QUANDO UM TRAPACEIRO VENEZUELANO PERDEU (E FICOU ETERNIZADO POR ISSO)

Artigo original escrito por Ernesto J. Navarro

Enviado a mim, por Juan Araújo

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Sócrates

– Æ –

Félix Vargas Chacón era um excelente jogador de cartas. Mais do que isso, era um exímio trapaceiro.  Nascido em 3 de abril de 1916, na Venezuela, Félix fez sua fama pelos cassinos do Caribe e no submundo dos jogos e trapaças. O homem era uma lenda.

Quando ainda era criança, seu pai abandou o lar por questões de segurança. Revolucionário, participou de um movimento que tentou tomar o controle da cidade das mãos do Governo Federal. O grupo falhou e, por isso, teve que passar anos escondido na clandestinidade.

Ao voltar para a legalidade, o pai pede que todos os filhos ajudem no sutento da casa. A Félix foi sobrou o encargo de capitanear uma goleta, uma pequena embarcação à vela, que levava os turistas em um passeio até a Ilha de Margarita, no norte da Venezuela.

Félix Vargas Chacón

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“MÃE, VOU CONQUISTAR O MUNDO!”

Aos 14 anos, Félix, havia adquirido gosto pelos jogos de azar e em uma certa noite, possivelmente após beber muito e farrear ainda mais, decidiu abandonar a embarcação para um “passeio”. Quando voltou percebeu que a adega do barco havia sido roubada. Seu pai o afastou das funções no barco, foi quando decidiu sair pelo mundo atrás de aventuras.

Mãe, vou conquistar o mundo!” Essa foi a despedida de Félix para a sua mãe. Ele deixou a sua cidade e viajou até a capital, Caracas. 400 km ao longo do mar do Caribe. Foi em Caracas que Félix comeceu a tecer, o que ele mesmo chamou de: “sua desordenada vida”.

Félix era gentil e encantador. Possuía um carisma natural. “Ele era capaz de lhe vender algo que você sequer tinha a intenção de comprar” conta o escritor venezuelano José Roberto Duque. Isso, somado à sua exímia habilidade de prestidigitação com cartas, transformaram Félix rapidamente no mais famoso e requisitado jogador de cartas, ou na língua nativa, tahúr, em todo o Caribe.

Ele era do tipo que lograva os ricaços e os cassinos. Basicamente aqueles que realmente não precisavam do dinheiro que perdiam. Dessa forma, acabou levando uma vida de ‘playboy’. Com suas habilidades para o ‘baccarat’ logrou viver de roubar os milhonários do Caribe“, conta Duque.

Uma pequena amostra de seu estilo de vida foi divulgado pela imprensa venezuelana em 1950. Após ser detido em Caracas, acusado de cometer um golpe, o jornal “El Nacional” publicou uma nota com o seguinte frase: “Ele era o estrangeiro mais bem vestido no México, nos últimos três anos.” Nos anos mais ativos de sua “profissão” como tahúr entrou e saiu da Venezuela tantas vezes quanto entrou e saiu da prisão.

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LA MEDICINA

Félix era um mestre nos truques com cartas e nas trapaças dos jogos de azar. Seu objetivo era simpless: lucrar o máximo possível. Em sua biografia, Félix relata que seu mais famoso golpe foi batizado de “la medicina” (“a droga”, em tradução livre).

A primeira coisa que Félix fazia era identificar empresários com empresas legalmente constituídas, mas que trabalhavam com contrabando. Se aproximava dessas pessoas, ganhava sua confiança e as estudava a fundo.

Félix dizia que as pessoas com mais estudo fazem mais perguntas, mas também creem mais facilmente a tudo que lhe respondem. Eles também não refaziam perguntas, com medo de passarem por ignorantes. Certamente uma vantagem para os golpes de Félix e uma valiosa lição até hoje.

Depois de um tempo, Félix realizava a trampa. Juntamente com três comparsas alugava alguns quartos em hoteis distintos. Juntamente com a vítima, chegava ao primeiro hotel, e um dos sócios dizia possuir dois quilos de cocaína. Félix pedia para 20 gramas já que não tinha dinheiro para comprar maior quantidade. O comparsa aceitava “vender” essa quantidade irrisória, apenas porque conhecia Félix. Féliz entregava o dinheiro e recebia um pequeno papelote de papel alumínio lacrado. Eles então saíam do hotel.

Dirigiam-se então ao segundo quarto. Nesse interim o primeiro vendedor comunicava um segundo comparsa que encontrava-se casaualmente com Félix, fingindo ser um consumidor desesperado por uma dose. Félix dizia que não podia vender a droga para ele, até porque só tinha um papelote pequeno. O comparsa oferecia então à Félix o dobro do que este havia pago pelo papelote de cocaína (que na realidade era bicarbonato de sódio).

Ato seguinte, o comprador-comparsa, alegando dificuldades de conseguir a droga, prometia pagar generosamente por uma quantidade maior. Félix e a vítima voltavam ao primeiro quarto de hotel e o tahúr tratava de pedir os dois quilos de cocaína fiado. Como Felix era menor de 90 anos e não estava acompanhado dos pais, a oferta era, obviamente negada.

Vendo a possibilidade de ganhar dinheiro fácil e rápido, a vítima, movida pela ganância, aceitava por seu próprio dinheiro no negócio. Quando se dirigiam ao econcontro do usuário para vender-lhe a droga, eram interceptados por um policial de verdade, porém comparsa de Félix. Ele dava voz de prisão aos homens, mas para evitar problemas burocráticos, topava deixá-los ir embora, se lhe entregassem a droga e prometessem nunca mais se envolver com aquilo. A oferta era prontamente aceita. Assim, se perdia a droga, o papelote e o dinheiro já estava pago. Essa receita rendeu a Félix, milhares de dólares.

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UMA BOA VIDA

Seus golpes sempre lhe renderam grandes cifras de dinheiro, o que facilitou a sua entrada na alta sociedade, em especial nos círculos políticos e de entretenimento na Venezuela, México, Cuba, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, entre outros países. Em suas memórias, garantiu ter conhecido Fidel Castro quando este estava na iminência de tomar a ilha. Conheceu também Che, Raúl e outros guerrilheiros.

Suas memórias aliás, viraram um livro, publicado ainda na década de 1970. Está recheado de histórias fantásticas como da fuga de uma prisão mexicana em meados de 1953 a bordo de um Cadillac zero quilômetro junto com uma aeromoça. Um roteiro de filme, sem dúvidas. Outra história curiosa foi quando conheceu a sua esposa durante uma luta de boxe entre dois campões olímpicos.

Félix viveu uma vida de extremos: cercou-se de homens bons e homens maus, heróis e delinquentes, gregos e troianos, segundo suas próprias palavras. Esses contatos lhe abriram portas. Instalou no México alguns cabarés que serviam à nata da sociedade. Todos queriam beber com Félix.

– Æ –

UM NOVO TRAPACEIRO ARREPENDIDO

Félix conta em seu livro suas aventuras, mas também fala de sua “conversão”. Após o casamento se arrepende de seus crimes e se dedica a emendar a sua vida, e a instruir os demais sobre os perigos dos jogos de azar e das drogas. A história se repete

Seu livro no fim das contas, serve tanto como relato biográfico, como uma grande e completa reportagem sobre a delinquencia e o mundo interno dos cassinos e jogos de azar.

No fim das contas foram quarenta anos de delitos. Félix sempre reconhecera que grande parte de sua sorte estava embasada nos contatos políticos que havia colecionado ao longo dos anos. também sabia que suas histórias poderiam servir de lição para outros. Não a toa, todas as três edições do livro sempre constaram como esgotada. mesmo hoje, é difícil de achar uma cópia. A que está disponível na Biblioteca Nacional da Venezuela, está guardada no acervo “raros”.

Na Venezuela, um livro com boas vendas vende algo entre 2.000 e 3.000 cópias. O livro de Félix vendeu 65.000. Seus livros vendiam como pão quente, pois não contavam apenas a história do mais universal tahúr da Venezuela, mas a história de Cuba de Batista e a decomposição da própria Venezuela.

Não houve tahúr como ele no Caribe, com uma habilidade inata para a psicologia. Conhecia a fundo suas vítimas. Mas também era humano e bondoso. Era dificil desgostar de quem roubava homens de colarinho branco e outros delinquantes“, contou seu amigo, o poeta Juan Calzadilla.

– Æ –

A MORTE E A ETERNIZAÇÃO DO TAHÚR

No fim de sua vida, Félix Vargas Charcon, vivia uma vida pacata e expressava com uma ponta de tristeza: “Vivi ladrão em um mundo de honrados; agora sou um honrado em um mundo de ladrões.

Félix faleceu em janeiro de 2014. Tinha 98 anos.

Um dia, um “argentino manco” resolveu contar para o mundo a história de Félix, usando para tanto apenas sua elegância e sua mão esquerda. O resultado, podemos contemplar abaixo:

 

Quando Félix decidiu sair de sua cidade natal, Cumaná, e conquistar o mundo, ele acabou fazendo uma profecia acerca de si mesmo, ao despedir-se de sua mãe. Como todo nascido em Cumaná, Félix era um cumanês. E foi com esse apelido gentílico que criou para si a figura de um exímio tahúr que viria a conquistar o mundo. Félix Vargas Chacón era “O” Cumanês.

Memórias de "el cumanês"
Livro autobiográfico de Félix Vargas Chacón

ENTREVISTAS COM RENÉ LAVAND

Poderia viver em uma casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito” – William Shakespeare

Em minha humilde, parcial e nada embasada opinião o maior mágico que já viveu entre nós é René Lavand. Dono de um estilo único e inconfundível, suas apresentações conseguiam cativar e maravilhar até aqueles que não gostam de mágica. Feito raro entre nossos pares. O maior arrependimento de minha vida foi nunca ter podido conhecê-lo (e o pior, saber que eu tive a oportunidade…).

O Blog Água & Azeite dedica este post à vida e à obra de René Lavand. Trata-se de um compilado com diversas entrevistas, todas extraídas da internet e traduzidas por mim.

René Lavand

– Æ –

Antes de mais nada, temos que chegar a cidade de Tandil, atravessá-la, sair dela, percorrer estradas de terra, uma curva, outra curva, uma terceira curva e então, à direita, vê-se uma cabana com uma placa que diz “Milagro verde“, um pequeno telhado debaixo do qual se encontra um Audi novo, impecável, e muitas árvores. à frente da cabana está um homem sentado à mesa, em frente à cabana e debaixo do sol quente da manhã, um homem que bebe vinho tinto, veste uma camisa clara, gravata borboleta, calças beges, sapatos brancos, e enormes olhos aquosos – um deles com a pálpebra caída – sobrancelhas grossas e um bigote. A mão direita está no bolso.

A cabana é assim: uma cabana de troncos, com uma porta estreita a qual se acessa por quatro degraus. Dentro, depois da entrada, há uma mesa grande, um candelabro de uma só vela, em seguida a sala – cadeiras, poltronas, um enorme painel de vidro fixo – um pequeno espaço e em seguida mais móveis: um porta bengalas com diversas bengalas, e na parede, diversos chapéus: boinas, chapéus texanos, gorros de couro; no chão, diversos compactos: Beethoven, Mozart, Vivaldi, Bach – e uma mesa redonda coberta por uma toalha verde e sobre a toalha, diversos maços de cartas. E por todas as paredes desenhos e fotos de uma mão esquerda e do homem que, sentando de frente a uma mesa, em frente de uma cabana, sob o sol do meio dia, bebe vinho tinto. Às suas costas, sobre a porta de entrada da cabana, o seguinte dizer: “Poderia viver em um casca de noz e, ainda assim,  sentir-me o rei do Universo infinito”.

– Shakespeare – diz o homem

Mas a frase de Shakespeare é assim: “Poderia viver em um casca de noz, e ainda assim, sentir-me o rei do Universo infinito, se não fossem os meus sonhos ruins”. Claro que o homem conhece as vantagens: uma pequena mutilação pode transformar algo em outra coisa. Pode transformar, por exemplo, um garoto comum em um homem extraordinário; a Héctor René Lavandera, nascido em setembro de 1928, em Buenos Aires, em René Lavand, habitante de Tandil e especialista em “close-up” (mágica de perto, feita com cartas e objetos pequenos), e um dos melhores do mundo na especialidade de ilusões com cartas; se não o melhor, ao menos único. Isso porque René Lavand tem apenas uma única mão, a mão esquerda.

– Venha, vamos conversar no meu Laboratório.

Filho único de Antonio Lavandera e de Sara Fernández, caixeiro viajante ele, professora, ela, o filho Héctor René Lavandera viveu com sua família em diversos locais da capital Argentina. Em uma dessas mudanças, seu pai montou uma sapataria. Em 1935, quando o menino tinha sete anos, chegou em Buenos Aires um mágico chamado Chang e lá foi ele, mãos dadas com sua tia Juana. Quando Chang subiu ao palco, o menino ficou mudo e desejou que seu pai fosse Chang, que Chang fosse seu pai, para aprender dele todos os truques. Durante semanas, durante meses, não se falou de outra coisa naquela casa: no café da manhã: Chang; no almoço: Chang; no lanche da tarde e na janta: Chang. Um amigo da família, comovido, ensinou um truque de cartas que o obeso garoto começou a praticar com dedicação. Pouco depois, a sapataria do pai se fundiu a outro negócio, e eles se mudaram para Coronel Suarez, um povoado da província de Buenos Aires, onde um novo emprego esperava por seu pai. Em fevereiro de 1937 o menino tinha nove anos. Era carnaval e fazia muito calor. Ele estava jogando bola a meia quadra de sua casa quando seus amigos disseram: “Vamos atravessar a rua”. Era um desafio menor: não era um rio, não era um abismo, não era subir uma montanha; eram cinco metros de asfalto, mas o menino havia sido proibido de atravessá-los sozinho. Seus amigos cruzaram a rua e ele pensou: “Também vou atravessar”. E atravessou. E entre o menino e o resto de sua vida se interpôs um menino de 17 anos a bordo do automóvel de seu pai. Houve uma manobra brusca, uma criança caída, pneus derrapando, derrapando… lesão gravíssima: o antebraço direito contra o meio-fio da calçada. Sara, sua mãe, escutou o barulho e pensou: “Héctor atravessou a rua”. Chegou correndo e quando viu o menino caído, os vizinhos lhe ajudaram para que não gritasse e levaram o garoto até a clínica médica que estava justo em frente ao local do acidente. O médico plantonista quis logo amputar o braço do menino – “lesão gravíssima” – à altura do ombro. Uma vizinha foi quem protestou: “Espere que chegue o Dr. Patané”. Assim, esperaram. Dr. Patané chegou e salvou o braço do menino, mas cortou a mão. Deixou um coto de cerca de 11 centímetros abaixo do cotovelo direito. O menino era destro.

Chang (nome artístico de Juan José Pablo Jesorum), litografia de 1939.

– Este é o meu laboratório. Passo hora aqui olhando o parque, escutando música.

O coto esquerdo sobre a mesa, a mão esquerda erguida, anel no dedo mínimo. Um golpista que quer se parecer com um golpista.

– Às vezes repasso minhas composições, vejo como posso melhorá-las. Eu já consegui – e me desculpe pelo “eu” – aquilo que, se já se escutou a Sétima Sinfonia de Beethoven mil vezes, cada vez que a escuta, é a mesma apoteose.

A reabilitação do garoto durou um ano. Não existem relatos precisos à respeito, mas se sabe que o baralho lhe entreteve. Primeiro, as cartas caiam torpes daquela mão torpe, esquerda demais. Insistiu com tesão, impôs-se uma disciplina árdua: jogar ping-pong, futebol de mesa. Mas as cartas lhe custaram sangue. Embaralhar, distribuir, cortar, levantar, ocultar, esconder, empalmar: sangue. Cresceu. Tinha 14 anos quando sua mãe conseguiu um emprego de professora longe de Coronel Suarez e se mudaram novamente, desta vez para Tandil. Não há memórias tristes daquela adolescência. Colégio, amigos, um pai que lhe aconselhou: “Ao primeiro que lhe chamar de maneta de merda, quebre-lhe a cara, que eu te livro da diretoria”. Um homem chamado Leonardi, aficionado por mágica, lhe ensinou alguns truques e lhe presenteou com um livro de cartomagia de Joan Bernat y Fábregas. O presente confirmou o que o jovem já sabia: as técnicas, todas, eram para mágicos com duas mãos. Ninguém nunca havia pensado que algum dia houvesse um mágico com uma só mão. Mas insistiu e quando terminou o colégio sua mão respondia mais ou menos, obediente. Em 1955 seu pai faleceu em função de um câncer e o peso da dívidas, da casa e da mãe, caíram sobre o jovem. Saiu à procura de um emprego e encontrou um no Banco Nación. Passou ali os dez seguintes anos de sua vida. Em algum momento conheceu uma mulher chamada Sara Dellacqua e se casaram. Tiveram duas filhas: Graciela e Julia. Em 1960 ganhou um diploma em ilusionismo e lhe ofereceram que debutasse em Buenos Aires. Dois teatros: Tabarís e El Nacional lhe incluíram em seus espetáculos de variedades. Rebatizou-se René Lavand, com uma sofisticação já um tanto “demodé“, mas que fazia sentido: dentre os elegantes, os franceses, eram os melhores. Já em 1965 era imparável: fez uma temporada na Cidade do México e suas turnês pela América Latina eram frequentes. O público se rendia ante a mão que fazia milagres, à voz que magnética que transmitiam coragem e à emoção das histórias de um velho golpista do Sul dos Estados Unidos, de um mágico oriental preso em uma masmorra, de um “tahúr” obrigado por sua mulher a ganhar uma fortuna antes da meia noite…

O que é a magia, René?

É a  comunicação artística e humana alcançado junto ao público. Seja Marta Argerich no piano, seja Julio Bocca dançando ou, numa dessas, René Lavand – perdão se falo de mim em terceira pessoa – com o baralho nas mãos. Para mim, isso é magia, eu sou ilusionista. É uma questão de termos, nada mais.

O que seria de René Lavand sem o ilusionismo, então?

O que seria? Hector René Lavandera, que é meu verdadeiro nome. Mas o certo é que não o conheço, e é difícil para mim imaginar um René Lavand sem o ilusionismo. Porque me acompanha desde os sete anos com as duas mãos e, depois do acidente, aos 9, com uma.

Você sempre diz que foi um autodidata nisto de aprender a arte…

À força, por isso que acabei de falar: o acidente. Não existem livros que expliquem técnicas para uma só mão.

Dizem que em Tandil, as pessoas contam que era um verdadeiro espetáculo vê-lo contar as cédulas no banco…

São anedotas que contam por aí, são fantasias do povo. Não, isso… eu com o baralho me defendo, algo que fiz por toda a minha vida, assim que aprendi, certo? E fui obrigado a criar, como dizíamos a pouco.

Você é um artista muito conhecido, não só por ter apenas uma mão, mas também por sua humildade, cavalheirismo, pela gentileza em cima do palco e as histórias que conta…

Não sei se sou humilde, não creio. Tampouco sou um falso modesto, claro, isso é pior. Creio que se alcancei alguma fama, foi por meu estilo, não pela mão. Por que pra mim dá no mesmo, já que citei Marta Argerich, que ela toque com uma mão ou com sete; o que me interessa é que me toque a alma, que me comova. Assim, não é a forma de fazer, mas sim, a forma de fazer no que respeita a expressão. O segredo não está no que se faz, senão em como se faz, evidentemente. Mas não por ter uma só mão, isso não conta. Isto é uma adição que o público faz, mas é a última adição: “Tchê, e com uma só mão! Que filho da…“, essa é a última. Mas nunca fiz nada para que me aplaudissem por fazer com uma mão. Dá no mesmo com uma ou com duas.

Esta a par das figuras do mundo da arte?

Se estou a par de quê?

Se há alguma artista que goste, que se destaca nesse momento?

Bom, sim, acabei de falar com um amigo a quem admiro artísticamente, Morrison. Falei com ele faz três minutos, da Espanha, me telefona sempre. Somos muito amigos me disse para ver quando vou ir vê-lo. Mas mora em Sevilha, não posso viajar tanto, tenho quase 79 anos. Mas bem, por outro lado, a Espanha está me chamando. Para mim Europa é dos Pirineus para cá, já a esta altura. Gosto de voltar a Espanha pelo reencontro amigos, pelo carinho, com anfitriões e com um dinheiro importante. Em Tandil vivo para descansar, porque, por sorte, não me chamam a nenhuma parte, então, aproveito para descansar. O mercado está, sobretudo, na Espanha. Também tenho feito, por agora, Texas, Colômbia, tenho que ir a Belo Horizonte, outra vez a Colômbia., também tenho que fazer essas coisas. Mas, sim, me interessa.

Em Tandil vem muita gente visitá-lo? Disseste que tens discípulos…

Vivo um pouco escondido aqui, ao pé de um monte. Mas sempre aparece gente para tirar fotos, e coisas que, bem, me fazem sentir afagado. Ainda que, às vezes, seja um pouco pesado, mas, bem, esse é o preço.

Conte-nos como foi a atuação em “Un oso rojo” (“Um urso vermelho”) e se pensas em voltar a atuar.

Não, não. Essa foi uma coisa circunstancial, em que tive a oportunidade de interpretar um vilão, e talvez por isso, disseram que o fiz muito bem (risos). Foi um bom filme e uma grande experiência para mim trabalhar com Caetano, com Julio Chávez, excelente ator e, bem… nada mais. Uma experiência para a vida, muito linda.

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Cena do filme “Un Oso Rojo”

René, recém me falaste de Morrison a nível mundial, a nível nacional. Crês que estão saindo bons ilusionistas, bons artistas?

Não os vejo, não os vejo. Não vejo pela televisão a especialidade, não se vê representada.

Por que crês que a magia deve ser difundida pelo país?

A magia deve ser difundida, ou não deve ser difundida. Se vão fazê-la bem, que a difundam. Porque então melhorará o bom gosto e o conhecimento de parte do público. Agora, se vão fazê-la mal, são a vão executar mágicos e “magiquinhos” de meia tigela, então que não se difunda. Estou implorando que não se difunda. Agora, se vão fazer bem, então, sim, claro que sim. Porque então vai haver um público predisposto, como há na Espanha. Eu recebo ofertas de diversas locais, nas mais diferentes cidades principais da Espanha. Por quê? Por que a magia que você chama e eu chamo de ilusionismo, está imposta. E por que está imposta? Porque tem bons artistas. Então sim, que a difundam.

Então, o que tem que ter um bom artista, um bom ilusionista?

Um bom artista tem que ser artista, comecemos por isso. Por que não há um prestidigitador sem ser ator primeiro. E depois ter estilo. Estilo, por que não há artista sem estilo. Sem sombra de dúvida.

O que você responde, se lhe perguntam ‘quem é René Lavand’?

Um ser humano de carne e osso como todos os outros, que pode superar-se em algum momento da vida; e se faço um balanço de maus quase 86 anos, conquistei o que jamais sonhei que poderia conquistar: viajar pelos cinco continentes com talismãs de cartão pintados (em uma referência a como Jorge Luis Borges chamava as cartas).

Como gosta que lhe chamem?

Gosto da palavra magia, mas ela não é muito clara. Prefiro ilusionista, porque sou um criador de ilusões. ME encanta a palavra ilusionismo e a palavra magia prefiro empregá-la em outras questões. Enquanto a palavra mágico como qualificativo, e a palavra truque, ambas me soam insuportáveis. Truque é o que faz um cigano para vender seus produtos, por outro lado, eu faço jogo. Jogos que, para se converterem em composições – e me orgulho de haver conseguido – devem ter o equilíbrio harmônico entre o que eu digo e o que eu faço, com as justas pausas, precisas e necessárias, que são o silêncio.

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Se considera um mestre do ilusionismo?

Maestro é quem dita os rumos, não sei se me essa palavra corresponde a mim, mas sim, ditei alguns rumos na vida, aceito com gosto que me chamem assim.

Teve dúvidas ao longo de sua carreira?

Sempre. Quem não as tem? Quando há responsabilidades, sobretudo, há dúvidas. Até me pergunto: “Como sairá isso hoje à noite?”

Quanto há de talento e quanto há de esforço, na sua arte?

Como diz uma sábia frase: “O gênio se deve à transpiração”. Estou longe de ser um gênio, mas creio que sou talentoso porque transpirei. Sempre tem que ter algo, por isso, alguns  escolhem na vida e, aos poucos, se transformam nisso que escolheram.

Como faz para que algo, que parece tão difícil, pareça tão simples?

Chegar à simplicidade é muito difícil, não ao simplório, isso é outra coisa. Há uma distância abismal entre a simplicidade e o simplório. O ser humano sempre tende a complicar as coisas. Como disse Juan Carlos Lopes: “O difícil do tango, é fazê-lo fácil”. Isso é um mestre. Ditou rumos!

Como faz para seguir atuando por todo o mundo?

Por amor à arte, e sem poupar esforços…

Pensou alguma vez em abrir uma escola, e ter alunos?

Tenho discípulos, mas não sou um fabricante de artistas. Acabamos nos tornando íntimos, amigos e no fim, eu acabo aprendendo com eles.

Bom, então você marcou alguns caminhos e, por isso, é um mestre…

Por questões de sobriedade deveria perguntar a eles, não a mim, mas se for assim, me bajula o título de mestre.

O que acontece se sai uma carta equivocada em pleno show?

Bom, Martha Argerich, suponho eu, alguma vez já desafinou alguma nota, e nem por isso deixou de ser Martha Argerich…

E o que o fez decidir que era a hora de se aposentar?

A idade. Deve se respeitar e aceitar a etapa da vida que estás a viver. Tenho visto a decadência de muitos artista e fiquei com pena. Não quero passar por isso. Sou um homem humilde, mas tenho orgulho. Prefiro me retirar com um sete e meio, antes que o público me retire com um quatro ou cinco.

Como você vê os jovens hoje em dia, e que conselho daria a eles?
A juventude que me rodeia é de primeira linha. Tenho muitos amigos jovens que vivem em minha casa e somos bons amigos, mas certamente há de tudo. O que lhes diria é que tudo são motivações, sejam boas ou más, sejam brandas ou duras, e devem aproveitá-las. A juventude é uma enfermidade que se cura apenas com o passar dos anos.

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Pode-se fazer mais lento no dia a dia?

Creio que não. Creio que consegui o máximo nesse sentido. Por isso digo o “talvez se possa fazer mais lento”.

Encarna a sua filosofia de trabalho?

Sim, evidentemente. Uma sábia frase disse que quanto mais suave é a carícia, mais ela penetra. Eu digo que quanto mais lento o movimento, mais impacta no assombro.

Há muitos anos atrás, René Lavand modificou um clássico truque de mágica chamado “Água e Azeite”: três cartas vermelhas e três cartas negras que, dispostas alternadamente uma a uma, terminam sempre juntas, enfileiradas: vermelhas para um lado, negras para o outro. Se o lugar comum da mágica diz que é possível que coisas assim aconteçam porque a mão é mais rápida que o olho, René meteu o dedo nessa ferida e fez o contrário: exacerbou a lentidão desta composição de aparência simples e chamou essa técnica de “lentidigitação” e conquistou algo que os ilusionistas consideram uma obra de arte: a sua versão de “Água e Azeite” aqui chamada de “Não só pode fazer mais lento”, a qual, feita com uma só mão e com uma lentidão de igreja e de incensário, faz com que as três cartas negras e as três cartas vermelhas terminem magneticamente unidas entre si, uma e outra vez, e cada vez, mais devagar. Por dentro, enquanto executa o truque, René é uma máquina precisa, uma engrenagem, um centurião suando por sua vida. Por fora, o que se vê é isto: sua mão líquida, fluída, rastejante. E sua infinita graça!

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Abaixo, uma entrevista com René Lavand, dividida em três partes, em que ele conta um pouco mais da sua curiosa história:

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LINKS DAS ENTREVISTAS

http://www.lanacion.com.ar/1766593-quien-era-rene-lavand

http://www.infomagos.com.ar/entrevistas/entrevista-lavand.htm

http://www.perfil.com/espectaculos/rene-lavand-en-la-vida-todas-son-motivaciones.phtml

MAIS ENTREVISTAS

Abaixo, mais algumas entrevistas com “El Maestro”

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/02/13/actualidad/1423783014_937910.html

http://editorialorsai.com/revista/post/n4_lavand

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-dos-anos-magia-rene-lavand-20170207073438.html

http://www.notimerica.com/cultura/noticia-trucos-mas-sorprendentes-rene-lavand-20170207073937.html