando vídeos de performances e vídeos promocionais de sua turnê, estaria fazendo bom proveito de todos os recursos que as mídias sociais oferecem, para amplificar e potencializar seus feitos espetaculares.

Sim, porque mágicos fazem coisas espetaculares, você deve saber disso se chegou até aqui, né? Agora imagine que mágicos são contratados frequentemente por outros artistas para chamarem atenção para um lançamento ou uma participação no show, espetáculo ou no clipe. São contratados para promoverem lançamentos de produtos com mágica, porque a mágica chama atenção e fixa a mensagem na cabeça do consumidor. Fazem shows em eventos sociais porque as pessoas querem ter um momento mágico, único e inesquecível em suas festas. Estão em festas, eventos produções teatrais e audiovisuais, shows e até em desfiles de escola de samba. Então por que diabos os próprios mágicos não usam a si mesmos para causar os mesmos resultados que as pessoas que os contratam objetivam, em sua própria audiência?

“Se Houdini estivesse vivo nos dias de hoje, estaria usando como ninguém essas novas mídias”

Ao contrário, o que se vê frequentemente são mágicos postando um festival de imagens terríveis, com textos sofríveis, ou artes apoteoticamente horríveis na internet. Vemos diariamente mágicos divulgando seus serviços para outros mágicos (?!) em grupos, além de bom dia, chorume e discussão bolsonaro 2018, ou o que é pior, vemos um milhão de notificações tipo ”Fulano convidou você para curtir a página Mágico Fulano dele”.

IMG-20171127-WA0010[1]
1) O mágico posta, curte, compartilha e comenta a própria postagem em um grupo de mágica;    2) O slogan que fala exatamente o oposto do que o cliente precisa ouvir (no cartão está escrito “O mágico que falta em sua festa!“); 3) Convidar outros mágicos para curtir a sua página é um tremendo tiro no pé!

Tudo isso a gente testemunha diariamente, mas o que é bom para construir audiência e impactar clientes, futuros contratantes e construir reputação não, isso quase ninguém vê. Harry estaria mais uma vez nadando de braçada na frente dessa concorrência hoje em dia, usando estrategicamente os novos meios de comunicação que são as redes sociais.

Quem não usa, por exemplo, o Facebook – para negócios – e não tá disposto a usar comercialmente, pode fechar esse texto, ir tomar um café, um shot de cicuta ou se matar com um tiro na cabeça, porque já está morto, assim como Ehrich Weisz. O mundo muda dia a dia e se há dez anos atrás o Facebook nem existia no Brasil, hoje se você não estiver na maior rede social do mundo quem não existe é você.

Portanto, se você não está agindo engenhosamente no digital, encomende sua lápide, porque é só isso que falta.

ROBERT-HOUDIN, UMA FRAUDE!*

Minhas investigações deram origem apenas ao mais amargo e mais triste desapontamento. Desprovido de seu véu romanceado, Robert-Houdin se mostrou, sob a luz intransigente dos fatos puramente históricos: um mero fingidor, um homem que enriqueceu sob o trabalho de outros pessoas, um mecânico que, petulantemente, roubou as invenções dos mestres artesãos que lhe precederam.” – Harry Houdini (1906)

– Æ –

Harry Houdini amava sua mãe. Mas havia uma coisa que provavelmente ele amasse mais do que a velha Cecília Weiss: publicidade. Harry amava a publicidade, amava ser reconhecido, invejado e até mesmo odiado. Ele encarnou a expressão “não existe publicidade ruim” inventando inúmeras formas de ser lembrado pelo público; algumas falharam, é verdade, mas a maioria de suas estratégias provou-se um verdadeiro sucesso.

Uma das formas preferidas de publicidade de Houdini era o apelo à emoção. Toda vez que Houdini apresentava-se em uma cidade que abrigava o túmulo de um mágico, ele fazia questão de visitá-lo. Acompanhado de um enorme séquito de repórteres e fotógrafos, Houdini prostrava-se junto à lápide do mágico, descobria a cabeça, baixava sua fronte e deixava-se fotografar em silêncio, contemplando o túmulo. No dia seguinte os jornais locais estampavam a notícia de que “o grande escapista prestara uma homenagem ao já falecido mágico”. O público se emocionava e simpatizava com Harry e com o respeito que ele demonstrara. A gratidão do público se fazia visível ao lotarem os teatros onde Houdini se apresentava.

harry_houdini_at_robert_heller_grave
Harry Houdini visitando o túmulo de Robert Heller, 1910

Certa vez, Houdini iria apresentar-se em Paris. Decidiu então usar a velha tática de ir ao cemitério para propagandear seu espetáculo. Houdini dirigiu-se até Blois, a 180 km de Paris para visitar o túmulo do mestre Robert-Houdin. Afinal, o que poderia ser melhor do que “homenagear” o homem que lhe “emprestara” o nome e o amor pela magia? Querendo dar um “plus” em sua busca por publicidade, inquiriu os repórteres sobre algum parente vivo de Robert-Houdin que porventura ainda estivesse vivo. Para sua surpresa foi informado que sim haviam parentes vivos – possivelmente os filhos de Robert-Houdin – e que não, eles não queriam vê-lo. Aliás, não só não queriam vê-lo, como não queriam ter qualquer parte com Houdini.

robert-houdin_grave
Lápide de Robert-Houdin em Blois, França

Essa rejeição doeu em Houdini. Como alguém poderia se atrever a não recebê-lo? Houdini nunca buscou saber o porquê da recusa. Talvez eles não gostassem de publicidade (afinal já vinham de uma atribulada vida com Robert-Houdin) e aceitariam um encontro mais discreto. Mas Houdini, vingativo e sanguíneo como era, se recusou a saber os motivos e declarou guerra à memória de Robert-Houdin.

Will Goldston em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” conta que teve o seguinte diálogo com Houdini:

Que diabos, Will!” ele disse, “O que tem de errado comigo? Qualquer um vai achar que sou um leproso! Mas eles vão se arrepender por isso, nem que me custe a vida toda.

O que você quer dizer?” eu perguntei.

Eu estou escrevendo um livro sobre Houdin que fará toda a sua família baixar a bola. Ele vai ter a pior biografia que ele já teve. Ele era um impostor.

Que vergonha, Harry,” eu respondi asperamente. “Você sabe que isso não é verdade. Por que ser tão vingativo? Houdin era um grande mágico e você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

Ele era um impostor, eu digo. Eu juntei todos os fatos para provar isso. E de qualquer forma” concluiu ele baixando o tom da voz “o público vai acreditar em qualquer coisa que eu disser a eles. O ‘Desmascarando Robert-Houdin’ fará com todos percebam isso.

Você está cometendo um grande erro, Harry. Ninguém vai achar que você é uma pessoa melhor depois de um atitude tão bestial. Houdin está morto e não poderá se defender. Um dia desses alguém vai escrever um livro sobre você e o chamará ‘Desmascarando Harry Houdini’.

Ele olhou firmemente para minhas palavras e respondeu: “Se alguém fizer isso, será você,” ele disse lentamente.

Eu ri. “Talvez você tenha razão”, repliquei. “Mas se eu escrever sobre Houdini, nunca vai ser motivado por vingança.

O livro foi publicado em 1907 (embora a edição britânica da obra traga a data de 1906) e foi uma falha de vendas monumental. Embora Houdini tivesse, de fato, juntado muitos fatos sobre Robert-Houdin, ele deixou que sua imaginação escolhesse as palavras do livro. Seu trabalho foi refutado pelos mágicos em geral como “carente de acurácia histórica”. O respeito e a gratidão que todos os mágicos nutriam por Robert-Houdin falou mais alto que o desejo de vingança (e de publicidade) de Houdini.

unmasking-robert-houdin-1st-edition
Capa da primeira edição do livro de Houdini, 1907.

The Unmasking of Robert-Houdin” (Desmascarando Robert-Houdin) é considerado como o primeiro livro específico de história da mágica publicado (ou ao menos, Houdini assim o propagandeou). Segundo ele foram mais de 15 anos de pesquisa e contém diversas imagens, notas de jornais, e folhetos dos shows de Robert-Houdin. Houdini em sua revista “Harry Houdini’s Conjurers’ Monthly Magazine” de maio de 1908 escreveu que, antes do livro ser colocado à venda, estava sendo anunciado com o preço de US$ 2,00. Quando efetivamente lançado, o preço de capa foi reduzido para US$ 1,00 sob ordem de Houdini que pagou do próprio bolso a diferença, a fim de que seu livro atingisse um público ainda maior.

propaganda_livro
Propaganda do livro de Houdini, com o desconto anunciado.

A despeito de todo o esforço empreendido na publicação do livro, ele foi um fracasso. Poucos foram os que efetivamente leram o livro, e os que o fizeram trataram a obra como um ato de despeito. Muitas das cópias do livro – possivelmente as que Houdini deu de presente –  possuem uma anotação escrita a punho pelo próprio Houdini: “Por favor, leia pelo menos a introdução”.

Houdini sofreu fortes críticas pela publicação do livro, em especial de mágicos franceses. Há quem dissesse, na época, que o verdadeiro motivo para ele ter escrito o livro não foi a recusa da família em vê-lo, senão porque simplesmente desiludiu-se com Robert-Houdin e, tendo copiado seu nome a partir do mágico francês, desejava elaborar uma justificativa para poder trocar de nome.

A verdadeira motivação para Houdini ter escrito o livro talvez nunca saibamos. É dito, porém que, anos após a publicação do livro, ao ser questionado sobre a obra, Houdini teria dito que “O único erro que eu cometi foi nomear meu livro como ‘Desamascarando Robert-Houdin’. Deveria ter sido ‘História da Mágica’.

No entanto, justiça seja feita, o livro contém mais do que mera difamação acerca de Robert-Houdin. Além de um relato sobre a história do homem que modernizou a mágica,  serviu também como ponto de partida para a carreira de “debunker” de Houdini. Não obstante, quando encontrou-se com Sir Arthur Conan Doyle, um já conhecido espiritualista, presenteou-o com um exemplar da sua obra “Desmascarando Robert-Houdin”, talvez como um aviso ao novo amigo que não esperasse que ele fechasse os olhos para as fraudes que, porventura, viesse a encontrar.

– Æ –

* OBS: O título do texto, obviamente um chamariz, é baseado em uma famosa frase de Houdini, que, ao desmascarar falsos médiuns, costumava gritar: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”.

– Æ –

FONTES

Livro: Will Goldston “Sensational Tales of Mystery Men”, 1929.

Site: Magicpedia: “The Unmasking of Robert-Houdin

Blog: The Paris Review

BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

-x-

1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

-x-

2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

hermmanns
(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

-x-

3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

fooesoo
(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

-x-

4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

selbitegoldin
(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

-x-

5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

houdiniethurston
(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

-x-

David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

copperfieldebecker
(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

-x-

4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.

HOUDINI, O MESTRE DOS DISFARCES

” “Eu sou Houdini, e você é uma fraude!”

Harry Houdini

1. INTRODUÇÃO

Muitos conhecem a cruzada que Harry Houdini empregou contra os falsos espíritas que assolavam o início do século XX com suas demonstrações sobrenaturais. O que poucos sabem é que Houdini costumava se disfarçar para poder entrar infiltrado nas séances (sessões espíritas), a fim de desmascarar os charlatões. Senhoras e senhores, Houdini, o mestre dos disfarces.

-x-

2. AS FACES DE HOUDINI

Houdini começou a disfarçar-se para espiar seus rivais escapistas. Em um dos mais famosos casos, Houdini estava em Cardiff no Cardiff Empire Theater assistindo ao show de Frank Hilbert, chamado “The Bubble Burst”. Hilbert estava mostrando como um escapista experiente podia esconder diversos instrumentos em sua roupa quando um senhor de cabelos grisalhos, barba, óculos e bengala levantou-se e começou a gritar à plenos pulmões: “você é uma fraude, você é uma maldita fraude”.

Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert
Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert

Neste momento, duas mulheres sentadas logo atrás do velho senhor se puseram de pé ao lado do velho quando uma delas levantou um par de algemas aos olhos do público e dirigindo-se ao homem no palco gritou: “Esse homem não usa algemas oficiais da Polícia. Ele tem as suas próprias algemas. Mas eu tenho aqui uma algema oficial da polícia e o desafio a abrí-las.”

Enquanto isso o velho senhor continuava gritando até que foi cercado pelo gerente do teatro e dois lanterninhas que o tentavam fazer parar. O velho começou a girar a bengala no ar até que teve que ser contido por um terceiro lanterninha. Quando o grupo levava o o velho para fora do teatro, a barba do senhor caiu e todos reconheceram o velho: era Harry Houdini. As mulheres eram Bess Houdini, esposa de Harry, e sua irmã Gladys.

“Senhoras e senhores, vejam como estão me tratando”, gritou Houdini. “Isto não está certo!”. “Vergonha!” o público gritava em responso. “Deem-lhe uma chance” alguém da plateia sugeriu. Uma chance era algo que o gerente do teatro sequer pensaria. Ele havia sido alertado pelo dono do teatro, sr. Oswald Stoll que Houdini tentaria entrar disfarçado para expor Hilbert.

O disfarce de Houdini era feito por um maquiador profissional e incluia um nariz postiço feito de cera e enganou completamente a gerência do teatro. Quando perceberam que se tratava de Houdini, o ímpeto em retirá-lo do teatro aumentou: esta era a ordem de Stoll.

Houve uma briga fora do teatro e Houdini quase teve a perna quebrada pelo gerente. Mais tarde naquela noite, Houdini apareceu no King’s Theater para sua apresentação, sujo, cabelo desarrumado e mancando. Quando contou o que havia acontecido, recebeu efusivos aplausos e retirou-se do palco. Mais tarde naquele dia, Houdini escreveu no seu diário: “Me disfarcei. Fui expulso do teatro e apanhei na rua. Isso foi bom para os meus negócios.

Houdini disfarçado com "Mr. WHite"
Houdini disfarçado com “Mr. WHite”

Este era um dos disfarces favoritos de Houdini: um velho senhor de óculos e bengala, o qual Houdini batizou como “Mr. White” (curiosamente, a forma anglicizada de seu nome de batismo “Weiss”). Houdini também possuia outros “aliases”, um deles, um senhor de barbas chamado “F. Fraud”. Este nome também era utilizado pela agente de Houdini, Rose Mackenberg, que se difarçava, entre outros, como Reverenda Francis Raud. Também há registros de Houdini se disfarçar como o Sr. Smith.

-x-

3. HOUDINI, O DESMASCARADOR

Mas como Houdini transformou-se em um desmascarador de falsos médiuns? Arthur Moses em seu livro “Houdini speaks out: I’m Houdini and you are a fraud” conta que após a morte de Rabi Weiss, pai de Houdini, em 1892, este fez com que o filho prometesse tomar conta de sua mãe, Cecília. Assim, cumprindo uma promessa que fizera ao pai, Houdini passou a se dedicar a mãe, tornando-se quase um devoto dela, a ponto de chegar a declarar: “Minha mãe significa minha vida. Sua felicidade era sinônimo de minha paz de espírito”.

Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)
Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)

Quando ela faleceu em 1913, Houdini ficou arrasado. Pela primiera vez em sua vida pública, Houdini cancelou shows e contratos públicos e dedicou-se ao seu luto. Por várias semanas Houdini era visto no cemitério, ditado sobre o túmulo de sua mãe, apenas para ficar mais perto dela. Cheio de luto e desesperado, Houdini passou a buscar conforto em sessões mediúnicas, com o intuito de tentar contatar a sua mãe. Por muitos anos ele buscou conforto no espiritismo. Ele mantinha a mente aberta, mas parte dele continuava cética.

A mudança em Houdini se deu quando seu amigo, Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e um ferrenho defensor do espiritualismo, veio aos EUA em 1922 para uma série de palestras e demonstrações sobre o espiritismo. Houdini e Doyle já se trocavam cartas havia dois anos, e portanto um sabia das convicções do outro.

Os Doyle recebem um convite de Houdini para assistirem ao filme “The Man from Beyond” um filme estrelado pelo próprio Houdini. Como cortesia, os Doyle convidam Houdini e sua esposa para assistirem à sua palestra sobre espiritismo que aconteceria em Atlantic City. Durante a palestra, Lady Jean Doyle, esposa de Sir Arthur, recebeu o espírito de Cecília, mãe de Houdini, e psicografou-lhe uma carta de 15 páginas.

Houdini (ao centro) junto à família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita).
Encontro de Houdini (ao centro) e da família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita). A foto foi tirada em Atlantic City, quando a carta “psicografada” foi escrita.

Houdini não poderia ter ficado mais desapontado. As supostas palavras de sua mãe, psicografadas por Lady Doyle não poderiam ser mais imprecisas. Primeiro, a carta fora escrita inteiramente em inglês, uma língua que a sra. Cecília mal sabia falar, quanto menos escrever. Pior, a carta fora marcada com uma cruz no topo da primeira página. Cecília era uma judia devota e jamais desenharia uma cruz. Por fim a carta foi escrita em 17 de junho, data do aniversário de Cecília. Novamente, nenhuma menção a data, por parte do “espírito”. Assim, alquebrado, mas tentando não insultar o amigo, Harry educamente recusou a aceitar a carta como legítima. Sobre o episódio, Houdini disse que não achava que os Doyle o houvessem enganado propositadamente, mas que eram meras vítimas de sua própria ingenuidade.

Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.
Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.

Foi então que, em sua busca por um clarividente de verdade, Harry passou a frequentar as séances, e a cada nova sessão ficava ainda mais desapontado: por que todos mentiam? Não tardou para que seu desapontamento virasse mágoa e alimentasse um desejo de vingança. Assim Harry começou a sua cruzada desmascarando charlatões. Houdini continuava acreditando ser possível contatar espíritos, apenas cria que pagar uma entrada não era o método correto para tal.

Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa)
Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa).

Como tinha uma agenda lotada, Houdini frequentemente enviava sua sócia Rose Mockenberg para a cidade na qual se apresentaria dali alguns dias. Rose, se disfarçava como uma viúva desconsolada, uma mãe que perdera o filho ou mesmo uma esposa abandonada e frequentava as sessões. Após a avaliação de Rose, Houdini se disfarçava e ia para a sessão com o intuito de desmascarar os falsos médiuns. O disfarce se fazia necessário, pois Houdini já era um rosto famoso em seu tempo.

rose3 rose2

Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.
Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.

Quando o momento da trampa chegava, Houdini de forma triunfante tirava o seu disfarce e gritava: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”, expondo assim o médium. Além disso, não raro Harry convidava policiais ou outras autoridades para que se fizessem presentes à sessão. O resultado é que muitos médiuns e simpatizantes do espiritismo detestavam Houdini.

Houdini praticando uma falsa sessão espírita
Houdini praticando uma falsa sessão espírita.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.

É importante notar que Houdini não era contra o espiritismo ou a religião em si, mas contra os charlatões que se valiam da boa fé das pessoas e lucravam às custas da fé alheia. Fosse hoje talvez Houdini desmascarasse outros charlatões por aí.

-x-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Site: Wild About Houdini

Site: The Magic Detective

Site: The Great Harry Houdini

Livro: “Houdini Speaks Out: ‘I Am Houdini! And You are a Fraud!’ ” de Arthur Moses

Livro: “The Secret Life of Houdini: The Making of America’s First Superhero” de William Kalush e Larry Sloman

Livro:The Secrets of Houdini” de J.C. Canell

O MÁGICO E O “EXPERT” NA MESA DE CARTEADO

Uma das mais famosas histórias da mágica foi o embate entre o mundialmente famoso Harry Houdini e o, até então desconhecido, Dai Vernon. A seguir, detalhes e fatos curiosos sobre essa história.

1. O CONTEXTO

O ano era 1922. Houdini era, talvez, o mágico mais famoso de sua época, e sua grande fama só era equiparada a sua arrogância. Do alto de seus 48 anos de idade, sendo 31 deles dedicados à carreira, Houdini anunciava: “Mostre-me qualquer truque de cartas três vezes seguidas, e eu lhe direi como você fez.”

Harry Houdini já era o famoso escapista. Mas antes de conseguir sua fama como mestre das fugas, Houdini promovia-se como “O Rei das Cartas”. Jim Steinmeyer em seu livro: “Hiding the Elephant” diz que Houdini não era o melhor mágico de sua época – posto ocupado por Howard Thurston. Porém, enquanto Thurston promovia seus shows, Houdini promovia a sua própria lenda, daí o porquê o nome de Houdini ser, até hoje, sinônimo de mágica.

1895 - Harry Houdini, king of cards
Cartaz de Houdini de 1895

Foi nesse contexto que um jovem canadense encontrou Houdini no Great Northern Hotel em Chicago. Esse jovem aceitou o desfaio de Houdini e executou um número que estava em alta na época: a carta ambiciosa.

2. A CARTA AMBICIOSA

A rotina original da carta ambiciosa é atribuída ao mágico francês Gustav Abelrti e teria sido criada em meados do século 19. No livro “Nouvelle Magie Blanche Devoilée” de Ponsin há um efeito similar.

Ambiciosa Ponsin
Suposto truque “pai” de “A Carta Ambiciosa”, 1854

Vernon apresentou a sua própria versão de A Carta Ambiciosa.  Houdini escolheu uma carta e assinou nela as suas iniciais “HH” e devolveu a carta no meio do deque. Com um estalo de dedos a carta assinada magicamente apareceu no topo do deque. Houdini ficou assombrado e Dai Vernon repetiu o truque. E depois, mais uma vez, pela terceira vez, desafiando assim Harry Houdini. “Você tem uma carta duplicada” chutou Houdini. Vernon calmamente replicou: “Com as suas iniciais, Harry?” Houdini então sugeriu que Vernon pudesse estar usando um swammi, mas Vernon replicou que as iniciais estavam escritas com tinta. “Já se fabrica com tinta, agora” tentou Houdini, mas nenhum mágico no recinto sequer havia ouvido falar em swammi com tinta.  “Harry, você foi enganado” gritou Sam Margules, um produtor do shows de mágica e antigo assistente de palco de Horace Goldin.

Ultrajado e indignado, Houdini exigiu que Vernon fizesse o truque mais uma vez, muito embora Vernon já o tivesse repetido três vezes, o limite do desafio do próprio Houdini. Dai Vernon, diante de alguns dos melhores mágicos de Chicago repetiu o truque mais quatro vezes. Ao todo, sete vezes em sequência. E a carta assinada por Harry Houdini, teimou em aparecer no topo do deque todas as vezes. Houdini até tentou empurrar devagar e deliberadamente a sua carta no meio do deque, mas isso não fez diferença nenhuma. Houdini não admitiu ter sido enganado, e saiu. No entanto sua esposa Bess Houdini (que acabou se tornando madrinha do filho de Vernon, Ted) mais tarde admitiu para Dai vernon que Houdini passou metade daquela noite acordado tentando descobrir como o truque foi feito, porém sem sucesso.

O número de Dai Vernon tornou-se imediatamente um clássico e ficou conhecido como “o truque que enganou Houdni”. Harry Houdini era invejoso e orgulhoso, e jamais admitiu ter sido enganado. Alguns anos mais tarde, Houdini – então presidente da Sociedade Americana de Mágicos – e outros mágicos estavam em uma reunião anual no Restaurante Riggs, em Nova York. Dentre os presentes, Sam Margules, Al Baker, Sam Horowitz e… Dai Vernon. Houdini então sobe ao palco e apresenta alguns números com cartas e executa um empalme bastante medíocre. Margules, inocentemente, sugere que Houdini pedisse que Vernon o ensinasse a empalmar. Houdini enlouqueceu. A mera sugestão que outro mágico pudesse ensinar algo ao grande Houdini o enfureceu. Mas não se sabe que o que o enfureceu de verdade foi a sugestão de aprender com outro mágico, ou se o fato desse outro mágico ser Dai Vernon. Coincidência ou não, uma das frases mais famosas de Dai Vernon refere-se justamente à técnica do empalme: “A maioria dos mágicos… consideram o empalme um movimento fácil de fazer e estão inclinados a acreditar que ‘eles conseguem se safar com ele’, quando na verdade eles apenas tem a sorte de ter uma plateia educada.

Charles Miller e Dai Vernon enganando Houdini. Desenho de Akemi Yoshida
Charles Miller e Dai Vernon enganando Houdini. Desenho de Akemi Yoshida

3. “THE EXPERT AT THE CARD TABLE

Quando perguntado sobre a sua técnica, Dai Vernon revelou o seu segredo: aprimorara-a estudando o livro: “The Expert at the Card Table” de S. W. Erdnase, um livro considerado difícil demais pelos mágicos da época, que o consideravam ser impossível aprender com ele por ser “técnico demais”. Por outro lado, Dai Vernon, estudou e reestudou o livro minunciosamente. Considerava-o “extremamente detalhado”.

Vernon recebeu uma cópia de “The Expert…” quando tinha 12 anos. O livro, apesar de focar na trapaça com cartas transformou a vida do jovem David. O livro, aliás, é considerado por muitos como o marco inicial da cartomagia moderna.

Provável exemplar que Dai Vernon ganhou de presente. Edição Drake de 1905.
Provável exemplar que Dai Vernon ganhou de presente. Edição Drake de 1905.


4. DESFECHO

Houdini jamais admitiu ter sido enganado, e muito embora outros mágicos tenham enganado Houdini, foi Dai vernon que ganhou a alcunha de “O Homem que Enganou Houdini”. Alguns autores dizem que Dai Vernon usou sim uma carta de dupla face para enganar Houdini. Outros dizem que Vernon enganou Houdini apenas com um excelente “double lift“. Ironicamente, o “double-lift” não é ensinado em parte alguma do livro “The Expert at the Card Table“.

5. BIBLIOGRAFIA

* www.magicagora.com

* blog.ellusionist.com

* www.mental-magic.com

* Google Books – Nouvelle Magie Blanche Devoulle

* Livro: Hiding the Elephant, de Jim Steinmeyer

Para saber mais: “The Magician and the Card Sharp”, de Karl Johnson

Amplexos!

O TRUQUE QUE AMEDRONTOU HOUDINI

Não tente o truque de pegar a bala. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Trecho de uma carta de Kellar a Houdini

De todos os números de mágica já apresentados, o mais perigoso deles é, sem dúvida nenhuma, o número de pegar a bala. A premissa é simples: uma bala é disparada contra o mágico que apara ela, seja com a mão, seja com a boca. Em algumas versões, a bala é marcada; em outras, ela atravessa um vidros antes de atingir o mágico. Mas em todas as versões, sempre há um risco enorme envolvido.

Esse foi o único número que Houdini não ousou executar (ao menos não publicamente). Até hoje, esse número é assombroso, controverso e muito, muito perigoso. Senhoras e senhores, um artigo sobre o número que amedrontou Houdini: pegar a bala.

E não tentem isso em casa.

-x-

1. O NÚMERO DE MÁGICA MAIS PERIGOSO DE TODOS OS TEMPOS

A primeira menção ao número de pegar a bala, data de 1631 e aparece em um livro intitulado “Threates of God’s Judgement” escrito pelo reverendo Thomas Beard. Segundo o reverendo, um mágico francês chamado Coulen de Lorraine executava esse número; a bala era disparada e Coulen a pagava com a mão. Ainda, segundo o próprio reverendo, Coulen morreu espancado pelo seu assistente – curiosamente – com a própria arma com a qual executava o número.

Trecho do livro “Threates of God’s Judgments” onde é descrito pela primeira vez o número de pegar a bala.
(Clique na imagem para ampliá-la)

Em 1785, Philip Astley clamou para si a autoria do número com a publicação de de seu livro: “Natural Magic or Physical Amusement Revealed“. Segundo Philip ele teria invetado o truque em 1762. Porém, em 1761 Thomas Denton mencionam o número de pegar a bala, tal qual descritos pelo reverendo Beard, em seu livro “The Conjuror Unmasked“. Igualmente em 1761 Henri Decremps descreve o mesmo número em seu livro: “La Magie Blanche Dévoilée“. Na verdade o material de Astley era nada além de um plágio do livro de Decremps, incluindo uma ilustração similar na capa, porém abordando os mágicos de um ponto de vista mais positivo.

À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley(Clique na imagem para ampliá-la)
À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley
(Clique na imagem para ampliá-la)

Em 1840, John Henry Anderson, um mágico escocês apresentou nos principais palcos da Grã-Bretanha, América do Norte e Austrália, onde apresentava o número de pegar a bala. Foram as apresentações Anderson que tiraram o número do anonimato e o trouxeram à tona. Após Anderson, pelo menos outros quatro rivais do mágico escocês passaram a apresentar suas próprias versões do truque.

O efeito continuou sendo largamente executado (não sem fazer algumas vítimas) até que em 1918 houve a mais bem documentada – e porque não trágica – vítima do efeito de pegar a bala, o mágico Chung Ling Soo.  Chung Ling Soo, alter ego de William Ellsworth Robinson, apresentava o efeito de pegar , ora com a mão, ora com a boca, uma bala disparada contra ele. Em março de 1918 Chung se apresentava no Wood Green Empire em Londres, quando, por um erro cometido pelo próprio Chung (ele não havia limpado a arma propriamente o que deixou uma boa quantidade de resíduo de pólvora não queimada na arma), a arma ao invés de apenas estrondar, disparou de fato a arma contra o peito de Chung. Ele ainda foi levado com vida ao hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Após a morte de Chung Ling, o efeito perdeu a sua popularidade, apesar de ainda vir a ser executado por alguns mágicos nos anos posteriores. Mesmo com o advento da televisão e a apresentação de vários mágicos, o truque de pegar a bala nunca mais teve o mesmo apelo ao público, apesar de ainda ser um número que causa um forte efeito no público.

Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: "Condemned to Death by the Boxers"
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers

-x-

2. MORTES CAUSADAS PELO TRUQUE

A morte de Chung Ling Soo foi a mais trágica, porém não foi a única.

* Coulen (1500): Apesar de não ter sido morto diretamente pelo truque, foi espancado até a morte com a pistola do seu show, o que lhe concede a “honra” de entrar na lista.

* Kia Khan Khruse (1818): Mágico indiano que teria sido morto por um espectador. Os relatos de sua morte podem ser falsos.

* Madame DeLinsky (1820): Assistente de seu marido, o mágico polonês DeLinsky, foi morta quando, por engano, um dos atiradores carregou verdadeiramente a arma. A rotina consistia em seis atiradores que mordiam a ponta do cartucho para carregá-lo na arma. O truque consistia em morder não a ponta, mas a munição inteira, tornando-a em uma bala de festim. Seja por distração ou por dolo, um dos atiradores acabou tirando apenas a ponta do cartucho, transformando-o em uma munição real.

* Giovanni de Grisy (1826): Giovanni era filho de Torrini, o qual era, supostamente, o mentor de Robert-Houdin. Giovanni teria sido morto pelo próprio, segundo um relato de Robert-Houdin. Essa história também pode ser apenas uma invenção.

* Arnold Buck (1840): Arnold foi morto quando um voluntário da plateia, possivelmente querendo testar os poderes sobrenaturais do mágico, adicionou secretamente à arma alguns pregos. Possivelmente essa morte serviu de inspiração ao filme “O Grande Truque” (The Prestige), onde um dos mágicos é atingido por um espectador que coloca uma bala real na arma.

* Adam Epstein (1869): O truque de Adam Epstein consistia em verdadeiramente carregar a pistola depois, com o auxílio de um bastão pescava a bala, deixando somente a pólvora (outra vez, tal qual explicado em “O Grande Truque”). No dia da morte de Epstein, o bastão pescou a bala, porém ele acabou se quebrando dentro da pistola. ao disparar a arma, lascas de madeira voaram na direção de Epstein, que acabousendo atingido.

* Raoul Curran (1880): Após executar o número de pegar a bala com sucesso, um membro da plateia levantou-se de seu assento e atirou em Raoul sem nenhum aviso, dizendo apenas, em desafio ao mágico: “Pegue essa!”

* deLine Jr (1890): Morto quando seu pai, também mágico, acidentalmente atirou nele no palco.

* Michael Hatal (1899): Morto após não conseguir trocar os cartuchos de reais por cartuchos de festim.

* Otto Blumenfeld (1906): Também não conseguiu trocar as balas.

* Chung Ling Soo (1918): Conforme já mencionado, essa foi, de longe, a mais comovente das mortes causadas pelo número.

* H. T. Sartell (1922): Outro que falhou ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas de cera.

* “The Black Wizard of the West” (1922): O Mágico Negro do Oeste foi outro que morre no palco, quando sua esposa e assistente, trocou as balas falsas por balas reais. ao todo, o mágico recebeu cino tiros.

OBS: Segundo o website “Mentalfloss.com” H. T. Sartell e “The Black Wizard of the West” seriam a mesma pessoa. Não encontrei muitas referêncas sobre  nenhum deles, exceto o relato resumido de suas mortes. Se alguém tiver maiores informações, eu publico aqui.

* Ralf Bialla (1975): Bialla executava o número usando todas as proteções possíveis: óculos à prova de balas, luvas grossas com as quais cobria o rosto e um aparador de aço na boca. A bala viajava por três painéis de vidro antes de Bialla pegá-la com os dentes.  or nove vezes, Bialla machucou-se seriamente, mas sobreviveu em todas as vezes, porém, não sem graves sequelas. E foi uma dessas sequeleas que o levaram à morte. Ralph passeava em uma região montanhosa quando sentiu-se muito tonto (sequela dos inúmeros acidentes com a mágica) e acabou caindo de um penhasco. Esta também não ser uma morte causada diretamente pelo número, mas que teve influência direta deste.

* Doc Conrad (1977): Morto ao executar o número “Roleta Russa”, uma varação da mágica de pegar a bala.

* Fernando Tejada (1988): Outro mágico que acabou morrendo no palco em uma apresentação na Colômbia.

-x-

3. E HOUDINI?

Como já foi dito, após a morte de Chung Ling Soo, poucos mágicos ousaram fazer esse número nos anos seguintes. Logo após a morte de Chung, Houdini chegou a cogitar a hipótese de executar o número, mas foi demovido da ideia por seu amigo Harry Kellar que considerava o número extremamente perigoso.  Em carta a Houdini, Kellar escreveu:

Agora, meu caro garoto este é um conselho do meu coração, NÃO TENTE A P—A de pegar a bala… não importa quão certo você esteja do sucesso do número. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Você tem um monte de coisas boas para manter a sua posição como o líder em sua profissão. E você deve isso aos seus amigos e a sua família, cortar tudo o que possa representar algum risco para a sua vida. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Houdini ouviu o conselho de Kellar e cancelou a apresentação pública do número. Isso só fez aumentar a fama da mágica (“Tão perigosa que nem mesmo Houdini teve coragem). Porém, existem fortes evidências de que Houdini já havia praticado esse número 25 anos antes.

Jack Hyman, amigo íntimo de Houdini e sócio dele no “The Brothers Houdini” afirmou em entrevista à Genii Magazine de abril de 1937 que em 1893 e 1894 Houdini havia executado o número, chegando até mesmo a mostrar um raio-x da mão esquerda de Houdini, onde uma bala estaria permanentemente alojada, supostamente fruto de um acidente com o número. É porém, possível, que Jack Hyman estivesse apenas fazendo o que ele sabia fazer de melhor: construir a lenda de Houdini.

Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.(Clique na imagem para ampliá-la)
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.
(Clique na imagem para ampliá-la)

Patrick Cullinton escreveu em seu livro “The Tao of Houdini” uma declaração dada pelo próprio Houdini em 1922:

Eu tive uma experiência única, executando o número de pegar a bala. Era costumeiro para mim apresentar o número com uma pistola permitindo que um voluntário carregasse-a com uma bala marcada, e assim eu verdadeiramente nunca tocava na arma.  Havia uma tábua fina sobre uma mesa apoiada na parede traseira do palco. Ao voluntário era dada a opção de atirar na tábua que seria partida em inúmeras lascas ou em mim. No entanto, eu pedia a promessa que, uma vez anunciada a sua decisão ele não poderia, por sua palavra de honra, mudar de ideia. Por uma fração infinitesimal de um segundo havia um silêncio sepulcral, sequer respiravam, após o som do buraco deixado na tábua pelo disparo, o que trazia à tona a seriedade da decisão do voluntário, caso tivesse decidido atirar em mim. O efeito da ilusão mostrada miraculasamente com o aparecimento da bala em meus dentes, após ter atravessado um prato que eu segurava em minhas mãos. Nunca, jamais em todas as  minhas experiências o voluntário falhou em atirar primeiro na tábua.

-x-

4. MÁGICOS MODERNOS QUE PEGARAM A BALA

Carl Skenes e Dorothy Dietrich foram os mágicos modernos que executaram o número de pegar a bala e que merecem ser citados.

Carl Skenes em 1980 executou o número no programa de TV “That’s Incredible!” A fama de Carl permanece até hoje em função desse número. Carl também apresentou o número em outros países (Porto Rico, Venezuela, e Japão), e é constantemente lembrado e citado em programas como “I Love the 80s”, do canal VH1 e na coluna “Ripley’s Believe It or Not”.

Carl Skenes no programa "That's Incredible!"
Carl Skenes no programa “That’s Incredible!”
(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por “Ripley’s – Belive it or not”
(Clique na imagem para ampliá-la)

Dorothy entrou para a história como a primeira (e até agora única) mulher a pegar a bala com a boca. Ela exigia que um voluntário comprasse as balas e as guardasse consigo até o momento do truque, como prova de que a munição era, de fato, real.

Dorothy Dietrich citada na coluna "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich citada na coluna “Ripley’s – Belive it or not”
(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.
(Clique na imagem para ampliá-la)

-x-

5. PARA SABER MAIS

O livro de Ben Robinson “Twelve Have Died” de 1986 é o primeiro livro a tratar exclusivamente de um único número de mágica. No livro, Ben discorre sobre a história do truque, suas vítimas, os diferentes métodos… O livro atualmente está fora de impressão, mas não é difícl de encontrá-lo, embora seja relativamente caro.

robinson-twelve-have-died

-x-

BIBLIOGRAFIA

Livro: “Threates of God’s Judgments

Livro: “Natural magic, or, Physical amusements revealed

Livro: “La magie blanche dévoilée

Site: magictricks.com

Site: wikipedia.org/Bullet Catch

Site: wikipedia.org/Chung Ling Soo

Site: themagiccafeforum.com

Site: topsmag.com

Site: mentalfloss.com

Site: wildabouthoudini.com

Site: conjuringarts.org

Site: bulletcatch.com

LINHA DO TEMPO – A VIDA DOS GRANDES MÁGICOS

Segue abaixo, uma pequena ilustração mostrando a vida de cada um dos grandes mágicos da era de ouro da mágica e os respectivos “encontros” que porventura podem ter acontecido.

Interessante observar a vida desses artistas assim na forma de um gráfico. Nos leva a entender um pouco mais sobre suas influências e personalidades.

Merece um destaque especial a vida de Dai Vernon que pode, ao menos em teoria, cruzar com boa parte dos grandes nomes do mundo dos espetáculos.

Já sabem, cliquem na imagem para ampliá-la. Podem salvá-la e divulgá-la sem problemas, só peço que citem a fonte e, se possível, linkem para o blog.

Amplexos!

Linha do Tempo - MágicosClique na imagem para ampliar.
Créditos: Leonardo Glass