IMRO FOX – O HUMORISTA QUE ERA CHEF E VIROU MÁGICO

Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões

Imro Fox

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Imro Fox
Imro Fox

O ano era 1880 e a cidade era Nova York. O hotel Lawrence era um famoso ponto de parada dos artistas de vaudeville. Certa noite, um grupo de artistas itinerantes hospedou-se no Lawrence. A estrela do grupo era um mágico que, após a primeira performance da noite, desapareceu. Provavelmente ele reapareceria, algumas horas depois, nalgum bar da cidade. Porém, havia uma segunda sessão e o gerente da trupe não podia esperar.

Vendo o desespero no rosto do gerente da trupe, o dono do hotel, querendo ser solícito, perguntou o que estava acontecendo. Ao ficar sabendo do problema do hóspede, o dono prontamente lhe deu a solução: disse-lhe que o cozinheiro do hotel era um mágico.

O gerente então desceu até as “regiões inferiores” do hotel e, entrando na cozinha, deparou-se com uma cena pitoresca. O gerente da trupe viu Imro Fox, debruçado sobre um enorme tomo com aparência antiga. Próximo dele um gato negro o observava, impávido. Sobre as chamas, um caldeirão borbulhante. A “mise-en-scene” do lugar certamente era a do estúdio de algum poderoso conjurador. Mas na vida real as coisas sempre são um pouco menos surreais.

Fox estava lendo um dicionário francês – e não um grimório ou coisa que o valha; o chef estava preparando um menu novo para o hotel (em outras palavras, dando nomes franceses para velhos pratos novaiorquinos); o gato, era um animal comum, mascote da cozinha, companhia habitual de Imro, e não um imp ou demônio familiar. Por fim, no caldeirão, apenas sopa.

Você é o chef, creio” disse o gerente da trupe.
Sim, eu sou“, respondeu Fox.
E você é um conjurador amador?
Eu me distraio com alguns truques, eventualmente…
É você mesmo que eu procuro. Eu gerencio uma trupe de vaudeville. E o cavalheiro que faz mágica para mim, acabou saindo para uma farra, e…
Entendo!” interrompeu o chef, “O velho truque da garrafa que nunca acaba“.
Quero que você assuma o lugar do mágico“, seguiu impassível o gerente, “pelo resto da semana. E não s epreocupe que eu arranjo tudo com o dono do hotel.
Caralh*!“, exclamou Fox em alemão, “nunca sequer pisei em um palco em toda a minha vida. Eu iria morrer de medo. Encarar uma plateia? Eu prefiro encarar uma bateria de canhões.
Bobagem!” retrucou o homem do teatro, “Me ajude, como uma pessoa boa que você é. E no mais, você será recompensado por isso.

Após mais algum tempo, Fox topou o convite e mais tarde naquela noite, Imro subia ao palco vestindo um terno que claramente não fora confeccionado para ele. Tremendo de medo ele fez uma reverência para a plateia e,  com a voz trêmula,  quebrou o gelo com uma piada: “Senhoras e senhores. Por que a minha cabeça é como o céu? Por que aqui em cima também não tem nada para fazer…[1] A plateia riu, Imro sentiu a tensão incial diminuir e, no embalo do bom momento, fez um truque de cartas.

Enquanto isso, na coxia, o gerente sorria e pensava consigo mesmo: “Muito bom, muito bom!

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Imro Fox nasceu em 21 de maio de 1862 [2] em Bromberg, Alemanha (embora hoje, graças ao Tratado de Versales, a cidade se chame Bydgoszcz e fique na Polônia). Seu nome de batismo era Isidore Fuchs. Aos 17 anos sua família migrou para os Estados Unidos. Seu primeiro emprego foi como chefe de cozinha no Lawrence e em pouco tempo, acabou recebendo o convite para tornar-se um mágico. Em 1888 ele adquire a cidadania americana.

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Imro Fox manipulando com “os pés”, o nome que ele dava para suas mãos.

Sua carreira começou em 1880 e ele se vendia como o “conjurador cômico”. Seu número fazia bastante sucesso a ponto de ele ser disputado por outras companhias de vaudeville. Entre 1888 e 1896, Imro excursionou por todos os EUA com pelo menos 4 companhias diferentes, incluindo a “The Rain Makers” de Frank Dumont. Imro também excursionou por Paris, Munique, Antuérpia, Roterdam, Moscou… tendo como ponto alto da carreira sua apresentação no Trocadero Palace, em Londres.

Em 1896 Imro fundou sua própria companhia de vaudeville. E neste mesmo ano ele gravou três filmes mudos para a “American Mutoscope and Biograph Company“, a primeira produtora de filmes norte-americana: “Imro Fox, Conjuror“; “Imro Fox Rabbit Trick“; e “The Human Hen[3]. Imro foi o primeiro mágico da história a gravar um filme.

Imro Fox cartaz vaudeville
Cartaz anunciando o show da companhia de Imro Fox

Em 1898 Imro funda a “The Great Triple Alliance“, uma companhia só de mágicos formada por Imro Fox, Servais LeRoy e Frederick Powell, e agenciada por M.B. Leavitt, um dos grandes nomes do entretenimento da época. O show foi incensado pela imprensa como: “os três principes do mundo das artes místicas”. A companhia excursionou até 1900.

Programa
Excertos de guia do teatro, anunciando o show da “The Great Triple Alliance

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As apresentações de Fox também eram muito elogiadas. A revista Billboard de dezembro de 1908 escreveu:

Imro Fox, conjurador cômico e “enganador”, pertence a uma classe própria. Ele transforma os problemas da manipulação em um alegre passatempo e uma interessante meia-hora. Sua personalidade é, talvez, a parte mais impactante de sua performance, embora seu humor natural e seus trejeitos inimitáveis que, ele mesmo chama de “maravilhoso” sejam irresistivelmente engraçados. O sr. Fox é um favorito na Europa, embora seja um americano…

Imro era muito querido entre os mágicos. Contam que quando alguém se aproximava dele e pedia por uma piada, ele apresentava um truque de mágica; se pediam um truque, ele contava uma piada. E quando alguém pedia os dois? Imro fazia! Ele acreditava que sua mágica era a piada e ele buscava envolvê-la em mistério.

Outra grande qualidade de Imro era que ele sabia rir de si mesmo. Ele fazia constantes piadas acerca de sua careca. Também chamava suas mãos de “pés”, em referência à sua habilidade de manipulação; seu inglês “macarrônico” certamente auxiliava na tarefa de fazer os outros rirem. Todas as piadas de seu show tinham o própio Imro como alvo. Um de seus truques era piscar para seu público, contando assim com uma espécie de cumplicidade com a plateia.

Dizem também que ele não pegava emprestado nenhum objeto com os espectadores. Dizia ele que assim poderia fazer mais truques em um mesmo intervalo de tempo, uma vez que se evitavam deslocamentos desnecessários e explicações delongadas. Isso também afastava as suspeitas de algum tipo de combinado entre o mágico e alguém da plateia. Mas talvez a razão para essa aversão a objetos emprestados fosse porque em certo show em Montgomery, Alabama, seu assistente (não o oficial, pois este estava doente) desapareceu com um relógio de ouro de um voluntário da plateia. Dizem que a plateia até hoje espera o relógio aparecer e que Imro ficara 46 dólares mais pobre aquele dia. Sobre o sucedido, Imro se limitiva a dizer: “Bons assistentes custam caro!”

Ainda sobre o show de Imro, Henry Ridgley Evans escreveu:

Seu show é bastante original. A cortina sobe, mostrando uma caverna sombria. No meio está um caldeirão borbulhante, alimentado por bruxas à la Macbeth. Um velho necromante, vestindo um robe largo e um chapéu pontudo, entra em cena. Ele começa os seus encantamentos, quando hostes de demônios aparecem e dançam ao redor do caldeirão. De repente, entre o clangor de um trovão e o brilho de um raio, a caverna se transforma em um escritório do século XX, arrumando para uma sessão de conjuração. O decrépito feiticieiro se transforma em um cavalheiro em roupas noturnas – Sr. Fox – que começa seu entretenimento atualizado de magia moderna. Isso não é algo brilhante?

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Imro Fox vestido de Necromante / Alquimista

Imro faleceu em 1910 em Nova York, por um capricho do destino, no saguão de um hotel. Após a primeira apresentação daquela noite, Imro foi desça Sar em seu quarto, quando sentiu um mal súbito. Ele desceu correndo até o saguão à  procura de ajuda, mas está não chegou a tempo. Imro faleceu naquele mesmo dia 04 de março. Curiosamente sua carreira começou – e terminou – em um hotel. Apesar da carreira relativamente curta, Imro foi querido por todos. Certamente, se questionado, diria em seu inglês carregado, que estava indo descobrir, afinal, se o céu era mesmo como a sua careca.

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NOTAS

[1] A piada foi adaptada para ter algum sentido em português. No original: “Why is my head like Heaven? Because there is no parting there!

[2] A data de nascimento, bem como o ano de migração de Imro não é unânime. A maioria das fontes aponta para a data mencionada no artigo. O periódico “The Crest Magician” de fevereiro de 1908, aponta 5 de maio de 1862 como a data de nascimento de Imro, bem como sua migração para a América ao 11 anos de idade, e não aos 17. Já o periódico “Magic” de Ellis Stanion, de maio de 1902, traz a data de 21 de maio de 1852 como a data de nascimento de Imro, e diz que ele migrou para a América em 1874.

[3] Infelizmente não encontrei os filmes na internet.

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BIBLIOGRAFIA

Periódico: “Magic” de Ellis Stanyon – Vol. II, n. 08, maio de 1902;

Periódico: “Mahatma” – Vol. I, n. 03, maio de 1895;

Periódico: “The Crest Magician” – Vol. I, n. 04, fevereiro de 1908.

Periódico: The Open Court, a Monthly Magazine – Vol 19, n. 08, julho de 1905;

NOTAS SUL-AMERICANAS

Este é um ensaio escrito por Leslie Briant para a revista “The Sphinx” de 1961, há mais de 65 anos, portanto. Tristemente ele continua muito atual.

As imagens não se encontram no artigo original, e foram adicionadas meramente como ilustração.

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NOTAS SUL AMERICANAS

por E. Leslie Briant

Briant era um cidadão britânico que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e era correspondente da “The Sphynx” naquele país.

Para a ocasião da edição do 50 º aniversário da “Sphynx” ele escreveu este texto, oferecendo a oportunidade de uma retrospectiva mágica sobre o progresso da arte nos países sul-americanos.

No que diz respeito à América do Sul, os últimos cinquenta anos (dos quais o escritor tem esteve pessoalmente familiarizado com a magia por estas bandas por quarenta anos) não mostraram qualquer melhoria substancial. Com isso não deduzo que os truques de hoje sejam os mesmos da virada do século XXI. O que eu afirmo – e o faço enfaticamente – é que a América do Sul em geral, e a República Argentina em particular, não fizeram nenhuma contribuição excepcional para o progresso da magia. Que há um número de executantes individuais que são mágicos eficientes e capazes, eu serei o primeiro a admitir; mas eu desafio qualquer um a nomear um mágico argentino famoso – ou mesmo conhecido – além dos limites do Rio da Prata. E quantos dos efeitos foram lançado pelos “dealers” nos últimos cinquenta anos emanaram da inventividade dos bruxos sul-americanos? Que livros sobre magia foram escritos por autores sul-americanos? Existem revistas mágicas?

A resposta a essas perguntas pode muito bem presumir um pessimismo em relação à magia, algo que está longe da minha intenção. É bom, porém, encarar os fatos e admitir que a magia nestes países segue submissamente a tendência dos países de língua inglesa, isto é, dos Estados Unidos e da Inglaterra. O número de assinantes da imprensa mágica de língua inglesa, nessas terras onde não se fala inglês, é surpreendentemente grande. Catálogos de todos os “dealers” podem ser encontrados nas coleções de mil-e-um entusiastas mágicos. Deduz-se, portanto, que a magia realizada na América do Sul emula necessariamente à dos países de onde vêm essas revistas e catálogos. A América do Sul sempre será um passageiro no vagão da mágica, e nunca o condutor na locomotiva.

Uma razão para isso poderia ser encontrada na atitude do público para com a magia e os mágicos – e aqui eu gostaria de acrescentar que me refiro ao artista local, e não ao ilusionista profissional em turnê pelo mundo, do qual tratarei mais tarde. O público sul-americano de teatro considera o ofício do mágico como um entretenimento de natureza de classe baixa. Isto é, sem dúvida, em função da falta de algum artista que ele possa classificar como pertencente ao primeiro escalão da mágica; e até que tal artista emerja a magia irá manter o seu baixo nível de atração pública. Outra razão, e possivelmente mais pungente, é a falta de originalidade. Todos fazem os mesmos truques, usam o mesmo “patter“, imitam os mesmos maneirismos, roubam as mesmas “gags“, os mesmos cartazes e até as propagandas. Até que uma mudança radical ocorra na mente do mágico nativo, a magia permanecerá este mesmo tempo no marasmo.

Tanto para o expoente local da arte mágica

Olhando para a magia em um sentido mais internacional, é surpreendente observar o número grande e crescente de artistas profissionais que fizeram uma turnê pela América do Sul durante o último meio século. Todos em busca do “ouro dos incas” que supostamente pavimentaria as ruas deste romântico continente. Poucos, entretanto, viram, de fato, o brilho dele e a maioria deixou estas terras de volta para casa, como mágicos mais sábios – e mais abatidos – do que quando, esperançosamente, chegaram. Aqueles poucos que obtiveram sucesso com suas apresentações atualizadas, roteiro bem apresentado e propaganda adequada, atravessaram o redemoinho, mas seu número pode ser contados nos dedos de uma mão.

Um breve, mas necessariamente incompleto, levantamento de ilusionistas estrangeiros que fizeram uma turnê pela América do Sul durante os últimos 50 anos pode ser de interesse. Minha primeira lembrança é a aparição de Le Roy, Talma e Bosco no ano de 1913 na cidade de Rosário em Santa Fé. Foi-me dito que por volta de 1908 Dean Powell esteve por aqui, mas isso foi antes do meu tempo aqui. Eu já tinha visto Servais Le Roy na Inglaterra na minha juventude, mas desta vez ele se uniu com Talma (a Rainha das Moedas) e Bosco (o Mágico Comediante). Eu não me lembro, após um lapso de tempo tão grande, de todo o seu programa; mas eu me lembro de Le Roy desaparecendo do palco e reaparecendo como o regente da orquestra. E eu acredito que foi Bosco quem usou o que naqueles dias chamou de uma piada corrente, na forma de um canil mecânico do qual um cachorro saltava latindo cada vez que Bosco assobiava. Alguns anos mais tarde, e na mesma cidade, conheci Maurice (o Grande) Raymond que apresentou-se no Teatro Colón em 1916. Este famoso artista apareceu completamente renovado em sua segunda visita à Argentina em 1927. Esta última turnê, no entanto, foi um desastre financeiro. Raymond era um homem encantador, com o porte de um diplomata, e eu estava em meu caráter de correspondente especial de um jornal de Buenos Aires quando entrevistei Raymond. Descobri que, na verdade, Raymond me entrevistou e me deu uma dissertação sobre os efeitos do excesso de comer e como isso era propício para pegar resfriados, um tema que não fez nenhum bem à minha reputação para com o meu editor.

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Teatro Colón, em Rosário, província de Santa Fé.


Em 1919, tive o prazer de conhecer Carter, o Grande, em Montevidéu (Uruguai), onde eu estava, então à época, envolvido em negócios. Ele estava se apresentando Teatro Solis com “A Noiva do Leão”. Lembro-me, de uma discussão mágica regada à café. Ele esforçou-se por enfatizar que essa ilusão era inteiramente criação própria sua e era apresentada unicamente por ele. Carter, porém, ficou consideravelmente desconcertado ao descobrir que, no Uruguai, um mágico amador pouco conhecido pôde lhe dizer que o Grande Lafayette era o verdadeiro inventor desta ilusão e que havia apresentado “A Noiva do Leão” na Inglaterra antes de 1910.

No meu retorno à República Argentina, em 1924, senti-me muito honrado ao encontrar-me com Okito, a quem eu já tinha visto anteriormente num show de 30 minutos. Ele estava se apresentando no Teatro Casino, sendo sua assistente principal Marie Dean, a quem Okito veio a desposar em 1949 e que, infelizmente, faleceu no ano passado. Okito, naquela época, apresentava “O Tapete Mágico” como um estupendo fechamento de seu ato (um número que, aliás, ainda está sendo usado por seu famoso filho Fu Manchú). E esta parte da minha retrospectiva me leva ao advento de David T. Bamberg para o firmamento teatral sul-americano. David chegou pela primeira vez em 1926 como um artista convidado de Raymond com quem tinha feito uma excursão por Portugal e Brasil. As dificuldades financeiras determinaram o abandono da viagem e a dispersão do pessoal. O jovem mago, o filho de Okito, tinha apenas 23 anos à época, encontrou-se em Buenos Aires com uma jovem esposa, um filho bebê chamado Bobbie, sem perspectivas e sem dinheiro. Apresentando-se como Syko (um nome dado por Houdini), ele conseguiu sustentar-se com pequenas performances de mágica e um show de sombras, até que um investidor, que conseguiu ver além da superfície, financiou-o com a proposta da construção do primeiro show de Fu Manchú. A partir de então, a sorte sorriu para David e, durante 25 anos, o nome de Fu Manchú foi um chamariz na América do Sul – um dos poucos que fizeram fortuna. Considero um dos maiores privilégios da minha vida mágica conhecer David intimamente durante um quarto de século, em seus bons e nos maus momentos, e ter seguido a sua carreira profissional desde a obscuridade comparativa até à eminência mundial – um merecido tributo a sua determinação, sua habilidade e seu gênio.

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Cartaz do show de Fu Manchu (1940)

Por volta de 1930, o falecido Lingha Singh apareceu na cena com seu “Truque da Corda do Leste da Índia” (à propósito, foi-me relatado que tanto o segredo quanto o “gimmick“foram enterrados com ele). Ele era uma personalidade colorida com uma grande quantidade de belos equipamentos. Um par de anos mais tarde, Dante com seu espetacular show “Sim Sala Bim” fez história com o registro de uma temporada de 90 dias no Teatro Casino. Embora Raymond tivesse apresentado previamente a ilusão de “Serrar a Mulher ao Meio” usando a versão de Horace Goldin, foi Dante quem elevou isso a outro patamar de popularidade com o seu aparelho amplamente aprimorado. Aliás, foi sobre essa ilusão – e com a ajuda de uma ceia de lagosta às 3 da manhã no Hotel Baviera, em Rosário de Santa Fé – que discuti o “modus operandi” com Dante. Mais tarde, mostrei-lhe o meu esboço de impressão de como o efeito foi alcançado, o que ele negou, mas que anos depois provou ser correto.

Outro artista popular que apresenta o seu show à moda chinesa é Chang, anteriormente Li-Ho-Chang, que nos últimos 40 anos excursionou por todo o mundo. O continente favorito de Chang, no entanto, é a América do Sul, onde o seu delicioso uso indevido da língua espanhola fez com que atraísse um vasto público ao teatro. O show de Chang é um espetáculo de grandes ilusões, belos roupões chineses, cenários sempre mudando e belas dançarinas. Chang conta com inúmeros amigos em Buenos Aires e em outras cidades do continente meridional, e estou orgulhoso de ser contado entre eles com uma amizade que já dura muitos anos.

Richiardi Jr. filho do Grande Richiardi, assumiu o show de ilusão após a morte de seu ilustre pai. Ele é um peruano de nascimento, mas inteiramente cosmopolita dada suas viagens, perspectivas e línguas: muitas vezes, ele foi tomado por um norte-americano. Richiardi Jr., que se considera o “mágico mais jovem do mundo”, se afastou do caminho já trilhado ao apresentar “Musical Magic“, combinando a sua agradável voz de cantor com sua indiscutível habilidade de “showmanship” e presença no palco. Ele é um dos preferidos do público em geral em toda a América do Sul e, recentemente, passou por uma temporada em Nova York.

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Cartaz do show de Richiardi Jr. (1950)

Um número de estrelas menores na constelação mágica têm se apresentado na República Argentina durante excursões sul-americanas uma vez que, os cine-teatros têm incorporado números de variedade após os filmes. Entre outros, eu me recordo ao longo dos anos de: Lewis Davenport (com o colete que muda de cor, rotina de dedal e caixa de ampliação); Rudi (um artista italiano que apresentou um show de manipulação, além de magia de proximidade); Maieroni (outro ilusionista italiano com um show mais pretensioso); Steens (um escapologista holandês que executava a fuga da guilhotina); Cantarelli (um brasileiro-alemão com o uma serra elétrica); Baron von Rheinhardt (agora Barnum, com uma pequena réplica do show de Dante); Chefalo (o mago italiano com um show noturno completo exibindo seus gigantes e anões); e Richardini (agora fora do “show business”).

Percebe-se que o que prediz um mago bem sucedido na América do Sul é aquele que possui um show noturno completo, dinheiro, bom equipamento, com mais do que uma parte justa de habilidade e um senso teatral. Não é o artista manipulador e de “sleight-of-hand“. De fato, em toda a minha experiência, só encontrei um do último tipo que conseguiu pesar o outro lado da balança após uma turnê sul-americana, e foi Max Malini. Malini, admito, estava sozinho em sua turnê e trabalhou nos clubes e sociedades da mais alta classe. Tal era a sua natureza que eu duvido que Malini tenha levado muito do “ouro inca”. Ele estava nesses países com seu filho na mesma época em que Fu Manchú estava entrando em seu grande momento, como estava ao redor de uma garrafa de uísque que Malini deu a David e ao escritor de uma sessão privada de magia de close-up em uma grande cidade da República Argentina em algum dia por volta de 1930. Malini exibiu uma técnica maravilhosa com um incrível domínio de “misdirections” e a sua reputação, assim como a de Houdini, foi feita fora do teatro, mais do que ele fez em seus shows públicos.

Portanto, enquanto a América do Sul não fez nenhuma contribuição específica para o avanço da arte mágica nos últimos 50 anos, mesmo assim ela progrediu no sentido de que há um interesse crescente, engendrado pelas visitas de ilusionistas mundialmente famosos, e de manipuladores expoentes, e é a esperança sincera deste escritor de que, quando ele relatar novamente acerca do assunto para a edição centenária de “The Sphynx“, ainda mais progresso ele irá manifestar.

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

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1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

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2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

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3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

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4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

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5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

– Æ –

5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

PÔSTERES ANTIGOS

Pesquisando pela internet achei alguns pôsteres antigos de mágicos que contam um pouco da história desta bela arte e mais do que isso, nos mostram um pouco da nossa realidade hoje como mágicos.

Lembrando que basta clicar sobre a imagem para ampliá-la.

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O SHOW MAIS ANTIGO

Esse é o cartaz de show de mágica mais antigo que se tem registro, de 1840 (eu pelo menos não achei outro mais antigo, se alguém souber, avise).

Título do cartaz:Professor Cummings, the celebrated magician, vocalist, and comedian!!

Características:  Litografia; p&b;  57 x 24 cm.

Ano: 1840.

Autor: ??

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HÁ 100 ANOS ATRÁS

Há exatamente um século atrás estes eram alguns dos shows em cartaz:

Título:Richards, the world’s greatest magician and his big company the biggest stage show of the entire season

Características: Litografia; p&b; 46 x 20 cm

Ano: 1911.

Autor: ??

Título do cartaz:Newmann’s wonderful spirit mysteries

Características: Litografia; colorida; 77 x 56 cm

Ano: 1911

Autor: Donaldson Litho. Co.

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NOVIDADE?

Todos devem lembrar da euforia que foi Paulo de Barros e suas “cabeças que caiam” no Desfile das Escolas de Samba no carnaval desse ano. O que poucos sabe é que esse número já existia há pelo menos 103 anos e era apresentado por ninguém menos do que Kellar.

 Título do cartaz: “Kellar in his latest mystery

Características: Litografia; colorida; 73 x 48 cm

Ano: 1898

Autor: Strobridge Lith. Co.

OBS: Esse cartaz tem duas versões. Esta de 1898 onde a cabeça olha para o corpo e outra de 1897 onde a cabeça olha para o mesmo lado que o corpo está virado.

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 O ANTECESSOR DE PENN & TELLER

Nesse cartaz de 1909, Houdini anuncia que irá expor os charlatões (no melhor estilo “Fool Us” do Penn & Teller).

 Título do cartaz:Do spirits return? Houdini says no – and proves it 3 shows in one : magic – illusions – escapes = fraud mediums exposed.

Características: Litografia; colorida; 40 x 71 cm

Ano: 1909

Autor: ??

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O ASTRO

É provável que a inspiração do personagem Herculano Quintanilha, personagem central da novela “O Astro” tenha vindo do mentalista Alexander:

 Título do cartaz: “Alexander the man who knows

Características: Litografia; colorida; 56 x 34 cm

Ano: 19??

Autor: ??

Título do cartaz: “Alexander, crystal seer knows, sees, tells all

Características: Litografia; colorida; 105 x 40 cm

Ano: 1910

Autor: ??

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Essa é a prova de que, não há nada hoje, no mundo da mágica, que já não tenha sido visto há pelo menos um século atrás.

Amplexos!

CONTAGEM ELMSLEY OU “EDWARD VICTOR”?

Alguma vez na vida, todo o mágico já executou uma contagem Elmsley. O nome desse famoso passe recebeu esse nome em homenagem a Alex Elmsley, criador da técnica.

Mas, o que pouquíssima gente sabe é que na realidade a contagem “quatro como quatro”, é uma variação de um outro passe, fruto da originalidade de um mágico chamado Edward Victor, criador do passe.

Experimente perguntar aos seus amigos cartomagos e muitos dirão que jamais ouviram falar de tal nome. Não que tenham a obrigação de conhecê-lo. Porém, a história deu poucos créditos àquele que desenvolveu a contagem Elmsley. Pois neste post, vamos não só apresentar este mágico, como também dar os devidos créditos a Victor.

Porém é preciso destacar que a contribuição de Alex Elmsley foi importante e não quero aqui acusá-lo de plágio ou coisa que o valha. O certo é que o crédito a Edward Victor tem sido nulo e passa quase que despercebido na maioria das publicações, escritas ou em vídeo, sobre este passe.

Como escrevi, não almejo atacar a pessoa ou a ética de Alex Elmsley. Apenas resgatar a figura do mágico Edward Victro, sem o qual, possivelmente talvez não conheceríamos a contagem “quatro como quatro”.

A CONTAGEM  ELMSLEY

Em 1959, foi publicada pela primeira vez, por Alex Elmsley um efeito conhecido como “A Mágica das Quatro Cartas”.

A contagem “quatro como quatro” é descrita na página 173 do livro “Ultimate Secrets of Card Magic“, na mágica “Uma Variante de Vernon”, onde O Professor se frefere a esse passe como uma engenhosa adaptação de Elmsley de um movimento originado por Edward Victor em seu efeito conhecido com “E-Y-E”.

A contagem é explicada em detalhes na página 5 do livro “More Inner Secrets os Card Magic“, na mágica “Vernon Girando os Ases (Twisting the Aces).

MAS E QUEM FOI EDWARD VICTOR?

Clique na imagem para ampliar
Edward Victor

Edward Victor nasceu em 1887 na Inglaterra com o nome Edward Victor Neuschwander. Excelente manipulador, autor de vários livros sobre o tema, e um manipulador de sombras chinesas único em seu tempo.

Inventou a mágica “Os Lenços Simpáticos” e era famoso por algumas de suas rotinas como: “As Cartas Diminuintes”, “As Onze Cartas”, mágicas com cordas, etc. Também é dele uma rotina muito famosa chamada “20 Efeitos em uma Caixa de Fósforos”.

Ele escreveu os seguintes livros:

  • Magic of the Hand” (1937)
  • More Magic of the Hands” (1938)
  • Further Magic of the Hands” (1946)

Livros de Edward Victor

Em 2004 a “Dove Publications” publicou o livro “Classic Card Tricks”, onde algumas mágicas de Edward foram publicadas.

Edward Victor se apresentou nos mais importantes teatros da Europa, e fez uma grande turnê pela África do Sul, tendo trabalhado durante quatro anos para Maskelyne no St. George’s Hall em Londres. Foi membro do Círculo Mágico, tendo alcançado o status de “Inner Magic Circle” (M.I.M.C.) e por mais de trinta anos atuou como presidente da Merlin Magical Society. Também foi o primeiro presidente honorário vitalício do Blackpool Magicians’ Club.

Victor faleceu em 17 de abril de 1964.

O EFEITO “E-Y-E”

Este efeito criado por Edward, consistia em 3 cartas com as letras “E”, “Y” e “E”, daí o seu nome, com as quais o mágico criava uma série de efeitos surpreendentes. Dizia a propaganda da Revista Genii de 1955:

O Efeito “”E-Y-E”

São usadas apenas 3 cartas sen truques e que podem ser dadas a exame quando os espectadores desejarem.

Podem ser realizados grandes efeitos de “close-up” e deslumbrar durante quinze minutos com as carta sem suas mãos. As 3 cartas são dispostas formando a palavra “EYE” [olho em inglês].

Abrindo um leque e com os dorsos voltados para cima, se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas o público nunca acertará, retirando sempre a letra “E”.

Explicando que a mão é mais rápida que o “olho”, o mágico mostra claramente que agora tem em suas mãos 3 cartas com a letra “E”.

Mostra novamente as cartas, e se observa que agora as 3 possuem estampada a letra “Y”.

Duas delas se transformam visivelmente em letras “E”, formando como no princípio, a palavra “EYE”. Uma das cartas “E” se separa e se deixa sobre a mesa.

Das duas restantes (“E” e “Y”) se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas falha novamente por que as duas cartas tem estampada a letra “E”, já que carta separada anteriormente era o “Y”!

Mudando a impressão das letras mencionadas (“E”, “Y”, “E”) por outras ou então usando cartas personalizadas, você poderá criar rotinas diferentes com o mesmo princípio.

O preço deste efeito? US$ 1,00!”

Na Inglaterra, Ken Brooke comercializou a mágica “E-Y-E” e alguns anos mais tarde apenas foi que a conatgem Elmsley começou a ser conhecida.

Karl Fulves no volume 2 de seu livro “Methods with Cards” também menciona a mágica “E-Y-E” como fonte da contagem.

E esta é a origem da famosa e sempre útil contagem Elmsley ou “quatro como quatro”.

Amplexos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Victor

http://geniimagazine.com/wiki/index.php?title=Edward_Victor

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/11/cuenta-elmsley-y-el-credito-para-edward.html

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormoremagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victorfurthermagichands.htm