MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

-x-

2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

V0004749 Giovanni Battista della Porta. Line engraving, 1688.
Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

livro

-x-

3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

robertson
Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

32
Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

Robert-Houdin Theatre
Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

-x-

4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

-x-

5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

Niehls Bohr
Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

Gold(III)_chloride_solution
Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

-x-

2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

-x-

3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

-x-

4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

-x-

5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.

BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

-x-

1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

-x-

2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

hermmanns
(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

-x-

3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

fooesoo
(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

-x-

4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

selbitegoldin
(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

-x-

5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

houdiniethurston
(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

-x-

David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

copperfieldebecker
(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

-x-

4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.

HOUDINI, O MESTRE DOS DISFARCES

” “Eu sou Houdini, e você é uma fraude!”

Harry Houdini

1. INTRODUÇÃO

Muitos conhecem a cruzada que Harry Houdini empregou contra os falsos espíritas que assolavam o início do século XX com suas demonstrações sobrenaturais. O que poucos sabem é que Houdini costumava se disfarçar para poder entrar infiltrado nas séances (sessões espíritas), a fim de desmascarar os charlatões. Senhoras e senhores, Houdini, o mestre dos disfarces.

-x-

2. AS FACES DE HOUDINI

Houdini começou a disfarçar-se para espiar seus rivais escapistas. Em um dos mais famosos casos, Houdini estava em Cardiff no Cardiff Empire Theater assistindo ao show de Frank Hilbert, chamado “The Bubble Burst”. Hilbert estava mostrando como um escapista experiente podia esconder diversos instrumentos em sua roupa quando um senhor de cabelos grisalhos, barba, óculos e bengala levantou-se e começou a gritar à plenos pulmões: “você é uma fraude, você é uma maldita fraude”.

Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert
Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert

Neste momento, duas mulheres sentadas logo atrás do velho senhor se puseram de pé ao lado do velho quando uma delas levantou um par de algemas aos olhos do público e dirigindo-se ao homem no palco gritou: “Esse homem não usa algemas oficiais da Polícia. Ele tem as suas próprias algemas. Mas eu tenho aqui uma algema oficial da polícia e o desafio a abrí-las.”

Enquanto isso o velho senhor continuava gritando até que foi cercado pelo gerente do teatro e dois lanterninhas que o tentavam fazer parar. O velho começou a girar a bengala no ar até que teve que ser contido por um terceiro lanterninha. Quando o grupo levava o o velho para fora do teatro, a barba do senhor caiu e todos reconheceram o velho: era Harry Houdini. As mulheres eram Bess Houdini, esposa de Harry, e sua irmã Gladys.

“Senhoras e senhores, vejam como estão me tratando”, gritou Houdini. “Isto não está certo!”. “Vergonha!” o público gritava em responso. “Deem-lhe uma chance” alguém da plateia sugeriu. Uma chance era algo que o gerente do teatro sequer pensaria. Ele havia sido alertado pelo dono do teatro, sr. Oswald Stoll que Houdini tentaria entrar disfarçado para expor Hilbert.

O disfarce de Houdini era feito por um maquiador profissional e incluia um nariz postiço feito de cera e enganou completamente a gerência do teatro. Quando perceberam que se tratava de Houdini, o ímpeto em retirá-lo do teatro aumentou: esta era a ordem de Stoll.

Houve uma briga fora do teatro e Houdini quase teve a perna quebrada pelo gerente. Mais tarde naquela noite, Houdini apareceu no King’s Theater para sua apresentação, sujo, cabelo desarrumado e mancando. Quando contou o que havia acontecido, recebeu efusivos aplausos e retirou-se do palco. Mais tarde naquele dia, Houdini escreveu no seu diário: “Me disfarcei. Fui expulso do teatro e apanhei na rua. Isso foi bom para os meus negócios.

Houdini disfarçado com "Mr. WHite"
Houdini disfarçado com “Mr. WHite”

Este era um dos disfarces favoritos de Houdini: um velho senhor de óculos e bengala, o qual Houdini batizou como “Mr. White” (curiosamente, a forma anglicizada de seu nome de batismo “Weiss”). Houdini também possuia outros “aliases”, um deles, um senhor de barbas chamado “F. Fraud”. Este nome também era utilizado pela agente de Houdini, Rose Mackenberg, que se difarçava, entre outros, como Reverenda Francis Raud. Também há registros de Houdini se disfarçar como o Sr. Smith.

-x-

3. HOUDINI, O DESMASCARADOR

Mas como Houdini transformou-se em um desmascarador de falsos médiuns? Arthur Moses em seu livro “Houdini speaks out: I’m Houdini and you are a fraud” conta que após a morte de Rabi Weiss, pai de Houdini, em 1892, este fez com que o filho prometesse tomar conta de sua mãe, Cecília. Assim, cumprindo uma promessa que fizera ao pai, Houdini passou a se dedicar a mãe, tornando-se quase um devoto dela, a ponto de chegar a declarar: “Minha mãe significa minha vida. Sua felicidade era sinônimo de minha paz de espírito”.

Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)
Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)

Quando ela faleceu em 1913, Houdini ficou arrasado. Pela primiera vez em sua vida pública, Houdini cancelou shows e contratos públicos e dedicou-se ao seu luto. Por várias semanas Houdini era visto no cemitério, ditado sobre o túmulo de sua mãe, apenas para ficar mais perto dela. Cheio de luto e desesperado, Houdini passou a buscar conforto em sessões mediúnicas, com o intuito de tentar contatar a sua mãe. Por muitos anos ele buscou conforto no espiritismo. Ele mantinha a mente aberta, mas parte dele continuava cética.

A mudança em Houdini se deu quando seu amigo, Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e um ferrenho defensor do espiritualismo, veio aos EUA em 1922 para uma série de palestras e demonstrações sobre o espiritismo. Houdini e Doyle já se trocavam cartas havia dois anos, e portanto um sabia das convicções do outro.

Os Doyle recebem um convite de Houdini para assistirem ao filme “The Man from Beyond” um filme estrelado pelo próprio Houdini. Como cortesia, os Doyle convidam Houdini e sua esposa para assistirem à sua palestra sobre espiritismo que aconteceria em Atlantic City. Durante a palestra, Lady Jean Doyle, esposa de Sir Arthur, recebeu o espírito de Cecília, mãe de Houdini, e psicografou-lhe uma carta de 15 páginas.

Houdini (ao centro) junto à família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita).
Encontro de Houdini (ao centro) e da família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita). A foto foi tirada em Atlantic City, quando a carta “psicografada” foi escrita.

Houdini não poderia ter ficado mais desapontado. As supostas palavras de sua mãe, psicografadas por Lady Doyle não poderiam ser mais imprecisas. Primeiro, a carta fora escrita inteiramente em inglês, uma língua que a sra. Cecília mal sabia falar, quanto menos escrever. Pior, a carta fora marcada com uma cruz no topo da primeira página. Cecília era uma judia devota e jamais desenharia uma cruz. Por fim a carta foi escrita em 17 de junho, data do aniversário de Cecília. Novamente, nenhuma menção a data, por parte do “espírito”. Assim, alquebrado, mas tentando não insultar o amigo, Harry educamente recusou a aceitar a carta como legítima. Sobre o episódio, Houdini disse que não achava que os Doyle o houvessem enganado propositadamente, mas que eram meras vítimas de sua própria ingenuidade.

Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.
Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.

Foi então que, em sua busca por um clarividente de verdade, Harry passou a frequentar as séances, e a cada nova sessão ficava ainda mais desapontado: por que todos mentiam? Não tardou para que seu desapontamento virasse mágoa e alimentasse um desejo de vingança. Assim Harry começou a sua cruzada desmascarando charlatões. Houdini continuava acreditando ser possível contatar espíritos, apenas cria que pagar uma entrada não era o método correto para tal.

Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa)
Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa).

Como tinha uma agenda lotada, Houdini frequentemente enviava sua sócia Rose Mockenberg para a cidade na qual se apresentaria dali alguns dias. Rose, se disfarçava como uma viúva desconsolada, uma mãe que perdera o filho ou mesmo uma esposa abandonada e frequentava as sessões. Após a avaliação de Rose, Houdini se disfarçava e ia para a sessão com o intuito de desmascarar os falsos médiuns. O disfarce se fazia necessário, pois Houdini já era um rosto famoso em seu tempo.

rose3 rose2

Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.
Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.

Quando o momento da trampa chegava, Houdini de forma triunfante tirava o seu disfarce e gritava: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”, expondo assim o médium. Além disso, não raro Harry convidava policiais ou outras autoridades para que se fizessem presentes à sessão. O resultado é que muitos médiuns e simpatizantes do espiritismo detestavam Houdini.

Houdini praticando uma falsa sessão espírita
Houdini praticando uma falsa sessão espírita.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.

É importante notar que Houdini não era contra o espiritismo ou a religião em si, mas contra os charlatões que se valiam da boa fé das pessoas e lucravam às custas da fé alheia. Fosse hoje talvez Houdini desmascarasse outros charlatões por aí.

-x-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Site: Wild About Houdini

Site: The Magic Detective

Site: The Great Harry Houdini

Livro: “Houdini Speaks Out: ‘I Am Houdini! And You are a Fraud!’ ” de Arthur Moses

Livro: “The Secret Life of Houdini: The Making of America’s First Superhero” de William Kalush e Larry Sloman

Livro:The Secrets of Houdini” de J.C. Canell

UMA MÁGICA QUE LEVOU 34 ANOS PARA ACONTECER

Em 3 de junho de 1997, o famoso mágico Teller realizou um truque que começou a elaborar em 1963. Ele esperou 34 anos para realizar uma atuação única.

Tudo começou em 1963 quando o futuro integrante da dupla Penn & Teller estudava Letras em Nova Jersey. Certo dia, um de seus professores leu para a classe um conto intitulado “Enoch Soames”, escrita pelo britânico Max Beerbohm em 1916. O protagonista desse conto, Enoch Soames, é um escritor medíocre e vaidoso que vive no final do século XIX e que um dia recebe uma oferta tentadora do Diabo: viajar para o futuro para ler as resenhas sobre a sua vida, em troca, é claro, de sua alma.

Enoch Soames por Max Beerhorm
(Clique na imagem para ampliá-la)

Soames aceita o pacto e é transportado para a Biblioteca do Museu Britâncio de Londres, às 14:10 do dia 3 de junho de 1997, onde descobre que a única referência a sua pessoa é um conto escrito por Max Beerbohm. Ao ouvir a história Teller começou a idealizar um truque de mágica que viria a executar 34 anos mais tarde. Assim, na tarde de 3 de junho de 1997, 30 minutos antes das 14:10, Teller se apresentou na Biblioteca do Museu Britânico.

Ele não sabia se o truque funcionaria, já que não podia prever quantas pessoas dentre as que haviam lido de Max Beerbohm sentiriam alguma curiosidade para estar presente na hora em que Soames apareceria na biblioteca. Para a sua surpresa, descobriu que pouco mais de dez pessoas esperavam a chegada do personagem literário. Entre estes, uma mulher que havia viajado da Califórnia e um espanhol que viera de Madrid. Neste momento Teller soube que seu número seria um sucesso.

Justo quando o relógio marcava 14:10 um homem cuja descrição correspondia com a descrição de Enoch Soames e vestido com a roupa habitual do fim do século XIX apareceu do nada e aproximou-se do bibliotecário. Ali, pediu para ver os catálogos de livros e, após folheá-los por alguns momentos, dirigiu-se à estante onde se encontrava a obra de Max Beerbohm.

O misterioso personagem abriu o livro e, com uma expressão de desapontamento, sacudiu a cabeça, fechou o livro e desapareceu entre as estantes. As doze pessoas que conheciam a história ficaram atônitas. Teller jamais disse aos presentes que havia dedicado vários meses para encontrar um ator que fosse idêntico a Soames, nem que havia visitados inúmeras lojas de fantasias até encontrar uma que tivesse um impermeável da mesma cor que Beerbohm havia descrito em seu livro, nem a forma que usou para esconder o ator entre duas estante spara simular que ele havia aparecido assim do nada.

Teller simplesmente saiu satisfeito em saber que seu número, o qual havia esperado por cerca de 34 anos, havia funcionado perfeitamente, impressionando uma dúzia de amantes da história de Enoch Soames.

Enoch Soames, por William Rothenstein in 1895
(Clique na imagem para ampliá-la)

OBS: Caso queira ler o conto completo, clique aqui (em inglês). Créditos: Projeto Guttemberg.org

REFERÊNCIAS

Extraído e adaptado de: site ABC.es; caderno “Meyos y Redes”

Imagens: Enoch Soames, na Wikipedia

A LANTERNA MÁGICA

Há cerca de 600 anos, antes mesmo do homem sonhar com cinemas ou televisões, um cientista veneziano, à frente de seu tempo, deixou anotado em seu tratado “Liber Instrumentorum” as anotações da construção de um dispositivo que ficaria conhecido como “A Lanterna Mágica”, o mecanismo foi precursor dos projetores de diapositivos e avô dos modernos projetores de multimídia.

As imagens eram imagens pintadas sobre placas de vidro, colocadas dentro da Lanterna Mágica e ampliadas ao serem projetadas sobre uma tela. A lanterna mágica logo converteu-se em um popular instrumento de entretenimento e comunicação por antonomásia de toda uma época.

Projeção doméstica de uma Lanterna Mágica

O INÍCIO DE TUDO

Aquele era um tempo de grandes descobrimentos; época em que as pessoas mais detidamente certos fenômenos e, por isso mesmo, ampliava, mais até do que agora, o horizonte de suas mentes. E este senso de descobrimento foi um dos catalisadores do sucesso da lantarna mágica. Umas das primeiras descrições sobre o aparelho, ainda que tenha sido meramente um esboço rudimentar, foi feita por Giovanni Fontana em 1420. Ainda que não explicasse em detalhes o fenômeno, foi ele quem descreveu os conceitos-base do funcionamento da lanterna.

Tempos mais tarde outros desenvolveram a idéia-base de Fontana: Giovanni Baptista della Porta (1590), Athanasius Kircher (1650), Christian Huygens (1659) e outros que desenvolveram e aprimoraram a câmera. Justo ou não, o fato é que até hoje o nome que aprece creditado à invenção é o do alemão Athanasius Kricher, um padre jesuíta e que usava a Lanterna Mágica para ilustrar histórias bíblicas. A lanterna de Athanasius era, basicamente, uma câmera escura ao contrário.

POR QUE “LANTERNA MÁGICA”?

Como na época, ainda não existiam cinemas, e ppor isso raros eram os que conheciam o conceito de projeção, ninguém tinha a mais remota idéia de onde vinham aquelas imagens que apareciam por cima do público em uma parede ou uma tela.

Que outra explicação poderia ter tão estranho fenômeno, salvo que fosse algo sobrenatural ou então simplesmente mágico? Daí, para a associação destes espetáculos a forças ocultas era apenas um detalhe. Possivelmente neste ponto é que tenha sido cunhado o termo “Lanterna Mágica”.

DESCRIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS

Os dispositivos mais simples eram formados por uma caixa com uma lamparina de azeite, uma chaminé que expelia a fumaça e evitava que a chama se apagasse e uma lente. A fonte de luz, a princípio eram velas e lamparinas de azeite. Mas alguns “iluminados” tiveram a idéia de usar outros tipos de luz mais intensas, frutos de reações químicas como a luz hidrogenizada e luz acetilênica. Porém, foi com o advento da lâmpada elétrica que estes aparelhos tiveram seu ápice.

Desenho esquemático de uma Lanterna Mágica

Desenvolvimentos posteriores fariam com que as imagens ganhassem movimento, através de uma placa fixa e outra móvel colocadas de forma sobreposta. A ilusão de movimento estava criada, ainda que esta fosse muito rudimentar.

Diferentes modelos de Lanternas Mágicas. Observe os modelos "orientais" abaixo, sendo o da esquerda com temática indiana e o da direita, similar a um pagode japonês.

OS EFEITOS ESPECIAIS

A grande sensação das apresnetações da Lanterna Mágica era o que hoje chamaríamos de efeitos especiais, as: “Visões Dissolventes” Por meio de um par de diapositivos, um jogo de lentes e mais alguns mecanismos, podiam ser simulados uma troca de estado, por exemplo, uma paisagem vista de dia e em seguida vista de noite; vista no inverno e no verão; um barco navegando em um mar calmo e em seguida sob uma poderosa tempestade.

Os sistemas destes dispositivos, assim como sua forma de iluminação iriam sendo modificados dando origem a novos efeitos especiais, tais como: Panoramas, Polioramas, Diafanoramas, Cosmoramas, Silforamas, etc.

O Panorama permitia observar em uma parede de formato cilíndrico uma paisagem vista em 360 graus, mostrando assim um panoramaa de toda a paisagem. O espectador permanecia de pé, ao centro do cilindro e de repente se via em meio a uma cidade ou outra locação qualquer. Variando a iluminação, as pinturas e outros detalhes técnicos, se vizualizavam as mesmas paisagens em situações distintas, chegando a projetar ficções e visões fantásticas em uma sucessão de quadros, tais como se fora um filme moderno. Se tratava de um poderoso ilusionismo visual, uma verdadeira mágica.

O ESPETÁCULO

A lanterna alcança seu apogeu no final do século XIX, quando estes equipamentos eram fabricados em todos os tipos e tamanhos, desde pequenas lanternas de jogos para crianças, até aquelas dedicadas às grandes apresentações nos maiores teatros da época.

A algum “showman” do final do século XVII ocorreu uma brilhante idéia: “E se, ao invés de estabelecer-se de forma permanente em alguma cidade, por que não viajar, conhecer o mundo, divertir-se e de quebra, levar a magia da lanterna aos lugares mais remotos?”

É desta maneira que os primeiros lanternistas começam a viajar continuamente apresentando seu espetáculo e, dado seu caráter itinerante, exibiam-se em hotéis, pousadas e castelos. Levavam todo o seu equipamento nas suas costas, anunciando seus espetáculos com pandeiros, órgãos ou qualquer outro instrumento, buscando chamar a atenção de seu “respeitável público”.

Caricatura de um Lanternista itinerante anunciando o seu show.

Quando o espetáculo da Lanterna Mágica ia para as salas de teatro, se convertia em um verdadeiro show, já que contava com um apresentador ao vivo que ia explicando as imagens e era acompanhado por alguns músicos, que faziam a trilha sonora, segundo a imagem que aparecia, levando a plateia a um verdadeiro êxtase.

Apresentação de um show de Lanterna Mágica em um teatro

Porém no final do século XIX, surge um novo invento, o Cinematógrafo, que vem a se tornar o mais ferrenho competidor da Lanterna Mágica, e que acabou arrebatando a atenção do público. O Cinema com suas imagens em movimento contínuo acabam por decretar o fim da Lanterna Mágica, que acabaria se tornando apenas mais uma peça de colecionadores.

Hoje ainda em alguns lugares da América do Norte e da Europa se realizam exibições da Lanterna Mágica, onde colecionadores e historiadores apresentam o aprelho e contam um pouco da sua história. Eles ainda usam os mesmos instrumentos e vestuário daquela época.

Abaixo segue um vídeo mostrando o funcionamentode uma Lanterna Mágica

No próximo post falarei sobre um tipo de apresentação usando a Lanterna Mágica e que foi um dos mais populares no auge da Lanterna Mágica e serviu de base para muitas mágicas de palco. Mas como um bom mágico não revela o que vai fazer, vocês só saberão sobre essa apresnetação no próximo post.

Até lá!

Amplexos!

FONTES

http://www.luikerwaal.com/indexx_uk.htm

http://blog.makezine.com/archive/2010/03/lost_knowledge_magic_lanterns.html

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/la-linterna-magica.html

http://www.acmi.net.au/AIC/PEEP_SHOW.html

http://pardalitos.blogs.sapo.pt/2007/03/

MÁGICA EM TEMPOS DE GUERRA (PARTE I)

Extraído do portal UOL

Autor: Thiago Chaves-Scarelli

CIA ENSINOU TRUQUES DE MÁGICA AOS SEUS AGENTES DURANTE A GUERRA FRIA

Precisa colocar uma pílula secreta na bebida de um chefe de Estado sem ser percebido? O truque é agir com movimentos calmos, distraindo seu alvo com outra ação espontânea, em um cenário preparado com antecedência. Ou seja, da mesma maneira que um mágico enganaria sua plateia.

Precisa envenenar alguém? Mão esquerda abaixada para a ação, imediatamente após o fósforo ser riscado e distrair alvo.

Esse é o espírito das lições que foram passadas aos agentes secretos norte-americanos pelo ilusionista profissional John Mulholland, em um “manual” ultrassecreto escrito a pedido do governo dos EUA no auge da Guerra Fria – e que agora, seis décadas depois, foi divulgado por pesquisadores norte-americanos.

“CIA – Manual Oficial de Truques e Espionagem” (Lua de Papel, R$ 34,90), publicado no Brasil este mês, é o resultado da pesquisa dos especialistas H. Keith Melton e Robert Wallace, responsáveis por encontrar a única cópia de que se tem notícia destes textos.

Capa do livro "CIA - Manual Oficial de Truques e Espionagem" (Ed. Lua de Papel).

Fim do “jogo limpo”

O livro conta que durante a década de 1950, o acirramento da tensão entre os americanos e a União Soviética levou os EUA a revisarem os procedimentos de sua recém-criada agência de inteligência.

“Se os Estados Unidos quiserem sobreviver, os sagrados conceitos norte-americanos de ‘jogo limpo’ devem ser reconsiderados. Devemos aprender a subverter, sabotar e destruir nossos inimigos mediante métodos mais engenhosos, mais sofisticados e mais eficazes do que aqueles utilizados contra nós”, defendia um relatório militar entregue ao presidente Dwight D. Eisenhower em 1954.

Os EUA se sentiam ameaçados por uma potência soviética que não hesitava em matar lideranças políticas e perseguir civis quando era conveniente. Em resposta, aplicou uma postura ofensiva. “As ações clandestinas da CIA se expandiram da Europa para Oriente Médio, África, América Latina e Extremo Oriente”, contam os autores.

Essa expansão coincide com o desenvolvimento do MKULTRA, um dos programas mais delicados da Guerra Fria, que acabou englobando 149 subprojetos e se manteve como um dos segredos mais bem guardados da CIA por mais de 20 anos.

Pílulas, pós e ilusionismo

O objetivo dessas agências era pesquisar e desenvolver produtos químicos, biológicos e radioativos com efeitos no comportamento – inclusive almejando algum tipo de “controle da mente”. Manipulação e experiência psicofarmacêutica com humanos (nem sempre cientes de sua participação na “pesquisa”) era parte do trabalho, como a CIA reconheceria mais tarde.

Parte dessa pesquisa não levou a conclusões aplicáveis – caso da aplicação monitorada de LSD, por exemplo – e houve inclusive mortes relacionadas a tais experimentos. Mas ao mesmo tempo a CIA começava a ter pós, líquidos e pílulas tóxicas a seu alcance.

Independente de seu propósito final, escrevem os autores, as substâncias químicas da CIA “seriam operacionalmente inúteis se os oficiais de campo não conseguissem aplicá-las de modo velado”.

É nesse momento que o mágico John Mulholland faz sua estreia no mundo da espionagem: sua tarefa era ensinar truques de ilusionismo para os agentes secretos. “Mulholland aceitou US$ 3 mil para escrever o manual e a CIA aprovou a despesa como Subprojeto MKULTRA número quatro, em 4 de maio de 1953”.
“Aplicações operacionais da arte da fraude”

“O objetivo deste trabalho é ensinar o leitor a executar diversas ações de modo secreto e indetectável. Em resumo, aqui estão instruções a respeito de fraudes”, escreve Mulholland no início de seu primeiro manual.

“Qualquer tipo de movimento atrai atenção (…) e a trapaça depende de não chamar a atenção para o método da performance. Os mágicos não utilizam a velocidade em suas ações”, ensina o ilusionista.

Ainda no primeiro capítulo, o mágico busca convencer o leitor a descartar as ideias “falsas” sobre o ilusionismo. “O grande mito a respeito de todas as trapaças é que existe um único segredo que explicará como cada truque é executado”, escreve Mulholland. “O fato é que existem diversas maneiras de se executar essa mágica.”

O livro prossegue com capítulos como “manuseio de pílulas”, “manuseio de pós”, “retirada furtiva de objetos” e “como trabalhar em equipe”. Ao final do volume, os autores compilam também um segundo “manual secreto” do mágico, mais curto, no qual Mulholland se dedica a descrever sinais para reconhecimento entre agentes que trabalham juntos.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição de civis e agentes secretos, as técnicas de Mulholland ainda têm importância? “A tecnologia muda e evolui, pode diferir de cultura para cultura, ainda assim os princípios da trapaça e da fraude são eternos”, afirmou Wallace ao UOL Notícias. “Mulholland teria se deliciado com os ‘truques’ sofisticados que agora são possíveis com o avanço nos materiais, miniaturas e eletrônicos.”

No site da UOL ainda tem uma micro-entrevista com Robert Wallace, co-autor do livro.

De minha parte, vou pesquisar a história do Mullholland e asism que tiver algo, posto aqui.

Amplexos!