O DIA EM QUE OS NAZISTAS ROUBARAM UM PÔSTER DE MÁGICA

“[Esta é] a mais variada e abrangente coleção, não importa o ângulo em que se olhe, seja do artístico, sociológico, cultural, psicológico, histórico ou geográfico.

Hans Sachs, sobre a sua coleção.

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Houve um tempo em que não havia internet e nem televisão, e o rádio era item de luxo. Nessa época, os anúncios de eventos eram feitos com pôsteres e cartazes fixados nos muros a fim de informar aos que passassem por ali sobre o acontecimento de eventos, anúncio de espetáculos ou a divulgação de produtos.

Até 1870, mais ou menos, esses pôsters eram basicamente textuais e monocromáticos em preto e branco. A revolução industrial popularizou as máquinas de litografia, permitindo a produção em massa de cartazes coloridos, melhorando a qualidade e barateando custos. Com isso, era comum, especialmente nas grandes cidades, muros serem inundados por cartazes de propagandas e posteres de artistas. Mágicos, em especial, se valeram muito desse novo recurso visual. Alguns chegavam ao extremo de fazer uma arte nova para os cartazes para cada cidade visitada, ou ainda, duas ou mais artes para cada performance. Cenas, como a abaixo, eram bastante comuns.

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Uma parede coberta com cartazes de Chung Ling Soo. São pelo menos 13 ilustrações diferentes.

Como qualquer objeto, eles despertaram a curiosidade e o interesse de várias pessoas e logo surgiram colecionadores desses cartazes. Um desses colecionadores foi o Dr. Hans Sachs, um dentista judeu alemão (o quê, como já dá pra antever, não era uma boa combinação).

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Dr. Hans Sachs.

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O Dr. Sachs nasceu em agosto de 1881 em Breslau, Alemanha (hoje, Polônia) e começou a sua coleção de cartazes ainda em 1895 ao se apaixonar por aquilo que ele considerou uma forma de arte. Seu primeiro cartaz foi um de Sarah Bernhardt, uma atriz francesa.

O que começou como o hobby de um adolescente logo se tornou uma paixão. Sachs era meticuloso e passava suas horas livres enumerando, catalogando e identificando cada uma de suas peças. Sua dedicação ao colecionismo era tamanha que 15 anos após seu primeiro cartaz, Dr. Sachs fundou a sociedade internacional dos colecionadores de pôsteres (“Verein der Plakat Freunde“) e ainda, começou a produzir uma revista dedicada a este hobby, a “Das Plakat” (O Pôster).

Sua paixão por cartazes não o impediu de levar adiante seus estudos. Ele se formou em química e recebeu doutorado em ciências exatas (que englobava as disciplinas de química, física e matemática) e ainda um segundo doutorado em periodontia que acabou se tornando a sua profissão. Até mesmo na área de periodontia, o Dr. Sachs era uma sumidade, chegando a escrever diversos artigos científicos sobre o tema. Um dos clientes regulares do Dr. Sachs era o físico e amigo Albert Einstein.

Obviamente que o Dr. Sachs não colecionava apenas pôsteres de mágicos. Qualquer pôster litografado era seu objeto de desejo. Assim, estima-se que por volta de 1938, na iminência da 2ª Guerra, a coleção do Dr. Sachs já atingia a cifra de 12.500 cartazes. Ele fazia exibições públicas de sua coleção por volta das décadas de 1920 e 1930. A coleção incluía propagandas de carros, bicicletas, sabões, shows de mágica, óperas, enfim…

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Parte da coleção do Dr. Hans.

Como já dito, a Alemanha de 1930 não era a melhor opção de moradia para um judeu. Hitler, já no poder, iniciara diversas campanhas em prol do orgulho ariano. Uma dessas campanhas, foi capitaneada por Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, e que envolvia a promoção do que eles chamavam de “deutsche Kunst” ou “Arte Alemã” o que seria uma forma superior de arte, em oposição à “entartete Kunst” ou “arte degenerada” [1].

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Exemplo de arte “superior” alemã.

A “deutsche Kunst” era um ideal artístico que era fomentado pelo regime do führer, com traços mais naturalistas, arcadianos, em oposição a “arte degenerada” que, para o conceito nazista, englobava peças dos movimentos bauhaus, cubismo, expressionismo, surrealismo e, claro, arte moderna, incluindo aí também, os cartazes de propaganda.

Qualquer arte que se opunha à visão nacional-socialista de beleza era considerada infame e, portanto, deveria ser confiscada e destruída. A coleção do Dr. Sachs encontrava-se nesta categoria. E, dada a grandiosidade de sua coleção, ela inevitavelmente chamou a atenção de Goebbels.

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Cerimônia de queima de livros e de objetos considerados “degenerados”.

Certa noite, o Dr. Sachs recebeu um telefonema de três oficiais da Gestapo – a polícia secreta do nazismo – informando-lhe que, à pedido de Goebbels, o Museu de Arte Decorativa em Berlim estaria adicionando uma nova ala dedicada à “arte dos mercadores” e a coleção de Sachs seria “cedida” à esta nova ala.

Quando os oficiais chegaram à casa do Dr. Sachs, pediram para ver os cartazes de propaganda político partidária. o Dr. Sachs então mostrou-lhes esta parte do acervo, e os oficiais encontraram – além dos cartazes de produtos, diversos pôsteres anti-Hitler (obviamente havia também cartazes pró-Hitler, ams esse detalhe foi ignorado pelo pessoal da Gestapo). Era o argumento que faltava para a Gestapo confiscar o acervo do Dr. Sachs.

Obviamente que o acervo todo foi alvo de apreensão – e não apenas os cartazes políticos. A justifica: arte-degenerada e propaganda anti-nazista. Contudo, alguns historiadores dizem que, assim como o Dr. Sachs, Goebbels também era aficcionado por artes visuais, e que, no fundo, queria a coleção para si.

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Goebbels visitando a exposição de arte degenerada.

O confisco foi inevitável. Ao todo três caminhões carregados de material gráfico deixaram a casa do Dr. Sachs. O próprio Dr. Sachs fez questão de carregar as armações de alumínio onde ficavam guardados os pôsteres. Ao todo ele levou 250 dessas armações, cada uma contendo 50 cartazes, fora as diversas caixas, recortes e demais materiais. O Dr. Sachs nunca mais veria sua estimada coleção novamente.

Como falamos da Alemanha nazista, obviamente que a repressão ao Dr. Sachs não parou por aí. Em 9 novembro de 1938, na famigerada “Noite dos Cristais”, o Dr. Sachs foi preso e levado ao campo de concentração de Sachsenhausen, próximo de Berlim. Ele ficou detido por cerca de 17 dias, até ter a sorte de ser liberado junto com sua esposa e seu filho Peter. O Dr. Sachs entendendo que sua vida na Alemanha havia acabado, abandonou tudo e migrou para a América.

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Campo de concentração de Sachsenhausen.

Na América, com a alma enlutada pela perda de sua estimada coleção, Sachs decide não retomar o seu amado hobby de colecionador, e focar-se na sua área de formação. Ele contou com a ajuda de ninguém menos do que Albert Einstein, que tentou ajudar oex colecionador a conseguir um emprego na área da odontologia, mas seus cursos não foram reconhecidos em solo americano. Assim, para poder exercer a sua antiga profissão, o Dr. Sachs acabou tendo que fazer um novo doutorado na área, se formando dessa vez, em Harvard.

Por volta de 1950, com o fim da guerra e do regime nazista, o Dr. Sachs  vai em busca de informações acerca de sua coleção. Ele é informado pelo governo Alemão Oriental que ela havia sido destruída após a invasão russa a Berlim. E por isso ele foi indenizado em 225.000 marcos (mais ou menos R$ 1,8 milhão em valores atuais) e dá o assunto por encerrado em sua vida. Isso, até a chegada um “plot twist“…

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Em meados de 1960, alguns cartazes antigos começaram a circular em Berlim, vendidas em leilões e também no mercado “paralelo”. O filho do Dr. Sachs, Peter, ficou sabendo dessas vendas e, conhecendo a história do pai, decidiu ir a Berlim e investigar a origem desses cartazes.

A suspeita se confirmou. Segundo consta, apenas uma parte da coleção do Dr. Sachs fora destruída (em torno de 1/3). As 8.000 peças restantes ficaram guardadas no Museu de História de Berlim, e não no Museu de Arte Decorativa – como fora divulgado, e lá permaneceram, mesmo após a Guerra e à divisão de Berlim. Os pôsteres foram reconhecidos por causa do carimbo do Dr. Sachs. Sua dedicação na catalogação meticulosa das peças foi fundamental para a redescoberta de sua coleção.

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Carimbo usado pelo Dr. Sachs para catalogar sua coleção.

No começo de 1974 o Dr. Sachs vai a Berlim, a fim de resgatar a sua coleção. Contudo é proibido de entrar na parte oriental da cidade (àquela altura a cidade já era dividido pelo Muro de Berlim, que impedia a livre passagem pelos lados oriental e ocidental da cidade). O Dr. Sachs faleceu em março daquele ano, sem poder rever sua estimada coleção.

Por quase 40 anos a coleção de Sachs ficou isolada no lado oriental de Berlim. Em 2005, após sua aposentadoria, Peter Sachs decide retomar a luta para reaver a coleção do pai. Logo ele descobre que o museu de Berlim orgulhosamente expunha a coleção. Foi então que ele encampou uma batalha jurídica contra o Museu de História Alemão. Em 2009 a família de Sachs sagra-se vitoriosa, mas somente em 2013 é que mais de 4.000 pôsteres (aproximadamente 30% da coleção original) voltaram à família. Alguns desses cartazes foram doados a museus, outros leiloados à quem pudesse tomar melhor conta deles. Apenas uma parte ficou com a família Sachs. Peter faleceu em setembro daquele ano.

A coleção do Dr. Sachs, de certa forma, sobreviveu ao tempo, à loucura nazista, à ganância comunista. Mais do que anunciar shows e produtos, essa coleção nos lembra da capacidade humana de fazer o mal ao seu próximo, mas também da resiliência e da esperança que trazemos em nós.

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Dr. Hans Sachs.

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PS: Sei que o título não está bem colocado. Os nazistas roubaram muito mais do que um cartaz, e não foi apenas de mágicos. Mas como este é um blog de mágica, e esta história é incrível – mas não necessariamente tem a ver com mágica ou mágicos – achei que um pequeno “click bait” não cairia mal.

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NOTAS

[1] Certa feita, o Governo nazista fez uma exposição de arte degenerada chamada ironicamente de “Kunst” (“Arte”), com as aspas. A ideia era mostrar o feio, o grotesco, e como a arte alemã era superior (ironicamente, hoje ela é considerada um arte “kitsch“, brega). Ao contrário do que esperavam os oficiais alemães, a exposição foi um sucesso e deu ensejo ao que chamamos de Arte Moderna, no sentido de protesto a uma imposição do que é belo,  nada a ver com acepção hodierna de arte moderna.

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Enorme fila para ver a exposição de “arte degenerada”.

Aqui e aqui, exemplos dos catálogos de exposição “Entartete Kunst“; e aqui, o catálogo da “Große Deutsche Kunstausstellung” ou “arte superior alemã”.

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BIBLIOGRAFIA

Site: The Ephemeral Collector

Site: Wikipedia

Site: Guernsey’s Audiction

Periódico: Zoe Wonfor em “Concordia Undegraduated Journal of Art History“, Vol. XI, p. 56 – 71, março de 2015.

O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

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1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

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2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

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3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago”

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

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4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

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5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, o primeiro mágico a usar imps (diabretes) em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

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5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

PÔSTERES ANTIGOS

Pesquisando pela internet achei alguns pôsteres antigos de mágicos que contam um pouco da história desta bela arte e mais do que isso, nos mostram um pouco da nossa realidade hoje como mágicos.

Lembrando que basta clicar sobre a imagem para ampliá-la.

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O SHOW MAIS ANTIGO

Esse é o cartaz de show de mágica mais antigo que se tem registro, de 1840 (eu pelo menos não achei outro mais antigo, se alguém souber, avise).

Título do cartaz:Professor Cummings, the celebrated magician, vocalist, and comedian!!

Características:  Litografia; p&b;  57 x 24 cm.

Ano: 1840.

Autor: ??

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HÁ 100 ANOS ATRÁS

Há exatamente um século atrás estes eram alguns dos shows em cartaz:

Título:Richards, the world’s greatest magician and his big company the biggest stage show of the entire season

Características: Litografia; p&b; 46 x 20 cm

Ano: 1911.

Autor: ??

Título do cartaz:Newmann’s wonderful spirit mysteries

Características: Litografia; colorida; 77 x 56 cm

Ano: 1911

Autor: Donaldson Litho. Co.

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NOVIDADE?

Todos devem lembrar da euforia que foi Paulo de Barros e suas “cabeças que caiam” no Desfile das Escolas de Samba no carnaval desse ano. O que poucos sabe é que esse número já existia há pelo menos 103 anos e era apresentado por ninguém menos do que Kellar.

 Título do cartaz: “Kellar in his latest mystery

Características: Litografia; colorida; 73 x 48 cm

Ano: 1898

Autor: Strobridge Lith. Co.

OBS: Esse cartaz tem duas versões. Esta de 1898 onde a cabeça olha para o corpo e outra de 1897 onde a cabeça olha para o mesmo lado que o corpo está virado.

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 O ANTECESSOR DE PENN & TELLER

Nesse cartaz de 1909, Houdini anuncia que irá expor os charlatões (no melhor estilo “Fool Us” do Penn & Teller).

 Título do cartaz:Do spirits return? Houdini says no – and proves it 3 shows in one : magic – illusions – escapes = fraud mediums exposed.

Características: Litografia; colorida; 40 x 71 cm

Ano: 1909

Autor: ??

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O ASTRO

É provável que a inspiração do personagem Herculano Quintanilha, personagem central da novela “O Astro” tenha vindo do mentalista Alexander:

 Título do cartaz: “Alexander the man who knows

Características: Litografia; colorida; 56 x 34 cm

Ano: 19??

Autor: ??

Título do cartaz: “Alexander, crystal seer knows, sees, tells all

Características: Litografia; colorida; 105 x 40 cm

Ano: 1910

Autor: ??

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Essa é a prova de que, não há nada hoje, no mundo da mágica, que já não tenha sido visto há pelo menos um século atrás.

Amplexos!