MULHERES SERRADAS E PROCESSOS JUDICIAIS: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAIS FAMOSA ILUSÃO JÁ CRIADA

“Serrar uma mulher ao meio é fácil. Serrar uma mulher ao meio e grudá-la novamente é um pouco menos fácil, mas pode ser feito com alguma prática.”

Douglas Adams – Agência de Investigação Holística Dirk Gentley

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Por muitos anos o truque de serrar a assistente foi um “must have” em shows de mágica. Oficialmente esta ilusão foi apresentada ao público pela primeira vez em janeiro de 1921 por PT Selbit, em Londres. Na verdade, em dezembro de 1920 houve uma prévia para alguns agente teatrais no St. George Hall. Todos adoraram a ilusão que acabou sendo melhorada até chegarmos à versões modernas, como o clássico de David Copperfield. Fim da história, certo?

Seria, se você estivesse na Wikipedia ou lendo algum artigo ruim cujas fontes não são checadas e mesmo assim são replicadas mil vezes por aí. Este é um truque cercado de histórias e que por si só seria o suficente para contar toda a história da indústria da mágica no século XX. Neste artigo, também será corrigido um erro histórico, que nenhuma outra fonte aberta se preocupou em verificar.

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O conceito de separar as partes do corpo de um ser vivo, e restaurá-lo é antigo. Talvez o mais antigo conceito de mágica conhecido. Dedi já havia ficado famoso por separar a cabeça de um ganso e depois ligá-la de novo, sem causar danos ao animal. Mas, justiça, seja feita. Dedi se recusou a fazer este truque com uma pessoa. Séculos mais tarde, alguns livros apresentaram uma ilusão em que um corpo sem cabeça ficava sobre uma mesa, e uma cabeça – supostamente do corpo ao lado – conversava e interagia com a plateia. A ideia, portanto, de cortar alguém ao meio (ou decapitá-la), e mantê-la viva, não era exatamente uma ideia nova no mundo do ilusionismo.

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Decapitação, (que alguns chamavam de “João Batista”). Este efeito citado por Albert Hopkins foi um dos predecessores do efeito de serrar a mulher ao meio.

Diversas fontes consultadas citam que o primeiro registro de uma versão moderna desse truque foi descrita Robert-Houdin em suas memórias, em que ele cita o mágico Torrini que teria executado este efeito em 1809 para o Papa Pio VII. Contudo, este é um erro bastante grotesco. Estas fontes se basearam em um artigo da “American Heritage” (Inverno de 1994, Volume 9, nº 3) de autoria de Gary Brown. Wikipedia, Magipedia, e até alguns livros, usaram essa citação, sem se dar ao trabalho de conferir diretamente na fonte, o livro de Robert-Houdin.

Sim, Torrini se apresentou para o Papa, mas não executou a ilusão de serrar alguém ao meio (menos ainda uma mulher). Aliás sequer a pessoa era serrada ao meio. Para o pontífice Torrini executou diversos outros truques de manipulação, incluindo um especialmente desenhado para aquele evento [1].

O protótipo da ilusão de serrar alguém ao meio foi, na verdade, apresentado por Torrini para o sultão Selim III em Constantinopla, capital do Império Otomano (Robert-Houdin, “Memoirs“, cap. VII, pg. 85 a 87). Torrini pediu que dois escravos trouxessem um baú retangular e dois cavaletes utilizados para serrar madeira. Os escravos colocaram Antônio, o assistente de Torrini, dentro do caixão e pregaram a tampa. Até este momento consta que sequer o pobre Antônio sabia o que se sucederia com ele.

Torrini começou a cortar o baú quando ouviu os gritos de pavor da esposa do Sultão. Tranquilamente Torrini parou o que estava fazendo e disse a todos que não se preocupassem. Longe de sentir dor, seu assistente sentiria apenas “as mais maravilhosas sensações”. Então, seguiu cortando o baú, agora, envolto em silêncio e tensão.

Findado o corte, Torrini levantou as duas metades verticalmente, cobriu ambas com um cone de vime e este, por sua vez, com um pano preto estampado com diversos simbolos cabalísticos prateados. Foi então que Torrini começou a citar seus encantamentos e logo duas vozes distintas puderam ser ouvidas de dentro dos baús. Ao revelar o que sucedia, dois “Antônios” gêmeos e vestidos iguais, saíram de dentro dos baús, cada um de uma das metades, e os dois cumprimentaram respeitosamente o Sultão e a sua família.

Exceto pelo final em que, ao invés de dividir uma pessoa, Torrini multiplicou-a, todos os elementos clássicos do truque foram regiamente descritos por Robert-Houdin. Assim, corrigindo a informação da revista American Heritage, a primeira apresentação desse efeito não foi para o Papa, tampouco foi em 1809, mas, pelo menos, um ano antes na Turquia, para o sultão Selim III. Ah, e a pessoa não foi dividida ao meio, mas sim, multiplicada.

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Voltando ao assunto, embora Jim Steinmeyer questione a existência de Torrini (segundo ele, Torrini não passaria de um alter-ego do Robert-Houdin, no qual ele expunha seus planos e ideias), esta história prova que o conceito-base do truque já existia muito antes de Selbit. Steinmeyer cita também o livro de Albert Hopkins “Magic” em que é citado uma ilusão cômica performada por uma trupe de acrobatas/clowns chamada “Hanlon Lee Brothers”. Escreve Hopkins:

Um palhaço se joga em um sofá e é cortado ao meio por um arlequim. Uma parte do sofá, com o corpo, permanece em uma parte do palco enquanto a outra parte com as pernas e pés (os quais estão chutando vigorosamente) é levado embora pelo outro lado do palco. A  ação toda é muito rápida e o efeito surpreendente.

Albert Hopkins em “Magic: Stage Illusions and Scientific Diversions“, 1897, p. 50

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Hanlon Lee Brothers

Tanto o livro de Robert-Houdin, quanto o de Hopkins, eram conhecidos pelos principais mágicos da época. Logo, não é arriscado dizer que a ideia de Selbit não veio “do nada”; ele bebeu de fontes que o inspiraram.

O fato é que a mágica de palco naquela época, era recheada de efeitos de desaparições, transformações, levitações ou um mix desses três. Mesmo a versão de Robert-Houdin não “mutilava” o assistente, mas sim, multiplicava. A maneira como Selbit mutilava a mulher  (em certo sentido, muito mais forte do que uma decapitação) acabou criando toda uma nova categoria de mágica alçando o nome de Selbit como um dos mais importantes do século XX. [2]

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Selbit criou o número em seu estúdio, que servia também de apartamento para si. Ali o conceito e o protótipo foram criados. A primeira testemunha ocular desta ilusão foi Fred Culpitt, amigo de Selbit, em um show em seu próprio apartamento. Selbit executou o truque na mesa da cozinha de Fred, serrando a sua assistente Jan Glenrose.

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Selbit (à esq.) e sua assistente Jan Glenrose, a primeira mulher a ser serrada ao meio.

A versão apresentada por Selbit era, aos olhos modernos, bastante simplória: a mulher entrava em um “caixão” de madeira que ficava na vertical, amarrada. A tampa era fechada e ela ficava completamente escondida do público. Selbit inseria algumas lâminas de metal em duas reentrâncias na caixa: uma na altura do peito da mulher, a outra, nos seus quadris. Então, dois assistentes serravam a caixa. Selbit abria uma pequena fresta no caixão e fazia uma cara preocupada. Após alguns segundos de tensão, ele abria as tampas e a assistente saia ilesa, saudando o público. O processo todo não levava mais do quinze minutos.

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PT Selbit em sua versão original de “Serrando a mulher ao meio”

O número de Selbit despertou a atenção de Maskelyne que também apresentou sua versão do efeito (embora sem o mesmo sucesso que Selbit – vide nota [2]). Selbit licenciou alguns grupos de mágicos – nove no total para que eles excursionassem pela Europa apresentando o seu número.

O estrondoso sucesso do efeito chamou a atenção de outro mágico: Horace Goldin. Como Goldin não podia simplesmente copiar o número, acabou criando um método próprio – e melhorado – para executar este truque. Menos de 6 meses depois da apresentação de Selbit na Inglaterra, Goldin apresentou a sua versão de “Serrar a mulher ao meio” para a “Society of American Magicians” em seu banquete anual no Hotel McAlpin Hotel, Nova York em 03 de junho de 1921.

A versão de Goldin, contudo, não teve uma boa aceitação. O assistente que foi serrado era o mensageiro do hotel, o qual estava visivelmente nervoso e atrapalhado. A caixa, em que o garoto foi serrado era nitidamente grande demais, não sendo assim muito eficaz em causar a ilusão de dano ao assistente. Porém, Howard Thurston, que estava na plateia, viu potencial no truque e propôs uma parceria a Horace Goldin.

Thurston então designou Harry Jansen, um mágico e construtor de aparatos, para aprimorar ainda mais o aparato de Goldin. Jansen diminuiu o tamanho da caixa e permitindo que os pés e a cabeça da assistente ficassem à mostra para o público (a versão “clássica” que se fixou no imaginário popular).

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Howard Thurston apresentando uma versão melhorada da ilusão.

Essa nova versão foi patenteada por Goldin que autorizou – novamente assim como Selbit – autorizou que seis grupos de mágicos excursionassem pelos EUA, sob sua bandeira, apresentando o número em cidades pequenas e feiras itinerantes (um desses mágicos era o belga Servais Le Roy); Goldin, por sua vez, ficara com as cidades grandes, em especial os teatros do circuitos Keith-Orpheum, a maior rede de teatro da época. A patente requerdia por Goldin impediu que qualquer outra versão do truque, que não a de Goldin, fosse apresentada nos EUA, incluindo aí, a versão de Selbit.

Cada um dos mágicos licenciados por Goldin deu o seu toque pessoal ao número, mas o toque de Goldin foi o mais impactante: ele trazia ao palco marceneiros para que atestassem que a caixa realmente estava sendo cortada, e enfermeiras para que socorressem a assistente em caso de acidente. Goldin criou até uma cena em que um grupo de coveiros levava o “caixão” pelas ruas, até o teatro, despertando a curiosidade do público. Em outra cena, Goldin colou em uma ambulância um cartaz escrito “À disposição do teatro, em caso de acidente com serras”.

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PT Selbit obviamente acusou o golpe e processou Horace Goldin por plágio. A briga judicial foi grande e tanto Goldin como Selbit colocaram muito dinheiro na disputa (alguns dizem que praticamente todo o dinheiro ganho por eles com este novo truque foi gasto em litígios judiciais).

Goldin, alegava que havia tido uma visão sobre esse efeito ainda em 1906. O grande Leon haveria perguntado a Goldin sobre um efeito de cortar uma mulher ao meio e depois juntar as partes. Goldin mentira a Leon dizendo que ele já possuía direitos sobre um número similar. Após se despedir do amigo, foi para casa e começou imediatamente a trabalhar naquela ideia. Leon logo descobriu a mentira de Goldin e também passou a trabalhar em sua versão do efeito.

Goldin não apresentou a sua versão do efeito, até 1921, meses após a primeira apresentação oficial de Selbit. Steinmeyer menciona o óbvio: “A ideia de Horace Goldin somente surgiu após ele ouvir do sucesso de Selbit”; ainda segundo Steinmeyer: “Goldin alegou que de 1906 a 1921 não foi capaz de encontrar um produtor interessado em investir na ideia do efeito de serrar a mulher. Após uma longa espera (15 anos) decidiu ele mesmo construir e apresentar o efeito.”

Em agosto de 1921, Selbit acusa Goldin de pirataria. Em sua Defesa, Goldin reconta a história: diz que inventou o efeito em 1906, vendeu ele em 1917, passou adiante os esquemas do aparelho em 1919, que acabou fazendo seu próprio aparelho em 1920 e que apenas dois anos antes requereu a patente sobre o aparelho. A resposta de Selbit foi que ele até admitia que duas mentes separadas pudessem ter a mesma ideia, sem que uma soubesse da outra; o que lhe causava estranheza, contudo, era o fato da patente ser inteiramente igual ao modelo criado por Selbit, apresentado ao público apenas 5 meses antes”. O Grande Leon também viria a público declarar que a ideia de Goldin havia sido roubada dele.

Selbit acabou ganhando o primeiro round da disputa em um tribunal federal do Arkansas. Goldin contratacou requerendo uma ordem de restrição, impedindo que que a ilusão de Selbit fosse apresentada na mesma cidade que Horace. Em seguida Horace anexou um cartaz de 1887 em que um mágico inglês chamado “Professor Hengler” apresentara uma ilusão chamada: “Serrando uma mulher em duas”. Este cartaz foi trazido à tona por ninguém menos que Harry Houdini (que, provavelmente, a esta altura, só queria mesmo ver o circo pegar fogo).

O processo ficou parado e nesse interim Harry Jansen já havia melhorado o número o suficiente para se afastar da versão de Selbit. Quando Selbit voltou para a América, em setembro de 1921, descobriu que a versão de Goldin já havia sido patenteada e que ele não poderia impedir a apresentação do rival, pois esta já era diferente da versão inglesa do truque.

Selbit teve ainda que encarar a traição de um de seus assistentes, que vendera o segredo do truque para a Goldwyn Ltda. de Hollywood. Selbit escreveu para o estúdio, ameaçando processá-los caso o apresentassem Como não houve resposta do estúdio, Selbit acabou deixando o caso pra lá. Contudo, em 1923, a Goldwyn e anunciou o lançamento do filme sobre esta ilusão em ambos os lados do Atlântico. Novamente Selbit entrou com um processo pedindo a censura do filme, porém o juiz negou-lhe a causa, alegando que Selbit esperou muito tempo pelo processo, abrindo, assim, mão de seu direito de processar a companhia.

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Versão de Horace Goldin, considerada legítima, por haver “se afastado o suficiente” da versão de Selbit.

Em novembro de 1921 a planta da ilusão foi publicada em um livro vendido a cinco dólares. O kit completo para realizar o truqe, saia por 175 dólares.

No final das contas, Selbit acabou derrotado no processo, pois o juiz entendeu que a versão de Goldin havia “se afastado o suficiente” da versão original de Selbit, a ponto de poder ser considerado um truque próprio. Além disso, Goldin havia registrado também o nome da ilusão “Serrando a mulher ao meio”, mas também outros nomes igualmente atrativos. Selbit havia sido encurralado pelas manobras legais de Horace Goldin.

Horace apresentou seu número nos EUA com o nome “A mulher dividida ao meio”, mas ele já não era uma novidade em solo americano, além de ser menos “vistoso” que o truque de Goldin. Selbit acabou voltando para a Inglaterra triste e abatido, e com a fama  – ao menos nos EUA – de haver copiado Goldin, mito que perdura ainda hoje.

Contudo, Horace Goldin, não saiu ileso da revelação dos segredos e enfrentou nova batalha jurídica. Em 1930 ele processou a R. J. Reynolds Tobacco Company por usar a ilustração da mulher serrada em um comercial de cigarros. Goldin alegou que a propaganda entregava o segredo do efeito. O juiz negou a causa a Goldin alegando a base do truque já era conhecido de longa data (citando inclusive os livros de Hopkins e de Robert-Houdin). No fim, toda a publicidade criada em cima do efeito, o tornou menos mágico aos olhos do público.

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Propaganda que gerou o processo de Horace Goldin contra a R. J. Reynolds Tobacco Company

Com o passar dos anos, o número se aperfeiçoou ainda mais: caixas cada vez menores, transparentes e até versões sem a caixa foram criadas. Henry Blackstone Jr. criou uma versão que emulava a serra circular em uma esteira, tal qual uma serraria de madeira. Aliás, a popularização das serras rotativas trouxe um componente a mais de “terror” para o número, tornando-o um verdadeiro clássico moderno, sempre capaz de cativar e surpreender qualquer audiência.

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Francis White, presidente do “The Magic Circle” de Londres, apresentando a sua versão “improptu” da mulher serrada. A serra era emprestada.

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NOTAS

[1]

O truque que Torrini fez para o papa foi o seguinte: com a ajuda do relojeiro da cidade, Torrini conseguiu uma réplica exata de um belo e caro relógio de um importante Cardeal. Durante a apresentação para o Papa, Torrini disse precisar de um relógio para seu próximo truque e substituiu o original pela réplica. Primeiro ele deixa o relógio cair no chão, causando temores no cardeal – que não queria de jeito nenhum emprestar seu relógio. Em seguida, Torrini faz o relógio desparecer e ele reaparece no bolso das vestes do Papa.

[2]

Jim Steinmeyer escreve que Selbit teve dois grandes méritos quando do lançamento do seu truque: a época em que ele foi lançado, e o uso de uma mulher.

Segundo Steinmeyer, a década de 1910 foi marcada pela luta das mulheres por direitos, em especial pelo sufrágio feminino. Com o rompimento da Primeira Guerra, em 1914, as mulheres tiveram que deixar de protestar e passaram a ocupar o chão das fábricas, mostrando na prática, que valiam tanto quanto os homens. Com o fim da guerra, em 1919, a imagem de “inocência” da mulher já não mais cabia, e seus direitos foram automaticamentes adquiridos.

O mérito de Selbit foi conseguir capturar essa nova mentalidade ao criar seu novo efeito, mostrando o lado menos frágil das mulheres. Seus outros efeitos seguiam a mesma linha. Além de “Serrando a  mulher ao meio”, Selbit criou ainda outras ilusões donominadas: “Esmagando a mulher“,  “Destruindo a mulher“, “Esticando a mulher“, “A mulher indestrutível“. O que, a princípio pode soar como um ódio reprimido ao sexo oposto foi, na verdade, uma demonstração da força da mulher, que, desde, pelo menos, uma década antes, vinham sendo as protagonistas das mudanças na sociedade.

Longe de ser um machista ou sexista, Selbit mostrou de forma clara e didática que a mulher era forte e resistente por natureza. Clive Maskelyne, por exemplo, apresentou este mesmo efeito para o público londrino. Contudo, trocou o nome do efeito de “Serrando a mulher ao meio”, para “Matéria através da matéria“, buscando assim, manter latente as velhas (e inocentes) ideias do “conjurador e seu poder místico sobre a natureza”. Obviamente, a apresentação de Maskelyne acabou sendo um fiasco!

 

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BIBLIOGRAFIA

Magicpedia:Sawing woman in half

Wikipedia: Sawing woman in half

Site: Illusion Repository

Artigo: American Heritage Magazine 1994, Vol. 9, nº 03 – “Sawing woman in half“, de Gary Brown *

Artigo: Popular Mechanics, dez. 1958 “I call these the greatest magic illusions os all time” de Christopher Milbourne

Livro:Panorama of Magic” – Christopher Milbourne

Livro:The Last Greatest Magician in the World” – Jim Steinmeyer

Livro:Hidding the Elephant” – Jim Steinmeyer

Livro:Art & Artiffice” – Jim Steinmeyer

Livro:Secrets of the Sideshows” – Joe Nickell

Livro:Sensationalism and the Genealogy of Modernity” – Editado por Alberto Gabriele

* Lembrando, conforme já dito no texto, esse artigo possui um erro grave ao se referir erroneamente à apresentação de Torrini.

BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

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1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

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2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

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(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

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3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

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(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

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4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

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(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

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5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

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(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

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David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

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(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

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4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.