MULHERES SERRADAS E PROCESSOS JUDICIAIS: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAIS FAMOSA ILUSÃO JÁ CRIADA

“Serrar uma mulher ao meio é fácil. Serrar uma mulher ao meio e grudá-la novamente é um pouco menos fácil, mas pode ser feito com alguma prática.”

Douglas Adams – Agência de Investigação Holística Dirk Gentley

– Æ –

Por muitos anos o truque de serrar a assistente foi um “must have” em shows de mágica. Oficialmente esta ilusão foi apresentada ao público pela primeira vez em janeiro de 1921 por PT Selbit, em Londres. Na verdade, em dezembro de 1920 houve uma prévia para alguns agente teatrais no St. George Hall. Todos adoraram a ilusão que acabou sendo melhorada até chegarmos à versões modernas, como o clássico de David Copperfield. Fim da história, certo?

Seria, se você estivesse na Wikipedia ou lendo algum artigo ruim cujas fontes não são checadas e mesmo assim são replicadas mil vezes por aí. Este é um truque cercado de histórias e que por si só seria o suficente para contar toda a história da indústria da mágica no século XX. Neste artigo, também será corrigido um erro histórico, que nenhuma outra fonte aberta se preocupou em verificar.

– Æ –

O conceito de separar as partes do corpo de um ser vivo, e restaurá-lo é antigo. Talvez o mais antigo conceito de mágica conhecido. Dedi já havia ficado famoso por separar a cabeça de um ganso e depois ligá-la de novo, sem causar danos ao animal. Mas, justiça, seja feita. Dedi se recusou a fazer este truque com uma pessoa. Séculos mais tarde, alguns livros apresentaram uma ilusão em que um corpo sem cabeça ficava sobre uma mesa, e uma cabeça – supostamente do corpo ao lado – conversava e interagia com a plateia. A ideia, portanto, de cortar alguém ao meio (ou decapitá-la), e mantê-la viva, não era exatamente uma ideia nova no mundo do ilusionismo.

hopknis decapited
Decapitação, (que alguns chamavam de “João Batista”). Este efeito citado por Albert Hopkins foi um dos predecessores do efeito de serrar a mulher ao meio.

Diversas fontes consultadas citam que o primeiro registro de uma versão moderna desse truque foi descrita Robert-Houdin em suas memórias, em que ele cita o mágico Torrini que teria executado este efeito em 1809 para o Papa Pio VII. Contudo, este é um erro bastante grotesco. Estas fontes se basearam em um artigo da “American Heritage” (Inverno de 1994, Volume 9, nº 3) de autoria de Gary Brown. Wikipedia, Magipedia, e até alguns livros, usaram essa citação, sem se dar ao trabalho de conferir diretamente na fonte, o livro de Robert-Houdin.

Sim, Torrini se apresentou para o Papa, mas não executou a ilusão de serrar alguém ao meio (menos ainda uma mulher). Aliás sequer a pessoa era serrada ao meio. Para o pontífice Torrini executou diversos outros truques de manipulação, incluindo um especialmente desenhado para aquele evento [1].

O protótipo da ilusão de serrar alguém ao meio foi, na verdade, apresentado por Torrini para o sultão Selim III em Constantinopla, capital do Império Otomano (Robert-Houdin, “Memoirs“, cap. VII, pg. 85 a 87). Torrini pediu que dois escravos trouxessem um baú retangular e dois cavaletes utilizados para serrar madeira. Os escravos colocaram Antônio, o assistente de Torrini, dentro do caixão e pregaram a tampa. Até este momento consta que sequer o pobre Antônio sabia o que se sucederia com ele.

Torrini começou a cortar o baú quando ouviu os gritos de pavor da esposa do Sultão. Tranquilamente Torrini parou o que estava fazendo e disse a todos que não se preocupassem. Longe de sentir dor, seu assistente sentiria apenas “as mais maravilhosas sensações”. Então, seguiu cortando o baú, agora, envolto em silêncio e tensão.

Findado o corte, Torrini levantou as duas metades verticalmente, cobriu ambas com um cone de vime e este, por sua vez, com um pano preto estampado com diversos simbolos cabalísticos prateados. Foi então que Torrini começou a citar seus encantamentos e logo duas vozes distintas puderam ser ouvidas de dentro dos baús. Ao revelar o que sucedia, dois “Antônios” gêmeos e vestidos iguais, saíram de dentro dos baús, cada um de uma das metades, e os dois cumprimentaram respeitosamente o Sultão e a sua família.

Exceto pelo final em que, ao invés de dividir uma pessoa, Torrini multiplicou-a, todos os elementos clássicos do truque foram regiamente descritos por Robert-Houdin. Assim, corrigindo a informação da revista American Heritage, a primeira apresentação desse efeito não foi para o Papa, tampouco foi em 1809, mas, pelo menos, um ano antes na Turquia, para o sultão Selim III. Ah, e a pessoa não foi dividida ao meio, mas sim, multiplicada.

– Æ –

Voltando ao assunto, embora Jim Steinmeyer questione a existência de Torrini (segundo ele, Torrini não passaria de um alter-ego do Robert-Houdin, no qual ele expunha seus planos e ideias), esta história prova que o conceito-base do truque já existia muito antes de Selbit. Steinmeyer cita também o livro de Albert Hopkins “Magic” em que é citado uma ilusão cômica performada por uma trupe de acrobatas/clowns chamada “Hanlon Lee Brothers”. Escreve Hopkins:

Um palhaço se joga em um sofá e é cortado ao meio por um arlequim. Uma parte do sofá, com o corpo, permanece em uma parte do palco enquanto a outra parte com as pernas e pés (os quais estão chutando vigorosamente) é levado embora pelo outro lado do palco. A  ação toda é muito rápida e o efeito surpreendente.

Albert Hopkins em “Magic: Stage Illusions and Scientific Diversions“, 1897, p. 50

Hanlon-lees
Hanlon Lee Brothers

Tanto o livro de Robert-Houdin, quanto o de Hopkins, eram conhecidos pelos principais mágicos da época. Logo, não é arriscado dizer que a ideia de Selbit não veio “do nada”; ele bebeu de fontes que o inspiraram.

O fato é que a mágica de palco naquela época, era recheada de efeitos de desaparições, transformações, levitações ou um mix desses três. Mesmo a versão de Robert-Houdin não “mutilava” o assistente, mas sim, multiplicava. A maneira como Selbit mutilava a mulher  (em certo sentido, muito mais forte do que uma decapitação) acabou criando toda uma nova categoria de mágica alçando o nome de Selbit como um dos mais importantes do século XX. [2]

– Æ –

Selbit criou o número em seu estúdio, que servia também de apartamento para si. Ali o conceito e o protótipo foram criados. A primeira testemunha ocular desta ilusão foi Fred Culpitt, amigo de Selbit, em um show em seu próprio apartamento. Selbit executou o truque na mesa da cozinha de Fred, serrando a sua assistente Jan Glenrose.

selbitSawing-500x353
Selbit (à esq.) e sua assistente Jan Glenrose, a primeira mulher a ser serrada ao meio.

A versão apresentada por Selbit era, aos olhos modernos, bastante simplória: a mulher entrava em um “caixão” de madeira que ficava na vertical, amarrada. A tampa era fechada e ela ficava completamente escondida do público. Selbit inseria algumas lâminas de metal em duas reentrâncias na caixa: uma na altura do peito da mulher, a outra, nos seus quadris. Então, dois assistentes serravam a caixa. Selbit abria uma pequena fresta no caixão e fazia uma cara preocupada. Após alguns segundos de tensão, ele abria as tampas e a assistente saia ilesa, saudando o público. O processo todo não levava mais do quinze minutos.

P._T._Selbit_sawing_a_woman_in_half_trick
PT Selbit em sua versão original de “Serrando a mulher ao meio”

O número de Selbit despertou a atenção de Maskelyne que também apresentou sua versão do efeito (embora sem o mesmo sucesso que Selbit – vide nota [2]). Selbit licenciou alguns grupos de mágicos – nove no total para que eles excursionassem pela Europa apresentando o seu número.

O estrondoso sucesso do efeito chamou a atenção de outro mágico: Horace Goldin. Como Goldin não podia simplesmente copiar o número, acabou criando um método próprio – e melhorado – para executar este truque. Menos de 6 meses depois da apresentação de Selbit na Inglaterra, Goldin apresentou a sua versão de “Serrar a mulher ao meio” para a “Society of American Magicians” em seu banquete anual no Hotel McAlpin Hotel, Nova York em 03 de junho de 1921.

A versão de Goldin, contudo, não teve uma boa aceitação. O assistente que foi serrado era o mensageiro do hotel, o qual estava visivelmente nervoso e atrapalhado. A caixa, em que o garoto foi serrado era nitidamente grande demais, não sendo assim muito eficaz em causar a ilusão de dano ao assistente. Porém, Howard Thurston, que estava na plateia, viu potencial no truque e propôs uma parceria a Horace Goldin.

Thurston então designou Harry Jansen, um mágico e construtor de aparatos, para aprimorar ainda mais o aparato de Goldin. Jansen diminuiu o tamanho da caixa e permitindo que os pés e a cabeça da assistente ficassem à mostra para o público (a versão “clássica” que se fixou no imaginário popular).

Howard-Thurston-sawing
Howard Thurston apresentando uma versão melhorada da ilusão.

Essa nova versão foi patenteada por Goldin que autorizou – novamente assim como Selbit – autorizou que seis grupos de mágicos excursionassem pelos EUA, sob sua bandeira, apresentando o número em cidades pequenas e feiras itinerantes (um desses mágicos era o belga Servais Le Roy); Goldin, por sua vez, ficara com as cidades grandes, em especial os teatros do circuitos Keith-Orpheum, a maior rede de teatro da época. A patente requerdia por Goldin impediu que qualquer outra versão do truque, que não a de Goldin, fosse apresentada nos EUA, incluindo aí, a versão de Selbit.

Cada um dos mágicos licenciados por Goldin deu o seu toque pessoal ao número, mas o toque de Goldin foi o mais impactante: ele trazia ao palco marceneiros para que atestassem que a caixa realmente estava sendo cortada, e enfermeiras para que socorressem a assistente em caso de acidente. Goldin criou até uma cena em que um grupo de coveiros levava o “caixão” pelas ruas, até o teatro, despertando a curiosidade do público. Em outra cena, Goldin colou em uma ambulância um cartaz escrito “À disposição do teatro, em caso de acidente com serras”.

– Æ –

PT Selbit obviamente acusou o golpe e processou Horace Goldin por plágio. A briga judicial foi grande e tanto Goldin como Selbit colocaram muito dinheiro na disputa (alguns dizem que praticamente todo o dinheiro ganho por eles com este novo truque foi gasto em litígios judiciais).

Goldin, alegava que havia tido uma visão sobre esse efeito ainda em 1906. O grande Leon haveria perguntado a Goldin sobre um efeito de cortar uma mulher ao meio e depois juntar as partes. Goldin mentira a Leon dizendo que ele já possuía direitos sobre um número similar. Após se despedir do amigo, foi para casa e começou imediatamente a trabalhar naquela ideia. Leon logo descobriu a mentira de Goldin e também passou a trabalhar em sua versão do efeito.

Goldin não apresentou a sua versão do efeito, até 1921, meses após a primeira apresentação oficial de Selbit. Steinmeyer menciona o óbvio: “A ideia de Horace Goldin somente surgiu após ele ouvir do sucesso de Selbit”; ainda segundo Steinmeyer: “Goldin alegou que de 1906 a 1921 não foi capaz de encontrar um produtor interessado em investir na ideia do efeito de serrar a mulher. Após uma longa espera (15 anos) decidiu ele mesmo construir e apresentar o efeito.”

Em agosto de 1921, Selbit acusa Goldin de pirataria. Em sua Defesa, Goldin reconta a história: diz que inventou o efeito em 1906, vendeu ele em 1917, passou adiante os esquemas do aparelho em 1919, que acabou fazendo seu próprio aparelho em 1920 e que apenas dois anos antes requereu a patente sobre o aparelho. A resposta de Selbit foi que ele até admitia que duas mentes separadas pudessem ter a mesma ideia, sem que uma soubesse da outra; o que lhe causava estranheza, contudo, era o fato da patente ser inteiramente igual ao modelo criado por Selbit, apresentado ao público apenas 5 meses antes”. O Grande Leon também viria a público declarar que a ideia de Goldin havia sido roubada dele.

Selbit acabou ganhando o primeiro round da disputa em um tribunal federal do Arkansas. Goldin contratacou requerendo uma ordem de restrição, impedindo que que a ilusão de Selbit fosse apresentada na mesma cidade que Horace. Em seguida Horace anexou um cartaz de 1887 em que um mágico inglês chamado “Professor Hengler” apresentara uma ilusão chamada: “Serrando uma mulher em duas”. Este cartaz foi trazido à tona por ninguém menos que Harry Houdini (que, provavelmente, a esta altura, só queria mesmo ver o circo pegar fogo).

O processo ficou parado e nesse interim Harry Jansen já havia melhorado o número o suficiente para se afastar da versão de Selbit. Quando Selbit voltou para a América, em setembro de 1921, descobriu que a versão de Goldin já havia sido patenteada e que ele não poderia impedir a apresentação do rival, pois esta já era diferente da versão inglesa do truque.

Selbit teve ainda que encarar a traição de um de seus assistentes, que vendera o segredo do truque para a Goldwyn Ltda. de Hollywood. Selbit escreveu para o estúdio, ameaçando processá-los caso o apresentassem Como não houve resposta do estúdio, Selbit acabou deixando o caso pra lá. Contudo, em 1923, a Goldwyn e anunciou o lançamento do filme sobre esta ilusão em ambos os lados do Atlântico. Novamente Selbit entrou com um processo pedindo a censura do filme, porém o juiz negou-lhe a causa, alegando que Selbit esperou muito tempo pelo processo, abrindo, assim, mão de seu direito de processar a companhia.

horace goldin sawing woman
Versão de Horace Goldin, considerada legítima, por haver “se afastado o suficiente” da versão de Selbit.

Em novembro de 1921 a planta da ilusão foi publicada em um livro vendido a cinco dólares. O kit completo para realizar o truqe, saia por 175 dólares.

No final das contas, Selbit acabou derrotado no processo, pois o juiz entendeu que a versão de Goldin havia “se afastado o suficiente” da versão original de Selbit, a ponto de poder ser considerado um truque próprio. Além disso, Goldin havia registrado também o nome da ilusão “Serrando a mulher ao meio”, mas também outros nomes igualmente atrativos. Selbit havia sido encurralado pelas manobras legais de Horace Goldin.

Horace apresentou seu número nos EUA com o nome “A mulher dividida ao meio”, mas ele já não era uma novidade em solo americano, além de ser menos “vistoso” que o truque de Goldin. Selbit acabou voltando para a Inglaterra triste e abatido, e com a fama  – ao menos nos EUA – de haver copiado Goldin, mito que perdura ainda hoje.

Contudo, Horace Goldin, não saiu ileso da revelação dos segredos e enfrentou nova batalha jurídica. Em 1930 ele processou a R. J. Reynolds Tobacco Company por usar a ilustração da mulher serrada em um comercial de cigarros. Goldin alegou que a propaganda entregava o segredo do efeito. O juiz negou a causa a Goldin alegando a base do truque já era conhecido de longa data (citando inclusive os livros de Hopkins e de Robert-Houdin). No fim, toda a publicidade criada em cima do efeito, o tornou menos mágico aos olhos do público.

main-qimg-550bc4d99514523e78c996ec1c86c080-c
Propaganda que gerou o processo de Horace Goldin contra a R. J. Reynolds Tobacco Company

Com o passar dos anos, o número se aperfeiçoou ainda mais: caixas cada vez menores, transparentes e até versões sem a caixa foram criadas. Henry Blackstone Jr. criou uma versão que emulava a serra circular em uma esteira, tal qual uma serraria de madeira. Aliás, a popularização das serras rotativas trouxe um componente a mais de “terror” para o número, tornando-o um verdadeiro clássico moderno, sempre capaz de cativar e surpreender qualquer audiência.

Francis-White-Sawing
Francis White, presidente do “The Magic Circle” de Londres, apresentando a sua versão “improptu” da mulher serrada. A serra era emprestada.

– Æ –

NOTAS

[1]

O truque que Torrini fez para o papa foi o seguinte: com a ajuda do relojeiro da cidade, Torrini conseguiu uma réplica exata de um belo e caro relógio de um importante Cardeal. Durante a apresentação para o Papa, Torrini disse precisar de um relógio para seu próximo truque e substituiu o original pela réplica. Primeiro ele deixa o relógio cair no chão, causando temores no cardeal – que não queria de jeito nenhum emprestar seu relógio. Em seguida, Torrini faz o relógio desparecer e ele reaparece no bolso das vestes do Papa.

[2]

Jim Steinmeyer escreve que Selbit teve dois grandes méritos quando do lançamento do seu truque: a época em que ele foi lançado, e o uso de uma mulher.

Segundo Steinmeyer, a década de 1910 foi marcada pela luta das mulheres por direitos, em especial pelo sufrágio feminino. Com o rompimento da Primeira Guerra, em 1914, as mulheres tiveram que deixar de protestar e passaram a ocupar o chão das fábricas, mostrando na prática, que valiam tanto quanto os homens. Com o fim da guerra, em 1919, a imagem de “inocência” da mulher já não mais cabia, e seus direitos foram automaticamentes adquiridos.

O mérito de Selbit foi conseguir capturar essa nova mentalidade ao criar seu novo efeito, mostrando o lado menos frágil das mulheres. Seus outros efeitos seguiam a mesma linha. Além de “Serrando a  mulher ao meio”, Selbit criou ainda outras ilusões donominadas: “Esmagando a mulher“,  “Destruindo a mulher“, “Esticando a mulher“, “A mulher indestrutível“. O que, a princípio pode soar como um ódio reprimido ao sexo oposto foi, na verdade, uma demonstração da força da mulher, que, desde, pelo menos, uma década antes, vinham sendo as protagonistas das mudanças na sociedade.

Longe de ser um machista ou sexista, Selbit mostrou de forma clara e didática que a mulher era forte e resistente por natureza. Clive Maskelyne, por exemplo, apresentou este mesmo efeito para o público londrino. Contudo, trocou o nome do efeito de “Serrando a mulher ao meio”, para “Matéria através da matéria“, buscando assim, manter latente as velhas (e inocentes) ideias do “conjurador e seu poder místico sobre a natureza”. Obviamente, a apresentação de Maskelyne acabou sendo um fiasco!

 

– Æ –

BIBLIOGRAFIA

Magicpedia:Sawing woman in half

Wikipedia: Sawing woman in half

Site: Illusion Repository

Artigo: American Heritage Magazine 1994, Vol. 9, nº 03 – “Sawing woman in half“, de Gary Brown *

Artigo: Popular Mechanics, dez. 1958 “I call these the greatest magic illusions os all time” de Christopher Milbourne

Livro:Panorama of Magic” – Christopher Milbourne

Livro:The Last Greatest Magician in the World” – Jim Steinmeyer

Livro:Hidding the Elephant” – Jim Steinmeyer

Livro:Art & Artiffice” – Jim Steinmeyer

Livro:Secrets of the Sideshows” – Joe Nickell

Livro:Sensationalism and the Genealogy of Modernity” – Editado por Alberto Gabriele

* Lembrando, conforme já dito no texto, esse artigo possui um erro grave ao se referir erroneamente à apresentação de Torrini.

O DIA EM QUE UMA ILUSÃO FOI CORTADA PELA METADE

Na noite de 9 de abril de 1956, os espectadores da BBC em Londres viram algo que os assustou. Um truque de mágica que fora cortado pela metade; o truque em questão era – ironicamente – “cortando a mulher ao meio”. Na hora em que a serra atingiu o corpo da assistente do mágico indiano PC Sorcar, o apresentador subitamente interrompeu o truque e, sem muitas explicações, anunciou o fim do show – que à época era gravado ao vivo.

Será que algo acontecera? A assistente estava bem? O que havia acontecido afinal de tão terrível que o truque foi interrompido? Esta é uma história de como um truque realizado pela metade, conseguiu causar mais frisson do que se tivesse sido feito em sua totalidade.

– Æ –

Protul Chandra Sorcar, nome de batismo do mágico indicano PC Sorcar, nasceu em 23 de fevereiro de 1931 em Bengali, na Índia. Nascido em uma família de mágicos, Sorcar era a oitava geração da família a se aventurar pelo mundo do ilusionismo.

Protul Chanadra Soccar
Protul Chandra Soccar

O começo da carreira de Sorcar foi estrondoso e, de certa forma, traumático. Hábil na promoção pessoal Sorcar não tardou para lograr fama em sua terra natal. Era visto por seus conterrâneos mais do que meramente um ilusionista, ele era admirado como um verdadeiro curandeiro, a tal ponto de certa vez, uma família lhe trazer uma criança que havia sido mordido por uma serpente venenosa. Enquanto convencia a família de que não era um curandeiro, senão um simples artista, a criança não resistiu e veio a falecer.

A fama de Sorcar lhe precedeu e logo a BBC ouviu falar dele e o convidou para participar de um de seus programas, o show noturno Panorama. A sorte havia sorrido duplamente para Sorcar, pois sua participação no programa havia sido marcado para a noite de 9 de abril de 1956, um dia antes de sua estreia pelo circuito londrino no Duke of York Theater. O night-show seria uma excelente forma de divulgar gratuitamente seu espetáculo.

panorama
Abertura do programa “Panorama”

Na noite de 9 de abril de 1956, Sorcar estava nos estúdios da BBC pronto para se apresentar. E ele seguiu o roteiro proposto, deixando para o final seu grande truque de cortar a mulher ao meio. A versão de Sorcar era ligeiramente diferente da tradicional, por Sorcar usava um serra circular e deixava o corpo de sua assistente completamente à vista, e não escondido em uma caixa.

Sorcar iniciou sua apresentação com alguns números clássicos, como o “Água da Índia” em que uma tigela com água permanece constantemente cheia, não importa quantas vezes ela seja esvaziada. Aliás, a apresentação de Sorcar merece destaque. Embora interpretasse um personagem indiano, Sorcar estava longe de se rum personagem caricato. Segundo registros, ele conseguia dosar muito bem a ideia e o fascínio oriental, com os costumes e gostos ocidentais. Seu show era colorido, com roupas típicas e palavras indianas mescladas com inglês, mas também era de  fácil entendimento e assimilação. As técnicas ocidentais eram potencializadas com o background oriental. E o resultado era maravilhoso. E embora fosse um show com temática indiana, praticamente todos os truques, eram ocidentais. E seu gran finale era o truque de serrar a mulher ao meio. O mais ocidental – e clichê – dos truques de mágica.

8618512974_14b7a9707e_k

De volta ao programa da BBC, após alguns números de seu repertório, Sorcar deu início ao último número da noite. Tudo corria da maneira usual: ele hipnotizara Dipty Dey, sua jovem assistente de 17 anos e a deitou em uma maca hospitalar.  A câmera capturava todos os detalhes e o público pode ver claramente a jovem deitando-se na maca e, acima da jovem, uma serra circular. Todo o corpo deitado da jovem Dey podia ser visto. Sorcar ligou a serra e lentamente baixou-a, até que ela encostou no corpo da jovem. Mais alguns segundos e a serra chegou a altura de onde seria a coluna da assistente.

Neste momento o apresentador do programa Richard Dimbleby se postou rapidamente entre a câmera que capturava a cena e a mulher serrada ao meio e sem qualquer explicação disse que o show daquela noite havia chegado ao fim.

Richard Dimbleby
Richard Dimbleby

Foi aí que os telefones da BBC começaram a tocar sem parar. Todos queriam saber o que havia acontecido com a jovem Dipty Dey. Ela estava bem? Estava viva? O que levou o apresentador a encerrar o show dessa forma.

Se hoje, tal reação nos soa um tanto exagerada, é bom lembrar que na época, o oriente ainda causava uma atração mística nos ocidentais. Mais ou menos nessa época, a televisão descobriu a mágica e truques que antes eram restritos apenas a teatros começaram a ser transmitidos ao vivo pelas televisões. Em 1936, por exemplo, a própria BBC televisionou ao vivo o mágico indiano Ahmed Hussain caminhando sobre brasas acessas. Números de mágica ao vivo, portanto, ainda eram uma novidade. Além disso, o  toda a ação de Sorcar fora executada de forma magistral, sem a caixa que oculta o corpo da assistente, o que permitiu um excelente close da cena. Por isso, para a audiência da época, a impressão é que algo havia saído terrivelmente errado.

PC Socar
PC Socar serrando sua assistente

Os telefones da BBC enlouqueceram. Muitos ligavam sem parar querendo saber o que havia acontecido. A BBC teve que designar alguns atendentes apenas para garantir aos que telefonavam que tudo estava bem. Mais tarde naquela mesma noite, uma decisão sem precedentes: o jornal noturno preparou um editorial afirmando que a assistente estava viva e bem. Esta foi provavelmente a primeira (e única) vez que um jornal noturno anunciou em nível nacional que um truque de mágica saiu exatamente como planejado. Mas nem isso foi o suficiente para acalmar os ânimos.

Sawing a lady in half on BBC-TV , London, in 1956
Cortando a mulher ao meio – BBC, Londres (1956)

No dia seguinte, os jornais mais sensacionalistas exibiam a manchete de capa: “Será que o mágico matou a garota?”  e naquela noite o Duke of York Theater estava lotado. Todos queriam ver com seus próprios olhos se a assistente estava bem e inteira. Ela estava. A tal ponto que durante toda a temporada ela era diariamente cortada ao meio e depois restaurada…

 Mas então porque a transmissão parou abruptamente? Por menos misterioso que seja, a razão é bastante simples: Sorcar estourou o tempo disponível para se apresentar e o apresentador teve de interromper o show porque a BBC se recusou a atrasar ainda mais a grade de programação. A emissora decidiu não mais dar publicidade gratuita ao mágico e cortou seu truque ao meio.

Muitos anos mais tarde, o filho de Sorcar, foi à BBC onde lhe lembraram da história de seu pai. Sorcar Jr. riu e disse que havia um equívoco. Seu pai, disse ele, controlava nos mínimos detalhes tudo o que acontecia no palco, incluindo o tempo de apresentação. Se o tempo havia estourado, disse Sorcar Jr., foi porque meu pai assim o quis. “Timing” é tudo para um mágico, e Sorcar soube deixar seu público querendo ainda mais.

Sorcar Jr.
Sorcar Jr. repetindo o número do pai

– Æ –

FONTES

Blog: Mentalfloss

Wikipedia: PC Sorcar

Jornal “The Stage” 12 de abril de 1956.

%d blogueiros gostam disto: