ALEXANDER, O HOMEM QUE SABE

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Cartaz de cromolitografia de Alexander. Impresso entre 1915 e 1924.

Claude Alexander Conlin é o nome por trás daquele talvez seja o mais icônico dos pôsteres de mágica do comço do século XX.

Nascido em 1880 na Carolina do Sul, Alexander Enveredou cedo pelo caminho artístico. Aos 25 estreiou usando o seu famoso nome “Alexander”, tornando-se um dos mais famosos artistas de sua época.

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Claude Alexander Conlin (1915)

Curiosamente, Alexander tinha uma vida dupla. De um lado, publicou um livro chamado “The life and mysteries of the celebrated Dr. Q“, no qual, expunha o segredo de diversos efeitos psíquicos e de mentalismo.

De outro lado, não descartava a possibilidade de que tais mistérios fossem reais, chegando a publica uma série em 5 volumes chamada “The inner secrets of psychology“, um material de claro viés astrológico e pró-espiritualista.

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Livro em que Alexander ensina a ler bolas de cristais

Escreveu ainda um livro em que ensinava segredos da divinação através da bola de cristal – curiosamente um dos aparatos de seu show. Ele também fazia leituras espirituais em sessões particulares. Obviamente, recebia por isso.

Acreditasse ele ou não em seus poderes divinatórios, o fato é que esse jogo duplo funcionou, e Alexander chegou ter uma fortuna somada de US$ 3 milhões. Muito dinheiro hoje, e, certamente, ainda mais nos anos 1920.

Após sua aposentadoria, Alexander passou a vender os cartazes não utilizados de seus shows, além de muitos de seus aparelhos. O mágico Leon Mandrake comprou boa parte do material de Alexander e chegou a excursionar pelos EUA com o nome Alexander, a fim de aproveitar o material.

CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

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2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

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3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

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4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

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5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.

A MORTE E OS ESPÍRITOS

Publicado em “O Estado de São Paulo” em 28 de janeiro de 1909. A grafia original da época foi mantida.

Os espiritistas inglezes, de algum tempo a esta parte, têm caída um tanto no ridículo. Contam nas suas fileiras homens de sciencia tão eminetes como sir William Crookes, sir Oliver Lodge, o dr. Russel-Wallace; literatos tão populares como Stead; ecclesiásticos tão respeitado como os ministros protestantes Coley e Brock. Estes dois ultimos tratavam de realisar as experiencias mais concludentes. Stead publicava-as nos grandes “magazines” inglezes, os sabios tratavam de lhe dar uma explicação scientifico-espiritista e a coisa ia de vento em pôpa.

Agóra, porém, tudo desandou. Não ha muito, Coley apresentou diante de seu auditorio, num salão que estava quasi ás escuras, um espirito visivel; mas saiu-lhe ao encontro o materialista Markelyne, o grande prestidigitador de Saint Georges Hall, que ganhou uma fortuna repetindo por meio de processos matereaes os suppostos phenomenos provocados pelos espiritistas – e comprometteu-se a pagar a Coley 1.000 libras esterlinas se não conseguisse – elle, Markelyne – repetir a operação.

Antes da experiencia realisou-se um torneo oratorio, em que tomaram parte Wallace e Lodge, para demostrar que Markelyne não poderia repetir o “effeito” de Coley, e zás! Markelyne repetiu-o.

Para fazer esquecer esta primeira decepção publicou o ministro, em uma revista, a reprodução dos retratos que acabava de obter dos seus defuntos paes.

Todos quantos tinham conhecido os dois anceãos, reconheceram-nos perfeitamente. Se se podiam retrar os espiritos era porque existiam.

O director da revista “John Bull”, o deputado radical de Londres Horacio Bottamley, publicou, porém, no seu popular periodico, a nota seguinte:

“Aposto 1.000 libras esterlinas; que serão entregues a um hospital, em como Coley não retrata os espiritos de seus paes nem de pessôa alguma, com a única condição de que dois photographos experiemntados, escolhidos por mim, presencearão a operação. Se Coley não aceita o repto declaro desde já que é um louco e um embusteiro”.

Apesar do caracter especialissimo deste repto, Coley não se atreveu a apanhar a luva; segundo descalabro.

Mas agóra parece que chegou a hora do despique.

O ministro protestante Brook, colega de Coley, assegurou que lhe tinham apparecido, a elle e a mais quatro pessôas os espiritos do dr. Astley e de sua esposa, fallecidos na catastrophe ferro viaria ocorrida na Argelia, no dia 19 do mez de dezembro de 1908.

Todos os diarios, incluindo o “Times”, eviaram um de seus redactores para entrevistar o ministro e às outras testemunhas desta apparição ultra-tumular. Todas as declarações foram concretas, terminantes.

Não podia haver duvidas. A victoria dos espiritistas era completa.

Eis aqui o telegramma que o correspondente do “Times” em Argel enviou ao diário da City:

“O dr. Astley e sua, esposa não morreram, como se julgava; estão ambos no hospital de Argel, gravemente feridos”. Eis aqui o telegramma que o próprio dr. Astley dirigiu a sua sogra: “Ambos livres de perigo, embóra talvez eu tenha que sofrer a amputação de uma perna”.

Um morto que telegrapha!… O espiritismo acaba de receber um golpe terrivel, não ha duvida; mas é de crêr que tudo isso se explique, para, depois, ser de novo contestado e assim por diante…

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ALGUMAS IMAGENS

As imagens abaixo não constam na notícia original.

Mágico Maskelyne, o materialista que desmascarava falsos médiuns
Mágico Maskelyne, o materialista que desmascarava falsos médiuns
Reverendo Cooley, desmascarado por Maskelyne.
Reverendo Colley, desmascarado por Maskelyne.
Bottomley, editor da revista "John Bull" que desafiu os falsos médiuns ingleses.
Bottomley, editor da revista “John Bull” que desafiu os falsos médiuns ingleses.

SEUS OLHOS PODEM REVELAR O NÚMERO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

Artigo publicado na revista Current Biology

Apesar da aparente simplicidade em se escolher um número aleatório, é praticamente impossível produzir uma sequência de números realmente aleatórios. Ainda que os números surjam, aparentemente de forma espontânea na mente de alguém, sua escolha sempre será influenciada por números gerados anteriormente.

Vemos aqui como os olhos e sua posição nos dão uma ideia do tipo de decisão sistemática feitas pelo “gerador de números aleatórios do cérebro”. Ao medir a posição vertical e horizontal do olho de uma pessoa, somos capazes de predizer com precisão o “tamanho” do número escolhido pelo espectador, antes mesmo que ele o diga em alta voz.

Podemos dizer seguramente que uma mudança para a esquerda e para baixo dos olhos prediz que o número seguinte será menos que o anterior. Da mesma forma, se os olhos mudam de posição para a direita e para cima, prevemos que o próximo número será maior. Este fato, além de apoiar o conceito popular de que os olhos delatam a mente, os resultados atestam os vínculos complexos entre os processos de pensamento abstrato, as ações do corpo e o mundo que nos cerca.

(A) O gráfico em barra mostra a acuidade horizontal e vertical da posição dos olhos quando um indivíduo escolhe um número maior ou menor do que o número predito.(B, C) mudanças na posição dos olhos (dados agrupados) em função da mudança da magnitude do número (número aleatório gerado em tentaivas 'n+1' menos o número gerado na tentaiva 'n'). (B) Mediana das variações de posição horizontal; (C) Mediana das variações verticais de posição.

(Clique na imagem para ampliá-la)

Os sujeitos nomearam 40 números aleatórios compreendidos entre 1 e 30. As mudanças na posição ocular destes individuos indicavam, não apenas a mudança para mais ou para menos dos números gerados, mas também quão maior, ou menor, era essa mudança.

O ponto mais interessante desta pesquisa, ao meu ver, é demonstrar como a representação dos processos mentais. Em um trecho deste trabalho, os autores escrevem:

Uma influente teoria – a ‘teoria da magnitude’ – considera a informção coordenada em um ‘número-espaço’ como sendo apenas uma das instâncias de magnitude dentro de sistema métrico único, unificando uma ampla gama de unidades que vão desde a extensão espacial até duração temporal. É postulado que este sistema de magnitude geral é mediado pela estrutura parietal inferior do cérebro e que codifica informações usada nas ações. Esta hipóstese prediz com sucesso interações entre números e movimentos direcionados da mão. Por exemplo, revelar números grandes ou pequenos alteram a força com que alguém fecha a mão (respectivamente mais forte ou mais fraco) quando essa pessoa está, por exemplo, negociando”.

COMENTO:

Essa pesquisa é deveras interessante, porém não significa que somos capazes de “ler os pensamentos alheios”. Segundo os gráficos demonstrados, a precisão de uma previsão ficaria, na melhor das hipóteses em torno dos 75% . No mais, o tempo de reação do olho é de meio segundo, ou seja, da teoria para a prática, há ainda um longo caminho. Por isso, a maneira mais fácil ainda de se prever um número é usando um “force“.

Mas o mérito é mostrar como um bom mentalista precisa saber ler os sinais enviados pelo espectador.

Amplexos!

FONTES

Artigo completo (em inglês. Requer conhecimento de termos técnicos)

Current Biology