O DIA EM QUE UMA ILUSÃO FOI CORTADA PELA METADE

Na noite de 9 de abril de 1956, os espectadores da BBC em Londres viram algo que os assustou. Um truque de mágica que fora cortado pela metade; o truque em questão era – ironicamente – “cortando a mulher ao meio”. Na hora em que a serra atingiu o corpo da assistente do mágico indiano PC Sorcar, o apresentador subitamente interrompeu o truque e, sem muitas explicações, anunciou o fim do show – que à época era gravado ao vivo.

Será que algo acontecera? A assistente estava bem? O que havia acontecido afinal de tão terrível que o truque foi interrompido? Esta é uma história de como um truque realizado pela metade, conseguiu causar mais frisson do que se tivesse sido feito em sua totalidade.

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Protul Chandra Sorcar, nome de batismo do mágico indicano PC Sorcar, nasceu em 23 de fevereiro de 1931 em Bengali, na Índia. Nascido em uma família de mágicos, Sorcar era a oitava geração da família a se aventurar pelo mundo do ilusionismo.

Protul Chanadra Soccar
Protul Chandra Soccar

O começo da carreira de Sorcar foi estrondoso e, de certa forma, traumático. Hábil na promoção pessoal Sorcar não tardou para lograr fama em sua terra natal. Era visto por seus conterrâneos mais do que meramente um ilusionista, ele era admirado como um verdadeiro curandeiro, a tal ponto de certa vez, uma família lhe trazer uma criança que havia sido mordido por uma serpente venenosa. Enquanto convencia a família de que não era um curandeiro, senão um simples artista, a criança não resistiu e veio a falecer.

A fama de Sorcar lhe precedeu e logo a BBC ouviu falar dele e o convidou para participar de um de seus programas, o show noturno Panorama. A sorte havia sorrido duplamente para Sorcar, pois sua participação no programa havia sido marcado para a noite de 9 de abril de 1956, um dia antes de sua estreia pelo circuito londrino no Duke of York Theater. O night-show seria uma excelente forma de divulgar gratuitamente seu espetáculo.

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Abertura do programa “Panorama”

Na noite de 9 de abril de 1956, Sorcar estava nos estúdios da BBC pronto para se apresentar. E ele seguiu o roteiro proposto, deixando para o final seu grande truque de cortar a mulher ao meio. A versão de Sorcar era ligeiramente diferente da tradicional, por Sorcar usava um serra circular e deixava o corpo de sua assistente completamente à vista, e não escondido em uma caixa.

Sorcar iniciou sua apresentação com alguns números clássicos, como o “Água da Índia” em que uma tigela com água permanece constantemente cheia, não importa quantas vezes ela seja esvaziada. Aliás, a apresentação de Sorcar merece destaque. Embora interpretasse um personagem indiano, Sorcar estava longe de se rum personagem caricato. Segundo registros, ele conseguia dosar muito bem a ideia e o fascínio oriental, com os costumes e gostos ocidentais. Seu show era colorido, com roupas típicas e palavras indianas mescladas com inglês, mas também era de  fácil entendimento e assimilação. As técnicas ocidentais eram potencializadas com o background oriental. E o resultado era maravilhoso. E embora fosse um show com temática indiana, praticamente todos os truques, eram ocidentais. E seu gran finale era o truque de serrar a mulher ao meio. O mais ocidental – e clichê – dos truques de mágica.

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De volta ao programa da BBC, após alguns números de seu repertório, Sorcar deu início ao último número da noite. Tudo corria da maneira usual: ele hipnotizara Dipty Dey, sua jovem assistente de 17 anos e a deitou em uma maca hospitalar.  A câmera capturava todos os detalhes e o público pode ver claramente a jovem deitando-se na maca e, acima da jovem, uma serra circular. Todo o corpo deitado da jovem Dey podia ser visto. Sorcar ligou a serra e lentamente baixou-a, até que ela encostou no corpo da jovem. Mais alguns segundos e a serra chegou a altura de onde seria a coluna da assistente.

Neste momento o apresentador do programa Richard Dimbleby se postou rapidamente entre a câmera que capturava a cena e a mulher serrada ao meio e sem qualquer explicação disse que o show daquela noite havia chegado ao fim.

Richard Dimbleby
Richard Dimbleby

Foi aí que os telefones da BBC começaram a tocar sem parar. Todos queriam saber o que havia acontecido com a jovem Dipty Dey. Ela estava bem? Estava viva? O que levou o apresentador a encerrar o show dessa forma.

Se hoje, tal reação nos soa um tanto exagerada, é bom lembrar que na época, o oriente ainda causava uma atração mística nos ocidentais. Mais ou menos nessa época, a televisão descobriu a mágica e truques que antes eram restritos apenas a teatros começaram a ser transmitidos ao vivo pelas televisões. Em 1936, por exemplo, a própria BBC televisionou ao vivo o mágico indiano Ahmed Hussain caminhando sobre brasas acessas. Números de mágica ao vivo, portanto, ainda eram uma novidade. Além disso, o  toda a ação de Sorcar fora executada de forma magistral, sem a caixa que oculta o corpo da assistente, o que permitiu um excelente close da cena. Por isso, para a audiência da época, a impressão é que algo havia saído terrivelmente errado.

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PC Socar serrando sua assistente

Os telefones da BBC enlouqueceram. Muitos ligavam sem parar querendo saber o que havia acontecido. A BBC teve que designar alguns atendentes apenas para garantir aos que telefonavam que tudo estava bem. Mais tarde naquela mesma noite, uma decisão sem precedentes: o jornal noturno preparou um editorial afirmando que a assistente estava viva e bem. Esta foi provavelmente a primeira (e única) vez que um jornal noturno anunciou em nível nacional que um truque de mágica saiu exatamente como planejado. Mas nem isso foi o suficiente para acalmar os ânimos.

Sawing a lady in half on BBC-TV , London, in 1956
Cortando a mulher ao meio – BBC, Londres (1956)

No dia seguinte, os jornais mais sensacionalistas exibiam a manchete de capa: “Será que o mágico matou a garota?”  e naquela noite o Duke of York Theater estava lotado. Todos queriam ver com seus próprios olhos se a assistente estava bem e inteira. Ela estava. A tal ponto que durante toda a temporada ela era diariamente cortada ao meio e depois restaurada…

 Mas então porque a transmissão parou abruptamente? Por menos misterioso que seja, a razão é bastante simples: Sorcar estourou o tempo disponível para se apresentar e o apresentador teve de interromper o show porque a BBC se recusou a atrasar ainda mais a grade de programação. A emissora decidiu não mais dar publicidade gratuita ao mágico e cortou seu truque ao meio.

Muitos anos mais tarde, o filho de Sorcar, foi à BBC onde lhe lembraram da história de seu pai. Sorcar Jr. riu e disse que havia um equívoco. Seu pai, disse ele, controlava nos mínimos detalhes tudo o que acontecia no palco, incluindo o tempo de apresentação. Se o tempo havia estourado, disse Sorcar Jr., foi porque meu pai assim o quis. “Timing” é tudo para um mágico, e Sorcar soube deixar seu público querendo ainda mais.

Sorcar Jr.
Sorcar Jr. repetindo o número do pai

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FONTES

Blog: Mentalfloss

Wikipedia: PC Sorcar

Jornal “The Stage” 12 de abril de 1956.

O NÍVEL DA MÁGICA ̶N̶O̶ ̶B̶R̶A̶S̶I̶L̶

O NÍVEL DA MÁGICA NO BRASIL

por Daniel Prado

Pare o que está fazendo e comece a andar. Pode ser sentido norte, sul, tanto faz. Não veja as placas, olhe apenas ao seu redor. Siga até que chegue ao primeiro ponto entre sua cidade e a seguinte e olhe em volta. Não há uma linha a se cruzar, não existe distinção física clara entre um lugar e o outro. O mesmo vale para grande parte do mundo. No entanto, ao olhar um mapa, somos levados a crer que esse mundo é repleto de fronteiras e divisões para deixar claro, a quem quer que seja, onde é o MEU e onde é o SEU lugar.

Fronteiras são apenas um recurso político para separar a humanidade. Alguém pode levantar da cadeira e gritar que elas também servem para unir, afinal, o povo é unido pelas suas relações culturais e sociais que, sem fronteiras não existiriam. Mas o povo é realmente unido?

O ‘povo’ só é unido até o próximo conflito com outro ‘povo’. O brasileiro pode ser unido quando é ‘contra’ um país. Até ser contra um estado, então, o brasileiro não é mais brasileiro, é carioca, paulista ou mineiro. Até ser contra uma cidade, daí é paulistano, mogiano ou recifense. Até ser contra um bairro, contra uma rua, vizinho ou o irmão do quarto ao lado.

A verdade é que não existem fronteiras. As quase infinitas interações entre os elementos naturais fazem com que o mundo seja um só. O único responsável por tentar dividi-lo é este ser prepotente e egoísta que o domina.

Entra ano, sai ano, mágicos atribuem importância à um assunto cuja relevância é tão certa quanto a força invisível que levita as incansáveis mesas flutuantes: O nível da mágica brasileira.

Com dedos certeiros e implacáveis, mágicos de todos os cantos do país digitam, sentados em seus sofás, em seus teclados de computador, argumentos precisos e confiantes sobre o ‘nível da mágica em nosso país’ certos de que suas palavras serão capazes de curvar o rumo da história.

Como alguém olhando o fogo consumir o jardim e se aproximar da casa teclando desesperadamente com seus ‘amigos’ de internet sobre a natureza do fogo, sobre seu calor, velocidade, motivos e consequências sem perceber que sua casa será consumida pelas chamas se ele não se levantar e fizer algo.

Em primeiro lugar, não existe Brasil. Essa é uma definição geopolítica que fizeram por você 517 anos atrás. Você caiu aqui sem querer. O ‘brasileiro’ que estaciona ocupando duas vagas, que lhe assalta, que lhe tira o sono de madrugada com uma música alta, está pouco ligando para a sua ‘nacionalidade’. Além disso, em um mundo onde qualquer motivo é suficiente para criar ‘fronteiras’ a única coisa que nos une é nossa humanidade. E neste aspecto, meu camarada, infelizmente é cada um por si.

A ideia de que um grupo de pessoas unidas apenas por sua localização geográfica serve de alguma forma para colocá-las em um mesmo pote de capacidade de desenvolvimento criativo e artístico é tão absurdo como supor que árvores têm a mesma espécie e produzem os mesmos tipos de frutos só por estarem na mesma floresta.

No entanto, porque compartilhamos as mesmas dificuldades estruturais e usufruímos do mesmo caldeirão cultural, as pessoas continuam a acreditar que isso é o suficiente para criar uma coletividade em que cada indivíduo é responsável pelo sucesso do outro. Não é.

Não quero dizer com isso que devemos ser solitários em nossas empreitadas. A capacidade de se juntar para atingir um objetivo é uma das coisas que nos torna humanos e devemos nos valer dela, sem dúvidas. Mas com isso, quero dizer que isso deve ser facultativo e não compulsório. Um grupo de pessoas deve escolher se ajudar e não ser obrigado a isso. E é aí que o problema aparece.

Insistir em uma discussão, onde se coletiviza indivíduos distintos sem nenhum vínculo prático, imaginando que a produção artística e cultural dessa ‘coletividade’ deve ter alguma relação é o mesmo que discutir a capacidade alimentar dos diferentes tipos de peixes de um lago esperando que, só por estarem no mesmo lago, devem comer a mesma coisa.

O que ocorre é que poucas pessoas estão realmente dispostas a enfrentar os desafios necessários para que sua própria qualidade seja aprimorada e prefere pôr a culpa nessa tal ‘coletividade’ inexistente como se isso a eximisse de ser melhor individualmente.

Para que o nível de o que quer que seja melhore, é profundamente necessário que tenhamos pessoas realmente dispostas a serem melhor e não pessoas desqualificadas apontando o dedo dizendo o que é bom e o que é ruim.

Quer contribuir? Não produza material audiovisual tosco, pague para quem sabe fazer. Não crie efeitos idiotas, só para dizer que criou algo. Ignore os elogios e escute as críticas construtivas. Aprenda inglês, aprenda PORTUGUÊS, estude filosofia, leia, viaje, veja documentários sobre a natureza, sobre comida, sobre arte e pratique, pratique, pratique deliberadamente seu ofício até que você possa ser uma vírgula na história que você tanto quer que mude!

NOTAS SUL-AMERICANAS

Este é um ensaio escrito por Leslie Briant para a revista “The Sphinx” de 1961, há mais de 65 anos, portanto. Tristemente ele continua muito atual.

As imagens não se encontram no artigo original, e foram adicionadas meramente como ilustração.

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NOTAS SUL AMERICANAS

por E. Leslie Briant

Briant era um cidadão britânico que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e era correspondente da “The Sphynx” naquele país.

Para a ocasião da edição do 50 º aniversário da “Sphynx” ele escreveu este texto, oferecendo a oportunidade de uma retrospectiva mágica sobre o progresso da arte nos países sul-americanos.

No que diz respeito à América do Sul, os últimos cinquenta anos (dos quais o escritor tem esteve pessoalmente familiarizado com a magia por estas bandas por quarenta anos) não mostraram qualquer melhoria substancial. Com isso não deduzo que os truques de hoje sejam os mesmos da virada do século XXI. O que eu afirmo – e o faço enfaticamente – é que a América do Sul em geral, e a República Argentina em particular, não fizeram nenhuma contribuição excepcional para o progresso da magia. Que há um número de executantes individuais que são mágicos eficientes e capazes, eu serei o primeiro a admitir; mas eu desafio qualquer um a nomear um mágico argentino famoso – ou mesmo conhecido – além dos limites do Rio da Prata. E quantos dos efeitos foram lançado pelos “dealers” nos últimos cinquenta anos emanaram da inventividade dos bruxos sul-americanos? Que livros sobre magia foram escritos por autores sul-americanos? Existem revistas mágicas?

A resposta a essas perguntas pode muito bem presumir um pessimismo em relação à magia, algo que está longe da minha intenção. É bom, porém, encarar os fatos e admitir que a magia nestes países segue submissamente a tendência dos países de língua inglesa, isto é, dos Estados Unidos e da Inglaterra. O número de assinantes da imprensa mágica de língua inglesa, nessas terras onde não se fala inglês, é surpreendentemente grande. Catálogos de todos os “dealers” podem ser encontrados nas coleções de mil-e-um entusiastas mágicos. Deduz-se, portanto, que a magia realizada na América do Sul emula necessariamente à dos países de onde vêm essas revistas e catálogos. A América do Sul sempre será um passageiro no vagão da mágica, e nunca o condutor na locomotiva.

Uma razão para isso poderia ser encontrada na atitude do público para com a magia e os mágicos – e aqui eu gostaria de acrescentar que me refiro ao artista local, e não ao ilusionista profissional em turnê pelo mundo, do qual tratarei mais tarde. O público sul-americano de teatro considera o ofício do mágico como um entretenimento de natureza de classe baixa. Isto é, sem dúvida, em função da falta de algum artista que ele possa classificar como pertencente ao primeiro escalão da mágica; e até que tal artista emerja a magia irá manter o seu baixo nível de atração pública. Outra razão, e possivelmente mais pungente, é a falta de originalidade. Todos fazem os mesmos truques, usam o mesmo “patter“, imitam os mesmos maneirismos, roubam as mesmas “gags“, os mesmos cartazes e até as propagandas. Até que uma mudança radical ocorra na mente do mágico nativo, a magia permanecerá este mesmo tempo no marasmo.

Tanto para o expoente local da arte mágica

Olhando para a magia em um sentido mais internacional, é surpreendente observar o número grande e crescente de artistas profissionais que fizeram uma turnê pela América do Sul durante o último meio século. Todos em busca do “ouro dos incas” que supostamente pavimentaria as ruas deste romântico continente. Poucos, entretanto, viram, de fato, o brilho dele e a maioria deixou estas terras de volta para casa, como mágicos mais sábios – e mais abatidos – do que quando, esperançosamente, chegaram. Aqueles poucos que obtiveram sucesso com suas apresentações atualizadas, roteiro bem apresentado e propaganda adequada, atravessaram o redemoinho, mas seu número pode ser contados nos dedos de uma mão.

Um breve, mas necessariamente incompleto, levantamento de ilusionistas estrangeiros que fizeram uma turnê pela América do Sul durante os últimos 50 anos pode ser de interesse. Minha primeira lembrança é a aparição de Le Roy, Talma e Bosco no ano de 1913 na cidade de Rosário em Santa Fé. Foi-me dito que por volta de 1908 Dean Powell esteve por aqui, mas isso foi antes do meu tempo aqui. Eu já tinha visto Servais Le Roy na Inglaterra na minha juventude, mas desta vez ele se uniu com Talma (a Rainha das Moedas) e Bosco (o Mágico Comediante). Eu não me lembro, após um lapso de tempo tão grande, de todo o seu programa; mas eu me lembro de Le Roy desaparecendo do palco e reaparecendo como o regente da orquestra. E eu acredito que foi Bosco quem usou o que naqueles dias chamou de uma piada corrente, na forma de um canil mecânico do qual um cachorro saltava latindo cada vez que Bosco assobiava. Alguns anos mais tarde, e na mesma cidade, conheci Maurice (o Grande) Raymond que apresentou-se no Teatro Colón em 1916. Este famoso artista apareceu completamente renovado em sua segunda visita à Argentina em 1927. Esta última turnê, no entanto, foi um desastre financeiro. Raymond era um homem encantador, com o porte de um diplomata, e eu estava em meu caráter de correspondente especial de um jornal de Buenos Aires quando entrevistei Raymond. Descobri que, na verdade, Raymond me entrevistou e me deu uma dissertação sobre os efeitos do excesso de comer e como isso era propício para pegar resfriados, um tema que não fez nenhum bem à minha reputação para com o meu editor.

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Teatro Colón, em Rosário, província de Santa Fé.


Em 1919, tive o prazer de conhecer Carter, o Grande, em Montevidéu (Uruguai), onde eu estava, então à época, envolvido em negócios. Ele estava se apresentando Teatro Solis com “A Noiva do Leão”. Lembro-me, de uma discussão mágica regada à café. Ele esforçou-se por enfatizar que essa ilusão era inteiramente criação própria sua e era apresentada unicamente por ele. Carter, porém, ficou consideravelmente desconcertado ao descobrir que, no Uruguai, um mágico amador pouco conhecido pôde lhe dizer que o Grande Lafayette era o verdadeiro inventor desta ilusão e que havia apresentado “A Noiva do Leão” na Inglaterra antes de 1910.

No meu retorno à República Argentina, em 1924, senti-me muito honrado ao encontrar-me com Okito, a quem eu já tinha visto anteriormente num show de 30 minutos. Ele estava se apresentando no Teatro Casino, sendo sua assistente principal Marie Dean, a quem Okito veio a desposar em 1949 e que, infelizmente, faleceu no ano passado. Okito, naquela época, apresentava “O Tapete Mágico” como um estupendo fechamento de seu ato (um número que, aliás, ainda está sendo usado por seu famoso filho Fu Manchú). E esta parte da minha retrospectiva me leva ao advento de David T. Bamberg para o firmamento teatral sul-americano. David chegou pela primeira vez em 1926 como um artista convidado de Raymond com quem tinha feito uma excursão por Portugal e Brasil. As dificuldades financeiras determinaram o abandono da viagem e a dispersão do pessoal. O jovem mago, o filho de Okito, tinha apenas 23 anos à época, encontrou-se em Buenos Aires com uma jovem esposa, um filho bebê chamado Bobbie, sem perspectivas e sem dinheiro. Apresentando-se como Syko (um nome dado por Houdini), ele conseguiu sustentar-se com pequenas performances de mágica e um show de sombras, até que um investidor, que conseguiu ver além da superfície, financiou-o com a proposta da construção do primeiro show de Fu Manchú. A partir de então, a sorte sorriu para David e, durante 25 anos, o nome de Fu Manchú foi um chamariz na América do Sul – um dos poucos que fizeram fortuna. Considero um dos maiores privilégios da minha vida mágica conhecer David intimamente durante um quarto de século, em seus bons e nos maus momentos, e ter seguido a sua carreira profissional desde a obscuridade comparativa até à eminência mundial – um merecido tributo a sua determinação, sua habilidade e seu gênio.

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Cartaz do show de Fu Manchu (1940)

Por volta de 1930, o falecido Lingha Singh apareceu na cena com seu “Truque da Corda do Leste da Índia” (à propósito, foi-me relatado que tanto o segredo quanto o “gimmick“foram enterrados com ele). Ele era uma personalidade colorida com uma grande quantidade de belos equipamentos. Um par de anos mais tarde, Dante com seu espetacular show “Sim Sala Bim” fez história com o registro de uma temporada de 90 dias no Teatro Casino. Embora Raymond tivesse apresentado previamente a ilusão de “Serrar a Mulher ao Meio” usando a versão de Horace Goldin, foi Dante quem elevou isso a outro patamar de popularidade com o seu aparelho amplamente aprimorado. Aliás, foi sobre essa ilusão – e com a ajuda de uma ceia de lagosta às 3 da manhã no Hotel Baviera, em Rosário de Santa Fé – que discuti o “modus operandi” com Dante. Mais tarde, mostrei-lhe o meu esboço de impressão de como o efeito foi alcançado, o que ele negou, mas que anos depois provou ser correto.

Outro artista popular que apresenta o seu show à moda chinesa é Chang, anteriormente Li-Ho-Chang, que nos últimos 40 anos excursionou por todo o mundo. O continente favorito de Chang, no entanto, é a América do Sul, onde o seu delicioso uso indevido da língua espanhola fez com que atraísse um vasto público ao teatro. O show de Chang é um espetáculo de grandes ilusões, belos roupões chineses, cenários sempre mudando e belas dançarinas. Chang conta com inúmeros amigos em Buenos Aires e em outras cidades do continente meridional, e estou orgulhoso de ser contado entre eles com uma amizade que já dura muitos anos.

Richiardi Jr. filho do Grande Richiardi, assumiu o show de ilusão após a morte de seu ilustre pai. Ele é um peruano de nascimento, mas inteiramente cosmopolita dada suas viagens, perspectivas e línguas: muitas vezes, ele foi tomado por um norte-americano. Richiardi Jr., que se considera o “mágico mais jovem do mundo”, se afastou do caminho já trilhado ao apresentar “Musical Magic“, combinando a sua agradável voz de cantor com sua indiscutível habilidade de “showmanship” e presença no palco. Ele é um dos preferidos do público em geral em toda a América do Sul e, recentemente, passou por uma temporada em Nova York.

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Cartaz do show de Richiardi Jr. (1950)

Um número de estrelas menores na constelação mágica têm se apresentado na República Argentina durante excursões sul-americanas uma vez que, os cine-teatros têm incorporado números de variedade após os filmes. Entre outros, eu me recordo ao longo dos anos de: Lewis Davenport (com o colete que muda de cor, rotina de dedal e caixa de ampliação); Rudi (um artista italiano que apresentou um show de manipulação, além de magia de proximidade); Maieroni (outro ilusionista italiano com um show mais pretensioso); Steens (um escapologista holandês que executava a fuga da guilhotina); Cantarelli (um brasileiro-alemão com o uma serra elétrica); Baron von Rheinhardt (agora Barnum, com uma pequena réplica do show de Dante); Chefalo (o mago italiano com um show noturno completo exibindo seus gigantes e anões); e Richardini (agora fora do “show business”).

Percebe-se que o que prediz um mago bem sucedido na América do Sul é aquele que possui um show noturno completo, dinheiro, bom equipamento, com mais do que uma parte justa de habilidade e um senso teatral. Não é o artista manipulador e de “sleight-of-hand“. De fato, em toda a minha experiência, só encontrei um do último tipo que conseguiu pesar o outro lado da balança após uma turnê sul-americana, e foi Max Malini. Malini, admito, estava sozinho em sua turnê e trabalhou nos clubes e sociedades da mais alta classe. Tal era a sua natureza que eu duvido que Malini tenha levado muito do “ouro inca”. Ele estava nesses países com seu filho na mesma época em que Fu Manchú estava entrando em seu grande momento, como estava ao redor de uma garrafa de uísque que Malini deu a David e ao escritor de uma sessão privada de magia de close-up em uma grande cidade da República Argentina em algum dia por volta de 1930. Malini exibiu uma técnica maravilhosa com um incrível domínio de “misdirections” e a sua reputação, assim como a de Houdini, foi feita fora do teatro, mais do que ele fez em seus shows públicos.

Portanto, enquanto a América do Sul não fez nenhuma contribuição específica para o avanço da arte mágica nos últimos 50 anos, mesmo assim ela progrediu no sentido de que há um interesse crescente, engendrado pelas visitas de ilusionistas mundialmente famosos, e de manipuladores expoentes, e é a esperança sincera deste escritor de que, quando ele relatar novamente acerca do assunto para a edição centenária de “The Sphynx“, ainda mais progresso ele irá manifestar.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

Baseado em um post feito pelo confrade Ruy Texas no Fórum Mágico Amador

INTRODUÇÃO
Ao longo da história, muitos mágicos apresentaram diversas formas de levitação. Desde pequenos objetos até os maiores, passando inclusive pela levitação de pessoas, a levitação sempre encanta e maravilha. Os mágicos tem empregado estratagemas engenhosos, que ficaram na História, a grande maioria somente como um simples truque de ilusionismo.

Segundo Ruy Texas, a primeira dessas levitações foi apresentada no ano de 1832, em Madras, Portugal, pelo ilusionista Drahmin Scheschal. que levitava sua mulher sentada num tamborete, até à altura de dois metros.

Mas houve um mágico que conseguiu superar a barreira da ilusão e trouxe verdadeiro assombro à sua época.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

No dia 27 de abril de 1908, o público presente no Hipódromo de Nova York, constatou, com assombro, que um homem, sentado em seu piano elevou-se ao ar. Não só o pianista, mas o piano também. Quando piano e pianista estavam a pouco mais de um metro e meio do solo piano e pianista começaram a flutuar pelo palco, de um lado para outro, também passaram a balançar até que finalmente piano e pianista ficaram de cabeça para baixo e ainda mais, começaram a flutuar em círculos, chegando a 40 rotações por minuto. E o mais belo de tudo: a música não parou, sequer por um segundo.

Durante o prodigioso número, tanto na subida, como na descida, o piano e o pianista eram passados de um lado para o outro, com um gigantesco arco de madeira, para que a assistência se certificasse da ausência de fios ou outros meios mecânicos de suspensão aérea.

Testemunhas dizem que foi o show de mágica menos aplaudido da história, pois o público estava surpreso demais para esboçar qualquer reação.

A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958).
A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958). (Clique na imagem para ampliá-la)

Conclui Ruy Texas dizendo que foi tão grande o sucesso alcançado por Onaip com este seu truque, que o Circulo Espanhol de Artes Mágicas de Barcelona, considerando o dito truque bastante indecifrável, ofereceu aos leitores da sua revista “El Três de Bastos” um valioso prêmio para aquele que conseguisse desvendá-lo. O prêmio, porém, restou deserto.

Christopher Milbourne na revista “Popular Mechanics” de dezembro de 1958 traz mais informações: Onaip apresentou esse número por todo os EUA ao longo dos anos seguintes. Em 1911 Onaip passou a se apresentar com indumentária indiana. O mágico aparecia no palco com um largo robe de seda e hipnotizava uma de suas assistentes a qual passava a tocar o piano até que fosse levitada.

QUEM ERA ONAIP?

Nascido sob o nome de William F. Moore, em Westerly, Rhode Island, consta a história que Onaip fugiu de casa e do negócio de sucesso de sue pai, para se tornar um bem sucedido mágico de vaudeville. Anos mais tarde, após ter já se retirado dos palcos, ele e a sua esposa foram agraciados com uma pequena pensão advinda de sua família, sob a condição de que nunca jamais se falasse no seu passado artístico, o qual o pai nunca aprovou. Para garantir o acordo, a esposa de Onaip queimou todos os seus materiais e rascunhos sobre mágica. Isso talvez explique a enorme dificuldade de se encontrar fotos e descrições sobre Onaip e seu glorioso número de levitação. Onaip, faleceu em 1959.

Em 1918, M.S. “Doc” Mahendra descobriu que o aparato de levitação do piano de Onaip estava guardado em um depósito de mercadorias de Chicago, e estava para ser vendido por falta de reclamação do dono. Mahendra comprou a ilusão por U$ 20,00 (U$ 340,00 em valores atuais).  Apesar de considerar essa uma brilhante ilusão, Mahendra nunca veio a apresentá-la.

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Mahendra (Clique na imagem para ampliá-la)

BIBLIOGRAFIA

– Fórum Mágico Amador – Tópico: “Lendas Mágicas & Mágicos Lendários” criado em 12/11/2009;
– Magicpédia: Onaip;
– Revista “Popular Mechanics” dezembro de 1958;

A ARTE MÁGICA COMO UMA ATIVIDADE LÚDICA

Um ensaio escrito em 25 de março de 2010

-Æ-

1. INTRODUÇÃO

No Brasil chamamos de mágica. É algo misterioso, milenar, transcendental. Eventualmente usamos as palavras truque ou prestidigitação, mas em geral as evitamos, já que tem uma conotação mais pejorativa: ludibriar alguém. Os americanos também usam as palavras “magic” e “trick” (que lá possui uma conotação menos pejorativa que aqui no Brasil). Usam o termo “sleight of hands” que frequentemente é traduzido como prestidigitação, mas cujo sentido original se assemelha mais a “habilidade com as mãos”.

No entanto, a mim me agrada como os espanhóis denominaram suas mágicas: “juegos”. Eles também usam palavras como “truco” e “magía”, mas os livros sempre encaram as rotinas como sendo jogos. E por que me agrada esse termo “jogo”?

A primeira impressão que temos é de um desafio. Um confronto entre mágico e espectador. No entanto há outro lado do jogo que nos esquecemos: O lado lúdico dos jogos. E é sobre isso que quero falar: da mágica como atividade lúdica.

 

2. O QUE É O LÚDICO?

O dicionário define lúdico como algo “divertido”, em outras palavras uma brincadeira. Se pensarmos na mágica como arte-entretenimento vemos que este conceito não é equivocado, afinal, fazemos mágica para entreter o nosso público.

Mas os educadores e pedagogos deram um passo além nessa definição. Segundo eles o lúdico também esta ligado ao aprendizado. Por exemplo, quando uma criança brinca de esconde-esconde, não apenas se diverte, mas aprende conceitos como jogar pelas regras, limites físicos, reflete sobre o mundo que a cerca e o que ela pode utilizar para lograr seu objetivo (no caso, permanecer oculta). Várias são as reflexões e aprendizados em uma atividade primariamente de diversão. E, em última análise, a brincadeira é essencial para o desenvolvimento sadio da criança, em todos os aspectos: físico, social, imaginário, etc.

Na arte não é diferente. Intrinsecamente toda arte é lúdica, ou seja, diverte, faz refletir e ensina conceitos. Ela é uma mola impulsora do desenvolvimento pessoal do ser humano. E, poeticamente falando, nenhuma outra arte é capaz de nos fazer voltar à infância, de modo tão efetivo como a mágica.

 

3. AS TRÊS FACES DA ARTE LÚDICA

 

3.1.  A arte (ou “o assombro”)

É o lado do divertido, do entretenimento. No caso da mágica é a aquela gostosa sensação de assombro. É o atrativo primeiro, o gerador de sorrisos.

Essa é uma das facetas mais importantes da arte, pois devemos sempre tentar ver sob a ótica do nosso do nosso público. Nossa arte tem realmente encantando (assombrado) o público? Tem gerado momentos agradáveis aos espectadores? E acima de tudo, nossa arte tem feito sentido ao público, ou é meramente uma torrente de passes mágicos e movimentos ocultos, onde nos divertimos mais do que os espectadores?

Além disso, o lúdico ideal deve ser espontâneo. A mágica deve ser algo espontâneo, natural. Isso permitirá ao espectador viver, sonhar, refletir, brincar, realizar desejos… E nós também através de suas reações. Esse deve ser nosso ideal primeiro quando pensamos em nosso público.  Não confunda, porém espontaneidade com falta de preparo. A questão aqui é que não se pode forçar a arte e muito menos o lúdico. Ela precisa acontecer de modo natural e espontâneo para ser efetiva.

 

3.2. A reflexão (ou “a filosofia”)

Outra face do lúdico é a reflexão. A razão do lúdico (e da arte) não é um criar dogmas ou conceitos, antes é propor caminhos, reflexões sobre aquilo que nos cerca. Nesse sentido, nossa arte deve obrigatoriamente propor a reflexão, do contrário não passa de mero artesanato, uma obra repetida “ad infinitum”. E esse é o diferencial de uma obra de arte e de um quadro qualquer. Quadros quaisquer não nos incentivam a refletir. Obras de artes sim.

Essa reflexão pode ser proposta, por exemplo, por um roteiro bem elaborado, um movimento secreto bem executado, ou mesmo uma rotina bem concatenada. E essa reflexão é a única forma possível de se gerar uma experiência, uma prática de vida.

Pode parecer um tanto utópico, mas quando refletimos, quando duvidamos e buscamos sair da zona de conforto, abrimos as portas da percepção para o novo. E é esse o papel do lúdico, nos levar a novas experiências através da diversão. Perceba como as coisas se ligam entre si: diversão gera reflexão, que gera aprendizado… é uma roda que não para de girar.

 

3.3. O aprendizado (ou “daquilo que eu levo pra vida”)

Por mais que o lúdico seja um processo, e não um fim si mesmo, o aprendizado na maior parte das vezes é inerente, ou seja, de alguma forma saímos diferentes daquela experiência de assombro.

É importante notar que o conceito de aprendizado aqui não é de forma alguma relacionado a um conceito de educação formal; antes é um conceito de desenvolvimento pessoal. O aprendizado em geral se dá na esfera do imaginário; soltam-se as amarras da imaginação do espectador que se propõe deixar se levar pela arte lúdica.

Assim, a experiência criada, refletida, e convertida em novos conceitos e paradigmas. Houve mudança.

 

4. E QUAL A IMPORTÂNCIA DISSO TUDO?

E para que serve esse conhecimento teórico todo? Qual a razão de tanto blá blá blá?  De forma resumida pode-se dizer que é para entendermos “por que fazemos as coisas como fazemos”. Em outras palavras, é saber quando e por que fazer um “double lift” será mais eficiente do que um “glide”, etc. Ou seja, teoria é, em última análise, o princípio da dúvida e da reflexão.

Note que acabamos de incorporar um novo elemento lúdico onde agora eu, o mágico, sou o objeto da arte. Agora sou eu quem reflito e busco criar aprendizado a partir das minhas dúvidas, geradas pela arte mágica.

A partir da teoria é que nos tornamos capazes de incorporar novos elementos às técnicas manuais, e com isso deixamos de fazer “artesanato” (movimentos mecânicos e repetitivos, sem vida e sem unicidade) para fazer “arte” (uma obra única e indivisível) e mais do que isso, uma arte lúdica, que diverte, propõe reflexão e gera mudanças em nossos espectadores e em nós mesmos.

 

5. CONCLUSÃO

Fazedores de truques existem às pencas por aí. Pessoas muito boas, capazes realmente de nos enganarem, e até de nos deixarem espantados, tamanha a sua habilidade prestidigitativa. Mas são incompletos, enquanto não propuserem uma reflexão, e mais do que isso, são incompletos se essa reflexão não gerar frutos nos outros e neles mesmo.

Podemos sim mudar o mundo (e as pessoas) com nossa arte. E esse deve ser o nosso nobre objetivo. Sermos lúdicos. Divertir e ensinar com nossos jogos.

A VERDADE SOBRE O MAGO DEDI

O mágico/mago Dedi é considerado por muitos como o Pai da mágica, já que ele é primeiro mágico a ser registrado na história. Porém, como toda boa história, há muito de lenda, muito de floreio e muito de má interpretação por trás de sua história. Este post tem por objetivo falar um pouco sobre esse personagem tão ilustremente desconhecido.

Quem foi Dedi?

Dedi (também escrito Djedi ou Djedy) é o nome de um profeta e mágico de um conto do Antigo Egito,  registrado no período de Khufu conhecido como “Os Papiros de Westcar”, que registra 5 histórias de performances executadas por sacerdotes e mágicos egípcios. Segundo este documento, Dedi seria capaz de decapitar um pássaro e depois religar a sua cabeça ao corpo, trazendo-o de volta à vida. Ainda segundo a história, foi proposto que fizesse o mesmo com criminosos condenados. Dedi educamente recusou, usando a seguinte frase: “Certamente que não é permitido fazer tais coisas com o rebanho nobre“. Por rebanho nobre, Dedi se referia a humanidade.

Também é atribuído a Dedi rotinas com covilhetes (cups and balls), sendo até hoje divulgada uma imagem onde ele supostamente estaria executando essa rotina. Porém, existem alguns problemas na interpretação dessa figura:

* A imagem representaria não mágicos, mas sim padeiros em seu ofício. Ou seja, ao invés de covilhetes, o que se tem são pães sendo amassados;

* Essa imagem foi encontrada nas Tumbas de Beni Hassan. Essas tumbas foram criadas entre os séculos 20 e 17 antes de cristo. Os papiros de Westcar só apareceram entre os séculos 18 e 16 A.C. Por isso, é pouco provavel que os desenhos na tumba se refiram especificamente a Dedi;

* Quem executa essa rotina sabe que a fazê-la no chão não é ergonômico, tampouco prático;

* Por fim, estudiosos e historiadores da mágica creditam aos romanos a criação da mágica dos covilhetes, pelos acetebularii. Assim, seria impossível Dedi estar executando uam rotina que ainda não havia sido criada.

Suposta gravura de Dedi executando covilhetes. Na verdade a imagem trata de padeiros fazendo pão.

 

O que os Papiros de Westcar Contam Exatamente sobre Dedi?

Segue abaixo uma tradução do inglês da história de Dedi, retirada dos pergaminhos de Westcar. A tradução foi adaptada para clarificar alguns pontos obscuros e para uma melhor fluência na leitura, sem no entnato alterar a hsitória original.

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Seu nome é Dedi“, respondeu o príncipe Hordadef. “Ele é um homem velho, dizem ter 110 anos. Todos os dias ele come metade de um boi, cinco centos de fatias de pão, além de beber uma centena de jarros de cerveja. Ele é capaz de arrancar a cabeça de uma criatura viva e depois restaurá-la; ele é capaz de fazer um leão obedecê-lo; e ele conhece os segredos da morada do deus Toth, o qual Sua Majestade tem desejo de conhecer para que possa construir as cãmaras de sua pirâmide de acordo“.

Rei Khufu respondeu: “Vá e traga esse homem até mim, Hordadef

O príncipe desceu o Nilo, costeando as margens com um barco e navegou ao sul, até encontrar uma cidade chamada Dedsnefru, onde Dedi habitava. Ele seguiu pelo litoral, carregado em sua liteira até a casa do mágico, que estava sentado à soleira da porta de sua casa. Quando Dedi percebeu a comitiva, foi saudado pelo príncipe que lhe pediu que não levantasse, devido a sua grande idade. O príncipe disse: “Meu Real Pai deseja honrá-lo e dar uma tumba no meio de seu povo“.

Hordadef ajudou Dedi a se levantar e, tomando-o pleo braço, guiou-o até seu navio. Dedi navegou em companhia do príncipe, enquanto em outro navio seguiam os assistentes e os livros de mágica de Dedi.

Saúde e força e plenitude sejam teus“, disse Hordadef quando se prostrou perante seu pai real, o Rei Khufu. “Eu voltei, e trouxe comigo Dedi, o grande mágico.” O Rei se alegrou com a notícia e disse: “Tragam o homem até minha presença“.

Dedi veio e saudou o Rei, que disse: “Por que é que eu nunca vi você antes?

Ele foi designado para o chamado” respondeu o velho homem; “Você o enviou para mim, e aqui estou.

É dito“, Rei Khufu continuou “que você pode restaurar a cabeça que fora arrancada de uma criatura viva.

Certamente que eu posso, majestade” respondeu Dedi.

O Rei respondeu: “Então, chamem aqui um prisioneiro para ser decapitado.

Eu preferiria que não fosse um homem” disse Dedi; “Eu não faço isso com gado real, majestade

Então um pato foi trazido até Dedi que cortou a cabeça do pato fora, jogando a cabeça para a direita e o corpo para a esquerda. Dedi falou algumas palavras mágicas e então a cabeça e o corpo foram unidos e o pato e levantou e grasnou em alto som. O mesmo foi feito em seguida com um ganso.

Rei Khufu então insitiou que trouxessem uma vaca e que sua cabeça fosse cortada. Dedi restaurou o animal outra vez e além disso, fez com que ele o seguisse, ou seja, que pisasse exatamente nos mesmos lugares que ele pisava. Sua Majestade então, pediu a Dedi: “É dito ainda que você possui os segredos da morada do deus Thoth.

Ao que Dedi respondeu: “Eu não os possuo, mas onde eles estão guardados e que estão dentro de uma câmara em Heliópolis. Lá as plantas estão guardadas em uma caixa, mas não há ninguém digno, que consiga  trazê-los à Sua Majestade.

Não há mesmo ninguém que consiga essas plantas para mim?” perguntou o Rei.

Dedi então profetixou que três filhos nasceriam de Rud-dedit, esposa do sumo-sacerdote de Rá. O mais velho se tornaria sacerdote-chefe em Heliópolis e tomarai posse das plantas. Ele e seus irmãos um dia se sentariam sobre o reino todo e governariam sobre toda a terra.

(…)

O coração do Rei Khufu se encheu de tristeza e preocupação quando ouviu as palavras proféticas do grande mágico. Dedi então respondeu: “O que se passa em sua mente, Ó Rei? Seu filho rienará após você e então o Filho dele também. Mas o próximo irá cair“.

E a história do pergaminho segue contando sobre os filhos de Rut-dedit

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Por todos os elementos apresetnados aqui, é possível que a história de Dedi não passe de uma lenda. Seja como for, a história se encarregou de nomear Dedi como o primeiro dos mágicos. Verdade ou lenda essa história continuará encantando muitos por muitas outras gerações.

E, talvez, essa seja a maior mágica de Dedi…

Amplexos!

REFERÊNCIAS

http://www.reshafim.org.il/ad/egypt/texts/westcar_papyrus.htm

http://en.wikipedia.org/wiki/Westcar_Papyrus

http://en.wikipedia.org/wiki/Dedi

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