ENGANANDO O PÚBLICO

Faça-os acreditar que estão sendo enganados por um cavalheiro.

Howard Thurston 

O público do Cine Theatro Pró Trento, de Nova Trento, interior do Rio Grande do Sul aguardava ansiosamente a apresentação do mágico. O ingresso, caro para os padrões da época, não impediu que a casa estivesse cheia no momento da apresentação.

Na hora marcada a cortina sobe e o palco se ilumina. O mágico adentra pela direita e o silêncio logo irrompe pela plateia. A tensão se mescla com a excitação de ver um show tão diferente por aquelas bandas. Com uma reverência um pouco mais cumprida que o habitual o mágico saúda a plateia. E o show começa.

Para a abertura, nada de mais: uma simples produção de lenços coloridos. Ele recebe alguns aplausos tímidos, mas sinceros. Ninguém queria ver lenços, afinal de contas, tampouco cartas, moedas… o que eles queriam ver mesmo era a peça principal do show: o truque de decapitar a cabeça de um galo, e depois restaurá-la. A promessa do mágico, contudo, ia além: Ele não iria apenas restauraria a cabeça do pobre galo, mas fá-lo-ia cantar novamente, para que ninguém duvidasse de seu feito.

Mais um efeito de manipulação de bolas de bilhar. Incrível, mas isso ainda não era o que o público queria. O mágico, então, sentindo a pressão dos olhares da plateia, resolve ceder e adianta a apresentação do número principal.

Um número dessa envergadura não pode ser, simplesmente feito sem os devidos cuidados. O mágico chama dois voluntários da plateia: o Prefeito e o Delegado. Duas autoridades locais; pessoas austeras e respeitadas. Enquanto o Prefeito segura o corpo de galo, o delegado, segura a cabeça. O mágico então toma um machado e após algumas palavra mágica, decepa a cabeça do galináceo com um golpe certeiro.

Após mostrar claramente o galo morto, ele pede que o Prefeito e o delegado segurem junto as duas partes do animal e recita algumas palavras mágicas. O ritual demora não mais do que um minuto. Nada acontece! Visilmente constrangido o mágico repete o ritual. Os olhares da plateia começam a se transformar, de curiosos para zombeteiros.

Já sei!” – exclama o mágico – “Esqueci-me do líquido mágico que fará colar as duas partes. Aguardem um momento, sim?!” E sai para a coxia, pelo mesmo lado que entrara. Passados 15 minutos o Prefeito, o Delegado e toda plateia já havia percebido que o verdadeiro truque do mágico fora desaparecer juntamente com o dinheiro da bilheteria.

Essa é uma lenda muito divulgada na cidade de Flores da Cunha, antiga Nova Trento. Supostamente teria se passado por meados da década de 1930. O galo que chegou a ser motivo de chacota das cidades vizinhas, acabou sendo adotado como símbolo oficial da cidade e a história – provavelmente uma lenda urbana – acabou ganhando contornos de folclore local.

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ENGANADORES EM LONDRES

Se o desconhecido mágico de Flores da Cunha é apenas um personagem, outros “mágicos” são bem mais reais e também passaram a perna no público ou em incautos crédulos.

Por volta de 1781, um mágico alemão chamado Philip Breslaw, excursionou pela Grã-Bretanha, fazendo relativo sucesso. Um dia, anunciou um show beneficiente, em que todo o dinheiro, arrecadado, seria doado ao pobres. Findado o show, Breslaw tomou o dinheiro da bilheteria e pagou regiamente seus funcionários. Obviamente tal fato chegou aos ouvidos das autoridades locais que inteprelaram Breslaw sobre sua mentira. A resposta de Breslaw foi icônica: “Mas eu não menti. Prometi dar dinheiro aos mais pobres, e não conheço niguém mais pobre que meus ajudantes“.

Contudo a mais icônica história de um mágico enganado seu público aconteceu em Janeiro de 1749, em Londres. Os jornais locais anunciaram durante dias o show de um certo Benimbe Zammampoango, doutor em ocultismo, e capaz de feitos fantásticos. O anúncio era extraordinário: o mágico prometera ser capaz de tocar o som de qualquer instrumento conhecido a partir e uma bengala emprestada da plateia. Ainda, conjuraria fantasmas que revelariam os mais profundos segredos das pessoas ali presentes.

Mas o que realmente chamou a atenção e despertou a curiosidade do público foi a promessa que o doutor entraria dentro de uma garrafa comum de vinho, a qual poderia ser manipulada por qualquer pessoa. A população dirigiu-se em massa ao Teatro em Haymarket para ver o maravilhoso feito. Inclusive o próprio Duque de Cumberland, irmão do Rei Goerge III estava presente. Seria verdade? Seria um boato? Fosse o que fosse, todos queriam ver o que iria acontecer.

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Doutor Benimbe Zammampoango entrando na garrafa de vinho.

Às 18:30, o Teatro lotado. Cadeiras extras foram providenciadas e muita gente se dispôs a ficar de pé. As luzes baixaram e o teatro ficou em completo silêncio esperando o começo do show. No entanto, não havia ninguém no palco e as cortinas permaneciam fechadas. Silêncio e tensão na plateia. Às 19:00 o palco seguia vazio e aas cortinas fechadas. Foi quando começaram os primeiros assovios e vaias. No afã de acalmar a plateia, o gerente do teatro, subiu ao palco e disse que, caso o mágico não aparecesse, o dinheiro dos ingressos seria regiamente reembolsado.

Longe de acalmar a população, a declaração do diretor acirrou ainda mais os ânimos. As mulheres e as crianças prontamente se retiraram já temendo o pior, que de fato acabou acontecendo. Não se sabe direito como, mas na confusão um princípio de incêndio irrompeu pelo teatro, enquanto que, em outra frente, confusão e quebradeira generalizada. A polícia foi chamada, mas quando chegou ao local, todos já haviam se retirado, deixando apenas o rastro da idignação no pobre teatro.

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No dia seguinte o clima jocoso tomava conta de Londres. A piada recorrente era que se o homem tivesse prometido entrar em uma garrafa maior, as pessoas teriam pagado ainda mais para assistí-lo. O mais curioso, contudo, é que ninguém soube ao certo explicar como o boato começou, uma vez que, a príncipio, nem o próprio teatro sabia do show.

Alguns autores modernos dizem que o boato começou com um Duque, chamado John Montagu, um conhecido apreciador de “pegadinhas”. Segundo eles, o Montagu haveria apostado com alguns amigos que, ainda que prometesse os feitos mais impossíveis, mesmo assim, ele seria capaz de encontrar idiotas o suficiente, capaz de encher um teatro inteiro, que acreditariam em tais promessas.

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Moderna reprodução da notícia que circulou pelos jornais londrinos em janeiro de 1749, anunciando o homem que entrava na garrafa.

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A TV brasileira também possui alguns casos curiosos de pessoas que prometeram feitos extratordinários, mas no fim, só enganaram o público.

No final dos anos 1980, o programa “Show de Calouros” no SBT, durante semanas anunciou de forma bombástica o “o homem que vira peixe”. O homem chegou a subir duas ou três vezes ao palco do programa, mas quando ia começar a demonstração o tempo do programa acabava e ficava para a próxima semana. Até que um dia finalmente o calouro veio ao palco e “virou peixe”: munido de uma frigideira, colocou um peixe nela e atirava-o para cima, virando-o.

Outro caso parecido foi o homem que bebia café com leite, engolia só o leite e cuspia o café de volta. A pegadinha: a mistura era composta de leite e café em grãos. Esses quadros foram reprisados e revisitados diversas vezes, por diversos humoristas e emissoras.

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DE VOLTA AO GALO

Mas e o mágico de Flores da Cunha? Será que foi mesmo apenas uma lenda?

Todos sabemos que a ilusão de decepar a cabeça de uma ave e depois restaurá-la é o truque mais velho da históra, literalmente. Também é fato registrado que diversas companhias artísticas passaram pela região de Caxias do Sul na década de 1930, inclusive alguns mágicos.

Um artigo no jornal “O Momento” de Caxias do Sul (cidade vizinha de Flores da Cunha) datado de 10 de fevereiro de 1945, em uma coluna assinada por Iaçanan, conta que o mágico que andava pela região usava uma tesoura, e brinca que, o galo não foi degolado, mas sim “tesourado”. Segundo o colunista existem documentos que “provam de forma provada” que o caso realmente aconteceu. Se a coluna foi séria, ou se trata de algo de humor, é difícil saber.

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Claudino Antônio Boscatto é um historiador local de Flores da Cunha e escreveu o livro “Memórias de um neto de imigrantes” em que conta o causo do mágico pilantra. Segundo ele, a história é uma lenda que nasceu como uma piada e acabou ganhando corpo. Uma das teses de Boscatto é que nenhuma autoridade à época se prestaria ao papel de subir ao palco para um papel tão “humilhante”, ainda mais perante um mágico desconhecido. Claudino cita ainda os nomes das autoridades, o Capitão Joaquim Mascarello, intendente municipal, e o delegado Osário Belíssimo.

Verdade seja dita, é unânime a informação que essa história nasceu da boca dos próprios caxienses; talvez como uma forma de rixa pela emancipação do distrito de Nova Trento (a história supostamente teria se passado no mesmo ano da emancipação).

Uma última fonte cita o mágico nominalmente: “Dipiero” seria seu nome. Pesquisando os jornais da época, não encontrei registros de ilusionistas que tenham usado tal nome.

Seja verdade, seja mentira, o fato é que a história que era deboche, acabou virando a marca registrada da cidade de Flores da Cunha. Todo o ganho publicitário e de turismo foram bem maiores do que o valor furtado pelo mágico enganador. No fim das contas, para o município de Flores da Cunha, foi um belo truque!

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REFERÊNCIAS

LIVRO: Christopher Milbourne, “Magic, a Picture History“.

LIVRO: Ryan, Richard Ryan e François Joseph Talma. “Dramatic Table Talk or, Scenes, Situations, & Adventures, Serious & Comic in Theatrical History and Biography” – Vol. III

SITE: www.geriwalton.com

SITE: Obscure History. Artigo completo sobre o caso (Inglês | PDF)

BALABREGA, O MÁGICO QUE MORREU NO BRASIL (E SUA ESPOSA QUE ABALOU O IMPERADOR)

“(…) fez explosão a caldeira geradora de gas acetylene matando instantaneamente o director e ferindo : mortalmente o prestidigitador Balabrega e um seu companheiro”

Jornal “A Província” de 13 de junho de 1900 (a grafia original foi mantida).

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Johan Moller nasceu em Helsingbrod, Suécia, em 20 de agosto de 1857 e aos 11 anos de idade, migrou para os EUA onde seu nome foi anglicizado para John Miller. Comeceu na mágica ainda cedo já sob a alcunha de Balabrega, “O garoto mágico” e “A maravilha sueca”. Segundo consta, o nome foi inspirado pelo seu pai, que também era artista, embora não fique claro nem o ramo artístico do pai, tampouco o porquê deste nome tão exótico.

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Balabrega excursionou principalmente pela América Latina onde fez relativo sucesso. Uma curiosidade, em Pernambuco, “balabrega” é uma gíria que significa “engano”, “charlatão”. Provavelmente a expressão nasceu por causa do mágico.

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O historiador Nadur traz algumas informações importantes sobre Balabrega: seu show abarcava mentalismo, manipulações e magia de palco. Era acompanhado de sua mulher, Emma Lynden que apresentava um número de canários amestrados e tocava diversos instrumentos, entre eles, xilofone e garrafas com água.

Segundo Mike Caveney, o casal foi a primeira dupla a apresentar o número de “Segunda Visão” em espanhol e ainda, os primeiros a apresentá-lo na América do Sul. Isso explica, em parte, o grande sucesso e apelo público dos Balabrega aqui na América Latina.balabrega

O show de Balabrega era grande, em todos os aspectos.  Uma de suas ilusões se chamava “Tahuma” e consistia em uma mulher apenas da cintura pra cima. A diferença para a versão clássica do truque da meia pessoa, é que na versão de Balabrega a mulher estava suspensa em um trapézio, e não sobre uma mesa, estática.

O periódico argentino “La Capital” de 17 de janeiro de 1889, teceu o seguinte comentário sobre o show de Balabrega:

“Balabrega – Até o nome remete a um prestidigitador, isto de “bala” e “brega” significa movimento, escamoteio, confusão, (…) logo vem a música de Miss Lidden que, sem ser celestial, cativa e admira e entusiasma graças à habilidade artística que a caracteriza, e a variedade notas e melodias que extrai de vários objetos: vasos de cristal, garrafas vazias e outros objetos.

Balabrega vem precedido de grande renome, e coberto de elogios e lauras conquistados nos principais teatros da Europa e América.

(…) Ademais, tem ainda os canários amestrados dirigidos pela sra. Linden, cuja simples presença no palco (…) produzem uma grata impressão e deixam uma enorme satisfação.

Sra. Linden, Balabrega, dois personagens que bastam por si sós para formar uma companhia, e para serem aplaudidos, até mesmo por aqueles menos inclinados a aplaudir.”

Nadur acrescenta ainda que Balabrega tinha um ato todo dedicado à exposição de fraudes mediúnicas. Não é arriscado dizer que Balabrega tinha todo o necessário para ser um dos maiores nomes da mágica de todos os tempos. Até que o acidente mudou tudo.

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No fim dos anos 1800, Balabrega e sua esposa estavam em um navio, cruzando o Estreito de Magalhães à bordo do navio a vapor “Cotopaxi”. As águas perigosas fizeram com que o navio naufragasse e Balabrega perdeu todo o seu equipamento. Ao invés de se abalar e reclamar no twitter, Balabrega se recompôs e montou um segundo show, que, dizem era muito melhor do que o primeiro.

Fosse pelo acidente ou não, o fato é que John Miller e Emma Linden se divorciaram e ela se mudou para Tauton, no Estado de Massachussets. Talvez ela tivesse pressentido que o acidente fora um aviso de um mal maior que viria se abater sobre John Miller. Por sua vez, Balabrega seguiu excursionando pela América Latina. Além do reconhecimento do público, ele havia adquirido algumas fazendas de fruta pela América Latina, o que explica também sua fixação pelo lado sul da linha do equador.

Ao montar o seu novo show, ele adquiriu uma nova ilusão chamada “The moth and the flames” (A mariposa e a chama).

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O número consistia em vestir seis assistentes de mariposas e por uma chama no meio de palco. As assistentes se aproximavam da chama e eram “consumidas” por ela, ou seja, desapareciam. O problema é que a chama era alimentada por um tanque de acetileno. Não é difícil imaginar o que aconteceu.

As causas do acidentes não são um consenso. Alguns jornais dizem que, era impossível conseguir acetileno no Brasil de 1900. Balabrega então trouxe algumas bolsas de gás do estrangeiro e, ao tranportá- las para o palco, para o ensaio, uma das bolsas explodiu, vitimando Balabrega e um assistente, Lui Bartelle. Outro assistente ficou ferido.

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Notícia da morte de Balabrega

Outras fontes dão conta que não fora a bolsa que explodiu, mas o próprio “Bal” (apelido que ganhou por aqui) que não soube manipular corretamente o mecanismo de iluminação, superalimentando a chama. Fosse o que fosse, Balabrega faleceu em 20 de junho de 1900, no Theatro Santa Rosa, em Pernambuco. Por pouco, o teatro não incendiou por inteiro.

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Emma Lynden
De volta a Emma Linden (ou Lynden ou ainda Leyden; a grafia varia bastante), sua história não é menos curiosa. Após o divórcio foi para Tauton, Massachussets, de volta para a fazenda de sua família. Segundo consta, sua saúde estava debilitada, embora não tenha encontrado maiores detalhes sobre isso.

Em Tauton, ela casou-se novamente e em 1909, de novo, divorciou-se. Ela também abriu uma cafeteria em Nova York, mas o negócio não deu certo e ela mais uma vez voltou para Tauton. Até aí, nada de mais.

Em  07  de janeiro de 1916 ela faleceu e a nota de falecimento de jornal trouxe à tona uma curiosidade: Emma era amiga pessoal do Imperador Dom Pedro II e chegou até a acompanhá-lo em idas ao teatro.

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Los Angeles Herald, nº 59, 8 de janeiro de 1916

Segundo o NY Times da época, Emma estava no Rio de Janeiro e caiu em frente à carruagem do Imperador. Um guarda ajudou Emma a levantar-se e Dom Pedro ficou encantado com a beleza da mulher. Como forma de desculpa, ele convidou Emma para acompanhá-lo ao teatro e ela ficou no camarote real.

Mas a história melhora. Emma seria uma paixão secreta de Dom Pedro, e mais, ela teria sido uma das razões para o golpe de Marechal Deodoro que derrubou o Império. O jornal St. Louis Post-Dispatch, traz maiores detalhes, dizendo que o Imperador dava seguidos presentes a Emma e isso foi um dos motivos que os revolucionários apontaram para tomar o poder.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Nadur, “Historias y curiosidades del ilusionismo

Livro: Mike Caveney, “Classic Correspondence from Egyptian Hall Museum

 

UMA BREVE HISTÓRIA DO EMBARALHAMENTO FARO

Texto base de Leonardo Macedo.

Adaptado e ampliado por Leonardo Glass

“Millions of dollars are wagered annually at Faro in this country. It is the most fascinating of layout games.”

S. W. Erdnase

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INTRODUÇÃO

Mágicos experientes e trapaceiros de poker, blackjack e demais jogos de cartas certamente conhecem o embaralhamento faro (ou faro shuffle), conhecido por muitos como o embaralhamento perfeito por intercalar perfeitamente todas as 52 cartas do baralho, uma a uma. No entanto, mesmo aqueles que conhecem o Faro, provavelmente desconhecem a história por trás deste embaralhamento.

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Jogadores de Faro, nos EUA. Final dos anos 1800.

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O JOGO DO FARAÓ

A origem do jogo se deu com um jogo de cartas chamado basset. Por volta de 1690 o basset foi proibido. Algum tempo depois surge o Pharaon, um jogo derivado do basset, e com base na mesma premissa: um jogo de apostas, passível de ser jogado por diversos jogadores ao mesmo tempo. Isso ajudou na popularização do Pharaoh. Registros datados da época do Rei Luís XIV (Século XVIII) dizem que o jogo ficou conhecido por esse nome entre os jogadores da corte devido à embalagem do baralho francês vir com a imagem de um Faraó (algumas fontes dizem que o faraó estava estampado na face de uma das cartas da corte, a saber, J, Q, K).

Com o passar do tempo, o jogo começou a se espalhar pela Europa (principalmente pela Inglaterra e Itália) e ganhou variações em seu nome, devido a mudança de idioma de cada país, até chegar aos EUA e ter o nome adaptado para Faro.

O “Pharaoh” angariou vários entusiastas famosos, entre eles escritor italiano Giácomo Casanova. Casanova foi um amante do jogo de faro, tendo o registrado em algumas passagens de sua autobiografia. Há relatos em livros sobre história dos jogos de aposta sobre fortunas ganhas por Casanova e presentes extravagantes que ele deu para mulheres, mostrando que ele era, possivelmente, um grande trapaceiro no jogo. Outra celebridade histórica que jogava faro foi a rainha Maria Antonieta. Há, inclusive o registro que ela chegou a jogar 36 horas seguidas de Faro com alguns banqueiros

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Maria Antonieta e Giácomo Casanova, dois jogadores de faro!

Nos EUA o jogo chegou em meados de 1700. Alguns historiadores, porém, datam a chegada do Faro à América em 1803, pelas mãos de John Law, um escocês exilado que aportou em Nova Orleans. O Faro logo tornou-se muito popular na América. Ali ganhou um novo apelido “bucking the tiger” ou “prender o tigre”, sendo inclusive este apelido citado por S.W. Erdnase em sua obra “The Expert at the Card Table“. Este apelido era devido a ilustração de um tigre de bengala que enfeitava as cartas à época. Outra gíria para o jogo de faro era “twisting the tiger’s tail” ou “torcer a cauda do tigre”.

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Placa de uma casa de jogo de faro

A imagem do tigre era tão fortemente associada ao jogo do faro, que algumas casas de apostas colocavam uma imagem de um tigre nas fachada, anunciado que naquela casa de jogos, se jogava o Faro. O Faro teve seu auge nos EUA entre os séculos XIX e XX, favorecendo e fomentado o crescimento do número de casas de jogos e cassinos. Com o passar do tempo o jogo foi perdendo sua popularidade, sendo substituído, aos poucos, pelo Poker.

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Cartas com o tigre que deu o apelido ao jogo faro

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COMO FUNCIONA O JOGO?

A premissa básica do Jogo de Faro é bem simples: O dealer distribui as cartas em dois montes, uma para ele, o outro para os jogadores. Para ganhar, o jogador tem que torcer para que a carta apostada seja revelada no monte referente aos apostadores. Caso contrário, quem ganha é a banca.

O jogo era feito em uma mesa específica para ele, coberta com uma toalha com o desenho de todas as cartas de um naipe (os naipes aqui eram meramente ilustrativos, somente os valores das cartas eram considerados). Sobre esses desenhos os jogadores apostavam nas cartas que iriam sair. O dealer então misturava as cartas e a primeira do topo era “queimada”. As cartas seguintes eram tiradas alternadamente formando duas novas pilhas: a primeira pilha para o dealer, e a segunda aos jogadores. Se alguma das cartas que foram apostadas aparecesse no monte dos jogadores, o apostador ganhava o pote (lembrando que a aposta do dealer não oscilava de valor); caso contrário, o dealer ganhava a aposta dos jogadores. Cada par de cartas reveladas formava um turno e, após cada turno, os jogadores poderiam mudar suas apostas para outras cartas (para saber mais sobre o assunto, recomendo o livro “Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne).

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“Case ” para apostas no jogo de faro.

Assim como em todos os jogos que envolvem apostas, foram desenvolvidas muitas técnicas para trapacear no jogo de faro. E aqui entra a necessidade de usar o “embaralhamento perfeito”. O faro chega para o jogo como uma ferramenta a favor do dealer com 2 possíveis funções: 1) atrapalhar eventuais trapaças dos jogadores; e 2) facilitar o lucro da “banca”.

Visto que as cartas eram reveladas aos pares, e tendo em mente que o embaralhamento faro intercala perfeitamente dois montes de 26 cartas (considerando um baralho padrão de 52 cartas), fica fácil entender como essa técnica beneficiava o dealer na mesa de jogo: Basta separar as cartas que o dealer queria que ganhassem em um dos montes e intercalar de forma que elas fiquem nas posições ímpares ou pares, dependendo de quem seria o beneficiado (lembrando que a primeira carta distribuída pertence ao dealer, a segunda aos jogadores).

A execução da técnica de faro era feita na mesa (simulando um riffle shuffle), mas para a mágica isso foi adaptado de forma a poder se fazer sem mesa também, o que aumentou a versatilidade da técnica.

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Embaralhamento faro feito na mesa (esq.); embaralhamento feito na mão (dir.).

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OS MÁGICOS DESCOBREM O EMBARALHAMENTO FARO

O primeiro mágico a perceber o potencial do faro para a mágica, foi Jean Hugard em seu livro “Card Manipulation nº 3” de 1934. Porém, o potencial vislumbrado por Hugard foi mais estético do que como uma ferramenta em si. Foi só em 1940 que Hugard, juntamente com Frederick Braue publicaram um estudo bastante extenso sobre o Faro, bem como efeitos usando o faro (vide “Expert Card Technique“, “The Perfect Faro” p. 143 em diante).

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Jean Hugard, o primeiro mágico a ver o faro como uma ferramenta para os mágicos – e não apenas para os trapaceiros em mesas de jogos.

Outros mágicos também passaram a explorar o embaralhamento Faro, pois proporciona diversos princípios matemáticos interessantes para a criação de efeitos. Cabe aqui os seguintes destaques: Ed Marlo e seu famoso efeito “The Miracle Aces”; e Alex Elmsley, com a descoberta do incrível Princípio de Penélope.

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CONCLUSÃO

Apesar de ser uma técnica considerada de nível avançado, não é algo tão difícil de aprender, ao contrário do que muitos pensam. O aprendizado da técnica de Faro pode ser muito útil, pois além de proporcionar diversos princípios matemáticos, ainda auxilia para o setups de alguns efeitos. Recomendo o estudo.

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BIBLIOGRAFIA

Livro:Sharps and Flats” de John Nevil Maskelyne (versão digital);

Livro:Marie Antoinette’s Confidante: The Rise and Fall of the Princesse de Lamballe” de Geri Walton;

Livro:Frontier Gambling” de G. R. Williamson;

Livro:Magic Tricks, Card Shuffling and Dynamic Computer Memories” de S. Brent Morris;

Livro:Scarne on Cards” de John Scarne.

MATHIAS BUCHINGER, UM ANÃO GIGANTE!

“É fácil entender porque Ricky Jay se encantou tanto por Mathias Buchinger. O pequeno homem era um dínamo, um mistério, um super herói no mundo real – embora, provavelmente jamais o vejamos em um filme de Hollywood. Super heróis dos quadrinhos, têm muito ‘sex appeal’, mas muito pouco sexo. Em comparação, o rechonchudo Buchinger era um garanhão”

Teller sobre a biografia de Mathias Buchinger, escrita por Ricky Jay.

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O público em frente ao “Corner House” em Charing Cross, Londres, não podia acreditar no que estava vendo. Prontos para ver uma “tragédia”, acabaram sendo calados, silenciados por algo incrível. Diante deles um homem inválido, cujas pernas iam até pouco antes de onde deveriam haver seus joelhos, e com braços que terminavam antes dos cotovelos (e que, convenhamos, pareciam dois galhos serrados) havia lhes prometido um show de ilusionismo, caligrafia, arte e música. Por certo seria um espetáculo dantesco, de um humor macabro alimentado por uma curiosidade mórbida. O que todos viram, porém, naquele dia, calou-lhes a boca e encheu-lhes os olhos.

V0007015ER Matthias Buchinger, a phocomelic. Stipple engraving.

Mathias Buchinger nasceu em 2 de junho de 1674 em Ansbach, na Alemanha. Sua família não era rica, mas também não havia necessidades. Dentre os oito filhos e uma filha, Mathias era o mais novo e o único com defeito. Provavelmente nasceu com focomelia, uma doença que causa o encurtamento dos membros superiores e inferiores. O braço direito de Buchinger terminava pouco antes do cotovelo; do lado esquerdo, o braço era um pouco maior do que o cotovelo, o que lhe dava uma leve flexão. Ambos braços terminavam em uma protuberância que lembrava mais um balão murcho do que uma mão. O mesmo às suas pernas. Isso, obviamente, impedia Mathias de caminhar, por isso ele se arrastava pelo chão para se locomover.

Isolado do mundo externo, desde a infância, pelos pais, Mathias acabou encontrando companhia em atividades solitárias como música, caligrafia, artes. E, além de tempo para praticá-las, Mathias possuía talento. Já aos vinte anos, começou a se apresentar como uma atração “sideshow” (show de horrores), mas encantava também pelo seu talento. Bem mais tarde, aos 40 anos, Mathias decidiu ver se conseguiria impressionar – e quiçá até influenciar – alguém importante na Inglaterra E foi ali que ele viveu até o fim de seus dias.

É noticiado em um cartaz de propaganda de Mathias, datado de 1717 que, entre outras feitos incríveis, Mathias fabricava suas próprias canetas, escrevia tão rapidamente e tão perfeitamente quanto qualquer mestre da caligrafia, costurava com agulha e linha muito rapidamente, e possuía habilidades surpreendentes e convincentes em “legierdemain” (manipulação). Em outro cartaz, Buchinger vende-se dizendo que nunca, na história da humanidade houve alguém como Mathias, e provavelmente nunca mais haverá. Essa descrição certamente despertou a curiosidade de muitas pessoas importantes, possivelmente até o Rei George I que o recebeu para um show.

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Cartaz anunciando o show, e as habilidades de Mathias Buchinger. (Clique na imagem para ampliar)

O Rei Geroge I, impressionado com Mathias, pessoalmente buscou entre a nata da sociedade algum mecenas que pudesse subsidiar os gastos de Mathias. Em 1716, Mathias presenteou o Rei com um instrumento musical fabricado pelo próprio Mathias, e uma carta solicitando que o Rei fosse o seu mecenas. O Rei George recusou a oferta, mas fez questão de pagar generosamente pelo instrumento.

Desanimado pela tentativa falha de uma pensão vitalícia, Mathias decidiu adotar suas performances como meio de vida. à época a Inglaterra estava com uma demanda por “side shows” de “horror” e Mathias se encaixava perfeitamente neste conceito. Mathias passou então a apresentar as suas habilidades, a um shilling por espectador. Em suas apresentações, as pessoas poderiam ver Mathias atirando com armas de fogo, tocando um instrumento, jogando cartas, além das já citadas habilidades. Se valendo de próteses que lhe permitiam tais feitos, Buchinger surpreendia ao público, não só pela habilidade, mas pela sua inteligência e perspicácia que superava, em muito, suas limitações. O seu sucesso foi tamanho, que não tardou para que Mathias fosse requisitado para performances particulares.

Se a sua carreira ia bem, o mesmo não podia ser dito de sua vida particular. Mathias que, a esta altura, estava casado com a sua segunda esposa, supostamente foi vítima de agressão, verbal e física, por parte da esposa. Mathias, que sempre fora um homem calmo e até bastante extrovertido viu-se em meio a um turbilhão emocional que culminou com Mathias expulsando a esposa da casa onde eles viviam e, agredindo ela em público, até que ela jurasse nunca mais agredi-lo novamente. O caso ganhou notoriedade, tanto quanto sua fama artística de Mathias, a tal ponto que em um poema, em sua homenagem, contem os seguintes versos: “Ele nunca cometeu, nenhum deslize em sua vida / Exceto casar-se com  sua segunda esposa“. Seja por isso ou não, o fato é que logo depois desse triste episódio, o divórcio entre eles se consumou.

Mathias casou-se ainda mais duas vezes e teve ao todo, 14 filhos: Um da primeira esposa, três da segunda, 6 da terceira e 4 da última esposa (embora algumas fontes digam que ele teve apenas 11 filhos, e outras dão conta que ele teve ao todo 8 mulheres diferentes, além de diversas concubinas). Um dos desenhos mais conhecidos de Buchinger é uma árvore genealógica em que ele aparece como o tronco, suas esposas como galhos e seus filhos como os frutos.

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Árvore genealógica de Mathias Buchinger

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Mathias vivia circulando entre Inglaterra, Escócia e Irlanda, apresentando-se. Aprendeu novas habilidades como tocar gaita de foles e dança escocesa (segundo ele, ele dançava tão bem quanto qualquer “highlander” sem as pernas). Ele também melhorou sua habilidade de escrita, aprendendo a escrever em qualquer direção e até mesmo espelhado.

Aliás, a mais impressionante habilidade de Mathias era sua capacidade de escrever em miniaturas. Tamanha era a sua habilidade que ele colocava mensagens “ocultas” em seus desenhos, como por exemplo, transformando mensagens da bíblia em cabelo. Por exemplo, em um de seus autorretratos, Mathias, ao invés de desenhar os fios do cabelos, transcreveu os salmos 121, 127, 128, 130, 141, 149 e 150, e ainda a oração do Pai Nosso.

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Auto retrato de Mathias Buchinger. Repare que os cabelos, ao invés de desenhados, são salmos transcritos.  (Clique na imagem para ampliar)

O tempo passou e logo o ato de Mathias deixou de ser novidade, vindo a decair em termos de espectadores. A idade também já começava a pesar sobre os ombros de Mathias que não tardou a diminuir sua carga de shows, de 7 apresentações diárias, para apenas duas. Assim, novamente Mathias tentou conseguir alguma pensão governamental e desta vez escreveu a um Palatino – uma espécie de nobre, representante direto da Coroa Britânica – dessa vez se valendo de sua terceira esposa, Anna Elisabete, que era filho de um já falecido Palatino, como chantagem emocional. Novamente seu pedido foi negado.

Em 14 de abril de 1733 ele escreve a Robert Harley, Conde de Oxford, oferecendo a ele a oportunidade de comprar um de seus desenhos, e que lhe custara 15 meses de trabalho. Mathias não estipula preço pela obra, deixando o conde livre para pagar o que achasse justo, porém, Mathias faz referência a uma suposta doença que lhe causaria tremores e febres e que o impediam de trabalhar novamente com tanto afinco. Seja, verdade, seja um mero truque emocional de vendas, o fato é que o Conde acabou adquirindo a obra.

Sem título

(Clique na imagem para ampliar).

Seis anos mais tarde, em 1739, Mathias veio a falecer com 65 anos em Cork, na Irlanda. Mas isso não interrompeu as excentricidades de Mathias. Seu último desejo foi que seu esqueleto fosse doado para uma Universidade local para ser estudado. O que Mathias achava que os cientistas iriam descobrir é incerto. O que é certo, porém, é que, quando de sua morte, Mathias teve todas as honras de um homem respeitável.

– Æ –

Uma das mais impressionantes habilidades de Mathias era o truque dos covilhetes. Ele produzia os copos e enquanto o público se perguntava para onde havia ido a bolinha, Buchinger, os surpreendia, revelando um pássaro vivo debaixo do copo. A fama de Buchinger à época foi tanta, que seu sobrenome “Buchinger” acabou tornando-se um gíria para “pequeno”.

O fato é que sua fama veio por causa de suas habilidades, mais do que pelo seu tamanho – embora seja inegável que sua deformidade potencializou os seus feitos – característica esta recorrente em todos aqueles capazes de superarem a si mesmos e as limitações que lhe foram impostas.

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Detalhe do cartaz do Mathias Buchinger, em que ele está executando os covilhetes.

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

“The Dublin Penny Journal” Vol. I, nº 44 – 27 de abril de 1833

“The Scots Magazine and Edinburgh Litarary Miscellany”  – abril de 1807

Edward Wood em: “Giants and Dwarfs” – 1868 p. 287 – 300

Ken Johnson em: “Astouding feats in Pen, Ink and Magnifying Glass” –  The New York Times, 14 de janeiro 2016

Wikipedia: “Mathias Buchinger

Exposição: “Desenhos de Mathias Buchinger por Rick Jay” no MET Museum

O SUICÍDIO DE CHUNG LING SOO. SUICÍDIO?

Mas eu tenho certeza de que, pelo menos uma pessoa, sabia o que estava prestes a acontecer naquele trágica noite de sábado no Wood Green Empire. E este alguém era ninguém menos do que o próprio Chung Ling Soo!” – Will Goldston

Todos conhecem a história de Chung Ling Soo, a.k.a. William Ellsworth Robinson, o mágico norte americano que se passava por um chinês e que morreu no palco, ao tentar executar o truque de pegar a bala. Até hoje sua morte é lembrada por muitos, inclusive por não mágicos, como uma das mais icônicas tragédias acontecida sobre os palcos.

Porém, existe uma teoria que prega que a morte de Chung Ling Soo, longe de ser um acidente, foi um ato de suicídio. O próprio Robinson teria planejado sair de cena de uma forma dramática e icônica, e armado o espetáculo de seu próprio suicídio.

Macabro? Dramático? Talvez! Mas quando lemos as circunstâncias que cercaram a morte de Chung Ling Soo, algumas perguntas saltam aos olhos. Porém, antes da teoria, propriamente dita, é preciso entender como o truque de Chung Ling era feito.

– Æ –

1. PEGANDO A BALA

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Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers. Defying their Bullets

O ato de pegar a bala de Chung consistia em carregar quatro armas  rifles, modelo Enfield, com uma bala marcada. Tanto a bala, quanto os rifles eram “fiscalizados” por alguns voluntários da plateia. Chung então colocava a bala no cano, socava ela com uma vareta dirigia-se a uma distância de 4 a 5 metros do pelotão de fuzilamento. Ao sinal de um ajudante, as armas eram apontadas para Chung Ling que segurava um prato com motivos chineses, o qual servia para aparar a bala.

O disparo era então feito, o prato de partia em diversos pedaços e Chung Ling caia no chão, como se atingido pela bala. Após um breve momento de tensão, ele se levantava e mostrava aos voluntários da plateia, que obedientemente esperavam ao lado do palco, as marcas nas balas.

O segredo do truque de Chung Ling era simples: as balas eram verdadeiras, o rifle era verdadeiro, tudo era feito na mais perfeita honestidade. O único porém estava na câmara de explosão dos rifles, onde o gatilho explodia a cápsula fazendo ela disparar. Chung Ling havia modificado o mecanismo interno da arma, fazendo com que a explosão se desse em uma câmara falsa que ficava abaixo do verdadeiro cano da arma (e do verdadeiro local da explosão). Essa segunda câmara ficava atrás do local onde era guardada a vareta de limpeza da arma. William colocava previamente um cartucho de festim nesse cano e, ao disparar a arma o tiro de festim, apenas com pólvora, sem o projétil, era deflagrado.

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Esquema de um rifle da marca Enfield, provavelmente um destes que acabou com a vida de William Robertson

Na noite do acidente (24 de março de 1918) a arma, ao ser acionada, disparou não apenas a cápsula de festim, mas também a bala verdadeira. Em outras palavras, a explosão da cápsula de festim acabou deflagrando também a bala verdadeira.

Chung Ling, ao ser atingido, caiu no chão. Até aí, ninguém havia desconfiado do ocorrido. Foi então que todos no palco ouviram-no dizer com uma voz combalida: “Oh my God!!!” Só para esclarecer, Soo jamais havia falado qualquer palavra durante o seu show e, quando dava entrevistas, sempre utilizava um intérprete. Ele encarnou tão grandemente o personagem que o grande público só descobriu que ele não era chinês no momento de sua morte. Por isso quando todos ouviram ele falando em um perfeito inglês, é que descobriram que algo havia saído errado.

A bala atingiu o pulmão direito de William, o qual foi levado às pressas para o hospital. Porém, veio à óbito algumas horas depois em função de uma hemorragia.

– Æ –

2. A TESE DO SUICÍDIO

Até aqui temos a história conhecida e oficial da morte de William Robertson. Alguns anos após sua morte, Will Goldston, um conhecido de Soo publicou uma teoria que há anos lhe incomodava: a teoria de que Chung Ling Soo não fora vítima de um acidente, mas de um assassinato planejado e executado pelo próprio Soo. Esta teoria aparece em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” de 1929.

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Will Goldston, o criador da tese do suicídio de Chung Ling Soo

Goldston começa a apresentando suas evidências citando um encontro que tivera com William alguns dias antes do fatídico “acidente”. Soo foi até o escritório de Goldston e quis lhe pagar um dívida que tinha com o amigo. Goldston não entendo a atitude tempestiva do amigo, lhe disse o valor da dívida, a qual foi quitada de uma só vez, sem pestanejar. William disse ao amigo: “Aí está! Estou quitando todos os meus débitos. Já passou da hora de resolver todos os meus assuntos. Quanto antes colocar as coisas em ordem, melhor pra mim!”. Goldston conclui dizendo que não entendeu a ânsia do amigo em quitar todas as suas dívidas o quanto antes.

E ele segue enumerando os fatos estranhos da noite da morte do amigo, o qual ele mesmo afirma que não são provas, antes são meros fatos que levantaram suspeitas. Segundo Will o primeiro ponto que chama a atenção foi o fato de o prato que Chung Ling segurava não foi partido pela bala, como usualmente acontecia. Isso significa que ele não estava segurando o prato na posição correta, como fazia usualmente.

O segundo ponto, foi que, ao examinar a arma que disparou contra Soo, descobriu-se que ela havia sido mexida, segundo Goldston: “O cano selado, que permitia o truque estava aberto” o que “desfazia”, por assim dizer, o preparo da arma, tornando esta arma, uma arma comum. Um amigo de Wil (cuja a identidade ele mantém em segredo) contou-lhe que foi até o camarim do artista chinês durante o intervalo entre o primeiro e o segundo show daquela noite, e flagrou o mágico chinês mexendo na arma, a qual estava aberta sobre a mesa.

O que poderia ser considerada uma atitude de segurança, passou a ser visto com suspeita. Após o incidente R. Churchil, um perito da época, atestou que o dispositivo que segurava a bala verdadeira e disparava o festim era perfeitamente seguro, mas um parafuso que segurava uma placa de metal que mantinha as duas câmaras separadas (a que executava o disparo falso e a câmara verdadeira) havia se soltado, segundo ele possivelmente pelas sucessivas apresentações. Goldston acreditava que o amigo poderia ter, deliberadamente, soltado o parafuso.

E as evidências de Goldston seguem adiante: Na fatídica apresentação, o próprio Soo carregou o rifle, o que também era um desvio do roteiro original, no qual a arma era carregada por um de seus assistentes. Mas ainda faltava um motivo: o que levaria um dos mais famosos – e habilidosos – mágicos da época a querer tirar a própria vida. Goldston também responde a esta pergunta, embora de forma evasiva. Segundo ele, antes do fatídico show, Soo havia se aconselhado com Goldston acerca de alguns problemas particulares que muito lhe afligiam. Obviamente Goldston não revelou em seu livro quais eram esses problemas.

Isso não impediu que em 1955 o assunto da morte de William Robertson voltasse à tona. Will Dexter escreveu o livro: “The Riddle of Chung Ling Soo”, no qual, além de contar os métodos utilizados pelo mágico, declarou que seus equipamentos eram fabricados por um homem chamado Percy Ritherdon. Aproveitando o renascimento do assunto, um mágico amador chamado Jack Clarkson declarou para um jornal local a sua suspeita sobre o caso Soo e acrescentou alguns detalhes adicionais: declarou que Soo estava com diversas dívidas e mais do que isso, que sua esposa, estava tendo um caso com seu agente. Chegou ainda a sugerir a hipótese de assassinato praticado pelo agente de Soo, mas tais acusações nunca se sustentaram. E quem era Jack Clarkson? Sobrinho de Percy Ritherdon, o fabricante de aparatos mágicos para Chung Ling Soo. Ritherdon e Soo costumavam pensar a fabricar aparatos juntos e o rifle que decretou a morte de Soo, pode ter sido um desses aparatos.

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Livro de Will Dexter que reacendeu a polêmica sobre a morte de Chung Ling Soo

Pode-se, então resumir assim os fatos que o levaram a crer na tese de suicídio:

  1. Chung Ling Soo estava passando por problemas domésticos;
  2. Ele tentou deixar tudo quitado e arrumado antes de partir. E estava ansioso ao fazer isso.
  3. Ele foi atingido no último número, da última apresentação do Sábado;
  4. A arma que o acertou havia sido mexida pelo próprio Chung Ling, minutos antes do show começar;
  5. As balas marcadas (verdadeiras) nunca foram encontradas (talvez por estarem no corpo de Soo);
  6. O prato que Soo segurava não foi atingido pela bala, provando que ele não estava sendo segurado da maneira usual;
  7. Soo carregou a arma ele mesmo, o que também não era o usual.

– Æ –

3. MAS HOUVE MAIS TEORIAS…

Chung Ling Soo era um astro da época, o segundo artista mais bem pago, atrás apenas de Houdini. Por isso sua morte causou tanta comoção e especulação. Outras teorias dão conta que Chung Ling Soo havia sido assassinado pela máfia chinesa; outros afirmam que ele era, de fato chinês, mas que se disfarçava de americano, que se disfarçava de chinês. Visto que muitos mágicos e pessoas ligadas ao teatro sabiam da verdadeira identidade de Robertson e haja vista que sua imitação de um senhor chinês enganou a muitos, essa teoria não é de todo furada. Ela também explica porque Ching Ling Foo, o conjurador chinês original, nunca foi à público desmascarar seu rival.

Teoria à parte, o que conta é a história oficial e ela trata do sucedido como um terrível infortúnio. Porém, as alegações de Goldston, se verdadeiras, não são de todo malucas. Essa é mais uma daquelas histórias que, possivelmente, jamais saberemos de verdade, em que lenda e fatos se misturam. Ou seja, perfeita para este blog 🙂

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Livro: “The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling Soo” de Jim Steinmeyer;

Livro:Sensational Tales fo Mystery Men” de Will Goldston.

Jornal: “The Colar Herald” de 14 de junho de 1918.

Jornal: “The Register” de 25 de junho de 1918.

Site: The Bolton News.

ROBERT-HOUDIN, UMA FRAUDE!*

Minhas investigações deram origem apenas ao mais amargo e mais triste desapontamento. Desprovido de seu véu romanceado, Robert-Houdin se mostrou, sob a luz intransigente dos fatos puramente históricos: um mero fingidor, um homem que enriqueceu sob o trabalho de outros pessoas, um mecânico que, petulantemente, roubou as invenções dos mestres artesãos que lhe precederam.” – Harry Houdini (1906)

– Æ –

Harry Houdini amava sua mãe. Mas havia uma coisa que provavelmente ele amasse mais do que a velha Cecília Weiss: publicidade. Harry amava a publicidade, amava ser reconhecido, invejado e até mesmo odiado. Ele encarnou a expressão “não existe publicidade ruim” inventando inúmeras formas de ser lembrado pelo público; algumas falharam, é verdade, mas a maioria de suas estratégias provou-se um verdadeiro sucesso.

Uma das formas preferidas de publicidade de Houdini era o apelo à emoção. Toda vez que Houdini apresentava-se em uma cidade que abrigava o túmulo de um mágico, ele fazia questão de visitá-lo. Acompanhado de um enorme séquito de repórteres e fotógrafos, Houdini prostrava-se junto à lápide do mágico, descobria a cabeça, baixava sua fronte e deixava-se fotografar em silêncio, contemplando o túmulo. No dia seguinte os jornais locais estampavam a notícia de que “o grande escapista prestara uma homenagem ao já falecido mágico”. O público se emocionava e simpatizava com Harry e com o respeito que ele demonstrara. A gratidão do público se fazia visível ao lotarem os teatros onde Houdini se apresentava.

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Harry Houdini visitando o túmulo de Robert Heller, 1910

Certa vez, Houdini iria apresentar-se em Paris. Decidiu então usar a velha tática de ir ao cemitério para propagandear seu espetáculo. Houdini dirigiu-se até Blois, a 180 km de Paris para visitar o túmulo do mestre Robert-Houdin. Afinal, o que poderia ser melhor do que “homenagear” o homem que lhe “emprestara” o nome e o amor pela magia? Querendo dar um “plus” em sua busca por publicidade, inquiriu os repórteres sobre algum parente vivo de Robert-Houdin que porventura ainda estivesse vivo. Para sua surpresa foi informado que sim haviam parentes vivos – possivelmente os filhos de Robert-Houdin – e que não, eles não queriam vê-lo. Aliás, não só não queriam vê-lo, como não queriam ter qualquer parte com Houdini.

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Lápide de Robert-Houdin em Blois, França

Essa rejeição doeu em Houdini. Como alguém poderia se atrever a não recebê-lo? Houdini nunca buscou saber o porquê da recusa. Talvez eles não gostassem de publicidade (afinal já vinham de uma atribulada vida com Robert-Houdin) e aceitariam um encontro mais discreto. Mas Houdini, vingativo e sanguíneo como era, se recusou a saber os motivos e declarou guerra à memória de Robert-Houdin.

Will Goldston em seu livro “Sensational Tales of Mystery Men” conta que teve o seguinte diálogo com Houdini:

Que diabos, Will!” ele disse, “O que tem de errado comigo? Qualquer um vai achar que sou um leproso! Mas eles vão se arrepender por isso, nem que me custe a vida toda.

O que você quer dizer?” eu perguntei.

Eu estou escrevendo um livro sobre Houdin que fará toda a sua família baixar a bola. Ele vai ter a pior biografia que ele já teve. Ele era um impostor.

Que vergonha, Harry,” eu respondi asperamente. “Você sabe que isso não é verdade. Por que ser tão vingativo? Houdin era um grande mágico e você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

Ele era um impostor, eu digo. Eu juntei todos os fatos para provar isso. E de qualquer forma” concluiu ele baixando o tom da voz “o público vai acreditar em qualquer coisa que eu disser a eles. O ‘Desmascarando Robert-Houdin’ fará com todos percebam isso.

Você está cometendo um grande erro, Harry. Ninguém vai achar que você é uma pessoa melhor depois de um atitude tão bestial. Houdin está morto e não poderá se defender. Um dia desses alguém vai escrever um livro sobre você e o chamará ‘Desmascarando Harry Houdini’.

Ele olhou firmemente para minhas palavras e respondeu: “Se alguém fizer isso, será você,” ele disse lentamente.

Eu ri. “Talvez você tenha razão”, repliquei. “Mas se eu escrever sobre Houdini, nunca vai ser motivado por vingança.

O livro foi publicado em 1907 (embora a edição britânica da obra traga a data de 1906) e foi uma falha de vendas monumental. Embora Houdini tivesse, de fato, juntado muitos fatos sobre Robert-Houdin, ele deixou que sua imaginação escolhesse as palavras do livro. Seu trabalho foi refutado pelos mágicos em geral como “carente de acurácia histórica”. O respeito e a gratidão que todos os mágicos nutriam por Robert-Houdin falou mais alto que o desejo de vingança (e de publicidade) de Houdini.

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Capa da primeira edição do livro de Houdini, 1907.

The Unmasking of Robert-Houdin” (Desmascarando Robert-Houdin) é considerado como o primeiro livro específico de história da mágica publicado (ou ao menos, Houdini assim o propagandeou). Segundo ele foram mais de 15 anos de pesquisa e contém diversas imagens, notas de jornais, e folhetos dos shows de Robert-Houdin. Houdini em sua revista “Harry Houdini’s Conjurers’ Monthly Magazine” de maio de 1908 escreveu que, antes do livro ser colocado à venda, estava sendo anunciado com o preço de US$ 2,00. Quando efetivamente lançado, o preço de capa foi reduzido para US$ 1,00 sob ordem de Houdini que pagou do próprio bolso a diferença, a fim de que seu livro atingisse um público ainda maior.

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Propaganda do livro de Houdini, com o desconto anunciado.

A despeito de todo o esforço empreendido na publicação do livro, ele foi um fracasso. Poucos foram os que efetivamente leram o livro, e os que o fizeram trataram a obra como um ato de despeito. Muitas das cópias do livro – possivelmente as que Houdini deu de presente –  possuem uma anotação escrita a punho pelo próprio Houdini: “Por favor, leia pelo menos a introdução”.

Houdini sofreu fortes críticas pela publicação do livro, em especial de mágicos franceses. Há quem dissesse, na época, que o verdadeiro motivo para ele ter escrito o livro não foi a recusa da família em vê-lo, senão porque simplesmente desiludiu-se com Robert-Houdin e, tendo copiado seu nome a partir do mágico francês, desejava elaborar uma justificativa para poder trocar de nome.

A verdadeira motivação para Houdini ter escrito o livro talvez nunca saibamos. É dito, porém que, anos após a publicação do livro, ao ser questionado sobre a obra, Houdini teria dito que “O único erro que eu cometi foi nomear meu livro como ‘Desamascarando Robert-Houdin’. Deveria ter sido ‘História da Mágica’.

No entanto, justiça seja feita, o livro contém mais do que mera difamação acerca de Robert-Houdin. Além de um relato sobre a história do homem que modernizou a mágica,  serviu também como ponto de partida para a carreira de “debunker” de Houdini. Não obstante, quando encontrou-se com Sir Arthur Conan Doyle, um já conhecido espiritualista, presenteou-o com um exemplar da sua obra “Desmascarando Robert-Houdin”, talvez como um aviso ao novo amigo que não esperasse que ele fechasse os olhos para as fraudes que, porventura, viesse a encontrar.

– Æ –

* OBS: O título do texto, obviamente um chamariz, é baseado em uma famosa frase de Houdini, que, ao desmascarar falsos médiuns, costumava gritar: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”.

– Æ –

FONTES

Livro: Will Goldston “Sensational Tales of Mystery Men”, 1929.

Site: Magicpedia: “The Unmasking of Robert-Houdin

Blog: The Paris Review

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

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1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

– Æ –

2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

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3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

– Æ –

4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

– Æ –

5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

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5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.