ENGANANDO O PÚBLICO

Faça-os acreditar que estão sendo enganados por um cavalheiro.

Howard Thurston 

O público do Cine Theatro Pró Trento, de Nova Trento, interior do Rio Grande do Sul aguardava ansiosamente a apresentação do mágico. O ingresso, caro para os padrões da época, não impediu que a casa estivesse cheia no momento da apresentação.

Na hora marcada a cortina sobe e o palco se ilumina. O mágico adentra pela direita e o silêncio logo irrompe pela plateia. A tensão se mescla com a excitação de ver um show tão diferente por aquelas bandas. Com uma reverência um pouco mais cumprida que o habitual o mágico saúda a plateia. E o show começa.

Para a abertura, nada de mais: uma simples produção de lenços coloridos. Ele recebe alguns aplausos tímidos, mas sinceros. Ninguém queria ver lenços, afinal de contas, tampouco cartas, moedas… o que eles queriam ver mesmo era a peça principal do show: o truque de decapitar a cabeça de um galo, e depois restaurá-la. A promessa do mágico, contudo, ia além: Ele não iria apenas restauraria a cabeça do pobre galo, mas fá-lo-ia cantar novamente, para que ninguém duvidasse de seu feito.

Mais um efeito de manipulação de bolas de bilhar. Incrível, mas isso ainda não era o que o público queria. O mágico, então, sentindo a pressão dos olhares da plateia, resolve ceder e adianta a apresentação do número principal.

Um número dessa envergadura não pode ser, simplesmente feito sem os devidos cuidados. O mágico chama dois voluntários da plateia: o Prefeito e o Delegado. Duas autoridades locais; pessoas austeras e respeitadas. Enquanto o Prefeito segura o corpo de galo, o delegado, segura a cabeça. O mágico então toma um machado e após algumas palavra mágica, decepa a cabeça do galináceo com um golpe certeiro.

Após mostrar claramente o galo morto, ele pede que o Prefeito e o delegado segurem junto as duas partes do animal e recita algumas palavras mágicas. O ritual demora não mais do que um minuto. Nada acontece! Visilmente constrangido o mágico repete o ritual. Os olhares da plateia começam a se transformar, de curiosos para zombeteiros.

Já sei!” – exclama o mágico – “Esqueci-me do líquido mágico que fará colar as duas partes. Aguardem um momento, sim?!” E sai para a coxia, pelo mesmo lado que entrara. Passados 15 minutos o Prefeito, o Delegado e toda plateia já havia percebido que o verdadeiro truque do mágico fora desaparecer juntamente com o dinheiro da bilheteria.

Essa é uma lenda muito divulgada na cidade de Flores da Cunha, antiga Nova Trento. Supostamente teria se passado por meados da década de 1930. O galo que chegou a ser motivo de chacota das cidades vizinhas, acabou sendo adotado como símbolo oficial da cidade e a história – provavelmente uma lenda urbana – acabou ganhando contornos de folclore local.

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– Æ –

ENGANADORES EM LONDRES

Se o desconhecido mágico de Flores da Cunha é apenas um personagem, outros “mágicos” são bem mais reais e também passaram a perna no público ou em incautos crédulos.

Por volta de 1781, um mágico alemão chamado Philip Breslaw, excursionou pela Grã-Bretanha, fazendo relativo sucesso. Um dia, anunciou um show beneficiente, em que todo o dinheiro, arrecadado, seria doado ao pobres. Findado o show, Breslaw tomou o dinheiro da bilheteria e pagou regiamente seus funcionários. Obviamente tal fato chegou aos ouvidos das autoridades locais que inteprelaram Breslaw sobre sua mentira. A resposta de Breslaw foi icônica: “Mas eu não menti. Prometi dar dinheiro aos mais pobres, e não conheço niguém mais pobre que meus ajudantes“.

Contudo a mais icônica história de um mágico enganado seu público aconteceu em Janeiro de 1749, em Londres. Os jornais locais anunciaram durante dias o show de um certo Benimbe Zammampoango, doutor em ocultismo, e capaz de feitos fantásticos. O anúncio era extraordinário: o mágico prometera ser capaz de tocar o som de qualquer instrumento conhecido a partir e uma bengala emprestada da plateia. Ainda, conjuraria fantasmas que revelariam os mais profundos segredos das pessoas ali presentes.

Mas o que realmente chamou a atenção e despertou a curiosidade do público foi a promessa que o doutor entraria dentro de uma garrafa comum de vinho, a qual poderia ser manipulada por qualquer pessoa. A população dirigiu-se em massa ao Teatro em Haymarket para ver o maravilhoso feito. Inclusive o próprio Duque de Cumberland, irmão do Rei Goerge III estava presente. Seria verdade? Seria um boato? Fosse o que fosse, todos queriam ver o que iria acontecer.

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Doutor Benimbe Zammampoango entrando na garrafa de vinho.

Às 18:30, o Teatro lotado. Cadeiras extras foram providenciadas e muita gente se dispôs a ficar de pé. As luzes baixaram e o teatro ficou em completo silêncio esperando o começo do show. No entanto, não havia ninguém no palco e as cortinas permaneciam fechadas. Silêncio e tensão na plateia. Às 19:00 o palco seguia vazio e aas cortinas fechadas. Foi quando começaram os primeiros assovios e vaias. No afã de acalmar a plateia, o gerente do teatro, subiu ao palco e disse que, caso o mágico não aparecesse, o dinheiro dos ingressos seria regiamente reembolsado.

Longe de acalmar a população, a declaração do diretor acirrou ainda mais os ânimos. As mulheres e as crianças prontamente se retiraram já temendo o pior, que de fato acabou acontecendo. Não se sabe direito como, mas na confusão um princípio de incêndio irrompeu pelo teatro, enquanto que, em outra frente, confusão e quebradeira generalizada. A polícia foi chamada, mas quando chegou ao local, todos já haviam se retirado, deixando apenas o rastro da idignação no pobre teatro.

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No dia seguinte o clima jocoso tomava conta de Londres. A piada recorrente era que se o homem tivesse prometido entrar em uma garrafa maior, as pessoas teriam pagado ainda mais para assistí-lo. O mais curioso, contudo, é que ninguém soube ao certo explicar como o boato começou, uma vez que, a príncipio, nem o próprio teatro sabia do show.

Alguns autores modernos dizem que o boato começou com um Duque, chamado John Montagu, um conhecido apreciador de “pegadinhas”. Segundo eles, o Montagu haveria apostado com alguns amigos que, ainda que prometesse os feitos mais impossíveis, mesmo assim, ele seria capaz de encontrar idiotas o suficiente, capaz de encher um teatro inteiro, que acreditariam em tais promessas.

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Moderna reprodução da notícia que circulou pelos jornais londrinos em janeiro de 1749, anunciando o homem que entrava na garrafa.

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A TV brasileira também possui alguns casos curiosos de pessoas que prometeram feitos extratordinários, mas no fim, só enganaram o público.

No final dos anos 1980, o programa “Show de Calouros” no SBT, durante semanas anunciou de forma bombástica o “o homem que vira peixe”. O homem chegou a subir duas ou três vezes ao palco do programa, mas quando ia começar a demonstração o tempo do programa acabava e ficava para a próxima semana. Até que um dia finalmente o calouro veio ao palco e “virou peixe”: munido de uma frigideira, colocou um peixe nela e atirava-o para cima, virando-o.

Outro caso parecido foi o homem que bebia café com leite, engolia só o leite e cuspia o café de volta. A pegadinha: a mistura era composta de leite e café em grãos. Esses quadros foram reprisados e revisitados diversas vezes, por diversos humoristas e emissoras.

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DE VOLTA AO GALO

Mas e o mágico de Flores da Cunha? Será que foi mesmo apenas uma lenda?

Todos sabemos que a ilusão de decepar a cabeça de uma ave e depois restaurá-la é o truque mais velho da históra, literalmente. Também é fato registrado que diversas companhias artísticas passaram pela região de Caxias do Sul na década de 1930, inclusive alguns mágicos.

Um artigo no jornal “O Momento” de Caxias do Sul (cidade vizinha de Flores da Cunha) datado de 10 de fevereiro de 1945, em uma coluna assinada por Iaçanan, conta que o mágico que andava pela região usava uma tesoura, e brinca que, o galo não foi degolado, mas sim “tesourado”. Segundo o colunista existem documentos que “provam de forma provada” que o caso realmente aconteceu. Se a coluna foi séria, ou se trata de algo de humor, é difícil saber.

Pista Flores da Cunha

Claudino Antônio Boscatto é um historiador local de Flores da Cunha e escreveu o livro “Memórias de um neto de imigrantes” em que conta o causo do mágico pilantra. Segundo ele, a história é uma lenda que nasceu como uma piada e acabou ganhando corpo. Uma das teses de Boscatto é que nenhuma autoridade à época se prestaria ao papel de subir ao palco para um papel tão “humilhante”, ainda mais perante um mágico desconhecido. Claudino cita ainda os nomes das autoridades, o Capitão Joaquim Mascarello, intendente municipal, e o delegado Osário Belíssimo.

Verdade seja dita, é unânime a informação que essa história nasceu da boca dos próprios caxienses; talvez como uma forma de rixa pela emancipação do distrito de Nova Trento (a história supostamente teria se passado no mesmo ano da emancipação).

Uma última fonte cita o mágico nominalmente: “Dipiero” seria seu nome. Pesquisando os jornais da época, não encontrei registros de ilusionistas que tenham usado tal nome.

Seja verdade, seja mentira, o fato é que a história que era deboche, acabou virando a marca registrada da cidade de Flores da Cunha. Todo o ganho publicitário e de turismo foram bem maiores do que o valor furtado pelo mágico enganador. No fim das contas, para o município de Flores da Cunha, foi um belo truque!

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REFERÊNCIAS

LIVRO: Christopher Milbourne, “Magic, a Picture History“.

LIVRO: Ryan, Richard Ryan e François Joseph Talma. “Dramatic Table Talk or, Scenes, Situations, & Adventures, Serious & Comic in Theatrical History and Biography” – Vol. III

SITE: www.geriwalton.com

SITE: Obscure History. Artigo completo sobre o caso (Inglês | PDF)

MULHERES SERRADAS E PROCESSOS JUDICIAIS: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAIS FAMOSA ILUSÃO JÁ CRIADA

“Serrar uma mulher ao meio é fácil. Serrar uma mulher ao meio e grudá-la novamente é um pouco menos fácil, mas pode ser feito com alguma prática.”

Douglas Adams – Agência de Investigação Holística Dirk Gentley

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Por muitos anos o truque de serrar a assistente foi um “must have” em shows de mágica. Oficialmente esta ilusão foi apresentada ao público pela primeira vez em janeiro de 1921 por PT Selbit, em Londres. Na verdade, em dezembro de 1920 houve uma prévia para alguns agente teatrais no St. George Hall. Todos adoraram a ilusão que acabou sendo melhorada até chegarmos à versões modernas, como o clássico de David Copperfield. Fim da história, certo?

Seria, se você estivesse na Wikipedia ou lendo algum artigo ruim cujas fontes não são checadas e mesmo assim são replicadas mil vezes por aí. Este é um truque cercado de histórias e que por si só seria o suficente para contar toda a história da indústria da mágica no século XX. Neste artigo, também será corrigido um erro histórico, que nenhuma outra fonte aberta se preocupou em verificar.

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O conceito de separar as partes do corpo de um ser vivo, e restaurá-lo é antigo. Talvez o mais antigo conceito de mágica conhecido. Dedi já havia ficado famoso por separar a cabeça de um ganso e depois ligá-la de novo, sem causar danos ao animal. Mas, justiça, seja feita. Dedi se recusou a fazer este truque com uma pessoa. Séculos mais tarde, alguns livros apresentaram uma ilusão em que um corpo sem cabeça ficava sobre uma mesa, e uma cabeça – supostamente do corpo ao lado – conversava e interagia com a plateia. A ideia, portanto, de cortar alguém ao meio (ou decapitá-la), e mantê-la viva, não era exatamente uma ideia nova no mundo do ilusionismo.

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Decapitação, (que alguns chamavam de “João Batista”). Este efeito citado por Albert Hopkins foi um dos predecessores do efeito de serrar a mulher ao meio.

Diversas fontes consultadas citam que o primeiro registro de uma versão moderna desse truque foi descrita Robert-Houdin em suas memórias, em que ele cita o mágico Torrini que teria executado este efeito em 1809 para o Papa Pio VII. Contudo, este é um erro bastante grotesco. Estas fontes se basearam em um artigo da “American Heritage” (Inverno de 1994, Volume 9, nº 3) de autoria de Gary Brown. Wikipedia, Magipedia, e até alguns livros, usaram essa citação, sem se dar ao trabalho de conferir diretamente na fonte, o livro de Robert-Houdin.

Sim, Torrini se apresentou para o Papa, mas não executou a ilusão de serrar alguém ao meio (menos ainda uma mulher). Aliás sequer a pessoa era serrada ao meio. Para o pontífice Torrini executou diversos outros truques de manipulação, incluindo um especialmente desenhado para aquele evento [1].

O protótipo da ilusão de serrar alguém ao meio foi, na verdade, apresentado por Torrini para o sultão Selim III em Constantinopla, capital do Império Otomano (Robert-Houdin, “Memoirs“, cap. VII, pg. 85 a 87). Torrini pediu que dois escravos trouxessem um baú retangular e dois cavaletes utilizados para serrar madeira. Os escravos colocaram Antônio, o assistente de Torrini, dentro do caixão e pregaram a tampa. Até este momento consta que sequer o pobre Antônio sabia o que se sucederia com ele.

Torrini começou a cortar o baú quando ouviu os gritos de pavor da esposa do Sultão. Tranquilamente Torrini parou o que estava fazendo e disse a todos que não se preocupassem. Longe de sentir dor, seu assistente sentiria apenas “as mais maravilhosas sensações”. Então, seguiu cortando o baú, agora, envolto em silêncio e tensão.

Findado o corte, Torrini levantou as duas metades verticalmente, cobriu ambas com um cone de vime e este, por sua vez, com um pano preto estampado com diversos simbolos cabalísticos prateados. Foi então que Torrini começou a citar seus encantamentos e logo duas vozes distintas puderam ser ouvidas de dentro dos baús. Ao revelar o que sucedia, dois “Antônios” gêmeos e vestidos iguais, saíram de dentro dos baús, cada um de uma das metades, e os dois cumprimentaram respeitosamente o Sultão e a sua família.

Exceto pelo final em que, ao invés de dividir uma pessoa, Torrini multiplicou-a, todos os elementos clássicos do truque foram regiamente descritos por Robert-Houdin. Assim, corrigindo a informação da revista American Heritage, a primeira apresentação desse efeito não foi para o Papa, tampouco foi em 1809, mas, pelo menos, um ano antes na Turquia, para o sultão Selim III. Ah, e a pessoa não foi dividida ao meio, mas sim, multiplicada.

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Voltando ao assunto, embora Jim Steinmeyer questione a existência de Torrini (segundo ele, Torrini não passaria de um alter-ego do Robert-Houdin, no qual ele expunha seus planos e ideias), esta história prova que o conceito-base do truque já existia muito antes de Selbit. Steinmeyer cita também o livro de Albert Hopkins “Magic” em que é citado uma ilusão cômica performada por uma trupe de acrobatas/clowns chamada “Hanlon Lee Brothers”. Escreve Hopkins:

Um palhaço se joga em um sofá e é cortado ao meio por um arlequim. Uma parte do sofá, com o corpo, permanece em uma parte do palco enquanto a outra parte com as pernas e pés (os quais estão chutando vigorosamente) é levado embora pelo outro lado do palco. A  ação toda é muito rápida e o efeito surpreendente.

Albert Hopkins em “Magic: Stage Illusions and Scientific Diversions“, 1897, p. 50

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Hanlon Lee Brothers

Tanto o livro de Robert-Houdin, quanto o de Hopkins, eram conhecidos pelos principais mágicos da época. Logo, não é arriscado dizer que a ideia de Selbit não veio “do nada”; ele bebeu de fontes que o inspiraram.

O fato é que a mágica de palco naquela época, era recheada de efeitos de desaparições, transformações, levitações ou um mix desses três. Mesmo a versão de Robert-Houdin não “mutilava” o assistente, mas sim, multiplicava. A maneira como Selbit mutilava a mulher  (em certo sentido, muito mais forte do que uma decapitação) acabou criando toda uma nova categoria de mágica alçando o nome de Selbit como um dos mais importantes do século XX. [2]

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Selbit criou o número em seu estúdio, que servia também de apartamento para si. Ali o conceito e o protótipo foram criados. A primeira testemunha ocular desta ilusão foi Fred Culpitt, amigo de Selbit, em um show em seu próprio apartamento. Selbit executou o truque na mesa da cozinha de Fred, serrando a sua assistente Jan Glenrose.

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Selbit (à esq.) e sua assistente Jan Glenrose, a primeira mulher a ser serrada ao meio.

A versão apresentada por Selbit era, aos olhos modernos, bastante simplória: a mulher entrava em um “caixão” de madeira que ficava na vertical, amarrada. A tampa era fechada e ela ficava completamente escondida do público. Selbit inseria algumas lâminas de metal em duas reentrâncias na caixa: uma na altura do peito da mulher, a outra, nos seus quadris. Então, dois assistentes serravam a caixa. Selbit abria uma pequena fresta no caixão e fazia uma cara preocupada. Após alguns segundos de tensão, ele abria as tampas e a assistente saia ilesa, saudando o público. O processo todo não levava mais do quinze minutos.

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PT Selbit em sua versão original de “Serrando a mulher ao meio”

O número de Selbit despertou a atenção de Maskelyne que também apresentou sua versão do efeito (embora sem o mesmo sucesso que Selbit – vide nota [2]). Selbit licenciou alguns grupos de mágicos – nove no total para que eles excursionassem pela Europa apresentando o seu número.

O estrondoso sucesso do efeito chamou a atenção de outro mágico: Horace Goldin. Como Goldin não podia simplesmente copiar o número, acabou criando um método próprio – e melhorado – para executar este truque. Menos de 6 meses depois da apresentação de Selbit na Inglaterra, Goldin apresentou a sua versão de “Serrar a mulher ao meio” para a “Society of American Magicians” em seu banquete anual no Hotel McAlpin Hotel, Nova York em 03 de junho de 1921.

A versão de Goldin, contudo, não teve uma boa aceitação. O assistente que foi serrado era o mensageiro do hotel, o qual estava visivelmente nervoso e atrapalhado. A caixa, em que o garoto foi serrado era nitidamente grande demais, não sendo assim muito eficaz em causar a ilusão de dano ao assistente. Porém, Howard Thurston, que estava na plateia, viu potencial no truque e propôs uma parceria a Horace Goldin.

Thurston então designou Harry Jansen, um mágico e construtor de aparatos, para aprimorar ainda mais o aparato de Goldin. Jansen diminuiu o tamanho da caixa e permitindo que os pés e a cabeça da assistente ficassem à mostra para o público (a versão “clássica” que se fixou no imaginário popular).

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Howard Thurston apresentando uma versão melhorada da ilusão.

Essa nova versão foi patenteada por Goldin que autorizou – novamente assim como Selbit – autorizou que seis grupos de mágicos excursionassem pelos EUA, sob sua bandeira, apresentando o número em cidades pequenas e feiras itinerantes (um desses mágicos era o belga Servais Le Roy); Goldin, por sua vez, ficara com as cidades grandes, em especial os teatros do circuitos Keith-Orpheum, a maior rede de teatro da época. A patente requerdia por Goldin impediu que qualquer outra versão do truque, que não a de Goldin, fosse apresentada nos EUA, incluindo aí, a versão de Selbit.

Cada um dos mágicos licenciados por Goldin deu o seu toque pessoal ao número, mas o toque de Goldin foi o mais impactante: ele trazia ao palco marceneiros para que atestassem que a caixa realmente estava sendo cortada, e enfermeiras para que socorressem a assistente em caso de acidente. Goldin criou até uma cena em que um grupo de coveiros levava o “caixão” pelas ruas, até o teatro, despertando a curiosidade do público. Em outra cena, Goldin colou em uma ambulância um cartaz escrito “À disposição do teatro, em caso de acidente com serras”.

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PT Selbit obviamente acusou o golpe e processou Horace Goldin por plágio. A briga judicial foi grande e tanto Goldin como Selbit colocaram muito dinheiro na disputa (alguns dizem que praticamente todo o dinheiro ganho por eles com este novo truque foi gasto em litígios judiciais).

Goldin, alegava que havia tido uma visão sobre esse efeito ainda em 1906. O grande Leon haveria perguntado a Goldin sobre um efeito de cortar uma mulher ao meio e depois juntar as partes. Goldin mentira a Leon dizendo que ele já possuía direitos sobre um número similar. Após se despedir do amigo, foi para casa e começou imediatamente a trabalhar naquela ideia. Leon logo descobriu a mentira de Goldin e também passou a trabalhar em sua versão do efeito.

Goldin não apresentou a sua versão do efeito, até 1921, meses após a primeira apresentação oficial de Selbit. Steinmeyer menciona o óbvio: “A ideia de Horace Goldin somente surgiu após ele ouvir do sucesso de Selbit”; ainda segundo Steinmeyer: “Goldin alegou que de 1906 a 1921 não foi capaz de encontrar um produtor interessado em investir na ideia do efeito de serrar a mulher. Após uma longa espera (15 anos) decidiu ele mesmo construir e apresentar o efeito.”

Em agosto de 1921, Selbit acusa Goldin de pirataria. Em sua Defesa, Goldin reconta a história: diz que inventou o efeito em 1906, vendeu ele em 1917, passou adiante os esquemas do aparelho em 1919, que acabou fazendo seu próprio aparelho em 1920 e que apenas dois anos antes requereu a patente sobre o aparelho. A resposta de Selbit foi que ele até admitia que duas mentes separadas pudessem ter a mesma ideia, sem que uma soubesse da outra; o que lhe causava estranheza, contudo, era o fato da patente ser inteiramente igual ao modelo criado por Selbit, apresentado ao público apenas 5 meses antes”. O Grande Leon também viria a público declarar que a ideia de Goldin havia sido roubada dele.

Selbit acabou ganhando o primeiro round da disputa em um tribunal federal do Arkansas. Goldin contratacou requerendo uma ordem de restrição, impedindo que que a ilusão de Selbit fosse apresentada na mesma cidade que Horace. Em seguida Horace anexou um cartaz de 1887 em que um mágico inglês chamado “Professor Hengler” apresentara uma ilusão chamada: “Serrando uma mulher em duas”. Este cartaz foi trazido à tona por ninguém menos que Harry Houdini (que, provavelmente, a esta altura, só queria mesmo ver o circo pegar fogo).

O processo ficou parado e nesse interim Harry Jansen já havia melhorado o número o suficiente para se afastar da versão de Selbit. Quando Selbit voltou para a América, em setembro de 1921, descobriu que a versão de Goldin já havia sido patenteada e que ele não poderia impedir a apresentação do rival, pois esta já era diferente da versão inglesa do truque.

Selbit teve ainda que encarar a traição de um de seus assistentes, que vendera o segredo do truque para a Goldwyn Ltda. de Hollywood. Selbit escreveu para o estúdio, ameaçando processá-los caso o apresentassem Como não houve resposta do estúdio, Selbit acabou deixando o caso pra lá. Contudo, em 1923, a Goldwyn e anunciou o lançamento do filme sobre esta ilusão em ambos os lados do Atlântico. Novamente Selbit entrou com um processo pedindo a censura do filme, porém o juiz negou-lhe a causa, alegando que Selbit esperou muito tempo pelo processo, abrindo, assim, mão de seu direito de processar a companhia.

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Versão de Horace Goldin, considerada legítima, por haver “se afastado o suficiente” da versão de Selbit.

Em novembro de 1921 a planta da ilusão foi publicada em um livro vendido a cinco dólares. O kit completo para realizar o truqe, saia por 175 dólares.

No final das contas, Selbit acabou derrotado no processo, pois o juiz entendeu que a versão de Goldin havia “se afastado o suficiente” da versão original de Selbit, a ponto de poder ser considerado um truque próprio. Além disso, Goldin havia registrado também o nome da ilusão “Serrando a mulher ao meio”, mas também outros nomes igualmente atrativos. Selbit havia sido encurralado pelas manobras legais de Horace Goldin.

Horace apresentou seu número nos EUA com o nome “A mulher dividida ao meio”, mas ele já não era uma novidade em solo americano, além de ser menos “vistoso” que o truque de Goldin. Selbit acabou voltando para a Inglaterra triste e abatido, e com a fama  – ao menos nos EUA – de haver copiado Goldin, mito que perdura ainda hoje.

Contudo, Horace Goldin, não saiu ileso da revelação dos segredos e enfrentou nova batalha jurídica. Em 1930 ele processou a R. J. Reynolds Tobacco Company por usar a ilustração da mulher serrada em um comercial de cigarros. Goldin alegou que a propaganda entregava o segredo do efeito. O juiz negou a causa a Goldin alegando a base do truque já era conhecido de longa data (citando inclusive os livros de Hopkins e de Robert-Houdin). No fim, toda a publicidade criada em cima do efeito, o tornou menos mágico aos olhos do público.

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Propaganda que gerou o processo de Horace Goldin contra a R. J. Reynolds Tobacco Company

Com o passar dos anos, o número se aperfeiçoou ainda mais: caixas cada vez menores, transparentes e até versões sem a caixa foram criadas. Henry Blackstone Jr. criou uma versão que emulava a serra circular em uma esteira, tal qual uma serraria de madeira. Aliás, a popularização das serras rotativas trouxe um componente a mais de “terror” para o número, tornando-o um verdadeiro clássico moderno, sempre capaz de cativar e surpreender qualquer audiência.

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Francis White, presidente do “The Magic Circle” de Londres, apresentando a sua versão “improptu” da mulher serrada. A serra era emprestada.

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NOTAS

[1]

O truque que Torrini fez para o papa foi o seguinte: com a ajuda do relojeiro da cidade, Torrini conseguiu uma réplica exata de um belo e caro relógio de um importante Cardeal. Durante a apresentação para o Papa, Torrini disse precisar de um relógio para seu próximo truque e substituiu o original pela réplica. Primeiro ele deixa o relógio cair no chão, causando temores no cardeal – que não queria de jeito nenhum emprestar seu relógio. Em seguida, Torrini faz o relógio desparecer e ele reaparece no bolso das vestes do Papa.

[2]

Jim Steinmeyer escreve que Selbit teve dois grandes méritos quando do lançamento do seu truque: a época em que ele foi lançado, e o uso de uma mulher.

Segundo Steinmeyer, a década de 1910 foi marcada pela luta das mulheres por direitos, em especial pelo sufrágio feminino. Com o rompimento da Primeira Guerra, em 1914, as mulheres tiveram que deixar de protestar e passaram a ocupar o chão das fábricas, mostrando na prática, que valiam tanto quanto os homens. Com o fim da guerra, em 1919, a imagem de “inocência” da mulher já não mais cabia, e seus direitos foram automaticamentes adquiridos.

O mérito de Selbit foi conseguir capturar essa nova mentalidade ao criar seu novo efeito, mostrando o lado menos frágil das mulheres. Seus outros efeitos seguiam a mesma linha. Além de “Serrando a  mulher ao meio”, Selbit criou ainda outras ilusões donominadas: “Esmagando a mulher“,  “Destruindo a mulher“, “Esticando a mulher“, “A mulher indestrutível“. O que, a princípio pode soar como um ódio reprimido ao sexo oposto foi, na verdade, uma demonstração da força da mulher, que, desde, pelo menos, uma década antes, vinham sendo as protagonistas das mudanças na sociedade.

Longe de ser um machista ou sexista, Selbit mostrou de forma clara e didática que a mulher era forte e resistente por natureza. Clive Maskelyne, por exemplo, apresentou este mesmo efeito para o público londrino. Contudo, trocou o nome do efeito de “Serrando a mulher ao meio”, para “Matéria através da matéria“, buscando assim, manter latente as velhas (e inocentes) ideias do “conjurador e seu poder místico sobre a natureza”. Obviamente, a apresentação de Maskelyne acabou sendo um fiasco!

 

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BIBLIOGRAFIA

Magicpedia:Sawing woman in half

Wikipedia: Sawing woman in half

Site: Illusion Repository

Artigo: American Heritage Magazine 1994, Vol. 9, nº 03 – “Sawing woman in half“, de Gary Brown *

Artigo: Popular Mechanics, dez. 1958 “I call these the greatest magic illusions os all time” de Christopher Milbourne

Livro:Panorama of Magic” – Christopher Milbourne

Livro:The Last Greatest Magician in the World” – Jim Steinmeyer

Livro:Hidding the Elephant” – Jim Steinmeyer

Livro:Art & Artiffice” – Jim Steinmeyer

Livro:Secrets of the Sideshows” – Joe Nickell

Livro:Sensationalism and the Genealogy of Modernity” – Editado por Alberto Gabriele

* Lembrando, conforme já dito no texto, esse artigo possui um erro grave ao se referir erroneamente à apresentação de Torrini.

IMRO FOX – O HUMORISTA QUE ERA CHEF E VIROU MÁGICO

Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões

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Imro Fox

O ano era 1880 e a cidade era Nova York. O hotel Lawrence era um famoso ponto de parada dos artistas de vaudeville. Certa noite, um grupo de artistas itinerantes hospedou-se no Lawrence. A estrela do grupo era um mágico que, após a primeira performance da noite, desapareceu. Provavelmente ele reapareceria, algumas horas depois, nalgum bar da cidade. Porém, havia uma segunda sessão e o gerente da trupe não podia esperar.

Vendo o desespero no rosto do gerente da trupe, o dono do hotel, querendo ser solícito, perguntou o que estava acontecendo. Ao ficar sabendo do problema do hóspede, o dono prontamente lhe deu a solução: disse-lhe que o cozinheiro do hotel era um mágico.

O gerente então desceu até as “regiões inferiores” do hotel e, entrando na cozinha, deparou-se com uma cena pitoresca. O gerente da trupe viu Imro Fox, debruçado sobre um enorme tomo com aparência antiga. Próximo dele um gato negro o observava, impávido. Sobre as chamas, um caldeirão borbulhante. A “mise-en-scene” do lugar certamente era a do estúdio de algum poderoso conjurador. Mas na vida real as coisas sempre são um pouco menos surreais.

Fox estava lendo um dicionário francês – e não um grimório ou coisa que o valha; o chef estava preparando um menu novo para o hotel (em outras palavras, dando nomes franceses para velhos pratos novaiorquinos); o gato, era um animal comum, mascote da cozinha, companhia habitual de Imro, e não um imp ou demônio familiar. Por fim, no caldeirão, apenas sopa.

Você é o chef, creio” disse o gerente da trupe.
Sim, eu sou“, respondeu Fox.
E você é um conjurador amador?
Eu me distraio com alguns truques, eventualmente…
É você mesmo que eu procuro. Eu gerencio uma trupe de vaudeville. E o cavalheiro que faz mágica para mim, acabou saindo para uma farra, e…
Entendo!” interrompeu o chef, “O velho truque da garrafa que nunca acaba“.
Quero que você assuma o lugar do mágico“, seguiu impassível o gerente, “pelo resto da semana. E não s epreocupe que eu arranjo tudo com o dono do hotel.
Caralh*!“, exclamou Fox em alemão, “nunca sequer pisei em um palco em toda a minha vida. Eu iria morrer de medo. Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões.
Bobagem!” retrucou o homem do teatro, “Me ajude, como uma pessoa boa que você é. E no mais, você será recompensado por isso.

Após mais algum tempo, Fox topou o convite e mais tarde naquela noite, Imro subia ao palco vestindo um terno que claramente não fora confeccionado para ele. Tremendo de medo ele fez uma reverência para a plateia e,  com a voz trêmula,  quebrou o gelo com uma piada: “Senhoras e senhores. Por que a minha cabeça é como o céu? Por que aqui em cima também não tem nada para fazer…[1] A plateia riu, Imro sentiu a tensão incial diminuir e, no embalo do bom momento, fez um truque de cartas.

Enquanto isso, na coxia, o gerente sorria e pensava consigo mesmo: “Muito bom, muito bom!

– Æ –

Imro Fox nasceu em 21 de maio de 1862 [2] em Bromberg, Alemanha (embora hoje, graças ao Tratado de Versales, a cidade se chame Bydgoszcz e fique na Polônia). Seu nome de batismo era Isidore Fuchs. Aos 17 anos sua família migrou para os Estados Unidos. Seu primeiro emprego foi como chefe de cozinha no Lawrence e em pouco tempo, acabou recebendo o convite para tornar-se um mágico. Em 1888 ele adquire a cidadania americana.

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Imro Fox manipulando com “os pés”, o nome que ele dava para suas mãos.

Sua carreira começou em 1880 e ele se vendia como o “conjurador cômico”. Seu número fazia bastante sucesso a ponto de ele ser disputado por outras companhias de vaudeville. Entre 1888 e 1896, Imro excursionou por todos os EUA com pelo menos 4 companhias diferentes, incluindo a “The Rain Makers” de Frank Dumont. Imro também excursionou por Paris, Munique, Antuérpia, Roterdam, Moscou… tendo como ponto alto da carreira sua apresentação no Trocadero Palace, em Londres.

Em 1896 Imro fundou sua própria companhia de vaudeville. E neste mesmo ano ele gravou três filmes mudos para a “American Mutoscope and Biograph Company“, a primeira produtora de filmes norte-americana: “Imro Fox, Conjuror“; “Imro Fox Rabbit Trick“; e “The Human Hen[3]. Imro foi o primeiro mágico da história a gravar um filme.

Imro Fox cartaz vaudeville
Cartaz anunciando o show da companhia de Imro Fox

Em 1898 Imro funda a “The Great Triple Alliance“, uma companhia só de mágicos formada por Imro Fox, Servais LeRoy e Frederick Powell, e agenciada por M.B. Leavitt, um dos grandes nomes do entretenimento da época. O show foi incensado pela imprensa como: “os três principes do mundo das artes místicas”. A companhia excursionou até 1900.

Programa
Excertos de guia do teatro, anunciando o show da “The Great Triple Alliance

– Æ –

As apresentações de Fox também eram muito elogiadas. A revista Billboard de dezembro de 1908 escreveu:

Imro Fox, conjurador cômico e “enganador”, pertence a uma classe própria. Ele transforma os problemas da manipulação em um alegre passatempo e uma interessante meia-hora. Sua personalidade é, talvez, a parte mais impactante de sua performance, embora seu humor natural e seus trejeitos inimitáveis que, ele mesmo chama de “maravilhoso” sejam irresistivelmente engraçados. O sr. Fox é um favorito na Europa, embora seja um americano…

Imro era muito querido entre os mágicos. Contam que quando alguém se aproximava dele e pedia por uma piada, ele apresentava um truque de mágica; se pediam um truque, ele contava uma piada. E quando alguém pedia os dois? Imro fazia! Ele acreditava que sua mágica era a piada e ele buscava envolvê-la em mistério.

Outra grande qualidade de Imro era que ele sabia rir de si mesmo. Ele fazia constantes piadas acerca de sua careca. Também chamava suas mãos de “pés”, em referência à sua habilidade de manipulação; seu inglês “macarrônico” certamente auxiliava na tarefa de fazer os outros rirem. Todas as piadas de seu show tinham o própio Imro como alvo. Um de seus truques era piscar para seu público, contando assim com uma espécie de cumplicidade com a plateia.

Dizem também que ele não pegava emprestado nenhum objeto com os espectadores. Dizia ele que assim poderia fazer mais truques em um mesmo intervalo de tempo, uma vez que se evitavam deslocamentos desnecessários e explicações delongadas. Isso também afastava as suspeitas de algum tipo de combinado entre o mágico e alguém da plateia. Mas talvez a razão para essa aversão a objetos emprestados fosse porque em certo show em Montgomery, Alabama, seu assistente (não o oficial, pois este estava doente) desapareceu com um relógio de ouro de um voluntário da plateia. Dizem que a plateia até hoje espera o relógio aparecer e que Imro ficara 46 dólares mais pobre aquele dia. Sobre o sucedido, Imro se limitiva a dizer: “Bons assistentes custam caro!”

Ainda sobre o show de Imro, Henry Ridgley Evans escreveu:

Seu show é bastante original. A cortina sobe, mostrando uma caverna sombria. No meio está um caldeirão borbulhante, alimentado por bruxas à la Macbeth. Um velho necromante, vestindo um robe largo e um chapéu pontudo, entra em cena. Ele começa os seus encantamentos, quando hostes de demônios aparecem e dançam ao redor do caldeirão. De repente, entre o clangor de um trovão e o brilho de um raio, a caverna se transforma em um escritório do século XX, arrumando para uma sessão de conjuração. O decrépito feiticieiro se transforma em um cavalheiro em roupas noturnas – Sr. Fox – que começa seu entretenimento atualizado de magia moderna. Isso não é algo brilhante?

Imro Fox necromante
Imro Fox vestido de Necromante / Alquimista

Imro faleceu em 1910 em Nova York, por um capricho do destino, no saguão de um hotel. Após a primeira apresentação daquela noite, Imro foi desça Sar em seu quarto, quando sentiu um mal súbito. Ele desceu correndo até o saguão à  procura de ajuda, mas está não chegou a tempo. Imro faleceu naquele mesmo dia 04 de março. Curiosamente sua carreira começou – e terminou – em um hotel. Apesar da carreira relativamente curta, Imro foi querido por todos. Certamente, se questionado, diria em seu inglês carregado, que estava indo descobrir, afinal, se o céu era mesmo como a sua careca.

– Æ –

NOTAS

[1] A piada foi adaptada para ter algum sentido em português. No original: “Why is my head like Heaven? Because there is no parting there!

[2] A data de nascimento, bem como o ano de migração de Imro não é unânime. A maioria das fontes aponta para a data mencionada no artigo. O periódico “The Crest Magician” de fevereiro de 1908, aponta 5 de maio de 1862 como a data de nascimento de Imro, bem como sua migração para a América ao 11 anos de idade, e não aos 17. Já o periódico “Magic” de Ellis Stanion, de maio de 1902, traz a data de 21 de maio de 1852 como a data de nascimento de Imro, e diz que ele migrou para a América em 1874.

[3] Infelizmente não encontrei os filmes na internet.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: “Magic” de Ellis Stanyon – Vol. II, n. 08, maio de 1902;

Periódico: “Mahatma” – Vol. I, n. 03, maio de 1895;

Periódico: “The Crest Magician” – Vol. I, n. 04, fevereiro de 1908.

Periódico: The Open Court, a Monthly Magazine – Vol 19, n. 08, julho de 1905;

O DIA EM QUE CHING LING FOO BLEFOU E PERDEU…

“Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson. (…)  Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.”

Ching Ling Foo (Zhu Liankui) sobre seu rival Chung Ling Soo (William Robinson)

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1. INTRODUÇÃO

No periódico Mahatma, Vol. VIII, nº 08, de fevereiros de 1905, lemos o relato feito “in time” sobre a disputa entre Chung Ling Soo e Ching Ling Foo. Publicado sob o título: “Did Foo fool Soo or can Soo sue Foo?”, ele revela alguns detalhes pouco conhecidos da disputa entre os mágicos.

O artigo começa com a seguinte afirmação: “Apresentamos aqui para a família Mahatma a história do desafio dos mágicos rivais, conforme reportado em 08 de janeiro pelo jornal “Weekly Dispatch”, onde, em seus escritórios, o encontro teve lugar.

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Capa do periódico Mahatma

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2. O COMEÇO DA RIVALIDADE

Antes de chegarmos ao desafio, é preciso entender como foi que William Robinson transformou-se em Chung Ling Soo. Neste post conto a história, mas de forma resumida, Ching Ling Foo desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. William Robinson se propôs a reproduzir o truque, mas foi repelido por Foo que se recusou até à assistir a tentativa de Will. Como vingança, William emulou o show de Foo e passou a apresentar-se como mágico chinês original, criando várias histórias fantásticas como biografia.

A cópia foi tão boa, que logo superou o original e Soo passou a desbancar Foo. Não tardou para que nascesse a discussão: quem seria o melhor mágico, conjurador, manipulador e demais artes correlatas. Ching Ling Foo (o chinês original) propôs o desafio; Chung Ling Soo não tremeu e encarou a liça. No dia e hora marcados, Soo não só apareceu, como maravilhou os repórteres e demais testemunhas com seus encantamentos. Foo, que propôs o desafio, simplesmente não apareceu.

– Æ –

3. O DESAFIO

A história desse desafio começa alguns dias antes. Na virada de 1904 para 1905, Ching Ling Foo estava se apresentando no Empire Theatre de Londres, enquanto Chung Ling Soo, se apresentava no Teatro Hippodrome, também em Londres e distante pouco menos de 150 metros um do outro.

Em 28 de dezembro de 1904, o editor do “Weekly Dispatch” sugeriu a um repórter que explorasse essa rivalidade entre os mágicos. O repórter dirigiu-se diretamente a Leon Mooser, empresário do Ching Ling Foo, que pareceu fascinado pela ideia. “Vá em frente”, disse o empresário, “diga a Soo que o desafiaremos na hora e no local em que ele quiser.

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Ching Ling Foo, 1916

O repórter então acampou por cerca de três dias na porta do Hippodrome tentando falar com Soo, mas tudo o que conseguiu foi conversar com o “secretário” de Soo, um acrobata japonês chamado Fukuda Kumetaro, e que não falava uma única palavra de chinês. O repórter então voltou até Leon Mooser, dizendo-lhe que Soo havia aceito o desafio.

Foi então que Mooser encontrou o primeiro “obstáculo” ao encontro. “Vá e fale com o gerente Hitchins no Empire, e peça que ele autorize o desafio. Então iremos em frente.” No dia 31 de dezembro o repórter conversou com o sr. Hitchins e lhe fez a proposta. Hitchins respondeu dizendo que não tinha nada a ver com o desafio. Que isso era coisa de Mooser, portanto ele que arcasse com as consequências. Quando o repórter contou a Mooser da resposta de Hitchins, Mosser riu e disse: “Vá em frente, então. Mostraremos pra ele. Mas já lhe aviso, aposto £5,00 que ele não aparecerá.

No dia seguinte, uma amostra do artigo que seria publicado na edição dominical do “Weekly” chegou às mãos de Mooser que respondeu: “É isso que eu quero. Imprima. Mas ele não vai aparecer! Vá em frente, haja o que houver!

No domingo, 01 de janeiro de 1905, o “Weekly Dispatch” publica o seguinte desafio em nome de Leon Mooser:

Eu ofereço £1.000 se Chung Ling Soo, atualmente se apresentando no Hippodrome, conseguir executar dez dos meus vinte truques, ou se eu falhar em fazer qualquer um de seus truques.

O desafio acabou sendo marcado para às 11 horas da manhã do sábado, 07 de janeiro.

Naquela semana, Foo e Soo trocaram várias “gentilezas” pelo jornal. Foo revelou a verdadeira identidade de Soo: “Ele não é chinês, senão um escocês-americano chamado Robinson.” E ainda por cima debochou: “Ele usa robes que, se os usasse na China, teria sua cabeça decepada. Ele usa roupas de mulher. É um grande idiota.” Ainda, sobre a alegação de ser o mágico chinês original, e de haver se apresentado para a família imperial chinesa Foo provocou: “Ele não é chinês, mas um demônio estrangeiro.

Kumetaro respondeu às provocações dizendo que, a dignidade de Soo era sublime demais e que, por isso, Soo “não se rebaixaria discutindo com escravo, que sentava na rua fazendo malabarismo em troca de esmolas”. E concluiu dizendo que, Soo, por haver se apresentado para a família imperial chinesa, havia ganho o direito divino de se vestir como um nobre, pois fora agraciado, pela imperatriz, com honras celestiais com o título de Mandarim. Essa história de um cidadão comum ser promovido à mandarim, foi criada na medida para provocar Foo e fazê-lo ficar cego de raiva, principalmente porque o verdadeiro Foo é quem havia se apresentado para a Família Imperial chinesa.

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Chung Ling Soo

Cabe aqui o destaque dado pelo repórter do “Weekly” acerca do show de Chung Ling Soo. Ele ficara impressionado com as habilidade de Soo e foi testemunha ocular do delírio da plateia quando Soo pegou seis balas que foram disparadas contra si, em um prato de porcelana chinesa. “Na aparência”, escreveu o repórter, “Chung Ling Soo é bastante chinês. Sua pele é amarela, seus olhos negros e oblíquos, e seus dentes tingidos, como se houvesse passado a maior parte de sua vida mascando ópio.” Porém, Soo não concedeu nenhuma entrevista acerca do desafio. “É inútil, disse o secretário de Soo, isso porque ele não fala inglês.

Tudo estava encaminhado para o desafio no sábado. Na quarta feira, dia 04, o repórter do “Weekly” liga para Mooser para confirmar os detalhes do encontro. Mooser então arruma uma segundo obstáculo: “Quero uma declaração por escrito do próprio Chung Ling Soo. Não quero ser feito de idiota. Se ele assinar, concordando em aparecer, então iremos a seu encontro.” O repórter então vai atrás de Soo e, após alguma dificuldade, consegue o documento abaixo transcrito:

London Hippodrome, Cranbourne street

Londres, W. C. 4 de Janeiro de 1905

Nós abaixo subscritos, garantimos nossa aparição no escritório da “Weekly Dispatch” no próximo sábado de manha (07 de Janeiro de 1905) às 11:00 da manhã, para encontrar Ching Ling Foo, o qual propôs um desafio à Chung Ling Soo para que este executasse dez de seus (de Foo) vinte truques. Chung Ling Soo foi informado das apresentações de Ching Ling Foo, embora, até o momento, não tenha consiguido assisti-las. Ching Ling Soo, por sua vez, tem uma vantagem por já ter assistido ao show de Chung Ling Soo. Até o momento, Ching Ling Foo apresentou apenas cinco números de mágica, todos eles Chung Ling Soo está preparado para duplicá-los no escritório da “Weekly Dispatch”

Assinado em caracteres chineses: CHUNG LING SOO

Testemunhas presentes no London Hippodrome

FRANK PARKER – Gerente

H.W. GARRIK – Representante da imprensa

Quando recebeu a cópia assinada da declaração, no saguão do Hotel Queen’s, Mooser se limitou a dizer: “Muito bem. Vamos encontrá-lo no sábado, no escritório do “Weekly Dispatch” às 11:00.

Ao ser interpelado por uma declaração por escrita de que ele e seu cliente também viriam, ele prometeu que providenciaria uma declaração naquele mesmo dia.

Às 17:00 um mensageiro do Hotel Queen’s trouxe uma declaração à redação do “Weekly” que dizia:

Queen’s Hotel, Leicester Square

Editor “Weekly Dispatch”

Caro senhor: acerca do encontro, em seu escitório, de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo, estou inteiramente de acordo que este encontro aconteça, desde que, as condições de minha carta de 27 de dezembro ao gerente do Empire Theatre, Hitchins, sejam cumpridas.

Elas estipulam que, primeiro, Chung Ling Soo prove diante dos membros da Delegação Chinesa de que ele é, de fato, chinês. Segundo, que Ching Ling Foo execute dez truques chineses de Chung Ling Soo e terceiro, que Chung Ling Soo execute dez dos vintes truques chineses de Ching Ling Foo.

No evento que será realizado, sugiro que vocês consigam três ou quatro bem reputados gerentes teatrais para que atuem como testemunha. Aguardo sua breve resposta e certo de que o encontro poderá ser arranjado.

Cordialmente

LEON MOOSER

Gerente de Ching Ling Foo

OS representantes do jornal foram por cerca de quatro vezes ao Queen’s Hotel para responder ao senhor Mooser, porém em nenhuma das vezes ele estava. Foi então deixado a ele a seguinte correspondência:

Escritório da “Weekly Dispatch”

06 de janeiro de 1905

Leon Mooser

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Caro senhor: Ligamos diversas vezes, mas nenhum atendente conseguiu localizá-lo. Em relação à sua carta de ontem. Quando do nosso primeiro contato sobre este assunto, nenhuma imposição de condições foi feita ou sugerida. Você estava disposto a encontrar-se com Chung Ling Soo “de qualquer maneira e quando ele quiser.”

Com grande dificuldade, Chung Ling Soo foi convencido a vir até o nosso escritório e acredito que vocÊ não colocará novos obstáculos a fim de encontrar Chung Ling Soo, nos termos do documentod e Soo já submetido ao senhor, por mim mesmo. Uma breve resposta neste “Weekly Dispatch” Tallis-street, E. C. será bem recebido.

Embora tenha empenhado sua palavra de que apareceria no desafio de sábado, Mooser acabou não respondendo às mensagens, cartas, mensageiros e ligações telefônicas, nem no Empire Theatre, nem no Queen’s Hotel, nem mesmo no Hotel Provence onde Ching Ling Foo e sua equipe estavam hospedados.

A equipe desafiada chegou no escritório da “Weekly Dispatch” para o desafio pouco depois das 10:30 da manhã. Todos estavam sorrindo e transbordavam dignidade em seu Peteno Panhard 1905. Logo eles foram conduzidos até a sala do desafio. A sra. Soo acompanhava o marido e um de seus assistentes, Chai Ping, acompanhava o mestre como uma sombra.

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Pahnard, 1905

A sala adjacente à do desafio funcionava como uma sala de recepção. Entre os presnetes estavam: Edgar Lee, proprietário do Savage Club, Frank parker e W. H. Garrick, do Hippodrome, Houdini, o rei das algemas, jornalistas representantes do “Daily Mail”, “Evening News”, “Daily Mirror”, “Illustrated Mail”, “Sketch”, “Encore” e “Weekly Dispatch”. Além de diversos outros convidados.

Quando o relógio bateu onze horas, a excitação na sala subiu. Chun Ling Soo deu um discretíssimo sorriso, mas não disse uma só palavra. Conforme os minutos se passavam, os ânimos se afloravam. Diversas tentativas de telefonema e mensagens foram enviadas. Todas infrutíferas. Meia hora havia se passado e nada do desafiante. Não se sabe se foi a aparência relaxada de Chung Ling Soo, sua aura, o fato é que logo alguém chegou à brilhante conclusão do que havia sucedido: Soo, com seus poderes, tornou seu rival invisível.

O Editor do “Weekly” pediu então que Chung demonstrasse alguns de seus feitos maravilhosos. Sem nenhum preparo prévio, Soo tomou uma folha de jornal, rasgou-a em tiras, para depois reconstruí-las novamente. Foi então lhe alcançada uma toalha de mesa e posta no chão. Soo começou então a produzir tortas de frutas. Muitas tortas. O suficiente, dizem, para que as testemunhas ali presente, deixassem de almoçar por vários dias.

E isso foi só o começo. Do nada, Soo rolou pelo chão do escritório. Quando ficou de pé novamente, havia produzido um aquário com um peixinho dentro dele. O peixe, alheio a tudo, nadava tranquilamente. A seguir, Soo acendeu uma vela em sua boca: ele engoliu um papel em chamas, uma pequena quantidade de cera de vela e uma vasilha com pavio de algodão. Em seguida regurgitou uma vela acessa. Sua apresentação de aros chineses foi maravilhosamente bela e bem executada.

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Embora nesta foto a imagem seja de Ching Ling Foo, dá para ter uma ideia do “aquário” que era produzido pro ambos conjuradores.

Ao fim dos dez truques, o ajudante de Chung Ling Soo declarou encerrado o show e uma explosão de palmas e vivas invadiu a sala. De fato, ele tinha uma aura de monarca quando se despediu da pequena audiência, e se dirigiu de volta ao seu hotel.

– Æ –

4. E QUANTO AO POBRE CHING LING FOO?

Às sete horas da noite do sábado, dia 07, uma carta foi recebida no escritório da “Weekly Dispatch” remetida por Leon Mooser. A carta dizia:

Queen’s Hotel

Leicester-square, W. C.

Recebi sua carta. Só me econcontrarei com “Robinson” sob as condições mencionadas em minha carta de 27 de dezembro. Não tenho nada a ganhar enonctrando ele sob outras condições.

Atenciosamente

LEON MOOSER

A carta não estava datada. Porém, o envelope trazia um carimbo que dizia: “London, W. C., 07 de janeiro, 14:15”.

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5. CONCLUSÃO

A estratégia de Mooser sempre fora desqualificar Soo como chinês. No entanto, fica claro que todos, ou pelo menos boa parte das pessoas, sabiam que Soo era um farsante. Mas por que não desmascará-lo? O artigo da Mahatma responde: “Foi tentado, em alguns lugares, mudar a questão para a das nacionalidades dos rivais. Isto é um erro. O público não está interessado na ascendência de Soo ou Foo, está interessado em conjuração, e esta é a questão que o “Weekly Dispatch” desejava resolver.” Ou seja, enquanto Soo fosse um mestre na manipulação, tudo bem para o público e para a crítica especializada que ele não fosse tão chinês assim.

– Æ –

6. BIBLIOGRAFIA

Periódico: Mahatma. Vol. VIII, nº 08. Fevereiro de 1905.

Livro: The Glorious Deception: The Double Life of William Robinson, aka Chung Ling …” de Jim Steinmeyer.

Livro:Conjuring Asia” de Chris Goto-Jones.

MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

V0004749 Giovanni Battista della Porta. Line engraving, 1688.
Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

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Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

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Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

Gold(III)_chloride_solution
Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

Baseado em um post feito pelo confrade Ruy Texas no Fórum Mágico Amador

INTRODUÇÃO
Ao longo da história, muitos mágicos apresentaram diversas formas de levitação. Desde pequenos objetos até os maiores, passando inclusive pela levitação de pessoas, a levitação sempre encanta e maravilha. Os mágicos tem empregado estratagemas engenhosos, que ficaram na História, a grande maioria somente como um simples truque de ilusionismo.

Segundo Ruy Texas, a primeira dessas levitações foi apresentada no ano de 1832, em Madras, Portugal, pelo ilusionista Drahmin Scheschal. que levitava sua mulher sentada num tamborete, até à altura de dois metros.

Mas houve um mágico que conseguiu superar a barreira da ilusão e trouxe verdadeiro assombro à sua época.

A MÚSICA DE WILLIAM MOORE

No dia 27 de abril de 1908, o público presente no Hipódromo de Nova York, constatou, com assombro, que um homem, sentado em seu piano elevou-se ao ar. Não só o pianista, mas o piano também. Quando piano e pianista estavam a pouco mais de um metro e meio do solo piano e pianista começaram a flutuar pelo palco, de um lado para outro, também passaram a balançar até que finalmente piano e pianista ficaram de cabeça para baixo e ainda mais, começaram a flutuar em círculos, chegando a 40 rotações por minuto. E o mais belo de tudo: a música não parou, sequer por um segundo.

Durante o prodigioso número, tanto na subida, como na descida, o piano e o pianista eram passados de um lado para o outro, com um gigantesco arco de madeira, para que a assistência se certificasse da ausência de fios ou outros meios mecânicos de suspensão aérea.

Testemunhas dizem que foi o show de mágica menos aplaudido da história, pois o público estava surpreso demais para esboçar qualquer reação.

A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958).
A levitação de Onaip (fonte: revista Popular Mechanics, dezembro de 1958). (Clique na imagem para ampliá-la)

Conclui Ruy Texas dizendo que foi tão grande o sucesso alcançado por Onaip com este seu truque, que o Circulo Espanhol de Artes Mágicas de Barcelona, considerando o dito truque bastante indecifrável, ofereceu aos leitores da sua revista “El Três de Bastos” um valioso prêmio para aquele que conseguisse desvendá-lo. O prêmio, porém, restou deserto.

Christopher Milbourne na revista “Popular Mechanics” de dezembro de 1958 traz mais informações: Onaip apresentou esse número por todo os EUA ao longo dos anos seguintes. Em 1911 Onaip passou a se apresentar com indumentária indiana. O mágico aparecia no palco com um largo robe de seda e hipnotizava uma de suas assistentes a qual passava a tocar o piano até que fosse levitada.

QUEM ERA ONAIP?

Nascido sob o nome de William F. Moore, em Westerly, Rhode Island, consta a história que Onaip fugiu de casa e do negócio de sucesso de sue pai, para se tornar um bem sucedido mágico de vaudeville. Anos mais tarde, após ter já se retirado dos palcos, ele e a sua esposa foram agraciados com uma pequena pensão advinda de sua família, sob a condição de que nunca jamais se falasse no seu passado artístico, o qual o pai nunca aprovou. Para garantir o acordo, a esposa de Onaip queimou todos os seus materiais e rascunhos sobre mágica. Isso talvez explique a enorme dificuldade de se encontrar fotos e descrições sobre Onaip e seu glorioso número de levitação. Onaip, faleceu em 1959.

Em 1918, M.S. “Doc” Mahendra descobriu que o aparato de levitação do piano de Onaip estava guardado em um depósito de mercadorias de Chicago, e estava para ser vendido por falta de reclamação do dono. Mahendra comprou a ilusão por U$ 20,00 (U$ 340,00 em valores atuais).  Apesar de considerar essa uma brilhante ilusão, Mahendra nunca veio a apresentá-la.

Mahendra
Mahendra (Clique na imagem para ampliá-la)

BIBLIOGRAFIA

– Fórum Mágico Amador – Tópico: “Lendas Mágicas & Mágicos Lendários” criado em 12/11/2009;
– Magicpédia: Onaip;
– Revista “Popular Mechanics” dezembro de 1958;

FANTASMAGORIA

No post anteiror (abaixo) falei sobre as “Lanternas Mágicas”. Aparatos capazes de reproduzir imagens, e criar histórias, muito utilizadas no século XVIII e XIX.

Alguns me perguntaram: “mas o que aquelas lanterna tem a ver com a mágica, exceto pelo nome?“. Na verdade aquele post foi uma introdução para o post de hoje. Hoje escreverei sobre um estilo de apresentação utilizando as tais lanternas mágicas, chamado de fantasmagoria; ou seja, um show de terror.

Esses espetáculos, serviram como base para mutas das mágicas de palco com temáticas espíritas e sobrenaturais nos séculos XVIII e início do século XIX. Foram nesses espetáculos que os mágicos descobriram o poder e a utilidade dos espelhos e da fumaça, cunhando a expressão “smoke and mirrors”, que é, até hoje, sinônimo de “uma grande ilusão”.

Quem pensa que os espetáculos de horrores são uma invenção moderna, devería rever seu conceito. No fim do século XVIII, algumas modificações na concepção das Lanternas Mágicas permitiram não mais a simples exibição de imagens estáticas, mas agora produziam imagens horrorizantes: fantasmas projetados sobre a plateia, imagens minúsculas que prontamente se convertiam em gigantes e além disso que podiam podiam se mover pelas paredes dos teatros.

 

Espetáculo de fantasmagoria no Séc. XVIII

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A lanterna mágica, antes um show de projeções e histórias, acaba mudando completamente, dando origem a um show de horrores, e que ficaram conhecidos como fantasmagoria.

Por se tratar de uma ilusão, era comum a presença de mágicos, que acompanhavam o espetáculo e o funcionamento das lanternas e alguns até que se apresnetavam junto com a lanterna, ainda que o espetáculo funcionasse na maior parte das vezes tendo nada a ver com a mágica.

O NASCIMENTOS DOS FANTASMAS

A Revolução Francesa, com suas muitas mortes, guilhoitinas e demais atrocidades, foram o cenário perfeito para a geração dessas sensações macabras. E o interesse do público pelo macabro inerente à Revolução, incentivou grandemente a execução desses shows de fantasmas.

Tudo começa no auge da Revolução Francesa, quando chega em Paris o físico belga Étienne-Gaspard Robert (1763-1837), mais conhecido como Robertson, e que teve uma engenhosa ideia: a produção de fantasmas ópticos.

 

Desenho de perfil de Étienne-Gaspard Robert

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O porém é que já haviam alguns fabricantes de fantasma em Paris como Cagliostro e Mesmer. Porém o diferencial de Robertson, além de ser um estrangeiro desconhecido, era que ele, de fato, era um entendido na ciência e na óptica, além de se proclamar um possuídor de poderes ocultos.

Alguns historiadores afirmam que Robertson era, na verdade, um plagiador. Ele haveria se apossado da ideia de um alemão chamado Paul Philidor ou Philipsthal, que havia apresnetado um espetáculo de fantasmagoria em Paris poucos dias antes da morte do Rei Luís XV. Além disso, Philip era dono de um museu de curiosidades sobre ótica, mecânica e automatos. verdade ou não, o fato é que o show de Robertson era uma vedadeira experiência sobrenatural.

 

Cartazes anunciando shows de fantasmagoria: à esquerda, o cartaz de Robertson de um show em Londres; à direita um cartaz de Philipsthal

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Étienne, que ao menos sabia se promover, inundou Paris com cartazes propagandeando a si próprio. Tamanho foi o sucesso de sua divulgação que o lugar marcado para a sua apresentação, um pequeno teatro de 70 lugares, ficou sem espaço para o tanto de pessoas que compareceram.

O SHOW

Poultier, um repórter local, escreveu acerca daquele espetáculo. Nesta nota Poultier conta que o belga colocava em um braseiro em chamas dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas do periódico “Jornal dos Homens Livres” (um jornal republicano da época) fazendo aparecer por entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha, representando a liberdade segundo consta, e armado com um punhal, para logo desaparecer, tão misteriosamente quanto apareceu.

 

 

Fantasmas aparecendo por cima do público. Repare nos braseiros gerando a fumaça por onde aparecem os fantasmas.

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A seguir um jovem da plateia se levanta e solicita ver o fantasma de sua amada já falecida; o jovem então mostra um retrato dela para Robertson. O físico repete outra vez a operação no brazeiro e eis que surge o busta da jovem, com seus cabelos fluuando no ar e sorrindo para o seu amado.

A notícia toda é bastante extensa. Mas o exposto aqui já é o bastante para imaginarmos o tamanho do impacto que esta notícia deve ter causado nos leitores da época.

Como já foi dito, o lugar marcado para as apresentações era deveras pequeno para o sucesso de Robertson que logo conseguiu mudar-se junto com seus fantasmas e seus aparatos para um lugar mais amplo e, por acaso do destino, um lugar com “espírito” para tais apresentações: um velho e abandonado convento capuchinho, próximo à Praça de la Vendome, em Paris. Esta nova locação foi a grande alavanca no marketing de suas apresentações.

Os espectadores que chegavam eram conduzidos através de corredores escuros rodeados de antigas tumbas e lápides mortuárias. O cenário não podería ser mais perfeito. Era um grande show de imagens e sensações.

Se as projeções por si só, já aterrorizavam a audiência, o ambiente tétrico as pontecializavam ainda mais. A isso, ainda foram acrescentados sons ambinetes de trovões, sinos, correntes e outros sons dessa linha.

E o terror não parava por aí. Alguns ajudantes caminhavam entre as trevas da cripta, com lanternas presas em seus corpos, o que produzia outros efeitos sobrenaturais, como o de espíritos, ou fantasmas caminhando e cercando ao público.  Alguns dos espectadores nem se atreviam a olhar as projeções. Outros tantos acabavam por sair do teatro correndo, tamanho era o medo incutido pela fantasmagoria de Robertson.

Se levarmos em conta que, ainda hoje, viramos a cara em certas cenas de terror, e consideranod ainda que para aquelas pessoas, a fantasmagoria era o equivalente ao nosso cinema, podemos vislumbrar, ainda que em parte, o tamanho do espanto e do medo, causado por tais espetáculos.

COMO FUNCIONAVA A FANTASMAGORIA?

Como dito antes, a base da fantasmagoria estava nas “Lanternas Mágicas”. Os fantasmas e demônios eram pintados sobre placas de vidro e depois projetadas. Porém, enquanto nos espetáculos convencionais os espectadores ficavam entre a lanterna e a tela de projeção, na fantasmagoria, era a tela que ficava entre os espectadores e a lanterna, ou seja, esta ficava oculta aos espectadores, o que conferia mais mistério ao show.

 

 

Posição das partes durante a apresentação. Observe como o fantascópio permanece oculto do público.

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Robertson usava uma Lanterna especial montada sobre rodas, o qual denominou “Phantascope” ou, em tradução livre, Fantascópio.

 

 

Fantascópio em funcionamento. Observe a presença de rodas no aparelho.

(clique na imagem para ampliar)

Movendo a lanterna para mais perto ou mais próximo da tela, as imagens se deformavam, aumentando ou ampliando conforme a distância da tela, em questão de segundos.  O efeito final era bastante similar ao que hoje chamamos de “zoom”. Os espectadores, embasbacados, observavem como a figura crescia rapidamente, dando a impressão de avançar para cima do público, para, em segundos, transformar-se em pequenos “anões”.

 

 

Fantascópio original.

(clique na imagem para ampliar)

O mecanismo foi tão engenhosamente desenhado, que permitia que as lentes mantivessem as imagens em foco a intensidade da luz, qualquer que fosse a distância entre a lanterna e a tela.

 

 

Dispositivo inserido no fantascópio a ser projetado.

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E por vezes, era a fumaça que se fazia passar por tela. Ao fabricar fumaça e direcionar o Fantascópio para esta densa neblina, o resultado era a clara impressão de uma imagem flutuando no ar.

 

 

Exemplo do efeito de movimento.

(clique na imagem para ampliar)

Em 1847 alguns cientistas escreveram um livro onde apresentavam cerca de 400 experimentos científicos com fins de entretenimento. Entre os números apresnetados, estava a Lanterna Mágica e a Fantasmagoria, explicando inclusive como fazer pincéis finos para a pintura das placas de vidro e como montar todo o equipamento.

Na figura abaixo tomada do livro, pode-se observar como criar uma imagem fantasmagórica sobre um suporte, queimando incenso para gerar a fumaça, no melhor estilo das projeções a laser atuais.

 

 

Projeção do fantascópio sobre a fumaça.

(clique na imagem para ampliar)

 

FONTES

 

Texto base:

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/fantasmagoria.html

 

Mais imagens e textos complementares:

http://users.telenet.be/thomasweynants/assaulted.html

http://www.jstor.org/pss/3815390

http://www.magiclantern.org.uk/history/history7.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Phantasmagoria

http://www.acmi.net.au/AIC/PHANTASMAGORIE.html

http://www.magiclantern.org.uk/history/history6.html

É isso. Espero de coração que tenham gostado. Particularmente aprendi muito com esse post. Principalmente essa questão de não gerar apenas entretenimento, ou algo bonito para o espectador ver, mas sim buscar gerar uma experiência, uma vivência em todos os sentidos.

Amplexos!